TCE vai fiscalizar farra das generosidades fiscais. Demorou por que?

A edição desta segunda-feira (12/09) do jornal “O DIA” traz uma notícia que seria auspiciosa se não fosse um tanto tardia. É que segundo o que aponta a ma´teria, o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro decidiu apurar a farra das generosidades fiscais adotadas pelo (des) governo do Rio de Janeiro a partir de 2007 (ver reprodução parcial abaixo).

farra

Não sei se pode se chamar de surpreendentes os dados que estão sendo sintetizados pelos auditores do TCER/RJ. Mas além do montante fabuloso de “incentivos fiscais” adotados pelas gestões de Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão ter chegado a estratosféricos R$ 185 bilhões,  ficamos agora sabendo que em 20015 atingiu-se o ápice em termos dos beneficiários destas “generosidades” com um total de 4.225 “beneficiados”.

Duas coisas aqui ficam claras. Para um estado que se diz afundado em dívidas, ter o ano de 2015 como o ápice de uma farra fiscal é, no mínimo, controverso. A segunda coisa é que talvez fique entendido porque recentemente o (des) governador em exercício, Francisco Dornelles (PP), vetou um artigo da lei que criou o Fundo de Equilíbrio Financeiro do Estado que permitiria que a população soubesse quem são os 100 maiores recebedores das generosidades fiscais concedidas por Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão (Aqui!). 

veto transparência

É que o risco de se descobrir mais empresas que dificilmente seria ilegíveis para receber as “generosidades fiscais” seria, convenhamos, grande, o que poderia complicar ainda mais uma situação que já se mostra para lá de complicada.

Agora, convenhamos essa situação toda seria embaraçosa se nossos governantes fossem outros. Mas como estamos entregues a Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão e Francisco Dornelles, esse pessoal ainda pode culpar os servidores públicos e os pobres como os culpados pela barafunda em que o Rio de Janeiro está metido. E la nave va!

Na terra das generosidades fiscais, adivinhe quem paga o pato

pato

Em flagrante desobediência a uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o (des) governo fluminense comandado por Luiz Fernando Pezão (PMDB) e Francisco Dornelles (PP) deixou até ontem (05/09) 30% dos servidores do executivo estadual sem seus salários.

Quando descumpre uma decisão do STF, o (des) governo do Rio de Janeiro manda uma mensagem clara: na terra das generosidades fiscais com as corporações e empresas “muy amigas”, quem paga o pato são os servidores e a população que depende de seus serviços.

Ao mar com hospitais, escolas e universidades se isso for necessário para manter uma indecorosa farra de generosidades fiscais. Esse é o mote de um (des) governo que já torrou algo próximo de R$ 200 bilhões e estendeu essa política de terra arrasada por cinco décadas para muitos dos casos de concessões de generosidades que não fazem o menor sentido financeiro e econômico.

E que ninguém se engane, a atual situação é apenas um prelúdio de um ataque ainda maior a tudo que é público no Rio de Janeiro. A privatização canhestra da CEDAE que se anuncia a passos largos é apenas o começo, depois virá todo o resto.

Enquanto isso, pagamos todos nós o pato.

Crise, que crise? Farra das generosidades fiscais segue firme no RJ

Farra com dinheiro público

A narrativa exaustivamente aplicada pelo (des) governo do Rio de Janeiro é de que vivemos uma crise financeira decorrente do encolhimento das receitas oriundas dos royalties do petróleo.  Tal narrativa é repercutida pela maioria da mídia corporativa fluminense como se fosse um mantra. Tudo é apresentado como culpa da crise dos royalties e a receita decorrente disso é clara: privatizar empresas estatais e demitir servidores públicos. 

Entretanto, como eu já havia observado na última 5a. feira (01/09), o problema está na verdadeira farra de generosidades fiscais que vem sendo aplicada no Rio de Janeiro desde o início do primeiro mandato do ex (des) governador Sérgio Cabral. E, pior, com total falta de transparência acerca de seus beneficiários (Aqui!).

