Afinal, a lama da Mineradora Samarco é ou não tóxica?

Uma coisa que é comumente dita é que nas guerras a primeira vítima é sempre a verdade. Como eu encaro o que aconteceu em Bento Rodrigues com a explosão da barragem de rejeitos da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) muito semelhante a um ato de guerra contra a população e os ecossistemas naturais que foram atingidos pelo tsunami de lama, não fico nem um pouco surpreso com o embate sobre se o material é tóxico ou não. 

Na verdade, como respondi hoje em uma entrevista no “Programa Faixa Livre”, a questão da toxidade tem a ver com vários aspectos, incluindo questões “para quem”, “por quanto tempo” ou mesmo “em que dose”. Além disso, toxidade também tem tanto a ver com a composição química de um dado material e sua capacidade de interagir com um organismo vivo, quanto com os parâmetros legais utilizados para estipular que algo é ou não tóxico. No caso do Brasil, há que se dizer que a legislação ambiental é normalmente pró-poluidor, e, consequentemente, as faixas estabelecidas como indutoras a danos ambientais e à saúde humana são muito mais flexíveis do que em outras partes do mundo, a União Européia seria um bom exemplo disso. Em outras palavras, muitas coisas que são seguras para os brasileiros, são perigosas para os europeus. 

Agora, prezados leitores deste blog, vejam duas matérias que estão circulando hoje na internet e me respondam sinceramente em quem vocês levam mais fé: nos porta-vozes da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) ou nos representantes da Organização das Nações Unidas (ONU)!

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E antes de me responderem lembrem-se da máxima que foi citada logo no primeiro parágrafo desta postagem. Mas,convenhamos, quem em sã consciência ainda acreditaria a estas alturas do campeonato num laudo encomendado pela Samarco? Provavelmente nem os membros dos conselhos dirigentes da Vale e da BHP Billiton!

BBC Brasil: Governo rebate críticas da ONU sobre resposta ‘inaceitável’ à tragédia em Mariana

AFP
Image copyrightAFP Texto da ONU afirma existir falta de transparência nas informações sobre riscos de contaminação

O governo brasileiro afirmou na noite desta quarta-feira que entrará em contato com a ONU para oferecer esclarecimentos sobre as medidas que vem tomando em relação à tragédia de Mariana.

No início do dia, a ONU fez duras críticas ao que considerou uma resposta “inaceitável” por parte do governo e também da Vale e da mineradora anglo-australiana BHP.

E um comunicado com declarações de seu relator especial para assuntos de Direitos Humanos e Meio Ambiente, John Knox, e do relator para Direitos Humanos e Substâncias Tóxicas, Baskut Tuncak, a ONU criticou a demora de três semanas para a divulgação de informações sobre os riscos gerados pelos bilhões de litros de lama vazados no Rio Doce pelo rompimento da barragem, no último dia 5.

“As providências tomadas pelo governo brasileiro, a Vale e a BHP para prevenir danos foram claramente insuficientes. As empresas e o governo deveriam estar fazendo tudo que podem para prevenir mais problemas, o que inclui a exposição a metais pesados e substâncias tóxicas. Este não é o momento para posturas defensivas”, disseram os especialistas da ONU no documento.

Em resposta, a Presidência informou que entrará em contato com a ONU para esclarecer seis pontos do comunicado: atendimento emergencial, abastecimento de água, monitoramento do Rio Doce, multas à Samarco, recuperação do Rio Doce, e força-tarefa para salvar animais ameaçados.

O governo brasileiro afirmou que “o Serviço Geológico Brasileiro (CPRM) antecipou o início da operação 24 horas de monitoramento contínuo do Sistema de Alerta da Bacia do Rio Doce”, monitorando amostras de água e concluindo que “não há indicações de que a lama seja tóxica em relação a metais pesados.”

