Agronegócio brasileiro só é competitivo porque exporta soja sem cobrar por água e biodiversidade perdidas, diz cientista

soja bbcBrasil é o maior exportador de soja do mundo. Ueslei Marcelino/Reuters

Por  Leandro Machado para BBC News Brasil em São Paulo

Para o biólogo e pesquisador Reuber Brandão, o Cerrado brasileiro vive um momento dramático: o desmatamento e o avanço descontrolado do agronegócio sobre o território estão matando nascentes de água e pequenas lagoas extremamente importantes para o abastecimento da população e a geração de energia elétrica.

Oito das 12 principais bacias hidrográficas brasileiras, como as dos rios São Francisco e Paraná, nascem nesse que é o segundo maior bioma do país, perdendo só para a Amazônia.

Segundo Brandão, o uso da água do Cerrado para irrigação de produtos agrícolas, principalmente a soja, está diminuindo o volume do recurso nessas bacias, além de destruir boa parte da fauna e da flora que fazem do bioma a savana mais biodiversa do planeta.

“Quando você exporta uma commodity como a soja, o valor da água e da biodiversidade perdidas não está embutido no preço da semente. Por isso, o Brasil é competitivo”, disse o pesquisador em entrevista à BBC News Brasil.

Brandão aponta que boa parte do bioma já está perdido para sempre. Conservar o restante do Cerrado, diz, seria um movimento estratégico mais importante do que manter o país na posição de maior exportador de soja do mundo.

Segundo o Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Cerrado perdeu 4.091,6 km² para o desmatamento entre janeiro e julho deste ano, uma alta de 28,2% em relação ao mesmo período do ano passado.

Os dados mostram que os Estados que mais desmataram estão na região conhecida como Matopiba — principal fronteira de expansão agrícola no país: Maranhão, Bahia, Tocantins e Piauí.

De acordo com o MapBiomas, plataforma que monitora o uso do solo no Brasil, 45,4% do Cerrado já foi destruído para dar lugar à agropecuária.

Reuber Brandão, de 50 anos, conhece o Cerrado desde a infância, quando brincava e consumia as frutas típicas. Depois, estudou a biodiversidade da região até virar professor de manejo de fauna e de áreas silvestres da Universidade de Brasília (UnB), cidade onde nasceu. Ele também é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN).

Reuber Brandão Pesquisador Reuber Brandão, professor da UnB, estuda a biodiversidade do Cerrado. Crédito: Arquivo Pessoal.

Neste ano, o biólogo liderou uma equipe de pesquisadores em uma expedição na reserva particular Serra do Tombador, em Goiás, área que pertence à Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza desde 2007. Na área de 9 mil hectares, os cientistas encontraram 34 espécies de anfíbios e 55 répteis, boa parte desconhecida naquela região.

Reservas particulares, diz Brandão, podem ser uma das soluções para conservar a parte do Cerrado que ainda resta. “Empresários que preservam a natureza devem ser valorizados e remunerados”, diz.

Na entrevista a seguir, ele também fala sobre o consumo da água do Cerrado pelo agronegócio, o histórico da ocupação do território e como o bioma deveria ser conservado e utilizado para gerar riquezas ao Brasil.

BBC News Brasil – Por que o Cerrado é importante?

Reuber Brandão – O Cerrado é a savana mais diversa e úmida do planeta, com paisagens belíssimas como a Chapada dos Veadeiros. Quando a gente pensa em savana, pensa na África com elefantes ou na Austrália com os cangurus. Mas nenhuma dessas savanas tem a diversidade do Cerrado. Ele tem mais de 12 mil espécies de árvores.

Há uma pluviosidade (volume de chuvas) comparada à de regiões da Amazônia, mas a chuva é concentrada em poucos meses do ano. Oito das 12 bacias hidrográficas do Brasil nascem no Cerrado. E, em algumas delas, 70% de suas águas vêm do bioma, como a bacia do rio São Francisco. Pensando em grandes projetos para o país, sem a conservação do Cerrado você inviabiliza inclusive a transposição do São Francisco.

As usinas hidrelétricas dependem da água do Cerrado para gerar energia. Os processos hidrológicos do Pantanal também, porque uma parte das águas que correm por ele nasce no Cerrado. Essa combinação de biodiversidade com a quantidade de nascentes coloca o bioma em uma posição estratégica para o Brasil.

BBC News Brasil – O abastecimento de água de outras partes do país pode ser afetado pela destruição do Cerrado?

Brandão – Sim, afeta do abastecimento de água nas cidades à geração de energia. Afeta a própria água necessária para a agricultura. Não faz muito sentido a agricultura brasileira tratar a água como um insumo infinito, quando todo mundo sabe que ela pode acabar.

O próprio agronegócio tem preocupação com isso, porque já sabe que mais de 80% das bacias hidrográficas do Cerrado diminuíram sua quantidade de água.

BBC News Brasil – Como essa água está sendo afetada?

Brandão – O maior reservatório de água do planeta é o solo, onde ela permanece por muito tempo. Isso permite o crescimento da vegetação e uma grande quantidade de água nas nascentes.

Nas chapadas, as áreas mais altas cobertas pelo Cerrado, essa água é aparente em veredas, lagoas rasas e nascentes. Mas esse volume vem do afloramento do lençol freático. E esse lençol depende da água da chuva que entra no solo e da quantidade usada para outros fins.

Quando há um rebaixamento desse lençol, esses ambientes deixam de crescer. Os pequenos riachos de montanha, as veredas e lagoas de alto chapadas são fortemente afetadas pela irrigação da agricultura.

BBC News Brasil – Onde isso está acontecendo?

Brandão – No oeste da Bahia, por exemplo, o aumento da demanda por água para irrigação no sistema de pivôs centrais ocasionou o desparecimento de lagoas e veredas dos rios das Éguas, Arrojado e Formoso. Conheço veredas cuja nascente recuou mais de 10 quilômetros em relação à original. Essas áreas, que tinham a presença de corpos aquáticos na paisagem, passaram a ser muito mais secas.

E isso tem um impacto muito grande sobre fauna e flora, porque as plantas que precisam ter contato com a água do solo sofrem um estresse hídrico e começam a morrer. Há um grande mortalidade de árvores. Já a fauna foge para procurar áreas com água.

BBC News Brasil – Estamos retirando a água do Cerrado para irrigar o quê?

Brandão – Principalmente soja. O único destino de ocupação do território do Cerrado é o agronegócio. E ele tem uma demanda muito grande por água. Um único pivô central, aqueles círculos de irrigação com uma lança de 150 metros, gasta por ano a mesma quantidade de água que 4 mil famílias. Cada pivô central é uma pequena cidade — e há 1 milhão deles no Brasil.

 

Pivô central em fazenda

Pivô central utilizado para irrigar lavoura. Crédito: Embrapa

Essa água é retirada do solo com autorização do Estado, por meio de outorgas previstas na lei. Mas é bem possível que existam irrigações ilegais também. A expectativa é que o número áreas irrigadas aumente muito nos próximos anos.

Quando você exporta uma commodity como a soja, o valor da água e da biodiversidade perdidas não está embutido no preço da semente. Por isso, o Brasil é competitivo. É uma visão reducionista e míope do país, porque a commodity não tem valor agregado e depende da oscilação do mercado. De repente, o preço cai e vira uma quebradeira geral. É diferente do produto industrial.

