Snowden alerta para cuidados com a comunicação online

Tradução: Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Informações de Alan Rusbridger e Ewen MacAskill [“Edward Snowden urges professionals to encrypt client communications”, The Guardian, 17/7/14]; e Andrew Beaujon [“Edward Snowden is designing tools for journalists”, Poynter, 17/7/14]

Em um longa entrevista concedida ao jornal britânico The Guardian, Edward Snowden, o ex-técnico da NSA que denunciou o programa de espionagem da agência de inteligência americana, incitou jornalistas e outros profissionais, como advogados e médicos, a proteger sua privacidade na internet.

Na entrevista ao editor-chefe do Guardian, Alan Rusbridger, e a Ewen MacAskill, correspondente de Defesa e Inteligência do jornal, Snowden ressaltou que as pessoas precisam ter em mente que vivem em “um novo mundo de desafios”. “O que as revelações feitas no ano passado nos mostraram foi uma prova incontestável de que as comunicações pela internet que não são codificadas deixaram de ser seguras. Consequentemente, todas as comunicações deveriam ser codificadas”, defendeu.

“Os jornalistas têm que estar particularmente conscientes sobre qualquer tipo de sinal pela rede, qualquer tipo de conexão, qualquer tipo de aparelho de leitura pelo qual passem a caminho de um encontro; têm que pensar que o uso do cartão de crédito, do telefone ou do e-mail que tenham com qualquer fonte antes que sejam estabelecidas comunicações codificadas é o suficiente para revelar um sigilo”, alertou.

Projeto de encriptação

Snowden disse que usa parte de seu tempo projetando ferramentas de encriptação para ajudar profissionais, como os jornalistas, a proteger fontes e informações. Ele afirmou que está negociando um financiamento para esse projeto. “Um lamentável efeito colateral do desenvolvimento destas novas tecnologias de vigilância é que o trabalho jornalístico tornou-se incomensuravelmente mais difícil do que era no passado”.

A reação foi rápida. Durante um debate na Câmara dos Comuns britânica sobre uma nova lei a respeito de vigilância, o ministro do Interior, James Brokenshire, disse que estava sendo estudado um código para proteger os privilégios legais e o sigilo dos profissionais.

Durante as sete horas de sua entrevista ao Guardian, Edward Snowden disse que:

** Se acabasse preso na base militar norte-americana de Guantánamo, saberia como sobreviver.

** Ao contrário do que dizem nos jornais – que ele estaria deprimido –, não se sente triste nem se arrepende de coisa alguma. Snowden classifica várias teorias conspiratórias, inclusive sugestões de que seja um espião russo, como “besteira”.

** Ao contrário de uma denúncia de que estaria trabalhando para uma organização russa, mantém sua segurança com independência, vivendo de poupança e dinheiro que recebe de prêmios e palestras que dá, via internet, por todo o mundo.

** Sobre seu futuro, aparentemente será a Rússia, por algum tempo, e manifesta sua decepção com os governos da Europa Ocidental, que não lhe ofereceram asilo.

** Espera conseguir um julgamento com júri nos EUA, pois acredita que seria difícil encontrar 12 jurados que o condenassem por um delito que é a defesa de um interesse público.

FONTE: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed808_snowden_alerta_para_cuidados_com_a_comunicacao_online

Glenn Greenwald, do caso Snowden, lança site para continuar tratando dos documentos da NSA

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Para quem achava que o jornalista Glenn Greenwald tinha desaparecido de cena após ganhar o prêmio Pulitzer (talvez o maior do jornalismo internacional, se enganou. Além de estar escrevendo um livro para divulgar fatos ainda desconhecidos sobre o escândalo de espionagem envolvendo a National Security Agency (NSA), Greenwald e colaboradores acabam de lançar o site “The Intercept”.

Segundo  que está declarando pelos responsáveis do “The Intercept”,  o site se destina a cumprir dois objetivos básicos, um de curto e outro de longo prazo. O de curto prazo seria oferecer uma plataforma para continuar divulgando documentos vazados por Edward Snowden sobre as atividades ilegais do NSA. O objetivo de longo prazo seria oferecer um tipo de jornalismo independente que tratará de assuntos polêmicos sem se preocupar com quem se revolte ou se sinta alienado.

Para começar os dois objetivos num só artigo, Greenwald já postou um texto sobre o falso Twitter que havia sido criado pela United States Aid Agency (USAID) para fomentar dissidências e promover esforços para subverter o governo cubano.

