O agro é tudo? Pacto do agronegócio e reprimarização da economia

Este artigo, dividido em duas partes, aborda a economia agrária contemporânea do Brasil tendo em vista o processo mais geral de condicionamento do sistema econômico como um todo pelas tendências de reprimarização da economia, fortemente observáveis em seu comércio exterior. Esse processo afeta também a indústria, que tende a declinar de peso econômico ou a se limitar a funções coadjuvantes da chamada “economia do agronegócio”

pulverizacao-de-um-plantio-de-algodao-da-Fazenda-Planeste_Balsas_MA_artigo-CWPG_TBauer-1-de-1-1024x683Pulverização de agrotóxicos em plantação de algodão, em Balsas (MA). (Foto: Thomas Bauer)

Por Guilherme C. Delgado e Sergio Pereira Leite para o LeMonde Diplomatique Brasil 

O tema da reprimarização da economia requer esclarecimentos, principalmente sobre suas implicações ocultas, visto que no tratamento midiático e ideológico do sistema agrário hegemônico todo esse processo é vendido como uma espécie de sucesso incontroverso de uma entidade mágica – o “agronegócio”[1].

A abordagem do texto está dividida em dois tópicos principais, que ao final se encontram numa seção de síntese a título de conclusão. A seção inicial trata de fazer certa dissecação temporal dessa economia reprimarizada, tomando por referência o início dos anos 2000, quando se (re)articulam os mecanismos de política econômica e social tendentes a converter as exportações de commodities agrícolas e minerais em espécie de carro chefe do comércio exterior brasileiro. Essa situação se configura não apenas como política econômica convencional de governo, mas adquire status de política de Estado por duas décadas até o presente, com consequências socioeconômicas e ambientais graves, mas de certa forma interditadas ao debate público. O diagnóstico macroeconômico e ambiental desse período revela indicadores empíricos críticos que convém ressaltar até para melhor caracterizar qualitativamente o processo em curso, bem como a rápida financeirização da agricultura, convertendo ativos reais, como commodities e terra em alvo de investimentos especulativos que conferem novos significados à dinâmica dessa economia agrária nacional.

Na seção seguinte destacamos o sentido da expressão “especialização primária” no comércio externo. Ao contrário do que sugere o senso comum, essa especialização não melhora a autonomia em nossas relações econômicas externas. Antes, acentua a dependência do conjunto do sistema econômico relativamente ao setor especializado em exportações, expelindo paulatinamente todos os demais, principalmente as exportações de manufaturados.

Afora o significado da dependência econômica, que pode ser medida pelo forte crescimento do déficit em “serviços e rendas pagos ao exterior” e pela virtual expulsão das manufaturas da Balança Comercial, tais processos aumentam ainda mais o peso de meia dúzia ou pouco mais de commodities agrícolas e minerais na economia brasileira; commodities que, para gerar os valores que delas requer o ambíguo conceito de “equilíbrio externo”, combinam mecanismos de dilapidação ambiental com outros de concentração fundiária de renda e riqueza.

Esse processo de especialização primário-exportadora afeta negativamente as estratégias alternativas de desenvolvimento rural baseadas na sustentabilidade agroecológica e no combate às desigualdades socioeconômicas. Nas Considerações Finais, reservamos algumas reflexões sobre a necessidade de mudança de rumos desse sistema de especialização primário exportador antiecológico, predatório, produtor de desigualdades e gerador de dependência econômica externa.

Commodities, Comércio Exterior, Financeirização: uma revisão crítica

Nas duas últimas décadas, as transformações econômicas, sociais e políticas na paisagem agrária nacional foram particularmente marcantes, especialmente quando vistas a partir de uma perspectiva mais ampla. Ao lado de conquistas importantes, em particular durante a década de 2000 – como a criação de um conjunto inovador de políticas agrárias e alimentares diferenciadas e a redução das desigualdades sociais e da fome (indicadores que seriam rapidamente revertidos a partir de 2016) -, também assistimos a um conjunto de processos que aprofundaram as contradições estruturais da sociedade brasileira e caracterizaram um forte viés regressivo no meio rural, ainda pautado pela alta desigualdade do acesso à terra. Com efeito, os dados do Censo Agropecuário de 2017 mostram que os estabelecimentos agropecuários menores do que 10 hectares, apesar de representarem metade do total de unidades, respondiam por apenas 2,28% da área total, enquanto os estabelecimentos com 1.000 ou mais hectares eram somente 1% do número total, mas detinham 47,52% da área (IBGE, 2019)[2].