Reuters
Image copyrightReuters ONU detalhou consequências do acidente, como chegada da lama ao mar

Esclareceu, no entanto, que “os resultados obtidos em mais de 40 coletas mostram uma quantidade de material em suspensão (turbidez) muito acima dos valores observados pela CPRM em 2010. Além da turbidez, os resultados revelam também uma diminuição significativa na quantidade de oxigênio dissolvido na água que pode está relacionada com a mortandade de peixes.”

Isso porque, em sua crítica, a ONU menciona a contradição nas informações divulgadas sobre o desastre, em especial a insistência da Samarco, joint venture formada por Vale e BHP para explorar minérios na região, de que a lama não continha substâncias tóxicas. E descreve com detalhes o desastre ecológico provocado pelo vazamento, incluindo a chegada da lama ao mar.

“As autoridades brasileiras precisam discutir se a legislação para a atividade mineradora é consistente com os padrões internacionais de direitos humanos, incluindo o direito à informação. O Estado tem a obrigação de gerar, atualizar e disseminar informações sobre o impacto ambiental e presença de substâncias nocivas, ao passo que empresas têm a responsabilidade de respeitar os direitos humanos”, afirmou Tuncak.

Multa e diálogo

A nota da Presidência também cita a multa de R$ 250 milhões à Samarco e diz que “o governo vem cobrando a atuação da empresa na contenção e na reparação dos danos causados pela tragédia”.

O comunicado salientou ainda que o governo federal “iniciou um diálogo com os governos mineiro e capixaba para definir um plano conjunto de recuperação da Bacia Hidrográfica do Rio Doce” e “vêm fazendo ações de emergência para proteger a fauna da região afetada pela catástrofe, como a retirada de ovos de tartaruga de locais ameaçados na costa capixaba, bem como a captura e transporte de matrizes de peixes também ameaçados.

Em entrevistas, a presidente Dilma Rousseff tem negado negligência no caso. A Samarco, por sua vez, tem afirmado que suas operações eram regulares, licenciadas e monitoradas dentro dos melhores padrões de monitoramento de barragens.

Nesta quarta-feira pela manhã, no programa Bom Dia Ministro, os ministros Izabella Teixeira (Meio Ambiente) e Gilberto Occhi (Integração Nacional) disseram que “desde o primeiro momento” o governo “atuou em uma força tarefa com todos os setores na busca de salvar pessoas”.

Quadro desolador

Os dois especialistas classificaram a tragédia como mais um exemplo de negligência de empresas em proteger os direitos humanos e traçam um quadro desolador pós-desastre para as comunidades afetadas.

“Poderemos jamais ter um remédio eficaz para as vítimas, cujos parentes ou ganha-pão podem estar debaixo dessa onda de lixo tóxico, e nem para o meio ambiente, que sofreu danos irreparáveis. Empresas trabalhando com atividades envolvendo o uso de material de risco precisam ter a prevenção de acidentes no centro de seu modelo de negócios.”

A BBC Brasil entrou em contato com a Samarco, a Vale e a BHP. Até a noite desta quarta-feira, a Vale respondeu dizendo que não comentaria a nota da ONU mas que esclarece, em seu site, que os rejeitos de mineração não são tóxicos.

A Samarco afirmou que “respeita o direito de expressão da ONU, porém afirma que todas as medidas estão sendo tomadas para prestar assistência emergencial às famílias e comunidades afetadas e para a mitigação das consequências socioambientais desse acidente” e que “desde a ocorrência do acidente em sua Barragem de Fundão vem permanentemente informando à sociedade, autoridades e imprensa que o material proveniente das barragens não apresenta perigo à saúde humana”.

FONTE: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/11/151126_governo_onu_mariana_mdb

Caso Samarco e a mãe de todas as ironias: enquanto o Estado brasileiro perdoa, o mercado pune!

A matéria abaixo assinada pelo jornalista Nicola Pamplona é uma daquelas provas irrefutáveis de que o Estado brasileiro é mesmo um paradoxo ambulante. Enquanto assistimos as três esferas do Estado (executivo, legislativo e judiciário) cumprindo um papel muito aquém do que deveriam para punir a Mineradora Samarco e suas corporações-mãe (Vale e BHP Billiton) pelo crime socioambiental cometido em Mariana e que atingiu proporções de uma verdadeira hecatombe de lama, o mercado está punindo de forma exemplar ao rebaixar a nota de crédito da empresa.

