Reforma urgente na publicação científica volta ao centro do debate após cartas no The Guardian

What is Peer Review? An Explainer - Social Science Space

Por Eugênio Telles para “Período Eletrônico”

Um conjunto de cartas publicado pelo The Guardian em 20 de julho de 2025 defende que o sistema de comunicação científica precisa de reformas imediatas para preservar a confiança pública na pesquisa. Os autores, que incluem pesquisadores e profissionais de comunicação científica, reagiram a reportagem do próprio jornal sobre a explosão de artigos e a queda de qualidade, alertando que os incentivos atuais — que valorizam quantidade em detrimento de qualidade — e a lógica de negócio dos grandes editores alimentam um ciclo de produção massiva com baixo valor científico. Eles argumentam que inteligência artificial, se usada para acelerar ainda mais o “publicar ou perecer”, tende a agravar o problema, e pedem que financiadores reorientem critérios de avaliação para premiar rigor e relevância1.

Entre as críticas, os signatários ressaltam que as taxas de publicação em acesso aberto (APCs) cresceram de forma acelerada e transferem recursos públicos para margens corporativas elevadas. Eles citam estimativas recentes segundo as quais pesquisadores desembolsaram cerca de US$ 8,3 bilhões em APCs para seis grandes editoras entre 2019 e 20232, com gasto anual quase triplicando no período; em muitos periódicos, uma única publicação pode custar de £2 mil a £10 mil. O grupo também menciona relatos de margens de lucro que chegam a 38%3 em uma grande editora comercial, como a Elsevier. Para os autores, essa estrutura “extrativa” só mudará quando avaliação acadêmica — contratação, promoção e financiamento — for desvinculada do prestígio de revistas comerciais.

As cartas afirmam ainda que políticas de acesso aberto lideradas por financiadores, como o Plan S, foram “capturadas” por interesses comerciais e não produziram a democratização esperada, ao migrarem barreiras do leitor para o autor. Como alternativas, os signatários apontam modelos não comerciais, sobretudo o Acesso Aberto Diamante — sem cobrança para ler nem para publicar — e destacam iniciativas fora do norte global, com menção direta ao ecossistema SciELO na América Latina e à Aliança Global de Acesso Aberto Diamante, lançada sob a coordenação da UNESCO e parceiros para fomentar infraestruturas comunitárias.

O diagnóstico converge com a reportagem do Guardian publicada uma semana antes, que expôs a sobrecarga do sistema: crescimento de 48% no volume de artigos indexados na última década, pressão sobre a revisão por pares, reações a retratações em massa e a casos de imagens e textos gerados por IA que escaparam à triagem editorial. Ali, líderes científicos defendiam reengenharia dos incentivos e um uso mais seletivo da revisão por pares, reconhecendo que a tecnologia tanto desafia quanto pode ajudar a filtrar o que importa.

Houve também reação da indústria. Em uma das cartas, a diretora-gerente da Cambridge University Press, Mandy Hill1, reconhece que “algo precisa mudar” e informa que a editora conduziu, nos últimos meses, um “exame radical e pragmático” do ecossistema de publicação em ciência aberta, com relatório previsto para o outono. Para ela, combater apenas IA generativa ou periódicos de baixa qualidade é insuficiente; é necessário um redesenho sistêmico que alinhe publicação, avaliação e integridade, e que leve a sério a transformação tecnológica em curso.

Para editores e pesquisadores, o recado é direto: reformar critérios de avaliação para desestimular a salami science; exigir transparência de preços e serviços editoriais; fortalecer infraestruturas públicas e comunitárias de publicação; e investir em mecanismos de integridade que combinem tecnologia, curadoria humana e governança multilateral. O debate recoloca no centro a pergunta-chave: quem deve pagar — e por quê — para que o conhecimento circule com qualidade, equidade e confiança social.


