Associação Brasileira de Antropologia emite nota sobre o Tsulama da Vale em Brumadinho

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A Associação Brasileira de Antropologia (ABA) lançou uma nota que mistura repúdio à Vale pelo Tsulama em Brumadinho e solidariedade aos que foram atingidos pelo incidente causado pela ruptura do sistema de represas de rejeitos que causou enorme perda de vidas humanas e de degradação aos ecossistemas naturais por onde a onda de lama está passando.

A nota aponta ainda a responsabilidade da Vale em relação ao Tsulama da Mineradora Samarco que destruiu o Distrito de Bento Rodrigues (Mariana, MG) em Novembro de 2015, e também causou uma verdadeira hecatombe ambiental na bacia hidrográfica do Rio Doce.

A ABA denunciou ainda a flexibilização das normas ambientais em geral, e dos procedimentos do licenciamento em específico, como atos de descaso planejado insegurança administrada que provocam cada vez mais desastres como os ocorridos em Mariana e Brumadinho.

Abaixo segue a nota da ABA em sua íntegra.

 

Nota de Repúdio da ABA ao Desastre da Vale em Brumadinho-MG  e de Solidariedade Aos Atingidos

A Associação Brasileira de Antropologia (ABA), por meio do seu Comitê Povos Tradicionais, Meio Ambiente e Grandes Projetos, vem a público manifestar o seu pesar pelas vítimas do desastre ocasionado pelo rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais. A ABA se solidariza com os atingidos, familiares das vítimas e toda a população de Brumadinho e de Minas Gerais pela ocorrência de mais esta brutal tragédia que ceifou centenas de vidas humanas, aniquilou existências e a vida na bacia do rio Paraopeba, afluente do Rio São Francisco que abastece a região metropolitana de Belo Horizonte.

Três anos se passaram desde o desastre da Samarco, que tem a Vale como uma de suas associadas. Vidas e ambiente foram destruídos em Mariana e a bacia do Rio Doce comprometida por mais de 600 Km até a foz no litoral Capixaba. Comunidades tradicionais, pescadores, agricultores, povos indígenas entre outros foram prejudicados por esse desastre e lutam até os dias atuais pela justa reparação e a reconstrução de suas vidas. A Vale barganha o reconhecimento dos danos e sua reparação, enquanto seus acionistas e os da BHP Billinton, outra associada da Samarco, não deixaram de receber os seus dividendos em outras partes do mundo. Sabemos que os desastres não se esgotam no evento catastrófico que os enseja, mas perduram por muito tempo, através do sofrimento social imputado às vítimas pelas infindáveis e inconclusivas negociações. A história se repete em Brumadinho. Uma barragem da Vale se rompe e leva consigo centenas de vidas humanas, a maioria de trabalhadores da própria empresa.

Ao longo de décadas, antropólogas e antropólogos brasileiros têm empreendido esforços na compreensão da lógica desenvolvimentista que alimenta as escolhas econômicas e as práticas do Estado, tendo como ênfase os grandes projetos de infraestrutura associados à hidroeletricidade, ao agronegócio e à mineração. As situações etnográficas revelam que comunidades tradicionais, povos indígenas e classes populares em geral têm seus direitos ambientais, culturais, territoriais e humanos flagrantemente violados. Invariavelmente, os agentes dessa violação são os responsáveis pelos empreendimentos privados orientados para a acumulação de capital, tal como na produção de commodities minerais. As práticas governamentais do Estado têm desempenhado papel essencial, de apoio aos interesses predatórios e expropriadores do capital. São várias as formas pelas quais o Estado realiza esse papel, e a concessão de licenciamentos ambientais, não raro mediante a desconsideração de pareceres técnicos e dos protestos das populações vilipendiadas, é uma das principais. Ao longo dos anos, observamos a naturalização do desbalanço dos direitos territoriais dos diferentes grupos sociais, o que enseja a desproteção continua dos lugares mais ameaçados, e a sua exposição a desastres recorrentes e cada vez mais catastróficos.

