A condenação de Lula finalmente acabará com as manifestações alegóricas que paralisam a classe trabalhadora e a juventude?

Ricardo Stuckert

Como um observador privilegiado da situação política brasileira desde 2003 já que vivo e trabalho no Rio de Janeiro (estado que concentrou todos os males e graças do Neodesenvolvimentismo lulista), vi o paulatino abandono das táticas tradicionais de luta da classe trabalhadora e da juventude e o aparecimento do que venho chamando de “manifestações alegóricas”.  Tais manifestações não passam de showmícios onde oradores ou cantores (dependendo da ocasião) se revezam para estabelecer um ambiente de completa esterilização da disposição de luta.

Vimos bem os efeitos dessas alegorias nas seguidas derrotas que foram impostas aos trabalhadores brasileiros nos últimos anos.  Casos exemplares das manifestações alegóricas que resultaram fragorosas foram o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a aprovação da malfadada reforma trabalhista. Em ambos os casos,  trabalhadores e jovens responderam ao chamado para a luta apenas para serem transformados em “sitting ducks” para as forças reacionárias do congresso nacional passaram por cima do estado democrático e dos direitos dos trabalhadores.

Eu atribuo a essa forma de manifestação até a condenação por unanimidade do ex-presidente Lula pelos desembargadores do TRF4. Mais uma vez, viu-se a aceitação pacífica de um jogo de cartas marcadas que visa apenas e unicamente aplicar um golpe de exceção na candidatura de Lula para as eleições de 2018. Um dos resultados mais lamentáveis dessas derrotas auto aplicadas é a desmoralização dos militantes e a sua transformação em vítimas da violência estatal.

Agora com a condenação de Lula e determinação de que ele seja preso, a minha expectativa é de que, finalmente, sindicatos e movimentos sociais desistam de fingir que estão enfrentando a agenda ultraneoliberal que está sendo aplicada no Brasil sem que haja qualquer reação próxima daquela que está acontecendo em outros países, a começar pela Argentina.  Neste sentido, é inaceitável que até o momento as principais sindicais brasileiras não tenham movido uma palha para realizar uma ampla greve geral que impeça que o presidente “de facto” Michel Temer passe seu trator neoliberal sobre o direitos previdenciários dos brasileiros.

E antes que alguma liderança destes movimentos e sindicatos alegóricos apareça para dizer que estamos diante de um refluxo de massas no mundo inteiro, quero lembrar que no pequeno Nepal o Partido Comunista e seus aliados venceram as eleições parlamentares e provinciais, alcançando uma maioria de quase dois terços [1]. E o caso do Nepal não é único, pois existem focos de enfrentamento em diversos países que tentam enfrentar medidas semelhantes às que foram impostas por Michel Temer, a começar pela França.

A questão a ser encarada de frente é que as grandes corporações financeiras que hoje controlam a economia mundial estão impondo um sistema que deixará pouco mais do que migalhas para os trabalhadores do campo e da cidade. Continuar fingindo que tudo se resolverá com uma eleição presidencial que se dará num clima de exceção política será um erro histórico que terá graves proporções.

Por isso é que digo:  que as manifestações alegóricas extintas e que a classe trabalhadora e a juventude brasileira assumam o grau de proeminência que nunca deveriam ter deixado de ter.  E o quanto antes isto ocorrer, menos derrotas ocorrerão. 


[1] https://pcb.org.br/portal2/18221/comunistas-vencem-as-eleicoes-gerais-no-nepal

Onda de greves na Alemanha: A desintegração do “modelo alemão”

O país está a viver uma “ampla erosão das normas salariais formais e informais que por várias décadas mantiveram a paz no capitalismo alemão”, afirma o sociólogo económico Wolfgang Streeck, sublinhando que a vaga de paralisações “é mais do que um episódio conjuntural: é outra faceta da desintegração inexorável do que costumava ser o ‘modelo alemão’”.

