Organizemos uma forma de vida mais modesta

Nossa sociedade global tem recursos suficientes para coordenar nossa sobrevivência

OR Book Going Rouge

Por Slavoj Žizek*

Há algo errado com a severa imposição de confinamento, e não apenas no sentido em que o estado explora a epidemia para impor controle total. Acredito cada vez mais que um tipo de ato simbólico supersticioso está envolvido em tudo isso. Como a verdade é que não sabemos bem como tudo isso funciona, se fizermos um gesto duro de sacrifício que realmente machuca e paralisa nossa vida social, talvez possamos esperar misericórdia. O que é surpreendente é quão pouco parece que entendemos (incluindo cientistas) como a epidemia se comporta. Muitas vezes recebemos avisos conflitantes das autoridades. Recebemos ordens estritas para nos limitarmos a evitar a infecção viral, mas quando o número de infecções diminui, surge o medo de que tudo o que podemos fazer seja tornar-se mais vulnerável durante a segunda onda esperada do ataque do vírus. Todas as esperanças de uma saída rápida (calor do verão, imunidade de grupo, vacina) são frustradas.

Há uma coisa que está clara: durante um confinamento, vivemos com antigas reservas de alimentos e outras provisões. Portanto, agora a tarefa árdua é sair do confinamento e inventar uma nova vida marcada pelo vírus. Devemos mudar nosso imaginário e parar de esperar por um pico grande e bem definido, após o qual as coisas voltarão ao normal. Nem mesmo a catástrofe total acabou de aparecer, a situação está se prolongando cada vez mais. Somos informados de que alcançamos o achatamento da curva, então tudo está indo um pouco melhor, mas … a crise está ficando cada vez mais longa. O desejo secreto de todos nós, e o que pensamos sem parar, é um: quando isso vai acabar? Quando isso aconteceu? É razoável ver na epidemia atual o anúncio de um novo período de problemas ecológicos. Em 2017, a BBC descreveu o que poderia nos esperar como resultado de nossa maneira de intervir na natureza: “As mudanças climáticas estão derretendo o permafrost, congelado há milhares de anos, e, à medida que os solos se derretem, eles liberam vírus antigos que, permanecendo adormecidos, estão ressurgindo para a vida “.

Isso significa que nossa situação é desesperadora? Absolutamente não. Se observarmos as coisas da distância certa (o que é muito difícil), poderemos prever um número relativamente baixo de mortes, e nossa sociedade global terá recursos suficientes para coordenar nossa sobrevivência e organizar um modo de vida mais modesto, no qual a escassez de comida é compensada pela cooperação em escala global e na qual temos um sistema de saúde global mais bem preparado para os seguintes ataques. Seremos capazes de fazer isso?

*Slavoj Žizek é filosófo e autor do livro “Pandemic!” onde fala das consequencias do coronavírus sobre o coronavírus.

__________________________________

Este artigo foi originalmente escrito em espanhol e publicado pelo jornal “El País” [Aqui!].

 

Žižek: Bem-vindo ao deserto do viral! Coronavírus e a reinvenção do comunismo

As infecções virais operam de mãos dadas em ambas as dimensões, real e virtual. Se a epidemia do coronavírus desencadeou um enorme surto de vírus ideológicos (teorias conspiratórias paranoicas, explosões de racismo e xenofobia), também é verdade que a situação deve nos estimular a reinventar o comunismo.

Por Slavoj Žižek

* Publicado originalmente no SUPLEMENTO PERNAMBUCO. A tradução é de Artur Renzo

 

A atual propagação da epidemia do coronavírus também desencadeou um enorme surto de vírus ideológicos que se encontravam em estado dormente em nossas sociedades: fake news, teorias conspiratórias paranoicas, explosões de racismo… A necessidade concreta e bem fundamentada de se implementar quarentenas reverberou nas pressões ideológicas de se erguer fronteiras claras e submeter “inimigos” que representariam uma ameaça à nossa identidade a condições de isolamento.