Os estudos demonstram, assim, que os conflitos ambientais e os desastres que muitas vezes os acompanham resultam de falhas graves da governança ambiental, tanto no que concerne às normativas (leis, regras, instituições), quanto ao modus operandi que alimenta sua operacionalização. Vê-se, por um lado, uma falta de controle dos órgãos governamentais em relação ao cumprimento das leis vigentes, uma legislação robusta que vem sendo solapada por mecanismos desreguladores e por propostas de crescente flexibilização. Por outro, uma governança corporativa incapaz de garantir o planejamento e a gestão sustentável e socialmente responsável dos empreendimentos.

A ABA denuncia a flexibilização das normas ambientais em geral, e dos procedimentos do licenciamento em específico, como atos de descaso planejado insegurança administrada que provocam cada vez mais desastres, colocando em risco a vida de humanos, não-humanos e dos ecossistemas. Repudia a impunidade dos culpados, as manobras políticas que tornam a participação da população frente às obras que ameaçam suas vidas cada vez mais difícil e inócua. Repudia o jogo da mitigação e da compensação ambiental que tem “adequado” formalmente os megaprojetos econômicos perante a burocracia, enquanto as localidades se tornam espaços de vulnerabilidade e risco para os que ali vivem há dezenas e centenas de anos, com seus modos de ser e fazer.

A ABA exige que as responsabilidades civis e criminais por mais esse desastre de trágicas dimensões sejam apuradas de forma ágil e rigorosa, para que haja uma punição exemplar dos responsáveis. É preciso que se faça justiça. Os atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana e ao longo do Rio Doce, permanecem ainda hoje reféns de um jogo infindável de negociações que protela a justa reparação dos danos. Que as protelações cessem imediatamente, e que o mesmo jogo não se repita em Brumadinho.

Por fim, a ABA se soma a outros setores da sociedade brasileira para exigir o fim das barragens de rejeitos, que ameaçam pessoas, comunidades e ecossistemas inteiros. A vida deve ser critério prioritário na avaliação da viabilidade dos empreendimentos minerários.

Brasília/DF, 29 de janeiro de 2019.

Nada mais emblemático: enquanto o Rio Paraopeba está morto, minério segue saindo de Brumadinho

Uma das principais, e talvez mais significativas, lições do que aconteceu em Mariana em 2015 quando eclodiu o Tsulama da Mineradora Samarco (Vale+ BHP) foi a necessidade de que pesquisadores e ativistas de movimentos sociais saíssem do seu isolamento relativo em relação a cada um e partissem para construir uma rede de cooperção que pudesse documentar o que estava lá acontecendo.

Aquele processo de cooperação inicial causado pelo Tsulama da Samarco gerou um processo de rápida documentação do que está se passando agora na região de Brumadinho. A verdade é que há um esforço gigantesco para furar o bloqueio imposto pela Vale, com apoio dos governos do estado e federal, para impedir que se documente o que está acontecendo na área que já foi atingida pelos rejeitos que vazaram do complexo de barragens da Mina do Córrego do Feijão. E o bom é que este esforço está gerando uma vasta documentação visual, bem como de coleta de material (água e sedimentos) que servirão como importantes ferramentas para exigir da Vale que cumpra com suas obrigações civis e criminais que sua ganância corporativa causou em Mariana e Brumadinho.

Um dos vídeos mais reveladores a que tive acesso até agora mostra não só como o Rio Paraopeba e seus afluentes estão sendo duramente impactados pelo rejeito tóxico da Vale, mas como, apesar disso, o processo de circulação do minério de ferro extraído naquela região continua ocorrendo, como se nada de anormal estivesse ocorrendo. Este vídeo produzido por uma pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) é a síntese de como os interesses das corporações estão apartados das populações e do ambiente que são impactados pelas atividades de mineração.

A boa nova é que há uma clara mobilização em curso em Minas Gerais no sentido de não deixar mais esse Tsulama causado pela Vale passar em brancas nuvens.  Essa mobilização está envolvendo não apenas ativistas ambientais e pesquisadores, mas também (e principalmente) a população em geral que, justificadamente, se sente na condição de ser a “próxima vítima” das mineradoras.

