Bayer sofre queda acentuada nas bolsas após segunda condenação ligada ao uso de Roundup (Glifosato)

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Segunda condenação na Califórnia por causa da associação com o Linfoma de Non Hodgkin transforma o Round Up (Glifosato) em grande dor de cabeça para a multinacional alemã Bayer.

A segunda condenação imposta ao Glifosato por um tribunal do estado da Califórnia causou um terremoto para a multinacional alemã Bayer nas bolsas de valores. Como informou hoje o jornal Financial Times, uma corte federal de San Francisco acatou ontem os argumentos apresentados pelos advogados de Edwin Hardeman foi um “fator substancial” para causar-lhe um câncer do tipo Linfoma de Non Hodgkin.

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Queda nos valor das ações da Bayer após condenação na Califórnia. Fonte: Financial Times.

O problema para a Bayer é que existem cerca de outros 11.000 casos em tramitação apenas em tribunais estadunidenses, e nos dois casos já julgados houve a condenação em função do reconhecimento de que o contato prolongado com o Glifosato pode ser um fator causal no desenvolvimento do Linfoma de Non Hodgkin.

Segundo analistas consultados pelo Financial Times apontaram que a recente queda no preço das ações da Bayer fez com que os mercados já tivessem um risco de litígios de mais de  R$ 110 bilhões apenas nos casos arrolados nos EUA.

Enquanto isso aqui no Brasil, o Glifosato ganhou sinal verde da ANVISA para continuar a ser um dos principais agrotóxicos sendo consumidos em território nacional.  Isso, no entanto, não deverá impedir que também aqui a Bayer venha a ter dores de cabeça (e perdas igualmente altas) por causa de processos de pessoas que eventualmente desenvolveram o Linfoma de Non Hodgkin. 

Mais de 11.000 pessoas estão processando a Bayer por causa do risco de câncer associado ao uso do Glifosato

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Por David Meyer para a revista Fortune

A Bayer está agora enfrentando cerca de 11.200  processos judiciais por causa das implicações negativas para a saúde do Roundup e do Ranger Pro, seus herbicidas à base de glifosato.

A gigante alemã revelou a figura na quarta-feira ao anunciar seus resultados para o ano fiscal de 2018. As vendas no ano subiram 13% e o EBITDA antes de itens especiais cresceu 2,8%, mas o lucro líquido do ano caiu mais de três quartos devido a um encargo de prejuízo de US $ 3,8 bilhões e outro encargo de US $ 2,3 bilhões em conexão com a aquisição da Monsanto, fabricante do Roundup.

“Nos últimos anos, temos sistematicamente desenvolvido em uma empresa de ciências da vida, claramente alinhado às megatendências em saúde e agricultura e unidos sob a forte marca guarda-chuva Bayer”, disse o presidente da Bayer, Werner Baumann. “A aquisição na área agrícola nos elevou à posição número um nesse mercado. A integração com a Monsanto teve um excelente começo ”.

As ações da Bayer, que tiveram grandes perdas no ano passado de julgamentos judiciais relacionados ao glifosato, subiram 4,7% no anúncio dos resultados. A empresa está atualmente apelando contra uma decisão que diz que seus produtos da Monsanto são responsáveis pelo câncer do jardineiro Dewayne Johnson. Mais sete casos estão previstos para ir a tribunal este ano – na verdade, um começou esta semana. No final de 2018, a Bayer disse que sabia de 9.300 demandantes. Isso significa um aumento de 20% nas reclamações em apenas três meses. “Temos a ciência do nosso lado e continuaremos a defender vigorosamente esse importante e seguro herbicida para uma agricultura moderna e sustentável”, disse Baumann.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês pela revista Fortune [Aqui!]

Ação judicial contra a Monsanto aponta que Glifosato ataca bactérias instestinais saudáveis

Ação diz que herbicida é comercializado como atacando enzimas ausentes em seres humanos. Monsanto da Bayer, é processada por milhares de pessoas e enfrenta novo tipo de reivindicação

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Galões do herbicida Roundup.  Por Jasper Juinen

Por Lydia Mulvany e Deena Shanker para a Bloomberg.

A Monsanto Co.  está sendo processada por milhares de agricultores e por outros clientes que culpam seus cânceres ao uso massivo do herbicida Roundup. Agora, a alemã Bayer AG, que comprou a gigante da agricultura no ano passado, enfrenta a alegação de que enganou os usuários sobre o impacto do Roundup em suas bactérias intestinais e sua saúde.

