Antes de restaurar a Amazônia, será melhor parar de destruí-la

Estudo publicado na Science mostra que impedir desmatamento e degradação é mais eficiente e barato do que reconstruir florestas — e lança uma luz incômoda sobre a financeirização da conservação e as promessas da bioeconomia

Um artigo publicado na revista Science em 17 de setembro traz uma conclusão aparentemente óbvia, mas que deveria provocar alguma inquietação entre os formuladores das atuais políticas de conservação: é muito mais eficiente impedir que uma floresta seja destruída ou degradada do que permitir sua destruição para depois gastar grandes quantidades de dinheiro tentando restaurá-la.

O estudo, liderado por Leonardo S. Miranda e realizado por uma ampla equipe de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, comparou três estratégias de conservação na Amazônia: evitar o desmatamento, impedir perturbações florestais — especialmente incêndios e exploração madeireira — e restaurar áreas já desmatadas. A análise foi realizada nas regiões de Santarém e Paragominas, abrangendo mais de 3 milhões de hectares e utilizando dados de campo e sensoriamento remoto de alta resolução. 

Primeiro não destruir, depois restaurar

Os resultados são contundentes. Impedir perturbações florestais poderia evitar 68,5% das perdas de biodiversidade, enquanto impedir o desmatamento evitaria 60,8% das perdas de carbono. A restauração utilizada isoladamente compensaria apenas 6,5% das perdas de biodiversidade e 14,7% das perdas de carbono. Mais significativo ainda, somente quando a proteção contra desmatamento e contra degradação foi combinada apareceram ganhos líquidos de biodiversidade e carbono em relação à situação inicial. 

Quando os pesquisadores incorporaram os custos econômicos, a diferença aumentou. Para conservar a biodiversidade, evitar perturbações apresentou relação custo-benefício muito superior à restauração; para preservar carbono, evitar o desmatamento foi a alternativa mais eficiente. Há ainda um resultado particularmente revelador: mesmo simulando uma redução de 95% nos custos da restauração, ela continuou menos eficiente economicamente do que evitar previamente a destruição ou degradação da floresta. 

Isso não significa que restaurar seja desnecessário, pois os autores mostram justamente que os maiores benefícios aparecem quando proteção contra desmatamento, prevenção da degradação e restauração são combinadas. O problema é transformar a restauração numa espécie de substituto tecnológico e financeiro para a conservação, quando o próprio artigo conclui que, isoladamente, ela é incapaz de compensar adequadamente as perdas provocadas pela continuidade da destruição florestal.

Quando a Science encontra Monica Piccinini

É nesse ponto que os resultados do estudo dialogam de maneira interessante com textos recentes da jornalista Monica Piccinini publicados neste Blog. Em suas análises sobre os investimentos destinados à conservação e sobre a chamada bioeconomia, Piccinini vem chamando atenção para uma questão que normalmente desaparece por trás do discurso aparentemente consensual sobre a necessidade de financiar a floresta: quem define as prioridades, quem controla os recursos e, finalmente, quem se apropria economicamente da transformação da natureza em ativo?

A crítica de Piccinini não é à conservação em si, mas à formação de uma arquitetura na qual governos, grandes corporações, bancos, fundos, fundações filantrópicas e organizações ambientais passam a convergir em torno de mecanismos de financiamento capazes de transformar carbono, biodiversidade, restauração e bioeconomia em novas oportunidades de investimento. Nesse processo, existe o risco de a floresta deixar de ser considerada primordialmente como território, ecossistema e espaço de reprodução social das populações amazônicas para adquirir valor sobretudo na medida em que possa ser convertida em fluxos financeiros.

Em um texto publicado neste Blog, “A Amazônia não precisa de novos donos”, Piccinini aprofunda justamente esse problema ao discutir quem controla a nova economia da floresta em pé. O risco é que a bioeconomia gere renda sem necessariamente redistribuir poder, mantendo processamento, propriedade intelectual, financiamento e comercialização concentrados longe das comunidades que fornecem território, biodiversidade e conhecimentos tradicionais.

O artigo publicado na Science não analisa essa arquitetura financeira e seria incorreto atribuir essa crítica aos seus autores. Seus resultados, entretanto, acrescentam uma peça importante ao quebra-cabeça ao demonstrar que as intervenções mais eficientes podem ser justamente aquelas menos dependentes da criação de novos mercados ambientais.

E se a solução mais eficiente for justamente a menos financeirizável?

Existe aqui uma contradição que merece ser examinada. Restaurar milhares de hectares pode movimentar fundos de investimento, empresas especializadas, consultorias, créditos de carbono, viveiros, sistemas de certificação, monitoramento por satélite e toda uma nova cadeia de serviços ambientais. A bioeconomia, por sua vez, pode transformar biodiversidade, carbono, recursos genéticos e conhecimentos tradicionais em ativos economicamente mensuráveis. Não derrubar uma floresta que já existe, entretanto, é muito mais difícil de converter em um grande produto financeiro, apesar de os dados apresentados por Miranda e seus colegas mostrarem justamente que proteger a floresta existente oferece resultados extraordinariamente melhores por unidade de dinheiro investido.

Surge daí uma ironia considerável: podemos estar construindo mecanismos financeiros cada vez mais sofisticados para recuperar aquilo que simultaneamente continuamos permitindo que seja destruído. Os próprios pesquisadores lembram que aproximadamente 60 milhões de hectares de terras públicas não destinadas na Amazônia permanecem vulneráveis à grilagem e outras atividades ilegais e alertam que mudanças capazes de enfraquecer o licenciamento ambiental podem criar novas possibilidades legais para o avanço do desmatamento. 

Talvez isso ajude a explicar por que algumas das medidas ambientalmente mais eficientes são também politicamente tão difíceis. Proteger terras públicas, combater a grilagem, fiscalizar a exploração madeireira, impedir incêndios, fazer cumprir a legislação ambiental e conter atividades econômicas responsáveis pela degradação significa confrontar interesses estabelecidos, enquanto criar fundos, mercados e novos instrumentos financeiros pode ser muito mais facilmente apresentado como uma solução capaz de acomodar interesses aparentemente contraditórios.

A floresta não precisa morrer para adquirir valor

O estudo publicado na Science oferece, portanto, uma contribuição que ultrapassa a simples comparação técnica entre diferentes políticas ambientais, pois seus resultados nos obrigam a perguntar onde estamos colocando dinheiro e, principalmente, por quê. Restaurar áreas destruídas continuará sendo indispensável, assim como desenvolver atividades econômicas capazes de gerar renda mantendo a floresta em pé pode ser importante, especialmente quando essas atividades fortalecem a autonomia das populações amazônicas. Mas nenhuma dessas estratégias deveria funcionar como justificativa para tolerar a continuidade do desmatamento e da degradação.

