As faces inocentes da intervenção no Rio de Janeiro

A imagem abaixo é de autoria de um fotógrafo da agência Associated Press e foi publicada pelo jornal “O Estado de São Paulo” e nela são mostradas crianças da Favela Kelson (localizada no Complexo do Alemão) sendo revistadas por tropas militares e policiais ao chegarem na escola no dia de ontem.

kelson

Agora, me respondam com sinceridade: alguém imagina ver essa cena se repetindo num daqueles colégios caros da Zona Sul do Rio  Janeiro? Obviamente não. Mas com as crianças da Favela Kelson ainda vai ter gente que vai aplaudir.

E depois ainda tem gaiato que reclama quando se fala que o Brasil é um país racista. 

Anaferj expõe cronologia de mentiras do (des) governo Pezão

Intervenção apenas na segurança é um escárnio! É como dizer que o governador não tem mais capacidade para um setor, mas mantém administração aceitável no restante de suas atribuições.

Links:

https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/secretario-de-fazenda-do-rj-diz-que-venda-da-cedae-sera-garantia-para-regularizar-salario-dos-servidores.ghtml

https://extra.globo.com/emprego/servidores-publicos/pezao-volta-atras-diz-que-so-vai-pagar-servidores-se-derrubar-liminar-que-impede-venda-da-cedae-22214674.html

https://extra.globo.com/emprego/servidor-publico/integrantes-do-governo-estao-otimistas-em-quitar-13-dos-servidores-ainda-em-janeiro-22279856.html

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/emprestimo-de-r-2-bi-e-liberado-e-governo-do-rj-diz-que-tenta-pagar-servidores-ainda-nesta-quarta.ghtml

https://extra.globo.com/emprego/servidor-publico/pezao-mantem-esperanca-de-colocar-salarios-dos-servidores-em-dia-ate-fim-de-fevereiro-22326332.html

https://extra.globo.com/emprego/servidor-publico/pezao-adia-mais-uma-vez-prazo-para-pagar-restante-do-13-ate-final-de-marco-22411533.html

https://extra.globo.com/emprego/servidor-publico/pezao-da-novo-prazo-para-pagar-restante-do-13-salario-primeiros-15-dias-de-marco-22380214.html

 FONTE: http://anaferj.blogspot.com.br/2018/02/cronologia-da-mentira.html

A intervenção no Rio de Janeiro e o avanço do fascismo no Brasil

Na intervenção no Rio de Janeiro, o racismo é elemento inseparável do deslocamento do inimigo público das elites para as classes populares.

Michel Temer assina o decreto de intervenção federal no Rio de Janeiro e promete resposta “dura” ao crime. Foto: Beto Barata/Presidência da República.

Por Carlos Eduardo Martins

A intervenção federal militar na segurança do Rio de Janeiro e sua possível extensão a outros Estados marca uma nova etapa da escalada repressiva que avança no Brasil desde o golpe de 2016, configurando tecnicamente um Estado de Exceção.

Constitucionalmente, são três os níveis de Estado de Exceção: Intervenção Federal, Estado de Defesa e Estado de Sítio. Cumprimos com esta iniciativa o primeiro nível do Estado de Exceção: até o final de 2018, o Congresso terá suas prerrogativas reduzidas e, no Rio de Janeiro, a Justiça Militar substitui em parte a Justiça Civil para assuntos de segurança pública, situação que incidirá basicamente sobre a vida das camadas populares. A intervenção federal realiza-se de maneira açodada e não atende aos requisitos constitucionais substantivos para sua realização: não há grave desordem pública no Rio de Janeiro, como demonstram os indicadores da cidade no rankingda violência no país e os que atestam a redução dos índices de criminalidade deste carnaval em relação ao de 2017.

Os objetivos reais desta operação são outros e selam um novo pacto de aliança entre o monopólio midiático e o governo Temer: trata-se, de um lado, de reorientar a agenda de combate à criminalidade, da busca de criminosos de grande porte, do andar de cima da sociedade, para os oriundos dos extratos populares, de pequeno e médio porte; e de oferecer uma alternativa eleitoral competitiva para aqueles que disputam o controle sobre o golpe de Estado na sociedade brasileira.

