Roda de Conversa e lançamento de livro: Baía de Guanabara – Descaso e Resistência: a visão da sociedade civil, movimentos sociais e academia

roda de conversa

O movimento Baía Viva, Fórum dos atingidos pela Indústria do Petróleo e Petroquímica nas cercanias da Baía de Guanabara (FAPP-BG), Ibase,Casa Fluminense e Fundação Heinrich Böll Brasil convidam todas e todos para a atividade “Baía de Guanabara – Descaso e Resistência: a visão da sociedade civil, movimentos sociais e academia,” parte da Jornada De Lutas Contra Rio 2016, Os Jogos Da Exclusão.

Nossa ação combinará cultura e uma roda de conversa para refletirmos sobre as ameaças ao paraíso que é a Baía de Guanabara, revelando as violações de direitos que sofrem as populações de seu entorno, mas buscando evidenciar propostas de soluções para despoluição.

Na ocasião teremos um relançamento do livro “Baía de Guanabara – descaso e resistência,” editado pela Fundação Heinrich Böll Brasil e Mórula, com a presença do autor Emanuel Alencar.

Programação:
9:30h – Abertura – Performance cultural

10:00h – Roda de Conversa
Moderação: Henrique Silveira – Casa Fluminense e Nahyda Franca – Ibase
Palestrantes:
Emanuel Alencar – jornalista e autor do livro “Baía de Guanabara – descaso e resistência”
Roberta Alves (Docinho) – ACEX – Associação Carioca de Catadores e Ex-catadores – Jardim Gramacho/D. de Caxias
Sérgio Ricardo Verde – Movimento Baía Viva
Sebastião Raulino – FAPP
Breno Herrera – Pesquisador Lieas – UFRJ, analista ambiental ICMBio
Além de outros participantes a confirmar

11:00h – Debate

12:00h – Performance e lanche de encerramento

A atividade acontece na sala 303 A do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, Largo do São Francico, 1. 

Feliz 2016? Só com luta e organização

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Chegando ao final de 2015 e analisando todo o conhecimento que este blog me proporcionou não posso deixar de oferecer a minha última reflexão para os leitores que me acompanharam por aqui. 

Sei que chegamos sempre ao último dia de cada ano com a expectativa de que o futuro será diferente, não importando quanto de racionalização sobre quão cliché isso possa parecer. O problema é que o futuro não se constrói sozinho, mas sim com uma intervenção direta sobre a realidade que nos envolve. 

Olhando para a situação atual do Brasil e do mundo é quase certo que teremos um ano de 2016 muito complicado para os trabalhadores e a juventude. A situação da economia mundial nos aponta um quadro generalizado de ataques que visam regredir direitos sociais e empurrar uma agenda privatizadora que aumentará ainda mais a concentração da riqueza.

Resistir a este processo no plano nacional exigirá muita disposição e energia para enfrentar a repressão que certamente acompanhará qualquer tentativa de resistência. Entretanto, como mostraram os estudantes secundaristas de São Paulo e de Goiás, resistir é a única saída para conter a barbárie que governos que se dizem de direita e de esquerda estão impondo de forma cotidiana sob a pretensão de gerar desenvolvimento e estabilidade social.

Uma última palavra vai para os habitantes do V Distrito  de São João da Barra (RJ) e das cidades que foram atingidas pelo TsuLama da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) que em 2015 sentiram o peso extremo do modelo de recolonização do Brasil por meio do modelo Neoextrativista (ou Neodsenvolvimentista).  Este espaço continuará tratando das diferentes facetas deste modelo que só traz desgraças e destruição, e apontando para a busca de soluções que efetivamente ajudem a construir um futuro melhor para os trabalhadores e a juventude.

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Estudantes de São Paulo mostram que é possível derrotar os inimigos do futuro

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A lacônica decisão do lacônico governador de São Paulo, José Geraldo Alckmin (PSDB), de que iria suspender o seu plano de fechar inicialmente 92 escolas estaduais em nome de uma suposta reorganização de turmas é mostra cabal de que as forças que lutam por um futuro melhor podem sim sair vencedoras em embates marcadas pela desigualdade no uso da violência.

Já na semana passada dei uma entrevista a um programa de TV no Rio de Janeiro onde expressava a minha visão de que os estudantes de São Paulo estavam dando uma verdadeira lição cívica de como resistir aos desmandos de governos de matriz neoliberal (independente do partido a que estejam afiliados) que hoje promovem uma verdadeira guerra à educação pública no Brasil.