Referências 

  1. Scientific Publishing Needs Urgent Reform to Retain Trust in Research Process”. The Guardian, 20 de julho de 2025. The Guardian, https://www.theguardian.com/science/2025/jul/20/scientific-publishing-needs-urgent-reform-to-retain-trust-in-research-process. Acesso em 13 de agosto de 2025.
  2. Haustein, Stefanie, et al. Estimating global article processing charges paid to six publishers for open access between 2019 and 2023. arXiv:2407.16551, arXiv, 23 de julho de 2024. arXiv.org, https://doi.org/10.48550/arXiv.2407.16551. Acesso em 13 de agosto de 2025.
  3. How academic publishers profit from the publish-or-perish culture”. Financial Times, 27 de maio de 2024. https://www.ft.com/content/575f72a8-4eb2-4538-87a8-7652d67d499e. Acesso em 13 de agosto de 2025.

Texto produzido com auxílio de inteligência artificial.


Fonte: Período Eletrônico

CNPq acaba de atingir um iceberg: o mundo dos CVs Lattes turbinados por trash science

Uma matéria assinada pela jornalista Ana Botallo e publicada pelo jornal Folha de São Paulo abordou hoje algo do qual este blog já vem sendo ocupando desde a sua criação, qual seja, o desvirtuamento do processo de publicação científica que acaba de atingir o quase sagrado Curriculo Lattes. 

Segundo a matéria apenas em 2024, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) recebeu recebeu 101 denúncias por irregularidade, fraude, plágio ou outros problemas éticos envolvendo pesquisadores que têm seus currículos cadastrados no país. A matéria informa que a metodologia atual de análise de dados foi implementada em 2024, quando houve uma mudança na gestão da área técnica responsável. Em 2023, foram 37 denúncias recebidas, mas segundo o órgão os números não são comparáveis, pois o ano anterior não contabilizou as denúncias recebidas pela plataforma Fala.Br.

Dessas 101 denúncias, o setor responsável pelas apurações constatou que pelo menos 44 currículos tinham inconsistências que puderem ser corrigidas por serem, digamos, erros clericais. No entanto, 10 pesquisadores tiveram o seu Lattes bloqueado, enquanto 3 tiveram a denúncia transformada em procedente, com a suspensão temporária da bolsa até a resolução do objeto da denúncia.

Débora Menezes, diretora de Análise de Resultados e Soluções Digitais do CNPq, fez questão de mencionar que o órgão não teria poder policial para, digamos, investigar mais amplamente a situação, especialmente porque o volume de atualizações torna isso praticamente inviável. Como eu já ouvi esse argumento antes, eu diria que talvez tenha chegado a hora do CNPq e de outras agências de fomento tomarem a situação com a seriedade com que ela merece, ainda que não precisem agir como forças policiais.

Ao contrário do que afirmou, a diretora de Análise de Resultados e Soluções Digitais do CNPq, não creio que estejamos vivenciando poucos casos de ” dois, três pesquisadores que ‘conhecem o caminho das pedras’, sabem como aumentar [o número] de publicações, enganar pareceristas”.  Me parece que a situação é muito mais amplamente disseminada, e o que acontece é que os pesquisadores dispostos a denunciar os malfeitos de seus pares é que são poucos. O fato é que as aludidas 101 denúncias são apenas a ponte de um iceberg gigante que tem flutuado não dentro de águas oceânicas, mas diante de nossos olhos.  Essa situação decorre de apoios explícitos (outros nem tanto) a que se aumente a produção científica como forma de mostrar um nível de produtividade que não tem se transformado em qualidade, muito pelo contrário.

Ao fato de que as agências de fomento, não apenas as brasileiras, optaram por premiar os pesquisadores com mais publicações, a despeito da qualidade duvidosa dela, se somou o surgimento de uma indústria marrom das publicações científicas sob a capa da regra dourada do acesso aberto. Com isso, qualquer um que se disponha a pagar os chamados APCs (author publication charges) poderia, assim por se dizer, investir e colher os frutos desejados, seja na forma de bolsas de pesquisa ou no financiamento de projetos de pesquisa de qualidade altamente duvidosa, muitas vezes falsificada e adulterada pelo uso de Inteligência Artificial (IA). O que começou na forma da chamada “Salami Science” se transformou em uma complexa indústria em que se compram citações e co-autorias, como já abordei em diversas publicações anteriores aqui neste blog.

