O (des) governo Pezão/Dornelles asfixia financeiramente a Uenf às vésperas 23o. aniversário. Mas resistir é uma obrigação!

23 anos

Após quatro meses de greve, os professores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) decidiram suspender temporariamente o movimento, ainda que nenhuma de suas reivindicações tenha sequer sido tratada com um mínimo de seriedade pelos representantes do (des) governo que, ironicamente, dispensa semanalmente milhões de reais em esquisitas “generosidades fiscais”. Esta parada permitirá que as celebrações oficiais pelo 23 anos de existência da universidade ocorra com uma superfície tênue de normalidade. 

Entretanto, a maioria dos professores presentes na assembleia realizada no dia de ontem (09/08) decidiu de forma sábia condicionar o retorno das aulas à garantia de que a volta das aulas se dará com um mínimo de segurança e com o fim da situação vergonhosa que aflige os servidores terceirizados que atuam na segurança do campus Leonel Brizola que estão trabalhando sem receber seus salários. Isto, aliás,  tem similaridades dentro de todo o serviço público estadual, onde empresas contratadas pelo Estado não estão cumprindo suas obrigações com os terceirizados.

No caso da Uenf, a situação é dramática já que não houve qualquer repasse de verba para custeio das atividades essenciais, o que acarreta uma dívida atual de pelo menos R$ 20 milhões de reais com contas de água, eletricidade, telefone e insumos básicos para pesquisa e ensino.

A grande questão é que sem o aporte de recursos mínimos, as aulas podem até voltar na Uenf, mas com custos altíssimos para a qualidade das atividades que são realizadas na instituição.   E o pior é que não há por parte dos representantes do (des) governo do Rio de Janeiro, seja no legislativo ou no executivo, qualquer disposição de se comprometer com qualquer aporte, por minimo que seja. O plano assim parece claro: asfixiar a Uenf até a morte enquanto universidade pública e gratuita, provavelmente para entregá-la a uma empresa de educação como muitas que hoje ganham bilhões de reais em troca de um ensino de baixíssima qualidade.

Sem esquecer que as unidades da rede estadual e da Faetec estão sob a mesmíssima situação, o caso da Uenf é particularmente emblemático porque a universidade logrou em menos de um quarto de século se tornar uma das melhores instituições de ensino superior da América Latina.  E há que se destacar que com um número pequeno de servidores e professores, a Uenf possui dezenas de cursos de graduação e pós-graduação e uma forte atuação também  na área de extensão.

Em suma, quando o governo do PMDB ataca a própria sobrevivência da Uenf, esta ação implica num ataque frontal às regiões Norte e Noroeste Fluminense e, por extensão, a qualquer possibilidade de que sua população possa se beneficiar de uma universidade pública de qualidade. É que, ao mesmo tempo em nega verbas mínimas para uma universidade pública altamente qualificada, bilhões estão sendo entregues a todo tipo de empresa, muitas sem qualquer contribuição para o desenvolvimento do Rio de Janeiro.

Entretanto, a Uenf já se provou mais forte de que todos os governos que já tentaram precarizá-la no passado. A força do modelo institucional idealizado por Darcy Ribeiro é tamanha que mesmo (des) governos como o liderado por Luiz Fernando Pezão passaram e a Uenf cresceu e se fortaleceu. Deste modo, há sim que se celebrar o aniversário da Uenf, pois sua existência tem sido uma demonstração de que é possível construir uma sociedade mais justa e com oportunidades para todos os setores da sociedade, mas principalmente para os mais pobres e marginalizados.

E aos (des) governantes do Rio de Janeiro e seus apoiadores políticos dedico o “Poeminha do Contra” do poeta gaúcho Mario Quintana:

“Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!”

Engenharia financeira subvalorizou terrenos públicos no Porto Maravilha

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Dois imóveis da União foram avaliados muito abaixo do valor de mercado, segundo documentos obtidos pela Pública. Entenda essa história

Por Adriano Belisário

Durante o primeiro semestre de 2010, por meio da prefeitura e da Caixa Econômica Federal, o PMDB do Rio liderou a articulação do atual arranjo do Porto Maravilha, que faz jus ao título de “engenhosa operação financeira” dado pela Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (Cdurp). Esse órgão do município comprou terrenos públicos da região, repassando-os, pelo mesmo preço, a um fundo imobiliário administrado pela Caixa, o Fundo de Investimento Imobiliário do Porto Maravilha (FIIPM).

Por sua vez, o Fundo os negocia no mercado, provendo recursos para a Concessionária Porto Novo (Odebrecht, OAS e Carioca Christiani Nielsen) executar as intervenções e serviços previstos na maior parceria público-privada (PPP) do Brasil. Então, para construir, as incorpordoras compram ou negociam Certificados do Potencial Adicional de Construção (Cepacs), que permitem a construção de mais andares do que o permitido pela legislação. Assim o Porto Maravilha pode receber grandes arracha-céus e hoteis de luxo.

A reportagem descobriu que em 2010, enquanto acertava a entrada do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) na operação para garantir o pagamento da PPP, a Caixa subavaliou dois terrenos fundamentais para alavancar a operação. Ambos pertenciam à Secretaria do Patrimônio da União (SPU), do Ministério do Planejamento. E depois o próprio banco comprou os imóveis e os disponibilizou no mercado, favorecendo assim as empresas que negociam na região.