Mas a falta de transparência tem como contrapartida a continuidade da farra. Pelo menos é isso que mostrou ontem o blog Transparência RJ que mostrou que apenas no mês de Agosto foram concedidos mais de R$ 13 milhões em isenções fiscais, incluindo mais de R$ 3 milhões para a multinacional Coca-Cola fazer suas vendas no chamado Boulevard Olímpico (Aqui!) (ver tabela abaixo com todos os “premiados” do mês passado).

premiados

Uma curiosidade a mais nessa lista de “generosidades” foi a concessão de R$ 6.082.272,29 para a Tim Brasil, subsidiária da multinacional Telecom Italia, que banca o basquetebol profissional do Clube de Regatas do Flamengo.

O que mais esta revelação do Transparência RJ é que enquanto se usa o discurso da crise para asfixiar escolas, hospitais e universidades estaduais, o (des) governo Pezão/Dornelles continua sendo extremamente generoso com as corporações que, por sua vez, podem jogar o papel de Midas com o dinheiro público.

Por essas e outras é que o Rio de Janeiro é hoje mais conhecido como a “república dos guardanapos”. O problema é enquanto as corporações recebem generosidades, a população padece com a destruição do serviço público.

(Des) governo do RJ veta acesso a grandes beneficiários de isenções fiscais

A imagem abaixo vem da página do deputado estadual Eliomar Coelho (PSOL) no Facebook (Aqui!)  e nos dá conta de vetos impostos pelo (des) governador em exercício Francisco Dornelles em dois artigos  da lei que criou Fundo de Equilíbrio Financeiro do Estado, o qual será capitalizado com 10% do valor de algumas isenções fiscais.

veto transparência

E quais artigos foram vetados por Francisco Dornelles? O primeiro artigo vetado é que exigia a divulgação das 100 empresas que mais recebem benefícios fiscais no estado. Já o segundo era o artigo que obrigava que todo o valor depositado no Fundo, assim como a sua destinação, fosse publicizado.

E por que será que Francisco Dornelles vetou dois artigos que colocariam um mínimo de luz sobre a verdadeira farra das generosidades fiscais concedidas a partir do primeiro mandato de Sérgio Cabral, e que está sendo continuada agora por ele e por Pezão?

A explicação mais provável é que se soubermos quem são os beneficiados pela farra das generosidades, vamos acabar encontrando ligações umbilicais entre doadores de campanhas eleitorais e até políticos que são sócios ou mesmo proprietários solitários de muitas das empresas que estão sendo isentadas por até 50 anos de pagar impostos, incluindo o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) que é a principal fonte de receita do estado do Rio de Janeiro.

A questão é que enquanto Francisco Dornelles impede que saibamos quem está sendo beneficiado pela farra das generosidades fiscais, a crise seletiva que essa política impõe continua degradando a qualidade do serviço público estadual, ameaçando com o fechamento de hospitais, escolas e universidades estaduais.

Por essa exata razão é que não há como ficar parado em face desse processo que mistura generosidade para empresas e sucateamento impiedoso da coisa pública.

De toda forma, essa ação anti-transparência de Francisco Dornelles é apenas mais uma prova de que a  propalada crise e  o estado de falência do Rio de Janeiro não passa de uma opção seletiva, mas muito mesmo, de como distribuir o dinheiro do contribuinte.

A merda é o ouro dos espertos

olimpi

Menino do morro da Mangueira assiste os fogos da cerimônia de encerramento dos Jogos. CARL DE SOUZA AFP

Por Eliane Brum

A inversão é fascinante. A Olimpíada foi idealizada, em 2009, para colocar no pódio o Brasil grande. A apoteose do eterno país do futuro que finalmente chegava a um presente grandioso. Em 2016, o “sucesso” da festa busca recolocar o Brasil não apenas como o país que – ainda – tem futuro, mas como o país da “superação”.

Não se trata mais, como era em 2009, de lançar a Olimpíada como a imagem que expressa “a verdade final” sobre o país. Em 2016, a Olimpíada é disputada, pelos vários atores, como a imagem capaz de tapar os buracos de um país. E devolver uma unidade, qualquer uma, ou um consenso, qualquer um, a um Brasil partido não em dois, mas em vários pedaços.