A questão da defesa da educação pública é essencial para que possamos ter qualquer possibilidade de oferecer um modelo alternativo de desenvolvimento econômico aos brasileiros, e os estudantes paulistas e as famílias que abraçaram o movimento que deve estar tirando o sono de muita gente. É que enquanto em Brasília fica-se num debate estéril de tirar ou não tirar Dilma Rousseff do cargo de presidente da república para a qual foi eleita,  no Brasil real o que está se vendo são os trabalhadores e a juventude agindo para impedir ainda mais retrocessos em direitos sociais que foram duramente conquistados ao longo do tempo.

Por isso, como diz o cartaz que a sorridente estudante mostra na imagem abaixo, Alckmin que reorganize o seu governo, antes que tenha que sair correndo do palácio.

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A(u)to de resistência

Por Walace Cestari

Devido a ter retornado faz pouco do exterior, pensei em escrever exatamente sobre o tema, de forma a desconstruir aquela ideia de as coisas erradas acontecerem “só no Brasil” – opinião compartilhada por muitos brasileiros. Claro que a comparação teria ares de galhofa, já que visitei a Itália, considerada o Brasil da Europa. No entanto, este texto mais leve e até bem humorado não teve espaço na minha indignação diária ao voltar à terra brasilis.

Falaria sobre os problemas italianos, sobre a existência de pobreza em suas ruas, sobre os milhares de imigrantes do norte da África, sobre o clima tenso que aguarda ataques terroristas do Estado Islâmico, sobre a onipresença do primeiro-ministro Matteo Renzi na tevê – opinando desde política internacional à culinária, sobre a rejeição popular de Berlusconi, enfim, em tudo aquilo que a Itália teria muito de Brasil e vice-versa.

Mas, não coube no poema. Nenhum jornal de lá noticiou a morte de crianças pela polícia. Lá, estão em guerra contra o terrorismo. Aqui, ao chegar, descobri que também estamos em guerra. Contra nós mesmos. Os capitães-do-mato continuam a caçar os negros fugidos. Ou forros. Porque de há muito não são livres.

Queria falar de outra coisa, mas vi uma criança que brincava ser morta. Quando brincava. Porque brincava. Estava no lugar errado. E tinha a cor errada. Pobre, preto e correndo. Auto de resistência. De repente, a história dava conta de que eram traficantes. Assim, do nada, viraram bandidos na crônica policial. Negros perigosos. A farda causa repulsa. A mentira é a mãe da corporação. Condenados pelo tribunal imediato dos feitores. Executados pela mão estúpida do Estado. O braço da lei tem a frouxidão moral de seus dirigentes.

E tudo seria exatamente a farsa que se montou não fosse o fato de que a vítima do homicídio gravasse a própria morte. Quantos outros não tiveram a mesma “sorte”? Querem que alguém acredite mesmo que seja este um caso isolado? Há pouco falava-se da morte de uma menina, atingida dentro do seu carro por um projétil de fuzil, disparado por um policial em perseguição.

Não é caso para apenas prender os marginais de farda que, em lugar de proteger a população, são convencidos pela política de guerra a caçar negros nas comunidades carentes. É bem mais que isso. Fosse um país sério, o secretário de segurança teria, envergonhadamente, pedido para sair. Era caso para o governador pensar em renunciar. Sua polícia matou uma criança que brincava. Quando brincava. Porque brincava.

O sangue vermelho escorre pela pele preta nos guetos onde a guerra é declarada. O daltonismo social só enxerga a violência na cor branca de cachos dourados. Sem dúbios vestidos. Sem truques de imagem. Sem brilho. Só o que somos. Temos nas ruas uma corporação que é uma verdadeira fábrica de defuntos. Uma instituição que serve para matar pretos pobres. Temos feitores de farda fingindo-se de policiais.

Queria falar que não estamos tão distantes da Itália. De repente, a realidade colocou-se como um oceano que nos separa. Lá não estão matando suas crianças. Aqui estamos em guerra contra nós mesmos. Chega! É preciso um basta. A polícia militar é um anacronismo, um câncer para a sociedade. Parem com a guerra. Pois não estamos em guerra. Deitem-se as fardas. Chega do militarismo ceifador de vidas. Rio, São Paulo, Brasília. Chega de feitores. Estão matando crianças. Estão cobrando de garotos de 12 anos que “morram com dignidade”. Sem socorro. Sem justiça. São os policiais militares os próprios “vagabundos” que pensam combater.

