Pesquisador protocola pedido de impeachment de Jair Bolsonaro com base em artigo publicado na Science

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Um pedido de impeachment do presidente Jair Bolsonaro foi protocolado na manhã desta segunda-feira (20/04) junto à Câmara Federal, tendo com base resultados de um artigo publicado no dia 17 de Abril de 202 pela prestigiosa revista científica Science (ver imagem abaixo). 

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O autor deste pedido de impeachment é um dos autores do trabalho, o doutorando Lucas Ferrante do Programa de ECologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).  No ofício por meio do qual protocolou o pedido de impeachment do presidente Bolsonaro, Ferrante aponta que o artigo publicado pela Science aponta que ” a medida que a doença de coronavírus do 2019 (COVID-19) se espalha pelo Brasil, o Presidente Jair Bolsonaro negou repetidamente a gravidade da pandemia e  transmitiu informações enganosas e mensagens mistas sobre como responder, defendo o uso de hidroxicloroquina e o fim da quarentena. As evidências científicas atuais contradizem essas informações, e o discurso do Presidente coloca a população em risco.

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Ferrante lembra que o artigo ainda diz que “ na escala nacional o Brasil deve manter uma quarentena nacional para mitigar o impacto da doença. Medidas favorecidas pelo presidente do Brasil, como isolamento vertical ou uma quebra parcial do isolamento, entram em conflito com as recomendações da Organização Mundial da Saúde e com estudos científicos, colocando em risco toda a população do Brasil. A eficácia da hidroxicloroquina não é confirmada, embora seus riscos sejam.

Em seu ofício à Câmara de Deputados, Lucas Ferrante lembra que “com base nessas informações publicadas no maior periódico do mundo torna-se claro que o Presidente da República Jair Messias Bolsonaro vem cometendo crime de responsabilidade
contra a saúde pública colocando todo o povo brasileiro em risco eminente“.

Ainda que não se saiba o destino que será dado a esse pedido de impeachment, o fato é que temos diante de nós uma novidade: em vez de um documento preparado por advogados como foi o caso do impeachment de Dilma Rousseff. Tampouco o pedido está sendo apresentado por um partido político ou representante dele. Em vez disso, o que temos agora são alegações iniciais baseadas em um artigo científico que passou pelo crivo rígido dos editores da Science, simplesmente a maior revista científica do planeta. Um aspecto interessante é que ocorre em face de um presidente que é conhecido por desdenhar do conhecimento científico e por ter um ministro da Educação, o insuperável Abraham Weintraub, que fez do seu ofício principal trabalhar para precarizar as universidades e institutos federais. Se isso não for um tipo de ironia suprema, eu não sei o que seria.

 

No Brasil, ‘idiotas úteis’ protestam contra cortes nas verbas da pesquisa e da educação

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Por Herton Escobar para a revista Science

Milhares de cientistas, educadores e estudantes lotaram as ruas do Brasil nesta semana para protestar contra cortes no financiamento da educação e da pesquisa. Marchas ocorreram na última quarta-feira em todas as capitais do país e em mais de 200 outras cidades, segundo relatos da mídia. Várias universidades públicas, e até mesmo algumas instituições privadas não diretamente afetadas pelos cortes orçamentários, cancelaram as aulas para permitir que funcionários e estudantes participassem das manifestações.

“Eu nunca tinha visto nada dessa magnitude”, diz Fabricio Santos, professor de genética e evolução da Universidade Federal de Minas Gerais, que se juntou a um protesto na cidade de Belo Horizonte. “Foi uma lição de democracia e descontentamento”.

Embora não haja contagem oficial, os organizadores estimaram que as marchas atraíram centenas de milhares de pessoas em grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. As manifestações foram originalmente convocadas por sindicatos, que estão protestando contra mudanças na previdência social e pensão do Brasil. sistemas propostos pela administração do Presidente Jair Bolsonaro.

Em um esforço para enfrentar as lutas econômicas, Bolsonaro anunciou recentemente uma série de medidas de contenção fiscal, incluindo a retenção de 42% do orçamento de investimento do Ministério da Ciência e Tecnologia e cerca de 25% do financiamento do Ministério da Educação para as universidades federais. As autoridades também congelaram mais de 3.000 bolsas de estudo destinadas a apoiar pesquisas de pós-graduação.  O governo federal sinalizou que liberará esses fundos se a legislatura do Brasil aprovar as mudanças nos programas sociais, o que, segundo autoridades do governo Bolsonaro, é fundamental para colocar as finanças do país em ordem.