É precisamente nesse ponto que o estudo de Miranda e colaboradores e as análises de Monica Piccinini parecem se encontrar. O primeiro demonstra empiricamente que proteger aquilo que ainda existe pode produzir benefícios ambientais maiores e a custos menores; Piccinini, por sua vez, chama atenção para os limites de uma arquitetura de conservação que tende a privilegiar soluções capazes de gerar ativos, contratos e oportunidades de investimento. A aproximação entre os dois argumentos sugere uma pergunta incômoda: não estaremos desenvolvendo instrumentos cada vez mais sofisticados para financiar as consequências da destruição enquanto deixamos relativamente intocados os mecanismos econômicos que continuam produzindo essa mesma destruição?

A ciência apresentada no artigo da Science nos lembra, afinal, de algo muito mais simples: sai mais barato, conserva mais biodiversidade e mantém mais carbono impedir a destruição e a degradação da floresta que ainda está de pé do que tentar reconstruí-la depois. E talvez seja justamente por essa solução exigir menos engenharia financeira e mais enfrentamento das causas concretas do desmatamento que ela encontre tantas dificuldades para ocupar o centro da chamada economia verde.

A pavimentação da BR-319 trará aumento de riscos de biossegurança, aponta artigo publicado pela Science

Uma equipe de pesquisa coleta amostras em campo para monitoramento epidemiológico em áreas da Amazônia central.
FOTO: Ferrante et. al.
Lucas Ferrante e outros para “Science”
O desmatamento das florestas amazônicas representa riscos crescentes à biossegurança em escalas local, regional e global ( 1 ). O recente acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia está prestes a exacerbar o desmatamento, acelerando a expansão do agronegócio brasileiro ( 2 ) — especialmente a pecuária e a produção de soja — em terras ocupadas ilegalmente no sul e centro da Amazônia ( 3 ). Essa expansão está sendo ativamente facilitada pelo governo brasileiro por meio da consolidação da rodovia BR-319 ( 3 ), que liga Porto Velho a Manus, no centro do arco de desmatamento amazônico, e por meio de seu apoio político à mineração de potássio ( 4 ) em uma área do município de Autazes historicamente ocupada pelo povo indígena Mura ( 5 ). Além de afetar o desmatamento, esses projetos irão perturbar florestas, solos e sistemas hidrológicos intactos, forçando um novo contato entre humanos, animais e comunidades microbianas anteriormente isoladas ( 6 )
Análises metagenômicas recentes revelam que o corredor central BR-319 e as áreas propostas para extração de potássio abrigam conjuntos microbianos desconhecidos enriquecidos em genes associados à resistência a antibióticos, alta virulência, toxicidade e transferência horizontal de genes ( 6 ). A perturbação desses reservatórios cria condições ecológicas que facilitam a disseminação de patógenos e a recombinação genética com patógenos humanos conhecidos, amplificando os riscos globais de biossegurança ( 1 , 6 ).
A limitada capacidade institucional para detectar, conter e responder a patógenos emergentes na Amazônia já produziu consequências internacionais mensuráveis ​​( 1 ). A variante gama do coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2) surgiu em Manaus e rapidamente cruzou fronteiras internacionais ( 7 ). Se consolidada, a rodovia BR-319 conectaria um dos maiores reservatórios zoonóticos do mundo a aeroportos internacionais, aumentando substancialmente a velocidade e a escala com que novos patógenos poderiam se disseminar globalmente ( 1 , 6 ). Mais recentemente, uma nova linhagem do vírus Oropouche, originária do corredor da BR-319, expandiu-se para além do Brasil ( 8 ), com circulação confirmada na América Central e na Europa ( 9 , 10 ). Esses casos demonstram que o vazamento de patógenos da Amazônia não é um risco hipotético futuro, mas um processo contínuo, com implicações globais para a saúde pública ( 6 ).
Essas evidências foram formalmente submetidas ao Ministério do Meio Ambiente do Brasil ( 6 ), onde as autoridades são legalmente obrigadas a avaliar toda a documentação técnica. As mesmas obrigações se aplicam à autoridade estadual do Amazonas responsável pela licença para mineração de potássio em Autazes. Nossos resultados indicam que a consolidação da BR-319 e a mineração de potássio não apenas estão ligadas ao desmatamento e à instabilidade climática, mas também criam vias ativas para o surgimento e a disseminação global de patógenos ( 6 ). Em consonância com o princípio de Saúde Única e o princípio da precaução ( 11 ), esses projetos justificam uma reavaliação urgente, inclusive por parte dos parceiros comerciais internacionais.

Fonte: Science

Resistindo à inconsistência da Inteligência Artificial

Burn it down: a license for AI resistance (opinion)

Por H. Holden Thorp para “Science”

É difícil falar sobre qualquer tópico em ciência ou educação hoje em dia sem que o assunto da inteligência artificial (IA) venha à tona — seja para permitir que grandes modelos de linguagem auxiliem na busca por artigos científicos ou até mesmo para escrever ou revisar o próprio artigo. Em algumas das especulações mais extravagantes, os humanos envolvidos na condução de estudos e experimentos científicos e na avaliação dos resultados para publicação serão gradualmente eliminados do processo. Mas quando essa retórica grandiosa começa a circular, nós da Science tentamos manter a calma e continuar contribuindo para uma literatura científica robusta, com curadoria humana, que resistirá ao teste do tempo.

As políticas mais recentes da Science permitem o uso de grandes modelos de linguagem para certos processos sem necessidade de divulgação, como a edição de textos em artigos científicos para melhorar a clareza e a legibilidade ou o auxílio na coleta de referências. No entanto, o uso de IA além disso — por exemplo, na redação do texto do manuscrito — deve ser declarado. E o uso de IA para criar figuras não é permitido. Todos os autores devem certificar e ser responsáveis ​​por todo o conteúdo, incluindo aquele gerado com o auxílio de IA. A Science também utiliza ferramentas de IA, como o iThenticate e o Proofig, para melhor identificar textos plagiados ou figuras alteradas. Ao longo do último ano, a Science colaborou com a DataSeer para avaliar a adesão à sua política que exige o compartilhamento dos dados e do código subjacentes de todos os artigos científicos publicados. Os resultados iniciais são encorajadores: de 2.680 artigos da Science publicados entre 2021 e 2024, 69% compartilharam dados. Para aumentar ainda mais a transparência, uma lista de verificação de reprodutibilidade do DataSeer, que a Science testou em um programa piloto em 2025, está sendo integrada aos protocolos da revista. A tecnologia de processamento de linguagem natural do DataSeer analisa o artigo e gera uma lista de verificação de reprodutibilidade preenchida previamente. Os autores são solicitados a confirmar as informações e fazer as revisões necessárias.