A politização do carnaval carioca, a ousadia do desfile da escola de samba Paraíso do Tuiuti, – visto por mais de 2 milhões de pessoas no YouTube e que escancarou para o Brasil e o mundo os atores do golpe de Estado, seus objetivos neocoloniais e desumanos, denunciando a Rede Globo, como manipuladora, e o Presidente da República, como um vampiro neoliberal que se alimenta do sangue do seu povo – e o aumento da popularidade do ex-Presidente Lula revelaram que a percepção popular sobre quem eram os criminosos de grande porte da sociedade brasileira estava se tornando extremamente perigosa para nossas classes dominantes. Tornou-se claro que é preciso pôr fim a esse movimento de insatisfação popular com os de cima, que se iniciou com as Manifestações de Junho de 2013, foi apropriado pelas classes dominantes com o consórcio entre a mídia empresarial e os procuradores e juízes da Operação Lava-Jato, mas reestabeleceu parcialmente sua autonomia com a fortíssima impopularidade do governo Temer e sua base de sustentação. A reorientação da agenda da segurança para baixo pela mídia empresarial pretende encerrar o seu respaldo à Operação Lava-Jato com a prisão de Lula e a cassação de seus direitos políticos e busca, a partir da fabricação de um ambiente de desordem e violência e da espetacularização da intervenção federal, redirecionar o foco das preocupações populares, abortando uma politização que se desenvolvia progressivamente.

Além disso, diante da impopularidade das contrarreformas do Golpe de Estado, da recessão e perspectivas de crescimento rastejante da economia, busca-se uma agenda que fale diretamente ao sentimento de vulnerabilidade de amplas camadas população, cujos direitos sociais garantidos pela Constituição não são minimamente atendidos pelos serviços públicos precários e limitados oferecidos pelo Estado. No mapa da desigualdade do Rio de Janeiro, leva-se de treze a quinze anos para percorrer os poucos quilômetros de distância da Gávea, onde se vivem 80 anos, até a Rocinha ou o Complexo do Alemão, onde se vivem 67 ou 65 anos.

A perspectiva de resolução dos problemas sociais pelo emprego da força máxima de Estado, que seduz as camadas populares diante do desespero em que se encontram face ao atoleiro do desemprego, da carestia e da desigualdade, revela-se ilusória. Entre outras razões, porque dirige-se para reforçá-los em benefício dos mais fortes. Entretanto, propicia combustível suficiente para tomar de Bolsonaro as bandeiras de violência e permitir a Temer sonhar com a reeleição que lhe permitiria fugir da Justiça Comum a partir do respaldo que o uso máquina do Estado e o apoio midiático podem lhe oferecer.

Entretanto, a aprofunda-se a instabilidade social e política brasileira e acumulam-se os traumas sociais. A Nova República entendida como um movimento de redemocratização lenta e gradual do país encerrou-se em 2016 e, em seu lugar, diante das debilidades e falta de autonomia da centro-esquerda petista que liderava o bloco popular, as classes dominantes impuseram uma agenda regressiva e neoconservadora. Esta agenda apresenta forte caráter fascista. O fascismo é essencialmente um regime de terror do grande capital que busca destruir as conquistas populares e impedir pelo uso da violência institucionalizada, com ou sem mobilização de massas pequeno-burguesas, a reorganização autônoma das classes trabalhadora. O fascismo pode evoluir ou não para um regime totalitário. Está para ser publicado em breve, pela editora Insular, Socialismo ou Fascismo: o dilema latino-americano e o novo caráter da dependência, de Theotonio dos Santos, inédito no Brasil, que avança muito no tratamento conceitual do tema e desmistifica as visões que só vinculam o fascismo às suas expressões extremas, negligenciando as formas históricas graduais e diversas que o fenômeno assumiu.

Avança hoje no Brasil, até aqui, um fascismo liberal, que guarda importantes semelhanças com o que se desenvolveu na Itália entre 1922 e 1924. Este fascismo articulou-se com a estrutura liberal, subordinando-a sem eliminá-la formalmente, mas inoculou nela deformações pela imposição de restrições legais, casuísmos e violências que tornavam a competição partidária um simulacro e limitavam o Estado de Direito. Assim, como a Marcha sobre Roma teve como consequência a derrubada do governo e a nomeação, ratificada pelo Parlamento, de Mussolini a Primeiro-Ministro; no Brasil, as marchas sobre a Avenida Atlântica e a Avenida Paulista convocadas e potencializadas pelo monopólio midiático tiveram o mesmo objetivo e consequência: a derrubada do governo eleito pelo Parlamento e o respaldo deste ao governo golpista. Se as eleições de 1924 realizaram-se sob o signo da perseguição aos socialistas e da Lei Acerbo, que dava ao Partido que conseguisse mais de 25% dos votos 2/3 do Parlamento, as eleições de 2018 no Brasil, caso se realizem, o serão sob o contexto de cassação de direitos políticos de Lula, da vigência da PEC 55, que criminaliza as políticas sociais e exige maioria de 2/3 no Parlamento para ser derrubada, da limitação da autonomia do Congresso diante do Executivo e da intervenção militar no Rio de Janeiro.