O processo, aberto na quarta-feira em um tribunal federal em Kansas City, Missouri, afirma que os rótulos de produtos como o Weed & Grass Killer da Roundup garantem falsamente aos consumidores que eles têm como alvo uma enzima não encontrada “em pessoas ou animais de estimação”.

De acordo com a ação – que nomeia três consumidores como demandantes que buscam indenização monetária não especificada e status de ação coletiva – o ingrediente ativo do Roundup, o glifosato, ataca uma enzima também encontrada nas bactérias intestinais benéficas de seres humanos e alguns animais.

“A Monsanto enganou os consumidores sobre os riscos do glifosato por décadas”, disse o advogado Robert F. Kennedy Jr. em um e-mail. “Apesar dos esforços da empresa para suprimir e distorcer a pesquisa sobre o glifosato, a ciência está em ação.”

Os produtos Roundup em questão são distribuídos pela Scotts Miracle-Gro, que também é nomeada como réu. Dois outros processos, em Wisconsin e Washington, D.C., baseiam-se em argumentos semelhantes, mas não são ações de classe. 

Daniel Childs, porta-voz da Bayer, disse em uma declaração por e-mail que a ação não tem mérito e que a empresa “aguarda com expectativa a defesa do mérito”. Um processo semelhante apresentado pelos mesmos advogados em Wisconsin foi negado a certificação de classe porque eles falharam em provar que os membros da classe pretendidos tinham visto os rótulos, disse Bayer. 

Scotts não respondeu aos pedidos de comentários por e-mail. James Hagedorn, diretor executivo da Scotts, disse em uma chamada de novembro com analistas que a empresa é “indenizada por qualquer litígio de glifosato em nosso papel como agente de marketing”. 

As vendas norte-americanas do Roundup na categoria de jardinagem totalizaram US $ 295 milhões em 2017, de acordo com os dados mais recentes disponibilizados pelo pesquisador de mercado Euromonitor. O produto químico também é uma espinha dorsal da agricultura moderna. O segmento de produtividade agrícola da Monsanto arrecadou US $ 3,7 bilhões em 2017, com as vendas da Roundup  sendo a parte principal.

A Bayer herdou a defesa do Roundup quando comprou a Monsanto, de St. Louis, e atualmente enfrenta ternos por mais de 8 mil pessoas que dizem que o herbicida foi um fator em seus cânceres. O glifosato é o herbicida mais comumente usado no mundo, aprovado para o controle de ervas daninhas em mais de 100 cultivos somente nos EUA, de acordo com a Bayer. 

Em agosto, um júri em um tribunal estadual da Califórnia concedeu US $ 289 milhões em danos, posteriormente reduzidos para US$ 78 milhões, a Dewayne Lee Johnson, ex-zelador da escola que alegou que Roundup contribuiu significativamente para o seu Linfoma Não-Hodgkin terminal. O preço das ações da empresa despencou, apagando US $ 16 bilhões em valor de mercado em uma semana. 

A Bayer disse que os tribunais americanos acabarão descobrindo que o glifosato não é responsável pelo câncer de Johnson. A Monsanto disse há décadas que o glifosato é seguro. 

A queixa de quarta-feira se concentra no alegado papel do glifosato nos intestinos. As bactérias intestinais tornaram-se um dos principais focos da pesquisa médica, com um microbioma prejudicial ligado a tudo, desde a obesidade até a depressão. 

“Este processo representa a mais recente frente na luta contínua pela transparência do glifosato”, disse o procurador Clark A. Binkley em um e-mail. “Ao entrar no Missouri, estamos levando essa briga para a Monsanto.” 

O caso é Jones et al. v. Monsanto Co. e outros, Tribunal Distrital dos EUA, Distrito Oeste do Missouri (Kansas City).


Artigo publicado originalmente em inglês pela Bloomberg New [Aqui!]

O mais novo fantasma da Monsanto

POR JEFF RITTERMAN, M.D.

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Estudo sugere: doença ainda inexplicada, que destrói rins e já matou milhares de agricultores, pode estar relacionada ao glifosato, herbicida-líder da transnacional

Por Jeff Ritterman, no Truthout | Tradução Maria Cristina Itokazu

O herbicida Roundup, da Monsanto, foi vinculado à epidemia de uma misteriosa doença renal fatal que apareceu na América Central, no Sri Lanka e na Índia.