BBC News Brasil – O que poderia ser feito de diferente?

Brandão –O Cerrado tem um potencial de biodiversidade gigantesco. Seja para bioprodutos tecnológicos, como colas, ou para alimentícios, cosméticos e medicamentosos, como analgésicos. Há proteínas do veneno da jararaca, por exemplo, com valor econômico enorme. Ou a grande quantidade de palmeiras que nunca foram estudadas. A mesma coisa com as castanhas do Cerrado, que poderiam ter um impacto de uso global.

Veja o caso do açaí, que não é do Cerrado, mas é um produto brasileiro que em pouco tempo se tornou uma commodity. Hoje, há áreas na Amazônia que estão deixando de criar búfalos para plantar açaí, o que ajuda na recomposição da floresta.

O Cerrado é único, e o Brasil ainda não acordou para o fato de que tratá-lo como mero campo de expansão da pecuária e da agricultura sem proteção garantida pela lei é colocar fogo no nosso futuro. Estamos apostando em um modelo de produção sem valor agregado que depende da ocupação de grandes territórios para ser viável. Ninguém consegue ter uma produção de soja economicamente viável com menos de 800 hectares de terra.

 

Áreas de plantação de soja ao lado do rio Formoso, na Bahia. Os círculos são pontos com pivô central de irrigação

Áreas de plantação de soja perto do rio Formoso, no oeste da Bahia. Os círculos são pontos com pivôs centrais de irrigação. Crédito: Google

BBC News Brasil – Os programas de conservação do Cerrado ficaram para trás em relação a outros biomas, como a Amazônia e a Mata Atlântica?

Brandão –Por muito tempo, o Cerrado se manteve conservado por causa de seu solo ácido. Poucas culturas agrícolas efetivamente davam certo. Outro ponto foi o isolamento geográfico. A maior parte da ocupação do Brasil estava no litoral e ao longo de grandes rios, como o Amazonas e o São Francisco.

Mas isso mudou bastante com a inauguração de Brasília, em 1960, e com o avanço tecnológico da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) no campo da calagem do solo (técnica de preparação que diminui a acidez do solo). Ele se tornou viável para ser ocupado pela agricultura, e isso aconteceu de maneira acelerada.

Quando o Brasil acordou, boa parte do Cerrado já estava destruída. Não houve a criação de grandes áreas de conservação. No próprio imaginário do brasileiro, ele fica atrás de outros biomas, como Amazônia, a Mata Atlântica, o Pantanal. As pessoas se perguntam: ‘para que serve o Cerrado?’

BBC News Brasil – Quais áreas já foram destruídas?

Brandão – Existem Cerrados diferentes. Em cada lugar, há um ecossistema e uma biodiversidade diferentes, pois o Cerrado tem quase o tamanho da Argentina.

A parte sul do Cerrado, no Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas e São Paulo, praticamente não existe mais. Há apenas minúsculos fragmentos, muito alterados. As maiores áreas maiores ainda estão no norte, em Tocantins, Maranhão e Piauí. Elas são muito valiosas. E conservá-las é uma questão urgente para o Brasil. É preciso criar grandes áreas de conservação.

 

Cachoeira e lagoa no Cerrado

Pequenas lagoas e nascentes de água estão sendo afetadas pela destruição do Cerrado. Divulgação

BBC News Brasil – É possível recuperar algumas áreas?

BrandãoQuando ela está degradada, ainda é possível recompor grande parte do que foi perdido. Mas, se o solo é removido completamente, demoraria milhões de anos para recuperar a biodiversidade. As pessoas precisam entender que, quando você destrói uma área dessas, não tem mais volta, ela está permanentemente perdida.

BBC News Brasil – As chamadas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN), que estão em expansão, podem ser uma solução para o bioma?

Brandão – O grande problema das reservas privadas é que muitos proprietários não têm condição de contribuir com uma grande quantidade de terra para conservação. Para eles, é muito caro ceder o território.

Do ponto de vista da conservação, não faz grande diferença, porque pequenos fragmentos não vão ajudar muito na preservação de mamíferos e predadores de grande porte, como onças e crocodilos, que precisam de enormes áreas e muitas presas para sobreviver.

Mas esse modelo é muito importante porque, com as reservas particulares, dá para proteger áreas singulares ou pequenos remanescentes que sobraram. Dá para unir reservas e aumentar conectividade, principalmente se a propriedade for no entorno de uma área pública protegida.

Já existem 1,5 mil reservas particulares no Brasil, então o modelo deu certo. Isso mostra que o proprietário de terra não é uma pessoa insensível à conservação da biodiversidade, ele tem a percepção do valor do recurso natural. Dono de terra que conserva a natureza precisa ser valorizado.

BBC News Brasil – O senhor acredita há no agronegócio a preocupação de que a destruição de biomas como Cerrado e Amazônia pode ser prejudicial aos negócios, como haver dificuldade de exportar produtos oriundos de áreas desmatadas?

Brandão – Os empresários da agricultura não tem um modo único de pensar. Existem grandes empresários que são instruídos, que sabem o impacto da perda de água e das mudanças climáticas. Eles não são negacionistas e estão acompanhando o mercado internacional, que está cada vez mais preocupado com a questão ambiental.

Veja o caso da Europa… Você não acha que um alemão, ao ver um rio do país secar, não está pensando no efeito estufa e no desmatamento da Amazônia? Com certeza está.

 

Área de Cerrado recém-incendiadaSegundo o MapBiomas, mais de 45% do Cerrado já foi destruído para dar lugar à agropecuária. Crédito: AGÊNCIA BRASIL

A tendência é esses mercados colocarem cada vez mais barreiras para produtos vindos do desmatamento. Então existe sim uma preocupação real dos proprietários com o futuro da atividade agrícola, porque eles são pessoas que tem um vínculo com uma produção, e eles querem deixar a terra para os filhos.

BBC News Brasil – Quais são as principais questões do Cerrado que o próximo presidente precisará enfrentar?

Brandão –A primeira coisa é aumentar a rede de áreas protegidas em pontos remanescentes importante. Outra é agilizar um projeto de lei de pagamentos aos proprietários que mantêm conservação em suas áreas. Eles precisam ser remunerados por isso. É necessário que, do ponto de vista econômico, seja interessante para o proprietário manter áreas naturais em vez de desmatar.

Um terceiro ponto é se aproximar de proprietários na região do sul do Cerrado para incrementar projetos importantes de recomposição do bioma. Também seria muito importante valorizar e empoderar as universidades e instituições de pesquisa, para que seja possível desenvolver projetos de biotecnologia a partir do Cerrado.

Você pode criar startups do Cerrado. Por exemplo, uma empresa que desenvolva um novo produto a partir do baru (espécie de árvore), ou de uma castanha, um novo tipo de adesivo a partir do extrato de uma proteína de alguma planta ou animal do Cerrado. Há um potencial imenso a ser explorado.

