Quando as gangues cuidam da sua saúde

rio de janeiro favelasEm muitas favelas do Rio de Janeiro (nesta imagem vê-se o Morro da Coroa), as condições de higiene são preocupantes. (Foto: Mauro Pimentel / AFP)

Por Christoph Gurk para o Süddeutsche Zeitung

Pelo menos quando o sol se põe, o bairro fica quieto, diz Lidiane. Ela prefere não ver seu sobrenome no jornal, nem mesmo na Alemanha distante, porque muita atenção pode ser perigosa onde ela mora.

O jovem de 29 anos é da Cidade de Deus, uma favela do Rio de Janeiro. Estima-se que 40.000 pessoas moram aqui em pequenas casas aninhadas. Em 2002, o bairro pobre ganhou fama mundial pelo filme de mesmo nome do diretor Fernando Meirelles, no final de semana passado, pelo menos infelizmente em todo o país, porque a Cidade de Deus registrou o primeiro caso oficial de infecção por corona em uma favela.

Desde então, a vida mudou, diz Lidiane. “As ruas estão vazias à noite”, diz ela, e assim que escurece, há um silêncio estranho. O jovem de 29 anos acredita que as pessoas têm medo do vírus, mas também dos traficantes de drogas que patrulham as ruas depois da noite para que ninguém viole o toque de recolher que eles impuseram.

A partir das 20h, ninguém pode estar na rua, então a facção que comanda o local determinou. Para que todos saibam, eles dirigiram pelas ruas com carros de alto-falante, diz Lidiane. Também haveria uma mensagem do WhatsApp, que supostamente veio da facção: “Queremos o melhor para a população”, afirmou. “Se o governo não acertar, o crime organizado tomará o assunto por conta própria”.

“Para servir de exemplo”

As facções que atuam em outras favelas da cidade veem a situação da mesma forma. Em favelas como Rocinha, Rio das Pedras ou Morro dos Prazeres, os líderes dessas facções impuseram toque de recolher, em alguns lugares as festas populares foram canceladas e, em outros lugares, as pessoas só podem sair às ruas em pares durante o dia, relatam os moradores. Se você for pego à noite,  você será usado como um exemplo.

Existem várias centenas de favelas no Rio, estima-se que dois milhões de pessoas moram aqui, ninguém sabe exatamente. Alguns locais são dominados por facções clássicas do tráfico de drogas, outros pelas chamadas milícias, que são compostas por criminosos locais e ex-policiais . O estado se retirou da grande maioria das favelas faz um longo tempo.

As facções do narcotráfico e as milícias estão no controle, não apenas sobre o tráfico de drogas, mas também sobre coisas mundanas, como a venda de canais ilegais de TV a cabo. Os comerciantes geralmente precisam deduzir o dinheiro da proteção, as empresas de transporte pagam pedágio. As leis brasileiras podem ter pouco significado em muitas favelas, mas as áreas pobres não são sem lei, muitas vezes existem regras e proibições claras, cujo cumprimento é monitorado pelas facções e punido com punições que são muitas vezes draconianas.

Bolsonaro ignora todos os avisos

Sob essa perspectiva, é apenas paradoxal à primeira vista que as facções de traficantes   estão fazendo o que o Estado brasileiro até agora deixou de fazer. Embora o Brasil tenha sido o primeiro país da América Latina a registrar a infecção pelo COVID-19, ainda não existe uma estratégia nacional contra o vírus. Pelo contrário: o presidente Jair Bolsonaro chamou Corona de “gripezinha”, ou seja, uma pequena gripe.  Bolsonaro ignorou todos os avisos e recomendações de seu próprio ministro da Saúde e instou o Brasil a voltar ao normal. Enquanto isso,  Bolsonaro fala do “maior desafio para nossa geração”.

O comportamento passado de Bolsonaro levou a uma disputa aberta com os governadores dos estados brasileiros, a maioria dos quais há muito ordenou medidas por conta própria. A maioria das escolas em todo o país está fechada, São Paulo e Rio de Janeiro estão em quarentena desde a semana passada, e o fato de as  facções que dominam os bairros pobres estarem ajudando a reforçar as restrições mostra o quão dramática é a situação.

Porque de políticos a traficantes ou chefes de  facções – todos sabem que isso quase inevitavelmente levará a uma catástrofe se o coronavírus se espalhar amplamente nas favelas. É uma ironia do destino que a doença tenha sido trazida de avião dos ricos para o Brasil, disse o professor Paulo Buss, do renomado centro de pesquisas da Fiocruz.