 

Documentos internos do governo federal analisados pela Pública revelam que, em julho de 2010, a Caixa chegou a avaliar o Pátio Ferroviário da Marítima – de 116.125 m² – a R$ 373,8 reais por metro quadrado, enquanto o mercado imobiliário negociava terrenos naquela área, próxima à Cidade do Samba, por R$ 3 mil a R$ 4 mil por metro quadrado. Nessa mesma avaliação, de junho de 2010, outro terreno cobiçado, o Pátio da Praia Formosa, uma área de 23.809 m² próxima à rodoviária do Rio, foi avaliado em R$ 212,7 por metro quadrado.

A Secretaria do Patrimônio questionou o cálculo em ofício enviado em agosto de 2010. Elencou dez problemas com os critérios de avaliação. Entre eles, o fato de que os laudos da Caixa “não incorporam as expectativas de valorização da área e o impacto do projeto de revitalização” e desconsideraram o uso misto (residencial e comercial) previsto pelo projeto do Porto Maravilha.

Ofício-nº-662

“A avaliação estava muito abaixo do aceitável. Havia uma pressão da prefeitura para que as áreas entrassem para o fundo por um valor muito abaixo do valor venal, de forma injustificável. O Ministério do Planejamento chegou a solicitar uma nova avaliação, porém foi orientado pela Presidência a não intervir no assunto”, relata um representante do governo federal que acompanhou de perto as negociações.

Após questionamentos, inclusive no Conselho de Administração da Caixa, os terrenos foram de fato repassados para o FIIPM em 2012 com valores um pouco maiores: o Pátio da Marítima foi encaminhado por R$ 19 milhões (R$ 813,9/m2) e o terreno da Praia Formosa por R$ 53 milhões (R$ 457,3/m²). Em novembro de 2010, a partir de uma amostragem definida pelos avaliadores, o prospecto do Porto Maravilha estimava o metro quadrado da região entre R$ 620 e R$ 1.810.

De acordo com Jorge Arraes, presidente da Cdurp à época, hoje à frente da Secretaria Especial de Concessões e Parcerias Público-Privadas (Secpar) da prefeitura, no caso do Pátio da Marítima, o valor final foi 17% menor: “O valor que foi calculado ali foi para domínio pleno. Não atentamos para o fato de que a lei permitia só comprar o domínio útil. Ficamos com um crédito e depois a União ressarciu a prefeitura em terrenos por essa diferença”.

De acordo com dados de 2014 da Cdurp, o valor geral de vendas (VGV) estimado para o Pátio da Marítima é de R$ 1,8 bilhão e o da praia Formosa, R$ 7,8 bilhões. O índice mensura o potencial de faturamento de um empreendimento. O valor da transferência para o fundo do FGTS correspondeu a cerca de 1% do VGV estimado dois anos depois.

“Entre 2010 e 2012, construtoras e incorporadoras chegavam a desembolsar 40% do valor do VGV em terrenos onde empreendimentos com grande liquidez e apelo pudessem ser construídos, o que me parece ser, claramente, o caso dos imóveis situados no Porto Maravilha”, atesta Raphael Ferreira, advogado e perito em avaliação imobiliária.

Dentre os terrenos públicos considerados fundamentais para a operação (veja o mapa abaixo), o Pátio da Marítima e o Praia Formosa destacam-se por terem sido transferidos para o FIIPM a um valor bem menor do que outros, como o Clube dos Portuários, Cedae, Gasômetro e Galpão do Aplauso. Estes foram negociados entre o segundo semestre de 2013 e o primeiro de 2014 com valores que variam entre R$ 1.452 e R$ 1.999 por metro quadrado.

Jorge Arraes explica as discrepâncias com base no tempo. Segundo ele, por ter sido feita com a operação Porto Maravilha a pleno vapor, a avaliação dos outros terrenos públicos já refletia a valorização dos imóveis na região. “À medida que as obras foram acontecendo e o programa ganhando credibilidade, o terreno foi se valorizando”, explica. No entanto, a Usina do Asfalto – terreno do município próximo da Praia Formosa – também foi repassado em junho de 2012. Foram pagos R$ 41 milhões, o que significa R$ 2.807 por metro quadrado – 5 vezes mais do que Praia Formosa.

Certificados do Potencial Adicional de Construção, mais conhecidos como Cepacs

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Cepacs são títulos imobiliários que podem ser negociados na bolsa de valores por meio da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Eles permitem a construção, em determinadas áreas, de mais andares do que o permitido pela legislação anterior da cidade. Por meio da Lei Complementar 101, de 2009, que modifica o Plano Diretor da cidade, o Porto Maravilha fatiou a região em zonas, como mostra o mapa acima. Para usufruírem desse potencial extra de construção, as empresas devem comprar os Cepacs do fundo do FGTS, que espera lucrar com a valorização da região.

Pertencentes à extinta Rede Ferroviária Federal, o Praia Formosa e o Pátio da Marítima estavam à espera de uma expansão dos ramais de trens que jamais aconteceu. Quando foram de fato transferidos para o FIIPM, em 2012, os terrenos eram ocupados pelo Consórcio Porto Novo e por escolas de samba como Vizinha Faladeira e Santa Cruz.

O Pátio da Marítima foi então negociado com a incorporadora americana Tishman Speyer, que está construindo um prédio corporativo de alto padrão com 21 andares. Em troca da cessão do trecho do terreno necessário para a construção e quase 195 mil Cepacs, o fundo imobiliário da Caixa será dono de 22% da área construída.