O irracionalismo que domina a política institucional brasileira – e que, para derrubar um governo eleito, transforma pedaladas fiscais em empréstimos, que para cassar o líder nas pesquisas para a Presidência da  República cria a figura jurídica inexistente da propriedade de fato, e que considera delitos de pequeno porte motivo para impor uma forma de Estado de exceção – evidencia que as versões mil vezes repetidas pelo consenso entre as diversas frações das classes dominantes se impõem sobre as expressões mínimas do estado de direito. Na intervenção no Rio de Janeiro, o racismo é elemento inseparável do deslocamento do inimigo público das elites para as classes populares. As favelas são tratadas como guetos e seus habitantes, majoritariamente pretos, mestiços ou nordestinos, segregados e suspeitos de crime. A eles exige-se subordinação e não se tolera autonomia cultural e política. A censura presidencial a Tuiuti no desfile das campeãs, exigindo a retirada da faixa presidencial do vampiro neoliberal e o esvaziamento das alas que exibiam manifestantes fantoches e carteiras de trabalho rasgada, nos leva a pensar quais retaliações seriam empregadas sobre esta comunidade num contexto de intervenção federal: ocupação militar, detenção no insalubre sistema carcerário brasileiro e genocídio?

Neste contexto de manipulação e intolerância, gerado pelo medo da ascensão econômica, política e cultural das camadas populares que elevaram historicamente seus níveis de educação e informação, o centrismo esvazia-se e são débeis as garantias constitucionais públicas e individuais. O desemprego, a recessão, a financeirização, o bloqueio da competição eleitoral, a intimidação e a violência são as vias das classes dominantes para manter nosso povo sob controle. Denunciar o caráter do regime que vai se institucionalizando e organizar a unidade das forças populares em torno ao restabelecimento da democracia e do desenvolvimento são as tarefas chaves do momento. Este caminho exige confrontação e desobediência civil. Tolerar os caminhos de uma legalidade bloqueada pelas restrições que o fascismo a ela impõe, não permitirá enfrentar a agenda neoliberal e repressiva que se estabelece pelo consenso entre as frações das classes dominantes de que é necessário controlar o povo e violar a soberania popular.

Em entrevista à Globonews, o General Augusto Heleno Ribeiro, defensor do movimento de 1964 e ex-comandante das tropas da Minustah, reivindicou, sem causar perplexidade ou embaraço entre os participantes, não apenas a lei promulgada por Temer, que deslocou para a justiça militar os crimes cometidos pelas forças armadas em operações de garantias de lei e de ordem, mas inclusive que exército tivesse o direito de atuar no Rio de Janeiro como atua na guerra, eliminando qualquer suspeito. A contraposição tímida ou mesmo adesão com que alguns quadros do campo democrático reagiram à intervenção militar no Rio de Janeiro, impactados pelo apoio popular episódico e pela intimidação que emana do pacto entre o monopólio midiático e o aparato estatal, nos faz lembrar, guardadas as diferenças da analogia, o caminho buscado por Theodor Leipart, Presidente da Confederação Geral de Sindicatos de Alemães, em 21 de março de 1933. Diante da repressão inicial dirigida pelos nazistas ao Partido Social Democrata, Leipart afastou dele os sindicatos e escreveu uma carta conciliatória a Hitler propondo a atuação sindical dentro da legalidade do novo regime. No primeiro de maio, na comemoração do dia do trabalhador, os sindicatos marcham junto com as S.A; no dia 2 de maio, as S.A. marcham sobre suas sedes.

Unidade e defesa intransigente da soberania popular são as palavras de ordem do tempo presente para aqueles que se situam dentro do campo popular e democrático.

***

Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Estudos sobre Economia Política Internacional (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe(Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

Publicado originalmente [Aqui!]

Governo Temer flerta com o imponderável ao propor uso de mandados coletivos no RJ

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A decisão mal explicada do presidente “de facto” Michel Temer de intervir militarmente apenas no setor da segurança pública do Rio de Janeiro está rapidamente ganhando contornos de abraço dos afogados. É que passado o primeiro momento do anúncio improvisado, o ministro da defesa, Raul Jungmann veio a público para dizer que as  “operações no Rio vão precisar de mandados de busca e apreensão coletivos” [1].

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A primeira coisa que salta aos olhos é sobre qual seriam os locais cuja “realidade urbanística” ensejam o uso deste instrumento que viola as garantias individuais que constam da Constituição Federal Brasileira. A priori me parece óbvio que o ministro Jungmann está pensando nas favelas,  estejam elas localizadas nos morros ou nos mangues da baía da Guanabara. Aí não fica difícil imaginar como agirão as tropas policiais e militares de posse desses verdadeiros passes livres para a matança. E Jungmann não teve nem receio de ser explícito sobre essa intenção ao afirmar que “em lugar de você dizer, por exemplo, rua tal, número tal, você vai dizer, digamos uma rua inteira, uma área, um bairro. Aquele lugar ali é possível de ter um mandado de busca e apreensão dentro de todos os procedimentos legais“. 

A segunda questão que salta aos olhos é que dificilmente veremos o uso de mandados de busca e apreensão coletivos na Zona Sul do Rio de Janeiro, em que pese o fato de que ali existem mais do que certamente os mesmos tipos de redes ilegais que se diz querer exterminar nas regiões mais pobres da cidade.  Mandado de busca e apreensão coletivos em Ipanema e no Leblon? Dificilmente!