Embora os governos anteriores tenham tomado medidas semelhantes, o clamor desta vez foi alimentado por uma série de políticas controversas avançadas por Bolsonaro, bem como por comentários inflamatórios que ele e seus nomeados fizeram. Ontem, por exemplo, Bolsonaro disse a repórteres que os manifestantes eram “idiotas úteis” e “imbecis” que estavam sendo manipulados por uma “minoria smarthead” que controla as universidades federais. E o ministro da educação Abraham Weintraub provocou controvérsia ao ameaçar reduzir o financiamento para as universidades que “promoveram raquetes” em vez de melhorar seu desempenho acadêmico.

Funcionários da universidade também estão alarmados com um decreto, publicado na quarta-feira, que dá à administração de Bolsonaro novos poderes para controlar a seleção de administradores seniores no sistema universitário federal. “É inacreditável o que está acontecendo”, diz Santos. “É uma reversão completa do princípio da autonomia acadêmica”.

O congelamento de bolsas de estudo para estudantes de pós-graduação, anunciado na semana passada, motivou os pesquisadores a participar das marchas, diz Nathalie Cella, bioquímica da Universidade de São Paulo que ajudou a organizar a Marcha pela Ciência em abril de 2017. Os estudantes de pós-graduação são uma importante força de trabalho científico nas universidades públicas do Brasil, ela observa, que produzem mais de 90% da produção científica do país. Cella diz: “Muitas pessoas terão que abandonar suas pesquisas se essa situação não for revertida”.

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pela revista Science [Aqui!]

 

602 cientistas pedem que Europa condicione importações do Brasil a cumprimento de compromissos ambientais

A edição de sexta-feira (26) da revista Science traz uma carta assinada por 602 cientistas de instituições europeias pedindo para que a União Europeia (UE), segundo maior parceiro comercial do Brasil, condicione a compra de insumos brasileiros ao cumprimento de compromissos ambientais.

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Em linhas gerais, o documento faz três recomendações para que os europeus continuem consumindo produtos brasileiros, todas baseadas em princípios de sustentabilidade. Pede que sejam respeitados os direitos humanos, que o rastreamento da origem dos produtos seja aperfeiçoado e que seja implementado um processo participativo que ateste a preocupação ambiental da produção – com a inclusão de cientistas, formuladores de políticas públicas, comunidades locais e povos indígenas.

O grupo de cientistas tem representantes de todos os 28 países-membros da UE. O teor da carta ecoa preocupações da Comissão Europeia – órgão politicamente independente que defende os interesses do conjunto de países do bloco político-econômico – que há cerca de quatro anos vem estudando como suas relações comerciais impactam o clima mundial.

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AFP. Amazônia perdeu 50 mil km² de matas nos últimos 7 anos

Pesquisador de questões de uso do solo, políticas de mitigação climática, combate ao desmatamento e cadeias produtivas, o brasileiro Tiago Reis, da Universidade Católica de Louvain, é um dos autores da carta.

Em entrevista à BBC News Brasil, ele afirmou que a publicação do texto tem como objetivo mostrar às instituições europeias que a comunidade científica entende a questão como “prioritária e extremamente relevante”.

“A iniciativa é importante, sobretudo neste momento em que sabemos que a Comissão Europeia está estudando o assunto e formulando uma proposta de regulação para a questão da ‘importação do desmatamento'”, disse o cientista.

O artigo foi divulgado nesta quinta-feira. Procurado pela reportagem da BBC News Brasil, o Ministério do Meio Ambiente ainda não respondeu ao pedido de entrevista sobre o tema.

Sustentabilidade e direitos humanos

“Exortamos a União Europeia a fazer negociações comerciais com o Brasil sob as condições: a defesa da Declaração das Nações Unidas sobre os direitos dos povos indígenas; a melhora dos procedimentos para rastrear commodities no que concerne ao desmatamento e aos conflitos indígenas; e a consulta e obtenção do consentimento de povos indígenas e comunidades locais para definir estrita, social e ambientalmente os critérios para as commodities negociadas”, diz a carta veiculada no periódico científico.

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THIAGO FORESTI. Exportações para a UE representaram 17,56% do total do Brasil em 2018

A carta ressalta que a UE comprou mais de 3 bilhões de euros de ferro do Brasil em 2017 – “a despeito de perigosos padrões de segurança e do extenso desmatamento impulsionado pela mineração” – e, em 2011, importou carne bovina de pecuária brasileira associada a um desmatamento de “mais de 300 campos de futebol por dia”.