Extremamente densamente povoado

Enquanto os pacientes da classe alta mais abastada costumam receber cuidados saudáveis ​​em hospitais particulares depois de serem infectados na Europa antes de retornar a seus apartamentos com elevador e ar condicionado, as favelas geralmente carecem de atendimento médico adequado, nenhum sistema de esgoto ou água corrente. A lavagem regular das mãos, conforme exigido por todos os profissionais de saúde é quase impossível. Além disso, as favelas também costumam ser extremamente densamente povoadas, até 50.000 pessoas vivem em um quilômetro quadrado, grandes famílias geralmente sob o mesmo teto, divididas em duas ou três salas. Sob essas condições, o distanciamento social é impossível.

Lidiane divide um pequeno apartamento de dois quartos com os pais, avó, namorado e filha de dois anos. Ela mesma trabalha como faxineira, o pai como vendedor ambulante e a amiga faz todo o trabalho que pode conseguir. O dinheiro é escasso, principalmente porque a vida pública quase parou. E não há economia. “Não podemos ficar em casa”, disse Lidiane.

É assim que se sente a grande maioria das pessoas nas partes pobres do Brasil. Mais de um terço da força de trabalho no país não tem contrato de trabalho, nem segurança. O governo agora quer pagar 600 reais por mês aos milhões de pessoas que têm empregos informais, quase 100 euros, mas a maioria das pessoas ainda não recebeu o dinheiro.

Então as pessoas tentam se ajudar da melhor maneira possível. Associações de moradores e organizações de ajuda em várias favelas começaram a distribuir pacotes de sabão e alimentos. E com ela na vizinhança, diz Lidiane, alguns traficantes não apenas impuseram um toque de recolher, mas também tomaram outras medidas de precaução: eles ainda vendem drogas nas esquinas, mas, mais recentemente, usam máscaras faciais e luvas de borracha.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo Süddeutsche Zeitung [Aqui! ].

Da Revolta da Vacina às praias lotadas: do que riem aqueles que desafiam uma pandemia

wp-1584877198437.jpgGravura que retrata a “Revolta da Vacina” que ocorreu na cidade do Rio de Janeiro em 1904.

Por Luciane Soares da Silva*

Não há como pensar o coronavírus e a descrença por parte da população sem lembrar das razões pelas quais esta parcela, principalmente do povo, não acredita que algo possa acontecer. Os áudios que tenho recebido apresentam um hipotético carioca desconstruindo por dois minutos toda a gravidade da pandemia. Este carioca afirma que  seria necessário, para o vírus firmar-se no país, aguentar engarrafamento na avenida Brasil, Luís Paulo Conde, Rosinha Garotinho, Pezão, Sérgio Cabral, Crivella, Eduardo Paes, a família Bolsonaro e sua relação com a milícia, a crise hídrica vivida recentemente na cidade, a Igreja Universal. E ainda, o Comando Vermelho, o Terceiro Comando, o Comando Amigos dos Amigos, o Primeiro Comando da Capital e a Assembleia Legislativa. E o que seria um vírus diante do cotidiano do enfrentamento com a Polícia Militar?  Ao relembrar o sumiço das vigas da Perimetral e as falsas notícias nas eleições, completa sua fala com a condição do transporte público em bairros como Bangu. Para uma população que convive com tiroteios, que gravidade poderia superar sua realidade concreta?

No final de década de 1980, em um país com boa parte da população vivendo nas cidades, mas com práticas herdadas do mundo rural, as formas de cura eram absolutamente fundadas na ação de benzedeiras, na frequência a terreiros de candomblé e umbanda, nas operações feitas pelo espaço, como as operadas pelo doutor Fritz. Além disto, centros espíritas eram responsáveis por passes, tratamentos e sessões de psicografia que explicavam aos familiares as razões da morte de um ente querido. Importante lembrar que no Brasil em 2014, um advogado apresentou uma carta psicografada em um processo de homicídio. Ela foi aceita como prova testemunhal em Uberada . E muitos advogados antes deste se valeram do mesmo expediente.

A criação das Faculdades de Medicina no Brasil foi tardia, ocorrendo apenas com a chegada de D. João VI em 1808. A preocupação dos primeiros estudiosos, ocupava-se mais com temas de medicina legal e em como “curar um país doente”.  O importante aqui é compreender como a relação entre povo e doença é estabelecida em pesquisas que advogavam os males sustentados no sangue que era apresentado enquanto raça. Ou melhor, cruzamento racial e degenerescência.