Um terceiro elemento e que parece aproxima o Rio de Janeiro do imponderável é que tendo se revelado com tanta antecedência que estas medidas serão aplicadas, o mais provável é que os eventuais alvos legítimos das futuras operações militares já começaram a enterrar suas armas para se mandar para outras paragens até que a coisa esfria. Assim, sobrarão dentro das comunidades pobres, os que estão sofrendo o ônus mais pesado da crise social, política e econômica que os (des) governos do (P) MDB criaram no Brasil e no Rio de Janeiro.  E muito provavelmente será sobre essa multidão de inocentes que deverá recair o ônus das operações militares.  

Tudo isso me leva a crer que, querendo ou não, o presidente “de facto” Michel Temer está nos lançando à beira do imponderável. Resta saber apenas quando ou que poderá causar a ignição de uma grave convulsão social no Rio de Janeiro. 


[1] https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/ministro-da-defesa-diz-que-operacoes-no-rio-vao-precisar-de-mandados-de-busca-e-apreensao-coletivos.ghtml

Decreto de intervenção federal no Rio de Janeiro é inconstitucional

INTERVENÇÃO 3

*Por Eloísa Machado de Almeida

Intervenção federal é uma medida excepcional, prevista na Constituição, onde se flexibiliza a autonomia federativa para permitir a substituição de autoridade estadual pela federal. Por ser medida excepcional, a Constituição determina que o Decreto de intervenção deve informar sua amplitude, razões e tempo de duração; isto é, a intervenção só permanece enquanto perdurarem as razões de sua decretação.

É uma bomba no nosso sistema federativo, remédio forte para altíssimo grau de desfuncionalidade institucional.

É a primeira vez que se decreta uma intervenção federal; não há exemplos a seguir, modelos que funcionaram ou erraram. Mas há a Constituição. E, pelos parâmetros constitucionais, o Decreto de intervenção é inconstitucional.

Não duvido que possam existir razões para a intervenção no Rio de Janeiro, mas o que se sabe da intervenção federal decretada pelo Presidente Michel Temer é muito pouco. Não há transparência nas razões que a justificam, o que prejudica a compreensão sobre quando a mesma deverá ser revogada.

Adotar uma medida tão grave com pouca informação, pode gerar ainda mais instabilidade. Além disso, o Decreto diz, no parágrafo único do artigo 1º, “o cargo de Interventor é de natureza militar”. Natureza militar, ou seja, integrado e condizente com o regime das Forças Armadas, inclusive a jurisdição militar para todos os eventuais crimes cometidos durante o período de intervenção. Isso é inconstitucional.

A intervenção federal permite a substituição da autoridade política estadual pela federal, mas não a substituição da autoridade política civil por uma militar. O interventor adotará atos de governo e, por isso, a natureza do cargo é civil, ou seja, o interventor pode até ser militar, mas este ocupa temporariamente um cargo de natureza civil.

Por fim, sem entrar em detalhes sobre as razões para essa medida tão grave (até porque elas não são públicas), a intervenção federal em matéria de segurança permitiria a atuação das polícias federais para atuação no Rio. O uso de Forças Armadas em segurança pública (além de ser bastante problemática) necessitaria, por ordem constitucional, de autorização específica. Afinal, não se trata de intervenção militar. Não?

*Eloísa Machado de Almeida é Professora Doutora de Direito Constitucional na FGV Direito SP.

FONTE: http://justificando.cartacapital.com.br/2018/02/16/decreto-de-intervencao-federal-no-rio-de-janeiro-e-inconstitucional/

No pós-carnaval, a intervenção militar na segurança do Rio de Janeiro

intervenção 2

Ainda que não seja a primeira vez que as tropas do Exército brasileiro serão colocadas para tamponar a situação de caos na segurança pública no estado do Rio de Janeiro, certamente temos agora a novidade de que as demais forças estarão submetidas ao crivo das decisões de um comandante militar, no caso, o Walter Souza Braga Netto que terá poderes irrestritos sobre as mesmas, inclusive com poder de prender policiais civis e militares e bombeiros [1].

Agora, a pergunta que não pode ser calada: por que só agora essa intervenção está sendo feita de uma maneira tão açodada? Em princípio, o argumento é que  (des) governador Luiz Fernando Pezão  perdeu o controle do estado, como informa hoje o jornalista Ancelmo Gois no seu blog no “O GLOBO” [2].

pezao 2

Mas a inaptidão de Luiz Fernando Pezão para ocupar o cargo para o qual foi eleito já está evidente desde o primeiro dia do seu (des) governo.  Mas isto não impediu, por exemplo, que o governo “de facto” de Michel Temer assinasse o draconiano conjunto de projetos de ajuste fiscal conhecido como “Regime de Recuperação Fiscal” que, entre outras coisas, demandou a privatização da CEDAE. 

