Revista de Pesquisa da FAPESP mostra impactos do TsuLama no mar

Impactos visíveis no mar

Poluentes chegam a 200 km ao norte e ao sul da foz do rio Doce, atingem unidades de conservação, alteram equilíbrio ecológico e se acumulam no assoalho marinho

© GABRIELA BILÓ / ESTADÃO CONTEÚDO

Lama de rejeitos da barragem da Samarco no Rio Doce

Poluição à vista: os resíduos que vazaram do reservatório de Mariana formam mancha acastanhada na foz do rio Doce

Em janeiro deste ano, ao sobrevoarem o litoral do Espírito Santo e do sul da Bahia, biólogos, oceanógrafos e técnicos de órgãos ambientais do governo federal reconheceram os borrões escuros na superfície do mar formados pelo acúmulo de resíduos metálicos que vazaram do reservatório da mineradora Samarco em Mariana, Minas Gerais, em novembro de 2015. A mancha de resíduos, também chamada de pluma, aproximava-se do arquipélago de Abrolhos, uma das principais reservas de vida silvestre marinha da costa brasileira.

Os borrões não eram apenas os indesejados resquícios da extração de minério de ferro de Minas Gerais, mas uma de suas consequências, como se verificou logo depois. Em meio às manchas verde-escuro havia colônias de algas e outros organismos marinhos microscópicos – o fitoplâncton – com dezenas de quilômetros de extensão, muito maiores que as observadas nos anos anteriores, de acordo com as análises de pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Outra peculiaridade é que os organismos cresciam e se multiplicavam rapidamente, em decorrência do excesso de ferro dos rejeitos da mineradora de Mariana que se espalham pelo mar a partir da foz do rio Doce, onde chegaram no final de novembro. Desde então, levados continuamente ao mar pelo rio, os resíduos formam uma mancha móvel que oscila ao longo de 200 quilômetros (km) ao norte e ao sul da foz do rio Doce, que alterou o equilíbrio marinho, como indicado pela massa de fitoplâncton, e atingiu pelo menos três unidades de conservação de organismos marinhos.

“As manchas de fitoplâncton são comuns no verão, mas não desse modo”, explica Alex Bastos, professor de oceanografia da Ufes, no final de fevereiro. Análises preliminares indicaram que as colônias de algas são constituídas por organismos que se formam e morrem em poucos dias, mais rapidamente que o habitual. A decomposição acelerada dos organismos consome oxigênio da água do mar, com consequências imprevisíveis sobre as comunidades de organismos marinhos.

Além disso, a diversidade de espécies havia sido reduzida quase à metade. Camilo Dias Júnior, com sua equipe de oceanografia da Ufes, encontrou no máximo 40 espécies de fitoplâncton por amostra analisada; antes da chegada dos resíduos os pesquisadores reconheciam de 50 a 70 espécies. A hipótese dos pesquisadores e técnicos é de que já poderia ter ocorrido uma seleção de variedades mais adaptadas ao excesso de ferro trazido com a descarga dos resíduos no mar.

Nos sobrevoos do litoral do Espírito Santo e da Bahia, Claudio Dupas, coordenador do Núcleo de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental da Superintendência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em São Paulo, observou muitos barcos de pesca próximos às manchas de fitoplâncton na foz do rio Doce. Atraídos pela abundância de alimento, o grande número de peixes chamou a atenção dos pescadores.

© GABRIELA BILÓ / ESTADÃO CONTEÚDO

Lama de rejeitos da barragem da Samarco no Rio Doce

Em Governador Valadares, MG: a lama ocupou o rio Doce em novembro, prejudicando o abastecimento de água para os moradores da cidade

Com base nas análises preliminares da qualidade de água e na observação do cenário, a equipe do Ibama elaborou um relatório técnico alertando sobre alterações na qualidade da água, prejudicada com a descarga de resíduos no mar. Com base no documento e no princípio da precaução – para evitar que a população seja prejudicada pelo consumo de peixes contaminados –, no dia 22 de fevereiro um juiz federal de Vitória proibiu por tempo indeterminado a pesca na região da foz do rio Doce. “Assim que saiu a decisão do juiz, o superintendente do Ibama em Vitória, Guanadir Gonçalves, pediu-me para fazer um mapa com a delimitação da área de proibição, que foi para a internet e para os celulares dos fiscais em campo no mesmo dia”, diz Dupas.

Desde janeiro os movimentos da mancha de resíduos podem ser acompanhados por meio de mapas gerados pelo Ibama a partir de imagens de satélites no site governancapelodoce.com.br, mantido pela Samarco. Já o site siscom.ibama.gov.br/mariana contém imagens de satélite de alta resolução de antes e depois do incidente, da barragem à foz. Os mapas indicam que os resíduos já chegaram a 50 km ao sul de Vitória, capital do Espírito Santo, e atingiram três unidades de conservação do ambiente marinho, o Refúgio de Vida Silvestre de Santa Cruz, a Área de Proteção Ambiental (APA) Costa das Algas e uma das principais áreas de desova da tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), uma faixa de 37 km de praias conhecida como Reserva Biológica Comboios. “Ainda não é possível avaliar o impacto sobre o ambiente, a vida dos organismos marinhos e dos moradores da região”, diz Dupas.

Desde que vazou da barragem de Fundão, em 5 de novembro, até chegar ao mar, a enorme massa de resíduos da extração de minério de ferro causou uma transformação profunda. Destruiu casas e matas às margens do rio Doce, provocando a morte de 18 pessoas e de toneladas de peixes e outros organismos aquáticos. A bióloga Flávia Bottino participou das expedições do Grupo Independente para Análise do Impacto Ambiental (Giaia) ao longo do rio Doce em novembro e observou uma intensa turbidez da água, que dificultava a penetração da luz e a sobrevivência dos organismos. Os biólogos encontraram camarões de água doce que sobreviveram ao desastre, mas os organismos bentônicos, que viviam no fundo do rio, tinham sido soterrados.