Mas é possível que outro vírus ideológico, este muito mais benigno, também deva se alastrar e, com sorte, infectar a todos nós: o vírus de começarmos a pensar em possibilidades alternativas de sociedade, possibilidades para além do Estado-nação, e que se atualizam nas formas de cooperação e solidariedade globais. Muito se especula hoje que o coronavírus pode levar à queda do governo comunista na China, da mesma forma que (como o próprio Gorbatchov admitiu) a catástrofe de Chernobyl foi o acontecimento que deflagrou o fim do comunismo soviético. Mas há um paradoxo aqui: pois o coronavírus também deve nos estimular a reinventar o comunismo com base na confiança no povo e na ciência.

na cena final de Kill Bill: Volume 2, de Quentin Tarantino, a protagonista Beatrix (Uma Thurman) debilita o malvado Bill (David Carradine) e o golpeia com a “técnica dos cinco pontos que explodem o coração”, o golpe mais mortífero de todas as artes marciais. A técnica consiste em uma combinação de cinco golpes aplicados com a ponta dos dedos em cinco pontos de pressão diferentes no corpo do oponente – depois de sofrer o golpe, assim que a vítima virar as suas costas e completar cinco passos, seu coração explode e ela desaba. (Esse golpe, desnecessário dizer, é parte da mitologia de artes marciais de matriz chinesa mas não pode ser reproduzido na realidade.) No filme, depois que Beatrix aplica o golpe em Bill, ele calmamente faz as pazes com ela antes de dar seus cinco passos e morrer… O que faz esse golpe ser tão fascinante é o intervalo que ele comporta entre sua execução e o momento da morte: uma vez golpeado posso ainda ter uma conversa tranquila contanto que eu permaneça sentado calmamente, embora esteja plenamente ciente de que a partir do momento que me eu levantar para andar, meu coração irá explodir e eu cairei duro.

Não poderíamos dizer que a ideia por trás das especulações sobre como o coronavírus pode levar à queda do governo comunista na China passa um pouco por aí? Como se essa epidemia operasse como uma espécie de ataque social ao regime comunista chinês com “técnica dos cinco pontos que explodem o coração”? Uma vez golpeados, eles ainda podem permanecer sentados, comentando a situação com tranquilidade e tocando os procedimentos rotineiros de quarentena etc., mas toda e qualquer mudança real na ordem social (como efetivamente confiar nas pessoas) inevitavelmente levará a seu colapso… Minha modesta opinião, contudo, é muito mais radical que essa: arrisco dizer que essa epidemia do coronavírus é uma espécie de ataque com a “técnica dos cinco pontos que explodem o coração” a todo o sistema capitalista global – um sinal de que não podemos mais continuar tocando as coisas da mesma forma, que é necessária uma mudança radical.

Alguns anos atrás, o crítico literário e ensaísta Fredric Jameson chamou atenção ao potencial utópico presente nos filmes sobre catástrofes cósmicas. Isto é, uma ameaça global como um asteroide ameaçando a vida no planeta Terra ou uma pandemia que está aniquilando a humanidade traz a potencialidade de ensejar uma nova solidariedade global: diante dela nossas pequenas diferenças tornam-se insignificantes e todos passamos a trabalhar juntos para encontrar uma solução. E aqui estamos nós hoje, na vida real. Veja, o ponto não é se aproveitar sadicamente do sofrimento generalizado contanto que ele contribua com nossa causa. Muito pelo contrário. Trata-se de refletir sobre o triste fato de que precisamos de uma catástrofe dessa magnitude para nos fazer repensar as características básicas da sociedade em que vivemos.