Todos conhecemos popularmente expressões como “raça ruim”. E conhecemos também as formas pelas quais as populações acessaram a cura e as formas de tratamento ao longo destes séculos. O privilégio de acesso médico criou em cidades do interior e figura do “doutorzinho”. O médico, branco, filho de algum fazendeiro que voltava à pequena Ilhéus, ou a pequena Itaperuna para praticar a medicina. Existia no Brasil também a figura do médico vocacionado que bradando contra o poder, aliava sua medicina ao combate a fome e ao analfabetismo. Era o sanitarista, o médico que cobrava pouco, uma espécie de vocacionado social. Em outros casos, era o “milagreiro” como José de Camargo, um ex-escravo que construiu uma igreja em Sorocaba, incomodando a elite católica local e nacional. Sem cobrar pela cura.

Seria impossível encontrar entre as classes populares até a década de 1990, alguém que não conhecesse de alguma forma o médium Chico Xavier. E não era incomum encontrar entre as famílias católicas brasileiras, pessoas que já tivessem recorrido a psicografia e aos centros de passe existentes em todo o Brasil. Centros administrados por engenheiros, médicos, advogados que encontravam ali, uma forma segura de fazer caridade ao próximo sustentados pelas leis de Alan Kardec. Estes centros sobreviveram e existem até hoje em muitas cidades do Brasil. E são eles, junto com as igrejas neopentecostais que produzem as narrativas mais próximas do povo de como tratar doenças que ao fim, estão na alma e por isto, exigem fé. A fé sempre foi um vetor de organização social e política no Brasil. Se a pobreza é a condição de entrada para o reino do céu católico, a doença tem uma função essencial para purgar pecados, destas e de outras vidas. Assim, como a morte é um destino seguro para os que acreditam. Não há como vencer estes discursos sem compreender sua sustentação. Não são crendices e tampouco ignorância. Porque asseguraram a vida de gerações. Ervas, orações, chás, remédios caseiros aliados a certeza de quem não teria mais outra possibilidade a não ser esta aposta.

Uma busca rápida com os termos “descrença” e “coronavírus”  é reveladora. De manchetes sobre população exposta a constantes intervenções policiais e tiroteios, da descrença nos políticos, da descrença na mídia e na justiça. A quantidade de situações absurdas de mortes sem resolução e a continuidade de práticas antidemocráticas parece enfraquecer o apelo de que “é um momento de união”.

Para fechar este texto, volto ao cenário da Revolta da Vacina na capital federal em 1904. O próprio nome remete a uma revolta popular contra a vacinação obrigatória. Mas não são poucos os pesquisadores, principalmente historiadores que observam outras variáveis tais como : a obrigatoriedade aliada a presença policial na entrada em casas do centro da cidade, uma nova ordem econômica mundial que impõe uma compreensão de ciência, empregada pelo Estado sem preocupação com a informação à população, o remodelamento de áreas centrais com expulsão de seus moradores, o alto preço dos alimentos, o alto preço dos aluguéis aliado a crescente especulação imobiliária[1].

Um dos fatos essenciais para entender a relação entre ciência e fé: a varíola para muitos dos moradores negros da área portuária estava sob a proteção de  Omulu, dentro do panteão africado, ligado a saúde e a doença. Ao evocarem tambores e sofrerem a repressão das autoridades policiais, aumentaram a fúria da população. Dados oficiais dão conta de 200 mortos e vários feridos e presos.

A informação contra o coronavírus é parte essencial de seu combate. Mas fica evidente a cada dia que questões básicas sobre saúde, saneamento e  emprego e renda serão temas mobilizados no cotidiano. As resoluções dadas as condições básicas de saúde da população não excluem a debate sobre periferias, acesso a saúde e formas de comunicação. Por isto, não se trata de simples ignorância do povo ou má fé. Trata-se de pensar a relação entre Estado e sociedade civil. Crença e capacidade de ação.

[1] Para mais informações ler A Revolta contra a vacina: A vulgarização científica na grande imprensa no ano de 1904, de Aline Salgado, disponível em https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/31112/2/dissertacao_aline_salgado.pdf

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*Luciane Soares da Silva é docente do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce) da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

Mudanças climáticas geram devastação em meio ao negacionismo climático do governo Bolsonaro

Cenas da destruição causada pelas chuvas deste final de semana no município de Mesquita, Baixada Fluminense.

O estado do Rio de Janeiro sofreu nas últimas 24 horas o impacto de chuvas devastadoras que estão trazendo muito sofrimento dentro de muitas cidades, a começar pela sua capital (ver vídeo abaixo mostrando cenas caóticas no bairro de Realengo). 

Esses eventos climáticos extremos estão previstos para serem uma das marcas registradas no comportamento climático que está ocorrendo em todo o planeta como resultado das mudanças climáticas que resultam do aquecimento da atmosfera da Terra.