Limites incertos
A alta concentração de partículas sólidas que absorvem calor pode ter causado o aumento da temperatura da água para cerca de 30º Celsius. “A água do rio estava quente”, ela notou. As análises das amostras de água coletadas em dezembro ao longo de um trecho de cerca de 800 km do rio, realizadas nas unidades das universidades de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, Federal de São Carlos (UFSCar) em São Carlos e Sorocaba, Estadual Paulista (Unesp) em São Vicente, e na de Brasília (UnB), indicaram concentrações elevadas de manganês, ferro, arsênio e chumbo. As chuvas podem agravar a situação ao lavar as margens dos rios, cobertas de resíduos, e transportá-los ao mar.

Por meio de coletas realizadas com o navio Vital de Oliveira Moura, da Marinha, a equipe da Ufes verificou que 25 km a leste da foz do Rio Doce os resíduos formam uma camada de 1 a 2 centímetros sobre a lama do fundo do mar, a 25 metros de profundidade. “Está havendo um acúmulo rápido do rejeito no assoalho marinho”, diz Bastos, da Ufes, com base em coletas realizadas desde novembro, logo após o rompimento da barragem (ver Pesquisa FAPESP no 239). “Nem nas maiores cheias o acúmulo de sedimentos no rio no fundo do mar foi tão alto.”

042-047_Poluentes_242No início de fevereiro, em uma reunião dos pesquisadores da Ufes com representantes do Ibama, Instituto Estadual do Meio Ambiente (Iema) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Bastos comentou que a concentração de ferro no fundo do mar havia aumentado 20 vezes, em comparação com os níveis de antes do acidente, a de alumínio 10 vezes e a de cromo e manganês, cinco. Outro professor da Ufes, Renato Rodrigues Neto, observou que a vazão do rio passou de 300 metros cúbicos por segundo (m³/s), antes do rompimento da barragem, para cerca de 4.000 m³/s, aumentando a quantidade de lama com resíduos metálicos despejada no mar.

As imagens de satélite indicam que os resíduos metálicos podem ter chegado até o arquipélago de Abrolhos no início de janeiro, embora, ressalta Dupas, ainda não seja possível diferenciar os sedimentos vindos do rio Doce, a cerca de 200 km de distância, dos do rio Caravelas, que deságua na região. Segundo ele, os resultados das análises em andamento devem ser anunciados em abril.

Vários estudos em outras áreas marinhas têm indicado que os resíduos industriais podem ir muito além dos lugares onde foram produzidos, misturar-se com os sedimentos do fundo do mar, aflorando se revolvidos por redes de pesca, ou ser absorvidos por organismos marinhos. Uma equipe do Instituto Oceanográfico (IO) da USP identificou metais pesados (chumbo, cobre e zinco) e compostos orgânicos derivados de petróleo produzidos na zona industrial de Santos e do polo industrial de Cubatão, a 15 km do mar, misturados com a lama do assoalho marinho a uma profundidade de 100 metros e a uma distância de 200 km da costa. Não se pensava que a poluição gerada em terra pudesse chegar tão longe.

Condições ambientais

As conclusões ajudam a pensar o que poderia se passar no litoral do Espírito Santo e dos estados vizinhos, à medida que a lama da mineradora se espalha. “Os eventos, a rigor, não têm conexão à primeira vista”, disse Michel Mahiques, professor de oceanografia do IO-USP que coordenou os estudos em Santos. O vazamento da Samarco em Mariana foi um fenômeno agudo, com uma descarga intensa de resíduos, enquanto Santos e outros, como a baía da Guanabara, são casos crônicos, de décadas de liberação contínua de poluentes. “O fato comum”, ele diz, “é que existem porções do fundo marinho nas quais as condições ambientais permitem a deposição de materiais gerados pela atividade humana, ainda que a grandes distâncias”.

Em um estudo anterior no litoral de Santos, seu grupo identificou isótopos de césio 137 originários de explosões atômicas ou de usinas nucleares, nas quais esse tipo de material é gerado. “O césio foi transportado pela atmosfera e aderiu a partículas muito pequenas do fundo do mar”, conta. “Podemos chamar esses casos de teleconexões, em que um evento em um determinado ponto do planeta pode afetar regiões muito distantes.” Segundo ele, os casos clássicos são os acidentes das usinas nucleares de Chernobyl em 1986 e de Fukushima em 2011.

TRAGEDIA EM MINAS

Vila de Mariana devastada pela lama da barragem de Fundão: efeito a mais de 800 km de distância na terra, no rio e no mar

“Precisamos lançar outro olhar para o potencial de acumulação de material no meio marinho”, comenta Mahiques. Seus estudos indicaram que os poluentes se acumulam principalmente nos cinturões de lama, faixas em geral com 3 a 4 km de largura e dezenas de quilômetros de extensão, na chamada plataforma continental, sobre estruturas antigas de relevo. “Há um efeito a distância. Os sedimentos permanecem em pontos bem distantes da origem. Duzentos quilômetros foi o limite a que chegamos, mas ainda não sabemos se poderiam ir mais longe.” Mahiques argumenta que dois conceitos básicos sobre o funcionamento da plataforma continental deveriam ser revistos. O primeiro é que a quantidade de materiais do continente que chega ao mar seria pequena. O segundo é que os ambientes costeiros retêm a sujeira. “A quantidade não é pequena, nem os estuários são um filtro perfeito dos resíduos gerados no continente.”

Os pesquisadores analisaram 21 amostras de sedimentos coletadas em 2005 e outras, mais recentes, reunidas por meio do navio oceanográfico Alpha Crucis. Os resultados indicaram que os níveis de chumbo, zinco e cobre a 100 metros de profundidade a mais de 100 km da costa eram próximos aos encontrados na baía de Santos, embora mais baixos que os limites mais altos do estuário santista, um ambiente próximo à terra que mistura água de rios e do mar. No estuário, a concentração de chumbo no sedimento marinho variava de 9 miligramas por quilograma (mg/kg) em áreas não contaminadas a 59 mg/kg em amostras do fundo do porto, indicando um aumento de cinco a 10 vezes em comparação com os valores anteriores ao processo de industrialização. Os autores desse trabalho afirmaram que os poluentes industriais misturados com a lama no fundo do mar poderiam facilmente voltar à circulação, como resultado de movimentos intensos da água ou de atividade humana como a dragagem para a ampliação de portos ou a pesca com redes pesadas que revolvem o fundo do mar.