Quem quiser acessar o “The Intercept” basta clicar (Aqui!).

A vitória de Snowden e o fracasso de Obama

Por Caue Seigne Ameni

Ilustração de Jason Stou

Ilustração de Jason Stou, Ex-agente que denunciou NSA indicado para Nobel da Paz. Em Washington, presidente debate-se para preservar espionagem e salvar aparências

Por Cauê Seignemartin Ameni

Aos poucos vão surgindo as evidências de que a história trabalha mais a favor do ex-agente Edward Snowden, do que do presidente americano Barack Obama. Na quarta-feira (29/01), o ex-agente que revelou a maior plataforma de vigilância da história, foi indicado para concorrer o Prêmio Nobel da Paz. Oscar Wilde, escritor inglês do século XIX, sintetizou uma vez a importância histórica de fatos como este: “a desobediência, é aos olhos de qualquer estudioso da História, a virtude original do homem. É através da desobediência que se faz o progresso, através da desobediência e da rebelião”.

No outro lado da corda, Obama admitiu pela primeira vez em público (17/01), a necessidade de mudanças no trabalho da Agência de Segurança Nacional americana (NSA). Depois de sete meses de revelações cada vez mais desconfortáveis e crescente clamor público, ponderou: “nossa liberdade não pode depender das boas intenções de quem está no poder, e sim da lei que restringe esse poder”. Num longo discurso, apoiou alguns pontos do grupo de especialistas criado pela Casa Branca para reformular o sistema de vigilância do governo. Mas ignorou as sugestões mais importantes, mantendo-se em apenas dois pontos superficiais: 1) restringir progressivamente o programa de armazenamento maciço de dados telefónicos nos EUA, tal como existe hoje e; 2) limitar a espionagem sobre líderes aliados – inimigos continuam sendo alvo – , que provocou uma tempestade diplomática com países amigos.

Para os vastos setores da opinião pública que pedem o fim da perseguição a Snowden, o governo americano passou longe do esperado. Em seu editorial, o próprio New York Times classificou o discurso de Obama como “eloquente sobre a necessidade de equilibrar a segurança da nação com privacidade pessoal e liberdades civis”, mas “frustrante em detalhas e vago na implementação”. O jornalista Lorenzo Franceschi-Bicchierai, especialista nos assuntos sobre ciber-política na revista digital Mashable Nova Yorklistou algumas mudanças importantes que foram completamente ignoradas.

1. Todos os outros programas de coleta em massa de dados contiuam

Obama apoia a proposta do grupo de especialistas que criou, para retirar da NSA o banco de dados sobre as chamadas telefônicas. No entanto, o governo não pronunciou uma palavra sobre como restringirá a coleta em massa de metadados da Internet. “Esse tipo de programa pode ser utilizado para obter mais informações sobre nossas vidas privadas e abre as portas a outros programas mais intrusivos”, diz o NYT.

2. O Defensor Público, no Tribunal FISA

O grupo interno recomendou a criação de um “Advogado Defensor do Interesse Público”, para lutar pela privacidade e liberdades civis perante os juízes do “Tribunal FISA” – que podem impedir a coleta de dados privados sobre cidadãos… Advogados e juristas apoiaram a ideia, uma vez o “Tribunal FISA” não respeita direitos civis básicos. Apenas os defensores do governo podem prestar depoimento; as sessões e os vereditos são secretos. Obama porém, não confirmou a aceitação da proposta. Apenas disse, vagamente, que um grupo de especialistas participará das sessões secretas do tribunal. E que serão ouvidos só em “casos significativos…”

3. Revisão Judicial das Cartas da Segurança Nacional

O FBI vem usando as chamadas Cartas de Segurança Nacional há anos, para exigir que bancos, empresas de internet e de telefonia entreguem dados de seus clientes e usuários. Funcionam como uma espécie de “salvoconduto” administrativo, liberando o FBI para requerer dados dos usuários diretamente às empresas, sem necessidade de pedir uma autorização judicial. O grupo interno de Obama, sugeriu que mudasse esse procedimento, reformando a lei, para tornar indispensável a aprovação de um juiz em todos os casos. Porém, a Casa Branca apoiou apenas mais “transparência” e não disse uma palavra sobre a necessidade de supervisão judicial.

