Cenas de devastação climática mostram que adaptação será inseparável da luta por justiça social e distribuição da riqueza

costa verde

Não faz muito tempo toda a discussão sobre as mudanças climáticas causadas pelo funcionamento da sociedade capitalista era um item intangível para a maioria das pessoas comuns que possuem questões mais básicas para se preocupar. Entretanto, as chuvas recordes que derrubaram em torno de 1 metro de água em poucas horas sobre a região da Costa Verde e a Baixada Fluminense mostram que a questão da adaptação climática é algo para ser colocado como prioritário em função do alto nível de destruição que estamos presenciando (ver vídeo abaixo da BR-101 na região da Costa Verde).

O problema é que no atual estado de coisas que predominam no Brasil, não há como esperar de governos que continuam práticas que desprezam o conhecimento científico e optam por manter nossas cidades com fortes padrões de segregação socioespacial, deixando para os pobres ocuparam aquelas áreas nas quais os efeitos da mudança climática são mais perversos.

Desta forma,  os esforços pela adaptação climática será acima de tudo uma luta pela justiça social e pelo estabelecimento de mecanismos de distribuição da riqueza e, por que não, de uma ampla reforma da propriedade da terra urbana.

Políticas públicas de lazer em Campos dos Goytacazes: o que é ruim sempre pode piorar

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No início de 2004 a minha então orientanda no Programa de Políticas Sociais, Denise Rosa Xavier, defendeu com grande êxito a sua dissertação de Mestrado cujo título era ” Políticas de Lazer e segregação socioespacial: O caso de Campos dos Goytacazes, RJ”.  Nas suas conclusões, Denise Xavier apontou para o fato inescapável de que pode-se
afirmar que a distribuição do lazer existente na cidade de Campos dos Goytacazes se dava então de forma centralizada e concentrada em eventos de custos elevados, privilegiando o acesso a membros da classes mais abastados, o que apenas reforçava um padrão de exclusão espacial dos mais pobres.

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Os campistas mais antigos irão lembrar que o período abordado no estudo foi justamente a época áurea dos shows custeados pelos royalties do petróleo que colocava os principais artistas para darem shows gratuitos no Jardim São Benedito, enquanto que os mais pobres eram empurrados para shows com artistas locais na Farol de São Thomé sob a mesma legenda do “Viva melhor, Viva Música”.  Nesse sentido, Denise Rosa Xavier pontuou com correção que aquele contexto se traduzia “em práticas aparentemente excludentes, pois ao investir em um lazer espetáculo e centralizando-o em determinados locais, o poder público acabava por reforçar a segregação socioespacial da cidade, dividindo-a de
acordo com o poder político e econômico das classes sociais que a compõem“. E mais simplesmente que tal dicotomia de locais servia apenas para reforçar a exclusão social em Campos dos Goytacazes.

viva melhor viva música

Curiosamente, passadas quase duas décadas daquela conclusão certeira, pouco ou nada sobrou no município de Campos dos Goytacazes em termos de políticas públicas voltadas para o oferecimento de equipamentos de lazer para a sua população. Nesse sentido, uma recomendação deixada por Denise Rosa Xavier em 2004 parece um prenúncio do que deveria ter sido feito e nunca foi. É que ao notar a incipiente consolidação das políticas municipais de lazer por causa da natureza elitista das ações centradas em shows, Denise Xavier apontou que seria necessário que “no âmbito da esfera pública municipal, no sentido de propiciar a população de Campos dos Goytacazes, fosse estabelecida uma politica de lazer universalista e que minimizasse as distâncias sociais existentes no município”.  

Tragicamente a inexistência de políticas de lazer de caráter universalista resultou, especialmente no âmbito da pandemia da COVID-19, na opção pela utilização de espaços ainda mais elitistas nos quais a maioria da população campista não teve qualquer possibilidade de acesso.  Diante disso, o que temos é que situações que podem ser consideradas ruins sempre possuem espaço para piorar, especialmente sob governos que se valem do elitismo para se manterem no poder.

Finalmente, se algum consolo há é o fato de que um trabalho acadêmico concluído há mais de 17 anos ainda possui a capacidade de explicar como chegamos até aqui em função da sua densidade teórica e empírica, o que apenas reforça o papel da Uenf em produzir ciência que seja útil para a criação de uma sociedade mais justa e democrática, como propunha Darcy Ribeiro.

Quem desejar ler a íntegra da dissertação de mestrado de Denise Rosa Xavier, basta clicar [Aqui!].

RJ: felizmente ainda existem vozes se levantando contra a segregação imposta pelo (des) governo Pezão

“Não temos o direito de ir à praia, enquanto uma guerra se instaura na cidade” – afirma Pesquisadora

carioca

Na semana passada, a redação do Justificando recebeu a mestranda na Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ Priscila Pedrosa Prisco. A ativista do círculo de cidadania criticou a política de violência do Estado carioca, a comoção seletiva da classe média, entre outros temas ligados ao momento.