Estudos anteriores de pesquisadores do IO-USP já haviam mostrado que a descarga contínua de esgotos domésticos e de poluentes industriais na baía de Santos era provavelmente uma das causas da reduzida diversidade de organismos marinhos na região, em comparação com áreas menos poluídas.

Em paralelo, uma equipe da Unesp em São Vicente encontrou níveis acima dos permitidos em lei de quatro metais pesados – cádmio, cobre, chumbo e mercúrio – em amostras de água, sedimento e em caranguejos-uçá dos manguezais dos municípios de Cubatão, Bertioga, Iguape, São Vicente e Cananeia. Nas regiões com maior concentração desses metais, os caranguejos apresentavam uma proporção maior de células com alterações genéticas associadas à ocorrência de malformações (ver Pesquisa FAPESP no 225). Estudo de uma equipe da Universidade Federal do Rio Grande publicado em novembro de 2015 associou a contaminação por metal como possível causa da fibropapilomatose, uma doença específica de tartarugas marinhas, caracterizada pela formação de tumores benignos sobre a pele, em tartarugas-verde (Chelonia mydas) de Ubatuba, SP, já que os animais examinados apresentavam um nível acima do normal de cobre, ferro e chumbo, em comparação com animais saudáveis.

“Quando pensarmos em legislação e políticas públicas, para fazer uma projeção do impacto de eventuais acidentes ambientais, temos de olhar mais longe e rever o conceito de área de influência, já que o efeito pode ser muito maior do que o imaginado”, disse Mahiques. Bastos, da Ufes, observou que os danos ambientais podem ser intensos em consequência de pequenas alterações na concentração de metais na água do mar, mesmo que os limites ainda estejam abaixo dos máximos estabelecidos pela legislação ambiental.

Artigos científicos
FIGUEIRA, R.C.L. et al. Distribution of 137Cs, 238Pu and 239 + 240Pu in sediments of the southeastern Brazilian shelf – SW Atlantic margin. Science of the Total Environment. v. 357, p. 146-59. 2006.
MAHIQUES, M.M. et al. Mud depocentres on the continental shelf: a neglected sink for anthropogenic contaminants from the coastal zone. Environmental. Earth Sciences. v. 75, n. 1, p. 44-55. 2016.
SILVA, C.C. da et al. Metal contamination as a possible etiology of fibropapillomatosis in juvenile female green sea turtles Chelonia mydas from the southern Atlantic Ocean.Aquatic Toxicology. v. 170, p. 42-51. 2016.

FONTE: http://revistapesquisa.fapesp.br/2016/04/19/impactos-visiveis-no-mar/?cat=ciencia

Rio Doce pós-TsuLama da Samarco: cadê a prometida ressurreição, Dr. Rosman?

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No dia 28 de  Novembro de 2015, o Prof. Paulo Rosman do COPPETEC/UFRJ deu uma entrevista à rede inglesa BBC com uma previsão que gerou muita polêmica nas redes sociais. Nessa previsão o Prof. Rosman indicou a sua crença numa eventual ressurreição do Rio Doce até o final deste mês de Abril, ou seja, cinco meses após a data da entrevista (Aqui!).

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As reações à entrevista dada pelo prof. PauloRosman à BBC sobre a situação criada pelo incidente da Mineradora Samarco em Mariana (Aqui!) não tardaram. Um membro da rede social Facebook resolveu inclusive criar um evento que ele denominou de “Dia da Ressureição do Rio Doce, segundo Paulo Rosman e o MMA”.

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Pois bem, ontem (28/4) completaram-se os cinco previstos pelo Prof. Rosman, a antecipada ressurreição do Rio Doce não se consumou. E, pior, notícias vindas das regiões atingidas pelo TsuLama da Samarco dão conta que as condições de recuperação dos ecossistemas atingidos continuam bastante lentas, até porque até hoje não foi interrompida a chegada de sedimentos aos sistemas aquáticos que desaguam no Rio Doce.

Além disso, o drama social causado pelo TsuLama tampouco se abateu, pois continuam os problemas com o abastecimento de água potável e persiste o abandono das famílias diretamente atingidas pelo incidente ocorrido em Bento Rodrigues.

Diante desse cenário todo, eu fico me perguntando se BBC vai procurar o Prof. Rosman para que ele nos esclareça porque a ressurreição do Rio Doce se transformou numa previsão furada. Já no caso da ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira,  que havia prometido ações para mitigar os efeitos do TsuLama, é provável que a maior preocupação atual dela seja arrumar as gavetas com o iminente impeachment da presidente Dilma Rousseff.

E pensar que depois dessa tragédia toda a grande solução que está sendo preparada em Brasília é abolir o processo de licenciamento ambiental no Brasil.  Se isso se consumar, o mais provável que o TsuLama da Samarco seja apenas o primeiro de uma longa série de incidentes mortais. E ainda sem direito à ressurreição, seja dos mortos ou dos ecossistemas naturais.

Ainda impune pelo TsuLama, Samarco teima em negar o óbvio

lama

Após exatos cinco meses desde o incidente que vitimou Bento Rodrigues e toda a bacia hidrográfica do Rio Doce, a Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) continua seu jogo de negar o óbvio para escapar de suas múltiplas responsabilidades sociais e ambientais.

O impressionante é que no Brasil tem gente na cadeia pelo roubo de livros para estudar ou até de comida para alimentar filhos famintos. Enquanto isso, os proprietários e funcionários da Samarco continue literalmente impunes pelo maior desastre causado pela mineração nos últimos 100 anos em todo o planeta!

É ou não uma completa falta de vergonha?!

