Apertando o acelerador: Assembleia Legislativa diminui distâncias e potencializa exposição humana a agrotóxicos no Mato Grosso

Deputados aprovaram em regime de urgência o Projeto de Lei 1833/2023, uma proposta que elimina barreiras cruciais para a aplicação de agrotóxicos em pequenas propriedades rurais

Foto: Adriano Gambarini/ OPAN

Por Opan 

Em uma sessão marcada pela pressa, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) deu um passo que promete redefinir o cenário da produção agrícola e causar sérios danos à saúde pública no estado. Nesta quarta-feira (19), deputados aprovaram em regime de urgência o Projeto de Lei 1833/2023, uma proposta que elimina barreiras cruciais para a aplicação de agrotóxicos em pequenas propriedades rurais. A decisão levanta questões urgentes sobre os limites entre o desenvolvimento econômico e a proteção do meio ambiente.

A flexibilização representa uma mudança drástica em relação à legislação anterior, que estabelecia distâncias mínimas para a aplicação de agrotóxicos, e que eram consideradas insuficientes para um nível adequado de proteção à saúde da população e do meio ambiente. A proposta também estabelece novas distâncias mínimas para médias e grandes propriedades rurais. No caso de médias propriedades, a aplicação de agrotóxicos poderá ocorrer a uma distância mínima de 25 metros das áreas habitadas e fontes de água. Já para grandes propriedades a distância mínima estabelecida é de 90 metros.

Essas mudanças contrastam com o Decreto nº 2.283/2009, que estava em vigor em Mato Grosso e determinava que o uso de agrotóxicos na agricultura só poderia ocorrer a uma distância mínima de 300 metros de povoações, cidades, vilas, bairros e mananciais de captação de água para abastecimento da população.

Além disso, o decreto estabelecia distâncias mínimas de 150 metros de mananciais de água, moradias isoladas e agrupamentos de animais, e de 200 metros de nascentes, mesmo que intermitentes.

O deputado Gilberto Cattani (PL), autor do projeto de lei, justifica a proposta argumentando que a distância mínima de 300 metros estabelecida pelo decreto anterior traz prejuízos à produção agrícola, à população e à economia, devido ao alastramento descontrolado de pragas agrícolas.

No entanto, especialistas alertam para os graves riscos que a medida representa para a saúde da população, o meio ambiente, aos produtores e até para a própria produção.

“Um dos resultados que nós vimos é que existe uma necessidade de manter uma zona segura, sem a aplicação de agrotóxicos em volta das áreas de preservação permanente, as APPs. Porque os agrotóxicos por si só, eles não controlam todas as pragas da paisagem. Nós sabemos que paisagens que tiveram uma aplicação de altos índices suscetíveis, ano a ano, de agrotóxicos eles selecionaram pragas mais resistentes. Então, é fundamental que se alinhe o controle biológico natural e resguardar uma faixa segura de APPs porque nós vimos que tem animais que são fundamentais para ajudar a controlar essas pragas junto com os agrotóxicos. Então, manter essas zonas seguras é fundamental para preservar a agricultura”, explicou o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Lucas Ferrante, durante audiência realizada nesta terça-feira (18), que debateu o tema.

Foto: Adriano Gambarini/ OPAN

O médico, pesquisador e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Wanderlei Pignati, também ressaltou que a proposta é absurda, pois vai aumentar a exposição a venenos e ampliar a probabilidade da população ter doenças.

“Quanto mais perto, maior é a probabilidade de você ter intoxicação aguda, malformações, câncer. A população que mora do lado, crianças e adultos, os rios, tudo vai ser muito afetado e contaminado”, afirma.

Wanderlei Pignati é responsável por um estudo que analisou as condições de saúde de pessoas que moravam em distâncias inferiores a um quilômetro das áreas de lavouras em Mato Grosso. Por meio da pesquisa, realizada pelo Núcleo de Estudos em Ambiente, Saúde, Trabalho e Educação (Neast), do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da universidade, foi demonstrado que a proximidade de áreas agrícolas é um fator de risco significativo.

Pesquisas da UFMT e do Neast/ISC/UFMT, em parceria com a Operação Amazônia Nativa (OPAN), também demonstraram a relação entre o uso intensivo de agrotóxicos em lavouras próximas a territórios indígenas e a causa de graves problemas de saúde.

Além disso, foram encontrados agrotóxicos proibidos, como carbofurano, atrazina e carbendazim, nas lavouras. A exposição a esses produtos está associada a intoxicações agudas, doenças crônicas, como câncer e problemas neurológicos, e impactos ambientais severos.

O estudo ainda mostrou que as pessoas com residência próxima a lavouras agrícolas de milho e algodão tiveram quase duas vezes mais intoxicações agudas comparadas com as que residiam em outros locais.

Na sessão ordinária apenas três deputados, Wilson Santos (PSD), Lúdio Cabral (PT) e Valdir Barranco (PT), votaram contrários ao projeto de lei, que segue para sanção do governador Mauro Mendes (União Brasil).


Fonte: OPAN

Organizações internacionais voltam a pedir proibição do plantio e comercialização do trigo transgênico

Entidades ligadas à agricultura sustentável e o direito à alimentação alertam para os riscos à saúde. Pães, massas e todos os derivados do trigo HB4 terão resíduos de glufosinato de amônio, agrotóxico altamente tóxico

Crédito da Foto: Pixabay

Por Cida de Oliveira 

São Paulo — Organizações da sociedade civil que reúnem países da América Latina, África e Ásia voltaram a reivindicar a suspensão das autorizações do plantio e comercialização do trigo HB4 na Argentina, Brasil e Paraguai. E de importação na África do Sul, Colômbia, Nigéria, Nova Zelândia, Indonésia e China. Desenvolvida e negociada pela companhia argentina Bioceres, a semente promete resistir aos períodos secos do ano e às chamadas plantas invasoras, cada vez mais resistentes a agrotóxicos. Essa segunda característica se deve a uma modificação genética que permite ao trigo resistir a altas doses do herbicida glufosinato de amônio. Segundo as entidades, há estudos que mostram que essa substância chega a ser 15 vezes mais tóxica que o glifosato.

E aí é que está a grande preocupação. As plantas acumulam resíduos dos agrotóxicos nelas aplicados ao longo do cultivo. E em doses tão significativas que vão bem além das permitidas pela legislação, como mostraram diversas pesquisas de órgãos de saúde em amostras de hortaliças, frutas e outros alimentos. No caso do trigo transgênico, além de outros agroquímicos que serão utilizados, haverá concentração do glufosinato de amônio. Classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como potencialmente cancerígeno, o agrotóxico é associado ainda por diversos estudos científicos como causador de alterações genéticas, danos ao fígado e desregulação endócrina.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, um desregulador endócrino pode exercer vários efeitos nocivos, alterando os hormônios e suas funções. Isso é muito grave porque o funcionamento adequado do organismo, portanto, a saúde, depende de ação hormonal. E o mais perverso é que essa desregulação afeta principalmente fetos, crianças com até dois anos e adolescentes, por estarem em fase de desenvolvimento, com grande multiplicação celular. Não é por acaso que em 2009 o glufosinato foi banido na União Europeia.