Queria falar do aniversário da cidade. Dos 450 tons de exploração imobiliária. Do quase meio milênio de desrespeito à natureza, de predação e de vilipêndio às nossas riquezas. Queria falar de vigas que somem, do cinismo do prefeito, das obras superfaturadas, dos equívocos diários que fazem da cidade ser pior, mas que jamais abalam a alma do carioca. Contudo, a alma turvou-se. A polícia do Rio de Janeiro matou uma criança que brincava. Quando brincava. Porque brincava.

Em um país de judiciário falido e vendido, em que magistrados autodeificados prostituem-se tomando para si bens dos réus ricos em troca – quiçá – de penas leves; em um lugar em que a mídia esconde a corrupção de uns e alimenta a de outros; em um momento em que os defensores da democracia se organizam contra ela, em tentativa de terceiro turno; em meio a todas as crises econômicas, morais, éticas… Em meio a toda subserviência do poder ao capital, ao financismo, à especulação… Em meio às nossas chagas, a polícia matou uma criança que brincava. Quando brincava. Porque brincava.

Queria que fosse diferente. Sobra-me tão somente o ato de resistência de pôr a pena a serviço do fim da pena. Chega de autos de resistência. Chega de mortes estúpidas. Chega de polícia militar. Não consigo parar de pensar: mataram uma criança que brincava. Quando brincava. E porque brincava.

FONTE: https://transversos.wordpress.com/2015/03/01/auto-de-resistencia/

Uma chance de prestar solidariedade ativa à resistência dos agricultores no V Distrito

IMG_2103Nos últimos cinco anos me acostumei com as idas e vindas da Dona Noêmia Magalhães em sua teimosa resistência contra as injustiças cometidas contra os agricultores familiares do V Distrito de São João da Barra. De lá para cá, pude visitar incontáveis vezes o agora famoso “Sítio do Birica” que se transformou num oásis para os agricultores que tiveram suas propriedades tomadas, e mesmo para os animais silvestres que foram expulsos pela massiva devastação da maior faixa contínua de vegetação de restinga que existia no Brasil até a implantação do Porto do Açu.

Pois bem, agora se apresenta uma excelente oportunidade de prestar solidariedade à Dona Noêmia e os projetos que ela continua tentando transformar em realidade, apesar de todas as tentativas de coação e intimidação que ocorreram desde que ela se transformou numa das lideranças da resistência organizada pela ASPRIM no V Distrito de São João da Barra.

É que, como mostra o convite abaixo, no próximo domingo (08/02) o Sítio do Birica será palco de um almoço para arrecadação de fundos para a continuidade dos projetos idealizados para acontecer no Sítio do Birica. Os interessados em participar da atividade podem entrar em contato comigo através do endereço do blog que eu passarei as informações sobre como entrar em contato com a Dona Noêmia.

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“Somos homens do Mar”: a resistência dos pescadores artesanais na Baía de Guanabara

Alexandre Anderson na Universidade Federal Fluminense, outubro 2014. Foto de Grettel Navas.

Alexandre Anderson na Universidade Federal Fluminense, outubro 2014. Foto de Grettel Navas.

Por Grettel V. Navas, da ALBA SUD, na Adital

No sábado, 11 de outubro, tive a oportunidade de conversar com Alexandre Anderson, pescador, fundador e atual presidente da Associação Homens e Mulheres do Mar (Ahomar), organização de 1.870 pescadores e pescadoras da Baía de Guanabara, no Estado do Rio de Janeiro. Desde o ano 2000, ele lidera uma luta contra a contaminação e os efeitos negativos das construções da empresa de capital brasileiro Petrobras, entre os que se destaca o Complexo Petroquímico no município de Itaboraí (a 25 quilômetros da Baía).

“Somos ativistas forçados, resistimos ou morremos”

Da cidade do Rio de Janeiro cruzamos a Baía de Guanabara e chegamos a Niterói, onde Alexandre se refugia com sua família (esposa, filhos e neto) em um apartamento pago pelo governo federal. Esta situação é resultado das inúmeras ameaças de morte e seis atentados que recebeu nos últimos anos. Entre 2009 e 2013, Alexandre viveu sob o Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, que lhe permitia ter uma escolta 24 horas por dia para garantir sua segurança. Porém, esse formato não é suficiente, pois, mesmo estando sob custódia do Programa, sofreu vários atentados com armas de fogo, que atingiram diretamente seu corpo e o barco no qual viajava. Por essa razão, desde o ano passado, ele se encontra em “situação de exílio”, o que implica em ter que mudar de residência de tempos em tempos pelo Estado, para desviar a atenção daqueles que pagariam por sua vida e, assim, encerrar sua militância contra a empresa Petrobras.