Diretor da Samarco nega vazamento de rejeitos de minério no Rio Doce

Por  Rafael Monteiro de Barros

O Ministério Público de Minas Gerais, no entanto, entrou com ação pedindo que a empresa interrompa o vazamento da lama em Fundão

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Imagens aéreas mostram foz do Rio Doce após chegada da lama. Foto Secundo Rezende

“Hoje não há lama vertendo da barragem para o Rio Doce”. É isso o que afirma o diretor de Projetos e Ecoeficiência da Samarco, Maury de Souza Junior, em relação à contenção dos rejeitos de minério que tomaram conta do Rio Doce. No entanto, há divergências sobre essa informação. O Ministério Público Estadual de Minas Gerais entrou com uma ação nesta segunda-feira (4) para que a mineradora interrompa o vazamento de lama para o curso d’água

Uma barragem de minério da empresa se rompeu, em Mariana (MG), em novembro do ano passado. O fato provocou um grande desastre ambiental com impactos em Minas Gerais e no Espírito Santo. Segundo Maury de Souza, a empresa construiu um dique na região do rompimento da barragem de Fundão e o vazamento dos rejeitos de minério foi interrompido. “Já faz uns 20 dias que não desce uma gota. Não está vertendo lama da barragem para o Rio Doce”, garantiu.

Apesar da alegação do diretor da Samarco, o Ministério Público Estadual de Minas Gerais entrou com uma ação contra a empresa, na segunda-feira (4), pedindo que a mineradora tome medidas para interromper o vazamento de rejeitos de minério que atinge a Bacia Hidrográfica do Rio Doce desde novembro do ano passado. Ao ser questionado sobre essa ação, Maury de Souza declarou que não sabe de onde o Ministério Público tirou essa informação. 

Nível de metais pesados é normal, afirma diretor

Sobre os impactos causados pela lama à fauna aquática, o diretor da Samarco disse que estudos da empresa apontam que os níveis de metais pesados encontrados nos peixes do rio são considerados normais, diferentemente dos índices verificados nos animais da foz, em Regência.

Um laudo produzido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICM-Bio) apontou alta concentração de metais pesados nos peixes coletados na foz do Rio Doce. No roncador, por exemplo, foram verificados níveis de arsênio 140 vezes acima do permitido. A pesca está proibida entre Barra do Riacho, em Aracruz, e Degredo, em Linhares.

FONTE: http://www.gazetaonline.com.br/_conteudo/2016/04/noticias/cidades/3937110-diretor-da-samarco-nega-vazamento-de-rejeitos-de-minerio-no-rio-doce.html

Samarco se dispõe a “ajudar” Ufes a analisar amostras de água do Rio Doce. O que será que estão pedindo em troca?

água

Segundo a matéria abaixo, assinada por Pedro Permuy, e publicada pelo site Espírito Santo Hoje, a Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) está se  disponibilizando a “ajudar” pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) a analisar as amostras de água coletadas no Rio Doce, afim de estabelecer os níveis de contaminação associadas à passagem do TsuLama que a negligência da empresa causou em Mariana (MG).

Eu só espero que em troca dessa “ajuda” não apareça com contratos de confidencialidade para a UFES assinar, o que representaria um grave prejuízo aos interesses da população que está sendo afetada pela negligência da Samarco.

É que no caso deste tipo de “ajuda” a prática comum das corporações é que a moeda de troca seja a proibição da publicização dos resultados.  A ver!

Samarco quer ajudar a Ufes a analisar amostras d’água do rio Doce

Foto: Fred Loureiro/Governo do ESFred Loureiro/Governo do ES

A fim de que as 2.785 amostras coletadas da Foz do rio Doce, rio São Mateus, rio Mucurici e rio Caravelas possam ser analisadas mais rapidamente, a Samarco Mineração S.A está firmando parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) para disponibilizar ajuda que colabore nesse trabalho.

A mineradora diz que pretende efetivar o conchave que ajudará na execução das análises físico-químicas e biológicas da água e do sedimento referente ao diagnóstico dos locais nos quais foram retiradas amostras. A preocupação pode ter vindo na última semana, quando a Ufes divulgou os resultados prévios das análises e pediu prazo de ao menos seis meses para que o relatório final fosse entregue. Os pesquisadores encontraram ferro, manganês, alumínio e cromo com níveis elevados.

Considerado o maior desastre ambiental da história do país, o evento – que aconteceu no dia 05 de novembro de 2015 – foi responsável por matar 17 pessoas, destruir comunidades ribeirinhas e, ainda, extinguir a vida aquática do rio Doce e afetar os animais marinhos. Cerca de três toneladas de peixes mortos foram retirados do manancial e aproximadamente 500 quilos do mar. Além disso, a pesquisa leva a crer que a lama, por ser constituída de partículas finas, é o que está soterrando o que ainda resta dos seres vivos do Doce.

De acordo com o pesquisador da Ufes do departamento de oceanografia Alex Bastos, os estudos mostram o que pode acontecer a princípio. Ele esclarece que a coleta de amostras aconteceu a partir de quatro dias após a chegada da lama de rejeito na foz do rio Doce numa expedição que durou treze dias diluídos em três viagens.

O pesquisador esclarece que o que mais chama a atenção, depois do acúmulo de sedimentos anormal na calha do Doce, é o desequilíbrio que existe entre nascimento e morte da população de fitoplânctons. “Existe um descontrole, principalmente na taxa de mortandade, que está elevada”, pondera. Ele explica que esse contingente pode levar ao desaparecimento de peixes na região, pois os plânctons servem de alimento no primeiro nível trófico da cadeia.

“Como foi observado um aumento na concentração de ferro e nutrientes como nitrato, nitrogênio amoniacal e silício, esses elementos podem ser responsáveis pela alta proliferação e alta mortandade desses espécimes”, conta o pesquisador. Ele destaca que, se antes eram encontradas até 70 espécies diferentes de fitoplânctons, agora, esse quantitativo não passa de 39.

FONTE: http://www.eshoje.jor.br/_conteudo/2016/02/noticias/geral/37907-samarco-quer-ajudar-a-ufes-a-analisar-amostras-d-agua-do-rio-doce.html

Contaminação do Rio Doce pode se estender por muitos anos

Por Jovem Pan

fonte: Fred Loureiro /Secom ES

A água do Rio foi coletada em 18 pontos e, em somente dois, o índice de qualidade foi considerado regular.