Nesta seção, revisitaremos rapidamente esse quadro privilegiando dois aspectos: a expansão da produção de commodities e suas implicações no comércio exterior, bem como a intensidade do processo de financeirização do campo.

Especialização Primário-Exportadora e o Modelo de Expansão da Produção Agrícola

Como destacam Flexor, Kato e Leite (2022: 11)[3], “a dinâmica econômica global caracterizada pelo vigoroso crescimento econômico dos países em desenvolvimento, a expansão do comércio e a baixa inflação global tiveram um efeito significativo sobre o padrão de comércio brasileiro. Em particular, a ascensão da China à condição de potência econômica global impactou as relações comerciais brasileiras. […] em duas décadas o país passou a ser o principal mercado para as exportações brasileiras que, entre 2000 e 2020, teve seu valor aumentado em 6.048%, passando de um pouco mais de US$ 1,08 bilhões para mais de US$ 67,68 bilhões. A China, que representava o destino de somente 1,97% do valor total das exportações brasileiras em 2000, correspondia a quase um terço (32,40%) deste em 2020. As importações de produtos chineses seguiram trajetória semelhante. Em 2020, chegaram a US$ 34,77 bilhões, isto é 21,9% do valor total importado, representando um aumento de 2.752% em 20 anos”.

FIGURA 1 – PRINCIPAIS SETORES EXPORTADORES E OS RESPECTIVOS VALORES DAS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS EM 2020 – EM US$ BILHÕES FOB

Fonte: ComexStat (2020). Apud Flexor et al. (2022: 13)
Fonte: ComexStat (2020). Apud Flexor et al. (2022: 13)

Essa concentração no mercado chinês foi ainda acompanhada por uma mudança radical na estrutura das exportações brasileiras, visto que até 2000 ainda era relativamente diversificada a pauta de comércio exterior, que vai dando lugar ao predomínio dos produtos básicos ao longo de 20 anos. Como exemplifica a Figura 1, a soja, o minério de ferro e o petróleo integram esse maior peso das exportações de bens primários intensivos em recursos naturais e o concomitante crescimento relativo das importações de produtos manufaturados. Como informado pela Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), a partir de 2018 o Brasil volta a contar com mais de 50% das suas exportações baseadas em produtos básicos, após décadas e décadas de diversificação da corrente de comércio externo.

O caso da soja merece destaque. Em 2000, o valor das exportações da cadeia oleaginosa representava 5% do valor total exportado pelo Brasil, passando para 16,8% em 2020, explicado pelo aumento expressivo das importações chinesas, que representavam mais de 70% do valor total de soja exportada pelo Brasil neste último ano. O mesmo aconteceria com o minério de ferro. É importante sublinhar que o setor rural (incorporando os setores industriais adjacentes) tem mantido uma performance superavitária na sua corrente de comércio ao longo do período aqui analisado, como atesta a Figura 2. Enquanto a balança comercial geral alternou momentos deficitários e momentos timidamente superavitários, a balança do “macro setor agrícola” abriu importante diferença entre exportações e importações, corroborando o processo de reprimarização da pauta de exportações[4].

FIGURA 2 – BALANÇA COMERCIAL DO “MACRO SETOR AGRÍCOLA” (EXPORTAÇÕES, IMPORTAÇÕES E SALDO) – 2000/2020 (EM US$ FOB)

Fonte: SECEX (vários anos). Apud Flexor et al. (2022: 15)
Fonte: SECEX (vários anos). Apud Flexor et al. (2022: 15)

