Identitarismos e luta de classes: o problema de se ignorar a hegemonia capitalista nas relações sociais

The Problems Posed by the Concrete Class Struggle and Popular Organization

Publiquei aqui o singular caso da expulsão da mestranda Beatriz Bueno do programa de Mestrado em Cultura e Territorialidades da UFF.  Comentei apenas a minha estranheza sobre a tomada de uma medida tão radical, especialmente em um tempo em que os pós-graduandos gozam quase de imunidade completa para suas eventuais impropriedades ao longo dos seus estudos, seja de Mestrado ou Doutorado.

No post inicial eu me furtei a tecer maiores comentários porque a área das relações sociais não é nem de perto o foco das minhas pesquisas, e preferi não meter a minha colher, digamos assim, em um debate no qual não tenho conhecimento suficiente.

Mas desde a eclosão do caso da expulsão de Beatriz Bueno, o que eu tenho lido e ouvido sobre as razões e objetivos do debate por ela levantado sobre a desconsideração dos pardos no acesso às políticas sociais voltadas para melhorar a posição dos não brancos na sociedade brasileira vai do alinhamento até os ataques mais virulentos possíveis.  No caso dos ataques, Beatriz Bueno é apresentada como uma espécie de Cavalo de Tróia que está sendo usado para negar os direitos historicamente negados aos brasileiros afrodescendentes.

Ao ler e ouvir o que Beatriz Bueno coloca, o que me parece surgir é uma cobrança para que se reconheça que a estrutura racial brasileira não é binomial (brancos e negros), mas que congrega um grande contingente de mestiços, os pardos, que não se reconhecem ou não são reconhecidos por um grupo ou outro.  Nesse sentido, não considero que o principal problema de Beatriz Bueno seja o de apresentador um caso sem bases teóricas que possam ser discutidas de forma racional e lógica. Afinal, o grau de mestiçagem é alto no Brasil, e já se sabe há algum tempo que existem brasileiro que não identificam com os dois grupos aos quais o debate foi concentrado nas últimas duas décadas (i.e., brancos e negros).

Então qual seria para mim o principal problema do caso apresentado por Beatriz Bueno? O mesmo problema daqueles que reduzem os problemas sociais e econômicos existentes no Brasil à questão da raça, desconsiderando um elemento que me parece essencial que é o da classe.  É que sendo o Brasil um país capitalista de caráter atrasado e dependente, não há porque se desconsiderar cabalmente a questão da classe social, já que existem milhões de brancos brasileiros que são pobres e excluídos dos direitos que são hoje garantidos, precariamente há que se enfatizar, dos não brancos.

O fato é que qualquer forma de opressão existente no capitalismo é ditada pela posição de classe do indíviduo. Assim, apenas aumentar o universo dos pleiteantes às melhorias condicionadas que o Estado entrega para reparar as distorções da forma de capitalismo vigente no Brasil não vai mudar essencialmente nada. Aliás, isto já foi claramente demonstrada pela experiência estadunidense no qual o modelo bionamial de relações raciais foi desenvolvido. 

Finalmente, há que se dizer que diante da catástrofe climática e de seus impactos mais visíveis sobre os trabalhadores, as tarefas que estão postas precisam de estratégias que mostrem a insuficiência de se manter o debate apenas no plano de que se precisa aumentar o número de pessoas sentadas na mesa do banquete capitalista. O buraco neste momento é bem mais fundo e perigoso. 

O caso de Beatriz Bueno me lembra o ditado do “no creo en brujas pero que las hay las hay”

No creo en brujas pero que las hay las hay 

Venho acompanhando o caso envolvendo agora ex-mestranda Beatriz Bueno, que acaba de ser desligada do programa de mestrado em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense por supostas violações das regras acadêmicas.  Betriz Bueno alega que, na verdade, sua exclusão dos quadros discentes da UFF se deve à rejeição do seu tema de pesquisa, que propõe uma reorientação (radical eu me arrisco a dizer) sobre como a questão das relações raciais tem sido abordadas nas últimas décadas pelas universidsades brasileiras.

Falo aqui da questão da “parditude” pelo qual Betriz Bueno parece propor uma explicitação das nuances que estão presentes na formação da população brasileira, em vez de se assumir que ela se divide basica e estritatamente entre brancos e negros.  Não vou me alongar no mérito do debate conceitual que cerca a proposição de Beatriz Bueno para conduzir sua dissertação de Mestrado, pois essa é uma área em que minha ignorância supera a minha capacidade acadêmica de afirmar algo com o necessário suporte teórico-metodológico. 

O que eu posso relatar é que este caso de exclusão tão imediata de uma discente de Mestrado em seu primeiro ano de estudos me parece algo bem singular na atual conjuntura da pós-graduação brasileira em que há uma forte leniência para com, digamos, eventuais descumprimentos e faltas por parte dos discentes. E a pena está me parecendo muito grave em relação às faltas declaradas publicamente pela própria UFF.

Agora, o que eu posso relatar é que este não é o primeiro caso que eu conheço em que um jovem pesquisador é punido por apresentar teses que destoam da linha dominante dentro de um programa de pós-graduação.  Falo isso porque alguns anos atrás encontrei um ex-aluno que me contou de forma desolada que fora surpreendido com uma reprovação da sua tese de doutorado sobre relações interpessoais dentro do comunidade LGBTQIA+ porque concluira que as mesmas formas opressivas e autoritárias que marcam os relacionamentos heterossexuais estavam presentes. O pior para este ex-aluno foi que até o dia da realização da banca examinadora não tinha recebido qualquer sinalização de problemas por parte do seu orientador  sobre a qualidade acadêmica da tese.  Em outras palavras, esse ex-aluno foi surpreendido por uma reprovação que se mostrou inapelável, o que, objetivamente, o impediu de demonstrar e tornar públicos os resultados da sua pesquisa.  O resultado final foi que este ex-aluno abandonou os estudos e se moveu para uma nova área disciplinar.

A minha expectativa é que, ao contrário, do meu ex-aluno, Beatriz Bueno não abandone o tema que escolheu para pesquisar e que ela possa acessar outro programa de pós-graduação para conduzir sua investigação dentro de um processo guiado pelo uso livre das regras do método científico. Falo isso como professor de Metodologia da Pesquisa desde 1999 no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf).  Durante todo esse tempo, o que sempre procurei apontar para os meus alunos foi que, apesar do método científico não ter nada de neutro como pretenderam os pensadores positivistas clássicos, o que deve guiar a condução de qualquer estudo científico é um compromisso com o rigor teórico máximo.  É que só assim podemos alemejar fazer a devida separação do trigo do joio, e avançar no processo de construção de um conhecimento que mereça ser chamado de científico, por mais que isso desafie as ideias eventualmente dominantes dentro de uma determinada área de estudo.

Por ora, fico com o ditado sobre as bruxas….no creo en brujas pero que las hay las hay