Essa nova normalidade “anormal” deveria estar sendo motivo de uma forte preparação por parte de todas as esferas de governo no Brasil, visto que temos cidades que evoluíram de forma segregada, produzindo o ambiente perfeito para grandes desastres em face de eventos climáticos extremos que passaremos a enfrentar nas próximas décadas.

Mas o fato é que neste momento o Brasil está entregue a um governo federal dominado pelos chamados “céticos climáticos” para quem as apuradas previsões geradas pela comunidade científica mundial sobre as mudanças climáticas não passam de um complô formulado por marxistas. Com isso, o governo Bolsonaro jogou na lata de lixo o conhecimento científico e abraçou as teses do ceticismo climático.

Um dos céticos climáticos do governo Bolsonaro ocupa a estratégica cadeira de ministro do Meio Ambiente. Desde essa posição é que Ricardo Salles demitiu duas autoridades responsáveis pelas tratativas do combate às mudanças climáticas, deixando basicamente acéfalo uma área estratégica do seu ministério.

E que ninguém se engane com os discursos que jogam nas costas de Deus e de São Pedro toda a dor e sofrimento que os habitantes das áreas mais pobres das cidades brasileiras deverão atravessar em face da inexistência de políticas públicas que permitam o necessário ajuste à realidade que está se estabelecendo onde eventos anormais serão a nova normalidade.  A culpa será dos céticos climáticos que hoje colocam o Brasil na vanguarda do atraso no combate às mudanças climáticas.

UFRJ emite nota sobre os problemas da qualidade da água provida pela Cedae na região metropolitana do Rio de Janeiro

A pedido da Reitoria, grupo de docentes da UFRJ elaborou nota técnica contendo constatações e recomendações

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Estação de Tratamento da Água do Guandu – foto: Divulgação/Governo RJ

Face aos questionamentos recentes sobre a qualidade da água potável distribuída para consumo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ) e cientes da responsabilidade acadêmica e social que a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) tem com toda a população, a Reitoria da UFRJ solicitou a um grupo de docentes que desenvolve suas linhas de pesquisa em assuntos relacionados à ecologia aquática, recursos hídricos, saneamento e saúde pública, a elaboração de nota técnica contendo constatações e recomendações.

1. Há uma evidente degradação ambiental nos mananciais que são utilizados para abastecimento público da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Essa degradação compromete a qualidade da água, dificulta seu tratamento e pode colocar em risco a saúde pública.

2. A companhia de saneamento é responsável pelo controle da qualidade da água tratada, respeitando as resoluções legais. A vigilância da qualidade da água é de responsabilidade do setor da Saúde (Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais e Municipais da Saúde), que deve garantir a segurança e qualidade da água a ser distribuída para a população.

3. A população não deve ser responsabilizada para identificar se a água está ou não adequada ao consumo. Além disso, sem que haja identificação e esclarecimento de uma eventual contaminação, a população também não poderá ser induzida a consumir água mineral ou de qualquer outra fonte. Não atender a essas considerações propicia um cenário que piora a segurança da água, além de ser socialmente injusto, pois impõe um gasto extra para o consumidor que deveria ser atendido de forma adequada pela rede de distribuição.

4. A falta de informações claras e precisas também configura um cenário de insegurança. É necessário que haja transparência imediata da real situação da qualidade da água distribuída para consumo pela população do Rio de Janeiro e que os setores responsáveis pelo controle e vigilância da qualidade atuem de forma coordenada, cooperativa e rápida para garantir água segura e de qualidade, conforme determina a legislação.

5. Enquanto a recuperação adequada dos recursos hídricos utilizados para abastecimento público não for realizada, a perspectiva de recorrência de crises semelhantes num futuro próximo é bastante provável. Sendo assim, os investimentos necessários para essa recuperação não podem ser adiados e devem ser considerados prioritários e estratégicos.

Mais detalhes sobre esses aspectos podem ser encontrados na nota técnica. Leia na íntegra aqui.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela Assessoria de Imprensa do Gabinete da Reitora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) [Aqui!].

Crise hídrica e segregação socioespecial em tempos de mudanças climáticas: o Rio de Janeiro como a vitrine do caos

Baía-de-Guanabara-1024x576-696x392Transformada em uma latrina a céu aberto, a Baía de Guanabara sintetiza os efeitos da extrema iniquidade social sobre a integridade dos sistemas hídricos no Rio de Janeiro

Quando cheguei no Rio de Janeiro no início de 1980 para iniciar meu período de graduação na UFRJ duas coisas me chamaram logo a atenção: a beleza cênica da cidade maravilhosa e a condição desastrosa dos rios que cortavam a cidade.  Em um dos meus trabalhos de curso escolhi coletar amostras de água no Rio Faria-Timbó para verificar o seu nível de contaminação por coliformes fecais. Ali descobri que mesmo durante períodos de chuvas intensas, o Faria-Timbó tinha virado literalmente uma latrina a céu aberto.  E apenas para uma referência temporal, essa pesquisa ocorreu no longínquo ano de 1985.