A verdade é que esta nova intervenção militar  na segurança pública fluminense servirá apenas (e se muito) para acalmar os setores mais abastados da sociedade fluminense, sempre tão ciososos de sua própria segurança pessoal e especialmente de suas propriedades. Contudo, quem  experimentou as outras intervenções militares anteriores dentro das favelas do Rio de Janeiro já sabe que vem chumbo grosso por aí, e não necessariamente nos membros do narcotráfico que estão sendo usados como bodes expiatórios para justificar a decisão de Michel Temer.

O mais preocupante é que as forças militares não possuem sequer o treinamento mínimo para atuarem na segurança pública. Quem teve de cruzar as barricadas militares levantadas nas estradas da região metropolitana do Rio de Janeiro no final de 2017 pode testemunhar o nível de despreparo até realizar atividades básicas como parar e inspecionar veículos. Imaginem então o que poderá ocorrer quando ações mais espinhosas tiverem que ser realizadas como, por exemplo, combates diretos com traficantes no interior dos terrenos meândricos e inclinados em que estão construídas a maioria das favelas do Rio de Janeiro.

E que ninguém se engane. O que está em jogo não é a questão da segurança pública per se.   O elemento que parece reger essa decisão é a necessidade de conter a crescente ebulição social  causada pelas medidas de arrocho fiscal impostas pelo dublê de banqueiro e ministro da Fazenda Henrique Meirelles. É dessa ebulição social que ameaça se transformar em convulsão aberta que os (des) governantes brasileiros realmente têm medo. Resta saber se a maioria pobre dos brasileiros irá aceitar pacificamente esse tipo de medida que em nada altera a condição caótica que as reformas ultraneoliberais do governo Temer criaram.


[1] https://www.brasil247.com/pt/247/rio247/342407/O-morro-amea%C3%A7ou-descer-e-Temer-chamou-o-general.htm

[2] http://blogs.oglobo.globo.com/ancelmo/post/governo-federal-esta-convencido-de-que-pezao-perdeu-o-controle-do-rio.html

(Des) governo Pezão continua humilhando os servidores

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Quando finalmente terminar, o (des) governo Pezão deverá marcar uma das páginas mais obscuras de qualquer administração que um dia sentou pé no Palácio Guanabara, E olha que tivemos administrações que a imensa maioria dos fluminenses sequer consegue lembrar do nome do governador. 

Uma marca do (des) governo Pezão é a total disposição para humilhar os servidores públicos estaduais, começando pelo achincalhamento com que trata a questão básica do pagamento dos salários. Nesse quesito, o (des) governo Pezão é insuperável no nível de desrespeito e zombaria.

Vejam abaixo uma publicação saída da coluna do Servidor do jornal “O DIA” em referência ao pagamento do 13o. salário de 2017 a 167.111 servidores ativos, aposentados e pensionista [1].

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Não creio que seja preciso lembrar que o (des) governador Pezão havia se comprometido a quitar o 13o. salário de todos os servidores em janeiro, depois passou para fevereiro, e agora aventa a possibilidade de que isto ocorra ainda na primeira quinzena de março. 

O escárnio é amplo, geral e irrestrito.

Agora duas questões que precisam ser lembradas. A primeira é que a nota não informa qual seria a fonte de recursos que permitirá o (des) governo Pezão quitar as muitas dívidas que possui com os servidores do executivo.  Já sabemos que não poderá ser com recursos oriundos da Operação Delaware II porque isto foi vetado pelo presidente “de facto” Michel Temer.  A segunda, e mais importante, é sobre quando será rompido o silêncio sepulcral que caracteriza a ação dos sindicatos e associações que dizem representar os servidores neste início de 2018.

As respostas a estas duas perguntas certamente deverão embalar o pós-Carnaval dos servidores públicos do Rio de Janeiro, já que no dia 16 de Fevereiro está também prometido o pagamento dos salários de janeiro. 

Finalmente, há que se lembrar que o Rio de Janeiro está momentaneamente dispensado de pagar suas dívidas com o governo federal por causa da adesão feita pelo (des) governo Pezão ao famigerado Regime de Recuperação Fiscal (RRF).  Com isso, os atrasos salários já deveriam ter cessado. Entretanto, como teremos em 2018 teremos eleição é bem possível que boa parte dos recursos não entregues como pagamento da dívida pública esteja sendo desviada para projetos que viabilizem candidaturas a deputado de membros do (des) governo Pezão. Um exemplo disso pode ser visto na presença do (des) secretário da Casa Civil, Christino Áureo  que participou da entrega das chaves do DPO DPO de Glicério, na Região Serrana de Macaé-RJ [2], oportunidade em que anunciou investimentos da ordem de R$ 11 bilhões na área da segurança.

christino

Como Christino Áureo, outros membros desse (des) governo Pezão deverão aparecer com suas “obras” de último minuto para tentar garantir os votos necessários para permanecer na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e, quiçá,  no secretariado do futuro governador.