Segundo dados do Ministério da Economia, as exportações para a UE representaram 17,56% do total do Brasil em 2018 – um total de mais de US$ 42 bilhões, com superávit de US$ 7,3 bilhões. A exportação de carne responde por cerca de US$ 500 milhões deste total, minério de ferro soma quase US$ 2,9 bilhões e cobre, US$ 1,5 bilhão.

De acordo com dados divulgados em novembro pelo ministérios do Meio Ambiente e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, a Amazônia enfrenta índices recordes de desmatamento.

Os sistemas do Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Amazônia Legal por Satélite (Prodes) registraram um aumento de 13,7% do desmatamento em relação aos 12 meses anteriores – o maior número registrado em dez anos. Isso significa que, no período, foram suprimidos 7.900 quilômetros quadrados de floresta amazônica, o equivalente a mais de cinco vezes a área do município de São Paulo.

A principal vilã é a pecuária. Estudo realizado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) em 2016 apontou que 80% do desmatamento do Brasil se deve à conversão de áreas florestais em pastagens.

Atividades de mineração respondem por 7% dos tais danos ambientais.

Principal autora do texto, a bióloga especialista em conservação ambiental Laura Kehoe, pesquisadora da Universidade de Oxford, acredita que, como forte parceria comercial, a Europa é corresponsável pelo desmatamento brasileiro.

“Queremos que a União Europeia pare de ‘importar o desmatamento’ e se torne um líder mundial em comércio sustentável”, disse ela. “Nós protegemos florestas e direitos humanos ‘em casa’, por que temos regras diferentes para nossas importações?”

“É crucial que a União Europeia defina critérios para o comércio sustentável com seus principais parceiros, inclusive as partes mais afetadas, neste caso as comunidades locais brasileiras”, afirmou a bióloga conservacionista Malika Virah-Sawmy, pesquisadora da Universidade Humboldt de Berlim.

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THIAGO FORESTI. “Queremos que a União Europeia pare de ‘importar o desmatamento’ e se torne um líder mundial em comércio sustentável”, defende bióloga Laura Kehoe

A carta dos cientistas apresenta preocupações, mas a aplicação dos tais compromissos como condições para tratativas comerciais depende de regras a serem criadas pela Comissão Europeia. Se o órgão acatar as sugestões, será preciso definir de que maneira o Brasil – e outros parceiros comerciais da UE – precisaram criar organismos e estabelecer as métricas para o cumprimento das exigências.

Medidas do governo Bolsonaro

De acordo com o brasileiro Tiago Reis, foram dois meses de articulação entre os cientistas europeus para que a carta fosse consolidada e os signatários, reunidos.

“Criamos o texto acompanhando a evolução do novo governo brasileiro. Estávamos preocupados com as promessas de campanha, mas quando essas promessas passaram a ser concretizadas, com edição de decretos, decidimos que precisávamos fazer algo”, disse ele.

“Existe, hoje, um discurso no Brasil que promove a invasão de terras protegidas e o desmatamento. Isso gerou sinais de alerta na comunidade científica internacional.”

A carta publicada pela Science ainda afirma que o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) trabalha “para desmantelar as políticas anti-desmatamento” e ameaça “direitos indígenas e áreas naturais”. Além de ser assinada pelos 602 cientistas europeus, a carta tem o apoio de duas entidades brasileiras, que juntas representam 300 povos indígenas: a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil.

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THIAGO FORESTI. Em Mato Grosso, floresta amazônica dá lugar a pastagens

Logo no dia 2 de janeiro, primeiro dia útil do mandato, Bolsonaro publicou decretos transferindo órgãos de controle ambiental para outras pastas, reduzindo a atuação do Ministério do Meio Ambiente.

O Serviço Florestal Brasileiro, por exemplo, foi realocado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – pasta comandada por Tereza Cristina, ligada à bancada ruralista. Outros três órgãos foram cedidos para o Ministério do Desenvolvimento Regional.

A incumbência de demarcar terras índigenas, antes sob responsabilidade da Fundação Nacional do Índio (Funai), também foi transferida para o Ministério da Agricultura. A própria Funai foi remanejada. Antes vinculada ao Ministério da Justiça, acabou subordinada ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, comandado por Damares Alves.