Embora a IA esteja ajudando a Science a detectar erros que podem ser corrigidos ou elementos ausentes em um artigo, mas que deveriam ser incluídos, como código de apoio ou dados brutos, seu uso e a avaliação dos resultados exigem mais esforço humano, e não menos. De fato, a IA está permitindo que a ciência identifique problemas com mais rigor do que antes, mas os relatórios gerados por essas ferramentas precisam ser avaliados por pessoas. Talvez o pânico em relação à IA substituir empregos se justifique a longo prazo, mas continuo cético. A maioria dos avanços tecnológicos não levou a perdas catastróficas de empregos.

Uma preocupação ainda maior em relação à IA é que seu uso na produção ou revisão de artigos científicos possa comprometer a confiabilidade da literatura científica. Ao contrário de algumas iniciativas recentes, a revista Science proíbe que os revisores utilizem qualquer parte de um artigo em um modelo de linguagem abrangente para gerar uma avaliação. No entanto, a Science permite que os revisores usem IA para refinar o texto, desde que o uso seja declarado.

A crescente vigilância da ciência contra a corrupção da literatura tornou-se mais um componente na busca incessante da verdade pela ciência e pela publicação científica. Publicar artigos cuidadosamente editados e submetidos ao julgamento de múltiplos seres humanos — e a retratação e correção de artigos quando os humanos envolvidos cometem erros — nunca foi tão importante. Como um pequeno grupo de periódicos que pode dedicar mais esforço humano a cada artigo, os periódicos da Science são menos suscetíveis — e contribuem menos — para o acúmulo de “erros de IA” na literatura, mas nenhum sistema, humano ou artificial, consegue detectar tudo. A potencial degradação da literatura pela tecnologia reforça o valor de um registro mantido com experiência e conhecimento científico humano.

Há 15 anos, o ensino superior parecia ameaçado pelas previsões de que os cursos online abertos e massivos (MOOCs) acabariam com as universidades. Isso não aconteceu, mas os cursos online se tornaram um elemento importante da educação e permitiram que as universidades crescessem, em vez de encolherem. A migração das revistas científicas para a publicação online provocou um resultado semelhante: aumentou o tamanho e a escala das publicações acadêmicas. A aceitação de afirmações bombásticas sobre os impactos da IA ​​na literatura científica deve aguardar verificação.

Assim como muitas ferramentas, a IA permitirá que a comunidade científica faça mais, desde que saiba utilizá-la corretamente. A comunidade precisa ter cautela e não se deixar levar pela euforia em torno de cada produto de IA.


Fonte: Science

Traição acadêmica, explorando o absurdo: os melhores ensaios pessoais da Science em 2025

Ilustração de pessoas ao redor de computadores de diferentes tamanhos.

Robert Neubecker 

Por Katie Langin para “Science”

“Sou um pesquisador financiado pelo NIH, afogado em incertezas.”

Esse foi o título de um impactante ensaio que publicamos em fevereiro, algumas semanas depois do início do segundo mandato do presidente dos EUA, Donald Trump. O ensaio foi escrito por uma professora em início de carreira que compartilhou a dificuldade de observar as mudanças que estavam ocorrendo nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), sem saber como elas afetariam seu laboratório, suas pesquisas e sua carreira. “Será que meus pedidos de financiamento serão avaliados algum dia? O que poderei pesquisar?”, questionou ela.

Ao longo do ano, publicamos outros ensaios angustiantes de pesquisadores que enfrentavam as mudanças no cenário político e de financiamento dos EUA, bem como questões que podem ser aplicadas independentemente do tempo ou lugar — incluindo ensaios que exploraram as vantagens de ser você mesmo no trabalho, as semelhanças entre andar de bicicleta e a pós-graduação e a desvantagem de se concentrar demais no prestígio.

Todos os artigos foram publicados como parte da série Working Life da revista Science , que explora as principais lições aprendidas por cientistas ao longo de suas carreiras. Aqui estão, em ordem cronológica, os ensaios mais lidos da série Working Life do ano.

Como encontrei satisfação profissional ao ajustar minha definição de sucesso

Como professor em uma universidade focada no ensino, Salahuddin Mohammed percebeu que o sucesso não se resume apenas a publicações de alto impacto ou bolsas de pesquisa prestigiosas.

Sou um pesquisador financiado pelo NIH, afogado em incertezas

Violeta J. Rodriguez escreveu que continuaria “fazendo o que pudesse para levar minha pesquisa adiante. Mas eu, e muitos outros, não podemos fazer isso indefinidamente.”

A ciência costumava ser meu refúgio. Mas quando entrei em depressão, abandonei meu doutorado

Em meio a desafios significativos de saúde mental, Eric Martiné escreve que “fracassar na vida acadêmica foi o maior alívio que já experimentei”.

Após ser demitida do cargo de pós-doutoranda, recorri a um trabalho paralelo e encontrei uma nova carreira

Para complementar seu salário de pós-doutorado, Gertrude Nonterah começou a escrever como freelancer. Isso se tornou sua tábua de salvação.

Eu achava que a síndrome do impostor era a causa das minhas dificuldades no doutorado. Estava enganada

Quando Andrea Lius descobriu sua verdadeira paixão, finalmente entendeu por que se sentia como um peixe fora d’água no mundo acadêmico.

Minha oferta de emprego acadêmico foi rescindida. Vou continuar tentando, mas os pesquisadores americanos estão ficando sem opções

Apesar de um futuro incerto, a pós-doutoranda Na Zhao planeja “continuar fazendo a ciência que amo enquanto ainda tiver um espaço para trabalhar”.

Como um doutorado se compara a andar de bicicleta

Ehsan Hamzehpoor teve dificuldades na pós-graduação até que a encarou como um período de aprendizado.

Como uma traição acadêmica me levou a mudar minhas práticas de autoria

“Cada conjunto de dados limpo, script depurado e figura refinada merece reconhecimento”, argumentou o pós-doutorando Hari Ram CR Nair.

Como confrontei meu crescente cinismo em relação ao meio acadêmico — e reacendei meu senso de propósito

O professor Easton R. White ingressou na vida acadêmica com esperança e otimismo, mas esses sentimentos se dissiparam com o tempo.

Eu pensava que a ciência dependia do prestígio. Mudar-me para o exterior fez-me reavaliar as minhas prioridades

Após se mudar para a Dinamarca, o estudante de doutorado Henry C. Henson se apaixonou por uma sociedade igualitária que valoriza o equilíbrio entre vida profissional e pessoal.


Fonte: Science

Cartéis de citações ajudam alguns matemáticos – e suas universidades – a subir nos rankings acadêmicos de forma fraudulenta

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A.Mastin/Science 

Por Michele Catanzaro para a Science

Grupos de matemáticos em instituições na China, na Arábia Saudita e em outros países têm aumentado artificialmente a contagem de citações dos seus colegas, produzindo artigos de baixa qualidade que referenciam repetidamente o seu trabalho, de acordo com uma análise não publicada vista pela Science . Como resultado, as suas universidades – algumas das quais não parecem ter departamentos de matemática – produzem agora um maior número de trabalhos de matemática altamente citados todos os anos do que escolas com um forte historial na área, como as universidades de Stanford e Princeton.

