Liberação de agrotóxicos mostra como governo Lula segue ‘refém’ de estrutura colonialista, diz Larissa Bombardi

Em 2024, Brasil liberou 663 agrotóxicos, 19% a mais do que ano anterior, superando marca alcançada por Bolsonaro

Por Lucas Salum para o “Brasil de Fato” 

Ano passado, o Brasil liberou 663 agrotóxicos. Embora a grande maioria se refira a produtos genéricos de outros agrotóxicos que já estavam aprovados no país, o número ligou sinal de alerta para pesquisadores que acreditavam que a atual gestão federal iria mudar a política de uso de venenos nas lavouras.

“A gente tem um governo, que se propõe progressista, refém de uma estrutura colonialista em que os proprietários de terra, ou os representantes dos proprietários de terra, controlam o país”, resume a pós-doutora em geografia humana Larissa Bombardi, em entrevista ao programa Bem Viver desta quinta-feira (6).

Ela é autora do livro Agrotóxicos e Colonialismo Químico que explica como a América Latina compra e consome produtos extremamente nocivos à saúde humana e ao meio ambiente, ao mesmo tempo que esses agrotóxicos são proibidos nos países de origem, principalmente nações da União Europeia.

“No Brasil, dos dez agrotóxicos mais vendidos, cinco são proibidos na União Europeia. E um deles, que se chama atrazina, que  é o quarto no ranking de vendas no Brasil, foi proibido na União Europeia, justamente, porque ele está dentro dessas substâncias consideradas extremamente tóxicas e ele está associado a diversos tipos de câncer, por exemplo, de ovário, próstata, tireóide, estômago, dentre outras.”

Na entrevista, a pesquisadora explica mais sobre a ligação do câncer com agrotóxicos e como se dá essa relação de colonialismo, que, segundo ela, segue se agravando ano após ano.

Confira a entrevista na íntegra 

Estamos na semana em que marca o Dia Mundial de Combate ao Câncer. Podemos relacionar o enfrentamento à doença com as políticas de agrotóxicos?

Nossa, é essencial conectar esses pontos. 

Tem uma sigla em inglês, HHP [Highly Hazardous Pesticides], que define os agrotóxicos extremamente perigosos. A maior parte desses agrotóxicos está proibida na União Europeia justamente porque eles causam não só uma intoxicação aguda – aquela situação em que a pessoa teve contato com a substância e passou mal, desmaiou, teve vômitos, dores ou coceiras, algo que é muito instantâneo –, mas também existe outro efeito mais invisível, por assim dizer.

São os efeitos crônicos da exposição agrotóxicos. O que é esse efeito? São doenças crônicas, dentre elas, principalmente, o câncer, que as pessoas desenvolvem em função da exposição cotidiana a essas substâncias. 

No Brasil, dos dez agrotóxicos mais vendidos, cinco são proibidos na União Europeia. E um deles, que se chama atrazina, que é o quarto no ranking de vendas no Brasil, foi proibido na União Europeia, justamente porque ele está dentro dessas substâncias consideradas extremamente tóxicas e ele está associado a diversos tipos de câncer, por exemplo, de ovário, próstata, tireóide, estômago, dentre outras.

Obviamente, que os trabalhadores rurais, os camponeses, a população que vive próximo a áreas com cultivo intensivo, estão mais expostas a essas substâncias, mas eu diria que a população como um todo está, por conta dos alimentos que a gente consome.

Essas substâncias estão presentes na alimentação e na água. Então, o glifosato, por exemplo, que é o agrotóxico mais vendido no Brasil, o mais vendido no mundo, foi considerado potencialmente cancerígeno para seres humanos pela Organização Mundial da Saúde há 10 anos, desde 2015. E, no Brasil, o resíduo dessa substância é 5 mil vezes mais permissivo do que aquele permitido na União Europeia.

Mesmo que a pessoa apenas consuma orgânicos, ela segue exposta aos agrotóxicos, certo?

O monitoramento que acontece no Brasil de resíduos de agrotóxicos é muito incipiente. Por exemplo, quando a gente fala de agrotóxicos nos alimentos, a gente tem essa representação na nossa cabeça de que a gente está falando de alimento fresco, frutas, verduras e legumes.

No entanto, a carne não é monitorada, a alimentação infantil não é monitorada, os ultraprocessados não são monitorados, as bebidas não são monitoradas. 

Então, grande parte da nossa alimentação sequer é monitorada. E houve anos em que sequer a soja, que responde por mais da metade do consumo de agrotóxicos no Brasil, também não foi monitorada. 

Realmente é uma violência invisível. É uma violência invisível no campo quando a gente fala dos conflitos fundiários em que essas substâncias têm sido utilizadas como armas químicas para uma  tentativa de expulsão de indígenas, de camponeses, de quilombolas de suas terras.

E ela é também uma, eu diria, uma violência invisível, na isenção de impostos para agrotóxicos. 

Como a senhora avalia a atuação do governo Lula diante deste cenário?

Eu diria que o governo está tímido. Achei muito importante esse pronunciamento dele com relação à comparação que ele fez Brasil e Alemanha, de que não é possível que o Brasil esteja exposto às substâncias que, por exemplo, a Alemanha não está. 

Mas os dados mostram um caminho diferente do que a gente esperava. Por exemplo, o número de novos agrotóxicos aprovados. Isso me remete ao título do meu livro [Agrotóxicos e Colonialismo Químico]. 

Quando a gente fala de colonialismo, obviamente a gente pensa no colonialismo histórico, no momento em que a Europa avançava sobre as terras da América, em que pilhava essas terras, ou seja, em que se apropriava dos recursos naturais por meio de extrema violência,

[Karl] Marx morou aqui em Bruxelas, onde eu vivo, e escreveu o Manifesto Comunista em 1847, 1848. Ou seja, naquele momento, a Europa já estava discutindo questões de trabalho, relações de trabalho, condição do trabalhador.. E a escravização de pessoas era algo impensável naquele momento histórico. 

No entanto, eram as companhias europeias que comercializavam as pessoas escravizadas, que traziam as pessoas da África para outras partes do mundo na condição de escravos. 

Então, aquilo que ela não tolerava para si, estava no auge mundo afora, patrocinado pela própria Europa.

Guardadas as devidas proporções históricas e geográficas, a gente está diante de uma Europa que não tolera algumas substâncias no seu território, mas que vende essas substâncias para outros países.

Só que o colonialismo não existe sem a colonialidade. Qual que é a parte da colonialidade? A colonialidade é essa maneira, essa forma como nós nos constituímos como nação, em que há uma pequena, minúscula elite, classe social, que controla a propriedade da terra. 

E isso se perpetuou na América Latina e no Brasil ao longo dos séculos. E o que é que a gente tem hoje? A gente tem um governo, que se propõe progressista, refém de uma estrutura colonialista em que os proprietários de terra, ou os representantes dos proprietários de terra, controlam o país.


Fonte: Brasil de Fato

Contaminação por microplásticos é ampla! Estudo sugere que níveis de contaminação em cérebros humanos podem estar aumentando rapidamente

Pesquisa que analisou tecidos de autópsias entre 1997 e 2024 encontra tendência de aumento na contaminação

Close up de uma ponta de dedo coberta de microplásticos

Microplásticos foram encontrados no cérebro, fígado e rins. Fotografia: Alamy

Por Damian Carrington para o “The Guardian” 

O aumento exponencial da poluição por microplásticos nos últimos 50 anos pode estar refletido no aumento da contaminação no cérebro humano, de acordo com um novo estudo.

Eles encontraram uma tendência crescente de micro e nanoplásticos no tecido cerebral em dezenas de autópsias realizadas entre 1997 e 2024. Os pesquisadores também encontraram as pequenas partículas em amostras de fígado e rim.

O corpo humano é amplamente contaminado por microplásticos. Eles também foram encontrados no sangue , sêmen , leite materno , placentas e medula óssea . O impacto na saúde humana é amplamente desconhecido, mas eles foram associados a derrames e ataques cardíacos .

Os cientistas também descobriram que a concentração de microplásticos era cerca de seis vezes maior em amostras de cérebro de pessoas que tinham demência. No entanto, os danos que a demência causa no cérebro deveriam aumentar as concentrações, disseram os pesquisadores, o que significa que nenhuma ligação causal deve ser assumida.

“Dada a presença ambiental exponencialmente crescente de micro e nanoplásticos, esses dados exigem um esforço muito maior para entender se eles têm um papel em distúrbios neurológicos ou outros efeitos na saúde humana”, disseram os pesquisadores, que foram liderados pelo Prof. Matthew Campen da Universidade do Novo México, nos EUA.

Os microplásticos são decompostos a partir de resíduos plásticos e poluíram o planeta inteiro, do cume do Monte Everest aos oceanos mais profundos . As pessoas consomem as minúsculas partículas por meio de alimentos , água e respirando-as .

Um estudo publicado na quinta-feira descobriu que a poluição plástica minúscula é significativamente maior em placentas de partos prematuros . Outra análise recente descobriu que microplásticos podem bloquear vasos sanguíneos nos cérebros de camundongos, causando danos neurológicos, mas observou que os capilares humanos são muito maiores.