Em 2009, a questão era: veja como somos capazes de construir um país. Em 2016, a questão tornou-se: veja como somos capazes de fazer uma festa.

Não dá para tratar essa mudança de paradigma, como tantos têm tratado, como se fosse a mesma coisa. O foco, aqui, são as interpretações simbólicas dessa Olimpíada num momento tão agudo do Brasil. E o papel que exercem sobre a construção da realidade.

Quando dizem orgulhosos que a Baía da Guanabara estava maravilhosa e que o Rio continua lindo, trata-se da festa. A pergunta que trata de um país é: mas a Baía da Guanabara foi despoluída? E a resposta é não. A resposta é: a Baía da Guanabara continua cheia de merda.

Quando dizem eufóricos que nenhum atleta pegou Zika vírus, a pergunta é: mas e a população do Rio? Está salva do Zika e, mais do que do Zika, da dengue? E as mulheres que tiveram e ainda terão crianças com sérios danos cerebrais, têm e terão acesso à proteção e à saúde? Estas são as perguntas que tratam do país – e não da festa.

Quando dizem esfuziantes que o Rio nunca foi tão seguro como nos 17 dias deOlimpíada e que os mais de 80.000 policiais e soldados deveriam continuar nas ruas para defender os cidadãos “de bem”, a pergunta é: e nas comunidades? Morreu gente nas favelas, e não apenas o soldado da Força Nacional Hélio Andrade. Em geral, ele é considerado a única baixa no período dos jogos, já que os demais mortos são aqueles que o país se acostumou a considerar “matáveis”. Pelo menos 31 pessoas morreram e outras 51 ficaram feridas em 95 tiroteios no Rio Olímpico, segundo a Anistia Internacional.Não interessa para a festa? Deveria interessar para o país.

Qual foi o custo financeiro dessa festa (gastos ainda à espera de transparência), para um estado que decretou situação de “calamidade pública” menos de dois meses antes do megaevento, para uma cidade falida e para um país em crise? Quem mede o sucesso ou quem diz o que é sucesso? Ou sucesso para quem? Certamente não para os milhares de “removidos” para a realização das obras.E, importante, sucesso aos olhos de quem? Quando alguém exalta que a Baía da Guanabara estava límpida, o que se entende é que a pessoa comemora o feito de conseguir esconder por duas semanas a merda dos olhos dos “gringos”, a quem interessa mostrar que seguimos bonitos por natureza. E alegres, muito alegres.

A frase no Facebook é cristalina: “Somos um país de pés-rapados, mas arrasamos numa festa”. Diante do país sem rosto, cola-se a cara gasta de sempre, a de que somos muito bons em festa. E na festa somos cordiais, alegres e hospitaleiros. Assim, tenta-se tapar buracos que já não podem ser tapados. Conflitos que já não podem ser encobertos pela “festa da miscigenação”. Mitos em decomposição.

Este é um país em que as cenas de pessoas se espancando por usarem camisetas de cores diferentes se tornaram corriqueiras. Era de se prever que qualquer unidade, onde não há nenhuma, qualquer consenso, onde não há nenhum, seria agarrado por quem disputa a narrativa. É bastante fascinante que a unidade forjada, que o brasileiro único, “O” brasileiro, seja, de novo e mais uma vez, essa pessoa muito boa em festa. É bastante fascinante que os brasileiros, que – ainda bem – já não podem dizer quem são ou o que são, possam ter o conforto de uma identidade fugaz. Ainda que essa identidade seja a de “arrasar na festa”.

O mais fascinante, porém, é que essa narrativa tem se imposto com muito pouca crítica. A Olimpíada se deu com o processo de impeachment em curso. Acabaram os jogos e começou o julgamento da presidente Dilma Rousseff no Senado. Em vez de interpretar os sentidos, disputa-se a autoria do “sucesso”. E, assim, em nome da agenda de ocasião, ou da eleição de 2018, ocultam-se – ou mesmo apagam-se – as contradições. Apresentada – e consensuada pelos vários atores políticos – como um legado de “sucesso”, a quem pertence a Olimpíada é tudo o que passa a interessar. Em vez de disputar o país, disputa-se a festa. É nesse nível o rebaixamento do debate.