Para piorar, o trigo transgênico se propõe a dominar a produção de um cereal que compõe a principal fonte de carboidratos, base da alimentação mundial. Ou seja, o pão de cada dia, seja do tipo que for. Além do café da manhã, está em muitas refeições diárias, como suporte para sanduíches e outros pratos. Tem ainda o macarrão, a pizza, bolos, biscoitos, doces e uma infinidade de subprodutos.

Apesar da importância do trigo na alimentação humana, não existe um método público validado para detectar, identificar e quantificar a presença de trigo HB4 em farinhas e outros produtos de trigo”, alertam as entidades em comunicado divulgado nesta quarta-feira (5), na qual reivindicam a suspensão das autorizações já concedidas.

No documento, elas destacam também as circunstâncias nada democráticas em que o cultivo e a venda foram liberados. No caso Brasil, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) encerrou o processo em março de 2023. Foram ignorados alertas de cientistas, órgãos de saúde, meio ambiente e defesa dos direitos humanos e do consumidor. A opinião pública tampouco foi levada em consideração. E como tornou-se praxe no órgão criado justamente para assessorar o governo federal quanto à biossegurança, houve dispensa de pesquisas. Foram considerados suficientes os dados incompletos apresentados pela empresa interessada na aprovação.

Pedimos que todas as licenças para o plantio e comercialização do trigo HB4 sejam suspensas e que um processo de reparo abrangente seja iniciado nos espaços já intervencionados”, destacam as organizações. Em junho de 2022 a Embrapa já havia anunciado a criação de campos de testes em Brasília.

O trigo HB4 já é vendido na Argentina desde maio de 2024, segundo anunciou na época a Bioceres. E os negócios avançam nos Estados Unidos. Nesta quinta-feira (6) a companhia anunciou ter obtido a primeira das quatro patentes solicitadas ao órgão oficial local. Já há também autorização do Departamento de Agricultura (USDA) e do Departamento de Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA). O país é o quarto maior produtor mundial do cereal.

No entanto, nem só de notícia boa vive a Bioceres. No início de fevereiro, a própria companhia divulgou queda de 24% na sua receita, o que levantou fortes suspeitas de que a nova tecnologia tenha tudo a ver com isso. Embora a empresa não tenha explicado as causas do tombo financeiro, há desconfiança de fracasso comercial do novo trigo. Ou seja, não estaria oferecendo a resistência ou tolerância à seca prometida na propaganda.

De acordo com dados oficiais, o trigo HB4 rende muito menos do que os trigos convencionais (não transgênicos), mesmo em anos de seca. Na média anual de dados de 2021, os trigos HB4 renderam 17% menos do que os trigos convencionais. Nos anos seguintes, nem o Estado nem a empresa publicaram dados de produção nas diferentes regiões. Talvez seja porque o fracasso produtivo da tecnologia foi confirmado, e a queda nas vendas e receitas da Bioceres fez com que a empresa saísse da venda de sementes”, acreditam as entidades.

Seja como for, ainda segundo essas organizações (veja lista no final da reportagem), o lançamento e posterior aprovação do trigo HB4 levantou expectativas entre os produtores. Apesar da falta de dados oficiais sobre o cultivo de trigo transgênico no Paraguai, circula por lá a informação sobre a adaptação de variedades em diversas regiões do país por corporações do agronegócio. Além disso, o uso de glufosinato de amônio aumentou substancialmente no país.

Acreditamos que, diante do grande fracasso da tecnologia HB4, para a qual a empresa Bioceres está arrastando agricultores, é hora de enterrá-la definitivamente”, pedem as organizações.

Para o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, integrante do Movimento da Ciência Cidadã, que subscreve o comunicado, o trigo transgênico é “mais uma das promessas de uma tecnologia enganosa, patrocinada por interesses opostos às necessidades da população”. “Diante das promessas de redução no uso de agrotóxicos, de geração de plantas mais nutritivas, de benefícios aos pequenos agricultores e aos consumidores, nada mais coerente do que um trigo tolerante à seca, mas que não é tolerante a seca”, disse à reportagem.

Melgarejo foi além: “Penso que as evidências concretas de inconsistência entre os discursos dos técnicos interessados, as propagandas da mídia corporativa e a realidade observada nas lavouras expliquem os pedidos, e as aprovações, de dispensa de monitoramento pós liberação comercial destas tecnologias pela CTNBio”.

Em fevereiro de 2024, essas mesmas entidades enviaram petição aos Relatores Especiais sobre Direitos Humanos da ONU. O objetivo foi alertar para a gravidade do risco a que estão expostas as populações desses países e pedir providências. Isso porque o plantio e a comercialização violarão vários direitos humanos, como o direito à vida e aos estilos de vida, à saúde, à alimentação adequada e à soberania alimentar. E também a um meio ambiente equilibrado e livre de poluição, entre outros. Entretanto, ainda não houve resposta alguma das Nações Unidas.

Confira as solicitações aos Relatores Especiais da ONU:

  • Inste os governos da Argentina, Brasil e Paraguai a suspender/revogar todas as autorizações para o cultivo comercial do trigo transgênico HB4
  • Recomende ao governo do Paraguai que revogue a Resolução 556/2023 – por meio da qual o trigo transgênico HB4 foi aprovado – e que reforme a estrutura regulatória para organismos geneticamente modificados (OGMs), por meio de um processo aberto, transparente e participativo, com ênfase especial na necessidade de proteger os direitos dos povos indígenas e das comunidades camponesas
  • Recomende que o governo da Argentina revogue a Resolução 27/2022, que se baseia apenas em informações documentais da Bioceres, a empresa que desenvolveu a variedade de trigo transgênico, e institua uma proibição adequada do cultivo de trigo transgênico no país
  • Recomende que o Conselho Nacional de Biossegurança do Brasil proíba o cultivo comercial de trigo transgênico e suspenda a decisão da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que permite a importação de grãos e farinha de trigo transgênico para o país, e promova uma revisão da legislação de biossegurança por meio de um processo participativo aberto, transparente e democrático
  • Recomende que os governos da Colômbia, África do Sul, Nigéria e Indonésia instruam suas autoridades de biossegurança a revisar as aprovações de importação de trigo GM e iniciar uma moratória em todas as aprovações (autorização de produto, importação e liberação ambiental) de culturas Geneticamente Modificadas.