Há anos, os cientistas vêm tentando desvendar o mistério de uma epidemia de doença renal crônica que atingiu a América Central, a Índia e o Sri Lanka. A doença ocorre em agricultores pobres que realizam trabalho braçal pesado em climas quentes. Em todas as ocasiões, os trabalhadores tinham sido expostos a herbicidas e metais pesados. A doença é conhecida como CKDu (Doença Renal Crônica de etiologia desconhecida). O “u” (de “unknown”, desconhecido) diferencia essa enfermidade de outras doenças renais crônicas cuja causa é conhecida. Poucos profissionais médicos estão cientes da CKDu, apesar das terríveis perdas impostas à saúde dos agricultores pobres, de El Salvador até o sul da Ásia.

Catharina Wesseling, diretora regional do Programa Saúde, Trabalho e Ambiente (Saltra) na América Central, pioneiro nos estudos iniciais sobre o surto ainda não esclarecido na região, diz o seguinte: “Os nefrologistas e os profissionais da saúde pública dos países ricos não estão familiarizados com o problema ou duvidam inclusive que ele exista”.Wesseling está sendo diplomática. Na cúpula da saúde de 2011, na cidade do México, os EUA rechaçaram uma proposta dos países da América Central que teria listado a CKDu como uma das prioridades para as Américas.

David McQueen, um delegado norte-americano do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, que posteriormente se desligou dessa agência, explicou a posição de seu país. “A ideia era manter o foco nos fatores de risco chave que poderíamos controlar e nas grandes causas de morte: doença cardíaca, câncer e diabetes. E sentíamos que a posição que assumimos incluía a CKD”.

Os norte-americanos estavam errados. Os delegados da América Central estavam certos. A CKDu é um novo tipo de doença. Essa afecção dos rins não resulta da diabetes, da hipertensão ou de outros fatores de risco relacionados com a dieta. Diferentemente do que acontece na doença renal ligada à diabetes ou à hipertensão, muitos dos danos da CKDu ocorrem nos túbulos renais, o que sugere uma etiologia tóxica.

Agricultor salvadorenho voltando dos campos. Palo Grande, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Agricultor salvadorenho voltando dos campos. Palo Grande, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Hoje, a CKDu é a segunda maior causa demortalidade entre os homens em El Salvador. Esse pequeno e densamente povoado país da América Central tem atualmente a maior taxa de mortalidadepor doença renal no mundo. Os vizinhos Honduras e Nicarágua também têm taxas extremamente altas de mortalidade por doença renal. Em El Salvador e Nicarágua, mais homens estão morrendo por CKDu do que por HIV/Aids, diabetes e leucemia juntas. Numa região rural da Nicarágua, tantos homens morreram que a comunidade é chamada “A Ilha das Viúvas“.

Além da América Central, a Índia e o Sri Lanka foram duramente atingidos pela epidemia. No Sri Lanka, mais de 20 mil pessoas morreram por CKDu nas últimas duas décadas. No estado indiano de Andhra Pradesh, mais de 1.500 pessoas receberam tratamento para a doença desde 2007. Como a diálise e o transplante de rim são raros nessas regiões, a maioria dos que sofrem de CKDu irão morrer da doença renal.

Numa investigação digna do grande Sherlock Holmes, um cientista-detetive do Sri Lanka, dr. Channa Jayasumana, e seus dois colegas, dr. Sarath Gunatilake e dr. Priyantha Senanayake, lançaram uma hipótese unificadora que poderia explicar a origem da doença. Eles argumentaram que o agente agressor deve ter sido introduzido no Sri Lanka nos últimos trinta anos, uma vez que os primeiros casos apareceram em meados da década de 1990. Essa substância química também devia ser capaz de, em água dura, formar complexos estáveis com os metais e agir como um escudo, impedindo que esses metais sejam metabolizados no fígado. O composto também precisaria agir como um mensageiro, levando os metais até o rim.

Mural celebrando a vida agrária tradicional. Juayua, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Mural celebrando a vida agrária tradicional. Juayua, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Sabemos que as mudanças políticas no Sri Lanka no final dos anos 1970 levaram à introdução dos agroquímicos, principalmente no cultivo do arroz. Os pesquisadores procuraram os prováveis suspeitos. Tudo apontava para o glifosato, um herbicida amplamente utilizado no Sri Lanka. Estudos anteriores tinham mostrado que o glifosato liga-se aos metais e o complexo glifosato-metal pode durar por décadas no solo.