O primeiro modelo ainda vago desse tipo de coordenação global é a Organização Mundial de Saúde (OMS), que não vem nos oferecendo a bobageira burocrática usual, mas sim alertas precisos, divulgados sem alarde. Devemos conceder a tais organizações mais poder executivo. Bernie Sanders vem sendo ridicularizado por céticos por defender atendimento universal gratuito de saúde nos EUA – mas será que a lição desta epidemia do coronavírus não é de que é necessário ainda mais do que isso, de que devemos começar a montar algum tipo de rede global de atendimento de saúde?

Um dia depois do vice-ministro iraniano da saúde, Iraj Harirchi, realizar uma coletiva de imprensa para tentar minimizar o alarde sobre a disseminação do coronavírus e afirmar não haver necessidade de implementar quarentenas de massa, ele soltou uma declaração breve admitindo que ele próprio havia contraído o coronavírus e se colocado em situação de isolamento (já durante a primeira aparição televisiva, ele chegou a apresentar repentinos sintomas de febre e fraqueza). Harirchi acrescentou: “Este vírus é democrático, e não discerne entre pobres e ricos ou entre políticos e cidadãos comuns.” Nesse sentido, ele está profundamente correto – estamos todos no mesmo barco.

E não estamos lidando apenas com ameaças virais – outras catástrofes também rondam nosso horizonte, se já não estão ocorrendo: secas, ondas de calor, tempestades massivas etc. Em todos esses casos, a resposta correta não deve ser um pânico generalizado, mas sim o trabalho duro e urgente de se estabelecer algum tipo de coordenação global eficiente.

A primeira ilusão da qual devemos nos desvencilhar é aquela formulada por Trump durante sua visita à Índia – a saber, de que a epidemia vai regredir logo e que só precisamos esperar chegar o pico pois em seguida a vida voltará ao normal… A China, aliás, já está se preparando para esse momento: a mídia deles chegou a anunciar que, terminada a epidemia, as pessoas terão de trabalhar de sábado e de domingo para tirar o atraso. Contra essas esperanças demasiadamente fáceis, a primeira coisa a admitir é que a ameaça veio para ficar: mesmo se essa onda recuar, ela voltará a surgir em novas formas, talvez até mais perigosas.

Por esse motivo, é de se esperar que as epidemias virais terão impacto nas nossas interações mais elementares com outras pessoas, com os objetos à nossa volta e inclusive com nossos próprios corpos. Evite entrar em contato com coisas que poderiam estar “contaminadas”, não toque em livros, não sente em privadas públicas ou em bancos públicos, procure não abraçar os outros e apertar suas mãos… talvez até fiquemos mais ciosos sobre nossos gestos espontâneos: não mexa muito no nariz, evite esfregar os olhos e coçar o corpo. Ou seja, não é apenas o Estado e outras instâncias que nos controlarão: devemos aprender a controlar e disciplinar a nós mesmos.

Talvez apenas a realidade virtual seja considerada segura, e se deslocar livremente em um espaço aberto se torne algo reservado para as ilhas privativas dos ultrarricos. Mas mesmo no nível da realidade virtual e da internet, vale lembrar que nas últimas décadas os termos “vírus” e “viral” eram usados principalmente para designar fenômenos digitais que estavam infectando nosso espaço-virtual e dos quais não estávamos cientes, ao menos não até que seu poder destrutivo (digamos, de corromper nossos dados ou torrar nossos HDs) fosse liberado. O que estamos testemunhando agora é um retorno massivo ao significado literal originário do termo. As infecções virais operam de mãos dadas em ambas as dimensões, real e virtual.