Confira as entidades que assinam o documento:

Accion Ecologica

Associação Nacional para a Promoção da Agricultura Biológica

Base Investigaciones Sociales

Alianza Biodiversidad

Instituto de Salud Socioambiental (InSSA)

Amigos de La Tierra Uruguay

Rap Al Uruguay

Grain

Movimento Ciência Cidadã

Semillas

ETC Group

Cientistas soam o alarme sobre plásticos em nossos cérebros após estudo chocante

Comentário destaca os potenciais riscos à saúde dos microplásticos em nossos corpos e cérebros

Microplásticos estão sendo encontrados em todos os lugares onde os cientistas os procuram, inclusive em nossos cérebros. © Daily insights via Shutterstock

Por Ed Cara para o “Gizmodo”

Se a ideia de ter uma colherada de plástico na sua cabeça parece ruim para você, você não é o único. Cientistas estão soando o alarme sobre um estudo recente que mostra que microplásticos podem se acumular no cérebro.

Pesquisadores dos EUA e Canadá escreveram o comentário, publicado no periódico Brain Medicine. Além de discutir o estudo cerebral recente, eles detalham a ciência geral sugerindo que os microplásticos estão prejudicando o meio ambiente e nossa saúde. Embora mais pesquisas sejam necessárias para descobrir as melhores maneiras de limpar essas substâncias de nossos corpos, as pessoas já podem tomar medidas para minimizar sua exposição, afirmam os cientistas.

Microplásticos são quaisquer pedaços de plástico menores que 5 milímetros. Nos últimos anos, cientistas os encontraram em praticamente qualquer lugar que eles olharam — de nuvens no topo de montanhas a nossos testículos e fezes de bebês . Mas um estudo publicado no mês passado na Nature Medicine por pesquisadores da Universidade do Novo México desencadeou uma nova onda de preocupação.

Os pesquisadores da UNM não só encontraram microplásticos nos cérebros de pessoas falecidas, como também encontraram concentrações maiores de plástico nos fígados, rins ou outros órgãos das pessoas. Além disso, esse acúmulo pareceu ser muito maior em pessoas falecidas recentemente, sugerindo que a exposição ao plástico só piorou ultimamente. Eles também encontraram uma concentração maior de plástico nos cérebros de pessoas com demência — talvez sinalizando uma conexão com a condição neurológica fatal. Os pesquisadores da UNM estimaram que os cérebros das pessoas hoje podem estar carregando uma colher de plástico inteira desses pequenos fragmentos.

Nicholas Fabiano, autor principal do novo comentário, publicado hoje, adverte que ainda há muito que não sabemos sobre os impactos dos microplásticos na saúde. Mas o que aprendemos até agora não é exatamente encorajador.

“Ouvir que há uma colher de microplásticos no cérebro foi chocante. Como residente em psiquiatria, isso é particularmente relevante, já que atualmente não sabemos a extensão total que isso pode impactar a cognição ou a saúde mental de alguém”, Fabiano, pesquisador do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Ottawa, disse ao Gizmodo. “No estudo da Nature Medicine, os níveis de microplásticos eram 3-5 vezes maiores nos cérebros daqueles com demência, o que levanta alarmes, no entanto, essas descobertas não são causais por natureza.”

Não são apenas os plásticos em si que podem ser perigosos para nossos corpos, mas os produtos químicos que vazam dele. Os pesquisadores identificaram mais de cem produtos químicos no plástico que podem nos prejudicar ou prejudicar outros animais, particularmente produtos químicos que podem imitar e, então, possivelmente interromper a regulação de hormônios importantes. Esses produtos químicos desreguladores endócrinos têm sido associados a maiores taxas de infertilidade, certos tipos de câncer e distúrbios metabólicos como diabetes, para citar alguns. E provavelmente há outras maneiras pelas quais os plásticos ou seus produtos químicos podem estar afetando nossa saúde para pior.

“A base de evidências atual (amplamente baseada em estudos de cultura de células e animais) sugere que a exposição [ao microplástico] pode levar a impactos adversos à saúde por meio de estresse oxidativo, inflamação, disfunção imunológica, metabolismo bioquímico/energético alterado, proliferação celular prejudicada, desenvolvimento anormal de órgãos, vias metabólicas interrompidas e carcinogenicidade”, escreveram os autores do comentário do Brain Medicine.

Muitas perguntas sem resposta sobre microplásticos permanecem, observa Fabiano. Além dos riscos desconhecidos para a saúde a longo prazo, não temos certeza de como esses plásticos estão entrando no cérebro, por exemplo. Também ainda sabemos pouco sobre como nossos corpos podem eliminar microplásticos, embora algumas pesquisas tenham sugerido que podemos literalmente suar certos produtos químicos associados ao plástico.

Apesar dessas incógnitas, Fabiano (e muitos outros pesquisadores ) pediram que governos e formuladores de políticas tomem medidas e comecem a reduzir nossa exposição coletiva a microplásticos. Enquanto isso, as pessoas também podem fazer coisas em suas vidas pessoais para limitar sua ingestão de plásticos. Isso inclui: mudar de beber água engarrafada regularmente para água filtrada da torneira; comer menos alimentos comumente feitos com plástico, como certos saquinhos de chá (dito isso, alguns tipos de saquinhos de chá são melhores do que outros ), ou alimentos que são conhecidos por conter altos níveis de microplásticos, como frutos do mar, álcool e alimentos altamente processados ​​em geral; e armazenar nossas sobras em recipientes de vidro ou aço inoxidável em vez de plásticos.


Fonte: Gizmodo

Estudo aponta relação entre agrotóxicos e risco aumentado de câncer em agricultores

Pesquisa ressalta a importância de comunicar aos agricultores melhor os riscos do uso dos agrotóxicos e medidas de proteção 

Um estudo da Universidade de Caxias do Sul (UCS), publicado na revista “Saúde em Debate” na quinta (27), revela que agricultores expostos a agrotóxicos apresentam um risco maior de desenvolver câncer. Esse risco é ainda mais acentuado entre trabalhadores do sexo masculino, que costumam ter contato direto e frequente com os produtos, muitas vezes sem o uso adequado de equipamentos de proteção individual (EPIs), como máscaras e luvas.

A revisão analisou 29 estudos publicados entre 2012 e 2021 e, de acordo com os resultados apresentados por vários pesquisadores ao redor do mundo, identificou que a exposição prolongada a agrotóxicos pode causar danos celulares que contribuem para o desenvolvimento de qualquer tipo de câncer. No entanto, os cânceres de pulmão, mama, próstata e cânceres hematológicos (leucemias e linfomas) são mais incidentes. Casos de câncer de pele também apareceram nos estudos, mas não foram considerados conclusivos devido à forte relação da doença com a exposição solar, um fator de risco conhecido na profissão.