Essa situação, além de perturbar sua família pela mudança constante de residência ou a distancia de Magé, da praia, seu lugar de pesca e da luta, que se deram com os outros e as outras pescadoras. Como teme por sua vida e pela de sua família, Alexandre decidiu realizar uma militância diferente e aumentar a voz dos pescadores tanto no Brasil como no mundo inteiro. Contar a história da Ahomar e gritá-la pelo mundo em diferentes espaços (acadêmicos, organismos internacionais, fundações, congressos…) é importante para ele, na medida em que possa fazer um chamado à comunidade internacional para condenar as ações a que os e as pescadoras da Baía de Guanabara estão expostos, pelo simples fato de resistir e lutar para manter seus modos de vida. Sua exposição internacional o tem levado a receber asilo político por parte da Holanda, Alemanha, Irlanda e Itália.

Crédito Fotografia: Ahomar

Crédito Fotografia: Ahomar, O custo socioambiental do crescimento econômico brasileiro

Em 2007, quando o presidente Lula da Silva estava no poder, o governo brasileiro inaugurou o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), que consiste, entre outras coisas, em aumentar o investimento em infraestrutura para a extração de gás e petróleo. Dentro do PAC se encontra a construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), que compreende 4.500 hectares, o qual, segundo a documentação do caso no Mapa de conflitos envolvendo injustiça ambiental e saúde no Brasil, terá um investimento de 21 milhões de dólares americanos e tem como objetivo aumentar a capacidade da refinaria da Petrobras e, assim, atender ao aumento da demanda brasileira com outros derivados, como diesel, nafta petroquímica, querosene de aviação, coque e gás de cozinha. As construções começaram em 2008 e se prevê que estarão finalizadas em 2016.

Embora o Comperj seja localizada em outro município, Itaboraí, sua baía, é utilizada para o estacionamento e manutenção de petroleiros, estaleiros e plataformas, para a reparação de barcos e outras instalações, as quais, no entanto, requerem um perímetro de segurança muito mais amplo do que o espaço que ocupam fisicamente e, em todo esse perímetro, é proibida a entrada de qualquer pescador. Além disso, o risco ambiental de ter essas embarcações ameaça, constantemente, os ecossistemas marítimos (que se mantêm vivos) e a atividade produtiva dos pescadores. Então, embora na Baía não se extraia petróleo, localiza-se todo esse maquinário que, juntamente com oleodutos e gasodutos, causa barreiras físicas para os pescadores e mortandade dos peixes pelas altas temperaturas em que circulam.

Para o início das obras, não foi realizado nenhum processo de consulta nem processo participativo com os pescadores, que são reconhecidos pela Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) como comunidades tribais, por serem herdeiros dos saberes ancestrais dos Caiçaras, povo Tupi que habitava a ilha e vivia da pesca desde o século XVI.

A pesca artesanal como atividade produtiva está ameaçada em todo o mundo e os conflitos entre pequenos pescadores e a pesca industrial são cada vez mais comuns. No entanto, no caso da Ahomar, o conflito se instalou, principalmente, por duas causas: a apropriação do espaço físico da Baía (pelas construções da Petrobras) e a contaminação de suas águas (que respondem a políticas de saneamento historicamente disfuncionais).

Baía de Guanabara, ao fundo construções da PETROBRÁS. Foto de Grettel Navas

Baía de Guanabara, ao fundo construções da PETROBRÁS. Foto de Grettel Navas

A Baía de Guanabara está localizada no Estado do Rio de Janeiro, compreende 4.066 km² e, além de ser a segunda maior Baía do Brasil (depois da Baía de Sepetiba), é uma das mais contaminadas. Sua degradação progressiva se deve às políticas (inexistentes ou precárias) de saneamento do Estado do Rio de Janeiro. A maioria das águas negras, dejetos industriais e resíduos sólidos da cidade, desemboca na baía, o que, desde ano passado, tem produzido a mortandade de diferentes espécies de animais e afetado diretamente sete municípios e ilhas que banham a Baía.