A questão agora é sobre o que os dirigentes das nossas agências de fomento irão fazer para estabelecer novos mecanismos de premiação que coloquem a qualidade da produção científica acima da quantidade. É que essa mudança não for feita, o pouco investimento que se faz em ciência e tecnologia no Brasil irá pelo ralo, premiando uma quantidade crescente de publicadores hiperprolíficos cujo peso científico no cenário internacional é, no mínimo, irrelevante. Como somos um país que necessita urgentemente de produzir ciência que auxilie o processo de desenvolvimento nacional.  Assim, não fazer nada para reverter o curso da situação não pode ser um opção.

Finalmente, me parece urgente que as universidades e institutos de pesquisa que ainda não possuam comitês de integridade da pesquisa (quantos será que já estabeleceram esse mecanismo?), os criem de forma urgente. É que o dever e a obrigação de garantir que não se está disseminando lixo científico como se fosse ciência tem que começar dentro das unidades em que os pesquisadores estão lotados.   E eu ainda digo mais, se não forem criados espontaneamente, que o Ministério de Ciência e Tecnologia determine a obrigatoriedade da criação como condição “sine qua non” para o recebimento de verbas federais para pesquisa.  O quanto antes, melhor.

O mercado de produção predatória é uma esfinge que ameaça devorar a Ciência

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Venho acompanhando desde a criação deste blog em 2011 os descaminhos da produção científica em nível global. Comecei verificando o uso da tática de partilhamento de estudos para aumentar a quantidade de artigos publicados, o famoso Salami Science, vi o surgimento da produção em massa de trash science por revistas predatórias, e agora assisto a efevervescência de um mercado de citações fabricadas. 

Por detrás de tudo isso há o avanço da comodificação da ciência que passou de um mecanismo de compartilhamento do avanço do conhecimento via experimentos científicos para mais um elemento de produção de valor. Nesse processo saímos do controle estrito por grandes editoras situadas normalmente na Europa e nos EUA para um sistema que combina essas mesmas editoras com empreendimentos obscuros que podem estar situados em qualquer parte do mundo, com centenas de pseudo jornais científicos cabendo no disco rígido de algum individuo com espírito, digamos, empreendedor.

Uma nova onda proporcionada pelo avanço dos mecanismos editoriais é a criação de editoras que se ocupam principalmente da produção dos chamados E-books (ou livro eletrônicos) a partir do qual mais lixo científico é disseminado como se fosse algo que refletisse algum tipo de esforço intelectual.  

Mas para existirem, esses mecanismos de divulgação de ciência de baixíssima qualidade precisam de duas coisas: 1) de fregueses interessados em comprar os simulacros de produção científica (sejam eles na forma de artigos, capítulos de livros ou mesmo livros), e 2) agências de fomento que estejam dispostas a premiar os pesquisadores/empreendedores que se disponham a inflar seus currículos com todo tipo de lixo. No da Capes, essa premiação pode se estender a programas de pós-graduação inteiros, desde que se disponham a abrigar essa produção de ciência trash, obviamente.

No caso de país do sul global como o Brasil, a disposição de agências de fomento de premiarem os mais astutos produtores de lixo científico essa leniência serve para encobrir a falta de investimento reais no desenvolvimento científico e tecnológico. Não é à toa que no caso brasileiro tenhamos uma combinação da participação no mercado global de revistas, livros e conferências predatórias com o florescimento de uma versão nacional deste mercado editorial ocupado de disseminar lixo científico. 

O mais interessante é não apenas a indisposição  de pesquisadores supostamente sérios em apontar o dedo para certos personagens conhecidos por produzir dezenas e às vezes centenas de artefatos quesstionáveis que são publicados em veículos de qualidade muito duvidosa, mas principalmente o fato de que toda essa produção ainda resulta não apenas na obtenção de prêmios e financiamentos, mas também na ocupação de cargos institucionais estratégicos, incluindo aqueles relacionados justamente ao treinamento de futuros pesquisadores.

Meta | Comunicação, decifra-me ou te devoro!

Em minha modesta opinião, a ciência mundial arrisca a entrar em colapso se medidas extremas não forem tomadas para modificar rapidamente o cenário atual.  Um caminho que alguns países já estão tomando é alterar os sistemas de premiação, seja na concessão de financiamentos ou na obtenção de estabilidade profissional.  