Parte do Praia Formosa foi negociada com a sociedade conhecida como Solace, formada pelo trio de empresas do Porto Novo, mais a REX, do empresário Eike Batista, e a ZI Participações. O grupo constrói um empreendimento residencial e um hotel. Além das terras, foram cedidos 68 mil Cepacs em troca de 26% da área a ser construída. Porém, até o momento, os sofisticados imóveis residenciais não foram concluídos – e não há previsão para isso. A empresa responsável pela construção limitou-se a informar à Pública que “o projeto e o cronograma de obras estão sendo readequados”.

Triangulação suspeita

Segundo a cientista política Betina Saruê, que estuda o Porto Maravilha, as terras que passaram por esse mecanismo financeiro acabaram voltando para a União, mas com menos controle e mecanismos de garantias. “A Caixa negocia o uso dos terrenos de acordo com o apetite do mercado [imobiliário]. Não existe a garantia de um percentual para uso habitacional”, diz.Como a Cdurp repassou os imóveis ao fundo do FGTS pelo mesmo valor adquirido, e este os negociou com o mercado imobiliário, a possível subvalorização favoreceu às incorporadoras que investem na região, aponta Mariana Werneck, mestre em planejamento urbano pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Na hora de negociar com o FGTS um negócio neste terreno, é claro que o investidor vai entrar com menos e, com a perspectiva de valorização no futuro, ele lucra mais. E os maiores investidores da região são as próprias empresas [Odebrecht, OAS, Carioca] que também participam da PPP”, diz a pesquisadora, cujo trabalho Porto Maravilha: agentes, coalizões de poder e neoliberalização no Rio de Janeiro será integralmente publicado no mês que vem pelo Observatório de Metrópoles. Ou seja: se o terreno vale menos, a incorporadora precisará investir menos quando entrar no negócio. “A subvalorização azeita a estrutura do Porto Maravilha, que introjeta a lógica de mercado no governo, mercantilizando terrenos públicos para um projeto privatizante e segregador”, diz.

Cdurp, Caixa e PMDB do Rio: uma sinergia especial

Entre 2007 e agosto de 2010, a vice-presidência de Fundos de Governo e Loterias da Caixa (Vifug) era ocupada pelo peemedebista Moreira Franco, ex-governador do Rio de Janeiro e atual secretário executivo do Programa de Parcerias e Investimentos do governo interino de Michel Temer. O cargo lhe garantia ingerência sobre o FGTS, que no final de sua gestão se transformou no principal fiador da operação do Porto Maravilha.

Ao lado de Jorge Arraes (secretário do município, então presidente da Cdurp) e Jorge Hereda (então presidente da Caixa), o prefeito Eduardo Paes segura o "checão" da Caixa, simbolizando a compra, em 2011, dos Cepacs em lote único (Foto: Prefeitura do Rio de Janeiro)

Desde sua criação, antes mesmo do anúncio oficial da entrada do FGTS, a Cdurp já apresentava uma sinergia especial com a Caixa. O comando do órgão recém-criado foi delegado a Jorge Arraes, que é ex-diretor imobiliário do fundo de pensão dos funcionários da Caixa. Ele escalou três ex-funcionários do fundo para assumir importantes postos na área financeira.

Forjada no primeiro ano do mandato inicial de Eduardo Paes, a operação financeira do Porto Maravilha foi consagrada em junho de 2011, quando a Cdurp vendeu todos os Cepacs ao FGTS por R$ 3,5 bilhões em um leilão de lote único. “O leilão da compra dos Cepacs foi uma encenação. O leilão foi feito para o FGTS. O edital expunha os termos acordados entre Cdurp e Caixa ao longo de meses de negociação”, aponta Mariana Werneck.

A Procuradoria-Geral da República (PGR), a Justiça do Rio, a Polícia Federal, delatores da OAS e Carioca Engenharia sustentam que Eduardo Cunha (PMDB-RJ) cobrou pelo menos R$ 52 milhões (1,5% do R$ 3,5 bilhões) em propina para liberar o dinheiro do fundo de infraestrutura do FGTS para o Porto Maravilha, por meio da Caixa. Entre os beneficiários, além do próprio Cunha, estaria Fábio Cleto, que assumiu a vice-presidência responsável pelo FGTS após Moreira Franco ter deixado o cargo. Além da indicação de Cleto, Cunha teria tido participação na indicação de Alexandre Gadelha para a presidência da Companhia Docas do Rio de Janeiro, que também possuía terrenos na zona portuária.

Sobre as acusações investigadas pela Lava Jato, Eduardo Cunha afirmou peremptoriamente que nãorecebeu nem combinou “com quem quer que seja, qualquer vantagem indevida, de nenhuma natureza.

Procurada pela reportagem, a Caixa não respondeu aos questionamentos da Pública.

Crédito da imagem destacada: Bruno Bartholini

FONTE: http://apublica.org/2016/08/engenharia-financeira-subvalorizou-terrenos-publicos-no-porto-maravilha/

Crise? Que crise? Seletiva, é claro!

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As universidades estaduais, escolas da rede estadual e hospitais públicos continuam literalmente ao Deus dará. A Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) que completa 23 anos de existência na próxima semana ainda não possui qualquer garantia de que receberá sequer recursos mínimos para voltar a funcionar plenamente em 2016.