– Este texto foi publicado originalmente em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-62718299

 Vínculos da Cargill e da Bunge com fazenda contestada no Brasil por violações de direitos humanos contradizem as próximas regulamentações da UE

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Cargill e Bunge, as duas maiores comercializadoras de soja brasileira do mundo, foram recentemente vinculadas a uma fazenda contestada no Brasil, conectando as empresas a violações de direitos humanos de comunidades tradicionais. Earthsight e De Olho nos Ruralistas, duas organizações sem fins lucrativos no Reino Unido e no Brasil, descobriram recentemente que a Cargill e a Bunge estão adquirindo soja de Brasília do Sul, uma fazenda de soja de 9.785 hectares em Mato Grosso do Sul (MS) (Figura 1) que está sendo contestado atualmente.

Os dois gigantes comerciais são os maiores exportadores de soja para a União Europeia e o Reino Unido. Entre 2014 e maio de 2022, a Bunge teria exportado mais de 17 milhões de toneladas métricas (TM) de soja para a UE, com Espanha, França e Alemanha como os principais destinatários. A Cargill exportou mais de 13,7 milhões de toneladas, com os principais destinos Espanha, Holanda e Reino Unido.

Figura 1: Fazenda brasileira contestada Brasília do Sul com instalações próximas da Cargill e Bunge

Fonte : AidEnvironment, com base no INCRA, Sicarm 2022, Funai 2020. Observe que a ADM não foi mencionada na pesquisa investigativa .

A terra em disputa é supostamente roubada de uma comunidade tradicional chamada Guarani Kaiowá, os moradores originais da terra ancestral Takuara Eles foram deslocados décadas atrás. A Funai, a agência federal brasileira encarregada de proteger os direitos indígenas, reconheceu Takuara como uma terra indígena tradicional, tornando ilegal a atividade de agronegócios de acordo com a constituição do país. No entanto, nenhuma das decisões judiciais emitidas ao longo dos anos foi conclusiva, e a demarcação final da área ainda está sendo considerada . Além da grilagem, a fazenda contestada também está ligada ao assassinato do líder Guarani Kaiowá, Marcos Veron.

As descobertas são particularmente importantes por causa dos próximos regulamentos da UE, que colocarão commodities de risco florestal, como soja e gado, sob maior escrutínio por desmatamento e violações de direitos humanos. A Diretiva de Governança Corporativa Sustentável (SCG) da UE, que visa melhorar a legislação societária e a governança corporativa, está em status de proposta desde fevereiro de 2022. De acordo com essa legislação, os comerciantes de commodities, como Cargill e Bunge, estão sujeitos a due diligence obrigatória para abordar direitos humanos adversos e impactos ambientais em suas cadeias globais de valor. As questões de direitos humanos também serão cobertas pelos requisitos de due diligence do Regulamento de Desmatamento da UE proposto, que  busca para travar a desflorestação legal e ilegal e a degradação florestal resultantes do consumo e da produção da UE. Embora os requisitos da  iniciativa SCG  “vão além dos requisitos do regulamento de desmatamento, eles se aplicam em conjunto”.

A investigação da Earthsight e De Olho nos Ruralistas também ressalta a importância da implementação e controle dos estados membros da UE sobre o não cumprimento de violações de direitos humanos sob a legislação futura. Por exemplo, como atualmente estruturada, a abordagem de direitos humanos do Regulamento de Desmatamento da UE baseia-se exclusivamente nas leis dos países produtores e não exige o atendimento de declarações e convenções internacionais sobre direitos humanos e trabalhistas. A Cargill, que confirmou relação de fornecedor com a fazenda contestada, apontou o cumprimento da legislação brasileira em resposta às alegações: não há ilegalidade na produção local.”Essa resposta (“violações de direitos humanos podem ter sido encontradas, mas nosso fornecimento não é ilegal”) pode prejudicar a eficácia das próximas regulamentações. Como diz a Earthsight: “A Cargill poderia ter adotado uma política de não causar danos e cortar os laços com quaisquer fazendas envolvidas em disputas de terras não resolvidas com comunidades indígenas e outras comunidades tradicionais, em vez de se apegar a interpretações legais equivocadas e zombar de sua própria natureza humana. compromissos de direitos ”.

Pesquisas anteriores do CRR destacaram a incerteza de como a implementação e a execução das próximas iniciativas legislativas da UE se desenvolverão na prática. Por exemplo, para o Regulamento de Desmatamento da UE, existem requisitos mínimos para verificações de conformidade. Além disso, não  é obrigatória a apresentação de uma lista pública dos operadores e comerciantes que infringiram o regulamento. Essa lista forneceria um  forte incentivo  para o cumprimento, uma vez que separaria as medidas de acusação da disposição das agências nacionais de aplicação de penalidades, aumentaria a transparência e possivelmente serviria como um impedimento para as empresas não conformes.

No entanto, o  projeto alterado  do Regulamento de Desmatamento, que ainda precisa passar por várias rodadas de votação, agora incluiu explicitamente leis e padrões internacionais sobre os direitos dos povos indígenas e direitos de posse das comunidades locais, incluindo a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas , a Declaração da ONU sobre os direitos dos camponeses e outras pessoas que trabalham em áreas rurais, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho e a diretriz da OCDE sobre direitos humanos e negócios.

O caso também chama a atenção para os requisitos de rastreabilidade mais fortes sob a próxima legislação. A fazenda contestada Brasília do Sul também abastece indiretamente, por meio de intermediários, a unidade de processamento da Bunge em Dourados. Em resposta, a Bunge afirmou que “ não possui a fazenda Brasília do Sul em seu banco de dados de fornecedores ”. Essa afirmação está aberta à interpretação e também pode implicar que a Bunge não consiga rastrear a soja até a fazenda contestada por meio de uma rede de intermediários. Em 2022, a empresa informou que poderia monitorar 64% de seus volumes indiretos em regiões prioritárias. Se o Regulamento de Desmatamento da UE mantiver o requisito de geolocalização como está atualmente (de volta ao “terreno”), a origem desses suprimentos seria atestada. Empresas como a Bunge teriam que monitorar toda a sua rede de abastecimento, revelando conexões entre produção de commodities e desvios socioambientais.

O setor financeiro da UE não é afetado diretamente pelo Regulamento de Desmatamento da UE, mas, indiretamente, os financiadores provavelmente seriam afetados por riscos financeiros em suas ações, títulos e empréstimos. Esses riscos incluem riscos de valor, bem como risco de reputação. A Bunge e a Cargill recebem financiamento de instituições financeiras da UE (e do Reino Unido) que se comprometem a reportar de acordo com o Regulamento de Divulgação de Finanças Sustentáveis. Desde 2017, essas duas empresas receberam 33% de seus financiamentos identificados de bancos e investidores na Europa, dos quais dois terços são da UE-27. Do total de financiamento identificado, 44% são provenientes de linhas de crédito rotativo. Entre os 10 maiores financiadores da Bunge e Cargill, o BNP Paribas é o maior. Outros financiadores europeus no top 10 incluem Deutsche Bank, HSBC, Barclays e ING. Todos esses financiadores têm várias políticas de financiamento sustentável e podem sentir a pressão para se engajar nas alegações identificadas acima.


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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela “Chain Reaction Research” [   ].

Sobrevoo na bacia do Rio Tapajós mostra grande destruição causada por garimpo ilegal, extração seletiva e monocultura da soja

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Graças a um esforço do pessoal do ClimaInfo (as imagens são da lavra de Christian Braga) é possível ver os resultados de um sobrevoo realizado na bacia do Rio Tapajós, principalmente nos municípios paraenses de Itaituba, Santarém e Trairão, como mostram as imagens logo.