Estes chamados “cartéis de citações” parecem estar a tentar melhorar a classificação das suas universidades, de acordo com especialistas em práticas de publicação. “Os riscos são elevados – as mudanças nas classificações podem custar ou gerar às universidades dezenas de milhões de dólares”, afirma Cameron Neylon, professor de comunicação de investigação na Curtin University. “É inevitável que as pessoas quebrem e quebrem as regras para melhorar a sua posição.” Em resposta a tais práticas, a editora analítica Clarivate excluiu todo o campo da matemática da edição mais recente da sua lista influente de autores de artigos altamente citados, publicada em novembro de 2023.

A nova análise surpreendente é o trabalho de Domingo Docampo, um matemático da Universidade de Vigo com um interesse de longa data em sistemas de classificação universitária. Nos últimos anos, Docampo percebeu que a lista de pesquisadores altamente citados (HCRs) da Clarivate estava sendo gradualmente substituída por matemáticos menos conhecidos. “Tinha gente que publicava em revistas que nenhum matemático sério lê, cujo trabalho era citado em artigos que nenhum matemático sério leria, vindos de instituições que ninguém conhece em matemática”, diz ele. Então ele decidiu investigar os dados da Clarivate dos últimos 15 anos para explorar exatamente quais universidades publicavam artigos altamente citados e quem os citava.

Os dados mostraram que entre 2008 e 2010, instituições como a Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) e Princeton produziram o maior número de artigos de matemática altamente citados (definidos como o 1% mais citado pelo número de citações), com 28 e 27, respectivamente. Mas entre 2021 e 2023, instituições com pouca tradição matemática, muitas delas baseadas na China, na Arábia Saudita e no Egipto, substituíram-nas. Neste período, a China Medical University, em Taiwan, liderou a lista com 95 artigos de matemática altamente citados – em comparação com nenhum na década anterior. A UCLA, por sua vez, teve apenas um único artigo altamente citado.

Docampo encontrou padrões que sugeriam que cartéis de citações estavam em ação. O mais revelador é que as citações aos principais artigos muitas vezes vieram de pesquisadores da mesma instituição que os autores dos artigos citados. Por exemplo, entre 2021 e 2023, duas editoras prolíficas de artigos altamente citados – a China Medical University e a King AbdulAziz University, que ostentava 66 artigos importantes nesse período – também publicaram, cada uma, centenas de estudos referenciando artigos altamente citados. Os estudos que faziam referência a artigos altamente citados também eram publicados regularmente em periódicos predatórios, descobriu Docampo, onde práticas de citação desonestas podem ser mais facilmente aceitas.

Outros cientistas concordam que as evidências apontam para uma manipulação generalizada de citações. “Temos vários investigadores a tentar aumentar artificialmente as suas citações de uma forma que não reflete de forma alguma a sua qualidade científica”, diz Helge Holden, presidente do comitê do Prêmio Abel, um dos mais prestigiados prémios em matemática. “Isso só pode ser condenado.”

Yueh-Sheng Chen, secretário-chefe da Universidade Médica da China, diz que sua universidade não se envolveu na prática. “Não sabemos nada sobre a citação direcionada e não estamos envolvidos em tal manipulação”, diz ele. O envolvimento de “especialistas e académicos de renome internacional em áreas como a matemática aplicada” faz parte da abordagem interdisciplinar da instituição à medicina, acrescenta. A Universidade King AbdulAziz não respondeu ao pedido de comentários da Science .

A Clarivate se recusou a comentar o assunto. No entanto, em declarações online sobre a sua decisão de excluir matemáticos da lista mais recente do HCR , a empresa diz estar preocupada com “estratégias para optimizar o estatuto e as recompensas através da publicação e da manipulação de citações, especialmente através da citação direccionada de artigos publicados muito recentemente”. A matemática é especialmente vulnerável à manipulação porque o campo é pequeno, escreve a empresa. “A taxa média de publicação e citação é relativamente baixa, portanto pequenos aumentos na publicação e citação tendem a distorcer a representação e análise do campo geral.”

Mas a manipulação de citações também está acontecendo em outras disciplinas maiores, diz Félix de Moya Anegón, bibliometrista da Universidade de Granada – mas não é tão visível. Ilka Agricola, presidente do Comité de Informação Eletrónica e Comunicação da União Matemática Internacional, teme que, ao destacar a matemática, Clarivate possa ter transmitido a impressão de que o campo está infiltrado por “cientistas fraudulentos”. “Lamentamos muito que nenhuma outra opção tenha sido vista senão não listar mais a matemática”, diz ela.

A Clarivate afirma que está a receber “conselhos de especialistas externos… para discutir a nossa abordagem futura à análise deste campo”. A Docampo está trabalhando em uma métrica mais refinada, que pondera as citações de acordo com a qualidade dos periódicos e instituições citantes.

Outros pesquisadores dizem que a manipulação de citações é simplesmente um sintoma de um sistema de avaliação falho. As citações e métricas semelhantes não são suficientemente refinadas para monitorizar o desempenho individual, diz Ismael Rafols, investigador do Centro de Estudos de Ciência e Tecnologia da Universidade de Leiden, e as pessoas vão sempre encontrar formas de burlar o sistema. Holden concorda: “O resultado final é que as citações não são uma boa medida da qualidade científica”.


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Este texto escrito inicialmente em inglês foi publicado pela revista Science [Aqui!].

Compensações de carbono são insuficientes para a proteção das florestas tropicais, mostra estudo na Science

compensação carbono

Dos 18 projetos analisados ​​na África, na América Latina e no sudeste asiático, apenas o Peru registrou uma redução, ainda que modesta, do desmatamento de suas florestas tropicais em dez anos. Crédito da imagem: Serfor Perú, imagem no domínio público

Por Roberto González para a SciDev

[CIDADE DO MÉXICO]. Enquanto um estudo recente sugeriu revisar os métodos usados ​​para distribuir as compensações de carbono criadas para reduzir o desmatamento em países tropicais , devido ao seu escasso impacto, um grupo de comunidades indígenas no sul do México está obtendo bons resultados vendendo bônus de compensação de carbono utilizando metodologias mais rigorosas.

Apenas o 6º por cento dos créditos de carbono gerados por 18 projetos em países da América Latina, África e Sudeste Asiático estão associados a uma distribuição real de CO2 na atmosfera , segundo um estudo publicado na Science . Os autores sugerem revisar as metodologias que estão sendo aplicadas com a conclusão de que os projetos realmente cumprem os requisitos propostos.