Foto der_dennis/Flickr

“Este ano, a maior economia da Europa está prestes a bater um novo recorde de greves, com todos os trabalhadores – desde os maquinistas aos professores de jardins de infância e creches e trabalhadores dos correios – a promoverem paralisações nos últimos tempos. Esta onda de greves é mais do que um episódio conjuntural: é outra faceta da desintegração inexorável do que costumava ser o ‘modelo alemão’”, assinala Wolfgang Streeck num artigo publicado no Guardian.

“Os sindicatos das prósperas indústrias de exportação não são os únicos que estão em greve nos dias de hoje”, refere o sociólogo económico, exemplificando com as paralisações nos serviços domésticos, especialmente no setor público, que aparentam “ter vindo para ficar”.

Lembrando que “a concorrência internacional já não é apenas sobre a quota de mercado, mas também sobre o emprego”, o que veio, por exemplo, condicionar a ação dos sindicatos metalúrgicos, Wolfgang Streeck assinala que a contestação deslocou-se para os serviços, já que, neste caso, “a exportação do trabalho é mais difícil”.

O sociólogo refere também que “os empregadores públicos, na prossecução da consolidação orçamental, romperam o peculiar regime de contratação coletiva do setor público da Alemanha” que assegurava, no essencial, os mesmos aumentos salariais anuais para todos os trabalhadores. Por outro lado, Wolfgang Streeck aponta que várias ocupações – incluindo a dos maquinistas, professores e trabalhadores dos correios – deixaram de ser reguladas pela legislação específica da Função Pública.

“Além disso, a privatização progressiva dos serviços públicos, combinada com o desemprego e a de-sindicalização que veio com o mesmo, colocou cada vez mais os salários do sector público sob concorrência, levando a problemas até então desconhecidos para os sindicatos, desencadeados por aquilo que rapidamente se estava a tornar num sistema de dois níveis salariais”, avança.

Outro desenvolvimento que, segundo o sociólogo, contribuiu para o conflito laboral tem a ver com o surgimento de novas ocupações, especialmente as relacionadas com a educação dos filhos e cuidados com os idosos. Estes trabalhadores são mal pagos e precários, não obstante “a retórica do Governo sobre a indispensabilidade e a virtude moral do seu trabalho”, vinca Wolfgang Streeck.

A somar a estes fatores surge a forma como o patronato se serve do progresso tecnológico para exercer pressão sobre ocupações anteriormente privilegiadas, como pilotos de avião, controladores de tráfego aéreo e maquinistas, pondo em causa direitos já conquistados.

“Tudo isto resulta numa ampla erosão das normas salariais formais e informais que por várias décadas mantiveram a paz no capitalismo alemão”, salienta o sociólogo económico alemão.

A par da deterioração das condições de trabalho, da perda de rendimentos e dos cortes nos serviços públicos e prestações sociais a que é sujeita a maioria das famílias, os salários dos gestores de topo crescem “especialmente, mas não exclusivamente, na área financeira”, refere Streeck, que assinala um aumento das desigualdades salariais.

“O sistema de fixação dos salários alemã está a aproximar-se de uma condição de ausência de normas, semelhante ao que a Grã-Bretanha experimentou na década de 1970. À época, o sociólogo John Goldthorpe Oxford diagnosticou um estado de anomia laboral: uma ausência fundamental de consenso sobre os princípios legítimos de distribuição entre capital e trabalho, bem como entre grupos de trabalhadores”, afirma.

Segundo Wolfgang Streeck, “o governo alemão, com o seu ministro do Trabalho social-democrata, está a tentar suprimir a vaga de conflitos laborais reduzindo o direito de organização e de greve, ilegalizando as greves de sindicatos setoriais – como os maquinistas”.

“Mas isso irá falhar, muito provavelmente no Tribunal Constitucional e, certamente, na prática, num mundo em que a estrutura das empresas e sectores não é mais favorável ao sindicalismo que se baseia na doutrina ‘um local de trabalho, um sindicato’, e onde os maquinistas, pilotos e outros vão sentir-se no direito de se defender, se necessário, entrando em greve, diga a lei o que disser”, remata.

FONTE: http://www.esquerda.net/artigo/onda-de-greves-na-alemanha-desintegracao-do-modelo-alemao/37180?utm_source=dlvr.it&utm_medium=facebook