Apoiar essa mobilização será fundamental para que finalmente se faça um levantamento sério da condição das centenas de barragens que as mineradoras possuem no território de Minas Gerais e, mais importante ainda, que se estabeleça um plano estadual para desativar as várias mega represas que possuem capacidade de destruir regiões inteiras, levando junto uma parte importante da história colonial brasileira e a população que vive nas cidades que correm hoje um risco claro e iminente.

The Guardian dá a conta inicial de 50 mortos em Brumadinho. Mas este número deve aumentar

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O jornal britânico “The Guardian” acaba de publicar no início desta noite uma matéria sobre o incidente ambiental causado pelo rompimento de diques de rejeitos da mineradora Vale no município de Brumadinho (MG).

Segundo informa o jornalista Dom Phillips, o prefeito de Brumadinho, Avimar de Melo, informou que pelo menos 50 pessoas morreram soterradas pelos rejeitos da Vale. A matéria confirma ainda que pelo menos 200 pessoas estão desaparecidas sob massa de rejeitos que escapou dos 3 reservatórios que a Vale possui em Brumadinho.

Os números de mortos e desaparecidos em Brumadinho já superam os números oficiais relacionados ao caso do Tsulama da Mineradora Samarco em Bento Rodrigues, empresa que é uma joint venture entre a própria Vale e a mineradora australiana BHP. 

Agora vamos o que farão o governador Romeu Zema e o presidente Jair Bolsonaro em relação às suas promessas eleitorais de afrouxar o processo de licenciamento ambiental para atividades de mineração. Mas uma coisa é certa: a fábula contada por Bolsonaro no Fórum Econômico Mundial de Davos de que o Brasil é o país que mais protege o meio ambiente no mundo acaba de ser solenemente estraçalhada por mais um incidente causado pela Vale.

Manifestação contra a Samarco interdita linha férrea em Baixo Guandu/ES

O prefeito Neto Barros juntou-se ao protesto e fez um pronunciamento contundente contra a Samarco e a Fundação Renova

 

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Foto Portal Guandu

 

Cerca de 500 pessoas estão protestando desde a manhã de hoje (14/01) contra a Samarco, em Baixo Guandu, manifestação que culminou, por volta das 11 horas, na interdição da linha férrea da Vale.

Os manifestantes vieram de várias cidades ao longo do rio Doce e iniciaram o protesto em frente ao escritório da Fundação Renova, localizado no centro de Baixo Guandu próximo à Praça São Pedro, por volta das 9 horas.

Ali o prefeito Neto Barros juntou-se ao protesto e fez um pronunciamento contundente contra a Samarco e a Fundação Renova, denunciando mais uma vez o descaso com a reparação social e ambiental desde 2015, quando milhões de toneladas de lama tóxica foram despejados no rio Doce, no rompimento da barragem de Mariana.

“A manifestação é legítima. A Samarco e suas controladoras Vale e BHP estão tratando toda esta tragédia com descaso, postergando soluções que deveriam ter sido colocadas em prática há muito tempo. A união de todos é importante para termos respostas ao maior desastre ambiental da história do país”, disse o prefeito.

O protesto realizado hoje em Baixo Guandu diz respeito a uma decisão judicial tomada recentemente, pela Justiça Federal no mês de dezembro de 2018, alterando acordos feitos entre a Fundação Renova e envolvendo cerca de 9 mil pescadores.

Esta decisão judicial permite que a Samarco desconte, no pagamento das indenizações – por danos morais e lucros cessantes – o valor já pago em auxílios emergenciais mensais. Para o presidente da colônia de pescadores de Baixo Guandu e da Federação das Colônias de Pescadores do ES, Claudio Marcio Alvarenga, houve má fé da empresa na indução para composição do acordo.

Os manifestantes paralisaram a circulação de trens da Vale por volta das 11 horas, nas proximidades da Ponte de Ferro, localizada próxima ao centro de Baixo Guandu. Uma composição chegou buzinando ao local e teve que parar porque a linha estava repleta de galhos de árvores e pessoas.