Os mercados de carbono foram idealizados como uma medida de incentivo econômico às empresas e governos para reduzir suas emissões de gases de efeito invernal (GEI) que contribuem para o aquecimento global . A moeda de mudança neste mercado internacional são os créditos de carbono, cada um dos quais equivale a uma tonelada de CO2 .

Cada governo administra as empresas que operam em seu território uma quantidade de créditos de carbono para gastar. No entanto, se a indústria refinada for limitada, haverá a obrigação de comprar créditos para outras empresas, a fim de que elas sobren gracias a um gerenciamento mais eficiente do GEI que vierten.

Com o objetivo de evitar a degradação dos ecossistemas dos países em desenvolvimento, também foi considerada a possibilidade de gerar projetos que contribuam para evitar o desmatamento, financiados com bônus de carbono. Assim, cada tonelada de CO2 que não foi emitida para a atmosfera graças a uma determinada iniciativa se converte em um crédito de carbono que pode comprar alguma empresa que você precisa.

“Estamos vendendo bônus de carbono resultado do crescimento do bosque derivado das atividades que as comunidades realizam para o manejo florestal”.

Rosendo Pérez Antonio, Integradora de Comunidades Indígenas e Campesinas de Oaxaca no México (ICICO)

Esses projetos podem ser gerados por governos ou por particulares e podem ser denominados “ mercados voluntários ”. Dentro de cada parcela estão incluídos os locais para a redução de emissões devido ao desmatamento e degradação florestal analisados ​​pelo estúdio sob consulta.

Para saber quais são os benefícios do oferente, os desenvolvedores dos programas devem consultar as metodologias aprovadas pelo Padrão de Carbono Verificado . Isso consistia em realizar uma estimativa de como seria o avanço do desmatamento em uma área determinada, caso nenhuma intervenção fosse recebida; este cálculo é a chamada linha de base. Depois de gerar um cenário hipotético, isso contribuirá para o projeto para reduzir a degradação florestal. A diferença entre a linha de base e isso supõe que como resultado a quantidade de créditos de carbono gerados pelo projeto.

Para Thales West, engenheiro florestal e ecólogo que realizou a investigação publicada na Science , esses cálculos são baseados em suposições demais sem considerar variáveis ​​que afetam o desmatamento, como mudanças de governo ou políticas públicas.

Por outro lado, os modelos que usam são flexíveis: “Um bom modelador estadístico pode gerar qualquer tipo de linha de base que você deseja, ou pelo menos jogar com os dados para encontrar um que se ajuste bem ao projeto”, mensagem do SciDev.Net o investigador da Universidade de Amsterdã.

Ao usar metodologias rigorosas para calcular linhas de base mais realistas e observar quanto desmatamento foi realmente evitado, o equipamento encontrado que quase nenhum dos 18 projetos registrou uma redução significativa. Além disso, nenhum deles foi atingido pelo impacto projetado no início dos projetos.

Só no caso peruano houve uma redução de 686 hectares anuais no desmatamento (0,24%), em dez anos. Mas mesmo neste caso foi menor do que o inicialmente estimado, que era de 3.661 hectares ao ano. Por outro lado, a Colômbia conseguiu evitar o desmatamento de apenas 49 hectares anuais com a projeção de 2550.

Esta situação prejudica a credibilidade dos certificados de redução de emissões geradas por esses projetos, explica Verónica Gutman, economista ambiental argentina, que não fez parte da investigação.

“Por isso, cobre cada vez mais relevância os Sistemas de Pagamento por Resultados: se paga contra a verificação efetiva de quantas emissões de GEI se logrou reduzir o desmatamento evitado em relação a um nível de referência”. Isso implica que primeiro se implementou a iniciativa e depois que se calculou o desmatamento evitado com dados reais, e não com estimativas baseadas em supostos.

O caso de Oaxaca

Este é o caso da Integradora de Comunidades Indígenas e Campesinas de Oaxaca no México ( ICICO ), que agrupa 12 comunidades, e usa uma metodologia já existente, cuja aplicação é toda uma resposta porque implica uma inversão inicial forte e de muito risco, mas que viene gerando resultados promissores.

Atividades de reflorestamento realizadas em Maninaltpec, Oaxaca pelas comunidades de ICICO. Crédito da imagem: Cortesia de ICICO para SciDev.Net

“Estamos vendendo bônus de carbono resultado do crescimento do bosque derivado das atividades que as comunidades realizam para o manejo florestal ”, explica Rosendo Pérez Antonio um dos desenvolvedores do projeto.

Em 2013, a Conferência das Partes sobre Diversidade Biológica realizada em Cancún, México, incluiu 163 bônus de carbono para a ICICO para compensar o CO 2 emitido no transporte para os assistentes de 43 países diferentes.

O projeto mais recente da ICICO abrange 27.711 hectares e produziu o ano passado aproximadamente US$ 4,2 milhões pela comercialização de bônus de carbono que foram pagos diretamente às comunidades participantes, informa Rosendo.

E explica que, se bem o projeto assesor às comunidades no uso do dinheiro, eles quiserem tomar a decisão final sobre a cantidad a inverter para continuar os projetos de manejo florestal e o que se destinará a satisfazer suas necessidades.

“Eles vêm dos recursos que estão sendo roubados pela venda de benefícios como um incentivo para seguir realizando as atividades que vêm realizando desde há mais de 30 anos”, explica Pérez. “Os fatores para a conservação de esses bosques vão além dos recursos que você obtém. Ven al territorio como su casa, y como és su casa, la tienen que cuidar”, acrescenta.

No entanto, o retorno deste tipo de projeto é a inversão inicial, a venda dos certificados só pode ser levada a cabo após a implementação do projeto, explica Gutman. Sobre os mercados voluntários, concluímos que “certos aspectos podem ser aperfeiçoados […] são, em todo o caso, um dos instrumentos com os que se conhecem, mas por si só não conseguem alcançar a redução global de emissões que são necessárias para não superar os 2° de aumento de temperatura que estabelecem o Acuerdo de Paris”.

Acesse o resumo do estudo publicado pela Science


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição da América Latina e Caribe do  SciDev.Net  e publicado [Aqui!].

Sobrevivendo como um jovem pesquisador no Brasil

“O investimento na formação de cientistas é fundamental para gerar ciência de ponta para o desenvolvimento e o bem-estar da sociedade”, escrevem pesquisadores brasileiros* em artigo para a Science

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Nos últimos anos, a ciência brasileira tem sido alvo de repetidos cortes orçamentários (1-5). Em outubro de 2021 mais uma redução foi anunciada: um corte de 87% no financiamento voltado para propostas cientificas (4). Esses cortes ameaçam projetos científicos e tecnológicos que estão em andamento, como também projetos futuros, o que inclui o financiamento de bolsas de estudo para jovens pesquisadores que estão no início da carreira científica. Apesar do precário orçamento voltado para a pesquisa quando comparado a países desenvolvidos, em 2020, o Brasil ocupou o 11o lugar entre as nações que produziram conhecimento científico voltados para enfrentar a pandemia de COVID-19 (6). A contribuição significativa do Brasil é impulsionada principalmente por pesquisadores em início de carreira (5), e sem um investimento apropriado, esses jovens cientistas não terão outra opção senão abandonar a carreira científica ou deixar o país (5).