No entanto, por suas características biofísicas, a água da Baía está em constante intercâmbio com as do oceano e, aparentemente, ela se regenera, tem resiliência suficiente e se autolimpa constantemente. Para os pescadores da Ahomar, se a contaminação fosse a única ameaça haveria atividade pesqueira por mais dois anos. Sua verdadeira consequência – segundo afirma Alexandre Anderson – é a indústria gasífera e petrolífera, que se impôs desde a construção da Refinaria Duque de Caxias (Reduc), que iniciou sua atividade em 1961. Esta refinaria foi, lamentavelmente, notícias no ano 2000 por um dos maiores acidentes ambientais que já ocorreram no Brasil, quando, por negligência, ocorreu o vazamento de 1.3 milhões de litros de petróleo. As consequências são vistas até os dias de hoje, já que a contaminação a Baía não pode regenerar.

Resistência dos pescadores artesanais na Baía de Guanabara

No ano 2000, depois do vazamento de petróleo pela Reduc, os pescadores e pescadoras começaram a denunciar esse e outros efeitos negativos na Baía. Segundo eles, viram-se obrigados a criarem uma organização de participação legítima para a defesa de seus direitos como cidadãos, daí a ideia da criação da organização Ahomar, alegando que, muito além de serem pescadores, eles eram “homens e mulheres do mar”. A associação foi legalizada em 13 de janeiro de 2007 com 498 pescadores e pescadoras que, atualmente, chega a 1.870, com o objetivo de proteger a Baía e as atividades da pesca artesanal.

O conflito foi se intensificando e, em 2009, os pescadores da Ahomar ocuparam as obras nas quais estava sendo construído um gasoduto submarino e terrestre para a transferência de gás natural (GNL) e de gás liquefeito de petróleo (GLP). Essa construção deixaria totalmente disfuncional a pesca na praia de Mauá – Magé, lugar de origem de Alexandre e onde pescam a maioria dos associados da Ahomar. A ocupação durou 38 dias e foi o marco que iniciou um conflito muito mais violento entre a Petrobras e os pescadores da Ahomar. A partir desse momento, os pescadores têm sido ameaçados, quatro deles foram assassinados e um deles se suicidou pelo estresse do conflito, segundo afirmou Alexandre.

Ocupação do gasoduto. Foto de Ahomar.

Ocupação do gasoduto. Foto de Ahomar.

Em maio de 2009, Paulo Santos Souza, naquele momento tesoureiro da Ahomar, foi vítima de um assassinato em sua própria residência. Em 2010, um dos fundadores da Ahomar, Márcio Amaro também foi assassinado. O fato ocorreu em frente da sua esposa e filhos. Os últimos assassinatos foram os de Almir Nogueira de Amorim e João Luiz Telles Penetra, em junho de 2012. O manifesto de repúdio a esses fatos foi assinado por mais de 100 organizações de diversas partes do mundo. Nele, é relatado o que está acontecendo do seguinte modo: “ambos desapareceram na sexta 22 de junho de 2012 quando saíram para pescar. O corpo de Almir foi encontrado no domingo, 24 de junho, amarrado junto ao barco, que estava submerso próximo a praia de São Lourenço, em Magé, Rio de Janeiro. O corpo de João Luiz Telles (Pituca) foi encontrado na segunda, 25 de junho, com os pés e mãos amarrados em posição fetal, próximo a praia de São Gonçalo, Rio de Janeiro” (Ahomar, 2012).

Para Alexandre, esses assassinatos foram, além de grandes perdas para a organização, uma mensagem direta aos membros da Ahomar para que cessem sua luta. O ocorrido entristeceu profundamente os pescadores, os debilitou e gerou medo na Baía, mas não os desmobilizou, mas os empurrou para lutar com mais força e afinco, agora também pela lembrança dos que se foram. Alexandre afirma que, além dessas mortes e do suicídio por estresse de outro companheiro, dezenas de pescadores já sofreram “assassinatos invisíveis”, e que ele mesmo é vítima, ao sentir uma profunda tristeza por não poder pescar, viver sob ameaças e fora do seu local de residência.

Segundo o Deadly Environment, o Brasil é o país do mundo com mais mortes de ambientalistas, com 448 casos reportados entre os anos de 2002 e 2003, seguido por Honduras, com 109 no mesmo período. O aumento de mortes é uma constante na América Latina, assim como sua impunidade. Nessa questão, o Brasil não tem sido uma exceção e, apesar dos manifestos e relatórios da Anistia Internacional e outras agências, nenhuma das quatro mortes foi esclarecida, nem tampouco os atentados diretos que Alexandre sofreu. Embora, segundo a Ahomar, os assassinos são pagos por pessoas que estão obtendo ganhos econômicos com a industrialização da Baía, funcionários do Estado do Rio de Janeiro, do governo municipal e da segurança pública local.