Priscila chamou atenção, em primeiro lugar, ao alarde que se tem feito sobre os arrastões. Explicou que os atos infracionais já acontecem há anos, sempre no verão, e para combatê-los são colocadas as polícias nas praias. As novidades, no entanto, são duas: a primeira se refere à antecipação da operação verão nesse ano pelo prefeito Eduardo Paes, enquanto a segunda surgiu da decisão do juiz em acolher o Habeas Corpus impetrado pela Defensoria Pública. A lei, o básico, tem sido interpretada, pelo senso comum, pela imprensa, como um fator impeditivo da polícia trabalhar. Como se a polícia só pudesse trabalhar dessa forma, criticou.

Para a pesquisadora, a adoção da violência policial como política pública acaba por estigmatizar e criminalizar determinados grupos – negros, periféricos, e pobres -, gerando ainda mais violência no cotidiano. Desde que nascem, as crianças das favelas são submetidas à violência. Passam a vida inteira sendo humilhadas, tomando tapas na cara, vendo suas mães apanharem, os amigos morrerem, são torturadas. E você acha que isso não vai ter nenhum reflexo em sua formação como pessoa?, perguntou Priscila.

Espiral de violência

Prisco afirma que todas essas violências, somadas à política policial de barrar e levar para inquérito jovens a caminho dos bairros da zona sul, são nada mais que segregações, políticas de prevenção puramente genéticas, muito próximas das políticas nazistas, absolutamente desconectadas dos efeitos que podem causar no cotidiano. É uma espiral de violência, explica.

“É muito comum você ver os cariocas da zona sul, a classe média se queixando – ah, mas aí nós não temos direito de ir à praia, nós não temos liberdade de ir. Eu creio que não, não temos liberdade de ir e vir, não temos liberdade de ir à praia ali feliz e contente, enquanto uma guerra se instaura na nossa cidade sem que nós, que vivemos na bolha, na zona sul, no cercadinho, não tomemos consciência da situação que acontece nas áreas mais pobres da cidade” – afirmou.

Para ela, essa ausência do “direito de ir à praia” decorre diretamente da falta de importância e relevância que é dada à cotidiana violência sofrida moradores das favelas e outras comunidades menos favorecidas economicamente. Não é possível que uma política pública imponha um nível de violência desse tipo, como impõe nas favelas, nas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), um nível de violência policial altíssimo, sem que isso vá repercutir nos grupos privilegiados.

“Então quanto mais se pedir o Estado, a violência de Estado, quanto mais se pedir a morte das pessoas na zona norte, nas favelas, mais a gente vai ficar preso. Não é possível você viver numa cidade segregada dessa forma e achar que você não tem nenhuma responsabilidade e que isso nunca vai repercutir na sua vida de rei, né, de príncipe” – finalizou.

FONTE: http://justificando.com/2015/09/28/nao-temos-o-direito-de-ir-a-praia-enquanto-uma-guerra-se-instaura-na-cidade-afirma-pesquisadora/

Está tendo Copa, e daí?

Estou vendo e lendo uma reação quase de orgasmo dos apoiadores do governo Dilma Rousseff sobre o andamento da COPA FIFA. Eu que nunca vi a questão do movimento “Não vai ter copa” como algo que tivesse como objetivo final a realização do megaevento da multinacional do futebol, penso que tanta celebração é apenas um elemento a mais na degeneração ideológica do PT e seus neoapoiadores. Digo isso porque não vejo e nunca vi os atrasos nas obras como o real problema da preparação deste megaevento. Afinal, quando estive em Londres em 2012, vi o mesmo tipo de problema acontecendo.

O problema real e que será uma das muitas heranças malditas desta COPA foi a remoção de milhares de famílias pobres para regiões periféricas das cidades-sede, apenas para beneficiar os ganhos já bilionários das empreiteiras e incorporadores imobiliárias. Além disso, o o superfaturamento das obras e o custo final dos estádios contribui de forma direta para a persistência, e quiçá o aprofundamento, do imenso fosso social existente no Brasil.

Além disso, há que se lembrar que qualquer tentativa de manifestação pública para denunciar os malfeitos deste megaevento está sendo duramente reprimida por uma mistura de tropas federais, estaduais e municipais. As graves violações de direitos constitucionais, com agressões e prisões arbitrárias de manifestantes e jornalistas, são uma expressão evidente de uma disposição de negar que seja dado voz aos que mais estão perdendo com todas as intervenções que foram feitas para realizar a terraplanagem social para viabilizar que os ricos possam maximizar seus lucros com a COPA FIFA.

Ao não fazerem o devido balanço do megaevento da FIFA, os seus apoiadores jogam para debaixo do tapete todas as suas questões em nome de um ufanismo sobre a capacidade do Brasil realizar algo cuja repercussão final será banal. Enquanto isso, muitos estádios continuarão sendo a expressão acabada de uma sociedade ancorada na segregação social e, também, espacial.

Finalmente, tenho que refletir sobre os aeroportos que foram turbinados para serem entregues à iniciativa privada, como é o caso do Aeroporto Internacional do Galeão. Como passei por vários deles ao longo de 2014, penso que muitos correm o mesmo risco da “Arenal Pantanal” e da “Arena Amazônia”, que é o de virarem elefantes brancos que, cedo ou tarde, serão retornados para a administração pública, já que o empresariado brasileiro gosta mesmo é de lucro fácil e, sim, de imensos e generosos subsídios estatais.