No Brasil, a maior parte dos programas de pós-graduação exigem dedicação exclusiva – a bolsa de estudos não pode ser acumulada com outras fontes de renda. Jovens pesquisadores em programas de mestrado e doutorado ganham, respectivamente, uma bolsa de estudos de R$ 1.500 e R$2.200 mensais (7), e esses valores não são ajustados desde 2013 (7,8). Enquanto isso, a alta dos preços de produtos e serviços diminuiu o poder de compra das bolsas em mais de 60% (9). A maioria dos estudantes depende exclusivamente dessa renda mensal para manter sua alimentação, saúde, moradia, vestimenta e transporte. Em muitos casos, ainda dão suporte no sustento da família.

O investimento na formação de cientistas é fundamental para gerar ciência de ponta para o desenvolvimento e o bem-estar da sociedade (10). Portanto, como jovens pesquisadores brasileiros, nós exigimos suporte financeiro adequado dos tomadores de decisão do nosso país. Se o Brasil não reavaliar imediatamente seu orçamento para ciência e tecnologia, o país corre o risco de perder ou alienar toda uma geração de cientistas brasileiros.

Autores

  • Celso H. L. Silva Junior, pesquisador do Tropical Ecosystems and Environmental Sciences Laboratory, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Universidade Estadual do Maranhão e do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group
  • Yhasmin M. Moura, pesquisadora do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group, do Institute of Geography and Geoecology do Karlsruhe Institute of Technology (Alemanha) e do Centre for Landscape and Climate Research da University of Leicester (Reino Unido)
  • Ana C. M. Pessôa, pesquisadora do Tropical Ecosystems and Environmental Sciences Laboratory e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
  • Diego P.Trevisan, pesquisador do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group, do Department of Geography da University of Manchester (Reino Unido) e do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Federal de São Carlos
  • Flávia S. Mendes, pesquisadora do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group
  • João B. C. Reis, pesquisador do Tropical Ecosystems and Environmental Sciences Laboratory e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais
  • Michelle C. A. Picoli, pesquisadora do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group, Earth and Life Institute e do Georges Lemaître Centre for Earth and Climate Research da Université Catholique de Louvain (Bélgica)
  • Natalia C. Wiederkehr, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group
  • Nathália S. Carvalho, pesquisadora do Tropical Ecosystems and Environmental Sciences Laboratory
  • Ricardo Dalagnol, pesquisador do Tropical Ecosystems and Environmental Sciences Laboratory, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e do Department of Geography da University of Manchester (Reino Unido)
  • Tahisa N. Kuck, pesquisador do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group e do Instituto de Estudos Avançados de São José dos Campos
  • Thais M. Rosan, pesquisadora do College of Life and Environmental Sciences da University of Exeter (Reino Unido)
  • Thiago S. F. Silva, pesquisador do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group e do Biological and Environmental Sciences da University of Stirling (Reino Unido)
  • Veraldo Liesenberg, pesquisador do Departamento de Gestão Ambiental Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
  • Polyanna C. Bispo, pesquisadora do Remote Sensing Applied to Tropical Environments Group e do Department of Geography da University of Manchester (Reino Unido)

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista “Science” [Aqui!].

Degradação na Amazônia é maior que o desmatamento

desmatamentoO acúmulo de distúrbios na floresta (como queimadas e extração de madeira) causa a degradação da Amazônia, que entre 1992 e 2014 superou o desmatamento em termos de área afetada. Crédito da imagem: Bruno Kelly / Amazônia Real , sob licença Creative Commons 2.0

  • Embora o foco seja o desmatamento, a degradação da Amazônia é um grande risco
  • Autores alertam que ambos os fenômenos afetam 30 por cento do bioma
  • Menos atenção à degradação pode ser porque é mais difícil de medir do que o desmatamento
Por: Washington Castilhos

Mais de um milhão de quilômetros quadrados podem ter sido destruídos na Amazônia brasileira não só pelo desmatamento, mas pela degradação, fenômeno menos conhecido, mas que entre 1992 e 2014 superou o desmatamento em termos de área afetada, apurou um estudo.

Enquanto a degradação destruiu 330.427 quilômetros quadrados do bioma, 308.311 quilômetros quadrados foram desmatados neste período.

Os dados, publicados em estudo da revista Science , chamam a atenção para uma equação preocupante: somando a estimativa oficial de 20 por cento do desmatamento com a taxa de degradação de 10 por cento medida pelos autores, há apenas um máximo de 70 por cento da floresta preservada.

Esse cálculo sugere que mais de um de seus mais de cinco milhões de quilômetros quadrados de floresta já foi afetado.

“Toda a narrativa foi construída sobre o desmatamento. Não desmatar não significa que a floresta está sendo deixada intacta. Muita atenção tem sido dada ao desmatamento, enquanto o ritmo de degradação pode estar ocorrendo muito mais rapidamente “, alertou Marcos Pedlowski, geógrafo da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, no Rio de Janeiro, e um dos autores do estudo. 

“Muita atenção tem sido dada ao desmatamento, enquanto a taxa de degradação pode estar ocorrendo muito mais rapidamente.”

Marcos Pedlowski, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Brasil

Pedlowski explicou por telefone ao SciDev.Net que desmatamento e degradação não são necessariamente fenômenos coexistentes.

Provocado pela expansão da agricultura e da mineração , entre outros fatores, o desmatamento se refere à conversão total das florestas para outro tipo de uso do solo. Por sua vez, a degradação ocorre quando o acúmulo de distúrbios na floresta (queimadas e extração de madeira, por exemplo) altera todo o ecossistema e o funcionamento da floresta, afetando sua capacidade de armazenar carbono e água.

Esses distúrbios têm consequências ambientais importantes, incluindo a liberação de gases de efeito estufa, mudanças no balanço hídrico, perda de biodiversidade e aumento na incidência de doenças infecciosas.

No artigo, os pesquisadores destacam que, no período de 22 anos em que comparam um fenômeno a outro, a área degradada ultrapassou a área desmatada porque o desmatamento tem recebido maior atenção dos órgãos de controle e em desenvolvimento.

Eles também enfatizam que o desmatamento é mais fácil de medir. O desafio no monitoramento da degradação, observam os autores, é que ela ocorre dentro das florestas, então o dossel da floresta – o dossel superior da floresta, composto de copas de árvores – torna difícil a detecção de satélite.