Enquanto isso, os servidores continuam abandonados no deserto, muitos sem sequer podendo comprar remédios e comida. 


[1] https://odia.ig.com.br/2018/02/economia/5512372-decimo-terceiro-na-conta-em-marco.html

[2] https://www.portalviu.com.br/cidades/estado-investe-r-11-bi-em-seguranca-diz-christino/

#TrabalhoEscravoNão: crime e impunidade ainda persistem no Rio de Janeiro

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Há 13 ações contra escravidão em andamento na 1a instância no Estado

Cena 1: após a doença grave de um trabalhador, os filhos de 10 e 6 anos foram forçados a trabalhar num sítio em Sapucaia (RJ) para a família continuar numa casa do terreno. Trabalhavam das 5h às 12h, com pausa para a escola e volta ao trabalho às 17h. Nos fins de semana, o trabalho não tinha intervalo. As crianças eram agredidas com cordas e vara de ferrão e trabalhavam sob sol ou chuva.

 Cena 2: numa pastelaria em Icaraí, bairro nobre de Niterói (RJ), um casal chinês com bebê recém-nascido e um conterrâneo solteiro dormiam em cubículos num alojamento sem janelas e pé-direito entre 1,26m e 1,72m mantido pelo empregador. Funcionários do estabelecimento, usavam banheiro sem janela nem lavatório e com comunicação direta ao local de trabalho e ao destinado às refeições. No alojamento não havia armários individuais, nem condições mínimas de higiene para pernoite no local e para a alimentação.

Cena 3: na pastelaria de uma esquina no coração de Copacabana, três chineses cumpriam jornadas extenuantes na cozinha. Toda noite, voltavam para o pequeno quarto mal ventilado do apartamento do patrão, que os monitorava por câmeras e vedava seu acesso à sala. Não tinham carteira de trabalho, o salário era retido e os passaportes tinham vistos de turismo já expirados.

Aos quase 130 anos desde a Lei Áurea, o trabalho escravo segue na pauta do país e, assim, do MPF. No sítio e nas pastelarias, as equipes de fiscalização viram muito em comum. A maior semelhança é que os empregadores cometeram redução a condição análoga à de escravo, crime de repressão reforçada a cada 28 de janeiro, o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo. Levantamentos feitos pelo MPF em escala nacional e estadual atestam a persistência, em todos os estados, do crime e da impunidade, evidente na tramitação de alguns casos há mais de 10 anos sem ter sentença definitiva.

Atualmente, há 13 ações em andamento contra casos de escravidão no Estado do Rio. Os processos correm nas Varas Federais de Campos dos Goytacazes (4), Rio de Janeiro e Teresópolis (três, cada), Macaé, Três Rios e Niterói (uma). Tramitam nas Varas ações da cidade-sede e municípios vizinhos.

“A intensificação do combate à exploração dos trabalhadores em condições análogas à de escravo, sobretudo aquela que se verifica em condições degradantes, é crucial, pois ele, em sua forma moderna, ocorre tanto no campo, como também, ao contrário do que percebido pela opinião pública, nas zonas metropolitanas das maiores cidades brasileiras, vitimando não apenas o camponês ou o sertanejo brasileiro, mas, em decorrência do tráfico internacional de seres humanos, pessoas hipossuficientes das mais variadas partes do mundo. Por isso, é importante que o Governo brasileiro continue a se empenhar em cumprir as Convenções da OIT que regulam a matéria”, afirma o procurador da República Eduardo André Lopes Pinto, que em 2017 ofereceu denúncia contra o comerciante que sujeitou os três empregados da pastelaria e o bebê em Niterói a riscos para a saúde.

 MPF em todo o país em 2017: 72 denúncias recebidas pela Justiça

Em todo o país, a Justiça recebeu 72 ações penais movidas pelo MPF em 2017 pelo crime do art. 149 do Código Penal. Segundo balanço nacional, os estados com maior concentração de denúncias foram Tocantins (13), Minas Gerais (12), Bahia (7) e Maranhão (6). Também em 2017, nada menos que 265 inquéritos policiais foram iniciados e 283 procedimentos extrajudiciais, autuados.

“O MPF tem assumido seu papel como protagonista nesse tema”, avalia a procuradora da República Ana Carolina Roman, da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae). “Somos nós que temos que propor a ação penal. E era uma demanda da sociedade civil.”

Iniciativas recentes do MPF são apontadas por ela como decisivas à expansão do MPF nessa causa, tais como a participação efetiva de membros do MP em operações de resgate, a realização de cursos sobre o assunto e a inclusão do tema no Curso de Ingresso e Vitaliciamento dos novos procuradores.