Sempre que instados a responder quanto irão oferecer de recursos emergenciais para uma das melhores universidades do Brasil, os representantes do (des) governo Pezão/Dornelles dizem que não há como garantir qualquer coisa até que a Secretaria de Fazenda libere um centavo que seja, tal seria “a crise financeira do estado”.

Pois bem, esqueçamos dessa conversa mole porque é simplesmente mentira. Vejamos o que mostrou hoje a jornalista em sua coluna no jornal Extra e que desmascara completamente os argumentos falaciosos que são oferecidos pelo (des) governo do Rio de Janeiro.

 

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A verdade, como revelada pelo deputado estadual Eliomar Coelho (PSOL) é que a farra das isenções fiscais continua firme e forte, em que pesem todas as evidências de que essa política fiscal é prejudicial aos interesses estrategicos do Rio de Janeiro.

Agora, me digam, o que explicaria a continuidade de isenções para joalherias, laboratórios farmacêuticos e uma gigante da telefonia? Para mim apenas uma decisão bem pensada de privatizar o estado em todos os níveis para beneficiar empresas e prejudicar a maioria da população que precisa de serviços públicos de qualidade.

As Olímpiadas e o dono da voz

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Por Lúcio de Castro (arte de Janio Santos)

A contagem regressiva já começou. Podem ficar tranquilos. Não vai demorar nada. Logo nos primeiros dias de Olimpíadas, alguém fazendo pose de grande intelectualidade irá disparar: “o brasileiro tem um problema sério emocional que pesa muito na hora de decidir e precisa ser resolvido”. Ao ouvir isso, mais uma vez me lembrarei da frase com a qual Gerardo Caetano, historiador uruguaio dos bons, costuma definir algumas situações: “quem fala algo assim, ou não sabe de nada ou sabe muito”.

E me lembrarei mais uma vez de 2008, do outro lado do mundo. Corriam os jogos de Pequim. Lá pela terceira final que algum brasileiro perdeu, escutei um diretor do lugar onde eu trabalhava chegar perto das pessoas que iriam entrar no ar e soprar, como se estivesse propondo grande reflexão: “é preciso levantar o debate da fragilidade emocional dos brasileiros. Sempre falhamos na hora de decisão”. Por coincidência, no dia seguinte, numa roda de imprensa, Carlos Arthur Nuzman, todo-poderoso cartola, deixava escapar, quase como quem fala em off e deixa o mais desavisado repórter naquela excitação, com o sentimento de que arrancou algo fora da pauta. “É preciso levantar o debate da fragilidade emocional dos brasileiros. Sempre falhamos na hora de decisão”, ou algo bem próximo. E seguiu falando na necessidade de trabalhar esse psicológico. Detalhe: aquela sincronia de discursos cartola/diretor não era ocasional. Eram muito próximos. Unha e cutícula.

Já tinha visto isso antes. Em Sydney, 2000, a cada insucesso vinha o discurso. O americano Karch Kiraly, considerado o maior jogador de vôlei de todos os tempos, foi muito mais preciso em seu diagnóstico na ocasião. “Tudo é uma questão da base do sistema esportivo. Nossa base é maior, tiramos um atleta para o alto nível de um grupo de milhares. É normal para todos os seres humanos sentir aqui e ali. Acontece com todo mundo. Se a base é mais ampla, obviamente teremos mais possibilidades de gente em cima e isso relativiza eventual questão emocional de um ou outro”. Bingo. Em meia dúzia de palavras, disse o óbvio.

A cada ciclo olímpico, o Brasil seguia, como seguiu de fato, aumentando a soma de dinheiro investida na preparação de atletas. Dinheiro público saído de estatais e do governo para o COB e confederações. Dinheiro que muitas vezes teve dificuldade no caminho entre Brasília e a sede da entidade e deu uma diminuída no trajeto, como vimos em alguns casos. Mas o sistema esportivo, o trabalho de base, o trabalho nas escolas, isso que realmente importa, nunca mudou.

Se sobre a época da mineração no Brasil, Eduardo Galeano concebeu a espetacular frase “o ouro deixou buracos no Brasil, templos em Portugal e fábricas na Inglaterra”, podemos chegar perto disso no esporte. O acréscimo de verba no esporte brasileiro deixou ouro para alguns cartolas, contusões para alguns atletas e zero de legado para o sistema esportivo, a base escolar.

E tome de falar que o brasileiro é medroso, que sente na decisão. Um argumento covarde, sórdido, mentiroso, racista, eugênico. Sem base científica alguma. Mais do que isso, sem base histórica alguma. Mesmo na história do esporte. Ou será que era medo daqueles europeus enormes que aquele moleque de 17 sentiu quando deu um balão no gringo e botou pras redes, naquele distante 1958?

E como a história se repete como farsa, essa então se repete como a farsa das farsas. Propagadas ou por inocentes úteis ou por gente muito consciente do que está fazendo. Gente que empresta a voz a soldo, como naquela velha canção do Chico, do dono da voz e da voz do dono. Em um jornalismo cada dia mais de cócoras, onde o cinismo e o saber o lado do dono da voz para emitir a opinião imperam cada vez mais, prepare-se: faltam poucos dias para ouvir a velha cantilena.