Outro fenômeno esquisito que podemos observar é o retorno triunfal do animismo capitalista de se tratar fenômenos sociais, tais como mercados ou capital financeiro, como entidades vivas. Ao lermos algumas das principais manchetes da grande mídia, a impressão que fica é que o que realmente deve nos preocupar não são os milhares que já morreram (e milhares que ainda vão morrer) mas o fato de que “os mercados estão ficando nervosos” – o coronavírus está perturbando cada vez mais o bom funcionamento do mercado mundial, e, como nos é dito, o crescimento pode sofrer uma queda de 2 ou 3 por cento… Será que isso tudo não assinala claramente a necessidade urgente de reorganizarmos nossa economia global de modo a não deixá-la mais à mercê dos mecanismos de mercado? Não me refiro aqui ao comunismo à moda antiga, é claro, mas simplesmente de algum tipo de organização global capaz de controlar e regular a economia, bem como limitar a soberania de Estados-nação quando assim for necessário. Países inteiros foram capazes de fazer isso em condições de guerra, e estamos efetivamente efetivamente nos aproximando, todos nós, de um estado de guerra médica.

Além disso, também não devemos temer apontar certos efeitos colaterais potencialmente benéficos dessa epidemia. Um dos símbolos da epidemia são passageiros presos (postos em quarentena) em grandes cruzeiros – que ironia do destino, fico tentado a dizer, para a obscenidade que representam essas embarcações. (Só precisamos tomar cuidado para que a viagem para ilhas desertas ou para outros resorts exclusivos não se torne privilégio da minoria de ricos, como décadas atrás ocorria com a viagem de avião). A produção automobilística ficou seriamente afetada – bem, isso pode até nos obrigar a pensar em alternativas para nossa obsessão com veículos individuais… A lista pode ser prolongada indefinidamente.

Em um discurso recente, Viktor Orbán disse o seguinte: “Não existe liberal. Um liberal não é nada mais que um comunista diplomado.” Mas e se no fundo o oposto for verdadeiro? Se chamarmos de “liberais” aqueles que se importam com nossas liberdades, e “comunistas” aqueles que estão cientes de que só podemos salvar essas liberdades com mudanças radicais visto que o capitalismo global se aproxima de uma crise, então devemos dizer que, hoje, aqueles que ainda se consideram comunistas são liberais diplomados – liberais que estudaram seriamente por que nossos valores liberais estão sob ameaça e tornaram-se conscientes de que apenas uma mudança radical pode salvá-los.

Explicando os Panama Papers, ou, porque o cachorro lambeu a si mesmo?

mossack

Por Slavoj Žižek, via Newsweek, traduzido por Leojorge  Panegalli

A única coisa verdadeiramente surpreendente sobre o vazamento dos Panama Papers é que não há surpresa alguma neles: Não aprendemos exatamente o que esperávamos aprender deles?Contudo, uma coisa é saber sobre contas em bancos offshore em geral, e outra é ver provas concretas. É como saber que o parceiro está te enganando – pode-se aceitar o conhecimento abstrato sobre isso, mas a dor surge quando sabe-se dos detalhes picantes. E quando recebe-se fotos do que eles estavam fazendo… Então agora, com o Panama Papers, nós somos confrontados com algumas das fotos sujas da pornografia do mundo rico, e não podemos mais fingir que nós não sabemos.

Em 1843, o jovem Karl Marx alegou que antigo regime alemão “apenas imagina que acredita em si mesmo e demanda que o mundo deveria imaginar a mesma coisa”. Em tal situação, causar envergonha naqueles que estão no poder torna-se uma arma por si só. Ou, como Marx continua, “a real pressão deve ser feita pressionando por adição à consciência da pressão, a vergonha deve ser feita mais vergonhosa por publicizá-la”.  

Esta é nossa situação hoje: Nós estamos encarando o cinismo desavergonhado da ordem global existente, cujos agentes apenas imaginam que eles acreditam nas suas ideias de democracia, direitos humanos, etc., e através de movimentos como WikiLeaks e as divulgações dos Panama Papers, a vergonha – nossa vergonha por tolerar tal poder sobre nós – torna-se mais vergonhosa pela publicização disto.