É também assim que se invoca, de novo e mais uma vez, o Complexo de Vira-Lata, conceito do cronista Nelson Rodrigues, grande intérprete do futebol e do Brasil do século 20. Obviamente o vira-lata é sempre o outro. A suspeita de que a Olimpíada não iria funcionar – ou “dar certo” – seria fruto da falta de autoestima dos brasileiros, que se sentiriam inferiorizados diante dos gringos. Cogita-se também a possibilidade de que o verdadeiro vira-lata seja aquele que tem como única medida o olhar dos gringos e que necessita da sua aprovação para saber se tem valor. O curioso é que, na tese da viralatização, usa-se a festa como categoria totalizante. Se em alguns casos isso pode ser só um problema cognitivo, em outros soa como má fé.

É aí que entra um conceito essencial para compreender o momento: “superação”. AOlimpíada de 2009 foi sonhada como o coroamento de um país que já se superou. Ou que já se tornou sua própria promessa, com a melhoria da qualidade de vida de dezenas de milhões e a redução das desigualdades. Uma nação que já havia pavimentado seu lugar entre as grandes economias do mundo, um Brasil de “cidadania plena”, um “país de primeira classe”. Na Olimpíada de 2016, é a superação que passa a ser a qualidade de todo um país. A qualidade em si, o moto-contínuo. O looping eterno. O pé-rapado, que continua pé-rapado, mas que arrasa na festa.

É assim que nossos atletas tornam-se sempre “histórias de superação” a serem enaltecidas. Gente como Rafaela Silva e Isaquias Queiroz. Se eles superaram todas as desigualdades e assimetrias do Brasil e tornaram-se atletas capazes de ganhar medalhas no pódio, é um orgulho para eles. Mas é imperativo lembrar que venceram apesar do Brasil. E esse fato deveria ser motivo de vergonha para o país.

Consumido pela máquina de fazer dinheiro que envolve mídia e megaeventos, o que é exceção – vencer contra tudo e contra todos – é convertido em qualidade totalizante. Assim, é o Brasil inteiro que se torna o país “da superação”. É a Olimpíada “da superação”. O que deveria ser vergonha, o fato de o país não garantir a base mínima para suas crianças e jovens desenvolverem suas potencialidades no esporte – e também na matemática e na literatura –, é convertido em orgulho nacional.

Essa falsificação serve a muitas coisas. Entre elas, enriquecer muita gente e alimentar o entretenimento disfarçado de jornalismo de algumas redes de TV. Serve ainda a algo bem perverso, com graves consequências na vida concreta do país, que é estimular a crença de que basta ter vontade pessoal para conseguir vencer num país em que a maioria vive em terra arrasada, em escolas arrasadas, em insegurança alimentar, seja por desnutrição ou por obesidade. Assim, se você não vence, é problema seu. O Estado é deresponsabilizado, as distorções históricas são apagadas. E, portanto, não há razão para pensar em redistribuição de renda ou em reforma agrária ou em demarcação de terras tradicionais. O brasileiro, esse unicórnio, se supera. É pé-rapado mas arrasa numa festa.

É o discurso de Galvão Bueno, da Rede Globo, calculadamente lacrimoso: “O esporte é a ferramenta que faz Rafaela Silva, nascida na pobreza da Cidade de Deus, e o supercampeão Bernardinho, filho da classe média carioca, dividirem o mesmo sonho e chegarem ao mesmo lugar”. Qual é a mensagem dessa igualdade forjada em um dos países mais desiguais do mundo? No país da superação, não é preciso tocar nos privilégios, porque tudo depende da força de vontade individual. A capacidade de superação é mística fartamente distribuída onde a renda é concentrada na mão de poucos – e dos mesmos.

Deveria produzir alguma interrogação o fato de que alguém como Galvão Bueno, com tudo o que é e representa, tenha se tornado uma espécie de porta-voz do espírito olímpico. Discursos semelhantes ao dele, de exaltação da Olimpíada, foram repetidos até mesmo por intelectuais que até ontem exibiam pensamento complexo. Não só pela direita, mas também pela esquerda.