Quem já se esqueceu de 2014? Faz tão pouco tempo… a Granja Comary parecia uma festa. Em meio a preparação de uma seleção, desciam helicópteros dos céus. Apresentadores de TV, caldeirões, porta da esperança, amigos do rei, patrocinadores. Sem falar nos anos de desmando de um futebol cuja cartolagem sequer pode pisar fora do país para não pegar xilindró. Por roubo. Foi nessa toada que os anos foram nos defasando, desbotando. E aí, quando vimos, era tarde… era 7 x 1. Os de sempre começaram a falar no tal emocional. Foi tão batido que triunfou naquele momento. Como a história não tem pressa, e mentiras tem tempo de validade, perdeu-se no tempo. Dois anos depois, ninguém mais acredita em algo assim. Até para o mais arrivista dos arrivistas a tese caiu de maduro. Temos problemas graves em nossa estrutura de futebol. Ponto. Os mesmos que diziam ser frágeis por aqui, cansam de vencer lá fora. Caiu de podre a tese.

Mas já se esqueceram disso tudo. Vai irritar a ingenuidade de alguns e a desonestidade de outros quando o debate sobre “a fragilidade emocional dos brasileiros” começar, poucos dias depois da pira olímpica ser acesa.

No fundo, é um processo e uma construção que conhecemos ao longo de nossa história. Se o esporte é metáfora da vida, como se gosta de dizer e tem lá um tanto de verdade nisso, não são diferentes as construções que se propõe para analisar um e outro.

Em nossa história, o que tivemos foi um projeto original (ou a ausência dele) que estava previsto desde sempre para o povo brasileiro: ser mão de obra desqualificada, ser escravo, ser trabalhador braçal sem direitos. Parte fundamental (e a mais cruel) desse projeto era fazer com que dominados tivessem a ideologia e cabeça dos dominantes. Por aqui se estabeleceu uma classe dominante mais perversa do que em qualquer outro lugar. Darcy, Capistrano e tantos outros falaram tão bem disso… acreditar que eram incapazes, frágeis, instáveis. Se boa parte desse projeto vem dando certo até aqui e parece de vento em popa nos últimos tempos, nem por isso se pode omitir toda a valentia, coragem, luta e sangue de nossa história. Adoram falar que por aqui se luta pouco mas, de novo por ingenuidade ou desonestidade, só alguém em um desses dois casos pode omitir que apenas um povo muito valente foi de tanta luta.

Serão frágeis emocionalmente os que foram pra rua na Confederação dos Cariris, Revolta da Cachaça, do Sal, Mascates, os confederados do Equador, a revolução Pernambucana. As Conjurações. Mineira, Carioca, a Conspiração dos Suassunas, Praieira, Mascates. Diferentes razões, muitas vezes diferentes camadas sociais, mas, na maior parte delas, o sentimento de ser senhor da própria história. Foram dezenas de revoltas indígenas. Outras tantas escravas e negras. O Maranhão com seus Balaios, a Bahia de tantas e inúmeras revoltas lutas pela independência, da Conjuração, dos Malês, da Sabinada, dos Guanais e da Guerra do Conselheiro, Belém e seus Cabanos, o Rio de João Cândido contra a Chibata e da Vacina e tantas outras que adoro o nome, como “Mata-Galegos”, o sul da Farroupilha, do Contestado, as revoltas paulistas. A Revolta do Vintém, no Rio do fim do século XIX. As mulheres brasileiras, muito a frente do seu tempo, viveram em Natal sua revolta. Tem tanta coisa, tanta história de revolta em nossas páginas… É do mesmo povo frágil emocionalmente que estamos falando? E que vai se falar em programas e debates?

Tudo isso mesmo sendo um povo brutalmente reprimido ao longo dos séculos, massacrado como é até hoje nas favelas como era nas senzalas. Por uma polícia que nasce no Rio, sempre ao lado da Corte. Depois, nos anos 1930 do século XIX, vem as demais, com o intuito inicial e preponderante de reprimir as revoltas populares, que gritavam nas ruas contra a legitimidade do monarca que chegava. Nasce com o DNA e a função preponderante de bater em pobre, preto e povo.

Não surpreende que mais uma vez botem a culpa de eventuais fracassos não no dinheiro que some em contas de cartolas, não na falta de estrutura na base. E sim em uma “fragilidade emocional de um povo”. Sem qualquer respaldo científico. Não surpreende que o 01 dos cartolas olímpicos do Brasil tenha dito um dia que o modelo do atleta deveria ser Robert Scheidt, que, pela formação, seria exemplo de fortaleza emocional. O iatista merece toda reverência. Mas era difícil mesmo imaginar o cartola falando o mesmo do destemido Escadinha, o indomável líbero do vôlei brasileiro, capaz de suportar duas horas de pressão do adversário toda em cima dele. Criado numa favela de Pirituba, certamente não seria um bom exemplo de força emocional como um “alemão”.

Já vai começar. Do meu lugar, sabendo um pouquinho como funciona a engrenagem, estarei rindo tanto dos ingênuos quanto dos desonestos quando começarem a falar na “fragilidade emocional dos brasileiros”. E no fundo, com um tanto de dó, de pena e de compaixão. Porque no fundo, nada é mais triste do que a fragilidade emocional de alguém que empresta sua voz ao dono dela para algo tão desonesto. Compaixão por alguém que, no fundo, assim como na canção do Chico, entrega a voz a um dono e “vai perdendo a luz”.