A nova pesquisa, publicada no periódico Nature Medicine , analisou amostras de tecidos cerebrais, hepáticos e renais de 28 pessoas que morreram em 2016 e 24 que morreram em 2024 no Novo México. A concentração de microplásticos era muito maior no tecido cerebral. Também era maior em amostras de cérebro e fígado de 2024, em comparação com aquelas de 2016.

Os cientistas estenderam a análise com amostras de tecido cerebral de pessoas que morreram entre 1997 e 2013 na costa leste dos EUA. Os dados mostraram uma tendência crescente na contaminação por microplásticos de cérebros de 1997 a 2024.

O plástico mais comum encontrado foi o polietileno, que é usado em sacolas plásticas e embalagens de alimentos e bebidas. Ele compôs 75% do plástico total em média. As partículas no cérebro eram principalmente fragmentos e flocos de plástico em nanoescala. As concentrações de plástico nos órgãos não foram influenciadas pela idade da pessoa na morte, ou pela causa da morte, seu sexo ou sua etnia.

Os cientistas observaram que apenas uma amostra de cada órgão foi analisada, o que significa que a variabilidade dentro dos órgãos permanece desconhecida, e que alguma variação nas amostras de cérebro pode ser devido a diferenças geográficas entre o Novo México e a costa leste dos EUA.

“Esses resultados destacam uma necessidade crítica de entender melhor as rotas de exposição, as vias de absorção e eliminação e as potenciais consequências para a saúde dos plásticos nos tecidos humanos, particularmente no cérebro”, disseram os pesquisadores.

A Prof. Tamara Galloway da Universidade de Exeter no Reino Unido, que não fazia parte da equipe do estudo, disse que o aumento de 50% nos níveis de microplásticos cerebrais nos últimos oito anos refletiu a crescente produção e uso de plásticos e foi significativo. “Isso sugere que se reduzíssemos a contaminação ambiental com microplásticos, os níveis de exposição humana também diminuiriam, oferecendo um forte incentivo para focar em inovações que reduzam a exposição”, disse Galloway.

O professor Oliver Jones, da Universidade RMIT, na Austrália, disse que a nova pesquisa era interessante, mas o baixo número de amostras e a dificuldade de analisar pequenas partículas de plástico sem contaminação significam que é preciso ter cuidado ao interpretar os resultados.


Fonte: The Guardian

Estudo encontra contaminação por microplásticos em 99% das amostras de frutos do mar

O  estudo revisto por pares detectou microplásticos em 180 de 182 amostras que incluíam cinco tipos de peixes e camarão rosa

O tipo mais comum de microplástico detectado foram fibras de roupas ou tecidos. Fotografia: GaiBru_Photo/Alamy  

Por Tom Perkins para o “The Guardian”

A contaminação por microplásticos é generalizada em frutos do mar coletados em um estudo recente, aumentando as evidências da onipresença dessas substâncias perigosas no sistema alimentar do país e representando uma ameaça crescente à saúde humana.

O estudo revisado por pares detectou microplásticos em 99%, ou 180 de 182, amostras de frutos do mar comprados na loja ou em um barco de pesca no Oregon. Os níveis mais altos foram encontrados em camarões.

Os pesquisadores também determinaram que o tipo mais comum de microplástico eram fibras de roupas ou tecidos, que representavam mais de 80% da substância detectada.

As descobertas destacam um problema sério com o uso de plástico em sua escala atual, disse Elise Granek, pesquisadora de microplásticos da Universidade Estadual de Portland e coautora do estudo.

“Enquanto usarmos o plástico como um componente importante em nossa vida diária e de forma generalizada, também o veremos em nossos alimentos”, disse Granek.

Microplásticos foram detectados em amostras de água ao redor do mundo, e acredita-se que os alimentos sejam a principal via de exposição: estudos recentes os encontraram em todas as carnes e produtos hortifrutigranjeiros testados.

A poluição por microplásticos pode conter qualquer número de 16.000 produtos químicos plásticos e, frequentemente, está ligada a compostos altamente tóxicos – como PFAS, bisfenol e ftalatos – associados ao câncer, neurotoxicidade, distúrbios hormonais ou toxicidade no desenvolvimento.

A substância pode atravessar as barreiras cerebral e placentária , e aqueles que a têm no tecido cardíaco têm duas vezes mais chances de sofrer um ataque cardíaco ou derrame nos próximos anos.

O estudo coletou amostras de cinco tipos de peixes de barbatana e camarões rosa, e descobriu que os microplásticos podem viajar das guelras ou bocas para a carne que os humanos comem. Granek disse que os pesquisadores suspeitam que os altos níveis em camarões e arenques provavelmente se devem ao fato de eles se alimentarem de plâncton na superfície da água.

O plâncton frequentemente se acumula em frentes oceânicas e se move nas marés da mesma forma que os microplásticos, disse Granek. Lampreias jovens que se alimentam ao redor do leito do rio também mostram níveis mais altos, mas os níveis caíram em lampreias mais velhas que se movem para o oceano.

O salmão Chinook apresentou os níveis mais baixos, embora não tenha sido uma comparação totalmente equivalente — os pesquisadores analisaram apenas os filés, que são em grande parte o que os humanos comem, e verificaram todo o corpo dos peixes menores e camarões.

Os níveis de poluentes são frequentemente mais altos na cadeia alimentar porque animais maiores comem animais menores, e as substâncias se acumulam, um processo chamado biomagnificação. Isso não foi observado aqui, provavelmente porque os peixes menores se alimentam em áreas onde os microplásticos se concentram.

Os níveis de microplástico foram maiores no lingcod comprado na loja, provavelmente porque ele é mais processado do que aquele comprado em um barco. Os níveis foram ligeiramente maiores, mas não estatisticamente significativos, no camarão processado em comparação ao comprado em um barco.

Os autores não recomendam evitar frutos do mar porque microplásticos foram amplamente encontrados em carnes e produtos, então mudar os padrões alimentares não ajudaria. Eles descobriram que enxaguar os frutos do mar poderia reduzir os níveis.

Granek disse que, em nível individual, as máquinas de lavar são uma grande fonte de poluição, então as pessoas podem lavar menos roupas, lavar com água fria e tentar evitar tecidos sintéticos e fast fashion.

Em última análise, a solução precisa vir em nível político, o uso de plástico precisa ser reduzido e filtros que capturem microplásticos devem ser obrigatórios nas máquinas de lavar.

Um projeto de lei para exigir que isso fosse aprovado pela legislatura da Califórnia em 2023, mas foi vetado pelo governador do estado, Gavin Newsom, o que os críticos disseram ter resultado da pressão da indústria. Um projeto de lei semelhante foi introduzido no Oregon.

“Se não quisermos microplásticos em nossos alimentos, teremos que fazer mudanças em nossas práticas cotidianas”, disse Granek.


Fonte: The Guardian

Microplásticos bloqueiam fluxo sanguíneo no cérebro, revela estudo em ratos

Imagens em tempo real mostram como células recheadas de plástico formam aglomerados que afetam o movimento do camundongo

 
Uma micrografia de luz de partículas microplásticas em uma gota de água do mar.

Pequenos pedaços de plástico foram encontrados alojados em vasos sanguíneos no cérebro de camundongos. Crédito: Sinclair Stammers/Science Photo Library

Por Smriti Mallapaty para a Nature

Pela primeira vez, cientistas rastrearam microplásticos se movendo pelos corpos de camundongos em tempo real 1 . As minúsculas partículas de plástico são engolidas por células imunológicas, viajam pela corrente sanguínea e eventualmente se alojam em vasos sanguíneos no cérebro. Não está claro se tais obstruções ocorrem em pessoas, dizem os pesquisadores, mas elas parecem afetar o movimento dos camundongos.

Microplásticos são partículas de plástico , com menos de 5 milímetros de comprimento, que podem ser encontradas em todos os lugares , do oceano profundo ao gelo da Antártida. Eles estão no ar que respiramos, na água que bebemos e na comida que comemos. Eles podem até entrar em nossas correntes sanguíneas diretamente por meio de dispositivos médicos de plástico.

Estudos mostram que microplásticos e nanoplásticos menores chegaram aos cérebros, fígados e rins dos humanos, mas os pesquisadores estão apenas começando a entender o que acontece com esses intrusos plásticos e seus efeitos na saúde humana. Um estudo do ano passado, por exemplo, descobriu que pessoas com micro e nanoplásticos em depósitos de gordura em sua artéria principal tinham mais probabilidade de sofrer um ataque cardíaco , derrame ou morte 2 .

‘Acidente de carro’

No estudo mais recente, publicado na Science Advances hoje, Haipeng Huang, um pesquisador biomédico da Universidade de Pequim, em Pequim, e seus colegas queriam entender melhor como os microplásticos afetam o cérebro. Eles usaram uma técnica de imagem de fluorescência chamada microscopia de dois fótons em miniatura para observar o que estava acontecendo nos cérebros dos camundongos através de uma janela transparente implantada cirurgicamente no crânio do animal.