 Sem um plano de recuperação, a contaminação do Rio Doce pode se estender por muitos anos, após o acidente na barragem de Mariana. Essa conclusão faz parte de um relatório da Fundação SOS Mata Atlântica, obtido com exclusividade pela Rádio Jovem Pan.

A água do Rio foi coletada em 18 pontos e, em somente dois, o índice de qualidade foi considerado regular. Em todos os outros a avaliação foi péssima. Entre os metais pesados encontrados acima dos níveis permitidos estão magnésio, chumbo, cobre, alumínio, ferro e manganês.

Os níveis de turbidez da água ficaram entre 5.150 e 1.220 UTNs, a unidade de valor usada para fazer a medição, sendo que o máximo aceitável é de 40 UTNs.

A coordenadora da rede de águas da SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro, diz a Anderson Costa que a chuva contribui para o aumento da contaminação do rio: “Cada vez que chove, ao contrário do que foi dito, divulgado por algumas autoridades e pela própria empresa, não vai haver uma diluição, uma dispersão desses minérios. Eles não estão segmentando e, quanto mais chuva, mais lama é depositada”. Malu Ribeiro acrescenta que em todo o percurso de 650 km do Rio Doce há contaminação, desde o local do acidente até o litoral capixaba.

O prefeito de Colatina e presidente do Comitê da Bacia do Rio Doce, Leonardo Deptulski, afirma que não há como saber o tempo que a lama vai ficar suspensa: “Tem uma característica que uma parte dessas partículas são muito pequenas, não decantam, ficam suspensas na água. Então dá a impressão que a água continua com o mesmo grau de quantidade de partículas, de turbidez”.

O governo negocia um acordo com a mineradora Samarco para revitalizar o Rio Doce, com 19 medidas socioeconômicas e 19 socioambientais. Em entrevista ao repórter Danillo Oliveira, o prefeito de Mariana, Duarte Junior, defende a inclusão do saneamento de esgoto pela empresa nas medidas: “Esperamos que a Samarco assuma isso, porque o fundo de R$ 1 bilhão que foi determinado pelo Ministério Público vai ser direcionado para medidas compensatórias. A gente quer muito tratar a nossa rede de esgoto, porque a gente polui o nosso Ribeirão do Carmo, jogando a nossa rede de esgoto no rio. Seria um bem ao nosso meio ambiente, então estamos trabalhando dessa forma”.

Em Minas Gerais, o mar de lama também poluiu, além do Rio Doce, os rios do Carmo e Gualaxo do Sul, na região de Mariana. Para a recuperação da bacia, também está em discussão a criação de um fundo de R$ 20 bilhões.

FONTE: http://jovempan.uol.com.br/programas/jornal-da-manha/contaminacao-do-rio-doce-pode-se-estender-por-muitos-anos.html

Caos no Rio Doce: primeiro o TsuLama, agora a inundação

rio doce

A situação ambiental na bacia do Rio Doce já não era boa antes do rompimento da barragem do Fundão da Mineradora Samarco (Vale+BHP Billiton), mas piorou consideravelmente após o início do TsuLama. É que somado aos problemas da erosão de encostas e lançamento de rejeitos urbanos e industriais, há agora a carga física dos rejeitos entulhando trechos inteiros da calha principal do Rio Doce, e que causa reverberações no fluxo hídrico de seus tributários.

Se somarmos a situação do rio à ocorrência de chuvas torrenciais, como está ocorrendo nas últimas semanas, a possibilidade é que as cidades situadas à beira do Rio Doce comecem a sofrer com inundações que, por tabela, trarão para o interior delas parte dos rejeitos que escaparam em Bento Rodrigues.

Pois bem, observando jornais mineiros e capixabas já posso dizer que passamos do campo da possibilidade para o da realidade.  Informações divulgadas pela CPRM e pelas redes sociais dão conta de uma abrupta elevação da cota, e de episódios de inundação em várias cidades, incluindo Governador Valadares (MG) e Colatina (ES).

Logo no início do surgimento do TsuLama comentei aqui no blog e em entrevistas a jornalistas que uma das possíveis consequências do aumento da carga de sedimentos na calha dos rios atingidos direta ou indiretamente pelo problema seria justamente a propensão ao aumento de inundações. Para dizer isso me baseei numa monografia que orientei sobre os efeitos do derrame de bauxita em Miraí (MG) e que atingiu o Rio Muriaé, e que teve como consequência direta o aumento de inundações.

O problema das inundações é apenas mais um que decorre do TsuLama, mas é um particularmente importante porque tenderá a ter efeitos de multiplicação no tempo e no espaço. É que parte significativa do material acumulado na calha do Rio Doce irá demorar muito tempo para chegar ao oceano, o que provavelmente causará a repetição de inundações anuais, mesmo em anos em que o montante de chuvas não justifique a ocorrência.

Por essa e outras é que o recente acordo entre o governo federal e os de Minas Gerais e Espírito Santo com a Vale e a BHP Billiton se torna completamente esquisito. É que em vez de oferecer leniência e o controle efetivo da situação às corporações, o caminho que deveria estar sendo adotado deveria ser justamente o oposto, ou seja, a adoção de punições exemplares e o fortalecimento dos órgãos ambientais.

Agora, aos habitantes das cidades próximas do Rio Doce e de seus tributários o caminho é cobrar a responsabilização de quem causou o TsuLama. Do contrário, o tango da impunidade vai continuar, mas quem vai realmente dançar serão os próprios atingidos.

Por mais Augusto Ruschi e menos Sebastião Salgado

Por   Roberto José Hezer Vervloet

RUSCHI

É comemorado neste mês de dezembro o centenário de nascimento do cientista Augusto Ruschi, capixaba, ambientalista, naturalista, nascido no município de Santa Tereza e uma das maiores referências mundiais em estudos ornitológicos de beija-flores e da ecologia da Mata Atlântica. A celebração de sua memória e da dimensão política e ecológica de sua concepção ambientalista de mundo torna-se primordial nestes tempos de tragédia socioambiental, como a da Samarco no Rio Doce e de crises sofisticamente pré-fabricadas. Além, é claro, de demarcação do tipo de convicção ética que deve ser aplicado à luta socioambiental na dimensão do debate político acerca da relação sociedade-natureza.