Passados quase quatro décadas, vozes responsáveis como a do ambientalista carioca Sérgio Ricardo emitem um velho alerta: os rios do estado do Rio de Janeiro estão à beira de um colapso hídrico. Para que se tenha ideia do tamanho do problema, este colapso colocaria em risco  o fornecimento de água para algo em torno de 8 milhões de pessoas, apenas na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Mas como chegamos a esta situação catastrófica se ao longo dessas mesmas quatro décadas bilhões de dólares foram alocados em projetos nacionais e internacionais para despoluir os principais rios do Rio de Janeiro? Aliás, ainda na década de 1980 tivemos um megaprojeto financiado pelo governo japonês para permitir a despoluição da Baía de Guanabara. Depois disso, em 1995 veio o chamado Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG) que consumiu algo em torno de R$ 6 bilhões até 2012.  Entretanto, o cumprimento das metas sempre ficou aquém dos acordos, e a Baía de Guanabara acabou se tornou uma espécie de cemitério de obras públicas inconclusas.

A explicação mais comum é de que todo esse dinheiro foi tragado pela corrupção, o que explica, mas não justifica.  A verdade é que a corrupção é apenas parte de uma explicação maior, onde o aprofundamento dos padrões de um modelo de segregação socioespacial baseado na extrema iniquidade tornou a questão do acesso a serviços de abastecimento de água e saneamento básico um elemento secundário no processo de atuação do Estado.

Se acrescentarmos a isso o avanço do processo de privatização dos serviços de água e esgoto mesmo em um ente estatal como é o caso da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE), o que temos é uma ação preferencial para garantir o lucro acima do interesse da população em geral.  Disso decorre o fato que a maioria das melhorias da rede de serviços acaba se concentrando nas áreas mais ricas, deixando os habitantes pobres das cidades sob condição de abandono completo.

Para piorar ainda mais a situação, a CEDAE é alvo preferencial para um processo de canibalização que visa facilitar sua privatização. Esta situação tem implicado na redução de custos e demissão de quadros especializados que vem degradando a capacidade da empresa de manter seus serviços em padrões minimamente aceitáveis de qualidade.

Assim, a atual crise de abastecimento que compromete pelo menos 46 bairros na cidade do Rio de Janeiro  e municípios da Baixada Fluminense que em vez de água “insípida, inodora e incolor” estão recebendo uma substância aquosa que não se adequa a estas condições, termina por implicar em um aprofundamento das diferenças sociais. Com isso, aparece mais uma vez o padrão dos ricos correndo para limpar os estoques de água de supermercados, enquanto os pobres sofrem com a falta do produto ou com os preços elevados que os estoques remanescentes alcançam.

agua turvaO copo do lado esquerdo contém a “água” sendo disponibilizada pela CEDAE

Em meio ao caos que vai crescendo há outro aspecto essencial que passa despercebido que são as transformações que estão ocorrendo nos padrões de pluviosidade por causa das mudanças climáticas. É que os novos padrões alternam períodos de seca extrema com períodos de chuvas intensas.  E é exatamente isso o que tem sido visto nos últimos anos no estado do Rio de Janeiro, e mesmo na atual estação chuvosa.

Esse nova normalidade disfuncional é que deverá caracterizar os próximos anos e décadas. Entretanto, raros são os governantes brasileiros que estão atentos a essas modificações climáticas, e menos ainda o que isso significará em termos de abastecimento de água para nossas cidades cada vez mais socialmente segregadas.  

Com isso, que ninguém se engane, estamos caminhando, caso modificações radicais não sejam feitas, para uma situação potencialmente distópica que deixará nossas cidades parecidas com o mundo de “Mad Max“.   Assim, a questão do acesso democrático à água deverá estar no centro dos debates acerca do futuro que se apresenta cada vez mais desafiador.

Governador Witzel é alvo de protestos em evento cervejeiro no Rio de Janeiro

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O governador Wilson Witzel foi alvo de vaias e gritos durante rápida passagem por um festival de cervejas no Piér Mauá, região portuária da cidade do Rio de Janeiro.