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O que essas imagens eixam claro é que no Pará está ocorrendo uma pilhagem muito bem organizada dentro de áreas de proteção e de terras indígenas para a qual está sendo aplicada uma grande quantidade de capital, já que se pode observar a presença de barcas, pistas de aterrissagem e instalações de garimpo que não instaláveis sem grande injeção de capitais.

As imaghens mostram ainda a presença de plantios de soja em larga extensa em terras protegidas, o que serve para desmacarar toda a suposta cadeia de “due diligence” que as grandes corporações que controlam o comércio global de grãos alegam possuir. 

Por outro lado, a grande quantidade de sedimentos chegando no Rio Tapajós e seus tributários principais é uma demonstração da magnitude da ação do garimpo ilegal de ouro, principlamente em torno do município de Itaituba, mas se estendendo por outras partes da bacia hidrográfica de um dos principais tributários do Rio Amazonas.

O somatório de todas essas coisas é que há um imenso passivo social, econômico e ambiental sendo gerado na Amazônia neste momento e que em tempo futuro irá trazer gravíssimos prejuízos para o Brasil, sobrecarregando ainda mais as populações mais pobres que servirão como uma espécie de receptáculo de todos os males que estão sendo realizados neste momento.

Enquanto isso, ficamos em um debate vazio sobre “democracia”, com os saqueadores nacionais e internacionais se aproveitando disso para avançar no processo de grilagem de terras e exploração irracional das riquezas da Amazônia. Simples assim, mas ainda trágico.

Para acessar todas as imagens desse sobrevoo, basta clicar [Aqui!].

Soja da destruição: subsidiária brasileira do grupo japonês Mitsui & Co. está envolvida em conflito fundiário no Matopiba

Comunidade tradicional do oeste baiano relata intimidações e ameaças relacionadas à ‘grilagem verde’ do seu território; investigação da Repórter Brasil revela conexões entre a Agrícola Xingu, uma das envolvidas na disputa, com fornecedores globais do grão

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Por André Campos, Hélen Freitas e Poliana Dallabrida para a “Repórter Brasil”

Localizada na zona rural do município de Correntina, no oeste da Bahia, a comunidade do Capão do Modesto está no centro de um conflito fundiário que envolve ameaças de morte, intimidação e destruição de bens comunitários. Do outro lado dessa disputa estão empresas produtoras de soja, milho e algodão com atuação no Matopiba – nova fronteira agrícola brasileira nos estados do Maranhão, Piauí, Bahia e Tocantins. Elas reivindicam a posse de uma área ocupada há mais de 300 anos pelos moradores do Capão do Modesto, segundo membros da comunidade local.

A Agrícola Xingu, uma das empresas envolvidas no conflito, é fornecedora de soja de importantes tradings multinacionais responsáveis pela venda da commodity para países da Europa, Ásia e Estados Unidos. Também conhecida como Xingu Agri, a companhia é uma subsidiária brasileira do grupo Mitsui & Co, um dos maiores conglomerados econômicos do Japão, e apontada como uma das maiores latifundiárias no Matopiba.

Uma investigação da Repórter Brasil revela novas conexões entre a empresa e gigantes do agronegócio. Documentos obtidos pela reportagem mostram que, em 2021, soja oriunda da Agrícola Xingu abasteceu os silos da ALZ Grãos, uma joint-venture criada pela Amaggi, pela companhia francesa Louis Dreyfus Company (LDC) e pela subsidiária local do grupo japonês Zen-Noh Grain. A operação conjunta entre as multinacionais exporta soja e milho através de um terminal portuário próprio no Maranhão.

Cercas instaladas por empresas do agronegócio dividem território ocupado há mais de 300 anos por moradores do Capão do Modesto, em Correntina (BA). (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Os grãos da Agrícola Xingu haviam sido adquiridos originalmente por uma outra empresa intermediária: a Nutrade Comercial Exportadora, subsidiária do conglomerado suíço Syngenta, um dos principais fabricantes de agrotóxicos e sementes para o agro brasileiro. Por meio da Nutrade, o grupo Syngenta atua nas chamadas operações “barter”, nas quais commodities como a soja são utilizadas como pagamento por insumos repassados anteriormente aos fazendeiros.

Repórter Brasil obteve a cópia de um contrato prevendo a entrega, em 2021, de quase 3 mil toneladas de soja da Nutrade para a ALZ Grãos. O produto, segundo o documento, seria oriundo dos armazéns Agrícola Xingu em São Desidério, município vizinho a Correntina.

Procurada, a Agrícola Xingu afirmou que “atua firmemente na preservação do meio ambiente” e que possui os documentos que provam a posse da área em disputa. A empresa disse que a comunidade do Capão do Modesto tem um “possível interesse” sobre a propriedade e alegou que não existem documentos que comprovem o seu direito sobre a área. O posicionamento completo da empresa pode ser lido na íntegra aqui.

Já a Nutrade disse que a fazenda de origem da soja fornecida pela Agrícola Xingu e a propriedade foco de conflito fundiário são “áreas com matrículas distintas”. A trading afirmou ainda que adota um processo de verificação de todas as áreas conectadas às negociações firmadas, “atentando integralmente a todos os regramentos ambientais e trabalhistas”. Leia aqui o posicionamento da empresa na íntegra.

A ALZ Grãos declarou que, no ato da compra, não verificou quaisquer restrições socioambientais ou conflitos fundiários sobre a área de origem da soja adquirida em negociações com a Nutrade. Afirmou ainda não ter relação comercial com a Agrícola Xingu. Trata-se, conforme descrito pela Repórter Brasil, de um caso de fornecimento indireto, tendo em vista que a aquisição da soja ocorreu por meio de relações comerciais estabelecidas com outra tradingAcesse aqui a resposta completa.

Grilagem Verde

A disputa com a comunidade do Capão do Modesto teve início a partir dos anos 2000, quando empresas produtoras de commodities com atuação no Matopiba passaram a reivindicar a titularidade de terras preservadas na zona rural de Correntina.

São áreas hoje utilizadas para a compensação de passivos ambientais em fazendas da região. Segundo o Código Florestal brasileiro, os imóveis rurais localizados no Cerrado devem manter ao menos 20% de suas terras com a mata nativa original. Mas, quando há desmatamento acima desse limite, a lei permite compensar o passivo por meio da aquisição de áreas preservadas fora da propriedade.

É justamente uma dessas áreas que está sobreposta às terras reivindicadas pela comunidade de fundo e fecho de pasto do Capão do Modesto. Os “fecheiros”, como são conhecidos os integrantes dessa comunidade tradicional, desenvolvem métodos próprios de agricultura de subsistência, com o cultivo de roças, colheita de frutos nativos do Cerrado e pastoreio do gado, criados livremente, sem cercas.

Vista aérea do Capão do Modesto; moradores afirmam que área usada como reserva legal de empresas privadas está sobreposta às terras da comunidade. (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Apesar de a Constituição do Estado da Bahia de 1989 prever o reconhecimento de comunidades tradicionais, como as de fundo e fecho de pasto, e cessão de certificados de posse dessas áreas, muitas ainda não foram regularizadas. Nesse cenário, os conflitos por terra se multiplicam, gerando um verdadeiro caos fundiário.