Mesmo com o sol forte e o calor escaldante que fazia ao meio dia de hoje, os manifestantes garantem que não vão deixar a linha férrea enquanto não obtiverem uma reposta da Fundação Renova às suas reivindicações.


Foto PMBG – prefeito de Baixo Guandu Neto Barros

Ameaça

Ontem o prefeito Neto Barros divulgou uma carta endereçada a ele pela Fundação Renova, datada de 4 de janeiro de 2019, que ameaça processa-lo por declarações feitas na 33º Reunião Ordinária do Comitê Interfederativo. O prefeito é o representante dos municípios capixabas no CIF e deixou claro que não recua de suas posições.

“ Estão me ameaçando por dizer o óbvio. São R$ 4,4 bilhões investidos e nenhuma casa construída no distrito de Bento Rodrigues. A Samarco (Vale e BHP Billiton) deu calote nos municípios e até hoje não restituiu o que a população foi obrigada a custear para garantir água tratada às comunidades. A Fundação Renova desrespeita as decisões do Comitê Interfederativo e não aceita ser questionada”, disse Neto Barros.

“Mandaram uma carta tentando me intimidar. Agora querem usar a Justiça para me perseguir? Esse pessoal se acha protegido de pessoas muito poderosas. Quantos morreram nesta tragédia? Quantos estão sem teto? Quantos perderam sua renda e tem que se humilhar? Quantos animais foram mortos? E a flora, a fauna aquática, o desequilíbrio ecológico? Quantos foram punidos?“, pergunta o prefeito de Baixo Guandu.

A manifestação em Baixo Guandu hoje conta com apoio de pescadores e representantes de demais cidades atingidas, como Linhares, Colatina, Aimorés, Itueta, Resplendor e Governador Valadares, as quatro ultimas de Minas Gerais.

Até as 13 horas a disposição dos manifestantes era manter a interrupção da linha férrea da Vale. Um representante da Vale esteve no local, mas não conseguiu a liberação da composição carregada de que está retida.

A Polícia Militar acompanhou todo o protesto, se limitando a interditar as ruas para o tráfego de veículos. O comandante da 2ª Cia do 8º BPM, capitão Wagner Batista, disse que vai continuar acompanhando o protesto com “toda a cautela” e entregou um documento aos líderes do movimento, que prevê multa, por decisão judicial, em caso de interrupção da estrada de ferro.

Vídeo

Renova

Por meio de nota, a Fundação Renova disse que a decisão do juiz não altera o pagamento do Auxílio Financeiro Emergencial (AFE).

Segundo o órgão, a decisão “apenas reconhece que o AFE possui a mesma natureza jurídica dos lucros cessantes, na medida em que também se destina a reparar a perda de renda dos atingidos. Nesse sentido, a decisão prevê o abatimento de valores pagos a título de AFE da parcela anual de lucros cessantes a ser desembolsada no âmbito do Programa de Indenização Mediada (PIM).”

Em relação ao AFE, a decisão liminar registra que o seu pagamento se deu “em razão da interrupção comprovada das atividades produtivas ou econômicas”, correspondendo a “uma indenização imediata, até que fosse possível quantificar a situação particular de cada um”.

Ainda de acordo com a decisão, a Renova disse que “tanto o AFE, quanto a parcela de lucros cessantes, possuem caráter indenizatório, decorrentes do mesmo fato gerador (ou seja, perda ou comprometimento da renda dos atingidos)”.

Sobre o questionamento dos pescadores de que a Fundação Renova pode receber de volta o dinheiro já pago em indenizações, a instituição disse que “não haverá a devolução para a Fundação Renova de qualquer valor já pago a título de AFE.”

Valores

Segundo a Renova, desde 2015, R$ 1,3 bilhão já foram pagos em indenizações e auxílio financeiro emergencial a mais de 26 mil pessoas afetadas pelo desastre ambiental.