4. Espionagem nas bases de dados de empresas comerciais norte-americanas em todo o mundo

Documentos vazados em outubro por Snowden, revelaram que a NSA recolhia vasta quantidade de dados de usuários na internet, sem que as empresas como Google e Yahoo soubessem. A agência obtve acesso aos servidores onde os dados eram armazenados. Obama não disse nada a respeito e o porta-voz da Casa Branca, contatado pelo site Mashable, não quis comentar o assunto.

5. O trabalho da NSA para derrubar os padrões de segurança e encriptação

Em setembro, o New York Times revelou o enorme esforço da NSA para derrubar os padrões de segurança e encriptação, de modo que os agentes tivessem acesso a comunicação que usuários acreditavam estar protegidas.

A NSA e até o FBI foram acusados de invadir sistemas criptografados, depois de terem solicitado que empresas de software incluíssem “portas do fundos” nos programas vendidos a consumidores, uma espécie de entrada secretas, por meio das quais espionavam os usuários da nova versão do Windows, por exemplo.

O grupo para reformular a NSA, apoiou a criação de tecnologia mais forte de encriptação, argumentando que o governo não pode “de modo algum subverter, minar, enfraquecer ou trabalhar para tornar vulneráveis, softwares oferecidos à venda a consumidores como se fossem seguros.” Obama nada disse sobre o caso.

Graves denunciais, nenhuma reposta 

Obama também calou-se em relação às denuncias feitas ao longo dos últimos meses por grandes publicações internacionais, que se assustaram com a capacidade cada vez mais invasora da NSA. Numa das mais recentes, o New York Times revelou, em janeiro de 2014, o programa de implantação de vírus em cerca de 100.000 computadores mundo afora, para devassar dados e lançar ataques até mesmo a computadores sem acesso a internet. .

Usada desde 2008 para invadir computadores, a tecnologia via rádio permite contorna uma das principais dificuldades enfrentada pela agências durante anos: penetrar em maquinas cuja os adversários tornaram impermeável à espionagem ou ciberataque. O dispositivo é inserido fisicamente pelo fabricante do equipamento ou por um espião, transmitindo dados do computador visado comunicar através de radiofrequência.

O principal programa que usa este método radical de espionagem tem codinome Quantum. E entre seus alvos, estão o exército chinês; o sistema militar russo; a rede utilizada pelos cartéis mexicanos; instituições comerciais dentro da União Europeia, e terroristas inimigos da Arábia Saudita, Índia e Paquistão.

Ao expor tudo isso, Snowden girou a roda história. Revelou, lembra o New York Times, a ignorância e falta de controle do presidente americano, que não tinha conhecimento das operações obscuras perpetradas pela agência de segurança de seu próprio governo. Infelizmente, ao invés de parabeniza-lo, Obama preferiu desaprovar seus métodos. “A defesa da nossa nação”, disse, “depende em parte da fidelidade daqueles a quem os segredos são confiados”. A diferença é que, ao contrário do presidente, o ex-agente é mais fiel aos cidadãos do que as agências militares.

FONTE: http://outraspalavras.net/blog/2014/01/31/a-vitoria-de-snowden-e-o-fracasso-de-obama/

Editorial do New York Times defende perdão para Edward Snowden

A situação política estadunidense ficou mais interessante no dia de hoje com a publicação de um artigo assinado pelo comitê editorial do matutino novayorquino New York Times, onde foi feita a defesa de um perdão presidencial para o ex-analista de inteligência da National Security Agency (NSA), Edward Snowden.

Essa mudança de posição do The New York Times representa um duro golpe para os defensores da prisão e punição exemplar de Snowden por causa das revelações dos muitos malfeitos cometidos pela NSA contra cidadãos norte-americanos e de outros países, incluindo a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, e a estatal do petróleo Petrobras.

Segundo o que argumento o New York Times uma pessoa que revela ilegalidades cometidas por um determinado governo não pode ser julgada por esse mesmo governo. O editorial bai mais além ao dizer que Snowden na prática prestou um grande serviço à democracia estadunidense ao revelar graves violações aos direitos à privacidade dos cidadãos daquele país.

Se Barack Obama vai conceder esse perdão ou não, ainda é cedo para dizer Mas uma coisa é certa: a segurança pessoal de Snowden ganhou um certo alívio. É que ficaria muito ruim se ele aparecesse morto depois dessa defesa feita pelo principal jornal dos EUA.

Agora, no plano interno da política brasileira, vamos ver se Dilma Rousseff sai de sua posição diplomática covarde e manda pelo menos uma carta de agradecimento à Edward Snoweden que revelou a espionagem de seus e-mails pelo NSA.