Advogados e ativistas locais ouvidos pela Repórter Brasil avaliam que a área de preservação sobreposta ao Capão do Modesto foi adquirida de forma fraudulenta. Segundo relatório da organização Global Witness, sua aquisição faz parte de um processo de “grilagem verde”, em que terras tradicionalmente ocupadas por comunidades locais são usurpadas para servirem como reservas legais para empresas do agronegócio possuidoras de passivos ambientais. 

O território, que antes era usado pelos “fecheiros” para o pastoreio do gado, agora possui cercas e placas que proíbem a circulação dos animais e dos integrantes do Capão do Modesto. Ele é administrado como um condomínio por nove empreendimentos agropecuários: logo depois da porteira é possível ver placas que identificam o local como área de reserva legal dessas empresas.

Nove empreendimentos agropecuários alegam a posse de reservas legais na zona rural de Correntina; 7 deles entraram com processos contra ‘fecheiros’ do Capão do Modesto. (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Repórter Brasil esteve na comunidade e conversou com moradores que relataram uma rotina de ameaças por parte das equipes de segurança privada contratadas pelas empresas para fazer a vigilância da área. “As fazendas têm pistoleiros que você não sabe nem quem é o patrão. Junta o grupo e vai dar pressão em você”, denuncia Vanderlino Barbosa, presidente da associação da comunidade de fundo e fecho de pasto do Capão do Modesto.

“As empresas chegaram, invadiram, meteram as máquinas arrancando os benefícios que a gente tinha dentro. Botando pressão, tirando suas liberdades”, pontua Barbosa. “Onde tinha um bebedouro, eles chegavam, ficavam por ali para espantar o gado, para você tomar prejuízo e desistir daquela área”, complementa.

Dentro do condomínio, a Agrícola Xingu afirma ter a posse da Fazenda Tabuleiro VII, uma área de 3 mil hectares que faz divisa com a propriedade da agricultora Geni Silva, bisneta do Seu Modesto, “fecheiro” que dá nome à comunidade tradicional.

Desde 2015, membros da comunidade já registraram mais de dez boletins de ocorrências relatando as intimidações sofridas. As ameaças aos “fecheiros” não são apenas físicas, mas também judiciais. Em novembro de 2017, parte dos produtores rurais que alegam ser donos das reservas legais que circundam o Capão do Modesto entraram com uma ação no Tribunal de Justiça da Bahia contra membros da comunidade.

Casal Limírio dos Santos e Geni Silva, bisneta do Seu Modesto, ‘fecheiro’ que dá nome à comunidade tradicional. (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Segundo as empresas, integrantes da comunidade de fundo e fecho de pasto do Capão do Modesto estariam invadindo suas terras e destruindo a vegetação nativa. O objetivo do processo é impedir que a comunidade realize a soltura do gado na área. Para os “fecheiros” do Capão do Modesto, essa é mais uma forma de pressioná-los a deixarem suas terras. 

Em março de 2022, uma decisão judicial ordenou a desapropriação da área, reconhecendo a posse tradicional da comunidade. Poucos dias depois, no entanto, houve a revogação da decisão, e as terras continuam sob posse das empresas. O caso segue pendente de decisão final na Justiça.

Cadeia de negócios contaminada

No oeste baiano, a Agrícola Xingu é dona de diversas fazendas destinadas à produção de grãos e algodão. Somadas, as áreas de cultivo da empresa entre os municípios de Correntina e São Desidério teriam uma extensão de 67,9 mil hectares, segundo relatório publicado pela organização Global Witness. A expansão das atividades da empresa na região ocorreu, em grande medida, por meio do desmatamento de vegetação nativa,  segundo informações da organização Chain Reaction Research. Entre 2000 e 2017, a companhia teria desmatado 32,1 mil hectares de Cerrado.

Já a ALZ Grãos, um dos elos no escoamento da soja oriunda da Agricola Xingu, exporta o produto para outras grandes tradings do setor, segundo dados alfandegários acessados pela Repórter Brasil. Há registros, por exemplo, de vendas para subsidiárias da Cargill na Ásia e para o grupo chinês Cofco. Na Europa, a ALZ Grãos exportou o grão para subsidiárias da Bunge ao longo dos últimos dois anos. Um dos principais destinos é a Espanha, onde a Bunge atua em diversos mercados, inclusive na produção de biodiesel. A Espanha, ao lado da Alemanha, são os dois principais produtores europeus de ração animal. É na alimentação de bois, aves e suínos que a soja tem o seu maior uso. 

Em nota, a Bunge afirmou que não comenta relações comerciais com produtores específicos, mas disse estar “comprometida em alcançar cadeias de suprimentos livres de desmatamento em 2025”. Em relação às compras diretas, a companhia afirma ter “100% de rastreabilidade e monitoramento” e disse estar “atuando fortemente para impulsionar o setor a fortalecer a rastreabilidade e o monitoramento das compras indiretas”.

Por meio da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), as tradings Cargill e Cofco afirmaram que “não compram soja de áreas desmatadas ilegalmente” e que “apoiam os seus fornecedores indiretos buscando, constantemente, soluções operacionais e avaliando metodologias para engajamento destes fornecedores aos seus protocolos”. Confira as respostas das empresas na íntegra.


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Este texto foi originalmente publicado pela “Repórter Brasil” [Aqui!].

Opulência, segregação social e fome nas capitais do agronegócio

No Mato Grosso, discurso oficial e PIB per capita elevado contrastam com crianças fora da escola e favelas

favela sinopFavela em Sinop (MT) não tem nome e nem é regularizada. Foto: Fellipe Abreu

Por João Peres e Tatiana Merlino, de Nova Mutum, Sinop e Sorriso (MT) para “O Joio e o Trigo”

Como faz diariamente, João Maria Alves sobe na bicicleta para correr atrás de quase-trabalho. Quando dá sorte, pega um lote para carpir, ou um jardim para passar veneno: foi a maneira que encontrou para aproveitar os conhecimentos acumulados como peão de fazendas do agronegócio – ele foi demitido no começo da pandemia.

Sem renda fixa, seu João e sua companheira, dona Tereza, se alimentam quando conseguem bicos (ela, como diarista). Quando não, “vamos se virando do jeito que nós pode. Mas quase todo mês vem a turma das igrejas evangélicas e volta e meia traz uma cesta básica pra nós”.

Seu João tem 61 anos e mora em uma favela no município de Sinop (MT), conhecida como a “capital do Nortão” e uma das cidades líderes de produção de soja do país. A favela onde seu João mora ainda está nos primeiros anos de vida: não tem nome, nem é regularizada, mas já tem padrinhos políticos que trazem promessas. São três ruas de chão de terra, com barracos de madeira. Nas capitais do agronegócio, a pobreza brota fácil que nem milho, empregos e políticas públicas escasseiam, o assistencialismo toma conta.

Empurradas para as bordas, as favelas não chegam a representar um obstáculo para o discurso sobre pujança, organização e civilização-modelo. Quem caminha pelas áreas centrais de Sinop encontra uma cidade que foi planejada e quadriculada, com avenidas largas, praças e rotatórias. Restaurantes e bares viciados em sertanejo. Lojas bem arrumadas. E um shopping recém-inaugurado.

