Mais veneno na nossa mesa: com custo astronômico, uso de agrotóxicos continua aumentando no Brasil

agrotoxicos comida

Em uma nota publicada com o simpático título de “Desafios fitossanitários aumentam e área tratada com defensivos agrícolas cresce 1,6 milhão de hectares no primeiro semestre” (de 2022), o  Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) ofereceu algumas informações preciosas para que possamos entender o avanço no uso de agrotóxicos na agricultura brasileira no primeiro semestre de 2022.

Uma das informações interessantes é que apesar de todo o veneno despejado nas áreas agrícolas brasileiras, há uma necessidade crescente para que se use ainda mais produtos, na medida em que os alvos estão desenvolvendo resistência, ocasionando a necessidade de mais agrotóxicos. O problema aqui é que dada a conjuntura internacional, o custo dos produtos saltou de US$ 5,468 bilhões para US$ 6,560 bilhões entre o primeiro semestre de 2021 e o de 2022 (algo em torno de R$ 34 bilhões). Em outras palavras, um custo astronômico que não foi necessariamente compensado pelas vendas, ainda que os preços tenham oscilado positivamente, principalmente por causa do conflito bélico na Ucrânia.

Outro detalhe é que apesar de todo o discurso que o latifúndio agro-exportador está “matando” a fome dos brasileiros, 86% dos agrotóxicos utilizados no Brasil estão sendo utilizados em culturas de exportação, tais como soja, milho e algodão (ver imagem abaixo).

culturas

Fonte: Sindveg

Área maior, risco maior

A expansão da área aspergida significa mais riscos para os brasileiros, na medida em que a maioria dos “campeões de venda” está proibida em outras partes do mundo, a começar pela União Europeia. Assim, a informação de que  área que recebeu aplicação de agrotóxicos chegou a 741,278 milhões de ha– ante 739,615 milhões de ha entre janeiro e junho do ano passado (1,663 milhão de ha a mais) não é prova de avanço de uma agricultura sustentável como sugere o Sindveg, mas justamente o contrário.

O fato é que a crescente dependência do modelo agro-exportador de venenos agrícolas altamente perigosos sinaliza que haverá um avanço não apenas do nível de contaminação dos recursos hídricos e solos, mas também da contaminação direta e indireta de seres humanos, transformando os agrotóxicos em um dos principais riscos sanitários que o Brasil já enfrentou.

Taxar os agrotóxicos e exigir um novo modelo agrícola

Algo que é pouco sabido é que a indústria dos venenos agrícolas, que reúne algumas das principais corporações do planeta (incluindo a ChemChina/Sygenta, Bayer/Monsanto, Basf, DowDupont), é altamente beneficiada no Brasil com uma generosa política de isenções fiscais, propiciando lucros fabulosos aos fabricantes, enquanto um rastro destruição e adoecimento é deixado para os brasileiros.

Assim, uma primeira necessidade que temos de enfrentar é o fim dos benefícios fiscais para os fabricantes de agrotóxicos. Além disso, há que se aumentar a pressão para que haja uma mudança radical na forma de produção agrícola no Brasil, com a adoção de medidas que diminuem a dependência desses venenos agrícolas. 

Aliás, como já disse aqui antes, a questão dos agrotóxicos precisa ser item estratégico no debate eleitoral de 2022, na medida em que o Brasil já vive uma epidemia de doenças associadas ao uso e ingestão de água e comida contaminadas por resíduos de agrotóxicos altamente venenosos.

Brasil: em plena pandemia da COVID-19, vendedores de agrotóxicos faturam US$ 6,04 bilhões apenas no 1º semestre de 2020

Um total de 643,2 milhões de hectares receberam a aplicação de agrotóxicos, o que representa um crescimento de 6% sobre o 1º semestre de 2019

Plantation spraying

Foto: Getty Images

De acordo com o Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal), as empresas que comercializam agrotóxicos já faturaram US$ 6,04 bilhões no primeiro semestre de 2020 no Brasil. O resultado representa um ligeiro aumento nas vendas em relação aos seis primeiros meses do ano passado, quando os agrotóxicos geraram US$ 6,03 bilhões.

“Soja (+33%), milho (+29%) e algodão (+18%) puxaram o crescimento da área tratada por agrotóxicos no acumulado de janeiro a junho de 2020”, afirma o Sindiveg. Neste período analisado foram 643,2 milhões de hectares receberam a aplicação de agrotóxicos, com crescimento de 6% sobre o 1º semestre de 2019. 

Quanto aos agrotóxicos envolvidos na geração destas vendas,  no 1º semestre de 2020 os inseticidas representaram 36%, os fungicidas 33% e os herbicidas 22%. Os dados formam parte de um levantamento feito pelo Sindiveg, órgão que representa a indústria de produtos para defesa vegetal no Brasil há 79 anos e reúne 26 empresas associadas. 

O estado do Mato Grosso foi aquele onde mais se usou agrotóxicos no período, representando 28% do total, seguido por São Paulo (13%), estados da região do Matopiba (12%), Paraná (10%), Goiás e Distrito Federal (10%), Mato Grosso do Sul (8%), Rio Grande do Sul e Santa Catarina (8%) e Minas Gerais (4%).

“Uma análise mais ampla, como a do 1º semestre de 2020, permite visão mais clara do impacto do uso dos agrotóxicos nos mais diferentes cultivos, mostrando não apenas os maiores desafios fitossanitários, mas destacando o essencial papel dos defensivos (i.e., agrotóxicos) para a agricultura brasileira”, ressalta o presidente do Sindiveg, Julio Borges Garcia.

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Com texto adaptado de informe fornecido pelo AgroLink [Aqui!].