No caso brasileiro, a saída passa pelo aumento de financiamento para a pesquisa científica qualificada com uma mudança nos mecanismos de avaliação do que é produzido pelos cientistas brasileiros.  A situação brasileira é especialmente difícil porque nas principais universidades e institutos de pesquisa perdura uma espécie de código do silêncio em que não se pode sequer mencionar publicamente a presença de impostores que se ocupam de disseminar lixo científico unicamente para seu benefício pessoal.  Mas se nada for feito, o nosso sistema científico ficará cada vez mais para trás e sem nenhuma contribuição significativa para o progresso nacional.

Jeffrey Beall e os “super achievers” da ciência salame

O Professor Jeffrey Beall, que costumeiramente traz análises e revelações sobre os efeitos da propagação exponencial de revistas predatórias sobre a qualidade das publicações científicas, acaba de produzir uma postagem lapidar sobre o irmão siamês do “Trash science“, o também pernicioso “Salami science” (Aqui!).

E Jeffrey Beall faz isto tratando do caso de dois “super achievers” (pesquisadores que se notabilizam por produzirem “solo” ou acompanhados um número acima da média de publicações anuais) da ciência mundial cuja produção combinada é de deixar a maioria dos que conhecem o caminho que um determinado artigo precisa percorrer para ser finalmente publicado se perguntando qual é o segredo de tamanha produtividade.   O próprio Jeffrey Beall desvenda parte do mistério ao destrinchar as publicações, e as claras repetições de conteúdos, dos professores Shahaboddin Shamshirband e Dalibor Petković em revistas científicas aparentemente sérias.

Eu mesmo já tratei neste blog do papel negativo que a prática do “Salami science” causa tanto na qualidade da ciência, como nos sistemas de premiação e distribuição de recursos para a pesquisa científica , e que é potencializada pela existência do mercado de “Trash science (Aqui! e Aqui!).

Uma coisa que é citada por Jeffrey Beall e com a qual eu concordo é sobre o risco de que a tolerância ao “Salami science” acarreta para a comunidade científica, na medida em que o sistema do “peer review” se funda no compromisso de que um dado experimento seja submetido apenas numa dada revista, impedindo a multiplicação de submissões e, consequentemente, de publicações de um mesmo resultado. Ao se romper com essa regra básica, tudo se torna possível. Até o rompimento dos padrões éticos que deveriam guiar a busca de publicar um artigo científico. É que se isto se tornar prática, não haverá muito o que se esperar em termos de qualidade e rigor.

Outro aspecto que Jeffrey Beall é a política de “hands off” que os chamados “super achievers” gozam em suas instituições. Eu mesmo já tenho presenciado a existência de pesquisadores extremamente prolíficos em seu número de publicações, mas que são claramente incapazes de contribuir minimamente para a qualidade intelectual dos programas de graduação e pós-graduação nos quais participam. A estes “super achievers” resta a desculpa de que são “ratos de laboratório”  que se ocupam apenas de suas pesquisas.  Mas até aí morreu o Neves. É que apesar de todas as suas omissões e incongruências, os “super achievers” são vendidos dentro de suas instituições como o exemplo a ser seguido, já que seriam eles os pilares da captação de recursos tão escassos quanto necessários.

Entretanto, o que pouco se fala é que ao se sobrevalorizar os supostos “super achievers“, o que se faz é contribuir para a privatização das pesquisas já que eles acabam por monopolizar espaços físicos dentro de suas instituições e a distribuição de verbas pelas agências de fomento.

Ainda que o aparecimento do “Salami science” e do “Trash science” seja parte de uma evolução da indústria das publicações científicas e da comodificação da ciência mundial, ignorar os seus efeitos deletérios por mais tempo poderá trazer danos irreparáveis para a produção e evolução do conhecimento científico, especialmente nos países localizados da periferia do Capitalismo.  O problema aqui é saber se haverá quem queira enfrentar os dois irmãos siameses de frente.  É que com raras exceções, como as do Professor Jeffrey Beall nos EUA (Aqui!) e do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!) no Brasil, a maioria dos que conhecem o problema prefere olhar para  o outro lado.

Do “Salami Science” ao “Trash Science”: como pudemos afundar tanto e tão rápido no precipício da ciência predatória?