Perto do meio-dia, um homem vestindo um blazer bege elegante e calça cáqui conversa impaciente ao telefone, andando de um lado para o outro em frente ao edifício espelhado na Avenida Bruno Martini. Um outdoor estampando neve oferece novos lotes abertos no Recanto Suíço. Perto dali, crianças passam mais um dia agradável na escola Maple Bear, voltada ao público “premium A++”, com mensalidades em torno de R$ 2.500. E em poucos minutos as mesas do Pátio Piemonte receberão os primeiros fregueses, que, se quiserem, podem caminhar alguns poucos passos para chegar à concessionária de barcos ou à loja de decoração.

A cena poderia ter acontecido em Mônaco, San Marino, Luxemburgo. E algumas pessoas ali certamente desejariam estar na Europa. Mas o Jardim Itália fica em Sinop, e o sol forte castiga os usuários de paletós e calças.

Próximo ao centro, bairros ricos indicam o caminho da expansão imobiliária. Ruas que já nascem planejadas, sinalizadas e asfaltadas antes mesmo que cheguem casas e moradores. Nessas bandas, só existe uma coisa capaz de se espalhar mais rápido que a soja: a construção civil. Obras brotam do chão numa velocidade espantosa em Nova Mutum, Lucas do Rio Verde, Sorriso ou Sinop, cidades-chave para o agronegócio, todas às margens da BR 163, que parece selar a sorte entre quem participa ou não do ciclo de “progresso”. Em Sorriso, capital oficial do agronegócio, a imensa loja da Havan em breve deixará de estar rodeada pela soja: enquanto a última colheita avança, uma placa já anuncia a venda de lotes.

Sem escola, sem renda, sem moradia

Longe da Havan, dos supermercados, das escolas, dos hospitais e do transporte público, a favela sem nome de seu João atrai novas pessoas. Ali, e em outras favelas da região, o roteiro se repete: as mulheres são diaristas, os homens são pedreiros, as crianças não estudam, e o aluguel se tornou caro demais, o que forçou a juntar dinheiro para comprar um barraco.

Foi a promessa de empregos na construção que motivou a família de Alexsandra de Souza Silva a deixar Parauapebas (PA), a 1.400 quilômetros de distância. A promessa estava certa. “Aqui em Sinop, desde o dia em que ele [o marido] chegou, se ele quiser parar, tem que dizer que não vai. Porque serviço tem demais”, ela conta. Na porta da casa de tijolos estão filhos, netos e vizinhas.

“Eu não saio pra lugar nenhum”, conta. É uma manhã de sexta-feira, mas nenhuma criança está na escola. “Esse aqui eu ia botar na escola, mas não achei vaga. Vou esperar o ano acabar pra ver se consigo uma vaga pra ele.” Foi a filha Emily quem insistiu que deveríamos conversar com Alexsandra. A garota tem nove anos, e da escola tem pouca lembrança. “Ela estudou só um tempinho lá no Boa Esperança [um bairro].” Não há vaga, não há transporte escolar, nem o conselho tutelar parece chegar a uma área que oficialmente não existe.

“A gente não conhecia esses bairros. A gente ficava ali no centro, numa bolha, e acabava preso ao discurso de que Sinop é rica”, conta Luana Grassi da Silva, assessora da vereadora Graciele Marques dos Santos. Eleita pelo PT, Graciele ela é a única mulher nesta legislatura. E a única que se opõe ao discurso predominante de riqueza e progresso. Ao discurso que reza que toda essa região foi colonizada graças aos esforços dos “colonizadores”, um punhado de famílias migrantes do Sul que ganharam terras durante a ditadura.

Quem nos apresentou os bairros pobres da cidade foi a vereadora, que tem sido alvo de violência e misoginia por sua atuação à frente da Câmara. “Existe sim pobreza em Sinop. A imagem de propaganda de cidade rica, com empregos, não é real. A riqueza do agro não chega para todos”, diz Graciele, enquanto caminha pelas ruas da favela onde mora seu João. “Na cidade, há locais que nem foram regularizados, onde vivem pessoas que foram expulsas do campo.”

Ser vaiada em suas falas no plenário já é uma rotina. Numa delas, disse que sua família também é “pioneira na cidade.  Só que o nome dos meus pais não está nos nomes dos pioneiros. Tem uma razão pra isso, mas acho que não preciso explicar pra vocês”.

Em 2020, a vereadora e algumas organizações encomendaram outdoors com críticas ao governo de Jair Bolsonaro. Os outdoors foram destruídos. O dono da empresa que imprime as mensagens para os outdoors foi ameaçado, e teve que entrar em acordo com a vereadora para devolver o dinheiro e remover as placas. Graciele também foi ameaçada.

Eleita em 2020, a vereadora é de uma família do Paraná e chegou em Sinop com três anos de idade. Morou em sítios onde a família trabalhou e em bairros periféricos. Na adolescência, começou a atuar em projetos sociais e ligados à igreja.

Pedido de perdão à raça branca

Em 2021, Graciele causou a revolta dos colegas ao convidar para uma audiência pública a professora Lélica Lacerda, da Universidade Federal de Mato Grosso. “No caminho pra cá eu fiquei bastante desconcertada de ver como os homens brancos conseguem ser absolutamente incompetentes e não ter autocrítica nenhuma sobre eles”, disse Lélica, num longo discurso no qual criticou o agronegócio e a classe alta de Sinop. “A elite branca supremacista olha para os indígenas e para os negros e os veem como bárbaros.”

Na sessão seguinte, os vereadores se revezaram nas críticas à professora, chegando a pedir que fosse exonerada. Alguns moradores de Sinop queriam a cassação do mandato de Graciele. O vereador Celsinho do Sopão afirmou que era preciso “pedir perdão pra raça branca”, que havia sido discriminada. “Vai ser mostrado pra sociedade que o que ela cometeu é um ato de racismo que a sociedade viu e ouviu. Não podemos deixar que passe impune (…) Desculpem, pioneiros da nossa cidade. Desculpem, homens brancos, mulheres brancas. Desculpem, homens negros, todas as raças. Se tem alguém racista aqui, ela foi racista.”

A história oficial conta que a cidade foi criada pela Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná (Sinop), uma colonizadora que teria comprado um terreno de 500 mil hectares no começo dos anos 70 – atualmente, a empresa responde a um processo, acusada de haver grilado parte da área. Na Câmara dos Vereadores, um painel de pinturas narra essa história oficial (sem a parte da grilagem). No alto, acima de todos, estão os colonizadores brancos, rodeados por uma frase: “Sinop, símbolo de fé, patriotismo e trabalho.”

O Legislativo é até hoje um bastião da defesa desse discurso sobre a supremacia dos sulistas e do agronegócio. Nos últimos anos, com a ascensão de Jair Bolsonaro ao Planalto, os vereadores se sentiram com mais poder para brigar com a realidade. Em 2020, demonstraram irritação com um grafite pintado na cidade em homenagem à ativista ambiental Greta Thunberg.

“Aí vem jogar na sociedade de Sinop uma gravura daquela moça, a cretina. Eu errei, desculpe. A Greta”, discursou o vereador Professor Hedvaldo Costa, que já foi secretário de Educação, Cultura, Esportes e Lazer. “Aqui é uma região de agronegócio. Aqui só é desmatado como a lei diz, os 20%. Quem desmata mais vai pra cadeia. A sociedade sinopense foi bombardeada pela falta de respeito.”