O glifosato não foi originalmente criado para ser usado como herbicida. Patenteado pela Stauffer Chemical Company em 1964, foi introduzido como um agente quelante, porque se liga aos metais com avidez. O glifosato foi usado primeiramente na remoção de depósitos minerais da tubulação das caldeiras e de outros sistemas de água quente.

É essa propriedade quelante que permite que o glifosato forme complexos com o arsênio, o cádmio e outros metais pesados encontrados nas águas subterrâneas e no solo na América Central, na Índia e no Sri Lanka. O complexo glifosato-metal pesado pode entrar no corpo humano de diversas maneiras: pode ser ingerido, inalado ou absorvido através da pele. O glifosato age como um cavalo de Troia, permitindo que o metal pesado a ele ligado evite a detecção pelo fígado, uma vez que ele ocupa os locais de ligação que o fígado normalmente obteria. O complexo glifosato-metal pesado chega aos túbulos renais, onde a alta acidez permite que o metal se separe do glifosato. O cádmio ou o arsênio causam então danos aos túbulos renais e a outras partes dos rins, o que ao final resulta em falência renal e, com frequência, em morte.

Por enquanto, a elegante teoria proposta pelo dr. Jayasumana e seus colegas pode apenas ser considerada geradora de hipóteses. Outros estudos científicos serão necessários para confirmar a hipótese de que a CKDu realmente se deve à toxicidade do glifosato-metal pesado para os túbulos renais. Até agora, esta parece ser a melhor explicação para a epidemia.

Outra explicação é a de que o estresse por calor pode ser a causa, ou a combinaçãoentre estresse por calor e toxicidade química. A Monsanto, claro, tem defendido o glifosato e contestado a afirmação de que ele tenha qualquer coisa a ver com a origem da CKDu.

Ainda que não exista uma prova conclusiva a respeito da causa exata da CKDu, tanto o Sri Lanka quanto El Salvador invocaram o princípio da precaução. El Salvador baniu o glifosato em setembro de 2013 e atualmente está procurando alternativas mais seguras. O Sri Lanka baniu o glifosato em março deste ano por causa de preocupações a respeito da CKDu.

Mural celebrando a vida camponesa tradicional, Palo Grande, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

O glifosato tem uma história interessante. Depois de seu uso inicial como agente descamador pela Stauffer Chemical, os cientistas da Monsanto descobriram suas qualidades herbicidas. A Monsanto patenteou o glifosato como herbicida na década de 1970 e tem usado a marca “Roundup” desde 1974. A empresa manteve os direitos exclusivos até o ano 2000, quando a patente expirou. Em 2005, os produtos com glifosato da Monsanto estavam registrados em mais de 130 países para uso em mais de cem tipos de cultivo. Em 2013, o glifosato era o herbicida com maior volume de vendas no mundo.

A popularidade o glifosato se deve, em parte, à percepção de que é extremamente seguro. O site da Monsanto afirma:

O glifosato se liga fortemente à maioria dos tipos de solo e por isso não permanece disponível para absorção pelas raízes das plantas próximas. Funciona pela perturbação de uma enzima vegetal envolvida na produção de aminoácidos que são essenciais para o crescimento da planta. A enzima, EPSP sintase, não está presente em pessoas ou animais, representando baixo risco para a saúde humana nos casos em que o glifosato é usado de acordo com as instruções do rótulo.

Por causa da reputação do glifosato em termos de segurança e de efetividade, John Franz, que descobriu a sua utilidade como um herbicida, recebeu a Medalha Nacional de Tecnologia em 1987. Franz também recebeu o Prêmio Carothers da Sociedade Americana de Química em 1989, e a Medalha Perkins da Seção Americana da Sociedade da Indústria Química em 1990. Em 2007, foi aceito no Hall da Fama dos Inventores dos EUA pelo seu trabalho com o herbicida. O Roundup foi nomeado um dos “Dez Produtos que Mudaram a Cara da Agricultura“ pela revista Farm Chemicals, em 1994.

Nem todo mundo concorda com essa percepção a respeito da segurança do glifosato. A primeira cultura de Organismo Geneticamente Modificado (OGM) resistente ao Roundup (soja) foi lançada pela Monsanto em 1996. Nesse mesmo ano, começaram a aparecer as primeiras ervas daninhas resistentes ao glifosato. Os fazendeiros responderam usando herbicidas cada vez mais tóxicos para lidar com as novas superpragas que haviam desenvolvido resistência ao glifosato.