“Os fatores comuns são a forma como os agricultores estão expostos, se usam os EPIs ou não e como usam. E o tempo de exposição. Muitos iniciam cedo no trabalho agrícola e têm contato com essas substâncias desde jovens”, explica Fernanda Meire Cioato, enfermeira e autora principal do artigo. A autora também chama atenção para a exposição indireta, especialmente entre mulheres que manuseiam equipamentos contaminados ou armazenam os produtos. “São exposições diferentes. O homem é aquele que prepara a calda e aplica, que lida diretamente com a colheita, e a mulher faz todo o trabalho de organização”, ressalta Cioato.

Outro ponto destacado pelo estudo é que a toxicidade dos agrotóxicos não está necessariamente relacionada ao tipo de cultivo ou produto utilizado. Em muitos casos, os agricultores utilizam uma combinação de substâncias, aumentando a complexidade da exposição e dificultando a identificação precisa dos agentes mais nocivos. O uso inadequado de EPIs agrava esse cenário, já que muitos trabalhadores substituem as vestimentas de proteção por alternativas informais, como bonés e calças jeans, devido ao desconforto térmico das roupas especializadas. “Os equipamentos de proteção são desconfortáveis para quem trabalha o dia inteiro sob o sol. É fundamental a modernização de EPIs, com produção de equipamentos mais ergonômicos e eficientes para utilização no trabalho agrícola”, destaca Cioato.

Diante desses achados, os pesquisadores defendem a implementação de políticas públicas que garantam o controle e a segurança no uso de agrotóxicos. Além disso, enfatizam a necessidade de capacitação dos profissionais de saúde para diagnosticar e tratar precocemente os trabalhadores rurais expostos. “Os profissionais devem estar aptos a identificar, analisar e implementar medidas que minimizem riscos, além de monitorar e acompanhar a saúde desses trabalhadores”, afirma João Ignácio Pires, professor da UCS e coautor do estudo.

A pesquisa também ressalta a necessidade de adaptar a comunicação sobre os riscos dos agrotóxicos ao público que os utiliza. Com muitos agricultores de baixa escolaridade, a complexidade das bulas e rótulos dificulta a compreensão das instruções de segurança. “Os rótulos precisam ser mais acessíveis, com símbolos e informações simplificadas, para garantir que todos compreendam os riscos e saibam como se proteger”, conclui Cioato. Essas medidas, segundo os pesquisadores, são essenciais para reduzir os impactos negativos dos agrotóxicos na saúde da população rural.


Fonte: Agência Bori

Alerta Observatório dos Agrotóxicos: Brasil se consolida como o maior consumidor mundial de agrotóxicos

Com informações do portal especializado do agronegócio “Agrolink” fica evidente que o Brasil se consolidou como o maior mercado global de  agrotóxicos em 2024, com vendas estimadas em US$ 14,3 bilhões, superando os Estados Unidos (US$ 13,3 bilhões) e a China ((US$ 10,8 bilhões). A informação foi compartilhada por Anderson Nacaxe, CEO & Co-Founder da Oken.Finance, destacando o crescimento contínuo do setor.

Esse crescimento foi impulsionado pela produção de soja, milho, cana-de-açúcar e café.  Além disso, apesar de um crescimento anual moderado (CAGR de 1,7%), a demanda por agrotóxicos segue forte, refletindo a expansão da área controlada pelo latifúndio agro-exportador.  

Syngenta, UPL, Basf: as empresas que mais vendem no Brasil agrotóxicos  proibidos na Europa - Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

A multinacional suiço-chinesa Syngenta é uma das maiores ganhadoras com o aumento do consumo de agrotóxicos no Brasil

Entre as empresas líderes, a Syngenta mantém sua posição no topo, com previsão de US$ 13,6 bilhões em vendas, seguida por Bayer (US$ 12 bilhões), BASF (US$ 9 bilhões) e Corteva Agriscience (US$ 7,3 bilhões). O mercado global, embora tenha sofrido uma queda em 2023 devido à menor demanda e flutuações cambiais, projeta um crescimento de 1,8% ao ano até 2030. Além do Brasil e dos EUA, a China aparece como terceiro maior mercado, com um ritmo de expansão mais acelerado (Taxa de Crescimento Anual Composta de 3%), impulsionado pela modernização agrícola.  

A América Latina se consolida como motor de crescimento do setor, com Brasil e Argentina liderando. Já nos EUA e na Europa, regulamentações ambientais rigorosas impactam a demanda por  agrotóxicos favorecendo soluções sustentáveis, como biotecnologia e bioagrotóxicos. Outro fator relevante é a concentração de mercado, com as cinco maiores empresas (Syngenta, Bayer, BASF, Corteva e UPL) dominando o setor. 

“O Brasil ultrapassa os EUA e se torna o maior mercado global de agrotóxicos, enquanto a China cresce rapidamente. O futuro do setor dependerá de inovação e adaptação regulatória, com destaque para soluções mais sustentáveis e eficientes”, comentou Nacaxe.

Tendência de crescimento dos agrotóxicos deverá repercutir no aumento de contaminação ambiental e adoecimento no Brasil

Um dado que é omitido nas análises dos analistas do agronegócio é que o crescimento continuo no uso de agrotóxicos, muitos deles banidos em outros mercados como o europeu e até o chinês deverá repercutir no aumento da contaminação ambiental no Brasil, trazendo ainda efeitos sobre a saúde humana, com o aumento potencial de casos de vários tipos de câncer, para começo de conversa.

Por isso é urgente que a questão dos agrotóxicos seja colocada como questão prioritária no debate político, pois só com muita mobilização é que poderemos influenciar diretamente em uma situação que se mostra cada vez mais negativa para o meio ambiente e a maioria da população brasileira


Fonte dos dados deste texto: Agrolink

Liberação de agrotóxicos mostra como governo Lula segue ‘refém’ de estrutura colonialista, diz Larissa Bombardi

Em 2024, Brasil liberou 663 agrotóxicos, 19% a mais do que ano anterior, superando marca alcançada por Bolsonaro

Por Lucas Salum para o “Brasil de Fato” 

Ano passado, o Brasil liberou 663 agrotóxicos. Embora a grande maioria se refira a produtos genéricos de outros agrotóxicos que já estavam aprovados no país, o número ligou sinal de alerta para pesquisadores que acreditavam que a atual gestão federal iria mudar a política de uso de venenos nas lavouras.

“A gente tem um governo, que se propõe progressista, refém de uma estrutura colonialista em que os proprietários de terra, ou os representantes dos proprietários de terra, controlam o país”, resume a pós-doutora em geografia humana Larissa Bombardi, em entrevista ao programa Bem Viver desta quinta-feira (6).

Ela é autora do livro Agrotóxicos e Colonialismo Químico que explica como a América Latina compra e consome produtos extremamente nocivos à saúde humana e ao meio ambiente, ao mesmo tempo que esses agrotóxicos são proibidos nos países de origem, principalmente nações da União Europeia.