O grafite foi apagado. E os vereadores aprovaram uma lei que proíbe que pessoas de fora de Sinop sejam homenageadas em nomes de ruas ou em obras de arte colocadas em lugares públicos. “Nós vamos pintar sobre aquilo ali o que de fato interessa sobre a nossa região. Eu falei pra ele que se não pintar nós vamos arrancar o reboco do viaduto. Mas não vamos ser coniventes com essa gravura ofensiva, essa ideologia ofensiva ao nosso povo, ao nosso Mato Grosso.” Porém, pouco tempo depois a Câmara aprovou uma homenagem a Bolsonaro.

Uma cidade tão rica, com gente tão pobre

Consultamos os dados do Ministério da Cidadania a respeito de pobreza e extrema pobreza nas três principais cidades dessa região-chave para o agronegócio. A julgar pelos dados oficiais, Lucas do Rio Verde tem a pior situação em termos de extrema pobreza, acima da média do Mato Grosso. As outras duas cidades têm uma situação melhor quando se trata de extrema pobreza, mas, ao se olhar os dados sobre pobreza, não é possível afirmar que o quadro seja melhor do que a média do estado.

Em contraste, o PIB per capita dessas cidades está entre os mais elevados do estado. Segundo o IBGE, em Sorriso fica em R$ 69.023, e é o 18º maior de Mato Grosso. Lucas vem logo em seguida, com R$ 68.110. Sinop, com mais habitantes, tem um PIB per capita de R$ 46 mil.

Em Sorriso, o Ministério da Cidadania contabilizava, no final de 2021, 1.821 famílias em situação de extrema pobreza. Porém, apenas uma das várias organizações que atuam na periferia, a Central Única de Favelas (Cufa), dizia distribuir 500 cestas básicas por mês.

É uma manhã quente de sábado. Na sede da Cufa, na zona leste da cidade, a coordenadora Luzinete Aparecida Alves reúne outras três mulheres para uma conversa. “Meu Deus, é uma cidade tão rica. É uma cidade rica. Aqui nós temos bilionários. Mas tem pessoas também que são muito pobres. Muito pobres, mesmo, gente que, olha, só pela misericórdia.”

A Cufa atua em parceria com empresas para garantir a doação de cestas básicas. Durante a pandemia, o volume de doações aumentou, mas também aumentou exponencialmente a procura. Nós perguntamos a Luzinete se algum órgão da prefeitura atua em parceria para oferecer políticas públicas e perspectivas de criação de emprego. A resposta foi negativa. “Aqui a maioria das pessoas vive mesmo pro aluguel e para comer. As pessoas de baixa renda. Aquelas pessoas que vêm em busca de riqueza, isso é ilusão”, continua.

Ao lado dela, Ioná de Sousa Lima da Silva oferece uma história entre tantas. O marido veio do Maranhão em 2017, e em seguida mandou chamar a família: ele havia conseguido emprego em um restaurante. Não quer dizer que as coisas sejam fáceis, mas são menos difíceis do que antes.

“A expectativa que você tem na sua cabeça de quando você saiu, até quando você chega aqui, é uma coisa totalmente diferente”, diz Ioná. A família paga R$ 650 no aluguel de uma casa de madeira. A segregação entre os lados rico e pobre da cidade faz piorar a situação: em alguns casos, o custo de vida é maior do lado pobre (leia a reportagem Apartheid e racismo nas cidades da soja). Por exemplo, a entrega do botijão de gás sai mais caro, o que tem um peso considerável para quem ganha salário mínimo. “São dez reais. Então, agora tá dando 140 reais um botijão. E pode colocar que vai um botijão por mês. Eu faço almoço, vamos dizer, arroz e feijão. De noite só esquenta, faz um ovo ou uma sardinha, algo do tipo, pra economizar o gás, porque é muito difícil.”

Em Sinop, faltam políticas públicas de combate à fome, mas não assistencialismo. O vereador Celsinho do Sopão, o mesmo que chegou a “pedir perdão pra raça branca” em sessão da Câmara, fora dela distribui sopa, aos sábados, desde 2012, por meio do projeto “Sopão para Todos”. De acordo com a biografia publicada no site da Câmara Municipal de Sinop, “além da sopa que é distribuída todos os sábados, também ajuda a comunidade com cestas básicas, materiais escolares, promovendo ações em datas comemorativas, com o Dia das Crianças, Páscoa e Natal, com brincadeiras e entrega de brinquedos”.

“A fome é um projeto”

Moradora do bairro de Bom Jardim, em Sinop, Maria Madalena Pereira nasceu no município de Pérola, no Paraná, numa família de trabalhadores rurais. Há oito anos, mudou-se para a capital do Nortão, onde a família já vivia desde que “foi expulsa por fazendeiros que colocaram gado na terra onde moravam”.

Madalena e sua família foram atraídos pela promessa de ofertas de emprego. “Eles também tinham uma ilusão muito errada da realidade.” No bairro onde mora, na periferia de Sinop, não ‘tem saúde, transporte e escola só o ensino básico. E quando o pobre ganha o primeiro dinheiro, é pra comprar uma moto. É muito difícil se estabelecer em uma cidade onde não tem transporte público, então, o pessoal compra moto”.

Marcamos um encontro na frente da casa de Madalena, num bairro com ruas de terra e onde o asfalto ainda não chegou. De lá, seguimos com ela até uma área onde, após muita luta, junto com outros moradores do bairro, ela está criando uma horta comunitária. Numa cidade marcada por assistencialismo, produzir alimento de forma comunitária em vez de receber doações de cesta básica é algo inédito. Para ter acesso a alimentos frescos, os moradores do bairro Bom Jardim precisam percorrer seis quilômetros e atravessar a BR para chegar à feira, que acontece uma vez por semana. Ou, nos mercadinhos locais, revende-se alimentos, mas todos a um preço muito alto. “A ideia de fazer uma horta aqui surgiu por isso também. E o agronegócio não dá emprego e não produz comida. Aqui, a maioria produz soja, e a soja não é para comer.”

Madalena tem 52 anos. Pele negra, sorriso largo. Com voz forte, conta que a história da luta pela horta começou quando ela chegou à cidade, fugindo da violência doméstica que sofria em seu antigo relacionamento. Ela viu que havia um terreno grande e vazio, que serviria para produzir comida. Aquela terra sem uso, enquanto muita gente da vizinhança passava fome, não fazia sentido. Depois de anos, em 2021, o terreno, propriedade da prefeitura, foi cedido à associação para a criação de uma horta.

A moradora atribui a demora em se viabilizar o projeto ao seguinte: “a fome é um projeto. Como se combate a fome?”, questiona. “ Tinha um pedaço de terra, gente passando fome, inclusive eu. E por que não podemos ter acesso à terra? Porque não existe interesse em combater a fome”, analisa.

Ela afirma que, se fosse para presentear cesta básica, haveria muitos empresários e políticos dispostos “a vir aqui, tirar foto te abraçando e falando: ‘olha aqui a dona Maria passando fome, olha que desgraça dessa mulher’, te dá um abraço e vai embora. Mas se você fala, ‘não, eu quero plantar’. ‘Menina, isso é difícil…’… “Você percebe? Aqui é um curral, eu sou um gado, uma vaquinha.”