Além da preocupação a respeito da emergência das superpragas, um estudo com ratos demonstrou que baixos níveis de glifosato induzem perturbações hormonal-dependentes graves nas mamas, no fígado e nos rins. Recentemente, dois grupos de ativistas, Moms Across America (Mães em toda a América) e Thinking Moms Revolution(Revolução das Mães Pensantes), pediram à Agência Americana de Proteção Ambiental (EPA) para pedir um recall do Roundup, citando um grande número de impactos adversos sobre a saúde das crianças, incluindo déficit de crescimento, síndrome do intestino solto, autismo e alergias alimentares.

O glifosato não é um produto comum. Além de ser um dos herbicidas mais usados no mundo, é também o pilar central do templo da Monsanto. A maior parte das sementes da empresa, incluindo soja, milho, canola, alfafa, algodão, beterraba e sorgo, são resistentes ao glifosato. Em 2009, os produtos da linha Roundup (glifosato), incluindo as sementes geneticamente modificadas, representavam cerca de metade da receita anual da Monsanto. Essa dependência em relação aos produtos com glifosato torna a Monsanto extremamente vulnerável à pesquisa que questiona a segurança do herbicida.

As sementes resistentes ao glifosato são desenhadas para permitir que o agricultor sature os seus campos com o herbicida para matar todas as ervas daninhas. A safra resistente ao glifosato pode então ser colhida. Mas se a combinação do glifosato com os metais pesados encontrados na água subterrânea ou no solo destroi os rins do agricultor no processo, o castelo de cartas desmorona. É isso que pode estar acontecendo agora.

Um confronto sério está tomando corpo em El Salvador. O governo norte-americano tempressionado El Salvador para que compre sementes geneticamente modificadas da Monsanto ao invés de sementes nativas dos seus próprios produtores. Os EUA têmameaçado não liberar quase US$ 300 milhões em empréstimos caso El Salvador não compre as sementes da Monsanto. As sementes geneticamente modificadas são mais caras e não foram adaptadas para o clima ou para o solo salvadorenho.

A única “vantagem” das sementes OGM da Monsanto é a sua resistência ao glifosato. Agora que ele se mostrou uma possível, e talvez provável, causa de CKDu, essa “vantagem” já não existe.

Mural, Concepción de Ataco, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Mural celebrando a vida camponesa tradicional, Palo Grande, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Qual a mensagem dos EUA para El Salvador, exatamente? Talvez a hipótese mais favorável seja a de que os EUA não têm ciência de que o glifosato pode ser a causa da epidemia de doença renal fatal em El Salvador e que o governo sinceramente acredita que as sementes OGM vão proporcionar um rendimento melhor. Se for assim, uma mistura de ignorância e arrogância está no coração desse tropeço na política externa norte-americana. Uma explicação menos amigável poderia sugerir que o governo coloca os lucros da Monsanto acima das preocupações acerca da economia, do meio ambiente e da saúde dos salvadorenhos. Essa visão poderia sugerir que uma mistura trágica de ganância, descaso e insensibilidade para com os salvadorenhos está por trás da política americana.

Infelizmente, existem evidências que corroboram a segunda visão. Os EUA parecem apoiar incondicionalmente a Monsanto, ignorando qualquer questionamento a respeito da segurança dos seus produtos. Telegramas divulgados pelo WikiLeaks mostram que diplomatas norte-americanos ao redor do mundo estão promovendo as culturas OGM como um impertativo estratégico governamental e comercial. Os telegramas também revelam instruções no sentido de punir quaisquer países estrangeiros que tentem banir as culturas OGM.

Qualquer que seja a explicação, pressionar El Salvador, ou qualquer país, para que compre sementes OGM da Monsanto é um erro trágico. Não é uma política externa digna dos EUA. Vamos mudar isso. Vamos basear nossa política externa, assim como a doméstica, nos direitos humanos, na vanguarda ambiental, na saúde e na equidade.

Pós-escrito: Depois que vários artigos a respeito da questão das sementes apareceram na mídia, o The New York Times informou que os EUA reverteram sua posição e devem parar de pressionar El Salvador para que compre as sementes da Monsanto. Até agora, os empréstimos ainda não foram liberados.

FONTE: http://outraspalavras.net/capa/o-mais-novo-fantasma-da-monsanto/