“No Brasil, dos dez agrotóxicos mais vendidos, cinco são proibidos na União Europeia. E um deles, que se chama atrazina, que  é o quarto no ranking de vendas no Brasil, foi proibido na União Europeia, justamente, porque ele está dentro dessas substâncias consideradas extremamente tóxicas e ele está associado a diversos tipos de câncer, por exemplo, de ovário, próstata, tireóide, estômago, dentre outras.”

Na entrevista, a pesquisadora explica mais sobre a ligação do câncer com agrotóxicos e como se dá essa relação de colonialismo, que, segundo ela, segue se agravando ano após ano.

Confira a entrevista na íntegra 

Estamos na semana em que marca o Dia Mundial de Combate ao Câncer. Podemos relacionar o enfrentamento à doença com as políticas de agrotóxicos?

Nossa, é essencial conectar esses pontos. 

Tem uma sigla em inglês, HHP [Highly Hazardous Pesticides], que define os agrotóxicos extremamente perigosos. A maior parte desses agrotóxicos está proibida na União Europeia justamente porque eles causam não só uma intoxicação aguda – aquela situação em que a pessoa teve contato com a substância e passou mal, desmaiou, teve vômitos, dores ou coceiras, algo que é muito instantâneo –, mas também existe outro efeito mais invisível, por assim dizer.

São os efeitos crônicos da exposição agrotóxicos. O que é esse efeito? São doenças crônicas, dentre elas, principalmente, o câncer, que as pessoas desenvolvem em função da exposição cotidiana a essas substâncias. 

No Brasil, dos dez agrotóxicos mais vendidos, cinco são proibidos na União Europeia. E um deles, que se chama atrazina, que é o quarto no ranking de vendas no Brasil, foi proibido na União Europeia, justamente porque ele está dentro dessas substâncias consideradas extremamente tóxicas e ele está associado a diversos tipos de câncer, por exemplo, de ovário, próstata, tireóide, estômago, dentre outras.

Obviamente, que os trabalhadores rurais, os camponeses, a população que vive próximo a áreas com cultivo intensivo, estão mais expostas a essas substâncias, mas eu diria que a população como um todo está, por conta dos alimentos que a gente consome.

Essas substâncias estão presentes na alimentação e na água. Então, o glifosato, por exemplo, que é o agrotóxico mais vendido no Brasil, o mais vendido no mundo, foi considerado potencialmente cancerígeno para seres humanos pela Organização Mundial da Saúde há 10 anos, desde 2015. E, no Brasil, o resíduo dessa substância é 5 mil vezes mais permissivo do que aquele permitido na União Europeia.

Mesmo que a pessoa apenas consuma orgânicos, ela segue exposta aos agrotóxicos, certo?

O monitoramento que acontece no Brasil de resíduos de agrotóxicos é muito incipiente. Por exemplo, quando a gente fala de agrotóxicos nos alimentos, a gente tem essa representação na nossa cabeça de que a gente está falando de alimento fresco, frutas, verduras e legumes.

No entanto, a carne não é monitorada, a alimentação infantil não é monitorada, os ultraprocessados não são monitorados, as bebidas não são monitoradas. 

Então, grande parte da nossa alimentação sequer é monitorada. E houve anos em que sequer a soja, que responde por mais da metade do consumo de agrotóxicos no Brasil, também não foi monitorada. 

Realmente é uma violência invisível. É uma violência invisível no campo quando a gente fala dos conflitos fundiários em que essas substâncias têm sido utilizadas como armas químicas para uma  tentativa de expulsão de indígenas, de camponeses, de quilombolas de suas terras.

E ela é também uma, eu diria, uma violência invisível, na isenção de impostos para agrotóxicos. 

Como a senhora avalia a atuação do governo Lula diante deste cenário?

Eu diria que o governo está tímido. Achei muito importante esse pronunciamento dele com relação à comparação que ele fez Brasil e Alemanha, de que não é possível que o Brasil esteja exposto às substâncias que, por exemplo, a Alemanha não está. 

Mas os dados mostram um caminho diferente do que a gente esperava. Por exemplo, o número de novos agrotóxicos aprovados. Isso me remete ao título do meu livro [Agrotóxicos e Colonialismo Químico]. 

Quando a gente fala de colonialismo, obviamente a gente pensa no colonialismo histórico, no momento em que a Europa avançava sobre as terras da América, em que pilhava essas terras, ou seja, em que se apropriava dos recursos naturais por meio de extrema violência,

[Karl] Marx morou aqui em Bruxelas, onde eu vivo, e escreveu o Manifesto Comunista em 1847, 1848. Ou seja, naquele momento, a Europa já estava discutindo questões de trabalho, relações de trabalho, condição do trabalhador.. E a escravização de pessoas era algo impensável naquele momento histórico. 

No entanto, eram as companhias europeias que comercializavam as pessoas escravizadas, que traziam as pessoas da África para outras partes do mundo na condição de escravos. 

Então, aquilo que ela não tolerava para si, estava no auge mundo afora, patrocinado pela própria Europa.

Guardadas as devidas proporções históricas e geográficas, a gente está diante de uma Europa que não tolera algumas substâncias no seu território, mas que vende essas substâncias para outros países.

Só que o colonialismo não existe sem a colonialidade. Qual que é a parte da colonialidade? A colonialidade é essa maneira, essa forma como nós nos constituímos como nação, em que há uma pequena, minúscula elite, classe social, que controla a propriedade da terra. 

E isso se perpetuou na América Latina e no Brasil ao longo dos séculos. E o que é que a gente tem hoje? A gente tem um governo, que se propõe progressista, refém de uma estrutura colonialista em que os proprietários de terra, ou os representantes dos proprietários de terra, controlam o país.


Fonte: Brasil de Fato

Contaminação por microplásticos é ampla! Estudo sugere que níveis de contaminação em cérebros humanos podem estar aumentando rapidamente

Pesquisa que analisou tecidos de autópsias entre 1997 e 2024 encontra tendência de aumento na contaminação

Close up de uma ponta de dedo coberta de microplásticos

Microplásticos foram encontrados no cérebro, fígado e rins. Fotografia: Alamy

Por Damian Carrington para o “The Guardian” 

O aumento exponencial da poluição por microplásticos nos últimos 50 anos pode estar refletido no aumento da contaminação no cérebro humano, de acordo com um novo estudo.

Eles encontraram uma tendência crescente de micro e nanoplásticos no tecido cerebral em dezenas de autópsias realizadas entre 1997 e 2024. Os pesquisadores também encontraram as pequenas partículas em amostras de fígado e rim.