O problema é que se continuarmos nessa toada, o máximo que vai acontecer é a Mineradora Samarco entrar em “recuperação judicial”, atrasando ainda mais o processo de reparação que deverá custar bilhões de dólares.  Simples assim!

Samarco é rebaixada por risco de calote após tragédia em MG

A agência de classificação de risco Standard & Poors rebaixou nesta terça-feira (24) a nota de crédito da Samarco, alegando riscos de calote da companhia após o rompimento das barragens de rejeitos em Mariana.

Os títulos da dívida da mineradora, controlada pela Vale e pela BHP, estão sendo negociados por menos da metade do pico atingido em 2014, em um sinal de que os credores também têm dúvidas com relação ao futuro da empresa após a tragédia.

“A ação de rebaixamento reflete o aumento nos riscos de liquidez da empresa porque o prazo para retomar sua produção de pelotas atualmente é incerto”, afirmou a S&P, em nota.

A agência teme que a Samarco descumpra, já no ano que vem, compromissos assumidos com credores [chamados de covenants], o que implicaria em resgate antecipado de parte de sua dívida.

Em seu balanço de 2014, a empresa explica que, entre os compromissos, está manter o indicador de dívida líquida e Ebitda em 3 vezes ou, em alguns casos, 4 vezes. No final de 2014, estava em 2,1 vezes.

A S&P diz que a suspensão das atividades terá impacto nos indicadores porque reduz a geração de caixa. A dívida total da Samarco, segundo o balanço, é de R$ 11,6 bilhões, metade em títulos e metade em financiamentos à exportação.

“Nesse cenário, assumimos que a empresa descumprirá seus covenants em 2016, o que poderia deflagrar acelerações de dívida”, conclui a S&P.

A nota de crédito da dívida estrangeira da empresa foi rebaixada de BB+ para BB-, com perspectiva negativa.

Nesta terça (24), os títulos com vencimento em 2022 eram negociados a US$ 0,46, queda de 45% com relação ao patamar de antes do acidente e de 53,5% com relação ao maior valor registrado, de US$ 0,99, em novembro de 2014.

“Os credores estão esperando pelo pior”, diz o diretor de operações da gestora de recursos Mirae, Pablo Spyer. “Há uma preocupação com relação à capacidade da empresa segurar essa bomba.”

Como a Samarco não tem ações em bolsa, os títulos da dívida são o principal indicador do humor do mercado com relação à companhia.

Juliana Coissi/Folhapress
REGENCIA, ES, BRASIL - 21.11.2015: Moradores da praia de Regência, em Linhares, receberam com protesto a chegada ao mar da lama liberada com o rompimento de barragens em Mariana (MG). Um dos líderes do povoado guiou o protesto vestido de Morte, com túnica preta e uma foice com a inscrição Samarco, mineradora responsável pelas barragens e que pertence à Vale e à anglo-australiana BHP Billiton. (Foto: Juliana Coissi/Folhapress)
Moradores de Linhares (ES) protestam contra a chegada da lama das barragens da Samarco ao mar

Os credores são, em sua maioria, investidores institucionais estrangeiros, como os bancos UBS e Credit Suisse e o fundo Blackrock.

Os títulos com vencimento em 2022 são os mais negociados, mas há também papéis com vencimento em 2023 e 2024.

Nos primeiros dias após o rompimento das barragens, o valor dos papéis despencou da casa dos US$ 0,85 para abaixo de US$ 0,60.

Chegou a se recuperar, mas voltou a cair nos últimos dias, com a percepção de que o custo de recuperação das áreas atingidas pode ser maior do que o esperado inicialmente.

“Ainda é difícil mensurar a extensão dos danos para o futuro da empresa, até porque há interesse do município que ela volte a operar. Se fosse nos Estados Unidos, estaria fechada”, diz o analista Pedro Galdi, do site Whatscall.