Ampliar as parcerias com órgãos de fiscalização e investir mais recursos e pessoas são prioridades, na avaliação da procuradora regional Adriana Scordamaglia, do Grupo de Apoio ao Combate à Escravidão Contemporânea (Gacec): “A melhor prova é a feita pelo Grupo Móvel. Infelizmente o MPF não tem verba nem pessoal suficiente para participar de todas as ações desse grupo.” Para ela, a recorrente impunidade na questão reflete a resistência de setores do Judiciário em aplicar o artigo 149 do Código Penal, segundo o qual o crime de redução à condição análoga à de escravo se caracteriza pelo trabalho forçado, servidão por dívida, condições degradantes ou jornada exaustiva.

OUTROS EXEMPLOS

Pastelaria em Copacabana

Na denúncia relativa à cena 3, o MPF acusou Liu Tianjun a partir de fiscalização em março de 2015, que viu o tratamento distinto a funcionários brasileiros, seguindo a legislação trabalhista, e chineses, aproveitando sua vulnerabilidade e situação migratória irregular. A denúncia foi recebida 15 meses após a fiscalização. Desde então, a defesa tem buscado tumultuar o andamento do processo criando supostas nulidades inexistentes, de acordo com parecer do MPF. O TRF2 recentemente deu razão ao MPF ao refutar a arguição da violação da incomunicabilidade entre duas testemunhas de acusação, no caso, um fiscal do trabalho e um padre ouvidos pela Justiça.

(JF-RJ-0509055-21.2015.4.02.5101-AP)

Haras no Rio

A dona de um haras em Vargem Grande, no Rio, foi acusada de manter empregado em más condições e sem registro na carteira de trabalho. A vítima vivia em local de 6 metros quadrados e condições precárias, sem banheiro interno ou ventilação. As investigações constataram que a situação durou 14 anos, até a assinatura de um termo de ajustamento de conduta com o MPF. (JF-RJ-0507189-41.2016.4.02.5101-AP)

Obra de shopping

Fiscais viram, na obra de shopping na zona oeste carioca, oito trabalhadores de outros estados sem residência no Rio. Dois dos três alojamentos eram precários e insalubres, sem condições de habitabilidade. Segundo fiscais, o ambiente tinha odor desagradável e má ventilação, sem cama para todos, colchões e instalações elétricas improvisados e sem água nos banheiros, o que impedia a higiene pessoal ou limpeza do lugar de moradia. (JF-RJ-0021730-10.2014.4.02.5101-AP)

Canavial em Campos

Dois homens foram denunciados por manter 32 trabalhadores rurais em condições de escravidão em lavoura de cana. Um deles ainda é réu por ter tido contato com o grupo e não lhes dar condições dignas, como acesso a água potável, alimento, refeitório, banheiro, óculos protetivos, luvas e outros equipamentos de proteção. (JFRJ/CAM-0001995-82.2014.4.02.5103-AP)

FONTE: Assessoria de Comunicação Social da Procuradoria Regional da República da 2a Região (RJ/ES)

(Des) governo Pezão continua jogando com a vida dos servidores

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Em meio à situações desesperadoras, a quitação dos salários de Dezembro e pagamento do 13o. salário de 2017 para 202.757 servidores ativos, inativos e pensionistas criou uma enganosa aparência de normalização na vida dos servidores estaduais.  Mas há que se frisar que essa é apenas uma aparência enganosa, além de potencialmente revelar que a tática de divisão dos servidores fez parte de um movimento mais amplo de manter a corda apertada no pescoço em 2017 para criar uma falsa imagem de recuperação da saúde financeira no estado antes das eleições de outubro.

É importante que se diga que o (des) governo Pezão continua passando ao  largo de quaisquer medidas que possam representar uma recuperação da capacidade do estado para responder aos amplos desafios colocados pela profunda crise econômica e financeira que o Rio de Janeiro atravessa. E, pior, os soluços de “normalidade” estão sendo ancorados em empréstimos caros e securitizações de rendas futuras, o que no médio e longo prazo deverão acarretar uma crise ainda mais profunda do que esta que atravessamos desde 2015.

Agora atacar os problemas estruturais que causaram a crise de insolvência em que o Rio de Janeiro está metido, nenhuma medida foi posta para funcionar. Assim,  o (des) governo Pezão continua apostando na farra fiscal e no uso de ferramentas da ciranda financeira como a única opção para continuar tocando a máquina pública antes de um encerramento que promete ser mais do que inglório.

O pior é que o próximo governador, seja quem for, estará com as mãos e pés atados pelos acordos constrangedores que Luiz Fernando Pezão assinou no âmbito do chamado “Regime de Recuperação Fiscal”. Com isso, se não houver uma poderosa reação social, o Rio de Janeiro continuará com uma economia manietada e, pior, com uma dívida pública crescendo como uma bola de neve em ritmo exponencial. O resultado disso não é difícil de prever, mas é preciso enfatizar que é mais do que provável que o estado verá um aprofundamento do caos social que já aparece nas áreas da segurança, da saúde e da educação pública. 