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Em 14 de Dezembro de 2013 usei o espaço deste blog para tratar do problema do “Salami science” que é uma prática bastante conhecida de partir uma mesma pesquisa em diversas publicações com fins de aumento de pontos na comunidade científica (Aqui! e Aqui!). Naquele momento, o número de acessos foi relativamente baixo e a repercussão entre os meus pares na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) foi marcada por uma indiferença quase total. Apenas uns poucos colegas se dispuseram a comentar sobre o que eu estava apontando, e esses eram normalmente os que não tinham a prática de fatiar para multiplicar suas pesquisas. Em suma, quem não devia é que se dispôs a refletir sobre um problema que se espraia pela comunidade científica mundial.

Mas eis que menos de dois anos depois das minhas postagens, nos vemos defrontados com algo muito pior do que o “Salami science” que é a prática ainda mais nefasta (como se o “Salami science” já não fosse extremamente danoso e antiético) que é da publicação de pseudo-artigos em editoras especializadas em publicar lixo científico. Mais uma vez o que eu tenho visto é um silêncio quase ensurdecedor que normalmente ocorre quando ninguém quer falar sobre um crime praticado por uma facção criminosa dentro de uma das centenas de milhares de comunidades carentes que existem no Brasil.

Mas o problema aqui é que não estamos falando de gente pobre e esquecida pelo Estado brasileiro. Aliás, muito pelo contrário, pois ainda são raros os pesquisadores que saíram das camadas mais pobres da população para ocuparem postos em universidades públicas e centros de pesquisa de excelência. E, apesar dos pesares e eles são muitos, ainda há bastante dinheiro público circulando para incentivar a produção da ciência no Brasil.

Então por que este fenômeno de mutismo frente à disseminação de lixo científico que serve para turbinar currículos na Base Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e que serve para determinar progressões funcionais, concessão de bolsas de mérito por produtividade científica, e financiamentos de projetos de pesquisa como corretamente apontou em artigo recente (Aqui!) o jornalista Maurício Tuffani? Ao menos para mim, esse silêncio é explicado pela inaptidão da universidade brasileira de exercer o elemento básico da autocrítica que, pasmemos todos, é um dos bastiões da construção de sistemas universitários sólidos. E, além disso, esse silêncio revela que poucos estão dispostos a nadar contra a corrente, pois sabem que esse exercício traz mais riscos do que prêmios.

Agora, um fato que não pode ser escondido é de que ou os dirigentes da CAPES e do CNPq tomam medidas drásticas para banir as publicações predatórias do Qualis Capes para restabelecer critérios de credibilidade nesse ranking ou estaremos diante de um precipício bem fundo, de onde poucos conseguirão se levantar. E o problema é que mesmo na atual fase do Capitalismo, marcado pelo domínio das operações financeiros, a produção de ciência de excelente qualidade é a única forma das universidades contribuíram para o desenvolvimento nacional. Se abdicarmos de cobrar que não premie o lixo científico que bate nas nossas portas com a volúpia em que o lixo urbano invade nossos rios e baías, é melhor logo fechar as portas e partir para outra atividade que seja menos exigente em termos de critérios de validação.

Prêmio Nobel de Medicina de 2013 faz ataque contundente à cultura do “Salami science”

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Nas últimas duas décadas as universidades brasileiras foram tomadas de assalto pela cultura do “Fator de Impacto” que alimenta a chamada “Salami science”.

Abaixo vai um contundente artigo assinado, e que foi publicado no jornal inglês “The Guardian, pelo Prêmio Nobel de Medicina de 2013, o biólogo Randy Schekman, sobre o controle exercido sobre a qualidade da ciência pelo monopólio exercido por grandes revistas científicas sobre o que é publicado enquanto ciência de qualidade.

Essa cultura do “Salami Science” que é tão duramente criticado pelo Dr. Randy Schekman é atualmente idolotrada no Brasil por agências de fomento lideradas pelo CNPq, e se tornou dogma na avaliação que é feita pela CAPES dos cursos de pós-graduação existentes no Brasil. Como ainda engatinhamos no quesito da formação científica, ler essas críticas é essencial. Do contrário, continuaremos atrelados a um sistema que não produz boa ciência e, pior, oferece incentivo aos que aprenderam a obter os “bônus” sem necessariamente produzir nada que mereça ser chamado de ciência.