Segundo avaliação da S&P, a Samarco deve fechar o ano com R$ 3 bilhões em caixa, mas pode ter problemas de liquidez, uma vez que os primeiros compromissos assumidos após a tragédia já somam R$ 1,3 bilhão.

Além disso, tem R$ 190 milhões em pagamentos de dívidas e R$ 250 milhões em impostos.

ALTERNATIVAS

Em teleconferência com analistas na semana passada, a Vale admitiu que o seguro de responsabilidade civil da Samarco não cobre sequer as multas já emitidas pelo Ibama, no valor de R$ 250 milhões.

Segundo o diretor financeiro da Vale, Luciano Siani, a apólice cobre bem os prejuízos pela parada de produção e por danos nas minas, mas é pequena no que diz respeito a danos a terceiros ou ao meio ambiente.

Embora garantam que o foco neste momento é a mitigação dos danos causados pela tragédia, os controladores da Samarco já estudam alternativas para convencer as autoridades a liberar as operações da companhia.

Uma delas é a tecnologia de tratamento do minério a seco ou o depósito de rejeitos na cava da mina de Germano.

“Precisamos convencer a sociedade de que podemos operar de formar segura e que podemos limpar os danos. Este é o primeiro passo a ser dado”, afirmou Siani.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/11/1710380-samarco-e-rebaixada-por-risco-de-calote-apos-tragedia-em-mg.shtml

Mineradora Samarco (Vale+BHP Billiton) fez plano de emergência para inglês ver e o Estado esqueceu de cobrar

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A matéria abaixo é tão esclarecedora quanto estarrecedora, e tem como mote central a inexistência objetiva de um plano de emergência contra desastres da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) para a área onde estão localizadas suas barragens no distrito de Bento Rodrigues.

O que mais fica evidente nesta matéria do Estado de Minas é uma confluência de prioridade pela obtenção de lucros com a omissão das várias esferas de governo que deviam cuidar para que a atividade de mineração não causasse tantos riscos para a população humana e os ecossistemas influenciados pelo que hoje se transformou no maior desastre ambiental da história da mineração no Brasil.

Há ainda que se lembrar que na inexistência de uma ação organizada da sociedade civil, dos movimentos sociais organizados e das populações prejudicadas pelo incidente causado pela Mineradora Samarco é quase certo que passemos do “para inglês ver”  para o “tudo como dantes no Quartel de Abrantes”. É que dados os interesses imbricados entre as corporações mineradoras e o modelo Neoextrativista que impulsiona a economia brasileira neste momento, não há qualquer interesse nos altos círculos para que este incidente seja punido de forma dura e exemplar.

Samarco contratou plano de emergência contra desastres, mas nunca pôs em prática

Empresa especializada diz que Samarco ignorou plano de emergência elaborado em 2009, que poderia ter ajudado a evitar o acidente ou reduzido efeitos da tragédia

 Por Gustavo Werneck
Fred Loureiro/Secom-ES/Divulgação

A adoção de um plano de emergência, há seis anos, teria salvado a vida de trabalhadores da mineradora Samarco e moradores do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central, além de evitado a destruição do meio ambiente e os graves impactos na economia mineira e do Espírito Santo. Naquele ano, a empresa RTI (Rescue Training International), com sede em Bragança Paulista (SP), contratada pela Samarco, elaborou um plano estratégico vasto, prevendo a proteção aos funcionários e comunidades, no caso de rompimento de uma barragem, conforme ocorreu com a do Fundão, em 5 de novembro. “O plano de ação nunca foi posto em prática”, lamenta o diretor da RTI, Randal Fonseca.

Segundo Fonseca, especialista em emergência, o programa abrangia unidades do grupo de mineração no Espírito Santo, no Pará e em Mariana. “O documento é muito extenso, não se esgota em 20 páginas, e incluía até o treinamento da população no caso de precisar sair com segurança do local”, explica. “Sei que não foi implementado por uma crise econômica. Depois, foi substituído por outro não tão completo”, acrescenta Fonseca. A proposta incluía ainda obra civil, especialmente com relação aos diques das barragens.