A atual cena política brasileira muitas vezes é apresentada como um momento de hegemonia completa dos governantes ultraconservadores que foram eleitos no Brasil nas eleições de 2018.  A avaliação feita até por intelectuais sérios é de que vivemos uma espécie de inferno de Dante neste momento, onde a maioria das pessoas está paralisada e inerte frente aos ataques inclementes que estão sendo realizados contra direitos sociais e trabalhistas desde o nível federal até o municipal.

Particularmente considero que apesar dos ataques não estarem sendo respondidos com a devida força pela maioria da população que vê seus direitos tolhidos por uma fórmula bastante específica que mistura reformas neoliberais com extrema violência por parte do aparato estatal, há sim um processo de resistência em curso, e que este processo fica explícito sempre que algum governante sai de área de conforto (normalmente gabinetes fechados ou eventos públicos para convertidos).

O vídeo mostra a rápida visita que o governador Wilson Witzel realizou (ou tentou realizar) ao  festival de cervejas Mondial de La Bière que está ocorrendo no Pier Mauá, região portuária da cidade do Rio de Janeiro. A visita foi rápida pela comoção causada pela presença do governador Witzel em função da profunda rejeição que sua figura desperta em amplos segmentos da população fluminense em função de sua política de (in) segurança pública.

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Este vídeo não existe

Este tipo de reação ao governador Witzel demonstra que nem tudo é tão passivo e inerte quanto se faz parecer, especialmente se as fontes de informação são provenientes da mídia corporativa que parece viver em uma dimensão temporal e espacial muito distinta da que vive a maioria dos brasileiros neste momento.

Em outras palavras, a conjuntura é dura, mas não é tão impossível de ser superada como querem fazer parecer. E o governador Witzel acabou aprendendo isso na prática e, pasmem, em um festival de cervejas onde o público não é necessariamente composto por habitantes das regiões da cidade onde as forças policiais estão agindo com especial violência desde que seu governo começou.

SBPC-RJ realiza o “Domingo com ciência na Quinta”

No próximo dia 7 de julho, a Quinta da Boa Vista vai receber uma série de atividades culturais, educacionais e de ciências

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Por  FLEISHMANN

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) no Rio de Janeiro realiza neste domingo, dia 7 de julho, das 10h às 15h, o “Domingo com ciência na Quinta”. Com uma série de atividades, o evento vai celebrar o Dia Nacional da Ciência e o Dia Nacional do Pesquisador. Além de comemorar as datas, a ação tem como objetivo chamar a atenção da população e dos governantes para a importância da ciência no dia a dia e no desenvolvimento sustentável do País. Nesta data, representantes da comunidade científica vão debater sobre a realidade da ciência e da educação no Brasil e como, com o apoio da população, será possível reverter o quadro negativo.

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Com entrada gratuita, o evento terá uma feira de ciências com mais de 150 experimentos e exposições que mostram como o tema é parte importante do cotidiano da sociedade. Haverá também atividades como rodas de conversas, jogos interativos ilustrando os princípios básicos da física e biologia, brincadeiras sobre bactérias presentes na chamada microbiota humana, desafios de matemática e química, e muito mais.

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No Piquenique Científico, crianças e adultos poderão conhecer a qualidade dos alimentos que consomem, como evitar o desperdício e como aproveitar integralmente os alimentos entre outros ensinamentos. Para participar desta atividade, basta levar uma canga ou toalha para sentar e alimentos.

O público também vai poder se divertir com apresentações musicais de diferentes estilos e ritmos como chorinho, samba e outros.

Este é o segundo ano de realização do evento. Na primeira edição, organizada pelo Museu Nacional, cerca de 2,6 mil pessoas puderam participar das mais de 130 atividades científicas e culturais disponíveis. A expectativa para 2019 é que esse número seja ainda maior.

O “Domingo com ciência na Quinta” é um evento promovido pela SBPC em parceria com a ADUFF, ADUFRJ, ADUNIRIO, ANPESQ, ASCON, ASDUERJ, ASFOC-SN, FACC, INCTNIM e INCT Proprietas.

Serviço:

“Domingo com ciência na Quinta”

Local: Quinta da Boa Vista (acesso pelo portão da estação do Metrô de São Cristóvão, ao lado do rio e perto do Horto Botânico MN)

Data: 7/07/2019

Horário: 10h às 15h

Entrada franca

 

Depois do caos instalado pelas chuvas, Marcelo Crivella terá de explicar seus cortes orçamentários na área da prevenção de catástrofes

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Cenas de destruição se espalham pela cidade do Rio de Janeiro após chuvas intensas.