A técnica de imagem pode rastrear microplásticos conforme eles se movem pela corrente sanguínea, diz Eliane El Hayek, pesquisadora de saúde ambiental na University of New Mexico em Albuquerque. “É muito interessante e muito útil.”

Os pesquisadores deram aos camundongos água misturada com esferas fluorescentes de poliestireno, um produto popular usado para fazer eletrodomésticos, embalagens e até brinquedos. Cerca de três horas depois, células fluorescentes apareceram. Investigações posteriores sugeriram que células imunes conhecidas como neutrófilos e fagócitos ingeriram as partículas de plástico brilhantes. Algumas dessas células provavelmente ficaram presas nas curvas apertadas de pequenos vasos sanguíneos em uma área do cérebro chamada córtex. Mais células embaladas em plástico às vezes se acumulavam — “como um acidente de carro nos vasos sanguíneos”, diz Huang. Algumas obstruções eventualmente desapareceram, mas outras permaneceram durante o período de observação de quatro semanas.

Quando os pesquisadores injetaram as esferas de plástico nos camundongos intravenosamente, eles observaram as células brilhantes em minutos. Partículas menores resultaram em menos obstruções.

Fragmentos desgastados

As obstruções parecem se comportar de forma semelhante a coágulos sanguíneos, dizem os pesquisadores. Eles descobriram que camundongos que receberam microplásticos tiveram fluxo sanguíneo reduzido em seus cérebros e sua mobilidade diminuiu. Os efeitos duraram alguns dias.

Huang diz que ele e seus colegas observaram obstruções semelhantes se formando no coração e no fígado de camundongos, mas os resultados desses estudos ainda não foram publicados.

Algumas das descobertas se alinham com outras pesquisas. Em uma pré-impressão publicada no Research Square no ano passado 3 , El Hayek e seus colegas relataram ter encontrado altas concentrações de pequenos fragmentos de plástico desgastados no tecido cerebral, particularmente nas paredes dos vasos sanguíneos e células imunes, em pessoas que morreram e doaram seus corpos para pesquisa.

O estudo de El Hayek descobriu que o polietileno, outro microplástico comum usado em embalagens, era o plástico mais abundante nesses tecidos. Esperançosamente, a técnica de imagem pode ser usada para estudar como esses plásticos se comportam no corpo, ela diz.

doi: https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.1038/d41586-025-00178-0

Referências

  1. Huang, H. et al. Ciência Adv. 11 , eadr8243 (2025)

    Google Acadêmico 

  2. Marfella, R. et al. N. Engl. J. Med. 390 , 900–910 (2024).

    Artigo PubMed Google Acadêmico 

  3. Campen, M. et al. Pré-impressão na Research Square https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.21203/rs.3.rs-4345687/v1 (2024).


Fonte: Nature

Uso intenso de agrotóxicos provoca crise silenciosa na saúde e meio ambiente no Oeste do Pará

Avanço da soja e do milho expõe populações de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos a problemas de saúde

Os municípios de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos estão entre os dez maiores produtores do estado – Vitor Shimomura/Brasil de Fato

Por Liege Costa para o Brasil de Fato 

oeste do Pará se tornou um dos grandes polos agrícolas do Brasil destacando-se na produção de soja e milho. Os municípios de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos estão entre os dez maiores produtores do estado, mas o uso intenso de agrotóxicos traz consequências.

“A chegada da soja trouxe desenvolvimento econômico para a região, mas a um alto custo”, afirma a Dra. Annelyse Figueiredo, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). “Esses cultivos dependem de agrotóxicos, como o glifosato, que não apenas eliminam ervas daninhas, mas também contaminam o meio ambiente e afetam a saúde humana”, afirmou.

Com o Brasil consolidado como o maior produtor de soja do mundo, a dependência de agrotóxicos cresce, e o glifosato, herbicida amplamente utilizado, torna-se símbolo de um problema que afeta desde o solo até as gerações futuras.

Os números da intoxicação: um alerta para a região

Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinam) revelam, que desde os anos 2000, 92 casos de intoxicação aguda por agrotóxicos foram registrados em Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos ao longo de 24 anos. Belterra lidera as notificações, com 54 casos, enquanto Santarém e Mojuí dos Campos registraram 33 e 5 casos, respectivamente. No entanto, o número pode ser apenas a “ponta do iceberg.

“Esses números podem parecer baixos, mas sabemos que para cada caso registrado, outros 50 ficam fora das estatísticas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Isso significa que o problema é muito maior do que os dados mostram”, alerta Annelyse.

O aumento de casos em Belterra, que passou de 5 notificações em 2018 para 44 em 2023, é motivo de preocupação para especialistas. A situação é ainda mais grave quando se observa que mais de 60% das vítimas são jovens com menos de 19 anos, incluindo crianças e até mesmo bebês.

“Na Escola Municipal Vitalina Mota, localizada ao longo da BR-163, cercada por lavouras de soja, alunos e professores sofrem constantemente com os efeitos da pulverização de agrotóxicos. A exposição gera sintomas imediatos, como náuseas, vômitos e tontura, e frequentemente as aulas precisam ser suspensas”, detalha Annelyse.

Impactos crônicos e subagudos: um legado de doenças

Os impactos do uso de agrotóxicos vão além das intoxicações agudas. Pesquisas apontam para o aumento de casos de câncer, doenças neurológicas e malformações congênitas na região.

“Os agrotóxicos contêm substâncias químicas que podem causar mutações celulares, favorecendo o surgimento de diferentes tipos de câncer, como linfomas, leucemias e tumores de mama e próstata”, explica a Dra. Kalysta Borges, médica oncologista e hematologista do Hospital Regional do Baixo Amazonas, em Santarém.

Ela também alerta para os danos de longo prazo: “a exposição crônica pode levar a alterações hormonais, problemas neurológicos, danos ao fígado e rins, além de aumentar os riscos de doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Isso é especialmente perigoso para populações vulneráveis, como crianças, gestantes e idosos”.

Dados do Sistema Único de saúde (SUS) revelam um aumento de 123% nas mortes por neoplasias em Belterra entre 2000 e 2020. O aumento mais alarmante foi de 667% nas mortes por doenças do sistema nervoso no mesmo período.

“Esse aumento não é coincidência. Estamos falando de uma população exposta a agrotóxicos de forma contínua, muitas vezes sem saber. Esses números indicam um problema muito maior e com consequências que ultrapassam gerações”, reforça Annelyse Figueredo.

A visão das lideranças locais

Para Sileuza Barreto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Mojuí dos Campos, os agrotóxicos representam uma ameaça direta à saúde da população e à agricultura familiar.

“Os relatos de câncer, náuseas, dores de cabeça, alergias e problemas na gravidez são constantes. Já identificamos até glifosato na urina de moradores. Isso é muito grave”, denuncia Sileuza.

Ela também aponta para os impactos no meio ambiente: “a pulverização contamina o solo, a água e até as plantações dos pequenos agricultores. Muitas famílias perderam suas produções porque os agrotóxicos atingiram áreas de agricultura familiar. Isso afeta a alimentação, a renda e a qualidade de vida dessas pessoas”.

Apesar das dificuldades, Sileuza acredita na agroecologia como solução: “estamos fortalecendo a agroecologia nas comunidades. Ela é o caminho para uma produção sustentável e para proteger a saúde das pessoas. Nossa salvação é investir em alternativas que respeitem o meio ambiente”.

Deriva técnica e o alcance invisível dos agrotóxicos

A dispersão de agrotóxicos pelo vento ou pela água, conhecida como deriva técnica, é outro problema grave. Mesmo seguindo normas técnicas, é impossível evitar que os produtos químicos atinjam áreas próximas.

“Escolas, comunidades e corpos d’água estão constantemente expostos. A chuva pode carregar os produtos para igarapés, contaminando a água utilizada para consumo ou irrigação. Isso expõe a população a riscos invisíveis e constantes”, explica Annelyse.

A Dra. Kalysta reforça que a deriva amplia os danos: “Os sintomas de intoxicação crônica podem surgir anos depois, como fadiga constante, doenças autoimunes e, em casos graves, câncer. O consumo de água contaminada ou alimentos expostos ao agrotóxico intensifica esses riscos”.

Caminhos para um futuro sustentável

Especialistas e lideranças destacam a necessidade de ações integradas para enfrentar os impactos dos agrotóxicos: 

– Criação de zonas livres de agrotóxicos: Proteger áreas sensíveis, como escolas, comunidades e corpos d’água; 

– Fiscalização rigorosa: Monitorar o uso de agrotóxicos e proibir pulverizações em locais próximos a populações; 

– Incentivo à agroecologia: Promover práticas agrícolas sustentáveis e fomentar a agricultura orgânica; 

– Conscientização da população: Educar sobre os riscos dos agrotóxicos e os direitos de saúde e proteção ambiental; 

– Melhoria no registro e monitoramento: Criar sistemas públicos para rastrear o uso de agrotóxicos na região.

“Precisamos de políticas públicas eficazes e de um esforço coletivo para proteger a saúde das pessoas e o meio ambiente. Sem isso, as consequências serão devastadoras”, alerta Annelyse.

Sileuza conclui com um apelo: “A agroecologia é a nossa esperança. Não é só sobre produzir alimentos, é sobre garantir que as próximas gerações tenham um futuro”.