Fortalecimento da organização e novas estratégias de resistência

Quando ocorreu o vazamento da Reduc, quem avisou sobre a contaminação ambiental foram os pescadores, assim como quando a Baía sofre algum dano são os pescadores quem, por sua relação tão próxima, se dão conta, de forma imediata, dessas irregularidades. A ação do governo brasileiro em tomar decisões que só têm enfoque economicista e de crescimento do PIB [Produto Interno Bruto], como a exploração de petróleo e de gás, sem levar em conta as comunidades, é excluir aqueles que poderiam ser os melhores aliados para a segurança social, ambiental e econômica da Baía. No entanto, essas sinergias, pelo choque de percepções, de valores e da intensidade do conflito, parecem agora impossíveis. Ao que parece, a Petrobras designou um porta-voz para iniciar um diálogo com os pescadores e cessar o conflito, mas, quando foi perguntado, recentemente, a Alexandre sobre como haviam sido essas abordagens, ele respondeu não haver estado em nenhum diálogo.

O conhecimento e os saberes ancestrais que têm os pescadores sobre a Baía, sobre seus ciclos, suas espécies, seu zoneamento, não são levados em conta por parte do governo brasileiro que, por meio da Petrobras, vê a Baía somente como um espaço para o estacionamento de navios, de experimentação e limpeza de barcos. Tampouco levam em conta os habitantes da cidade do Rio de Janeiro, que percebem a Baía como um depósito de águas residuais, de dejetos sólidos e industriais. As tentativas de limpeza da Baía começaram nos anos 1990, destas a mais conhecida é o “Programa de Descontaminação da Baía de Guanabara”, financiado pelo governo japonês e que terminou em um desperdício de recursos econômicos sem mudanças reais.

A Ahomar tem realizado também um esforço por inovar e ampliar suas estratégias de luta para proteger a Baía e garantir a atividade daqueles jovens – cada vez menos – que querem seguir o exemplo de seus pais e serem pescadores. Uma delas consiste em mostrar a “face bonita” da Baía, explicar que esta tem vida e seus ecossistemas, embora se encontrem em uma situação muito crítica, podem ser salvos. Assim, há três anos, e com ajuda de estudantes de mestrado e doutorado, estão criando mapas para um melhor conhecimento da Baía, indicando as possíveis zonas de exclusividade e, dessa forma, no futuro, tentar influir nas decisões políticas tomadas em relação à Baía.

Paradoxalmente, o governador do Rio de Janeiro, juntamente com a organização das Olimpíadas de 2016, expõe a Baía de Guanabara como um espaço atrativo para as competições de vela. Talvez a pressão dos atletas ou sua rejeição em entrar na Baía por causa da contaminação ambiental e da violência social mencionada anteriormente sirvam como medida de pressão para se concretizarem as promessas. O tempo já começa a apertar.

Fonte: http://racismoambiental.net.br/2014/11/08/somos-homens-do-mar-a-resistencia-dos-pescadores-artesanais-na-baia-de-guanabara/

Reunião da ASPRIM aponta rumos para continuidade da luta dos agricultores afetados pelo Porto do Açu

asprim

Como anunciado neste blog, a reunião mensal dos associados da Associação de Proprietários Rurais e de Imóveis de São João da Barra (ASPRIM) acabou confirmando a disposição anunciada pelo seu vice-presidente de retomar a luta em defesa dos agricultores desapropriados no V Distrito, bem como de ampliar a agenda política de atuação da entidade.

As novidades deverão ser comunicadas formalmente ao longo das próximas semanas, mas sinalizações vindas do Rio de Janeiro dão conta que a luta da ASPRIM continua sendo notada e valorizada em diversos fóruns, incluindo deputados que já participaram de diversas audiências públicas relacionadas aos problemas causados pelas escabrosas desapropriações realizadas para beneficiar inicialmente o conglomerado econômico do ex-bilionário Eike Batista, e atualmente do fundo EIG Global Partners que herdou esses benefícios ao adquirir a LL(X) Logística.

Para quem acha que a disposição de luta dos agricultores já acabou, a ASPRIM sempre aparece para dizer que não. É por causa dessa formidável resistência que todos os efetivamente interessados num modelo de desenvolvimento que seja socialmente justo e ambientalmente sustentável deveriam estar apoiando a ASPRIM!