O prefeito Marcelo Crivella (PRB) está tentando imputar ou dividir parte da culpa com o que está acontecendo nos últimos dois dias na cidade do Rio de Janeiro com a falta de repasses do governo federal.

Ainda que que o prefeito Crivella tenha razão em seus reclamos quanto à retenção de recursos pelo governo Bolsonaro, ele ainda terá de se explicar acerca das próprias responsabilidades em relação à ausência de ações estratégicas por causa da discrepância entre orçamentos aprovados com o que é executado por sua ordem.

Vejamos o caso do orçamento com a proteção de encostas que tiveram orçamentos menores do que foi previsto no governo Eduardo Paes, sendo que em 2019 Crivella retornou aos valores aprovados em 2015 e 2016 (ver figura abaixo).

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Pior comportamento em termos de previsão orçamentária se deu para a rubrica “Controle de Enchentes”  cujos valores são quase 3 vezes menores do que era orçado por Eduardo Paes (ver imagem abaixo).

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Mas pior do que orçamentos menores é a execução em 2019 que é de exato Zero reais para atividades essenciais como a de estabilização geotécnica, implantação do sistema de esgoto da Zona Oeste, implantação de sistemas de manejo de águas pluviais, manutenção do sistema de drenagem, e pavimentação e drenagem. Em todos esses itens orçamentários, o governo Crivella não executou um mísero centavo em 2019.

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A mesma toada aparece nos gastos com o Sistema Alerta Rio, com vistorias e fiscalizações,  com a manutenção de  águas pluviais e com a manutenção da redes de esgotos. Todos esses itens somados não chegam a R$ 2,5 milhões (ver figura abaixo). 

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Ainda que sempre haja chance de superar ritmos de gastos mais lentos, a realidade é que o quadro de desembolso de um orçamento já reduzido não pode ser aceitável.  É que desde 2017, o prefeito Crivella tem executado uma fração menor do orçamento aprovado para essa, e não se tem notícia que tenha tido o mesmo comportamento, por exemplo, com os gastos da propaganda oficial.

Os resultados dos cortes orçamentários e da baixa execução do que foi aprovado agora está visível por todas as partes da cidade do Rio de Janeiro, até nas áreas consideradas nobres como no caso de Ipanema (ver vídeo abaixo mostrando um desmoronamento de encosta).

Frente a essas discrepâncias é muito provável que o prefeito Marcelo Crivella estará bastante ocupado com o oferecimento de explicações sobre suas opções de gastos à frente da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Mudanças climáticas e governos neoliberais, uma combinação desastrosa

A imagem pode conter: atividades ao ar livre

Rio de Janeiro inundada mais uma vez. Novos padrões de precipitação encontram  a maioria das cidades brasileiras despreparadas e com governantes cortando investimentos necessários para a adequação das malhas urbanas às mudanças climáticas.

A cidade do Rio de Janeiro está mergulhada mais uma vez no caos por causa de chuvas intensas que ocorreram (e continuando ocorrendo) em um período relativamente curto de tempo. Esse padrão pluviométrico não é novidade para os cariocas, mas a verdade é que paulatinamente vemos se encurtando o período de tempo em que as chuvas caem, causando alagamentos intensos e movimentações de terra em encostas densamente habitadas (ver vídeo abaixo produzido na tarde de ontem).

Um dos fatores agravantes dessa situação, entretanto, não tem nada a ver com mudanças no regime de chuvas, mas sim com a adoção de modelos de gestão baseados nas premissas neoliberais, onde ações urgentes que  combinem novas formas de gerenciamento dos espaços urbanos com formas de planejamento que incorporem as demandas e proposições dos segmentos marginalizados da população.

No caso do Rio de Janeiro sob o comando do prefeito Marcelo Crivella que, segundo matéria escrita pelo jornalista Luiz Eduardo Magalhães para “O GLOBO”, ainda “não gastou um centavo sequer este ano com drenagem urbana e contenção de encostas” (ver imagem abaixo). Esse mesmo Crivella, em 2017, deslocou R$ 22 milhões da conservação de áreas urbanas para a da propaganda oficial da sua gestão.

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Marcelo Crivella, por sua vez, está reclamando da suspensão do processo de cooperação com o governo federal estão paralisados, inclusive aqueles contratos que foram assinados ainda no governo Temer.  

O caso em tela parece ser daquele tipo onde inexistem inocentes e todos são culpados pelo que está acontecendo não apenas no Rio de Janeiro, mas em todas as grandes cidades brasileiras por causa da combinação dos novos padrões de precipitação e governos que primam por economizar em áreas estratégicas como a da mauntenção da drenagem urbana.