Em 2012, a RTI apresentou novo plano, dessa vez de emergências médicas, com informações complementares, como a retirada de cadeirantes das áreas de risco, mas também foi aposentado pela direção do grupo de mineração. Nesse segundo documento, havia mapeamento da região, mas sob a ótica de emergência médica. O empreendimento, conforme advogados, teria ignorado também o que dispõe a lei federal 12.334, de 20/9/2010, que estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens.

O trabalho apresentado há seis anos, segundo Fonseca, abrange todos os pontos da gestão numa situação de risco coletivo. “O problema não diz respeito apenas à empresa, mas a todos os envolvidos. Se a empresa conseguiu um alvará (licença de operação), vários órgãos são responsáveis”, acredita.

Sem prática

Em 16 de abril de 2014, a Samarco apresentou à Superintendência Regional do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Região Central Metropolitana (Supram-CM) plano de contingência em caso de risco ou acidentes, especialmente com relação à comunidade de Bento Rodrigues. O documento, para autoridades ouvidas pelo Estado de Minas, “não surtiu efeito prático, sendo feito apenas para inglês ver, e muito diferente do plano de emergência elaborado em 2009, que era mais completo”.

Uma frase do Programa de Ações Emergenciais de Barragens (PAE) da Samarco, a que o EM teve acesso, resumiria bem a responsabilidade da empresa: “A Samarco atua antes que o evento ocorra, para assim evitar possíveis danos ou impactos”.

No documento entregue à Supram, a mineradora diz que “a responsabilidade por avisar e remover as pessoas em risco iminente é da Defesa Civil”. Segundo o tenente-coronel Ronilson Caldeira, da Coordenadoria da Defesa Civil Estadual, porém, é de competência da empresa avisar à população sobre um rompimento no entorno da barragem, local em que os órgãos estaduais não podem chegar com rapidez.

Explicação

A Supram informa que a condicionante “Apresentar Plano de Contingência em caso de riscos de acidentes” foi apresentada no processo da Licença de Operação da Barragem de Fundão, em 2009. No entendimento da gestão da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) na época, a condicionante foi cumprida. Contudo, a análise dos estudos de segurança de barragem é competência do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). O EM não teve resposta do DNPM sobre o assunto.

A Samarco afirma ter um Plano de Contingências, aprovado pelos órgãos competentes. E mais: “O plano foi cumprido pela Samarco, que prontamente mobilizou Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Prefeitura de Mariana e, em conjunto, estão realizando as ações de resgate e auxílio de vítimas do acidente”.

AS FALHAS DA EMPRESA

1) Falta da adoção de plano de emergência para retirar a população de Bento Rodrigues

2) Não houve treinamento da população para reagir a um possível o rompimento de barragem

3) Moradores foram comunicados por telefone logo após o rompimento. Muitos números estavam desatualizados. Só agora a Samarco instala sirenes

4) Empresa não pôs em prática plano de ação emergencial elaborado em 2009, que trata da proteção aos trabalhadores, comunidade, meio ambiente

5) Plano para emergências médicas elaborado em 2012 por empresa contratada foi ignorado

6) Plano de Ações Emergenciais de Barragens, apresentado à Supram no ano passado, é considerado frágil por especialistas e também não foi posto em prática.

FONTE: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/11/24/interna_gerais,710870/samarco-contratou-plano-de-emergencia-para-desastre-mas-nunca-pos-em.shtml

O Tempo: Vale também lançava rejeitos na barragem que explodiu

Barragem rompida em Mariana tinha lama da Vale

Rejeitos de minério de ferro da mina conhecida como “Alegria” eram despejados na barragem de Fundão

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Lama proveniente do rompimento da barragem do Fundão chega ao Oceano, no Espírito SantoLama já atinge mar do Espírito Santo

DA REDAÇÃO

A tragédia ambiental de Mariana, que teve o rompimento histórico de uma barragem no dia 5 de novembro, tinha também lama da Vale, segundo divulgação da “Folha de S. Paulo”. A maior mineradora do Brasil utilizava a área para despejar rejeitos de minério de ferro de suas atividades na região.