FONTE: http://www.suplementopernambuco.com.br/artigos/1656-as-olimp%C3%ADadas-e-o-dono-da-voz.html

Observatório das Metrópoles lança dossiê sobre impactos dos Jogos Olímpicos na cidade do Rio de Janeiro

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Em mais uma robusta contribuição acadêmica para a busca de entendimento acerca dos impactos sociais, políticos, econômicos e ambientais da realização dos Jogos Olímpicos na cidade do Rio de Janeiro, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Observatório das Metrópoles lançou um dossiê bilíngue (em português e inglês) intitulado “O que está em jogo nesses Jogos” (ou em inglês What is at stake in these Games?) (Aqui!).

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Entre outras questões, o dossiê mostra que megaeventos esportivos foram transformados em um novo tipo de de negócio no âmbito da globalização e que é caracterizado pela atração de fluxos financeiros, reestruturação de circuítos de circulação e de acumulação local.  Além disso, o dossiê analisa questões como mobilidade urbana, projeto de renovação urbana (por exemplo o chamado Porto Maravilha), a da transparência  pública (ou melhor, falta dela) e o papel do Estado, as parcerias público-privadas, e as violações de direitos humanos no contexto dos Jogos Olímpicos de 2016.

Como já havia mencionado (Aqui!), com a abundante literatura qualificada que está emergindo sobre os diferentes aspectos que cercam as transformações impostas sobre a cidade do Rio de Janeiro, podemos facilmente ultrapassar o uso de chavões ultrapassados como o do “complexo de vira lata” e do “jeitinho brasileiro” para fazermos uma discussão que vá ao cerne das mudanças que estão efetivamente sendo impostas principalmente sobre os pobres, e que vão ter efeitos que irão muito além da duração do megaevento em si.

Quem desejar acessar o documento em inglês, basta clicar (Aqui!). Já para os que desejarem fazer a leitura do documento escrito em português, basta clicar (Aqui!).

Jogos Olímpicos 2016: nem complexo de vira lata, nem gambiarra. Criticar é preciso!

Em meio ao início do megaevento esportivo promovido pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) na cidade do Rio de Janeiro, tenho visto um debate interessante acerca do significado da cerimônia de abertura e do que a mesma revela sobre a capacidade do brasileiro de fazer coisas de qualidade.

De um lado temos pessoas que defendem ardorosamente, ainda que com críticas, a cerimônia de abertura e, por tabela, a cidade do Rio de Janeiro que servem como proxies para que se rejeite aquilo que o dramaturgo Nelson Rodrigues chamava de “complexo de vira lata” que seria a nossa tendência de nos depreciarmos em relação aos povos mais desenvolvidos. 

Enquanto isso, numa forma um tanto cínica de abraçar o complexo de vira lata, temos outros que abraçam o conceito da gambiarra ou se preferirem, o do “jeitinho brasileiro”. Isso, aliás, foi ecoado pelo próprio presidente do COI que na sua fala na cerimônia de abertura disse que os Jogos Rio 2016 seriam a “la brasileira”.  Em suma, toma gambiarra e jeitinho.

Considero ambas as faces da moeda mostrada acima uma besteira. Na verdade, com o tipo de gastos que foram realizados para viabilizar este megaevento (no mínimo R$ 40 bilhões), não deveria haver espaço para gambiarra ou jeitinhos.  

Por outro lado, não há como empurrar as remoções, as grossas evidências de corrupção e a violência policial contra quem protesta para debaixo do tapete.  E isso em nome de quê? De rejeitar o complexo de vira lata? Como dizem os gringos: “come on!”. 

A verdade é que depois que os atletas olímpicos forem embora, teremos montanhas de problemas que não poderão ser empurrados para debaixo do tapete, a começar pelo endividamento público que promete afogar as contas da cidade e do estado do Rio de Janeiro.

Mas a pior consequência da gastança e da violência estatal aparece na imagem abaixo, que retirei da página pessoal no Facebook do fotojornalista Mario Tama (Aqui!), que é a manutenção, e até mesmo o aprofundamento, do apartheid social e econômico que historicamente existe na cidade do Rio de Janeiro.

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Moradores da Mangueira fotografando a queima de fogos realizada na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2016.

Eu particularmente não vejo por que temos que nos calar sobre questões estruturais que existem no Brasil em nome da rejeição do complexo de vira lata. Para  mim, reconhecer que o nosso povo tem todas as capacidades para que possamos construir uma sociedade menos desigual e fraterno é algo óbvio.  Por isso mesmo, é necessário não cair na armadilha de que criticar situações absurdas que persistem em nossa sociedade equivale a incorporar o espírito de vira lara. É que pior de que  “virar lata”, é passar a ideia de que tudo o que temos sintetizados no megaevento em curso na cidade do Rio de Janeiro é algo natural, e que por isso não pode ser mudado.

Copa e Olimpíada deixarão Rio endividado por 10 anos, diz estudo

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Qual o legado que a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos deixarão para a cidade do Rio de Janeiro?

 O pesquisador suíço Christopher Gaffney, da Universidade de Zurique, levantou esse questionamento em um novo estudo, entitulado “Transforming Rio – for the benefit of whom?”, em que revela que a dívida deixada por esses grandes eventos demorará 10 anos para ser paga pela cidade.

Segundo o pesquisador, o modelo de negócios desses grandes eventos precisa mudar para se adequar à realidade da população local, que acaba sofrendo com a dívida deixada.

Gaffney conta que o Comitê Olímpico Internacional e a FIFA oferecem às elites locais grandes promessas ao sediar tais eventos, no entanto, ao contrário do que parece, não conseguem entregar infraestruturas úteis aos moradores desses países.