Vale

Um grupo de manifestantes ocupou a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) por volta das 11 horas desta segunda-feira (14), na região de Baixo Guandu (ES). As reivindicações dos manifestantes não têm relação com as operações da Vale.

A ação pode interferir no horário de chegada do trem de passageiros que saiu de Belo Horizonte, Minas Gerais, com destino à Estação Pedro Nolasco, em Cariacica.

A Vale repudia quaisquer manifestações violentas que coloquem em risco cerca de 2 mil pessoas que usam o trem de passageiros diariamente, seus empregados e suas operações e ratifica que obstruir ferrovia é crime.

O diálogo com as comunidades está sendo conduzido pela Fundação Renova, criada para gerir e executar os programas e ações de reparação e indenização às pessoas afetadas pelo rompimento da barragem de Fundão da Samarco.

FONTE: Portal Guandu [Aqui!]

Estudo realizado por parceria UENF e UFRJ mostra impactos ampliados do Tsulama da Samarco

Enquanto a mídia corporativa brasileira já esqueceu o maior desastre da mineração mundial em mais de 300 anos, a comunidade científica continua produzindo estudos que revelam um alcance ainda maior dos impactos associados ao Tsulama da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton).

A matéria abaixo, produzida pela Assessoria de Imprensa da COPPE/UFRJ, mostra que mais de 3 anos após a ocorrência do Tsulama,  ainda existem impactos sobre o ambiente e à saúde humana, afetando a vida de dos 340 mil habitantes da região impactada pelo incidente causado pela ganância por lucros de duas das maiores mineradores do planeta, sobretudo na estação chuvosa.

O interessante é que a produção das evidências científicas do impacto continuado do Tsulama da Samarco (Vale+BHP Billiton) ocorre de forma simultânea à vitória das mineradoras na justiça mineira que concordou em recalcular os valores que deverão ser pagos a mais de 1.500 atingidos. Como se vê pelos resultados das pesquisas conjuntas da UFRJ e da UENF, estes valores deveriam ser é majorados.

Pesquisa desenvolvida na Coppe revela novos impactos do desastre ambiental de Mariana

Um projeto interdisciplinar de pesquisa derivado da dissertação de mestrado da aluna da Coppe/UFRJ Marcelle Cândido Cordeiro revelou que os rejeitos de mineração, levados ao rio Doce após o desastre de 2015, ainda causam impacto ambiental e risco à saúde dos 340 mil habitantes da região, sobretudo na estação chuvosa.  Sob a coordenação do professor Fabiano Thompson, do Programa de Engenharia de Produção (PEP) da Coppe, o estudo ganhou visibilidade internacional, com a publicação do artigo Insights on the fresh water microbiomes metabolic changes associated with the world’s largest mining disaster, no periódico Science of the Total Environment, no último mês de novembro [1].

A pesquisa aponta que a maior parte dos 45 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração que se depositou no leito e nas margens do rio Doce e afluentes da sua bacia hídrica, como os rios Carmo e Gualaxo do Norte, não é inerte. O rejeito é rico em nitrogênio e ferro. Este elemento favorece a multiplicação de bactérias nocivas à saúde, sobretudo no verão, quando as chuvas mais frequentes revolvem os sedimentos do leito dos rios.

O estudo é um dos produtos da dissertação de mestrado da aluna do PEP, Marcelle Cândido Cordeiro, intitulada “Qualidade das águas e diversidade microbiana do Rio Doce após o rompimento da barragem do Fundão”, sob a orientação dos professores Fabiano Thompson, da Coppe, e Gizele Duarte Garcia, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Conservação (PPG-CiAC) da UFRJ, sediado no polo de Macaé.