O aumento dos preços das commodities e sua capacidade de geração de divisas levaram Maristela Svampa a caracterizar o período como o “Consenso das Commodities”[5], em contraste com o “Consenso de Washington”, cunhado para retratar o ajustamento estrutural das economias latino-americanas. Esse ciclo impactou diretamente o uso de recursos naturais, em particular a terra, pressionando seus custos, assim como áreas destinadas à preservação do meio ambiente e aquelas objeto da posse de populações originárias, em particular nos biomas da Amazônia e do cerrado, abrindo espaço para novas disputas territoriais fartamente noticiadas pela imprensa. Outro efeito do mesmo movimento é a diminuição da área destinada ao plantio das culturas alimentares, em particular aquelas que integram a cesta básica e são comercializadas em âmbito local e/ou regional. Como demonstram Flexor et al. (2022), arroz e feijão perderam terreno consideravelmente nesses vinte anos, o que foi relativamente compensado pelo aumento da produtividade em determinados anos. Resultado dessa equação é o encarecimento dos preços dos bens que integram a alimentação de boa parte da população e o retorno impressionante da fome no país, associado ao desmonte de políticas agroalimentares nos últimos cinco anos. Dados produzidos pela Rede PENSSAN informam que praticamente 60% da população brasileira encontra-se atualmente no grupo de insegurança alimentar, sendo 33 milhões de pessoas na categoria de insegurança alimentar grave[6].

 

Guilherme C. Delgado é pesquisador aposentado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e membro da Direção Colegiada da Associação Brasileira de Reforma Agrária.

Sergio Pereira Leite é professor Titular do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

[1] Sobre uma discussão mais aprofundada a respeito do emprego e do significado do termo “agronegócio”, ver DELGADO, G. 2012. Do capital financeiro na agricultura à economia do agronegócio: mudanças cíclicas em meio século (1965-2012). Porto Alegre: Ed. UFRGS, 142 p.; e HEREDIA, B.; PALMEIRA, M.; LEITE, S.P. 2010. Sociedade e economia do agronegócio no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 25 (74): 159-196.

[2] Ver INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2019. Censo Agropecuário 2017. Rio de Janeiro: IBGE.

[3] FLEXOR, G.; KATO, K.; LEITE, S.P. 2022. Transformações na agricultura brasileira e os desafios para a segurança alimentar e nutricional no século XXI. Textos para Discussão, 82. Rio de Janeiro: Fiocruz. (Projeto Saúde Amanhã).

[4] Cf. FLEXOR, G. et al., 2022. Op. cit.

[5] SVAMPA, M. 2013. Consenso de los commodities y lenguajes de valoración en America Latina. Nueva Sociedad, no. 244 (30:46), mar/abr.

[6] REDE BRASILEIRA DE PESQUISA EM SOBERANIA E SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL (Rede PENSSAN). 2022. II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid 19 no Brasil – II VIGISAN: Relatório Final. São Paulo, SP: Fundação Friedrich Ebert, Rede PENSSAN.


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Este texto foi originalmente publicado pelo LeMonde Diplomatique Brasil [Aqui!].

Os problemas do Brasil vão muito além de Jair Bolsonaro

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A votação da chamada PEC do Voto Impresso (eu prefiro chamá-lo de PEC do voto de cabresto) mostrou que os problemas que o Brasil enfrenta para alcançar um nível mínimo de justiça social vão muito além do presidente Jair Bolsonaro. É que, as estas alturas do campeonato, termos 229 deputados a favor do voto impresso sinaliza que há mesmo que Bolsonaro seja despejado da cadeira que ocupa, o “bolsonarismo” continuará forte, com tentáculos em partidos que se dizem pró-democracia como o MDB e o PSDB.

Além disso, um rápido exame das bancadas estaduais me mostrou que em estados como Rondônia e Santa Catarina, a quantidade de votos a favor do voto impresso revela que a disposição de recolocar o eleitor brasileiro em cabrestões eleitorais é grande. Aliás, no caso de Rondônia toda a bancada votou a favor do voto impresso. Como conheci relativamente aquele estado, eu só posso entender que as tendências de controle do eleitorado que sempre estiveram presentes, agora avançaram algumas casas. Assim, não chega a ser surpreendente que Rondônia seja um dos estados campeões em desmatamento e invasões de terras públicas. Com uma bancada dessas, como esperar que haja qualquer esforço para que se cumpra as leis ambientais? 

Há ainda que se lembrar que no mesmo dia em que se derrotou o voto impresso por pequena margem (afinal só faltaram 79 votos para que seja excrescência fosse aprovada, a Câmara de Deputados aprovou por 304 a 133, o texto-base da Medida Provisória 1.045/21, também chamada de minirreforma trabalhista, que criou uma modalidade de emprego em que não há contrato na qual o trabalhador fica desprovido de direitos, no mínimo por dois anos. Além disso, essa mesma legislação irá dificultar o acompanhamento e repressão do trabalho escravo. Tal fato irá com toda certeza aumentar o número de trabalhadores escravos, pois na falta de contrato, como verificar se direitos estão sendo violados. 