FONTE: http://www.msn.com/pt-br/esportes/olimpiadas/copa-e-olimp%C3%ADada-deixar%C3%A3o-rio-endividado-por-10-anos-diz-estudo/ar-BBvgwlH?li=AAggXC1

Rio de Janeiro em crise? Seletiva, é claro!

Confrontados com evidências objetivas de que escolas e hospitais públicos estão funcionando em condições abaixo do mínimo aceitável, representantes do (des) governo Pezão/Dornelles usam a surrada explicação de que as finanças do Rio de Janeiro estão em condição crítica por causa da queda no recolhimento das receitas dos roaylties do petróleo.

Se isso é verdade, como se explica então que prossigam todos os tipos de generosidades fiscais com o dinheiro do contribuinte fluminense? É que, como mostra o blog Transparência  RJ, apenas no mês de julho, um total de R$ 7.221.040,30 foram enttegues a diferentes empresas na forma de isenções fiscais (Aqui!) (ver tabela abaixo com o nome das empresas e o montante de recursos concedidos).

generosidades

Um “incentivo” dessa lista que me chamou particularmente a atenção foi dado à empresa Direcional Distribuidora de Derivados de Petróleo, com sede no município de Duque de Caxias, que recebeu R$ 500.000,00 para apoiar o projeto intitulado “Americano Futebol Clube Campeonato Carioca 2016”. Até onde eu saiba, o Americano Futebol Clube em questão está localizado em Campos dos Goytacazes que dista quase 300 km da sede Direcional, o que torna esse apoio curioso.  Mas há que se notar que nesta lista de “generosidades fiscais”, este não foi o único a beneficiar projetos futebolísticos! Suponho que seja a alta capacidade do secretário estadual de esportes, Marco Antonio Cabral, que esteja gerando tanta vontade apoiar o famoso esporte bretão.

De toda forma, diante de mais essa rodada milionária de “generosidades fiscais” fica provado que se há de fato uma crise abalando o tesouro estadual, a mesma possui um caráter muito, mas muito mesmo, seletivo.

 

O perigo está no ar! Matéria da Reuters que o fracasso das promessas olímpicas vai além das águas da Baía Guanabara

Ainda que com erros pontuais aqui e ali, a cobertura da mídia internacional sobre as promessas descumpridas pelos organizadores da edição dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro está dando um banho (e não com as águas da Baía da Guanabara!), merecendo várias medalhas de ouro. A última mostra disso é uma matéria publicada pela agência Reuters e assinada pelo jornalista Brad Brocks sobre o nível de poluição atmosférica com a qual os competidores vão se defrontar durante as provas que ocorrerão como parte do megaevento do Comitê Olímpico Internacional (COI) (Aqui!).

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A manchete da matéria é um daqueles socos na barriga que raramente gostamos de receber traduzida para o português pode ser lida como “Air do Rio Olímpico: sujo, mortal e sem legado mais limpo dos Jogos”. Como dediquei parte significativa da minha formação cientifica ao estudo da qualidade do ar na cidade do Rio de Janeiro e em sua região metropolitana entre os anos de 1984 e 1990, posso dizer que apesar da manchete parecer exagerada, a mesma não é.  

É que já há quase três década o que os meus estudos mostravam é que a qualidade do ar no Rio de Janeiro estava em condições de degradação, especialmente por causa da exaustão de gases de veículos e de indústrias. Como de lá para cá o número de veículos e indústrias aumentou bastante e não foram feitos os esforços necessários para impedir a elevação da contaminação (é só ver o caso gritante da Companhia Siderúrgica do Atlântico da ThyssenKrupp!), não há nenhuma surpresa em se saber que a partir das edições realizadas a partir da década de 1980, apenas a de Beijing o nível da poluição atmosférica era pior do que a que os atletas irão enfrentar na cidade do Rio de Janeiro.

Mas para mim o essencial da matéria assinada por Brad Brocks é de que havia uma declaração inverídica de que a qualidade do ar na cidade do Rio de Janeiro estava dentro dos padrões estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde. Aliás, não estavam e não estão! E como os Jogos Olímpicos ocorrem na estação seca e onde as chamadas inversões térmicas são bastante comuns, o ar que os atletas e a população do Rio de Janeiro vão estar respirando estará dentro dos limites mais altos em termos do conteúdo de material particulado e gases poluentes.

Entretanto, enquanto os atletas estrangeiros terão a possibilidade de voltar para suas casas, a população da cidade vai continuar exposta aos efeitos deletérios da poluição atmosférica sobre sua saúde. E é preciso que fique claro que também neste quesito dos chamados “compromissos ambientais”, as metas de diminuição da poluição atmosférica que foram assumidas pela prefeitura comandada por Eduardo Paes não terão passado de meras desculpas para a realização deste megaevento esportivo bilionário na cidade do Rio de Janeiro. Afinal, o que é a saúde da população quando comparada com os lucros que serão embolsados pelas corporações envolvidas?

Mas para o COI é que vai importar mesmo serão os muitos bilhões livres de impostos que ele e seus sócios vão levar embora do Brasil. E que se danem as promessas feitas para trazer o seu megaevento para o Rio de Janeiro.

Se pensa que o COI vem ao Brasil para promover o esporte, pense de novo! A atração real são os bilhões de dólares em lucros que os Jogos Olímpicos vão gerar

jogos

A matéria abaixo, assinada por Rodrigos Mattos para o site UOL é um daqueles chamados à realidade para aqueles que acreditam que os Jogos Olímpicos que começam dia 05/08 na cidade do Rio de Janeiro são algo a mais do que um megaevento esportivo destinado a garantir gordas taxas de lucros para as empresas que o promovem, especialmente o Comitê  Olímpico Internacional (COI).