Uma rápida olhada nos Panama Papers revela uma característica positiva de destaque  e uma característica negativa de destaque. A positiva é a solidariedade abrangente dos participantes: no mundo sombrio do capital globalizado, nós somos todos irmãos. O mundo Ocidental desenvolvido está lá, incluindo os incorruptíveis escandinávos, e seu aperto de mãos com Vladimir Putin. E o Presidente Chinês Xi, Iran e Coréia do Norte Também estão lá. Mulçumanos e Judeus trocam piscadelas amigáveis – é um verdadeiro reino do multicuturalismo onde todos são iguais e todos são diferentes. A característica negativa: contundente ausência dos Estados Unidos, o que dá alguma credibilidade para a alegação russa e chinesa de que interesses políticos particulares estavam envolvidos no inquérito.

Então o que faremos com toda esta informação? A Primeira (e predominante) reação é a explosão de raiva moralista, claro. Mas o que nós devemos fazer é mudar a pauta imediatamente, da moralidade para o nosso sistema econômico: políticos, banqueiros e gestores sempre foram gananciosos, então o que em nosso sistema legal e econômico permitiu a eles realizarem sua ganância de uma maneira tão grande?   

Do desmoronamento financeiro de 2008 em diante, figuras públicas, do papa para baixo, nos bombardearam com injunções para combater a cultura da ganancia excessiva e consumo. Como um dos teólogos próximos ao papa colocou: “A presente crise não é uma crise do capitalismo, mas a crise da moralidade”. Até mesmo partes da esquerda seguiram este caminho. Não exite falta de anticapitalismo hoje: protestos Occupy explodiram há alguns anos, e nós até percebendo uma sobrecarga de criticas sobre os horrores do capitalismo: abundam, livros, jornais, investigações profundas e reportagens televisivas sobre companhias impiedosamente poluindo nosso meio-ambiente, sobre banqueiros corruptos que continuam a ter gordos bônus enquanto seus bancos tem de ser salvos por dinheiro público, advindo de locais de trabalho em condições degradantes, onde crianças trabalham horas extras.    

Existe, no entanto, uma questão nesse grande fluxo de crítica: o que, via de regra, não é questionada, o quadro democrático-liberal de luta contra estes excessos. O objetivo explicito ou implícito é o de democratizar o capitalismo, para estender o controle democrático sobre a economia, através da pressão da mídia pública, inquéritos governamentais, leis mais duras e investigações policiais mais honestas. Mas o sistema como tal não é questionado, e seu quadro institucional democrático de Estado de Direito permanece a vaca sagrada que até mesmo as formas mais radicais desta “ética anticapitalista”, como o Occupy, não toca.

O erro a ser evitado aqui é melhor exemplificado pela história – apócrifa, talvez – sobre o economista esquerdo-keynesiano John Galbraith: antes da viagem para a URSS nos idos de 1950, ele escreveu para seu amigo anti-comunista Sidney Hook: “Não se preocupe, eu não serei seduzido pelos Sovietes e voltar para casa clamando que eles tem Socialismo!”. Hook prontamente o respondeu: “Mas é isso que me preocupa – que você volte alegando que a URSS NÃO é socialista!”. O que preocupava Hook era a defesa ingênua da pureza do conceito: se as coisas derem errado na construção de uma sociedade Socialista, isto não invalida a ideia mesma, somente significa que nós não a implementamos apropriadamente. Nós não detectamos a mesma ingenuidade nos fundamentalistas do mercado de hoje?  

Quando, durante um debate televisivo na França há alguns anos, o intelectual francês Guy Sorman alegou que a democracia e o capitalismo necessariamente vão juntos, eu não pude resistir em fazer para ele a pergunta óbvia: “Mas e a China hoje?” Sorman retrucou: ”Na China não existe capitalismo!”. Para o fanático pró-capitalismo Sorman, se o país não é democrático, significa simplesmente que não é verdadeiramente capitalista, mas pratica sua versão desfigurada, da exata mesma maneira que para um democrata o  Comunismo Stalinista simplesmente não foi uma forma autêntica de Comunismo.