O estudo reuniu pesquisadores da Coppe, do Instituto de Biologia e do Instituto de Microbiologia da UFRJ, e também do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Para chegar a este resultado, os pesquisadores realizaram três expedições, recolhendo amostras em 16 pontos ao longo do rio Doce: Bento Rodrigues; Camargo Ponte Caída; rio Gualaxo; rio Carmo; rio Piranga; São José do Goiabal; Bom Jesus do Galho; Ipatinga; Governador Valadares; Tumiritinga; Resplendor; Aimorés; Baixo Guandu; Mascarenhas; Colatina; e Linhares. Estudos anteriores abordaram os impactos ambientais do desastre, mas este é o primeiro a avaliar os efeitos na diversidade microbiana ao longo do rio Doce.
 

Técnica inovadora para análise de amostras genéticas

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As coletas foram realizadas em novembro de 2015, logo após o desastre, em maio e em setembro de 2016. No Núcleo Professor Rogerio Valle de Produção Sustentável (Sage) da Coppe, o material recolhido passou pela análise físico-química e microbiológica, em especial por uma técnica inovadora denominada metagenômica, que permite estudar todos microrganismos presentes em uma amostra, utilizando fragmentos de DNA, sem a necessidade de cultivá-los.

“Por meio dessa análise de metagenômica conseguimos detectar a influência do rejeito na microbiota da água do Rio Doce. A lama não foi inerte, ao contrário do que se dizia, ela favoreceu alguns grupos microbianos. A técnica permite identificar os grupos taxonômicos e o potencial metabólico e funcional da amostra. Recuperamos onze genomas completos de micróbios, e verificamos os metabolismos que se encontravam em maior concentração. Conseguimos encontrar muitos genes relacionados ao metabolismo de ferro e ao de nitrogênio nestes genomas. Mais uma evidência da influência da lama na microbiota da região”, explica Marcelle Cordeiro, doutoranda do Programa de Engenharia de Produção.

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Marcelle Cândido Carneiro, aluna de doutorado da Coppe.

De acordo com Marcelle, também foram usados dados próprios das coletas feitas pelos pesquisadores envolvidos no projeto e também dados públicos do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), que monitoram o rio Doce desde 1997, no âmbito do projeto Águas de Minas. “Em dezembro de 2016, pelos dados secundários do Igam, houve um aumento de turbidez muito maior que a média histórica da região e também 67 vezes maior do que o determinado pelo Conselho Nacional do Meio-Ambiente (Conama). Embora haja leve melhora nos níveis de turbidez, em dezembro de 2017 os valores de turbidez ainda eram 15 vezes maiores do que o limite (100 NTU) preconizado pelo Conama. Usamos como referencial a resolução 357 do Conama que estabelece o padrão mínimo de qualidade da água de acordo com o uso preponderante da mesma”, esclarece.

Em 2018, não há dados disponíveis. “Mas o nível continua sendo muito acima do tolerável, e não há previsão de quando será atingido um patamar seguro para o consumo. Além disso, as chuvas revolvem o solo e o material que suspende aumenta a turbidez da água e há aumento significativo na concentração de cianobactérias, anterobactérias, nutrientes orgânicos, inorgânicos, metais. É uma ameaça à saúde humana”, avalia o professor Fabiano Thompson.

Segundo a aluna da Coppe, o rio Doce é considerado Classe 2 pelo Conama, o que permite o uso de suas águas para consumo após tratamento, fins recreativos, pesca, irrigação de hortaliças. “Mas encontramos concentrações muito acima do nível de turbidez, o que acarreta prejuízo de todas essas atividades. Outra coisa foi o aumento no número de genes relacionados à virulência, isso é indicativo do risco à saúde humana, causado pelo derramamento de lama após o rompimento da barragem em Mariana”, explica a pesquisadora.

A microbiota avaliada pelos pesquisadores indicou a forte presença de metabólitos de ferro e nitrogênio, o que, segundo Marcelle, sugere a presença de nitrogênio no rejeito. Os pesquisadores utilizaram como parâmetro para comparação o rio Paraguaçu, cujo bioma é similar ao rio Doce. “A concentração deste grupo microbiano no rio Paraguaçu é muito inferior, o que reforça a conclusão de que a proliferação destes microrganismos decorre da deposição de ferro e nitrogênio no leito e nas margens do rio, na enxurrada que seguiu ao rompimento da barragem”.