Para parte da direita, trata-se, entre outras coisas, de garantir que o país tem unidade para seguir após o impeachment, com a agenda conservadora em curso. O Brasil é o que sempre foi, o período Lula-Dilma apenas uma interrupção momentânea. Para uma parcela da esquerda, o ponto é garantir a Olimpíada como um legado usurpado de Lula, caso ele chegue às eleições de 2018. Em nome dos projetos de poder, sacrifica-se a complexidade e forja-se o consenso oportunista. O que não cabe na versão é relegado a questões de menor importância.

Mais uma vez, em nome da agenda de ocasião, parte da esquerda se cala diante das tantas falsificações da Olimpíada da Superação. E reedita uma espécie de conciliação imagética, uma espécie de trégua olímpica, com a mesma mídia que no restante do tempo acusam de golpista. Disputa-se a assinatura do espetáculo, o sucesso já foi pactuado.

Na mística da superação, quando aqueles que deveriam se superar sofrem uma derrota, são punidos como se traíssem todo um país. É neste momento que os conflitos aparecem, e o racismo, a homofobia e o machismo do povo alegre que arrasa numa festa explodem. Como tão bem compreendeu Rafaela Silva, que ao ser derrotada na Olimpíada de Londres, em 2012, foi chamada de “macaca” nas redes sociais, em tal volume e virulência que quase desistiu do judô. Em 2016, ao ganhar o ouro na sua categoria, virou heroína nacional. Ninguém dúvida que, se perdesse, seria de novo “macaca”.

A nadadora Joanna Maranhão conheceu bem a “cordialidade” do povo brasileiro ao ficar fora da semifinal dos 200m borboleta. Joanna, que anos atrás teve a coragem de denunciar que foi abusada por seu técnico quando menina, ouviu nas redes sociais que, por ter perdido, “deveria ser estuprada novamente”. O Brasil é homofóbico, machista, racista e xenófobo, denunciou Joanna, desafiando o país alegre e hospitaleiro – ou “o povo que se comportou muito bem nesta Olimpíada”. Joanna e Rafaela exibiram maturidade ao não se deixarem engolir pela máquina de entretenimento. Ao contrário, arriscaram-se a expor os conflitos quando ninguém queria saber deles.

O país não fracassa quando um atleta perde numa Olimpíada. Brasileiras como a judocaRafaela Silva são vitoriosas apenas por chegarem vivas à idade adulta. Alcançar uma Olimpíada, ganhando ou não, é uma enormidade. O Brasil fracassa porque no mesmo período da Olimpíada em que Rafaela subiu ao pódio, jovens como ela foram executados a tiros bem perto dali.

O “sucesso” – ou a “superação” – do Brasil olímpico parece ser o de ter conseguido esconder dos olhos dos gringos a merda toda por duas semanas. E não apenas a da Baía da Guanabara. É verdade que um país pode ser medido não pelo seu sucesso, mas pela régua com que mede seu sucesso.

A Olimpíada, como conceito fechado, é grandiosa. Os atletas se dedicam duramente para fazer desse momento um espetáculo, para criar beleza. Fizeram espetáculo mesmo naOlimpíada de Berlim, em 1936, na Alemanha nazista. Uso esse exemplo radical porque ele ajuda a deixar mais claro que uma Olimpíada não pertence apenas aos atletas nem serve apenas à celebração dos povos. Parece óbvio, mas não é o que temos visto em tantas justificativas. Os usos de uma Olimpíada, assim como as narrativas sobre ela, são políticos, no sentido amplo (e seguidamente também no rasteiro). E a forma como cada um dela participa também é política.

É neste campo que chamo a atenção para “o Brasil provou que sabe fazer uma Olimpíada”. Há que se ter muito cuidado com quem coloca algo tão complexo na perspectiva do pessimismo/otimismo. Há que se ter considerável delicadeza mesmo com o conceito do Complexo de Vira-Lata. Não se sabe se ele foi revivido porque de fato faz eco, ou pela incapacidade de criar conceitos originais para um momento tão desafiador do Brasil. Tendo a apostar mais nesta segunda hipótese – e sigo defendendo que nossa crise é também de palavra. De linguagem e de estética.