Nestes tempos de acirrado debate socioambiental sobre a forma como a sociedade se projeta sobre os espaços herdados da natureza, a recuperação do legado de Augusto Ruschi traz consigo a recapitulação da ética necessária como critério de demarcação dos limites que devem ser aceitáveis no campo da luta socioambiental; onde nem tudo é permitido, nem tudo deve ser aceitável e nem tudo é recomendável.

Ao mesmo tempo, tem aflorado, neste debate, condutas e posturas políticas que ensejam exatamente outra dimensão da ação política que evidencia a forte relativização de uma ética que consagra e valida as ações indiscriminadas sobre a natureza. Refiro-me a ausência, no discurso e conduta de Sebastião Salgado, da demarcação e identificação dos atores responsáveis pela degradação dos recursos naturais que seu “ambientalismo” almeja recuperar, bem como uma postura mais crítica com relação a eles.

O ambientalismo de Augusto Ruschi é absolutamente diferente do praticado pelo fotógrafo Sebastião Salgado, que, embora tenha um importante legado de iniciativa socioambiental em favor da proteção da natureza, o faz por métodos e instrumentos que refletem o forte relativismo presente neste ambientalismo contemporâneo. Ou seja, o de se ver refém de mecanismos pseudo institucionais (compensações ambientais, doações e convênios) relacionados a atores (empresas) que são os verdadeiros responsáveis pela manutenção da racionalidade capitalista empresarial que não enxerga nada além do lucro oriundo da exploração dos recursos naturais.

Embora Augusto Ruschi seja muito conhecido pelo seu legado ambiental, pelas suas pesquisas ornitológicas e ecológicas é pouco conhecido por suas posições políticas e postura crítica. O pouco que conheço desse cientista foi por meio do estudo de seus textos e artigos científicos publicados no Boletim do Museu de Biologia Prof. “Mello Leitão”. É impressionante! Lá, é possível encontrar um acervo que demonstra não somente o eminente cientista da ecologia, ornitologia e climatologia ecológica, mas o ser político, o homem de personalidade forte que defendia a proteção à natureza a partir de uma concepção ética de denúncia e protesto diante da relação promíscua que se estabelecia entre Estado e grupos empresariais retrógrados que se instalavam no Espírito Santo, nos idos dos anos 1950.

Ruschi denunciou, também, o descaso com os grupos indígenas por parte do governo do Estado e Federal; enfrentou a política florestal arcaica do governador Elcio Álvares (presente e praticada até hoje em órgãos do Estado) em pleno período ditatorial militar; denunciou a tragédia socioambiental que seria a instalação do complexo siderúrgico da Vale na ponta de Tubarão, próximo a uma metrópole em processo de expansão como Vitória; a invasão exótica da monocultura de eucalipto pela Aracruz Celulose (Fibria) e os agrônomos que a defendiam e clamou ao mundo a necessidade de criar espaços naturais mínimos de preservação da biota nativa, como reservas de florestas, culminando na criação da Reserva Biológica Augusto Ruschi, em Santa Tereza. Ah, se ele estivesse vivo!! Com certeza, seria uma voz de forte resistência ao projeto empresarial desenvolvimentista de Paulo Hartung e usaria os fóruns internacionais para denunciar o que acontece na política ambiental do Espírito Santo e na tragédia previamente anunciada da Samarco no Rio Doce.

De Sebastião Salgado, além das suas exposições e livros publicados, conheço a sua principal iniciativa socioambiental, o Instituto Terra. Foi lá que fiz o meu primeiro trabalho de geomorfologia, quando o instituto estava começando, na antiga Fazenda Bulcão. O título do trabalho era “Impactos geomorfológicos da ocupação humana no município de Aimorés – uma análise por fotos” e foi publicado nos Anais do III Encontro Estadual de Geografia de Colatina, em 2001, organizado pela Associação dos Geógrafos Brasileiros, seção Espírito Santo. Na época, e neste encontro, questionávamos sobre a legitimidade e a ética de projetos ambientais financiados ou patrocinados por empresas como a Vale e Samarco, e convidamos os membros do Instituto Terra para debater o tema com os pesquisadores da geografia. Ninguém compareceu e, desde então, o que se viu foi a efetivação de uma entidade com patrocínios e convênios (como se observa nos demonstrativos financeiros publicados no site do instituto) firmados com empresas que são hoje as principais responsáveis pela degradação ambiental que o próprio instituto, por meio de seus projetos, procurar recuperar, tais como Vale e Samarco. Sebastião Salgado não tem formação técnica na área de ciências da natureza, mas é economista. Sabe como é a organização econômica de um aparato industrial como o da Vale, Samarco, Fibria, etc., tendo clara noção do quanto a forma de produzir dessas empresas poluidoras responde pela degradação dos recursos naturais, sem falar das mazelas sociais, como baixo índice de emprego gerado, concentração da renda e financiamento privado de grupos políticos.

Ruschi não se furtava em identificar os atores responsáveis pela degradação dos recursos naturais. Em sua ética e visão política ambiental a ecologia não era uma questão de caridade e de ajuda humanitária. Era uma questão de justiça ambiental e de ação política. Difícil acreditar em Ruschi fazendo convênios com empresas e/ou se reunindo com governadores para tratar de seus projetos ambientais. Assim como seria muito difícil imaginar Sebastião Salgado denunciando publicamente as ações da Samarco e da Vale. Imagina!? Sebastião Salgado protestando contra os projetos desenvolvimentistas de grupos empresariais que financiam a política de Paulo Hartung!? Protestando nos fóruns internacionais sobre a poluição atmosférica da Vale na Grande Vitória e os rejeitos da Samarco no Rio Doce!? Seria um grande ganho para a sociedade.