Portanto, “a degradação é mais difícil de confirmar” porque “visualmente pode parecer normal”, disse Pedlowski. “Muitas madeireiras, por exemplo, usam estratégias para esconder a área perturbada. Nem tudo é óbvio ”, acrescentou.

Para estimar a área calculada, 1.200 imagens de satélite foram analisadas. Mas como o sensoriamento remoto não é absoluto, os cientistas foram a campo validar as informações do satélite.

Considerando que as medidas não são exatas, os especialistas acreditam que a área associada à degradação pode ser pelo menos igual à área desmatada, tornando os índices comparáveis. Como resultado, a taxa de destruição pode chegar a cerca de 40% e a soma da degradação com o desmatamento pode chegar a um milhão de metros quadrados.

Em particular, o trabalho mostra um alto índice de degradação em áreas protegidas e reservas indígenas .

“Considerando que a Amazônia representa 60% do território brasileiro, é uma área colossal”, alertou o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), que não participou da investigação , alertou por telefone o SciDev.Net .

“O estudo é importante porque mostra que o bioma está sendo mais afetado do que revelam os números oficiais projetados pelo Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], e a perda de carbono é muito maior do que o estimado”, acrescenta Artaxo, que trabalhou na NASA e é membro do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC).

Os pesquisadores acreditam que entender o que está acontecendo na Amazônia exige considerar todas as formas de degradação que podem ser prejudiciais à floresta, e não apenas o desmatamento.

“As estruturas de controle precisam funcionar tanto para um fenômeno quanto para outro. O governo brasileiro não pode continuar dizendo que 80% da floresta ainda está intacta, quando na verdade é muito menos ”, concluiu Pedlowski.

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Este texto foi originalmente publicado em espanhol pela SciDev.Net [Aqui!].

A Amazônia degradada já é maior que a desmatada


A área de selva alterada por extração de madeira ou fogo superou a desmatada nas últimas décadas

fogo amazoniaDepois de degradadas, as porções remanescentes de floresta ficam ainda mais expostas a incêndios, como o ocorrido próximo a Novo Progresso, no Pará, em agosto passado.ANDRE PENNER / AP

Por Miguel Ángel Criado para o El País

Há florestas que deixam de sê-lo mesmo sem desaparecer. É o que adverte um grupo de cientistas sobre o estado da região amazônica. Seu amplo desmatamento é bem conhecido, mas igualmente dramática (e mais complexa de medir) é a degradação do que resta. Com dados de mais de duas décadas, os pesquisadores comprovaram que a porção de floresta empobrecida já é maior que a desaparecida.

Com base em dados de satélite reunidos desde 1992, o grupo de pesquisadores mediu o impacto humano sobre a Amazônia. O mais fácil é calcular quanto da vegetação desapareceu para que suas terras fossem destinadas a outra coisa, em sua maioria a pastagem. Segundo o estudo publicado na revista Science, entre 1992 e 2014 desapareceram 308.311 km². A curva do desmatamento foi ascendente ano após ano, até atingir o pico em 2003, quando foram perdidos 29.000 km² ―uma superfície quase equivalente à da Catalunha ou a 75% do Estado do Rio de Janeiro. Seja pela pressão internacional ou pela ação política interna, o ritmo diminuiu até o patamar dos 6.000 km² perdidos anualmente desde 2014.

Mais difícil de calcular ―e de medir as consequências― é a degradação da floresta remanescente. Entre uma vegetação intocada e outra que deu lugar a pastagens, há um amplo leque de paisagens florestais mais ou menos empobrecidos. A degradação pode assumir distintas formas: uma menor densidade de árvores, uma perda de continuidade entre florestas cada vez menores e mais isoladas ou a queima de sub-bosque, entre outras. Uma série de algoritmos considerou as variações de refletância da luz de cada paisagem para determinar o grau de alteração.

“Uma floresta degradada é aquela que foi alterada de forma significativa ou que sofreu o impacto das atividades humanas. Continua contando com um dossel arbóreo, mas com biomassa reduzida”, explica David Skole, pesquisador do Observatório Global de Serviços ao Ecossistema da Universidade Estatal de Michigan (EUA) e coautor do estudo. “Um bom exemplo de degradação florestal é quando a floresta é submetida ao desmatamento seletivo, cortando-se algumas árvores e deixando-se outras.” Nas zonas desmatadas, a degradação se concentra nos limites entre a floresta e a terra nua. “Essas árvores que sobrevivem nas bordas dos terrenos desmatados são afetadas por mudanças no microclima. E há provas de que, no longo prazo, sofrem um colapso em sua biomassa. É o que chamamos de efeito-limite”.

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Os autores do estudo estimam que a porção da floresta amazônica degradada já superou os 337.000 km². Ou seja, a superfície empobrecida excede a afetada pelo desmatamento. E se este provoca o desaparecimento da floresta e de todas as funções associadas, o empobrecimento também tem suas consequências: liberação de gases do efeito estufa, alteração do equilíbrio da água e dos nutrientes, queda da biodiversidade e surgimento de doenças infecciosas.

São quatro os agentes degradantes principais: corte mais ou menos seletivo, incêndios, efeito-limite ou fragmentação e isolamento de porções de floresta. Até 2003, auge do desmatamento, estes dois últimos agentes foram os protagonistas. Desde então, porém, o desmatamento e o fogo têm sido mais importantes.

“Nos anos anteriores, o desmatamento e a degradação geralmente ocorriam no mesmo espaço”, afirma Skole. Como se fosse uma condição prévia ou um estado precedente, “o que levou muitos a verem a degradação como um atalho para o desmatamento, não uma interferência diferente a ser considerada, medida e gerenciada. Demonstramos que agora existe degradação, sobretudo por corte ilegal, que é uma perturbação espacialmente diferente”. De fato, mais da metade das áreas degradadas pelas derrubadas, por exemplo, mantiveram-se nesse estado praticamente durante as duas décadas englobadas pelo estudo.

Raúl Sánchez, pesquisador florestal da Universidade Pablo de Olavide (Espanha), diz que “até agora colocávamos no mesmo saco o desmatamento e a degradação, e este trabalho mostra que não é assim.” O que ele não esperava eram as dimensões do problema ―mesmo com o patamar de 2014. “Este ano, o fator principal tem sido o incêndio de baixa intensidade, primeiro passo para a degradação”, afirma.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo jornal El País [Aqui!].

Amazônia: estudo sobre degradação indica que o ponto de inflexão provavelmente já foi excedido

Na nova edição do jornal científico “Science”, os cientistas calcularam com base nos dados do Landsat que enquanto entre 1992 e 2014 os números de desmatamento na Amazônia se estendiam a 308.311 km², as áreas degradadas na Amazônia no mesmo período já chegavam a 337.427 km² .