Há uma diferença entre ser capaz de fazer uma festa, a medalha de ouro de 2016. E ser capaz de construir um país, a medalha de ouro de 2009. É preciso marcar essa diferença para não perder a Olimpíada do dia seguinte.

FONTE: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/08/29/opinion/1472475226_988894.html

Um incômoda pergunta no Rio pós-olímpico: vai ter salário?

Passadas as plumas e paetês da festa de encerramento do megaevento esportivo de propriedade do Comitê Olímpico Internacional (COI) e que rendeu bilhões de dólares não apenas ao dono, mas também a todas as corporações associadas, o Rio de Janeiro volta a ter que se defrontar com a sua dura realidade. 

É que enquanto bilhões de dólares partiram para outras regiões do planeta, aqui sobraram dúvidas e incertezas, principalmente para funcionários públicos e aposentados. O fato é que passada a pressão para que pudéssemos parecer um local minimamente funcional, agora voltamos à nossa efetiva realidade.

Enquanto um vídeo amador já mostrava que os esgotos já estavam jorrando livremente na Praia de Botafogo minutos após a passagem dos corredores olímpicos, as redes sociais continuavam alertando para outras incursões violentas em comunidades pobres em diferentes regiões da cidade do Rio de Janeiro.

De quebra, os cariocas já estão sendo avisados que vão irão brevemente receber contas de eletricidade mais salgadas por conta do uso excessivo de energia elétrica nas dependências olímpicas. Assim, mesmo quem não quis ter nada a ver com o pato, vai pagá-lo.

A verdade é que as faturas vão continuar aparecendo para cobrar mais dinheiro público para um evento que deveria ser custeado com dinheiro privado. Mas qual que, esse foi só um discurso arrumado para o “Circus Maximus” funcionando e sem maiores atribulações. Agora que o show se moveu para Tóquio, é que vamos ver como as coisas realmente vão ficar. E de cara, parece que não vão ficar nada bem.

A minha expectativa é que em face dessa situação toda as pessoas comuns comecem a questionar as opções feitas pelos (des) governantes do PMDB e resolvam cobrar a fatura nas eleições municipais. É que para tudo um limite, inclusive para a quase inesgotável paciência dos brasileiros.

Jogos Olímpicos: a ressaca depois da festa e as dívidas impagáveis

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O jornal inglês “The Guardian” publicou hoje uma ampla matéria escrita pelo cientista político Luís Eduardo Soares sobre a ressaca que inapelavelmente se abaterá sobre o Rio de Janeiro após o encerramento dos Jogos Olímpicos  (ver imagem monstrando uma reprodução parcial da matéria).

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A abordagem tomada por Luís Eduardo Soares vai além dos clichês patrióticos que ressaltam uma suposta capacidade do brasileiro em produzir grandes coisas, desafiando desconfianças que apenas refletiriam um suposto complexo de vira lata no plano interno, e de um imperialismo cultural no plano externo.

Luis Eduardo Soares também vai além ao colocar a herança problemática para além das dívidas impagáveis quando ressalta o tipo de transformação segregacionista que foi operada na cidade do Rio de Janeiro, deixando como resultado uma cidade ainda mais dividida e, pior, sem liderança ou direção a seguir. 

Luis Eduardo Soares encerra dizendo que  o Rio de Janeiro é bom quando apresenta sua face espetacular, mas com problemas graves no seu cotidiano. E essa característica, somadas todas as dívidas e obras inacabadas é que seriam a base de uma ressaca que começará já nesta segunda-feira.

Quem desejar ler a matéria completa, basta clicar (Aqui!)

The Guardian mostra o lado B dos Jogos Olímpicos Rio 2016

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Ainda que com erros e exageros localizados, a cobertura que a mídia internacional está dando do chamado “Lado B” dos Jogos Olímpicos em vias de encerramento na cidade do Rio de Janeiro é muito reveladora de que nem tudo é dourado sob os arcos olímpicos do COI.