E vamos esquecer a fábula de que este é um evento bancado pela iniciativa privada, pois como Rodrigo Mattos os governos acabam sendo penalizados por quaisquer investimentos que se façam necessários para garantir a realização do megaevento esportivo do COI. Além disso, afora todos os custos anteriores, apenas com a garantia da segurança pública, a mobilização sem precedentes que está ocorrendo no Rio de Janeiro se dá às custas do Estado brasileiro, incluindo o governo estadual do Rio de Janeiro.

O mais escandaloso é que, no exato momento em que os Jogos Olímpicos de 2016 forem iniciados, teremos hospitais públicos com suas melhores instalações separadas para atender eventuais necessidades do público que foi atraído para o Rio de Janeiro para garantir o lucro bilionário do COI e de quase 800 empresas que estarão faturando alto com todo tipo de produto, a população carioca estará entregue à própria sorte.

Eu definitivamente não irei a nenhum dos eventos que compõem a programação dos Jogos Olímpicos. Mas quem for e tiver lido as informações que estão sendo aqui disponibilizados tem que lembrar que ao fim e ao cabo de cada competição, o que importará aos organizadores são os lucros. Simples assim.

COI ganhará mais com Rio-2016 do que a Fifa com a Copa-2014

OAO PAULO ENGLELBREC

 

Anéis olímpicosimagem: OAO PAULO ENGLELBREC
Rodrigo Mattos, DO UOL, no Rio de Janeiro

O COI (Comitê Olímpica Internacional) ganhará mais dinheiro com a Olimpíada do Rio-2016 do que a Fifa arrecadou com a Copa-2014. É o que mostram os números financeiros e projeções feitas pelo comitê. A receita total com os Jogos, no entanto, ainda não está fechada, pois faltam itens a serem contabilizados.

Pelos números levantados pela reportagem, a renda da Olimpíada do Rio vai girar entre US$ 5 bilhões e US$ 6 bilhões (R$ 16,4 bilhões e R$ 19,7 bilhões), dependendo do resultado final da venda de ingressos. A Copa-2014 gerou US$ 4,8 bilhões (R$ 16 bilhões pelo câmbio da época) para a Fifa.

Tanto o COI quanto a federação internacional de futebol tiveram isenção fiscal da maioria dos impostos no Brasil – a maior parte do dinheiro nem passa por aqui. Enquanto isso, o país vai investir perto de R$ 40 bilhões na Olimpíada, sendo a maior parte em infraestrutura urbana e uma parcela considerável nas instalações olímpicas.

Ressalte-se que o comitê olímpico internacional contribui bem mais financeiramente para a organização da Olimpíada do que a Fifa com a Copa. Além disso, distribui mais o seu dinheiro entre outros comitês olímpicos e federações de esportes.

Até porque o COI é mais rico do que a Fifa. No último ciclo olímpico, de 2009 a 2012, a entidade olímpica ganhou US$ 8 bilhões, enquanto a entidade do futebol ficou com US$ 5,7 bilhões. Isso porque, além dos Jogos de Verão, lucra com a edição de inverno.

Mas o evento de verão é que é o carro-chefe. Londres-2012 rendeu US$ 5,3 bilhões quando discriminados os valores, e isso considerando que a renda dos patrocinadores top foi dividida. Ou seja, os Jogos de verão representam em torno de dois terços do total da receita olímpica.

O COI obteve um crescimento de 7,4% nas suas receitas de televisão e marketing para o período do Rio-2016. Por isso, a entidade já tinha garantido US$ 5,5 bilhões em receitas em 2014, data do último relatório financeiro. Mas ainda faltavam a bilheteria, patrocínios locais e licenciamento.

E, em relação a Londres, o Brasil deve ter uma renda menor de ingressos, já que ainda tem 20% de bilhetes disponíveis e os preços mais baixos pelo câmbio. A receita de patrocínios locais também deve ser menor considerando a diferença do câmbio, segundo membros do comitê Rio-2016.

Membros do COI ouvidos pelo UOL dizem que é preciso esperar o fim dos Jogos para saber o real número. No geral, o comitê projeta que deve ter uma renda igual ou levemente maior no ciclo de 2013 a 2016 em relação ao período anterior.

Do dinheiro que arrecada, o comitê olímpico investe boa parte nas organizações de suas edições de verão e inverno. A contribuição para o Rio-2016 certamente vai superar a casa de US$ 1 bilhão, fora o patrocínio local. Há ainda um percentual considerável, em torno de 40%, distribuído a comitês olímpicos nacionais e federações internacionais. O COI alega só ficar com 10% da receita.

Fato é que, como na Copa, o dinheiro abastece o cofre da organização esportiva enquanto o país-sede tem a maior parte dos gastos com o evento. Basta dizer que só o comitê organizador Rio-2016 tem orçamento de R$ 7 bilhões. Teoricamente, o dinheiro seria todo privado, mas, se houver déficit, quem terá de cobrir são os governos federal, municipal e estadual.

FONTE: http://olimpiadas.uol.com.br/noticias/redacao/2016/07/30/coi-ganhara-mais-com-rio-2016-do-que-a-fifa-com-a-copa-2014.htm