As concepções de luta ambiental presentes em Sebastião Salgado e Augusto Ruschi são distintamente diferentes e refletem o quanto essa dimensão política da nossa realidade mudou nos últimos anos, visto que ambos, embora tenham pontos comuns de convergência, divergem totalmente no método e postura. Acredito que na esfera da atuação política, tanto ambiental, quanto social, econômica e cultural, devemos sempre distanciar das condutas que degeneram em posições dissimuladas da realidade concreta dos fatos, resultado da distância que separa a nossa consciência do problema das ações necessárias para sua solução; o que resulta sempre em hipocrisia. Neste sentido, sou bastante sincero, por mais Augusto Ruschi e menos Sebastião Salgado.

* Geógrafo e geomorfólogo – doutor em Geografia Física pela USP.

FONTE: http://www.bancarios-es.org.br/comunicacao/artigos/1703-artigo-por-mais-augusto-ruschi-e-menos-sebastiao-salgado

TsuLama da Samarco: 47 dias depois, rejeitos continuam escapando para o Rio Doce

As imagens abaixo fazem parte de uma reportagem produzida pelo G1 de MG no dia de ontem (21/12) ( Aqui!) e ratificam o fato de que passados mais de 40 dias da eclosão do TsuLama em Bento Rodrigues, o vazamento ainda não foi controlado pela Mineradora Samarco, Vale ou BHP Billiton. Tal fato torna ainda mais difícil estimar períodos de recuperação da bacia do Doce, bem como da fauna e flora ali existentes, e das populações humanas que dependem do rio para sua sobrevivência.

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Um aspecto que me deixou curioso é sobre as características granulométricas e da composição química deste material que está saindo, visto que pelo menos em aparência é mais fino e com maior tempo de residência dentro do reservatório. Isto poderá ser importante, e especialmente impactante, sobre os ecossistemas. Mas essas questões certamente devem estar sendo examinados pelos diferentes grupos de pesquisa que estiveram ou estão na região coletando amostras.  Mas uma coisa é certa: a prometida “ressurreição” do Rio Doce para cinco meses está cada vez mais inviável.

E a dúvida que assola a mim e a tantos outros é a seguinte: por que nenhum diretor das três empresas responsáveis pela continuidade desta hecatombe ambiental não foi ainda preso?

Prejuízo sem fim: TsuLama da Samarco deixou terras estéreis

Relatório da Embrapa aponta que avalanche de lama da Samarco deixou solo inerte

Levantamento das condições do solo aponta que região atingida pelos rejeitos da mineração não é mais propícia à atividade agropecuária

SOLOS

Estudo realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostra que o solo das áreas atingidas pela lama da barragem da mineradora Samarco, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais, não apresenta condições para o desenvolvimento de atividades agropecuárias. O trabalho foi realizado a pedido do governo de Minas, em uma parceria com a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Emater-MG e Epamig. A pesquisa também mostra que não foi detectada a presença de metais pesados em níveis tóxicos nas amostras coletadas.

“O que o relatório da Embrapa aponta é deficiência de fertilidade do solo, após a avalanche de lama e rejeitos de mineração. Existem também problemas de ordem física. Surgiu uma nova camada na parte superior do solo que é praticamente inerte”, explica o presidente da Emater-MG, Amarildo Kalil. A área atingida pelos rejeitos é de 1.430 hectares e abrange os municípios de Mariana, Barra Longa e Rio Doce. Nos outros locais, os prejuízos ficaram mais concentrados na calha do Rio Doce e na vegetação ciliar.

O trabalho para o levantamento das condições do solo da região começou em 18 de novembro com a participação de técnicos da Embrapa Solos e Embrapa Milho e Sorgo. Foram feitas coletas em 10 pontos de amostragem da área atingida pela lama. As análises foram feitas nos laboratórios da Embrapa Solos, no Rio de Janeiro. “Apesar de não ser tóxico, o material que está se sedimentando não apresenta condições para a germinação de sementes, nem para o desenvolvimento radiculares das plantas. Além da baixa fertilidade e dificuldade de infiltração de água, o nível de matéria orgânica necessário para a vida microbiana do solo também foi bastante prejudicado”, explica Amarildo Kalil.

O estudo aponta redução no solo dos níveis de potássio, magnésio e cálcio que são necessários para o desenvolvimento de atividades agrícolas. O pH, que mede a acidez do solo, também foi alterado. A tendência é que o solo fique bastante compactado por causa dos altos teores de silte e areia fina, com baixa presença de argila.

Outra análise que a Embrapa Solos está fazendo é do aspecto físico do solo. “A segunda etapa da análise, que ainda está em andamento, é para saber em que este material que cobriu o solo original irá se transformar. Qual será o grau de compactação. Deveremos concluir este estudo no início de fevereiro do próximo ano”, explica o chefe adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Solos, José Carlos Polidoro. “Infelizmente, o resultado dos estudos confirmou o estrago para a atividade agropecuária na região. Nosso desafio agora, envolvendo todas as esferas do setor público, é reduzir os problemas dos produtores e buscar alternativas econômicas para eles.

O estudo aponta redução no solo dos níveis de potássio, magnésio e cálcio que são necessários para o desenvolvimento de atividades agrícolas. O pH, que mede a acidez do solo, também foi alterado. A tendência é que o solo fique bastante compactado por causa dos altos teores de silte e areia fina, com baixa presença de argila.

O presidente da Emater-MG, Amarildo Kalil, propõe uma intensa atividade de reflorestamento, com diversas espécies nativas, na área atingida pelos rejeitos da mineração. “É um trabalho que só apresentará resultados daqui a alguns anos, mas precisa ser feito para tentar recuperar o solo”, explica. Segundo ele, a ação consiste na abertura de covas maiores onde seriam acondicionados todos os nutrientes e matéria orgânica para viabilizar o desenvolvimento das plantas.

Segundo o pesquisador da Embrapa Solos, José Carlos Polidoro, a ação imediata que precisa ser colocada em prática na região atingida pela lama é a contenção da erosão, que ainda pode levar sedimentos da área afetada para os cursos d’água, principalmente neste período de chuvas. “Este material ainda é muito instável e precisa ser contido”, afirma.

A Emater-MG também elaborou um plano de ação junto com a Epamig e prefeituras para fazer visitas aos produtores atingidos pelo rompimento da barragem. Estão sendo aplicados questionários para, principalmente, quantificar as perdas sofridas pelos agricultores.