Ameaça à saúde humana

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Professor Fabiano Thompson, do Programa de Engenharia de Produção (PEP) da Coppe

Na opinião do professor da Coppe (foto acima, o monitoramento das águas é um passo fundamental para avaliar as medidas subsequentes, dentre as quais as alternativas para o tratamento avançado das águas do rio Doce. “O monitoramento permite também que se faça a análise comparativa com os cenários passados e a projeção do futuro, a partir deste ambiente doente para o ambiente saudável, biodiverso, que permita filtrar o material causador da turbidez”, explica.

O professor destaca ainda a importância do uso da metagenômica no estudo. “Se não tivéssemos feito a análise de metagenômica, não teríamos constatado a importância do nitrogênio, e a proliferação de genes ligados ao seu metabolismo. Ou seja, mesmo que haja escamoteamento do que foi, de fato, liberado na enxurrada de rejeitos de mineração, a metagenômica age como uma análise forense. Essa nova técnica faz com que o próprio Conama precise atualizar os seus parâmetros, que embora úteis, certamente não capturam a totalidade de interferências antropogênicas e industrais no ambientes. É preciso dar respostas ágeis, confiáveis e independentes para a recuperação do rio Doce”, avalia Thompson.

Segundo o professor, os relatos da população local sobre problemas de saúde variados, tanto agudos quanto crônicos, reforçam a percepção acerca dos problemas ambientais existentes.

Fonte: COPPE/UFRJ

Tsulama da Samarco: uma catástrofe que continua acontecendo, apesar da propaganda em contrário

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Após mais de 3 anos desde que o reservatório de Fundão da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) rompeu e destruiu o Distrito de Bento Rodrigues (Mariana/MG), o que se vê é a pior das procrastinações para se combater efetivamente os danos sociais, econômicos e ambientais que a busca desmedida do lucro causou ao ecossistema do Rio Doce e de vários de seus afluentes.

Mas pior do que procrastinar as soluções, o que tem se visto é a lenta e efetiva ocultação dos , processos persistentes de contaminação que continuarão ainda por vária décadas, já que boa parte dos sedimentos sequer ultrapassou a primeira barreira de contenção que é a Usina Hidrelétrica Risoleta Neves (também conhecida como Candonga) que fica localizada no limite entre os municípios de Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado (MG).

Felizmente, em tempos de redes sociais e rápida circulação de informações e imagens, é possível encontrar evidências de que a catástrofe causada pelo Tsulama da Samarco (Vale+ BHP Billiton) continua longe de terminar, ao contrário do que nos querem fazer crer.  O vídeo abaixo é um exemplo perfeito disso, pois mostra a situação vigente na UHE Risoleta Neves no último domingo (02/12) quando sob fortes chuvas, uma quantidade impressionante de rejeitos continuou sua viagem até a região da foz do Rio Doce.

Assim, que ninguém se deixe enganar pela propaganda enganosa de que o Rio Doce começou a sua recuperação, pois, de fato, o que está em curso é a piora paulatina e crônica de sua degradação. E com a culpa evidente clara da Samarco (Vale+ BHP Billiton). 

 

 

Doce Rio: uma canção para não deixar o TsuLama ser esquecido

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A cantora capixaba Bella Nogueira [1] usou a sua grande capacidade musical na canção “Doce Rio” para que não esqueçamos da trágico incidente ambiental causado pela Mineradora Samarco [Vale + BHP Billiton] em Bento Rodrigues (MG).

Em meio a todas as procrastinações que prolongam os danos causados no Rio Doce, a única coisa que não podemos fazer é “esquecer” o que foi feito a partir da simples procura do lucro em detrimento da sustentabilidade social e ambiental dos ecossistemas dos quais milhões de pessoas dependem.

Por isso, a canção de Bella Nogueira merece ser divulgada por todos os que querem que as mineradoras Vale e BHP e Billiton seja responsabilizadas pelos graves danos que causaram ao Rio Doce.


[1] https://www.facebook.com/pg/OficialBellaNogueira/about/