A questão aqui é que o atual congresso, eleito na esteira das fake news que mancharam as eleições de 2018, reflete uma tendência de precarizar profundamente as relações de trabalho no Brasil, refletindo um movimento que vai muito além da figura caricata de Jair Bolsonaro. O que temos diante de nós são passados avançados no aprofundamento da reprimarização da economia brasileira, motivo pela qual se aposta em uma precarização das condições de vida dos trabalhadores brasileiros.

Se não entendermos essa situação particular do Brasil em um contexto de crise aguda do sistema capitalista, podemos correr o risco de aceitarmos o rebaixamento da pauta política que deverá nos orientar nas eleições que deverão ocorrer em 2022, em nome de uma suposta frente ampla contra Jair Bolsonaro. A questão aqui é que se essa opção for feita, o foco será centrado apenas no presidente da república, deixando livres as forças reacionárias que se servem dele para regredir direitos e precarizar as condições de vida dos brasileiros.

Com sinais preocupantes, dependência externa desnuda-se em 2013

Por Guilherme C. Delgado

dependencia

A especialização primária com desindustrialização no comércio externo, acrescida de uma situação estruturalmente deficitária nas transações com “Serviços”, caminha para fechar o ano de 2013 com déficit na faixa de 75 a 80 bilhões de dólares, algo como 3,5% do PIB. Essa situação vem se deteriorando desde 2008, por meio de dois agravantes: 1) o déficit da conta de “Serviços” não para de crescer, pulando dos 50 para a faixa dos 75 bilhões de dólares do período Lula para o período Dilma, enquanto no início da década dos anos 2000 (segundo governo FHC) se situara no patamar dos 25 bilhões de dólares; 2) em adição a esse desequilíbrio estrutural, o comércio exterior de manufaturados sofre o efeito da ‘desindustrialização’, ou seja, crescentemente deixamos de exportar manufaturados para importá-los. Estima-se em 100 bilhões de dólares o déficit comercial dos manufaturados ao longo do ano de 2013

Essa situação de déficits seguidos e crescentes nas transações externas está bem documentada empiricamente, já não pode ser escondida mediante discurso escapista, mas precisa ser interpretada. É algo assim como o diagnóstico de uma aurora ou de um ocaso, que o observador experiente não confundirá, bastando saber ler a posição do Sol e a disposição dos raios solares. Mas identificados objetivamente os sinais do tempo e constatada a presença de uma aurora ou de um ocaso (independente da posição ideológica do observador), variam enormemente os significados do tempo sobre o devir, na percepção e avaliação dos sujeitos observadores.

Dois fenômenos também fartamente documentados do ponto de vista empírico se cruzaram neste ano corrente: a forte concentração de bens primários na exportação (‘reprimarização’ do comércio externo) e a fuga dos produtos manufaturados das exportações, trocando de posição para as importações – a desindustrialização das exportações. E pela primeira vez desde 1995-99, quando a Balança Comercial foi seguidamente negativa, poderemos ter uma situação similar em 2013.

 Mas a conta da moeda estrangeira não fecha somente com comércio de mercadorias, daí porque o tamanho do déficit de Serviços torna-se preocupante, porque precisa ser financiado com recursos externos. Esses recursos externos (capitais estrangeiros) acumulam-se na economia, gerando passivos externos, principalmente as rendas do capital, geradoras de novos déficits na Conta de Serviços. Essa bola de neve, quando claramente insolvente, caminha para uma crise cambial, como a que tivemos em 1999.

A solução para a crise externa de l999, que foi a de conduzir o sistema econômico para a via primário-exportadora, seguida de seu irmão siamês, qual seja, a desindustrialização do comércio externo, não resolve o desequilíbrio externo. Isto agora está meridianamente claro. O problema maior está na leitura que o sistema conservador ora faz do sentido de sair da crise cambial que se desenharia, com a repetição do último triênio (2010/2013) por mais outro. Parece que se volta a apostar no aprofundamento da exploração das “commodities’ do setor primário, especialmente do petróleo, cujos ritmos de produção precisariam experimentar superexploração em médio prazo para dar solvência à dependência externa.

A conjuntura atual desenha certa reversão cíclica dos preços externos de produtos minerais, exceto petróleo, agrícolas e pecuários, algo que é normal na história econômica, mas que virou um problema fundamental para a economia brasileira, dado o caminho estruturado na última década.