Para os servidores que continuarão como um dos principais focos de ataque das políticas privatistas do (des) governo Pezão, a situação terá que se enfrentada com mais agudeza aquela que se viu em 2016 e 2017.  De nada adiantará os sentimentos de auto  de vitimização em que muitos servidores, até com muita justeza, se viram metidos. A única opção real será de enfrentar o (des) governo Pezão nas ruas e nas repartições públicas onde todos continuam tentando cumprir suas tarefas profissionais. Do contrário, o massacre vai continuar.

Mas para que os servidores reajam e enfrentem as políticas do (des) governo Pezão, os seus sindicatos e associações de classe vão ter que ter uma atuação que foque nos problemas reais de seus servidores e da população do que em agendas eleitorais e manifestações de caráter meramente alegórico.  Resta saber o que as lideranças sindicais vão querer fazer. Mas, como seguro morreu de velho, é bom que os representados comecem a cobrar ações no sentido de evitar que as opções eleitorais se sobreponham à necessidade de efetivamente ocorrer uma luta em defesa dos representados. Com a palavra o MUSPE e os sindicatos que ali estão reunidos.

 

 

 

Guerra às universidades públicas visa esterilizar a inteligência brasileira

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Por diversas vezes um leitor deste blog postou comentários me inquirindo sobre o lugar que as universidades públicas brasileiras teriam (ou não teriam para dizer a verdade) numa sociedade cujas elites insistem em manter a economia atada à herança colonial de exportação de produtos agrícolas e minerais.  Em função de muitas outras pautas, nunca me detive para oferecer meus pitacos a essa interessante indagação.

Mas ao ouvir recentemente o (des) governador Luiz Fernando Pezão faltar com a verdade em relação ao peso dos salários dos professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro no custo anual do funcionamento de umas das melhores instituições de ensino superior público brasileiro, não vejo como não entender essa postura como mais uma declaração de guerra ao ensino superior público fluminense e, por extensão, brasileiro [1].

A verdade é que as universidades públicas são uma espécie de contradição ambulante em relação à forma de inserção dependente da economia brasileira no sistema capitalista global. É que as elites econômicas que controlam o Brasil desde 1500 nunca tiveram muita disposição para apostar na construção de um país que vencesse sua herança colonial ancorada na escravidão humana. Todos os movimentos realizados por essas elites ao longo da nossa história indicam que não há disposição de sequer estabelecer por aqui as instituições liberais que deram bases para que as burguesias europeias se lançassem em direção a estados mais ou menos democráticos. O negócio aqui é manter a imensa maioria do nosso povo em condições de subexistência, enquanto uma minoria rica procura imitar os padrões de consumo das elites dos países centrais.

Mas como o processo de desenvolvimento capitalista não é nem linear nem homogêneo, as elites econômicas brasileiras meio que toleraram a criação de universidades públicas para não ficarem completamente no vácuo que a inexistência delas inevitavelmente colocaria o Brasil.  Entretanto, no presente momento, especialmente por causa da disposição de se tornarem ainda mais satélites de suas contrapartes no capitalismo central, as elites brasileiras agem de forma despudorada para aniquilar as universidades públicas e o que elas representam em termos de formação de quadros científicos capazes de alçar o Brasil para pontos mais altos do que a opção de permitir a recolonização do nosso país implicará em todas as dimensões da vida.

Por isso é que estamos assistindo a um verdadeiro processo de sabotagem e inviabilização das universidades públicas, tendo o estado do Rio de Janeiro como a ponta de lança desse processo, naquilo que eu chamei de sua transformação em uma espécie de laboratório das reformas ultraneoliberais que estão sendo demandadas pelo sistema rentista global. Essa guerra às universidades é, na verdade, uma guerra a um modelo de Nação que o Brasil jamais conseguiu ser porque suas elites nunca quiseram que ele fosse. Por isso essa guerra para destruir as universidades públicas via sua completa asfixia financeira é uma guerra à inteligência brasileira.

Diante dessa caracterização me parece inevitável que qualquer intenção de enfiar a cabeça na areia por parte das comunidades universitárias e das múltiplas associações científicas seja substituída por uma forte disposição de defender as universidades públicas. É que o que estamos presenciando é simplesmente um momento chave na nossa história, onde poderemos vencer as amarras que impedem o Brasil de ser uma Nação mais democrática e moderna ou veremos a destruição das universidades públicas e, junto com isso, a perpetuação e aprofundamento de um modelo de sociedade que nos coloca com um dos países mais desiguais da Terra.


[1] http://blogs.oglobo.globo.com/eissomesmo/post/pezao-exagera-ao-dizer-que-80-do-orcamento-da-uerj-vai-para-o-bolso-dos-professores.html