O corpo humano é amplamente contaminado por microplásticos. Eles também foram encontrados no sangue , sêmen , leite materno , placentas e medula óssea . O impacto na saúde humana é amplamente desconhecido, mas eles foram associados a derrames e ataques cardíacos .

Os cientistas também descobriram que a concentração de microplásticos era cerca de seis vezes maior em amostras de cérebro de pessoas que tinham demência. No entanto, os danos que a demência causa no cérebro deveriam aumentar as concentrações, disseram os pesquisadores, o que significa que nenhuma ligação causal deve ser assumida.

“Dada a presença ambiental exponencialmente crescente de micro e nanoplásticos, esses dados exigem um esforço muito maior para entender se eles têm um papel em distúrbios neurológicos ou outros efeitos na saúde humana”, disseram os pesquisadores, que foram liderados pelo Prof. Matthew Campen da Universidade do Novo México, nos EUA.

Os microplásticos são decompostos a partir de resíduos plásticos e poluíram o planeta inteiro, do cume do Monte Everest aos oceanos mais profundos . As pessoas consomem as minúsculas partículas por meio de alimentos , água e respirando-as .

Um estudo publicado na quinta-feira descobriu que a poluição plástica minúscula é significativamente maior em placentas de partos prematuros . Outra análise recente descobriu que microplásticos podem bloquear vasos sanguíneos nos cérebros de camundongos, causando danos neurológicos, mas observou que os capilares humanos são muito maiores.

A nova pesquisa, publicada no periódico Nature Medicine , analisou amostras de tecidos cerebrais, hepáticos e renais de 28 pessoas que morreram em 2016 e 24 que morreram em 2024 no Novo México. A concentração de microplásticos era muito maior no tecido cerebral. Também era maior em amostras de cérebro e fígado de 2024, em comparação com aquelas de 2016.

Os cientistas estenderam a análise com amostras de tecido cerebral de pessoas que morreram entre 1997 e 2013 na costa leste dos EUA. Os dados mostraram uma tendência crescente na contaminação por microplásticos de cérebros de 1997 a 2024.

O plástico mais comum encontrado foi o polietileno, que é usado em sacolas plásticas e embalagens de alimentos e bebidas. Ele compôs 75% do plástico total em média. As partículas no cérebro eram principalmente fragmentos e flocos de plástico em nanoescala. As concentrações de plástico nos órgãos não foram influenciadas pela idade da pessoa na morte, ou pela causa da morte, seu sexo ou sua etnia.

Os cientistas observaram que apenas uma amostra de cada órgão foi analisada, o que significa que a variabilidade dentro dos órgãos permanece desconhecida, e que alguma variação nas amostras de cérebro pode ser devido a diferenças geográficas entre o Novo México e a costa leste dos EUA.

“Esses resultados destacam uma necessidade crítica de entender melhor as rotas de exposição, as vias de absorção e eliminação e as potenciais consequências para a saúde dos plásticos nos tecidos humanos, particularmente no cérebro”, disseram os pesquisadores.

A Prof. Tamara Galloway da Universidade de Exeter no Reino Unido, que não fazia parte da equipe do estudo, disse que o aumento de 50% nos níveis de microplásticos cerebrais nos últimos oito anos refletiu a crescente produção e uso de plásticos e foi significativo. “Isso sugere que se reduzíssemos a contaminação ambiental com microplásticos, os níveis de exposição humana também diminuiriam, oferecendo um forte incentivo para focar em inovações que reduzam a exposição”, disse Galloway.

O professor Oliver Jones, da Universidade RMIT, na Austrália, disse que a nova pesquisa era interessante, mas o baixo número de amostras e a dificuldade de analisar pequenas partículas de plástico sem contaminação significam que é preciso ter cuidado ao interpretar os resultados.


Fonte: The Guardian

Estudo encontra contaminação por microplásticos em 99% das amostras de frutos do mar

O  estudo revisto por pares detectou microplásticos em 180 de 182 amostras que incluíam cinco tipos de peixes e camarão rosa

O tipo mais comum de microplástico detectado foram fibras de roupas ou tecidos. Fotografia: GaiBru_Photo/Alamy  

Por Tom Perkins para o “The Guardian”

A contaminação por microplásticos é generalizada em frutos do mar coletados em um estudo recente, aumentando as evidências da onipresença dessas substâncias perigosas no sistema alimentar do país e representando uma ameaça crescente à saúde humana.

O estudo revisado por pares detectou microplásticos em 99%, ou 180 de 182, amostras de frutos do mar comprados na loja ou em um barco de pesca no Oregon. Os níveis mais altos foram encontrados em camarões.

Os pesquisadores também determinaram que o tipo mais comum de microplástico eram fibras de roupas ou tecidos, que representavam mais de 80% da substância detectada.

As descobertas destacam um problema sério com o uso de plástico em sua escala atual, disse Elise Granek, pesquisadora de microplásticos da Universidade Estadual de Portland e coautora do estudo.

“Enquanto usarmos o plástico como um componente importante em nossa vida diária e de forma generalizada, também o veremos em nossos alimentos”, disse Granek.

Microplásticos foram detectados em amostras de água ao redor do mundo, e acredita-se que os alimentos sejam a principal via de exposição: estudos recentes os encontraram em todas as carnes e produtos hortifrutigranjeiros testados.

A poluição por microplásticos pode conter qualquer número de 16.000 produtos químicos plásticos e, frequentemente, está ligada a compostos altamente tóxicos – como PFAS, bisfenol e ftalatos – associados ao câncer, neurotoxicidade, distúrbios hormonais ou toxicidade no desenvolvimento.

A substância pode atravessar as barreiras cerebral e placentária , e aqueles que a têm no tecido cardíaco têm duas vezes mais chances de sofrer um ataque cardíaco ou derrame nos próximos anos.

O estudo coletou amostras de cinco tipos de peixes de barbatana e camarões rosa, e descobriu que os microplásticos podem viajar das guelras ou bocas para a carne que os humanos comem. Granek disse que os pesquisadores suspeitam que os altos níveis em camarões e arenques provavelmente se devem ao fato de eles se alimentarem de plâncton na superfície da água.

O plâncton frequentemente se acumula em frentes oceânicas e se move nas marés da mesma forma que os microplásticos, disse Granek. Lampreias jovens que se alimentam ao redor do leito do rio também mostram níveis mais altos, mas os níveis caíram em lampreias mais velhas que se movem para o oceano.

O salmão Chinook apresentou os níveis mais baixos, embora não tenha sido uma comparação totalmente equivalente — os pesquisadores analisaram apenas os filés, que são em grande parte o que os humanos comem, e verificaram todo o corpo dos peixes menores e camarões.

Os níveis de poluentes são frequentemente mais altos na cadeia alimentar porque animais maiores comem animais menores, e as substâncias se acumulam, um processo chamado biomagnificação. Isso não foi observado aqui, provavelmente porque os peixes menores se alimentam em áreas onde os microplásticos se concentram.