A Vale tem uma mina conhecida como Alegria, que fica a cerca de 25 km do distrito de Bento Rodrigues, e a lama dessa operação era encaminhada para a barragem de Fundão.

Para a “Folha”, a Vale confirmou que mantinha um contrato com a Samarco para utilizar a barragem como destinação de seus rejeitos, porém, afirmou que sua lama correspondia a menos de 5% do total depositado em Fundão.

Até o momento, a Vale não se responsabiliza pela tragédia, mesmo sendo acionista da Samarco. É importante ressaltar que nos pronunciamentos feitos pela mineradora e por seus diretores não houve menção aos rejeitos que a empresa depositava na barragem.

Ainda de acordo com a publicação, só uma investigação poderá dizer se a quantidade de lama enviada pela Vale estava ou não dentro das normas.

A lama da barragem de rejeitos de mariana já avançou mais de 10 quilômetros em linha reta no mar do Espírito Santo. Já no sentido paralelo, o material ocupa uma faixa de mais de 40 quilômetros, atingido as praias de Regência e Povoação, em Linhares.

FONTE: http://www.otempo.com.br/capa/brasil/barragem-rompida-em-mariana-tinha-lama-da-vale-1.1176392

O desastre de Mariana é o retrato do Brasil

Por Wilson de Figueiredo Jardim

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O rompimento da barragem de rejeitos de minério de ferro da Samarco ocorrido em 05/11 pode ser considerado o maior desastre ambiental já causado pelo homem no Brasil. Um número relativamente pequeno de vítimas frente à dimensão do evento, seguido por uma comoção mundial frente aos atentados terroristas em Paris que ocorreram na semana seguinte serviram para desviar as atenções do problema brasileiro. Similar ao que ocorreu quando do assassinato do então prefeito Toninho de Campinas, morto um dia antes do ataque às Torres Gêmeas em Nova Iorque , cuja atenção mundial acabou sombreando a morte do ex-prefeito.

No entanto, o evento de Mariana serviu para mostrar a negligência e a inoperância dos órgãos governamentares frente aos eventos desta natureza. Mesmo para quem não tem formação técnica, um simples passeio pela região mineradora e siderúrgica de Minas Gerais mostra a degradação ambiental em todas suas formas: uma forte contaminação atmosférica associada a um passivo ambiental visível nos solos e águas, onde a fiscalização pelos órgãos governamentais (DNPM e FEAM) fica muito aquém do esperado. Nestas regiões a riqueza é para poucos, enquanto que a degradação ambiental é democratizada. Se as Normas Reguladoras da Mineração estivessem sendo seguidas na sua totalidade pela Samarco, este evento não deveria ter ocorrido.

Quando o mar de lama desceu como uma avalanche para atingir o rio Doce, levando tudo no seu caminho, o governo descobriu que não sabia como agir, e começou o festival de barbaridades que não deve terminar tão cedo. Ibama, Ministério Público Federal e Estadual, agências ambientais estaduais, concessionárias de água, aventureiros, cada um falando sua linguagem própria. Afinal, qual era mesmo o material contaminante?

A primeira ação conjunta que se esperava do governo era a identificação rápida e precisa do material que jorrou da barragem. Granulometria, densidade, composição química, potencial de lixiviação de intoxicantes, dentre outros para só assim poder avaliar os possíveis impactos para a saúde humana e a biota. Como isso não foi feito, surgiram especulações sobre a toxicidade, o arsênio se tornou metal (é um metalóide), o material particulado se tornou solúvel, e assim o mar de lama invadiu também o bom senso.  Isso mostra a inoperância do governo, incapaz de colocar um único interlocutor para coordenar as ações remediativas. Interessante é que tanto na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) como na UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) há uma série de dissertações e teses que mostram a caracterização e reuso desta lama. Mas parece que a desinformação é mais interessante do que a informação.