Temos algum tempo para resolver os dilemas do presente. A eleição de 2014 não será igual à de 1998, quando a mídia sistematicamente escondeu a crise cambial para não prejudicar a reeleição do presidente Fernando Henrique. Agora ao contrário, tenta-se forjar uma crise cambial iminente, que não é verdadeira. Mas é infelizmente uma meia-verdade, tecida pelo casamento infeliz da ‘reprimarização’ com a desindustrialização do comércio externo, processos que não são apenas fenômenos empíricos, mas estruturas perversas da economia política do subdesenvolvimento, recuperadas depois de 1999, mas que precisam ser reformadas em profundidade.

FONTE: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9156:manchete121213&catid=72:imagens-rolantes

Esperança de Mudanças

Por Paulo Passarinho

 A necessidade de mudanças é um desejo alimentado hoje pela maioria da população brasileira. Além das gigantescas manifestações populares que tomaram as ruas do país, em paralelo à realização da Copa das Confederações, em junho passado, recente pesquisa do Instituto Datafolha indica que 2/3 dos entrevistados se mostraram defensores de mudanças. De acordo com as perguntas apresentadas pelos pesquisadores do Instituto, 66% dos que foram ouvidos optaram pela afirmação “é melhor que o próximo presidente adote ações na maior parte diferentes das de Dilma”.

Ao mesmo tempo, Dilma, como presidente, tem o seu governo aprovado por 41% dos pesquisados, recuperando-se da queda identificada em sua popularidade, logo após as “jornadas de junho”. Este mesmo índice de aprovação foi também observado nos municípios com mais de 500 mil habitantes, onde o apoio de Dilma havia sofrido o seu maior desgaste.

Como explicar a aparente contradição desses números? Como entender uma pesquisa que indica ao mesmo tempo, relativo apoio à presidente de plantão e a defesa de mudanças por 2/3 do universo dos pesquisados?

Sempre poderemos levantar problemas em relação à metodologia das pesquisas ou, mais grave, em relação às intenções subjacentes daqueles que as financiam e as divulgam. Sabemos, também, que nesta altura dos acontecimentos, esses resultados que indicam popularidade dos atuais governantes, ou indicações de voto em possíveis candidatos, acabam sendo muito mais úteis para os articuladores de alianças e candidaturas aos cargos em disputa nas eleições do ano que vem. Por isso, todo o cuidado é pouco para qualquer análise que se tente fazer, a partir desses números.

Mesmo levando em conta essa realidade, farei uma tentativa de responder às perguntas assinaladas acima. E o que me inspira é a novidade do recente lançamento de mais um pré-candidato à presidência da República, o senador Randolfe Rodrigues, do PSOL.

Afinal, já me manifestei com relação aos principais nomes que vêm sendo apontados como possíveis candidatos para a eleição do ano que vem. Sem muita esperança de novidades – ou mudanças – dei a minha opinião de que não passam de candidatos ao cargo de gerente de um modelo que já está definido, por bancos e multinacionais. Objetivamente, especialmente em relação ao modelo econômico em curso, que mudanças poderemos esperar, com nomes como Dilma, Aécio ou Eduardo Campos? Ou mesmo com Lula, Serra ou Marina, as respectivas “sombras” dos três primeiros?

Um caminho para entender a aparente contradição dos números desta pesquisa do Datafolha é perceber que, na defesa de mudanças, a partir da frase escolhida pelos entrevistados, o que está assinalado é que há uma expectativa que o próximo presidente adote ações na maior parte diferentes das de Dilma. “Na maior parte” deve ser entendida apenas como a necessidade de se manter alguma coisa que vem justamente do atual governo. Considerando o apoio que Dilma teve e tem das parcelas mais pobres da população, podemos concluir que são as iniciativas e programas voltados aos mais pobres o que deveria ser mantido. O Bolsa-Família, a política de reajustes reais do salário-mínimo e os mecanismos de crédito extensivos aos mais pobres são exemplos que certamente, no plano econômico, se enquadrariam nesta hipótese.