Mais recentemente, funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) têm sido alvo de exonerações.

Na semana passada, o Ibama arquivou processos contra a produção de soja em áreas protegidas em Santa Catarina. E o próprio presidente Bolsonaro, via redes sociais, desautorizou no início deste mês operação em andamento contra a exploração ilegal de madeira em Rondônia.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela  BBC News Brasil [Aqui!]

Em editorial na “Science”, cientista brasileiro alerta sobre riscos colocados sobre a Amazônia

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Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo e uma das mais importantes lideranças no estudo das mudanças climáticas do Brasil.

Em uma ação rara por parte de uma das principais revistas científicas do mundo, a prestigiosa “Science” abriu espaço editorial para que o professor da Universidade de São Paulo (USP)e importante liderança científica na área das mudanças climáticas, Paulo Artaxo, produzisse um grave alerta sobre os riscos que estão sendo colocados sobre a Amazônia brasileira em função dos primeiros atos e planos anunciados por parte do governo de Jair Bolsonaro.

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Artaxo aponta ainda suas preocupações para o desmanche produzido no Ministério do Meio Ambiente e das ferramentas de controle que existiam para acompanhar o avanço do desmatamento e da degradação de ecossistemas amazônicos e do Cerrado.

Outro aspecto ressaltado foi o desmanche dos setores que tratavam da questão das mudanças climáticas no interior dos ministérios do Meio Ambiente e das Relações Exteriores, bem como da pretensão anunciada de retirar o Brasil do Acordo Climático de Paris.  Artaxo lembra que parte significativa das reduções de emissões dos gases que causam o chamado efeito estufa depende do término do desmatamento ilegal e do reflorestamento de milhões de hectares.  Artaxo também que estas metas estão agora em conflito com o desejo do agronegócio de expandir a pastagem e agricultura intensiva na floresta amazônica e no Cerrado.

A repercussão desse editorial deverá ser imediata, principalmente naqueles países que, ao contrário dos EUA, se mantém alinhados com as metas de redução das emissões de gases estufa, e que são fortes parceiros comerciais do Brasil, a começar pela China. Tal repercussão é garantida não apenas pelo peso científico da Science, mas também pelo reconhecimento que Paulo Artaxo possui em função de sua consistente produção científica nas questões relacionadas ao clima.

Entretanto, a minha impressão é que esse alerta só será levado a sério quando começar o boicote proposto pelo “The Washington Post” para commodities originadas em áreas recentemente desmatadas na Amazônia.

Quem desejar ler o editorial escrito por Paulo Artaxo para a Science, basta clicar [Aqui!]

“Foi uma tragédia anunciada” – Fogo destrói o Museu Nacional do Brasil e suas premiadas coleções científicas

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Incêndio no Museu Nacional do Brasil no domingo FOTO AP / LEO CORREA

Por Herton Escobar e Gretchen Vogel para a Science [1]

Um incêndio no Museu Nacional do Brasil no Rio de Janeiro destruiu uma das coleções científicas mais importantes do país. Ninguém ficou ferido no incêndio, que eclodiu depois que o museu fechou no domingo à noite. Mas o incêndio devastou os enormes arquivos e coleções do museu, com cerca de 20 milhões de itens, segundo algumas estimativas. O museu não tinha sistema de sprinklers, e apenas uma quantidade limitada de água  estava disponível em hidrantes localizados ao lado do prédio quando os bombeiros chegaram.

Fundado há 200 anos, antes da independência do Brasil de Portugal, o museu abrigava antigos artefatos egípcios, gregos e romanos, importantes coleções de paleontologia e história natural, incluindo um dos mais antigos fósseis humanos da América Latina, o crânio de 11.500 anos chamado Luzia. Nos últimos anos, os problemas orçamentários haviam atormentado o museu, e os cientistas haviam alertado, desde 2004, para uma rede elétrica precária e para a falta de proteção contra incêndios.

“É uma perda irreparável, não só para a ciência brasileira, mas para o mundo. O edifício pode ser reconstruído, restaurado e tudo mais, mas as coleções nunca poderão ser substituídas. Dois séculos de ciência e cultura estão perdidos para sempre ”, disse Sergio Alex Azevedo, paleozoologista e ex-diretor do museu.