O ápice do festival de barbaridades técnicas foi o uso de bóias de contenção de material flotante (principalmente óleos e borras de derrame de petróleo) para conter o material particulado que compõem o rejeito, o qual tem um diâmetro médio de 10 µm, e evitar sua dispersão no mar. Só faltou alguém sugerir o uso de um grande macaco hidráulico para levantar a foz do rio Doce e fazer o rio correr para a cabeceira. Humor à parte, o desencontro é tão grande que não seria possível descartar esta eventualidade.

O material mais fino que compõe a lama de rejeitos irá se dispersar com o tempo ao longo do rio e no mar, causando um impacto transiente que já mostrou sua força. O fato é que temos agora um passivo ambiental residente de grandes proporções para tratar, visando restaurar ao máximo suas condições pré-acidente. A lama, contendo uma parcela apreciável de sílica, devastou as matas ciliares e ali se depositou, pelo menos em pontos mais próximos à barragem, e deve impedir a recomposição destas matas se não for removida ou recoberta com solo fértil. O leito do rio Doce recebeu uma quantidade de rejeito que deve atuar como se fosse um selo físico, impedindo trocas na interface água/sedimento, processo esse de vital importância para a saúde do sistema aquático.

A recuperação desta bacia é processo de longo prazo, e somente terá sucesso se houver um plano de ação coeso, envolvendo vários atores que trabalhem num projeto factível, integrado, multidisciplinar, usando ao máximo todo o conhecimento que já está disponível visando o sucesso desta remediação. E por favor, esqueçam as técnicas mirabolantes e pirotécnicas, e concentrem-se na fiscalização efetiva e na prevenção.

Wilson de Figueiredo Jardim é professor aposentado do Departamento de Química Analítica (DQA), do Instituto de Química da Unicamp

FONTE: http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2015/11/23/artigo-o-desastre-de-mariana-e-o-retrato-do-brasil

Desgraça maior do que a antecipada: lama da Samarco (Vale+ BHP Billiton) já toma 77 km do litoral capixaba

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A situação de pior cenário que foi antecipada ontem aqui neste blog já se confirmou nesta segunda-feira. Segundo a matéria abaixo do jornal Estado de Minas  indica que os rejeitos tóxicos estão se espalhando de forma irregular em diferentes direções, sendo que a área mais atingida fica ao norte da foz do Rio Doce.

Essa distribuição dos rejeitos deve estar obrigando a que os especialistas “muy amigos” das mineradoras Vale e BHP Billiton  refaçam seus cálculos para explicar porquê as consequências da chegada da lama tóxica liberada em Mariana está se dando desta forma no mar, atingindo uma extensão tão expressiva.

Entretanto, como a própria matéria já aponta, o problema começa, mas não termina em  terra. E o pior deverá ter uma longa capacidade de residência na totalidade da interface continente-oceano. Em outras palavras, a contaminação não só se dará tanto na calha do rio como no assoalho ocêanico, estendendo assim os efeitos na cadeia trófica flúvio-marinha, e com efeitos incalculáveis na população humana que dele depende para gerar sua renda e sustento alimentar.

Em suma, uma cagada mais do que completa!

Lama de rejeitos já toma mais de 77 quilômetros do litoral do Espírito Santo

A lama com rejeitos de minério vinda pelo Rio Doce atingiu o mar no domingo. Prefeitura de Linhares interditou as praias de Regência e Povoação

Por Estado de Minas

Gabriela Biló/Estadão Conteúdo

A lama de rejeitos da mineradora Samarco já tomou mais de 77 quilômetros do litoral do Espírito Santo. De acordo com o governo do estado, são 70 quilômetros ao norte, sete ao sul e 10 mar a dentro. A prefeitura de Linhares interditou as praias de Regência e Povoação após a chegada lama e colocou placas ao longo das praias informando que a água está imprópria para o banho.

A lama com rejeitos de minério vinda pelo Rio Doce atingiu o mar no domingo, segundo informações da prefeitura. A população de Regência e Povoação vive da pesca e do turismo e tem as atividades prejudicadas com a água barrenta que avança sob o mar.