FONTE: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/12/17/interna_gerais,718251/relatorio-da-embrapa-aponta-que-avalanche-de-lama-da-samarco-deixou-so.shtml

Matéria do Estado de Minas coloca em xeque discurso de responsabilidade social da Mineradora Samarco

Famílias e empresas de municípios banhados pelo Rio Doce lamentam abandono pela Samarco

Indiretamente atingidas pela tragédia em Mariana, pessoas e empresas que tiveram perdas com o rompimento da Barragem do Fundão alegam que foram esquecidas pela Samarco, que ainda não atendeu seus pedidos

Por Pedro Ferreira , Paula Carolina /Estado de Minas

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Famílias e empresas de municípios ao longo do Rio Doce em Minas Gerais e no Espírito Santo, que tiveram suas vidas prejudicadas pelo rompimento da Barragem do Fundão, reclamam que não estão recebendo a mesma atenção dada pela Samarco às vítimas dos subdistritos de Mariana, na Região Central do estado, onde a barragem de rejeitos de minério estourou em 5 de novembro. Segundo essas pessoas, passados 37 dias da tragédia elas não receberam nenhum tipo de ajuda financeira da mineradora. Em Galileia, Vale do Rio Doce, muitos pescadores estão de braços cruzados, pois todos os peixes morreram e o rio continua cheio de lama.

Para complicar ainda mais a situação, a Secretaria Municipal de Saúde de Galileia denuncia que a água distribuída pela Samarco está contaminada com coliformes fecais, totais e escherichia coli, que causa diarreia e vômito na população. A análise da água foi feita pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Segundo a secretária de saúde, Meirimarcia Gonçalves Santos, 92 moradores da cidade adoeceram depois que passaram a usar a água fornecida pela mineradora, número considerado elevado para um universo de 7 mil habitantes. Antes, era um caso isolado de diarreia por mês, segundo ela. “Temos um surto da doença”, alerta Mairimarcia.

A secretária explica que água potável é aquela apropriada para o consumo humano. “A água distribuída, de acordo com ela, é captada em Governador Valadares, Ipatinga e Conselheiro Pena. “As análises feitas em diversas amostras comprovam que a água está contaminada.”

Quem depende do rio para sobreviver, como os pescadores, ainda não recebeu nenhum tipo de ajuda financeira da Samarco, segundo a secretária. “A mineradora mandou uma empresa fazer um levantamento de quem realmente foi atingido, mas até hoje ninguém recebeu qualquer quantia da Samarco”, afirmou. Ela acrescentou que foi feito um levantamento da população ribeirinha no município e muitos produtores rurais perderam todo o sistema de irrigação em plantações e pastos. “A gente solicitou da Samarco o ressarcimento do dinheiro perdido e também que ela contribuísse financeiramente com essas vítimas. Temos fazendas com muitas cabeças de gado que só tinham a água do Rio Doce para beber. Nesses casos, a mineradora está mandando caminhões-pipa”, disse.

Na reserva indígena krenak , em Resplendor, também no Vale do Rio Doce, não há mais peixes, segundo o cacique Adalto Krenak. “A única ajuda que temos é de caminhão-pipa trazendo água. Não recebemos nenhum dinheiro. A situação está muito difícil. A gente gosta muito de pescar, caçar, mas isso tudo já era. Estamos na luta pela água agora, mas depois vamos correr atrás de outras coisas, pedir projetos para criação de peixes”, disse o cacique.

PERTO DA TRAGÉDIA

 Também há pessoas e empresas nos arredores de Mariana que também não tiveram suas perdas reconhecidas pela mineradora Samarco, situação que levou a comarca de Mariana, do Ministério Público de Minas Gerais, a ingressar com nova ação, anteontem, contra a empresa, pleiteando ajuda exatamente para quem foi indiretamente atingido pela tragédia. Segundo o promotor Guilherme Meneghim, um levantamento em toda a região ainda está para ser concluído, mas a estimativa é de que cerca de 1 mil pessoas possam ser contempladas nesse pleito.

Ele cita, como caso mais emblemático, uma cooperativa de produtores de leite do distrito de Águas Claras. “Esses produtores dependiam dos produtores de leite de Paracatu, uam das comunidades afetadas. E como lá a produção foi interrompida, a produção de leite, como um todo, reduziu muito. E sozinhos eles não conseguem lucro suficiente para suplantar os prejuízos”, explica o promotor.

Mas, segundo o Meneghim, a Samarco entendeu que esse seria um conceito muito amplo de se determinar os atingidos, o que não permitiu a assinatura de um termo de compromisso com o MP, motivando a ação.

RESPOSTA

A Samarco informou que começou quinta-feira a distribuição dos primeiros 120 cartões de débito aos pescadores e ribeirinhos cuja subsistência foi impactada pelo acidente em Mariana. “Este é o primeiro passo de um programa de atenção social aos pescadores e ribeirinhos, que a mineradora está executando em parceria com o Ministério Público Federal e Ministério Público do Trabalho, com quem a empresa assinou um Termo de Compromisso Social e Ambiental”, disse a Samarco em nota.

A mineradora anunciou a contrataçaõ da empresa Golder Associates Brasil Consultoria e Projetos para fazer a avaliação socioeconômica dos municípios e grupos sociais afetados e, posteriormente, vai apresentar um plano de mitigação de impactos e compensação social. Esse estudo ainda está em andamento, segundo a mineradora.

O subsídio é uma medida emergencial e contempla o pagamento mensal de um salário mínimo, mais um adicional de 20% do salário mínimo para cada um dos dependentes e o valor referente a uma cesta básica (R$ 338,61)”, informou a Samarco.  A mineradora também divulgou que famílias atingidas em Barra Longa e distritos começaram a receber ontem cartões de auxílio financeiro. Foram entregues cartões de auxílio financeiro a 50 famílias da sede e distritos do município que perderam sua fonte de renda com o acidente da barragem, segundo a nota. “A entrega continuará sendo feita à medida em que os demais cadastros forem validados, até que todos os núcleos familiares elegíveis sejam atendidos”, informou.