Os níveis de microplástico foram maiores no lingcod comprado na loja, provavelmente porque ele é mais processado do que aquele comprado em um barco. Os níveis foram ligeiramente maiores, mas não estatisticamente significativos, no camarão processado em comparação ao comprado em um barco.

Os autores não recomendam evitar frutos do mar porque microplásticos foram amplamente encontrados em carnes e produtos, então mudar os padrões alimentares não ajudaria. Eles descobriram que enxaguar os frutos do mar poderia reduzir os níveis.

Granek disse que, em nível individual, as máquinas de lavar são uma grande fonte de poluição, então as pessoas podem lavar menos roupas, lavar com água fria e tentar evitar tecidos sintéticos e fast fashion.

Em última análise, a solução precisa vir em nível político, o uso de plástico precisa ser reduzido e filtros que capturem microplásticos devem ser obrigatórios nas máquinas de lavar.

Um projeto de lei para exigir que isso fosse aprovado pela legislatura da Califórnia em 2023, mas foi vetado pelo governador do estado, Gavin Newsom, o que os críticos disseram ter resultado da pressão da indústria. Um projeto de lei semelhante foi introduzido no Oregon.

“Se não quisermos microplásticos em nossos alimentos, teremos que fazer mudanças em nossas práticas cotidianas”, disse Granek.


Fonte: The Guardian

Microplásticos bloqueiam fluxo sanguíneo no cérebro, revela estudo em ratos

Imagens em tempo real mostram como células recheadas de plástico formam aglomerados que afetam o movimento do camundongo

 
Uma micrografia de luz de partículas microplásticas em uma gota de água do mar.

Pequenos pedaços de plástico foram encontrados alojados em vasos sanguíneos no cérebro de camundongos. Crédito: Sinclair Stammers/Science Photo Library

Por Smriti Mallapaty para a Nature

Pela primeira vez, cientistas rastrearam microplásticos se movendo pelos corpos de camundongos em tempo real 1 . As minúsculas partículas de plástico são engolidas por células imunológicas, viajam pela corrente sanguínea e eventualmente se alojam em vasos sanguíneos no cérebro. Não está claro se tais obstruções ocorrem em pessoas, dizem os pesquisadores, mas elas parecem afetar o movimento dos camundongos.

Microplásticos são partículas de plástico , com menos de 5 milímetros de comprimento, que podem ser encontradas em todos os lugares , do oceano profundo ao gelo da Antártida. Eles estão no ar que respiramos, na água que bebemos e na comida que comemos. Eles podem até entrar em nossas correntes sanguíneas diretamente por meio de dispositivos médicos de plástico.

Estudos mostram que microplásticos e nanoplásticos menores chegaram aos cérebros, fígados e rins dos humanos, mas os pesquisadores estão apenas começando a entender o que acontece com esses intrusos plásticos e seus efeitos na saúde humana. Um estudo do ano passado, por exemplo, descobriu que pessoas com micro e nanoplásticos em depósitos de gordura em sua artéria principal tinham mais probabilidade de sofrer um ataque cardíaco , derrame ou morte 2 .

‘Acidente de carro’

No estudo mais recente, publicado na Science Advances hoje, Haipeng Huang, um pesquisador biomédico da Universidade de Pequim, em Pequim, e seus colegas queriam entender melhor como os microplásticos afetam o cérebro. Eles usaram uma técnica de imagem de fluorescência chamada microscopia de dois fótons em miniatura para observar o que estava acontecendo nos cérebros dos camundongos através de uma janela transparente implantada cirurgicamente no crânio do animal.

A técnica de imagem pode rastrear microplásticos conforme eles se movem pela corrente sanguínea, diz Eliane El Hayek, pesquisadora de saúde ambiental na University of New Mexico em Albuquerque. “É muito interessante e muito útil.”

Os pesquisadores deram aos camundongos água misturada com esferas fluorescentes de poliestireno, um produto popular usado para fazer eletrodomésticos, embalagens e até brinquedos. Cerca de três horas depois, células fluorescentes apareceram. Investigações posteriores sugeriram que células imunes conhecidas como neutrófilos e fagócitos ingeriram as partículas de plástico brilhantes. Algumas dessas células provavelmente ficaram presas nas curvas apertadas de pequenos vasos sanguíneos em uma área do cérebro chamada córtex. Mais células embaladas em plástico às vezes se acumulavam — “como um acidente de carro nos vasos sanguíneos”, diz Huang. Algumas obstruções eventualmente desapareceram, mas outras permaneceram durante o período de observação de quatro semanas.

Quando os pesquisadores injetaram as esferas de plástico nos camundongos intravenosamente, eles observaram as células brilhantes em minutos. Partículas menores resultaram em menos obstruções.

Fragmentos desgastados

As obstruções parecem se comportar de forma semelhante a coágulos sanguíneos, dizem os pesquisadores. Eles descobriram que camundongos que receberam microplásticos tiveram fluxo sanguíneo reduzido em seus cérebros e sua mobilidade diminuiu. Os efeitos duraram alguns dias.

Huang diz que ele e seus colegas observaram obstruções semelhantes se formando no coração e no fígado de camundongos, mas os resultados desses estudos ainda não foram publicados.

Algumas das descobertas se alinham com outras pesquisas. Em uma pré-impressão publicada no Research Square no ano passado 3 , El Hayek e seus colegas relataram ter encontrado altas concentrações de pequenos fragmentos de plástico desgastados no tecido cerebral, particularmente nas paredes dos vasos sanguíneos e células imunes, em pessoas que morreram e doaram seus corpos para pesquisa.

O estudo de El Hayek descobriu que o polietileno, outro microplástico comum usado em embalagens, era o plástico mais abundante nesses tecidos. Esperançosamente, a técnica de imagem pode ser usada para estudar como esses plásticos se comportam no corpo, ela diz.

doi: https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.1038/d41586-025-00178-0

Referências

  1. Huang, H. et al. Ciência Adv. 11 , eadr8243 (2025)

    Google Acadêmico 

  2. Marfella, R. et al. N. Engl. J. Med. 390 , 900–910 (2024).

    Artigo PubMed Google Acadêmico 

  3. Campen, M. et al. Pré-impressão na Research Square https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.21203/rs.3.rs-4345687/v1 (2024).


Fonte: Nature

Uso intenso de agrotóxicos provoca crise silenciosa na saúde e meio ambiente no Oeste do Pará

Avanço da soja e do milho expõe populações de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos a problemas de saúde

Os municípios de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos estão entre os dez maiores produtores do estado – Vitor Shimomura/Brasil de Fato

Por Liege Costa para o Brasil de Fato 

oeste do Pará se tornou um dos grandes polos agrícolas do Brasil destacando-se na produção de soja e milho. Os municípios de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos estão entre os dez maiores produtores do estado, mas o uso intenso de agrotóxicos traz consequências.

