Um “rolezinho” das periferias

 

O fenômeno do “rolezinho” que ocorre, principalmente nos shoppings paulistas, ainda é um enigma a ser decifrado. Há os que veem nas manifestações a continuidade das mobilizações de junho de 2013. Para outros, as manifestações estão restritas às esferas das brincadeiras e não das de um movimento social. E, ao contrário, há também os que já as enquadram no campo das manifestações políticas e bem organizadas.

 

Editorial da edição 569 do Brasil de Fato 

Em suas sempre profundas e lúcidas análises sobre a sociedade brasileira, Florestan Fernandes dizia que a burguesia deste país primava pelo seu caráter antinacional, antissocial e antidemocrático.

O fenômeno do “rolezinho” que ocorre, principalmente nos shoppings paulistas, ainda é um enigma a ser decifrado. Há os que veem nas manifestações a continuidade das mobilizações de junho de 2013. Para outros, as manifestações estão restritas às esferas das brincadeiras e não das de um movimento social. E, ao contrário, há também os que já as enquadram no campo das manifestações políticas e bem organizadas.

Certamente teremos que esperar um tempo maior para constatar se essas manifestações estão sendo um embrião ou não de formas mais organizadas de intervenção nos espaços públicos e, consequentemente, de atuação política em nosso país.

No entanto, um mérito já deve ser reconhecido aos “rolezinhos”: eles expuseram ao país o acerto e atualidade da assertiva do Florestan Fernandes, citada acima, referente ao caráter da burguesia brasileira.

E, como sempre, a primeira engrenagem que a burguesia põe em movimento dessa estrutura antissocial e antidemocrática é exatamente o aparato repressivo. A ação violenta e indiscriminada com que a polícia militar reprimiu as manifestações, apenas atestam cinco séculos da máxima: “a questão social é caso de polícia”.

Diante da repercussão que obteve a brutalidade policial – e, certamente, com os ensinamentos aprendidos com as mobilizações de junho – se buscou no poder judiciário uma justificativa legal para atender aos interesses da irracional política de segregação social.

Os shoppings obtiveram do poder judiciário liminares que proibiam a reunião desses jovens em seu interior e autorização para que empresas de segurança privada fi zessem uma “triagem” de quem poderia ou não entrar no estabelecimento comercial. Os critérios usados para a “triagem” restringiam-se às indumentárias e aos traços físicos das pessoas. Não é difícil identificar jovens da periferia, pretos, mestiços e pobres.

Imaginaram que respaldo judiciário e a costumeira força repressiva eram condição sufi ciente para barrar os jovens pobres, os “bárbaros”, e assegurar a tranquilidade dos brasileiros “europeizados”, nas palavras do sociólogo Jessé Souza, no interior do templo do consumo.

A triagem motivou estudantes, movimentos negros e de Defesa dos Direitos Humanos a organizarem um protesto em frente a um dos shoppings mais luxuosos de São Paulo, o Iguatemi JK, do Grupo  Jereissati. Foi o suficiente para o shopping tomar a decisão de fechar as portas, em pleno sábado, ao meio dia. Os seguranças repetiam, inclusive para funcionários do shopping, que quem estava dentro não sairia e quem estava fora não entraria.

Os “bárbaros” que cercaram o luxuoso templo do consumo não eram mais do que 200 jovens. Foi o suficiente para causar insegurança e medo aos que detém empresas privadas de segurança e facilidades para obter e liminares do poder judiciário.

Por ultimo, não faltou participação da mídia. Não faltaram as análises dos colunistas – os especialistas de coisa nenhuma, nas acertadas palavras do senador Roberto Requião – para tentar promover uma histeria coletiva e pedir uma ação enérgica dos governos. São análises que partem sempre da premissa de que as concentrações de jovens das periferias representam perigo e destinamse, sempre a provocar badernas.

Até que esses mesmos jovens iam aos shoppings, em grupos apenas para olhar as vitrines e lotar as praças de alimentação, eram tolerados. Quando os mesmos grupos encontraram uma forma de serem vistos e ouvidos, causaram medo e insegurança.

Sentimento que se transformou na ação de expulsá-los e não permitir sua entrada naquele templo. Acompanhada do firme propósito de reafirmar uma relação de poder sobre as classes subalternas.