O erro que subjaz não é difícil de identificar – é o mesmo como na conhecida piada: “Minha noiva nunca está atrasada para um compromisso, porque no momento que ela está atrasada ela não é mais minha noiva!”. É assim como hoje a apologia do mercado, em um inédito sequestro ideológico, explica a crise de 2008: Não foi uma falha do livre mercado que causou isto, mas a regulação excessiva, i.e., o fato de que nossa economia de mercado não o era verdadeiramente, que este ainda está nas garras do Welfare State. A lição dos Panama Papers é que, precisamente, isso não é o caso: A corrupção não é um desvio contingencial do sistema capitalista global, é parte do seu funcionamento básico.

A realidade que emerge do vazamento dos Panama Papers é a da divisão de classe, e é simples assim. Os papéis demonstraram como pessoas ricas vivem em um mundo separado no qual são aplicadas regras diferentes, no qual o sistema legal e autoridade policial são pesadamente torcidos e não apenas protegem os ricos, mas estão ainda prontos para sistematicamente flexibilizar a vigência da lei para acomodá-los.

Já existem muitas reações liberais direitistas aos Panama Papers colocando a culpa no excesso do nosso Welfare State, ou o que tenha sobrado dele. Já que a riqueza é tão fortemente taxada, não é de se admirar que seus donos tentem movê-las para lugares com taxas mais baixas, que, em última instancia, não é nada ilegal. Tão ridícula quanto essa desculpa é, este argumento tem uma verdade nuclear, e que faz dois pontos dignos de nota. Primeiro, a linha que separa transações legais de ilegais está ficando cada vez mais enevoada, e frequentemente reduzida a uma questão de interpretação. Segundo, donos de fortunas que as levam para contas offshore e paraísos fiscais não são monstros gananciosos, mas indivíduos que simplesmente agem como sujeitos racionais tratando de salvaguardar suas riquezas.  No capitalismo, você não pode jogar fora a água suja da especulação financeira e manter o bebê saudável da economia real. A água suja efetivamente é a linha sanguínea do bebê saudável.

Não deve-se ter medo de ir até o final aqui. O sistema legal do capitalismo global mesmo é, na sua dimensão mais fundamental, corrupção legalizada. A questão de onde o crime começa (quais negociações financeiras são ilegais) não é uma questão legal mas eminentemente uma questão política, de luta pelo poder.

Então porque milhares de homens de negócio e políticos fazem o que é documentado nos Panama Papers? A resposta é a mesma da velha piada: Por que os cachorros lambem eles mesmos? Porque eles podem.

FONTE: https://lavrapalavra.com/2016/04/11/explicando-os-panama-papers-ou-porque-o-cachorro-lambeu-a-si-mesmo/

Žižek: A utopia de Piketty

Numa conferência em Londres, o filósofo esloveno comentou o livro de Thomas Piketty, considerando utópica a ideia de que seria possível combinar o capitalismo que existe hoje com uma taxação forte do capital.

Montagem sobre foto de Mariana Costa/Flickr

Le Capital au XXIe siècle, é um livro essencialmente utópico. Porquê? Por causa da sua modéstia. Thomas Piketty percebe a tendência inerente do capitalismo à desigualdade social, de tal forma que a ameaça à democracia parte do interior da própria dinâmica capitalista. Até aí tudo bem, estamos de acordo. Ele vê o único ponto luminoso da história do capitalismo entre as décadas de 30 e de 60, quando essa tendência para a desigualdade era controlada, com um Estado mais forte, Welfare State etc. Mas reconhece ainda que as condições para isso foram – e eis a trágica lição do livro – Holocausto, Segunda Guerra Mundial e crise. É como se estivesse implicitamente a sugerir que a nossa única solução viria com uma nova guerra mundial, ou algo assim!

Ele é quase que uma versão social-democrata do Peter Mandelson, aquele príncipe negro de Tony Blair que disse que na economia somos todos thatcheritas, e que tudo o que podemos fazer é intervir ao nível da distribuição, um pouco mais para a saúde, para a educação e assim por diante.