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Por Christian.russau@fdcl.org

Há muito que se fazem advertências sobre o iminente ponto de inflexão da Amazônia, o momento em que 20-25% da floresta amazônica já terão sido desmatados.  Em função disso, os ecossistemas amazônicos ameaçam “virar” e um processo imparável de desertificação e secas sistemicamente crescentes seria o resultado. Até agora, os governantes têm estado de olho no número de cientistas que se dedicam a avaliar os processos de limpar, desmatar e cortar e queimar. Este é de fato um indicador extremamente importante, principalmente em vista do rápido aumento dos cortes e queimadas na Amazônia desde que o presidente da extrema direita Jair Bolsonaro assumiu o cargo. 

Mas agora, em um novo estudo, os cientistas estão chamando a atenção para um fenômeno até então negligenciado: o das áreas já degradadas da Amazônia. Na nova edição do jornal científico Science, os cientistas: Eraldo Aparecido Trondoli Matricardi, David Lewis Skole Olívia Bueno Costa, Marcos Antonio Pedlowski, Jay Howard Samek e Eder Pereira Miguel,1 apresentam valores calculados a partir de imagem de satélite Landsat e mostram que, durante os valores de desmatamento na Amazônia é de 308.311 km² ,  e que no mesmo período a área degradada foi de km² 337.427.

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Com base nesses números , o professor universitário Marcos Pedlowski afirmou em entrevista ao KoBra que a afirmação “20% da Amazônia” foi “apenas apurada”, “80%” estão intactas, portanto não é sustentável. “Com base em nosso novo levantamento – mesmo com uma interpretação conservadora” podemos dizer que “pelo menos cerca de 30% da Amazônia já foi desmatada e degradada.” Em razão do anterior desconsiderar em grande parte a importância das áreas degradadas da Amazônia, essa parcela poderia ser menor estimativa conservadora – já levou ao fato de que apenas 65% da Amazônia são considerados intactos, disse Pedlowski em entrevista ao KoBra.

Pontos de inflexão na Amazônia e o fim iminente dos Rios Voadores Amazônia e o que isso significa para as metrópoles de milhões no sul e sudeste do país no futuro

Segundo os cientistas Thomas E. Lovejoy e Carlos Nobre 2, a Amazônia está à beira de um ponto de inflexão, a partir do qual não há mais volta: “Acreditamos que sinergias negativas entre desmatamento, mudanças climáticas e uso generalizado do fogo sugerem que isso O sistema amazônico irá tombar para ecossistemas não florestais no leste, sul e centro da Amazônia no caso de desmatamento de 20-25%. “

Para entender o que significaria se a paisagem da floresta tropical amazônica se tornasse uma savana seca, o conceito de rios voadores deve ser explicado.

O termo rios voadores foi cunhado pelo meteorologista do Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais INPE e membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas do IPCC, José Antonio Marengo Orsini. 3 Marengo e seus mais de 50 colegas de oito países tinham 700 balões, equipados com sensores, lançados na Amazônia em 2002-2003 e, portanto, eram capazes de entender as correntes de ar predominantes por temporada. O resultado: nos meses de verão, as nuvens formadas por evaporação na Amazônia derivam para o oeste a uma altura de menos de três mil metros e a uma velocidade média de 50 km / h, onde são bloqueadas nos Andes e então desviadas para sul / sudeste – antes de chover sobre o sudeste e sul do Brasil, sobre o Uruguai, Paraguai e norte da Argentina. “Essas correntes são como rios voadores que carregam umidade de norte para sul”, explicou José Marengo na época. Sua colega de pesquisa Carolina Vera, da Universidade de Buenos Aires acrescentou: “Principalmente no verão, quando essas correntes de ar são uma das principais causas das fortes chuvas”. Porque as nuvens que se deslocam para o sul aumentam a umidade lá, de acordo com os pesquisadores de Marengo já em 2003, em 20-30%, em alguns casos até 60%.4º

Antonio Nobre, do INPE, instituto nacional de pesquisa em questões espaciais, declarou em 2009 5A conexão entre a escassez de água no sul e o desmatamento da Amazônia é diferente: na Amazônia, 20 bilhões de toneladas de água evaporam todos os dias. Para efeito de comparação: o maior rio do mundo, o Amazonas, injeta 19 bilhões de toneladas de água no Atlântico todos os dias. Na floresta amazônica, a folhagem multifacetada da flora, atingindo até 40 metros de altura, oferece de oito a dez vezes a superfície potencial de evaporação em um metro quadrado de solo da floresta tropical. Enquanto uma árvore pode evaporar até 300 litros de água por dia, a taxa para pastagens é de apenas um oitavo desse valor, segundo Nobre. O termo rios voadores, portanto, significa o processo de evaporação diária para nuvens de 20 bilhões de toneladas de água através da folhagem amazônica, 50% dos quais chove novamente na Amazônia e puxa dez bilhões de toneladas para o oeste e são bloqueados nos Andes de seis mil metros de altura e empurrados para o sul de lá e chovem sobre a área de influência da Grande São Paulo. Se a evaporação na Amazônia for reduzida por meio da valorização, ou seja, desmatamento da região e conversão pela agricultura industrial, isso também reduz as chuvas para a bacia hidrográfica de São Paulo.

Nos últimos 40 anos, uma média de três milhões de árvores por dia foram derrubadas na Amazônia. A partir disso, o número assustador de 2.000 árvores por minuto ou um total de 42 bilhões de árvores é calculado. 6 Se os rios da Amazônia secam, o sul e o sudeste do Brasil com suas metrópoles de milhões, o norte da Argentina, bem como o Uruguai e o Paraguai, ficam em terra seca.

 1 Veja https://science.sciencemag.org/content/369/6509/1378

3 Revista pesquisa, Fapesp, agosto de 2005, http://revistapesquisa.fapesp.br/2005/08/01/o-mapa-dos-ventos/ Acessado em 4 de agosto de 2015

4 Revista pesquisa, Fapesp, agosto de 2005, http://revistapesquisa.fapesp.br/2005/08/01/o-mapa-dos-ventos/ Acessado em 4 de agosto de 2015

5 Daniela Chiaretti: “Sem chuva da Amazônia, SP vira deserto. Entrevista com Antonio Nobre, pesquisador do Inpe”, Valor Econômico, 12 de janeiro de 2009

6 Antonio Donato Nobre: ​​”O Futuro Climático da Amazônia. Relatório de Avaliação Científica”, São José dos Campos – SP, Edição ARA, CCST-INPE e INPA, p.30, http://www.ccst.inpe.br/ wp-content / uploads / 2014/10 / Futuro-Climatico-da-Amazonia.pdf Acessado em 12 de agosto de 2015

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pela Kooperation Brasilien [Aqui!].