“A chegada da soja trouxe desenvolvimento econômico para a região, mas a um alto custo”, afirma a Dra. Annelyse Figueiredo, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). “Esses cultivos dependem de agrotóxicos, como o glifosato, que não apenas eliminam ervas daninhas, mas também contaminam o meio ambiente e afetam a saúde humana”, afirmou.

Com o Brasil consolidado como o maior produtor de soja do mundo, a dependência de agrotóxicos cresce, e o glifosato, herbicida amplamente utilizado, torna-se símbolo de um problema que afeta desde o solo até as gerações futuras.

Os números da intoxicação: um alerta para a região

Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinam) revelam, que desde os anos 2000, 92 casos de intoxicação aguda por agrotóxicos foram registrados em Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos ao longo de 24 anos. Belterra lidera as notificações, com 54 casos, enquanto Santarém e Mojuí dos Campos registraram 33 e 5 casos, respectivamente. No entanto, o número pode ser apenas a “ponta do iceberg.

“Esses números podem parecer baixos, mas sabemos que para cada caso registrado, outros 50 ficam fora das estatísticas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Isso significa que o problema é muito maior do que os dados mostram”, alerta Annelyse.

O aumento de casos em Belterra, que passou de 5 notificações em 2018 para 44 em 2023, é motivo de preocupação para especialistas. A situação é ainda mais grave quando se observa que mais de 60% das vítimas são jovens com menos de 19 anos, incluindo crianças e até mesmo bebês.

“Na Escola Municipal Vitalina Mota, localizada ao longo da BR-163, cercada por lavouras de soja, alunos e professores sofrem constantemente com os efeitos da pulverização de agrotóxicos. A exposição gera sintomas imediatos, como náuseas, vômitos e tontura, e frequentemente as aulas precisam ser suspensas”, detalha Annelyse.

Impactos crônicos e subagudos: um legado de doenças

Os impactos do uso de agrotóxicos vão além das intoxicações agudas. Pesquisas apontam para o aumento de casos de câncer, doenças neurológicas e malformações congênitas na região.

“Os agrotóxicos contêm substâncias químicas que podem causar mutações celulares, favorecendo o surgimento de diferentes tipos de câncer, como linfomas, leucemias e tumores de mama e próstata”, explica a Dra. Kalysta Borges, médica oncologista e hematologista do Hospital Regional do Baixo Amazonas, em Santarém.

Ela também alerta para os danos de longo prazo: “a exposição crônica pode levar a alterações hormonais, problemas neurológicos, danos ao fígado e rins, além de aumentar os riscos de doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Isso é especialmente perigoso para populações vulneráveis, como crianças, gestantes e idosos”.

Dados do Sistema Único de saúde (SUS) revelam um aumento de 123% nas mortes por neoplasias em Belterra entre 2000 e 2020. O aumento mais alarmante foi de 667% nas mortes por doenças do sistema nervoso no mesmo período.

“Esse aumento não é coincidência. Estamos falando de uma população exposta a agrotóxicos de forma contínua, muitas vezes sem saber. Esses números indicam um problema muito maior e com consequências que ultrapassam gerações”, reforça Annelyse Figueredo.

A visão das lideranças locais

Para Sileuza Barreto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Mojuí dos Campos, os agrotóxicos representam uma ameaça direta à saúde da população e à agricultura familiar.

“Os relatos de câncer, náuseas, dores de cabeça, alergias e problemas na gravidez são constantes. Já identificamos até glifosato na urina de moradores. Isso é muito grave”, denuncia Sileuza.

Ela também aponta para os impactos no meio ambiente: “a pulverização contamina o solo, a água e até as plantações dos pequenos agricultores. Muitas famílias perderam suas produções porque os agrotóxicos atingiram áreas de agricultura familiar. Isso afeta a alimentação, a renda e a qualidade de vida dessas pessoas”.

Apesar das dificuldades, Sileuza acredita na agroecologia como solução: “estamos fortalecendo a agroecologia nas comunidades. Ela é o caminho para uma produção sustentável e para proteger a saúde das pessoas. Nossa salvação é investir em alternativas que respeitem o meio ambiente”.

Deriva técnica e o alcance invisível dos agrotóxicos

A dispersão de agrotóxicos pelo vento ou pela água, conhecida como deriva técnica, é outro problema grave. Mesmo seguindo normas técnicas, é impossível evitar que os produtos químicos atinjam áreas próximas.

“Escolas, comunidades e corpos d’água estão constantemente expostos. A chuva pode carregar os produtos para igarapés, contaminando a água utilizada para consumo ou irrigação. Isso expõe a população a riscos invisíveis e constantes”, explica Annelyse.

A Dra. Kalysta reforça que a deriva amplia os danos: “Os sintomas de intoxicação crônica podem surgir anos depois, como fadiga constante, doenças autoimunes e, em casos graves, câncer. O consumo de água contaminada ou alimentos expostos ao agrotóxico intensifica esses riscos”.

Caminhos para um futuro sustentável

Especialistas e lideranças destacam a necessidade de ações integradas para enfrentar os impactos dos agrotóxicos: 

– Criação de zonas livres de agrotóxicos: Proteger áreas sensíveis, como escolas, comunidades e corpos d’água; 

– Fiscalização rigorosa: Monitorar o uso de agrotóxicos e proibir pulverizações em locais próximos a populações; 

– Incentivo à agroecologia: Promover práticas agrícolas sustentáveis e fomentar a agricultura orgânica; 

– Conscientização da população: Educar sobre os riscos dos agrotóxicos e os direitos de saúde e proteção ambiental; 

– Melhoria no registro e monitoramento: Criar sistemas públicos para rastrear o uso de agrotóxicos na região.

“Precisamos de políticas públicas eficazes e de um esforço coletivo para proteger a saúde das pessoas e o meio ambiente. Sem isso, as consequências serão devastadoras”, alerta Annelyse.

Sileuza conclui com um apelo: “A agroecologia é a nossa esperança. Não é só sobre produzir alimentos, é sobre garantir que as próximas gerações tenham um futuro”.

Um legado para as futuras gerações

Este é um chamado urgente para que políticas públicas, conscientização coletiva e práticas sustentáveis sejam adotadas em defesa da vida e do meio ambiente no oeste do Pará.

A situação na região reflete os desafios de um modelo agrícola centrado na produção de commodities à custa do meio ambiente e da saúde pública.

“Sem uma mudança estrutural, os impactos do uso de agrotóxicos continuarão a se manifestar por gerações, comprometendo o futuro das crianças, das comunidades e do ecossistema da região”, conclui Annelyse.

* Liege Costa é jornalista da Rede de Notícias da Amazônia.


Fonte: Brasil de Fatos