Como revistas como Nature, Cell e Ciência são prejudiciais à ciência.

Os incentivos oferecidos pelas principais revistas distorcem a Ciência, assim como grandes bônus distorcem o sistema financeiro.

 Randy Schekman

Litter in the street

A revista Science recentemente removeu um artigo relacionando o ato de jogar lixo na rua e violência. Foto: Alamy / Janine Wiedel

Eu sou um cientista. O meu é um mundo profissional que  alcança grandes coisas para a humanidade. Mas está sendo desfigurado por incentivos inadequados. As estruturas predominantes da reputação pessoal e progressão na carreira significam as maiores recompensas muitas vezes acompanham o trabalho que seja o mais brilhoso, não necessariamente o melhor. Aqueles de nós que seguem estes incentivos estão sendo inteiramente racionais – Eu pessoalmente os seguia  – mas nem sempre melhor servirmos os interesses da nossa profissão, e muito menos aqueles da humanidade e da sociedade.

Todos sabemos o que os incentivos que distorcem fizeram para o sistema financeiro e os bancos. Os incentivos meus colegas enfrentam não são bônus enormes, mas as recompensas profissionais que acompanham a publicação em revistas de prestígio – principalmente Nature, Cell e Science.

Essas revistas de luxo são supostamente o cume da qualidade, publicando apenas as melhores pesquisas. Porque financiamento e nomeação de painéis usam frequentemente o local da publicação como um proxy para a qualidade da ciência, aparecendo nestes títulos muitas vezes leva a financiamentos e cátedras. Mas a reputação das grandes revistas científicas é apenas parcialmente justificada. Enquanto elas publicam a maioria dos melhores dos artigos em circulação, elas não publicam apenas trabalhos de qualidade excelente. Nem são eles os únicos que publicam pesquisa de alta qualidade.

Essas revistas vendem de forma agressiva as suas marcas, da forma mais propícia para a venda de assinaturas do que para estimular as pesquisas mais importantes. Como os estilistas que criam bolsas ou roupas de edição limitada, os editores dessas revistas sabem que a escassez alimenta a demanda, de modo que artificialmente restringem o número de artigos que aceitam publicar. As marcas exclusivas em seguida, são comercializadas com um truque chamado “fator de impacto” – uma pontuação para cada revista, que mede o número de vezes que seus trabalhos são citados por pesquisas posteriores. Artigos de melhor qualidade, diz a teoria, são citados com mais frequência, por isso melhores revistas se vangloriaram de sua maior pontuação. Ainda assim, é uma medida profundamente falha, perseguindo o que se tornou um fim em si mesmo – e é tão prejudicial para a ciência como a cultura do bônus é para o sistema financeiro.

É comum, e incentivado por muitas revistas científicas, que a pesquisa seja julgada pelo fator de impacto do periódico que a publica. Mas, a pontuação de uma revista científica é uma média, que diz pouco sobre a qualidade de qualquer peça individual de pesquisa. Além disso, a citação é, por vezes, mas nem sempre, ligada à qualidade. Um artigo pode se tornar altamente citado porque  a ciência é boa – ou porque é atraente, provocante ou errada. Editores de revistas de luxo sabem disso e, por isso aceitam artigos que vão fazer ondas porque exploram temas sensuais ou fazem postulações desafiadoras. Isso influencia a ciência que os cientistas fazem. Baseiam-se bolhas nos campos da moda, onde os pesquisadores podem fazer as afirmações ousadas que essas revistas querem, mas ao mesmo tempo desencorajam outros trabalhos importantes, como estudos de replicação.

Em casos extremos, a atração da revista de luxo pode incentivar “jeitinhos”, e também contribuir para o número crescente de artigos que  depois são retirados de circulação porque são falhos ou fraudulentos.  Só a revista Science só retirou de circulação recentemente artigos de alto impacto que relatam a clonagem de embriões humanos, as ligações entre lixo e violência, e os perfis genéticos de pessoas centenárias. Talvez ainda pior,  a Science não retirou de circulação um artigo  alegações de que um micróbio é capaz de usar arsênio em seu DNA em vez de fósforo, apesar das esmagadoras críticas científicas.