Um legado para as futuras gerações

Este é um chamado urgente para que políticas públicas, conscientização coletiva e práticas sustentáveis sejam adotadas em defesa da vida e do meio ambiente no oeste do Pará.

A situação na região reflete os desafios de um modelo agrícola centrado na produção de commodities à custa do meio ambiente e da saúde pública.

“Sem uma mudança estrutural, os impactos do uso de agrotóxicos continuarão a se manifestar por gerações, comprometendo o futuro das crianças, das comunidades e do ecossistema da região”, conclui Annelyse.

* Liege Costa é jornalista da Rede de Notícias da Amazônia.


Fonte: Brasil de Fatos

O tsunami de venenos continua: governo Lula liberou mais 73 agrotóxicos no primeiro dia útil de 2025

Celebrada neste 11 de janeiro, data foi instituída em 1990; ministério aprovou, ao todo, 77 insumos agrícolas em janeiro

agrotóxicos BSB
 
Protesto contra as mudanças na lei de agrotóxicos, em outubro de 2023, em Brasília. – Evaristo Sá/AFP
 
Por Leonardo Fernandes para o Brasil de Fato

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) começou 2025 com a liberação de 73 novos insumos para uso agrícola, entre os quais, 44 de formulação química, os agrotóxicos, e outros 29 de origem biológica, os chamados bioinsumos. O Ato nº 63, de 30 de dezembro de 2024 foi publicado no Diário Oficial da União (DOU) no dia 2 de janeiro, assinado por José Victor Torres Alves Costa, coordenador-geral de agrotóxicos e afins do Mapa. A medida vai na contramão da luta estabelecida pelo Dia do Combate à Poluição por Agrotóxicos. Celebrada neste 11 de janeiro, a data foi instituída em 1990, por decreto presidencial.

A liberação dos produtos envolve três órgãos da administração federal: Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Mapa. À Anvisa compete fazer a classificação toxicológica, enquanto o Ibama monitora o potencial de periculosidade ambiental. Já ao Mapa cabe coordenar o processo, avaliar a viabilidade de uso na agricultura e decidir sobre a liberação do produto.  

Quanto ao nível de toxicidade para humanos, 42 produtos receberam a “Categoria 5 – Improvável de Causar Dano Agudo”, outros 12 receberam a “Categoria 4 – Pouco Tóxico” e cinco foram classificados como “Moderadamente Tóxico”, na categoria 3. Um produto recebeu a “Categoria 2 – Altamente Tóxico” e outro a “Categoria 1 – Extremamente Tóxico”. Sete produtos não receberam classificação toxicológica da Anvisa.  

Sobre o potencial de danos ao meio ambiente, 31 produtos receberam a “Classe IV – Pouco Perigoso ao Meio Ambiente”, outros 11 receberam a “Classe III – Perigoso ao Meio Ambiente”, 28 ficaram na “Classe II – Muito Perigoso ao Meio Ambiente”, e dois integraram a “Classe I – Altamente Perigoso ao Meio Ambiente”. 

 


Quantidade dos produtos liberados pelo Mapa no Ato Normativo nº 63 e suas classificações de periculosidade ambiental e toxicidade/Fonte: Ministério da Agricultura 

O inseticida Clorpirifós SM 480, com uso indicado para culturas de algodão, batata, café, citros, feijão, milho, soja, tomate rasteiro e trigo, é o produto que recebeu Categoria 2, como altamente tóxico, e Classe II, ou seja, muito perigoso ao meio ambiente. Estudos indicam que a contaminação por esse produto pode provocar distúrbios hormonais e problemas neurológicos irreversíveis, como diminuição de até 2,5 pontos de QI (Quociente de Inteligência) de crianças. Por conta disso, esse agrotóxico já foi banido em diversos países da União Europeia e nos Estados Unidos.  

O Ácido Diclorofenoxiacético (2,4-D ACID 866 SL) é um herbicida desenvolvido em 1940, indicado pelo Mapa para uso nas culturas de cana-de-açúcar, milho, soja e trigo. Ele é conhecido por ter sido usado como arma química na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã (1959-1975). Esse produto recebeu a Categoria 1 na classificação da Anvisa, como “extremamente tóxico”, e Classe III, segundo a classificação do Ibama, como “produto perigoso ao meio ambiente”. O agrotóxico está entre os produtos que foram derramados no Rio Tocantins após a queda da Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, que conectava os municípios de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), em 22 de dezembro do ano passado.

Também há liberação de novos produtos à base de glifosato, herbicida que diversas pesquisas apontam ter relação com incidência de cânceres, e que tem seu uso banido em alguns países europeus. No Brasil, em 2019, a publicação de um ato normativo pela Anvisa estabeleceu a reclassificação desse produto, que deixou de ser considerado “extremamente tóxico”, e foi classificado como “improvável de causar dano agudo”, no mais recente ato do Mapa. Segundo o documento do ministério, ele é indicado para uso em cultivos de algodão, arroz, café, cana-de-açúcar, citros, eucalipto, milho, pastagens, pinus, soja, trigo e uva.

Um estudo do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), intitulado Tem veneno nesse pacote, teve o segundo volume publicado em 2022, com foco nos alimentos de origem animal. Segundo o instituto, no Brasil, 63% dos agrotóxicos usados vão para a cultura da soja e quase 77% da soja produzida no mundo é usada para alimentação de animais para consumo humano, o que justificou o recorte. Dos 24 produtos analisados, 14 apresentaram resíduos de agrotóxicos, e o glifosato foi o que mais apareceu nas amostras estudadas, estando presente em nove dos 24 produtos. 

Larissa Bombardi, professora licenciada do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Laboratório de Agroecologia da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, lamenta as novas liberações, que vão na direção contrária do conhecimento acumulado em torno ao tema. “A gente já sabe, não se pode nem argumentar inocência, ignorância, ingenuidade, não. A gente sabe que novos casos serão gerados, que isso vai se multiplicar. É escolher o caminho da tragédia.”    

A pesquisadora é autora do livro Agrotóxicos e colonialismo químico, que trata do fenômeno da colonialidade do modelo agrário brasileiro que, segundo ela, é uma “das faces da construção socioterritorial do Brasil”, baseada na apropriação e concentração da terra. “A verdade é que ninguém jamais governou no Brasil sem estar atrelado de alguma forma com essa elite agrária que controla o país há 500 anos, antes de que o Brasil fosse Brasil”, destaca. “Os agrotóxicos são uma face de tantos outros elementos ambientais e de direitos humanos”, completa Bombardi.   


Larissa Bombardi, professora licenciada do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Laboratório de Agroecologia da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica  / Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Mapa ignora orientação do próprio governo 

“Não é possível que 80% dos agrotóxicos proibidos na Alemanha possam ser vendidos aqui no Brasil, como se a gente fosse uma republiqueta de bananas”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em reunião com os chefes dos Três Poderes, em setembro de 2024.  

Sobre esse aspecto, Bombardi recorre à história para novamente afirmar o princípio da colonialidade expresso no caso dos agrotóxicos banidos em países europeus. “Em 1848, Marx estava aqui na Bélgica, em Bruxelas, escrevendo o Manifesto Comunista. A Europa estava num momento de discutir as relações de trabalho. No entanto, companhias europeias comercializavam pessoas escravizadas. Que era algo impensável naquele momento na Europa. No entanto, as empresas lucravam com isso. E eu penso que é um paralelo feliz para entender esse momento e essa relação contraditória, colonial, que a gente continua reproduzindo, porque a União Europeia tem a regulação mais restritiva do mundo. Só que o bloco continua exportando substâncias que eles não toleram aqui.”   

Segundo estudo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o país segue permitindo o uso de 195 agrotóxicos banidos, entre eles Mancozebe, Clorotalonil, Atrazina, Acefato, Clorpirifós, Imidacloprido, Carbendazim, Dibrometo de diquate, Metomil e Diurom.   

O presidente da República anunciou ainda que vai convocar reuniões com lideranças dos partidos, representantes da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), empresários e membros da bancada ruralista no Congresso para discutir uma proposta que vise reduzir o uso de insumos químicos na agricultura brasileira. No entanto, o Ministério da Agricultura parece jogar contra a orientação do chefe do governo.

José Victor Torres Alves Costa, coordenador-geral de agrotóxicos e afins do Mapa, que assinou o ato de liberação dos novos produtos, já expôs, em outros espaços, firme posição em defesa do uso desses agrotóxicos e contrário a qualquer modificação na política de liberação, que mais que facilitar o uso desses produtos na agricultura brasileira, o incentiva.  

Em 5 de novembro, em audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a constitucionalidade da isenção fiscal aos agrotóxicos, o servidor do Mapa contrariou seus colegas de outros ministérios do governo presentes, naturalizando o modelo agrícola baseado no uso de insumos químicos. “O produtor rural só tem uma decisão a tomar: usar esse insumo ou não, sob pena de redução da capacidade produtiva de alimentos daquele sistema de cultivo”, argumentou.