Na sexta-feira (20) o titular da 3ª Vara Civil de Linhares, juiz Thiago Albani, determinou que a Samarco retirasse as boias de contenção instaladas e abrisse a foz do Rio Doce para que a lama de rejeitos se dissipe no mar. Para a decisão, foram ouvidos técnicos ambientais do município e de órgãos como o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema).

A Samarco divulgou nota informando que toma as providências definidas pelo Ministério Público, Iema, Instituto Chico Mendes e Tamar, de modo a direcionar a lama para o mar e proteger a fauna e flora na foz do Rio Doce.

De acordo com a nota, a empresa fornece equipamentos para abertura do banco de areia que impede a chegada do rio ao mar no lado sul da foz. “Quatro máquinas trabalham 24 horas por dia nas escavações, com apoio de uma draga e bombas que ajudam no bombeamento da pluma”.

O documenTo informou também que a barreira de contenção continua sendo instalada nas margens do rio com o objetivo de proteger a fauna e flora, sem impedir o escoamento da lama para mar.

FONTE: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/11/23/interna_gerais,710713/lama-de-rejeitos-ja-toma-mais-de-77-quilometros-do-litoral-do-espirito.shtml

Esqueçamos do incidente Samarco por um momento, lembremos da destruição da Praia do Açu

Dadas as proporções gigantescas do incidente socioambiental causado pela Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) em Mariana e que agora contamina a foz do Rio Doce e os ecossistemas fluvi0-marinhos que ali existem, deixei um pouco de lado os problemas causados pelo Porto do Açu nas suas áreas de influência direta e direta. Mas deixar de lado, não significa esquecer. Deste modo, estive recentemente com um grupo de estudantes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) no que ainda resta da faixa central da Praia do Açu e a cena ali é devastadora como mostra a imagem abaixo.

PRAIA DO AÇU

Para quem nunca foi na Praia do Açu, a seta e a linha vermelha demarcam onde até recentemente existia a Avenida Atlântica, via que conectava as suas extremidades  da Praia do Açu. Ao fundo da imagem está o Terminal 2 do Porto do Açu onde a faixa de areia está, pasmem todos, aumentando! Ai a matemática simples, falta num ponto porque a areia está sendo retida em outro.

Como a ocorrência deste fenômeno já apareceu como inevitável nas audiências públicas que foram realizadas para a emissão das licenças ambientais, o que me causa espanto é a morosidade do Estado em fazer valer as condicionantes do licenciamento. É que como se viu no caso da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) , a lógica que prevalece pelas corporações (especialmente as financeiras) é a da minimização dos custos, ainda que isto custe as vidas e economias de populações inteiras. 

Entretanto, lá como cá, o que se vê é a cumplicidade objetiva dos que deveriam proteger os interesses da população ao fazer valer o que determina a legislação ambiental. Mais claro do que isso só as águas do Rio Doce antes do derrame de lama tóxica da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) .

 

Chegada da lama da Samarco (Vale + BHP) muda a cor do mar do Espírito Santo

Ao contrário do que alguns “especialistas muy amigos” andaram dizendo, a chegada da lama que escapou da barragem da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) está causando uma impressionante modificação na foz do Rio Doce. Os impactos dessa chegada deverão ser sentidos primeiro pela fauna marinha e depois pelos pescadores de Redenção que retiravam seu sustento do mar. 

Os problemas com essa lama vão desde o impacto físico, mas desconfio que o maior problema será na contaminação por metais pesados que deverá causar impactos duradouros na qualidade da fauna, potencialmente impactando o seu consumo e, deste modo, privando os pescadores de renda mesmo após o desaparecimento da lama das áreas mais próximas da costa. É ingênuo, e provavelmente cínico, quem tenta minimizar os impactos desse derrame de lama na costa capixaba.

Mas como imagens falam mais que mil palavras, posto abaixo imagens da chegada da lama da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) no oceano Atlântico e dos primeiros abatidos pelo material “inerte” que saiu de Mariana.

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