Sabem porque digo que ele é utópico? De certa forma ele não está errado. A tentativa de superação do capitalismo no século XX de facto não funcionou. O problema é que ele então acaba implicitamente generalizando isso. Piketty aceita, como um bom keynesiano, que o capitalismo é, ao fim e ao cabo, o único jogo na praça; que todas as alternativas a ele acabaram em fiasco, e que portanto temos de preservá-lo. Ele é quase que uma versão social-democrata do Peter Mandelson, aquele príncipe negro de Tony Blair que disse que na economia somos todos thatcheritas, e que tudo o que podemos fazer é intervir ao nível da distribuição, um pouco mais para a saúde, para a educação e assim por diante.

Thomas Piketty é utópico porque ele simplesmente propõe que o modo de produção permaneça o mesmo: vamos só mudar a distribuição implementando – e não há nada de muito original nessa ideia – impostos radicalmente mais altos.

Aqui começam os problemas e entra a sua utopia. Não digo que não devemos fazer isso, só insisto que fazer apenas isso não é possível. Essa é a utopia dele: que basicamente podemos ter o capitalismo de hoje, que como maquinaria permaneceria basicamente inalterado: “opa opa, quando você lucra bilhões, aqui estou eu, imposto, dê-me 80% da sua faturação”. Não acho que isso seja fazível. Imagine um governo fazer isso a nível mundial. E Piketty está ciente que isso deve ser feito globalmente, porque se fizer em um só país, o capital desloca-se para outro lugar e assim por diante. O meu argumento é que se você conseguir imaginar uma organização mundial em que a medida proposta por Piketty possa efetivamente ser realizada, então os problemas já estão resolvidos. Então você já tem uma reorganização política total, um poder global que pode efetivamente controlar o capital. Ou seja: nós já vencemos!

É claro que seria ótimo ter o capitalismo de hoje, com todas as suas dinâmicas, e só mudá-lo ao nível da redistribuição – mas isso é que é utópico.

Então acho que nesse sentido Piketty faz batota: o verdadeiro problema é o de criar as condições para que a sua medida aparentemente modesta seja atualizada. E é por isso que, volto a dizer, não estou contra ele, ótimo, vamos lá cobrar 80% de imposto dos capitalistas. O que digo é que se você fosse fazer isso, logo se daria conta de que isso levaria a mudanças subsequentes. Digo que é uma verdadeira utopia – e isso é o que Hegel queria dizer com pensamento abstrato: imaginar que você pode tomar uma medida apenas e nada mais muda. É claro que seria ótimo ter o capitalismo de hoje, com todas as suas dinâmicas, e só mudá-lo ao nível da redistribuição – mas isso é que é utópico. Não se pode fazer isso pois uma mudança na redistribuição afetaria o modo de produção, e consequentemente a própria economia capitalista. Às vezes a utopia não é anti-pragmática. Às vezes ser falsamente modesto, ser um realista, é a maior utopia.

É como – e perdoem-me o paralelo esdrúxulo – um certo simpatizante nazista que disse basicamente: “Ok, Hitler está certo, a comunidade orgânica e tal, mas porque ele não se livra logo desse asqueroso antissemitismo”. E houve uma forte tendência, inclusive dentre os judeus – e isso é realmente uma história curiosa –, houve uma minoria de judeus conservadores que inclusive se dirigiam a Hitler dessa maneira: “Bolas, nós concordamos consigo, unidade nacional e tal, mas por que você nos odeia tanto, queremos estar com você!” Isso é pensamento utópico. E é aqui que entra o velho conceito marxista de totalidade. Tudo muda se você abordar os fenómenos com a perspectiva da totalidade.


* Extraído da conferência “Towards a Materialist Theory of Subjectivity“, no Birbeck Institute for the Humanities.  A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.

FONTE: http://www.esquerda.net/artigo/zizek-utopia-de-piketty/32896