Um relatório da Receita Federal apontou que somente as empresas que participam do mercado dos agrotóxicos ganharam mais de R$ 21 bilhões em renúncia fiscal no primeiro semestre deste ano. Sobre esse aspecto, Bombardi recorre novamente à teoria marxista, e afirma que o sistema de isenções atual segue os padrões dos tempos da chegada das caravelas portuguesas a solo americano.

“Toda vez que a gente tem uma isenção fiscal, que uma empresa é beneficiada com uma isenção fiscal, quer dizer que é o governo, a população como um todo, deixou de atender o bem comum para atender o interesse privado. Então o Brasil está reproduzindo uma lógica da acumulação primitiva em favor dessas grandes empresas, oligopolistas internacionais. A gente está dando de graça e, o mais cruel disso tudo, é que a gente está falando de substâncias que afetam o meio ambiente, a saúde humana. É a mesma coisa que as caravelas chegando e roubando ouro, saqueando a natureza etc. É um saque”, argumenta a pesquisadora.   

Em outra audiência pública, dessa vez na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, no dia 25 de novembro, que tratou da proibição dos agrotóxicos do tipo neonicotinoides, altamente nocivos a insetos polinizadores, o servidor do governo chegou a mencionar supostos estudos nos quais se demonstra que os insumos alternativos a esses produtos seriam mais prejudiciais ao ser humano.

Questionado pela representante do Ibama sobre tais estudos, o representante do Mapa recuou, afirmando que as informações haviam sido prestadas pelos “próprios produtores”. O representante do Ministério da Agricultura defendeu o uso de agentes químicos na agricultura brasileira, sob o argumento de que sua proibição poderia ter impacto econômico aos produtores e à economia.


José Victor Torres Alves Costa, coordenador-geral de agrotóxicos e afins do Mapa, assinou o ato de liberação dos novos produtos  / Vinícius Loures/Câmara dos Deputados

Apesar do esforço do Mapa na defesa do modelo agrícola baseado no uso de agrotóxicos, após sete anos de crescimento contínuo, 2023 registrou uma queda de 15% em relação a 2022 na liberação de novos produtos, passando de 652 para 555 no primeiro ano do atual governo, números ainda considerados altos pelos ativistas.  

Mudanças na lei deu superpoderes ao Mapa 

“O ritmo está acelerado, como se fosse mesmo um cartório que só vai passando e carimbando. Nenhuma possibilidade de reversão à vista”, avalia Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Ele explica que a metodologia para a avaliação e autorização do uso desses produtos foi alterada pela lei dos agrotóxicos (Lei nº 14.785), aprovada em dezembro de 2023 pelo Congresso Nacional e sancionada com vetos pelo presidente Lula.    

“Pela lei antiga, primeiro se decidia se o produto entrava nos critérios proibitivos da lei antiga, como incidência de câncer, mutagênese, teratogênese, desregulação endócrina. Se não entrasse nesses critérios, aí era aprovado e recebia uma das classes que existem. A classificação toxicológica, que é feita pela Anvisa, e ambiental, feita pelo Ibama, é sobre produtos que já foram aprovados para uso. Ou seja, não importa se um produto for altamente tóxico ou muito perigoso, isso só vai impactar nas restrições de uso”, explica. “Pela nova lei, Anvisa e Ibama são consultados, mas perdem o poder de veto. Então, em tese, mesmo que o Ibama dissesse que não pode, o Mapa poderia autorizar”, finaliza. 

O alerta sobre as modificações no processo de aprovação dos agrotóxicos na nova lei, aprovada em 2023, já havia sido objeto de uma nota técnica da Abrasco, enquanto o projeto ainda tramitava no Congresso Nacional.

“Outra alteração preocupante, é facilitar o registro de agrotóxicos mutagênicos, cancerígenos, teratogênicos, desreguladores hormonais e tóxicos para o sistema reprodutivo. Na lei de 1989, hora substituída pelo PL 1.459/22, esses agrotóxicos perigosos eram proibidos na primeira etapa da ‘avaliação do risco’. Neste cenário, os agrotóxicos cancerígenos, tóxicos para o sistema reprodutivo poderão seguir o processo de ‘avaliação de risco’, que estabelece níveis permissíveis (níveis aceitáveis) de exposição”, diz o documento. 

Tamara Andrade, especialista em regulação do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec, critica a concentração de poderes em um único órgão federal sobre um tema que afeta diretamente a saúde da população e o meio ambiente. Segundo ela, isso torna as decisões sobre liberações desses produtos mais permeável aos interesses de um mercado.   

“Até que o Pacote do Veneno fosse aprovado e entrasse em vigor, o atendimento às diretrizes e exigências dos órgãos federais da agricultura, da saúde e do meio ambiente era condição obrigatória para liberar determinado agrotóxico. A nova lei retirou da Anvisa e do Ibama qualquer ingerência sobre a decisão de conceder ou não o registro de agrotóxicos. Na prática, é exclusivamente o Mapa que detém o poder de aprovar ou não agrotóxicos no Brasil”, avalia Andrade.   

Em nota, o Ibama afirmou que “não há qualquer flexibilização quanto ao rigor técnico empregado nas análises realizadas” pelo instituto, que “tem empenhado esforços significativos para aprimorar a sua avaliação ambiental adaptada à realidade brasileira e em linha com as melhores práticas regulatórias internacionais”. 

“Essa avaliação é feita de modo a impedir que produtos dotados de características proibitivas sejam produzidos, importados, exportados, comercializados e utilizados no Brasil, e a fim de contribuir para a utilização mais segura e com menor impacto ao meio ambiente e a organismos da fauna e flora”, diz o comunicado. 

O Ibama minimizou o alto número de produtos liberados nos últimos anos, e informou que apenas 38% dos produtos que tiveram o registro aprovado em 2023 foram de fato produzidos ou comercializados. “Isso acontece porque a grande maioria dos produtos registrados no Brasil são genéricos ou idênticos a outros já lançados no mercado, com a diferença apenas de uma marca comercial nova”, conclui a nota. 

Já a Anvisa, afirmou em nota que a concessão de registro desses produtos, que não tem prazo de validade, prevê a reanálise, sempre quando há uma indicação de perigo ou risco à saúde humana, ao meio ambiente, ou mesmo pela ineficácia na utilização. “A reanálise é o processo no qual a Anvisa revisa os parâmetros de segurança para a saúde humana de um determinado ingrediente ativo e dos agrotóxicos registrados, podendo culminar na manutenção de um produto no mercado, na imposição de restrições específicas ou o seu banimento”, afirma o órgão, que informou ainda que desde 2006, a agência finalizou 20 reavaliações de ingredientes ativos de agrotóxicos.

Segundo a Anvisa, como resultados dessas reavaliações, foram proibidos 13 ingredientes ativos de agrotóxicos, sendo eles, o carbendazim, cihexatina, carbofurano, endossilfam, forato, lindano, metamidifós, monocrotofós, paraquate, parationa metílica, pentaclorofenol, procloraz e triclorfom. Para outros seis ingredientes ativos reavaliados, ainda que os registros tenham sido mantidos, foram estabelecidas restrições com o objetivo de mitigar os riscos identificados, a saber, o 2,4-D, abamectina, acefato, forsmete, glifosato e tiram.

Sobre os agentes mencionados na reportagem, a Anvisa infromou que ambos foram indicados para reavaliação. “O 2,4-D teve sua reavaliação concluída em 2019 e o clorpirifós está presente na lista de agrotóxicos prioritários indicados para reavaliação publicada em 2019, ocupando a 5º posição”, diz o comunicado. “A reavaliação do ingrediente ativo 2,4-D foi concluída por meio da Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 284, de 21 de maio de 2019, com indicação de manutenção no registro, com restrições. As restrições incluem a observação de intervalos de reentrada para determinadas atividades, exigência de área de bordadura, exigência de tecnologias de redução de deriva, entre outras”, explica a Anvisa.

Programa de redução de agrotóxicos segue travado 

Em 2024, o Brasil de Fato noticiou sucessivos adiamentos de lançamento do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo), devido à recusa do Ministério da Agricultura em aderir ao Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara). O Planapo foi lançado em outubro, apenas com menção ao Pronara, e com a promessa de que o programa seria lançado até dezembro, o que ainda não aconteceu.

O atraso foi tema de análise pela organização internacional Humans Rights Watch (Observatório dos Direitos Humanos, em tradução livre), divulgada no último dia 3. O texto, assinado por Julia Bleckner, pesquisadora sênior da iniciativa de saúde global da entidade, alerta que o avanço no tema é urgente, já que o Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo.  

“O Pronara, previsto em 2013 e nunca implementado, é mecanismo fundamental para o alcance desses objetivos. Diante das falas do presidente sobre a necessidade de reduzir o uso de agrotóxicos, movimentos sociais viram no Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro e, posteriormente, no Dia Mundial de Luta contra os Agrotóxicos, 3 de dezembro, oportunidades para a assinatura do decreto. Estas datas simbólicas passaram sem que o governo federal tomasse medidas efetivas na direção da agricultura sustentável”, afirma Andrade.  

Fontes do Planalto confirmam que o governo trabalha para lançar o Pronara no primeiro semestre de 2025. Para a especialista do Idec, a postura do governo em relação aos agrotóxicos é contraditória com as prioridades definidas pelo presidente da República. 