É animador perceber, desde já, que os que detêm o poder de fazer triagem nas portas de um shopping, gastam fortunas com a segurança patrimonial, obtêm facilmente liminares na justiça e contam com o irrestrito apoio de uma mídia oligopolizada – e decadente – tomaram um verdadeiro “rolezinho” dos jovens das periferias.

FONTE: http://www.brasildefato.com.br/node/27184

Quem tem medo do rolezinho? Aparentemente, o promotor

De tempos em tempos vê-se a manifestação de órgãos que deveriam estar mais preocupados com questões mais importantes, mas que aproveitam o momento para mostrar um certa aura de utilidade. Esse parece ser o caso da ação do Ministério Público do Rio de Janeiro em Campos dos Goytacazes que, em atitude supostamente preventiva convocou a PM para coibir a realização de um “rolezinho” no Shopping Boulevard (Aqui!).

Se o douto promtor de justiça que emanou tal ordem já tivesse ido numa domingueira no mais fabuloso shopping campista já saberia que os rolezinhos ocorrem lá faz tempo. É que desprovidos de espaços públicos de lazer, os jovens campistas (especialmente aqueles que não tem dinheiro para ir para a Disney ou para a Europa) acabam encontrando no espaço privatizado do Boulevard aquele tipo de ambiente de congraçamento que uma cidade bilionária como Campos dos Goytacazes já deveria ter aos montes de forma pública, e não possui sequer um.

Aliás, eu que nem sou muito afeito ao trottoir privatizado que os ambientes de shopping centers oferecem aos cidadãos transformados em consumidores vorazes, penso que esse tipo de proibição acaba sendo gerando um efeito oposto e em potência redobrada. Aliás, a direção do Shopping Boulevard já até entendeu isso ao anunciar que não mudaria sua rotina por causa do anunciado “rolézinho”. Afinal, como educar a juventude nos “predicados” de consumir em ambientes climatizados se não for permitido o acesso? Aparentemente, aqui os agentes de mercado já entenderam que é melhor relaxar para deixar a juventude continuar gastando.

Por outro lado, em minha última passagem pelo Shopping Boulevard pude constar uma imensa multidão de jovens reunida e se manifestando em altos brados, sem que tivesse ocorrido qualquer quebra-quebra ou vandalismo. Nesse mesmo dia pude acompanhar o trabalho calmo e sereno dos próprios seguranças privados, sem que houvesse do lado de fora uma mísera patrulha da PMRJ.

Finalmente, numa região onde as violações dos direitos coletivos e individuais é tão marcante, é impressionante que ainda se perca tempo com manifestações de caráter político.

Rolezinho: ato em SP vai “denunciar o caráter racista” de shoppings

Foto: Reprodução/Facebook

Para um dos organizadores, repressão é tentativa de “impedir a presença de jovens, moradores de periferia, na sua ampla maioria negros” nos centros comerciais 

Por Igor Carvalho,  Da Revista Fórum

Marcada para o próximo sábado (18), às 12h, uma manifestação contra a repressão dos shopping centers ao movimento conhecido como “rolezinho”, realizado por jovens das periferias de São Paulo. Segundo Juninho Jr., do Círculo Palmarino, um dos organizadores do ato, a intenção é “denunciar o caráter racista das ações que vem sendo promovidas pelos shoppings de São Paulo.”

A manifestação seguirá até a entrada do shopping JK Iguatemi, um dos mais ricos da capital paulista, que no último sábado exigiu os documentos de frequentadores do local e até dos funcionários que trabalham nas lojas para evitar o “rolezinho”. Menores de idade desacompanhados não puderam frequentar o espaço.

O “rolezinho”, para Juninho, é a consequência do ideal de consumo propagado pelas elites, frequentadoras assíduas dos shoppings. “A burguesia propaga cotidianamente que para você ser alguém, ser reconhecido, é necessário ter e consumir, e o funk ostentação dialoga com esse sentimento. Porém, enquanto esses jovens sonharem com carros de luxo, roupas de marca, lá na periferia, tudo bem, o problema é quando eles desejam ocupar os espaços que tradicionalmente só são ocupado pelo andar de cima, ai gera uma contradição que a elite não consegue responder senão pela repressão.”

No último sábado (11), a Polícia Militar chegou a usar gás lacrimogêneo e bala de borracha para dispersar o “rolezinho” em um shopping de Itaquera. Três jovens foram detidos.

Confira a entrevista com Juninho Jr.  Aqui!

FONTE: http://www.brasildefato.com.br/node/27064