A extensão total do dano ainda não está clara. Alguns espécimes de vertebrados e algumas coleções de botânica foram alojados em um prédio separado que não foi afetado pelo incêndio. Mas milhões de espécimens, incluindo a coleção de invertebrados globalmente importante do museu, foram destruídos. Imagens aéreas mostravam telhados desmoronados, com pilhas de cinzas e entulho no interior das paredes externas que estavam de pé. O interior do prédio era em sua maioria de madeira, e as atualizações de segurança eram difíceis de serem feitas por causa das regras federais que regem sites historicamente protegidos. (O edifício foi construído em 1808 como a residência oficial da família real portuguesa no Brasil.)

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) gerenciou o museu com recursos do governo federal, e muitos cientistas culparam o subfinanciamento crônico pelo desastre. “Todos nós sabíamos que algo assim ia acontecer mais cedo ou mais tarde; era apenas uma questão de tempo ”, disse o antropólogo Walter Neves, professor aposentado da Universidade de São Paulo, que descreveu o crânio de Luzia. “O museu foi completamente abandonado, deixado a apodrecer pelo desdém e descuido das autoridades públicas. Estou em completa tristeza ”, disse ele. (O crânio de Luzia foi coletado na década de 1970, mas permaneceu esquecido no museu até que Neves o encontrou 20 anos depois. Ele foi mantido em um estojo de metal, então os pesquisadores dizem que existe a possibilidade de ele ter sobrevivido ao incêndio.)

Outros compartilhavam a raiva e a tristeza de Neves. “Foi uma tragédia anunciada”, diz o herpetólogo Hussam Zaher, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, que é natural do Rio e iniciou sua carreira científica no Museu Nacional. “O museu nunca recebeu o reconhecimento que merecia.”

Alexander Kellner, o paleontólogo que recentemente se tornou diretor do museu, usou as comemorações do aniversário de 200 anos do museu em junho para soar novamente o alarme, dizendo que o museu precisava de ajuda urgente para atualizar sua infraestrutura. A coleção de paleontologia continha vários espécimes-chave de pterossauros, a especialidade de Kellner, dinossauros e outros animais pré-históricos da América do Sul.

“Me deixa extremamente triste pensar naqueles milhões de espécimes e exibições, o produto de duzentos anos de coleta e o trabalho da vida de tantas centenas de cientistas e exploradores, apenas pegando fogo e transformando-se em pó. Isso me faz querer chorar ”, diz o paleontólogo Stephen Brusatte, da Universidade de Edimburgo, que trabalhou com as coleções de fósseis do museu.

O físico Luiz Davidovich da UFRJ, presidente da Academia Brasileira de Ciências, diz que o desastre foi algo “para ser lamentado oficialmente com bandeiras a meio mastro”, para que todos soubessem que “o Museu Nacional está morto”. O incêndio é outro golpe,  além dos drásticos cortes orçamentários recentes, acrescenta. “É outro triste capítulo no desmantelamento da ciência brasileira – que afeta não só o futuro do país, mas também sua memória”.

Publicado originalmente em inglês pela revista Science [Aqui!]

Problemas no paraíso da ciência: estudo encontra baixa reprodutibilidade em estudos sobre psicologia humana

REPRODUTIBILIDADE

O artigo abaixo de autoria do jornalista Gabriel Alves foi publicado na Folha de São Paulo e trata de um problema que assombra todo bom pesquisador, qual seja, a possibilidade de replicação de seus experimentos. E o “mutirão” científico liderado pelo professor Brian Nosek, da Universidade da Vírgínia, mostra que no caso da Psicologia os resultados relativos à reprodutibilidade são baixos. Dado que a reprodutibilidade é uma das formas de se medir rigor científico, o problema enfrentado pela comunidade científica não é insignificante.

Como os trabalhos analisados não foram estudos publicados em revistas especializadas em “trash science” (aliás justamente o contrário!), o que parece ficar demonstrado é que os problemas enfrentados na ciência contemporânea são mais agudos do que se pode imaginar inicialmente. É a pressão para se produzir “novidades” impactando negativamente a robustez dos estudos que são realizados.

No caso do Brasil, eu fico imaginando qual porcentagem dos estudos publicados em revistas brasileiras passariam num teste semelhante. Como professor de Metodologia da Pesquisa por quase duas décadas, a minha suspeita é de que os resultados não sejam muito melhores dos que foram encontrados por Brian Nosek e seus colaboradores.

Aos interessados em ler o artigo publicado publicado na revista Science, basta clicar (Aqui!)