“Uma das prioridades de Lula é a erradicação da fome e a promoção da alimentação adequada e saudável. Acontece que é impossível garantir alimentação adequada e saudável quando se permite que os alimentos disponíveis estejam cheios de agrotóxicos, em quantidade e composição sabidamente prejudiciais à saúde. Isso se torna ainda mais grave quando as pessoas não têm acesso a informações disponíveis e confiáveis”, finaliza Andrade. 

Panorama do envenenamento coletivo 

Segundo estudo da Abrasco publicado em 2023, “o Brasil consome a maior quantidade de agrotóxicos do mundo por hectare plantado”, e o número vem crescendo nos últimos anos, tendo aumentado em torno de 45% entre 2013 e 2021.  

“O consumo mundial de agrotóxicos em 2020 foi de 2.661.124 toneladas, desse total, somente no Brasil foram utilizadas 685.745,68 toneladas, o que representa cerca de ¼ do consumo dos agrotóxicos utilizados no mundo todo”, diz nota técnica da associação, que alerta ainda para os efeitos dessa realidade na saúde da população.  

“Investigações evidenciam que os agrotóxicos são responsáveis diretos por cerca de 200 mil mortes a cada ano. A maioria dessas mortes ocorreram em países periféricos, vulneráveis e com sistemas reguladores e de saúde fracos no sentido da proteção da saúde frente às exposições a tais substâncias perigosas”, diz o texto. 

“A intensificação do uso de agrotóxicos no Brasil e a adoção do modelo agroindustrial de transgênicos associados ao consumo de agrotóxicos, especialmente de glifosato e 2,4 D, agravou sua situação sanitária e ambiental. O Brasil está mal monitorado pelas políticas públicas por força do lobby do agronegócio sobre os poderes executivo, legislativo e judiciário, que muito investe na desregulação e no desmonte do arcabouço legal e institucional estruturado no Estado brasileiro após a promulgação de sua Constituição Federal de 1988”, diz a nota. 

Ainda segundo estudo da Abrasco, para cada US$ 1 gasto com a compra de agrotóxicos, são gastos US$ 1,28 no Sistema Único de Saúde (SUS) apenas com tratamentos de intoxicações agudas, sem levar em conta o alto nível de subnotificação dos casos. O cálculo também desconsidera os gastos em doenças crônicas, “aquelas que aparecem com o passar do tempo devido à exposição constante aos pesticidas, como o câncer”. 

“No fim das contas, o SUS não é quem arca com esses grandes custos das doenças crônicas. Então, obviamente que quando a gente fala de uma ampliação no número de substâncias utilizadas, quando a gente fala na autorização de substâncias, que estão sendo questionadas no mundo todo, que já foi é confirmado pela Organização Mundial da Saúde que algumas delas são cancerígenas, obviamente que a gente está impondo um quadro grave para a população de uma forma criminosa”, afirma Bombardi.     

Brasil de Fato procurou o Mapa para se manifestar, mas não obteve retorno a tempo da publicação desta reportagem.  

Edição: Martina Medina


Fonte: Brasil de Fato

Drones do veneno: equipamento responde por 94% das contaminações por agrotóxicos no Maranhão

Comunidades rurais afirmam que os drones são usados como ferramenta de perseguição e ataques contra pequenos produtores; especialistas alertam para aumento de casos e falta de fiscalização

drones do veneno

Por Hélen Freitas/ Edição Diego Junqueira para a Repórter Brasil 

“Tanto o drone quanto o avião, toda a volta que faz, passa por cima do lote e da plantação, para você perder a produção e seus animais morrerem”, conta uma agricultora de Açailândia, polo de produção de soja no Maranhão. “Fazem isso para nos forçar a deixar a terra.” 

Comunidades rurais do Maranhão afirmam que drones estão sendo utilizados como instrumento de intimidação e de expulsão de agricultores familiares. As denúncias, porém, não são investigadas, segundo advogados que acompanham os casos.

Dados inéditos obtidos pela Repórter Brasil mostram que 228 comunidades em 35 municípios do estado denunciaram contaminação por agrotóxicos entre janeiro e outubro de 2024. Do total, 214 casos (94%) correspondem a ataques por drones. 

Os dados foram coletados pela Fetaema (Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Maranhão), pela Rama (Rede de Agroecologia do Maranhão) e pelo Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia da Universidade Federal do Maranhão. 

As queixas vão desde intoxicações humanas até prejuízos ambientais, como o envenenamento de rios e a morte de animais.

“Se você não estiver prestando atenção, às vezes você nem percebe, a não ser pelo cheiro, que é mais forte porque o drone voa mais baixo [do que os aviões agrícolas]”, afirma a trabalhadora rural de Açailândia, que pede para não ser identificada por temer represálias. 

A cerca de 600 km da capital São Luís, Açailândia tem se consolidado como grande produtor de soja. Em 2024, sediou a “Abertura Nacional do Plantio da Soja 2024/2025”, que ocorreu pela primeira vez no estado, reunindo produtores e autoridades, como o governador Carlos Brandão (PSB). “Queremos informar aos produtores rurais de outros estados que, no Maranhão, eles têm como plantar e colher com apoio do governo”, afirmou o mandatário no evento.

Para a trabalhadora, contudo, a expansão da soja não é sinônimo de progresso. A cada ano que passa, ela diz que mais lotes da reforma agrária são repassados para a monocultura. Quem fica é vigiado e ameaçado de morte e expulsão, principalmente com o uso dos drones, ela diz.

Governador Carlos Brandão (PSD) comemora a abertura da safra da soja em Açailândia, município que vem denunciando ataques pela pulverização de agrotóxicos (Foto: Brunno Carvalho/Divulgação
Governador Carlos Brandão (PSD) comemora a abertura da safra da soja em Açailândia, município que vem denunciando ataques pela pulverização de agrotóxicos (Foto: Brunno Carvalho/Divulgação)

Em São Mateus (MA), município conhecido como a “capital do arroz”, relatos apontam que aviões e drones despejam agrotóxicos nas proximidades de moradias e pequenas plantações. “Eles usam essa estratégia justamente para expulsar as pessoas”, conta outra agricultora, que também não será identificada. “Lá onde eu moro era um lugar de muito peixe, mas com essa pulverização hoje não existe mais“, continua.

Com o crescimento das denúncias, movimentos populares e legisladores locais têm se mobilizado para criar mecanismos de proteção. Nove municípios maranhenses já aprovaram leis que proíbem a pulverização aérea. Além disso, a Rama e organizações ligadas à igreja católica iniciaram uma campanha em abril passado para a criação de um projeto de lei estadual de iniciativa popular contra a prática. 

A reação foi rápida. Um mês depois, um projeto de lei para permitir a pulverização aérea no estado foi protocolado na assembleia legislativa do Maranhão. “Não foi coincidência, foi reação às denúncias”, afirma Diogo Cabral, advogado da Fetaema.

Porém, mesmo que o projeto estadual seja aprovado, continuarão valendo as leis municipais, que são mais restritivas, afirma Cabral. Ele explica que essas normas locais seguem o entendimento do STF de que estados e municípios têm competência legislativa para estabelecer diretrizes de proteção à saúde e ao meio ambiente, como é o caso da aplicação de agrotóxicos.

Falta de fiscalização e punição

As denúncias, porém, não foram comprovadas pelas autoridades. As duas agricultoras ouvidas pela reportagem contam que vídeos e fotos não têm sido suficientes para apontar os responsáveis. “A gente vai buscar ajuda em todos os lugares, mas parece que as portas se fecham, porque ninguém dá importância”, diz uma delas.

Marcos Orellana, relator especial da ONU para tóxicos e direitos humanos, já manifestou preocupação com o uso indiscriminado de agrotóxicos no Brasil. Em 2022, ele enviou uma carta ao governo brasileiro alertando sobre os impactos da pulverização aérea e criticou a ausência de respostas efetivas. Segundo ele, há um padrão de intimidação contra comunidades que denunciam essas práticas, o que amplia a vulnerabilidade dos grupos mais atingidos.

“Essas pulverizações não eram ocorrências isoladas, mas parte de um padrão de ataques repetidos e perseguições contra essas comunidades, que são submetidas a um medo constante e a sofrimento psicológico contínuo”, afirma Orellana.

Em maio do ano passado, a Repórter Brasil publicou uma denúncia de tentativa de intimidação a Diogo Cabral. O advogado da Fetaema havia recebido uma notificação extrajudicial do Sindag (Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola) para se retratar ou comprovar, em até 48h, que a pulverização aérea de agrotóxicos no Maranhão prejudica comunidades. A notificação ocorreu após entrevista de Cabral sobre a proibição da pulverização aérea no município de Caxias (MA). 

À Repórter Brasil, o Sindag afirmou na época que buscou esclarecimentos tanto com o advogado popular quanto com a rede de televisão que veiculou a reportagem a fim de buscar a “transparência sobre as informações divulgadas e a verdade sobre os fatos”.

Para Cabral, a falta de uma fiscalização efetiva cria um cenário de impunidade. “O agronegócio quer um Estado máximo para investir e garantir a produção, e um Estado mínimo para fiscalizar e punir quem comete crime ambiental.”