Há uma maneira melhor, através da nova geração de revistas de acesso aberto que são livres para qualquer um ler, e não têm assinaturas caras para promover. Nascidas na web, elas podem aceitar todos os artigos que cumprem as normas de qualidade, sem limites artificiais. Muitas são editadas por cientistas que estão atividade, e que podem avaliar o valor dos artigos sem levar em conta as citações. Como eu sei a partir da minha editoria de eLife, uma revista de acesso aberto financiada pelo Wellcome Trust, do Instituto Médico Howard Hughes e da Sociedade Max Planck, eles estão publicando ciência de classe mundial a cada semana.

Os financiadores e universidades também têm um papel a desempenhar. Eles devem dizer às comissões que decidem sobre financiamentos e enquadramentos para não julgar artigos científicos por onde eles são publicados. É a qualidade da ciência, e não a marca da revista, o que importa. O mais importante de tudo, é que, nós, os cientistas precisamos agir. Como muitos pesquisadores de sucesso, eu publiquei nas grandes marcas, incluindo os artigos que me levaram a ganhar o prêmio Nobel de medicina, que eu terei a honra de receber amanhã.  Mas não mais. Eu já decidi que o meu laboratório irá evitar as revistas de luxo, e eu incentivo aos outros a fazerem o mesmo.

Assim como Wall Street precisa quebrar a influência da cultura de bônus, o que leva a tomada de riscos que é racional para os indivíduos, mas prejudicial para o sistema financeiro, do mesmo modo  a ciência deve quebrar a tirania das revistas de luxo. O resultado será uma pesquisa de melhor qualidade que melhor servirá à Ciência e à Sociedade.

FONTE: http://www.theguardian.com/commentisfree/2013/dec/09/how-journals-nature-science-cell-damage-science

Nobel da Física de 2013 diz que hoje não teria lugar na Academia

“Não seria considerado suficientemente produtivo”, afirma Peter Higgs, que em 1964 previu a existência do bosão de Higgs, que só viria a ser comprovada em 2012. Cientista britânico critica o clima atual das universidades, em que os investigadores são transformados em máquinas de produzir papers.

Peter Higgs, prémio Nobel da Física de 2013 junto com François Englert pela descoberta do bosão de Higgs, disse ao The Guardian que hoje não conseguiria um emprego na Academia. “Tão simples assim. Não creio que fosse considerado suficientemente produtivo”.

Higgs recebeu diversos prémios, como a Medalha Dirac pelas contribuições à física teórica do Instituto de Física em 1997, o Prémio High Energy and Particle Physics pela Sociedade Europeia de Física em 1997, o Prémio Wolf de Física em 2004 e o Nobel de Física de 2013. Mas duvida que a descoberta que expôs num célebre artigo publicado em 1964 pudesse ter sido feita no clima que impera nas universidades de hoje, onde os investigadores têm de produzir papers uns atrás dos outros. “É difícil imaginar como é que no ambiente atual [da universidade] eu teria paz e tranquilidade suficientes para fazer o que fiz em 1964”.

Higgs diz que publicou menos de dez artigos depois da sua importante descoberta de 1964, e está convencido que teria sido despedido se não tivesse sido nomeado para o Nobel, pela primeira vez, em 1980. O que aconteceu foi que a direção da Universidade de Edinburgh percebeu que o investigador poderia vir a ganhar o Prémio Nobel, e se não ganhasse sempre poderiam ver-se livres dele.

O cientista contou ao Guardian o embaraço que ele significava para o departamento quando circulava o pedido de lista de publicações dos cientistas do departamento naquele ano, e ele respondia: “Nenhum”.

O nome de Higgs foi posto à partícula cuja existência ele previu em 1964 e que só foi comprovada pelo acelerador de partículas LHC do Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN) em 2012. O físico só lamenta que o bosão tenha ficado conhecido como “a partícula de Deus”, pois teme que essa alcunha “reforce o pensamento confuso na cabeça das pessoas que já pensam de forma confusa. Se acreditam na história da criação em sete dias, estão a ser inteligentes?”, disse ao Guardian.

FONTE: http://www.esquerda.net/artigo/nobel-da-f%C3%ADsica-de-2013-diz-que-hoje-n%C3%A3o-teria-lugar-na-academia/30526