Na área da psicologia, 61% dos estudos científicos são frágeis

GABRIEL ALVES, DE SÃO PAULO

Um grupo formado por 270 cientistas da área de psicologia se dedicou à tarefa hercúlea de refazer cem experimentos que já haviam sido anteriormente publicados nas melhores revistas da área.

A surpresa: menos da metade dos estudos replicadores chegou aos mesmos resultados dos originais, segundo um artigo publicado na última edição da “Science”.

Uma possível explicação para tão desanimadora descoberta é que, em biologia, psicologia e medicina, o número de variáveis a serem controladas é muito grande.

No caso de uma pesquisa com camundongos, pelo menos dá para ter a certeza de que eles tem o mesmo background genético e que viveram toda a vida em um ambiente parecido.

Quando humanos são estudados, porém, o número de possíveis variáveis candidatas a trazerem ruído para as medidas é enorme. Em psicologia, não há como fugir disso.

De todo modo, com a cifra de só 39% de “acertos” das replicações, não é exagero para os cientistas envolvidos de que se deve ligar o sinal amarelo na área.

O “mutirão científico” foi encabeçado por Brian Nosek, psicólogo e professor da Universidade da Virgínia.

O “argumento de autoridade”, defende Nosek, não vale: a credibilidade de um estudo depende, ao menos em parte, da reprodutibilidade da evidência em que se baseia.

Infográfico: Clique no infográfico: Pesquisas não comprovadas

Enquanto 97% dos estudos originais selecionados conseguiam obter resultados significantes (que não poderiam ser atribuídos ao acaso a não ser com uma pequena probabilidade, em geral 5%), apenas 36% dos estudos de replicação conseguiram resultados que apontassem na mesma direção.

Além disso, 83% das replicações que deram certo eram “menos intensas” do que os estudos originais.

Entre os resultados estudados estão achados que foram bastante comentados na época em que saíram, como o que a descrença no livre arbítrio aumenta a chance de traição e o que mulheres comprometidas se sentem mais atraídas por homens solteiros quando estão no período fértil.

EXPLICAÇÕES

O valor reduzido de “acertos” não necessariamente significa picaretagem.

Existem três explicações possíveis para as discordâncias: a primeira é a de que o resultado original tenha sido um falso positivo –quando o erro é detectar uma diferença ou identificar um fenômeno que na verdade não existe.

A segunda é a de que os estudos que tentaram replicar sejam falsos negativos –o erro seria de não detectar o fenômeno mostrado no estudo original, que existiria, de fato.

A terceira, por fim –bastante comum também em outras áreas das ciências da saúde–, poderia ser atribuída a pequenas diferenças metodológicas em relação ao estudo original, como participantes de diferentes etnias ou idades, condições diferentes de avaliação, ou sazonalidade de um fenômeno.

Incorrer nessa última armadilha foi uma preocupação do “mutirão”. Os autores dos estudos originais foram contatados e convidados a auxiliar na adaptação da metodologia do estudo-réplica.

Tanto que Alan Kraut, diretor-executivo da Associação Americana de Psicologia, que publica a revista “Psychological Science”, disse que a questão da replicabilidade é um dos desafios a serem superados pela publicação.

Os cientistas dizem que a cultura de uma competição agressiva na ciência favorece a publicação de resultados que se mostrem mais novos e, de certa forma, mais “sensuais” que os demais, em detrimento de atividades importantes porém menos reconhecidas como as de replicar outros estudos já publicados.

A psicóloga e professora do Instituto de Psicologia da USP, Paula Debert, crê que mais estudos de revisão são úteis à ciência. “Com a publicação das réplicas em boas revistas é que é possível ter certeza da qualidade dos estudos”.

No caso do mutirão, os 270 cientistas estabeleceram critérios de transparência e de revisão a fim de garantir a qualidade dos novos resultados.

Nem sempre uma divergência de resultados quer dizer algo ruim, defende Paula: “Às vezes o mais interessante é pesquisar a razão das diferenças. Pode ser um detalhe que passou batido”.

Um exemplo disso, exemplifica, poderia ser uma sala com nível de ruído diferente daquela usada no estudo original, ou mesmo algum detalhe a respeito dos participantes da pesquisa.

Márcia McNutt, editora da “Science”, disse que esse tipo de estudo realizado pelo “mutirão” trouxe informações importantes e que ele ajudará a estabelecer um tipo de controle melhor sobre a reprodutibilidade de estudos no futuro.

FONTE: http://app.folha.uol.com.br/#noticia/587880