Angela Silva, presidenta da Fetaema, afirma que as análises de amostras para verificar a contaminação de agrotóxicos não acontecem de forma rápida no estado, o que interfere nas denúncias que a organização têm feito. 

“O sentimento das comunidades, assim como o nosso, é de tristeza, de impunidade, de não valorização. A gente denuncia, mas, às vezes, o caso não é levado a sério como deveria”, diz ela, ressaltando que as autoridades desconfiam se as denúncias são verdadeiras.

À Repórter Brasil, o pesquisador da Fiocruz no Ceará Fernando Carneiro afirmou que o aumento de casos no Maranhão mostra que “há pessoas não qualificadas operando os drones e causando contaminações”.

Estudos realizados em outros países mostram que há uma dificuldade em se obter precisão na aplicação. Pesquisa da Chinese Society of Agricultural Engineering revelou que até 55% do volume aplicado pelo drone se espalhou pelo entorno.

Procurado, o governo do Maranhão informou que “atua de forma ativa na mediação de conflitos agrários e na proteção das comunidades rurais” e que encaminha as denúncias sobre uso incorreto de agrotóxicos para órgãos de fiscalização, como a Aged (Agência Estadual de Defesa Agropecuária do Maranhão), Sema (Secretaria de Estado do Meio Ambiente) e a Superintendência do Ministério da Agricultura no Maranhão.

A Sema declarou que lidera a “fiscalização compartilhada do uso de agrotóxicos, em todas as etapas, desde a aquisição até o descarte adequado das embalagens” e que “tem adotado medidas mais rigorosas e preventivas para assegurar a preservação dos recursos naturais e a qualidade de vida das comunidades”. Jà a Aged declarou que monitora o comércio, uso, armazenamento e transporte das substâncias, assim como realiza atividades de educação quanto ao uso seguro dos agrotóxicos. 

Para o Sindag , os conflitos agrários devem ser investigados e resolvidos pelas autoridades “na melhor forma da lei e do bem-estar das pessoas”. O grupo afirma que, por ser uma  “ferramenta” visível em campo, a aviação agrícola sofre com os estereótipos. 

“A exemplo do que ocorre no Maranhão, onde ela está no centro de uma campanha da Igreja para que seja proibida nos Municípios”, afirma a organização, em referência à campanha da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em torno de um projeto de lei estadual contra a pulverização.

O Sindag diz ainda ser necessária uma fiscalização ampla e constante para que “inocentes não paguem por culpados”. Leia as manifestações na íntegra.

“Eu estou ficando sem condições de contar essa história, porque dói muito, mas ficar calada é pior”, conta, emocionada, a agricultora de Açailândia.

A agricultora de São Mateus afirma ter medo de dar depoimentos sobre a atuação do agronegócio na sua região. Assim como ela, outros vivem com medo de falar e sofrerem mais represálias. “Enquanto eu puder e tiver condição de lutar junto com os demais, eu vou lutar para que chegue o fim da pulverização aérea”, finaliza.


Fonte: Repórter Brasil

Mineração ilegal e seca: uma combinação letal

garimpo ilegalA mineração ilegal de ouro causa danos irreversíveis aos ecossistemas onde ocorre. Crédito da imagem: Polícia Federal Brasileira 

Se o uso do mercúrio na mineração ilegal já causa efeitos devastadores ao meio ambiente e aos seres vivos, um estudo recente identificou um problema ainda mais sério: os níveis do metal disponível no solo podem aumentar em até 70% durante as estações secas.

O estudo , publicado na revista Science of the Total Environment , avaliou o impacto da mineração ilegal de ouro nas reservas de carbono, nitrogênio e mercúrio do solo em quatro biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica .

Um bioma é um conjunto de ecossistemas que compartilham clima, flora e fauna.

Matheus Soares, pesquisador da Faculdade de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo e principal autor do estudo, explica ao SciDev.Net que a matéria orgânica do solo, rica em carbono, retém mercúrio e ajuda a prevenir sua propagação.

No entanto, as temperaturas mais elevadas durante as secas aceleram a decomposição desta matéria orgânica, libertando dióxido de carbono para a atmosfera e reduzindo a capacidade do solo de capturar mercúrio. Resultado: O metal altamente tóxico torna-se mais disponível no meio ambiente e mais acessível aos organismos vivos.

As análises realizadas no âmbito da pesquisa indicaram uma redução de 50 por cento nos estoques de carbono do solo nas áreas de mineração em comparação com as áreas de pastagem, utilizadas pelos pesquisadores como referência para comparar os resultados. Esta perda está relacionada com um aumento de 70% na libertação de mercúrio.

No entanto, os resultados do estudo apontam para uma contaminação potencialmente muito maior . Isso ocorre porque os pesquisadores analisaram apenas a camada superior do solo.

“O mercúrio liberado na atmosfera pode percorrer longas distâncias, sendo transportado para áreas onde não há impacto direto da mineração ou de outras atividades que emitem mercúrio.”

Gabriela Arrifano, professora do Laboratório de Farmacologia Molecular da Universidade Federal do Pará, Brasil

“A atenção foi voltada para as primeiras camadas porque geralmente é onde ocorre a interação com o meio ambiente e onde os animais e outros seres vivos têm acesso a elas. Mas se considerarmos o impacto como um todo, estamos a falar de muito mais toneladas de carbono [perdidas] e provavelmente de muito mais quilogramas de mercúrio por hectare nestas áreas”, acrescentou Soares.

Segundo o pesquisador, embora os impactos tenham sido semelhantes nos quatro biomas analisados, a Amazônia e o Pantanal foram mais sensíveis às mudanças, principalmente por registrarem temperaturas mais elevadas.

Para a professora do Laboratório de Farmacologia Molecular da Universidade Federal do Pará (UFPA), Gabriela Arrifano – que não participou do estudo –, o aumento da disponibilidade de mercúrio no período de seca aumenta o impacto das mudanças climáticas .

“Já sabemos, por exemplo, que o aumento da temperatura no planeta fez com que o permafrost [camadas congeladas do solo] descongelasse, o que acaba liberando para o meio ambiente esse mercúrio que estava fixado no solo. O mercúrio liberado na atmosfera pode percorrer longas distâncias, sendo transportado para áreas onde não há impacto direto da mineração ou de outras atividades que emitem mercúrio”, acrescentou Arrifano.

Ameaça às comunidades indígenas

O mercúrio é utilizado na extração ilegal de ouro porque se amalgama com o metal precioso, facilitando sua separação de outros resíduos. O amálgama é aquecido para que o mercúrio evapore, restando apenas o ouro. O gás resultante também é extremamente tóxico.

Na região amazônica, a mineração ilegal é uma ameaça ao meio ambiente e às comunidades indígenas.

Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgado no início do ano, identificou a presença de mercúrio nas 293 amostras de cabelos e mucosa oral coletadas de indígenas da região do Alto Rio Mucajaí, na Terra Indígena Yanomami, estado de Roraima. O material foi coletado de homens e mulheres adultos, além de crianças e idosos.

Os pesquisadores também analisaram 47 exemplares de peixes, todos apresentando algum grau de contaminação por mercúrio .

Da mesma forma, as projeções de outro estudo , publicado recentemente na revista Toxics , indicam que, em média, 27% das 8.259 sub-bacias dos rios amazônicos analisadas estariam em descumprimento da legislação brasileira, que estabelece limites para a concentração de mercúrio nos alimentos. Nas bacias dos rios Branco e Tapajós esse número sobe para 52%.

“Os ambientes característicos do bioma amazônico, como os igapós , reúnem condições que favorecem a transformação do mercúrio em sua forma orgânica, ou do metilmercúrio, a forma mais tóxica do poluente”, diz o analista ambiental Vitor Domingues, um dos coautores. do estudo de tóxicos .

As florestas pantanosas da Amazônia sazonalmente inundadas por água preta e doce são chamadas de Igapó.

Segundo o analista, o metilmercúrio se acumula na cadeia alimentar, principalmente nos peixes, que são utilizados como fonte de alimento por animais e comunidades da região. A modelagem indica que quase metade das comunidades indígenas nas sub-bacias dos rios Mucajaí, Uraricoera e Branco estariam em risco muito elevado de contaminação, considerando os efeitos do mercúrio na saúde humana .

“O peixe é a principal fonte de proteína das comunidades tradicionais amazônicas, que apresentam os maiores índices de consumo de pescado do mundo. Portanto, mesmo que as concentrações de mercúrio nos peixes atendam aos padrões do Mercosul, as populações podem estar em risco, considerando as quantidades ingeridas na região”, acrescentou Domingues.

Esse risco alarmante também foi identificado no estudo da Fiocruz, que revelou que a ingestão média de mercúrio superou em três vezes a dose de referência estabelecida pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA).

Ao avaliar as condições de saúde dos indígenas, os pesquisadores observaram que aqueles com níveis mais elevados de mercúrio nas amostras de cabelo apresentavam déficits cognitivos e neurológicos. A exposição a metais também tem sido associada a doenças cardiovasculares e problemas de desenvolvimento em crianças.