Como os novos padrões de precipitação vieram para ficar e ainda podem ser aprofundados, a saída será adotar formas de governança que entendam essa nova realidade climática em vez de querer usar fortunas para alimentar o sistema rentista, criando situações de dívidas impagáveis que apenas impedem o estabelecimento de formas de governança que estejam adaptadas ao que está acontecendo com o clima da Terra.

Sérgio Cabral, o dedo duro conveniente

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O ex (des) governador Sérgio Cabral Filho no dia da entrega da medalha Tiradentes ao seu filho Marco Antônio.  Eduardo Paes presente na cerimônia é um dos inúmeros atingidos pela metralhadora giratória de delações do hoje hóspede involuntário do sistema prisional fluminense.

Premido pela perspectiva de passar um bom tempo na cadeia, o ex (des) governador Sérgio Cabral se transformou em uma metralhadora giratória de delações nas quais procura tentar compartilhar os seus alegados descaminhos à frente do executivo fluminense. Até certa medida, Cabral está repetindo a trajetória de outro encrencado ilustre, o ex-super poderoso Antonio Palocci cujo esforço recente tem sido impingir aos seus antigos companheiros toda sorte de transgressão na esperança de se livrar de cumprir as suas próprias penas.

 

Vídeo da campanha de Sérgio Cabral (Filho) para a prefeitura do Rio de Janeiro de 1992. O dedo duro de hoje era vendido então como o “jovem e habilidoso” protótipo do político honesto.

Entretanto, Sérgio Cabral talvez esteja chegando atrasado no mercado das delações premiadas. É que depois das estripulias dos “lavajatenses” de Curitiba, especialmente no caso da tal fundação privada que deveria gerir recursos bilionários retiradas dos caixas da Petrobras e da construtora Odebrecht, o encanto da classe média punitivista parece estar em arrefecimento.  Isso é lamentável para Sérgio Cabral porque o humor mudou e agora vai ser preciso mais do que delações puras e simples, mas principalmente documentos comprobatórios do que está se dizendo dos crimes que este ou aquele personagem cometeu.

Obviamente, especialmente no caso do ex-governador Anthony Garotinho, já é possível notar uma clara euforia dos seus adversários e inimigos paroquiais. É que premidos pelas evidências de que Garotinho é uma espécie de Fênix política, há um claro senso de desespero para que ele seja abatido antes das eleições de 2020. É que se ele permanecer livre, as chances maiores é de que o jovem prefeito Rafael Diniz vai ter que voltar para sua condição de funcionário público onde provavelmente terá que passar a apertar o botão do ponto eletrônico que ele supostamente está impondo aos servidores públicos municipais em Campos dos Goytacazes.

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Sérgio Cabral e Anthony Garotinho celebrando juntos nas escadarias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro quando ainda não haviam se transformado em inimigos figadais.

Entretanto, voltando a Sérgio Cabral, considero especialmente covarde o ataque ao falecido governador Leonel Brizola do qual sempre se declarou inimigo político. É que por uma Leonel Brizola está morto e não tem como se defender das acusações de que teria participado das mesmas práticas que colocaram Cabral na cadeia. A segunda questão é que os dados históricos existentes apontam no sentido oposto do que Sérgio Cabral está dizendo que Brizola praticou. Qualquer um com um pingo de memória histórica sabe que Leonel Brizola foi o único governador pós-ditadura militar que procurou estabelecer um mínimo de controle sobre as castas que controlam o transporte público no estado do Rio de Janeiro. Nesse sentido, ao atacar Leonel Brizola, o que Sérgio Cabral faz é tentar colocar todos na vala comum em que ele se jogou por vontade própria.

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Sérgio Cabral e seu material de campanha nas eleições para a prefeitura do Rio de Janeiro em 1992: mirando em Leonel Brizola com fervor.

Mas esperar o quê de Sérgio Cabral a estas alturas do campeonato senão este tipo de comportamento? Mas pior do que a repentina compulsão de Sérgio Cabral de tentar “socializar” a autoria de supostos crimes contra a administração pública é a propensão que alguns estão demonstrando em comprar sua narrativa de forma acrítica apenas para preencher interesses que são, em alguns casos, inconfessáveis. Por isso, cuidado com quem abraça de forma tão apaixonada as delações de Sérgio Cabral. Há preciso verificar primeiro se quem abraça a delação hoje não estava abraçado antes na generosa distribuição de verbas com que o hoje aprisionado (des)governador fabricou sua imagem agora dilacerada de governante moderno e eficiente. Afinal, é aquela coisa, digame com quem andastes abraçado que dir-te-ei quem és. Simples assim!