Contudo, no debate entre Dilma e os presidenciáveis do PSDB e do PSB, o rumo da conversa é outro. O debate está se dando sobre quem melhor poderia gerenciar o tripé macroeconômico – juros altos, câmbio flutuante e superávit primário. Dilma se defende como uma boa “gestora” do tripé e sofre pesado ataque da oposição de direita, que a acusa de “maquiar” as contas públicas e ser leniente frente à necessidade de um maior rigor fiscal. Sinceramente, um “papo prá boi dormir”.

Mas a oposição de direita, em particular os tucanos e os analistas da mídia dominante, vão mais à frente nas críticas. Acusam Dilma de ser uma “desenvolvimentista”, aproveitando-se da ignorância quase geral do que isso poderia significar e também da confusão, provocada pelo próprio lulismo, em relação a esse termo adjetivo. A confusão teórica é de tal monta que até mesmo correntes que se autodefinem como da esquerda socialista ou revolucionária, também incorrem nesse tipo de erro. Conforme é de amplo conhecimento, os neopetistas, abraçados ao modelo dos bancos e das multinacionais, procuram se autodiferenciar dos tucanos assumindo – de forma inteiramente falsa – que seriam desenvolvimentistas. Não sem razão, Lula por mais de uma vez tentou se comparar a JK, por exemplo.

Não vou me alongar neste ponto, mas para melhor conhecer de fato o que significa na literatura internacional o nacional-desenvolvimentismo e, em especial, a tentativa de tradução dessa experiência para o Brasil, recomendo a leitura do último livro de Reinaldo Gonçalves, Desenvolvimento às Avessas – verdade, má fé e ilusão no atual modelo brasileiro de desenvolvimento (LTC Editora Ltda.). Neste livro, Reinaldo – que é professor titular de Economia da UFRJ – resgata as experiências históricas do nacional-desenvolvimentismo (EUA e Alemanha), as comparam com experiências latino-americanas do século passado, entre as quais a brasileira (para o autor, “cópias infiéis” do nacional desenvolvimentismo original) e desmonta por completo a ideia de qualquer traço desenvolvimentista do atual modelo brasileiro.

Mas, por que agora essa pré-candidatura do PSOL me anima. Porque, finalmente, parece que teremos um candidato que assume uma proposta de fato diferente à mesmice dos tucanos ou da mixórdia de partidos que sustentam o lulismo e a sua candidata à reeleição.

Andei olhando a página do pré-candidato e o seu bordão é sugestivo, especialmente para um senador que vem do Amapá: “Um norte para o Brasil popular e socialista”. Em uma carta “ao PSOL e aos que sonham com mudanças”, o pré-candidato afirma que “as candidaturas até agora apresentadas para o pleito do ano que vem representam, mesmo que com matizes diferenciadas, a continuidade do modelo econômico e de sociedade vigentes. Por caminhos diferentes essas candidaturas defendem a manutenção do superávit primário, o pagamento religioso da dívida pública, a continuidade da ciranda financeira, o modelo depredador de crescimento econômico e a criminalização dos movimentos sociais. Não representam o desejo das ruas e não promoverão as mudanças requeridas”. Mais direto, impossível.

Continuando, o jovem senador procura resgatar a nossa própria história: “esse sentimento de mudança relembra que há 50 anos, no Comício da Central do Brasil, eram propostas reformas de base, como a melhoria dos serviços públicos, a garantia da reforma agrária, a garantia da soberania nacional e das nossas riquezas. As referidas reformas foram abandonadas pelos líderes do golpe civil-militar de 1964 e não foram retomadas pelos governos civis que os sucederam. Manteve-se o desenvolvimento desigual, a concentração de renda e das terras, a exclusão de milhões de brasileiros do acesso aos mais elementares direitos sociais. O caminho escolhido foi de manter o modelo e somente mitigar os seus efeitos com programas assistenciais. Estamos vivenciando uma reprimarização da nossa economia, com a expansão da fronteira agrícola e crescente desrespeito e ataques aos povos indígenas e quilombolas.”

Não há dúvidas, portanto, que poderemos ter esperança de mudanças, em relação ao conservadorismo das pré-candidaturas até agora colocadas para a disputa presidencial. Afinal, o discurso de Randolfe Rodrigues aponta para o debate que é substantivo: a necessidade de alteração completa do modelo econômico, social e político que está em curso no Brasil, desde os anos 1990.

Paulo Passarinho é economista e apresentador do programa de rádio Faixa Livre.

FONTE: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9146:submanchete061213&catid=72:imagens-rolantes