Fonte: SciDev.Net

Estudo relaciona níveis mais altos de PFAS a riscos tóxicos e acesso limitado a alimentos frescos

Os resultados destacam como o ambiente construído em bairros de baixa renda apresenta múltiplas rotas de exposição ao PFAS

pfas torneiraEnchendo um copo de água em uma torneira de cozinha em Santa Ana em 26 de abril de 2024. Fotografia: MediaNews Group/Orange County Register/Getty Images

Por Tom Perkins para o “The Guardian” 

Uma nova pesquisa que visa identificar quais bairros dos EUA enfrentam maior exposição aos tóxicos “produtos químicos eternos” PFAS descobriu que aqueles que vivem perto de locais “superfund” e outros grandes poluidores industriais, ou em áreas com acesso limitado a alimentos frescos, geralmente têm níveis mais altos dos compostos perigosos no sangue.

O estudo analisou centenas de pessoas que vivem no sul da Califórnia e descobriu que aqueles que não moram a menos de 800 metros de um supermercado têm níveis 14% mais altos de PFOA e PFOS – dois compostos comuns de PFAS – no sangue do que aqueles que moram.

Enquanto isso, aqueles que vivem a menos de cinco quilômetros de um local de superfundo — um local contaminado com substâncias perigosas — têm níveis até 107% mais altos de alguns compostos, e pessoas que vivem perto de uma instalação conhecida por usar PFAS apresentaram níveis sanguíneos significativamente mais altos.

As descobertas destacam como o ambiente construído em bairros de baixa renda apresenta múltiplas rotas de exposição a PFAS, disse Sherlock Li, pesquisador de pós-doutorado na University of Southern California. As soluções não são fáceis, ele acrescentou.

“É uma pergunta difícil porque você não pode dizer às pessoas para simplesmente se mudarem ou comprarem filtros de ar e filtros de água e comerem alimentos saudáveis”, disse Li. “Esperamos que o governo veja a análise e tome medidas… porque é mais econômico reduzir a poluição na fonte.”

PFAS são uma classe de cerca de 15.000 compostos normalmente usados ​​para fazer produtos que resistem à água, manchas e calor. Eles são chamados de “produtos químicos eternos” porque não se decompõem e se acumulam naturalmente, e estão ligados a câncer, doença renal, problemas de fígado, distúrbios imunológicos, defeitos congênitos e outros problemas de saúde sérios.

O estudo também descobriu que pessoas que vivem em bairros com água contaminada com PFAS têm níveis sanguíneos 70% mais altos de PFOS e PFOA, embora não haja correlação entre alguns outros compostos.

Pesquisadores dizem que a dieta é provavelmente um fator contribuinte para os níveis mais altos em bairros com acesso limitado a alimentos frescos. Pesquisas anteriores descobriram que alimentos processados ​​e fast foods que são mais acessíveis nesses bairros geralmente contêm níveis mais altos de PFAS – os produtos químicos são comumente adicionados para resistir à umidade e à gordura em embalagens de fast food e recipientes para viagem . Por outro lado, comer uma dieta com mais alimentos frescos pode ajudar a reduzir os níveis sanguíneos de PFAS.

Embora a Food and Drug Administration tenha anunciado no ano passado que os compostos PFAS não eram mais aprovados para uso em embalagens de papel para alimentos produzidas nos EUA, os produtos químicos podem estar em embalagens importadas ou em recipientes de plástico.

As embalagens estão entre as “principais fontes” de níveis elevados nos bairros, disse Li, mas a solução é em parte estrutural – melhorar o acesso a alimentos frescos com mais supermercados ou hortas comunitárias também terá o benefício de reduzir os níveis de PFAS.

Alguns participantes do estudo moravam perto de várias antigas bases da Força Aérea e de uma instalação de galvanoplastia que agora são locais de superfundos contaminados com PFAS.

A ligação entre as águas subterrâneas no local e a água potável era fraca, e os autores levantam a hipótese de que os níveis mais altos de PFAS no sangue ao redor dos locais de superfundo e instalações industriais que usam os produtos químicos derivam em grande parte da poluição do ar. O PFAS pode ser volátil, o que significa que ele é liberado no ar de uma área poluída, ou pode entrar na poeira e, então, ser inalado ou ingerido.

“Precisamos ser mais holísticos para reduzir a exposição à água, aos alimentos, ao ar do solo – todos eles”, disse Li.


Fonte: The Guardian

Jornada de atividades divulga pesquisas e debate o impacto nocivo dos agrotóxicos para população do campo em Goiás e para o Cerrado

Audiência Pública em Goiânia e Missão Territorial em Santa Helena de Goiás contam com participação de comunidades, especialistas convidadas e com divulgação de pesquisa inédita

jornada goias

Por CPT Goiás 

Nos dias 26 e 27 de novembro, será realizada, em Goiânia e em Santa Helena de Goiás, a Jornada Contra os Agrotóxicos e em Defesa da Vida em Goiás, uma iniciativa da Campanha Cerrado e da Comissão Pastoral da Terra Regional Goiás (CPT Goiás), que conta com a participação de pesquisadoras de diversas áreas, ativistas e comunidades do campo.

A jornada conta com duas grandes ações: uma Missão Territorial, no dia 26 de novembro, no Acampamento Leonir Orback, em Santa Helena de Goiás (GO), e, no dia 27, a Audiência Pública intitulada “Os impactos dos Agrotóxicos em Goiás”, na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (ALEGO), em Goiânia.

As atividades são abertas ao público e têm como o objetivo de divulgar e debater os resultados de pesquisas, uma delas inédita, sobre o impacto dos pesticidas na saúde da população do campo em Goiás, além de fazer a oitiva e ampliar o grito de socorro de comunidades que são cotidianamente expostas a várias formas de contaminação por agrotóxicos utilizados nos grandes monocultivos presentes em todas as regiões do estado.

Missão Territorial

A Missão Territorial tem como proposta reunir a comunidade do Acampamento Leonir Orback com especialistas ou estudiosos do assunto, para discutir a realidade local de exposição aos agrotóxicos, refletindo sobre os problemas e possíveis caminhos para seu enfrentamento. Estarão presentes na Fernanda Savicki, da Fundação Oswaldo Cruz, Andreya Gonçalves Costa, professora do Laboratório de Mutação Genética da UFG (LABMUT/UFG) e Jaqueline Pivato, da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e em Defesa da Vida, além de representantes da Campanha Cerrado e CPT Goiás.

Durante a atividade, o LABMUT/UFG irá apresentar, em primeira mão, os resultados de estudo inédito realizado com material coletado na comunidade no último mês de julho. A pesquisa analisou geneticamente amostras de sangue e fluido bucal de moradores da comunidade, identificando os danos genéticos associados à exposição a substâncias agrotóxicas.

O impacto dos agrotóxicos no Acampamento Leonir Orback vem sendo monitorado pela CPT Goiás e Campanha Cerrado desde 2021, a partir das denúncias realizadas pelas famílias locais, que relatam constantes problemas de saúde relacionados à intensa exposição aos produtos aplicados em lavouras de soja e cana de açúcar em propriedades vizinhas. Estudo realizado entre 2022 e 2023, publicado em “Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado”, da Campanha Cerrado, revelou a contaminação da água da comunidade com pelo menos 5 diferentes tipos de agrotóxicos.

Audiência Pública

Para debater a problemática com o conjunto da sociedade, em especial com autoridades do estado, a caravana será finalizada com a Audiência Pública “O Impacto dos Agrotóxicos em Goiás”, no Auditório Francisco Gedda, na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (ALEGO).

A Audiência será presidida pela deputada estadual Bia de Lima e a mesa será composta por Fernanda Savicki, da Fundação Oswaldo Cruz, Jaqueline Pivato, da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e em Defesa da Vida, Miller Caldas Barradas, pesquisador do Laboratório de Mutação Genética da UFG (LABMUT/UFG), Leila Lemes, da CPT Goiás, Laureana Fernandes, do Acampamento Leonir Orback e outros convidados.

A audiência contará ainda com a presença de comunidades do campo de diversas regiões do estado, que levarão os seus depoimentos sobre a questão dos agrotóxicos para a discussão.

Serviço

Jornada Contra os Agrotóxicos e em Defesa da Vida em Goiás

26 e 27 de novembro – Santa Helena de Goiás e Goiânia (GO)

Programação

26 de novembro – Santa Helena de Goiás (GO)

Missão Territorial

9:00 – Roda de Conversa sobre os impactos dos agrotóxicos na vida das comunidades em Goiás – No Acampamento Leonir Orback (Zona Rural)

14:00 – Entrega da Premiação do Edital de Vídeos Inéditos da Agro é Fogo Atendimento à imprensa – No Acampamento Leonir Orback (Zona Rural)

15:00 – Ato de solidariedade na cidade com entrega de alimentos (Sta Helena)

27 de novembro – Goiânia (GO)

Audiência Pública: Impactos dos agrotóxicos em Goiás

Local: Auditório Francisco Gedda – Assembleia Legislativa do Estado de Goiás,

7:30 – Café da manhã

9:00 às 12:00 – Audiência Pública


Fonte: CPT Nacional