Um exemplo disso é a matéria que acaba de ser publicada online pelo jornal inglês “The Guardian” e que leva a assinatura de Jonathan Watts com um título em português que poderia ser lido como “O assassinato de residentes de favelas continuam enquanto os Jogos seguem em frente no Rio de Janeiro”  (Aqui!) (ver reprodução parcial abaixo).

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Além de dar voz de residentes da Vila do João que estão sofrendo um verdadeiro cerco, e que já resultou em várias mortes, após o incidente fatal que vitimou um militar da Força Nacional, Watts chama a atenção para o fato de que para proteger atletas e turistas, o Estado brasileiro recheou toda a região que leva até o aeroporto internacional do Galeão com tropas militares. Entretanto, como bem colocou um dos moradores entrevistados, para os moradores mesmo é que sobra é o terror de viver entre o fogo cruzado criado pelos confrontos das forças militares com narcotraficantes. numa condição que beira um estado de sítio não declarado.

Watts chama ainda a atenção de seus próprios colegas da mídia internacional que estão gastando rios de tinta para noticiar o falso assalto envolvendo membros da delegação dos EUA, enquanto pouco ou nada se fala sobre a militarização dos espaços ocupados pelos pobres.

A matéria é encerrada com uma comparação nada abonadora de um morador da Favela da Maré que declarou a Watts que “ao contrário das competições de tiros das Olimpíadas, os alvos na vida real são pessoas negras que estão mortas de medo”.

Enquanto isso na mídia corporativa brasileira o que se ouve são patriotadas e demonstrações contínuas de misoginia e desrespeito.

23 anos da Uenf são marcados pela disposição de resistir ao projeto de destruição do (des) governo Pezão

Foto historia ingles

A Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) celebra hoje (16/08) os seus 23 anos de existência em meio a uma forte incerteza quanto ao seu futuro que se encontra ameaçado por uma política de destruição deliberada por parte do (des) governo liderado por Luiz Fernando Pezão e Francisco Dornelles.

O fato inescapável é que após transcorridos quase 8 meses do ano de 2016, a Uenf não viu a cor do dinheiro necessário para poder funcionar em condições mínimas. As dívidas acumuladas beiram os R$ 20 milhões, ameaçando atividades essenciais que comprometem duas décadas de conhecimento acumulado.

Mas esqueçamos um pouco a crise para celebrar as inúmeras conquistas que esta jovem instituição já alcançou em pouco mais de duas décadas. Com programas de pós-graduação tendo formado quase 1.000 mestres e quase 700 doutores, a Uenf também já recebeu duas vezes o prêmio nacional oferecido pelo Conselho Nacional de Pesquisa e Tecnologia (CNpq) em função da alta qualidade do treinamento de pesquisadores em nível de graduação para adentrarem a pós-graduação. Além disso, a Uenf tem sido constantemente bem avaliada pelo Ministério da Educação no tocante aos seus cursos de graduação.

Essas conquistas não são pequenas e expressam de forma objetiva a importância que a Uenf tem não apenas para o estado do Rio de Janeiro, mas também para Minas Gerais e Espírito Santo de onde se originam muitos dos membros do seu corpo estudantil. 

Em função disso é que a asfixia financeira imposta à Uenf representa um ataque indesculpável à universidade pública brasileira. Nesse sentido, é importante ler e divulgar a carta à população que foi publicada hoje pela Associação de Docentes da Uenf (Aduenf) e que apresenta de forma mais acabada o sentimento existente dentro da universidade em face dos ataques que estão sendo desferidos pelo (des) governo do Rio de Janeiro (ver reprodução integral do documento logo abaixo). 

carta população

E esse sentimento é de disposição para continuar o processo de resistência. É que dada a importância que a Uenf possui para além de seus muros, não haveria outra posição a ser adotada.

E como finaliza a carta da Aduenf, eu repito: Longa vida à Uenf! E aos que querem propositalmente destruí-la enquanto universidade pública, eu aviso: Não passarão!