A horta se viabilizou a partir do apoio da professora Rafaella Felipe, que coordena o projeto Projeto Gaia Rede de Cooperação para Sustentabilidade, desenvolvido no campus da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Ela está dando orientação técnica para a implantação da horta. A associação de moradores do bairro, presidida por Madalena, obteve uma concessão de permissão de uso por 10 anos. A intermediação e pressão junto à prefeitura foi pela pela vereadora Graciele. “As duas são parceiras da agricultura familiar.”

O ímã da indústria-riqueza

No extremo oposto da cidade, voltamos a conversar com seu João. Ele tem uma diferença grande em relação aos outros moradores da favela: está na região há décadas. João e a família mudaram quando ele ainda era jovem, vindos do Paraná. “Lá estava ficando meio difícil por causa do maquinário. Igual tá ficando aqui agora”, conta.

“Então para nós era bom na época que chegou porque tinha onde plantar um pé de arroz, milho, criar uma galinha, um porco. Mas daí devido a ir abrindo, os fazendeiros irem se apossando das terras, tudo hoje é feito no maquinário. Então para nós já não sobra esse espaço aí, né? Tem que se virar na cidade.”

A era do latifúndio improdutivo, por incrível que pareça, deixou saudade: o hype da soja é tão violento que não sobra nenhum metro quadrado para o cultivo de alimentos. Os grãos são plantados até na margem da rodovia, em qualquer hectare onde se possa jogar veneno e passar trator.

Os demais moradores chegaram recentemente, movidos pela propaganda da indústria-riqueza do Brasil ou pelos serviços disponíveis na cidade, em especial para o tratamento de problemas de saúde. Maranhão e Pará são as origens mais comuns. É o caso de Maria de Fátima de Souza . “Lá no Pará uma amiga minha falou que aqui era bom de trabalho. Que não era que nem lá, porque lá era difícil”, relata. “Eu morava de aluguel. Um senhor falou: ‘Fátima, tem uma invasão’. Eu vim ver, mas eu não tinha dinheiro. Sabe o que eu fiz? Eu dei uma geladeira, porque eu tinha uma geladeira velha. Eu dei uma televisão. Dei o que eu tinha pra conseguir. Fiquei sem nada, mas eu dei. E depois fui conseguindo.”

A história dela traz um elemento comum entre moradores dos bairros pobres: atropelamento no trânsito. Alguns serviços ficam do outro lado da rodovia, mas não há passarelas. As linhas de transporte público não acompanharam o crescimento vertiginoso de Sinop, o que deixa vários buracos na prestação de serviços. A bicicleta acaba sendo o principal meio de transporte.

Fátima conta que chegou a ficar totalmente imóvel, e precisou contar com a ajuda dos vizinhos para fazer o básico. Para quem vivia de ser diarista, só restou contar com doações de ex-patroas para remédios e alimentos. Quando melhorou um pouco, Fátima passou a revender na favela salgadinhos e refrigerantes comprados no supermercado.

Em novembro de 2021, quando visitamos a favela, vários moradores demonstravam otimismo: segundo eles, a promessa da prefeitura é de que já no começo de 2022 mudariam para um conjunto habitacional. A promessa não foi cumprida. Agora, a administração municipal fala em setembro, às vésperas da eleição.

*Colaborou Guilherme Zocchio


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Este texto foi inicialmente publicado pelo site ” O Joio e o Trigo” [Aqui!].

Paraguai ou Soyguay: O resultado do agronegócio

A soja do Paraguai é majoritariamente geneticamente modificada e o cultivo é voltado para a exportação para a Europa. Com isso, a Europa alimenta seu gado em operações em massa e é o maior produtor de biodiesel do mundo

reforma agraria paraguay

Grafite em Assunção, capital do Paraguai: “Reforma Agrícola Agora”. Agricultores e comunidades indígenas lutam por uma distribuição justa de terras há décadas. FONTE:ÁLVARO MINGUITO. 
Por  Jesus Gonzalez Pazos, Tradução:Pia Niederhoff para o Amerika21

Há países que permanecem quase inteiramente no anonimato e, se pensarmos nas Américas, talvez o Paraguai venha em primeiro lugar. Na Europa, a maioria das pessoas teria grande dificuldade em encontrar o país no mapa, e as mesmas dificuldades surgiriam se perguntássemos sobre uma característica que caracteriza o país.

E, no entanto, além da mão de obra barata (mulheres migrantes como empregadas domésticas ou no cuidado de idosos), grande parte da soja geneticamente modificada que faz da Europa o maior produtor mundial de biodiesel vem desse país sul-americano.

Por mais positivos que o país tenha, se você se concentrar nos negativos, em breve poderá acabar renomeando o Paraguai como “Soyguay”. Em campanha publicitária em 2003, uma das maiores corporações transnacionais do agronegócio, a então Syngenta, hoje ChemChina-Syngenta, colocou esse território no centro de uma fictícia “República Unida da Soja” junto com outros estados vizinhos como Argentina e Brasil como Bolívia e Uruguai.

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“República Unida da Soja” da Syngenta.  FONTE:NODAL

Naquela época, o Paraguai era (e ainda é) um dos maiores países produtores de soja do mundo, sendo a soja em grande parte geneticamente modificada e voltada para exportação para a Europa. Com isso, a Europa pode alimentar seu gado, sobretudo na produção em massa, e ser o maior produtor de biodiesel do mundo.

Cabe lembrar que o biodiesel é um dos “bons” combustíveis no processo de decomposição dos combustíveis fósseis. No entanto, a questão é multifacetada, se considerarmos as consequências que o atual modelo de produção intensiva está tendo sobre os solos. Como muitos dizem, o problema não é só a planta, principalmente na sua variante geneticamente modificada, mas sobretudo a forma como é produzida. E o Paraguai é o melhor exemplo para representar essa outra realidade.

Agora, quase vinte anos após a campanha publicitária, é evidente que a situação piorou. Não só pelo solo, mas também pelos direitos humanos coletivos e individuais dos povos indígenas e do campesinato.

Oitenta por cento da terra arável do Paraguai está coberta de soja e praticamente 85% do antigo Bosque Atlântico foi desmatado. O responsável por isso é a invasão do agronegócio, que controla a produção em quase 95% da terra, enquanto a população camponesa controla apenas 5% da área restante. Do ar, metade do leste do país, 40% de seu território, aparece como um vasto mar verde, geneticamente modificado, no qual toda a vida não relacionada à soja, inclusive a humana, é sufocada todos os dias.

Essa crescente destruição ambiental obviamente tem consequências que não se refletem apenas na destruição da natureza em benefício do negócio desenfreado da soja. Além disso, há as consequências sociais, como o deslocamento direto ou indireto dos grupos populacionais rurais e indígenas, o que, por sua vez, leva a um crescente empobrecimento desses grupos populacionais e a uma maior desigualdade. E tudo isso é fruto da imposição do modelo neoliberal (extrativismo que coloca os mercados antes da vida, em seu sentido mais amplo), que tem consequências em quatro áreas em particular:

No ecológico 

A destruição de solos devido ao uso excessivo de pesticidas como o glifosato (até 58.569 toneladas de agroquímicos foram importados em 2019), esgotamento do solo (desaparecimento de nutrientes), poluição.

Do lado social 

Deslocamento da população camponesa e indígena (até 900.000 nos últimos dez anos) para as periferias das cidades ou para a emigração e perda das condições de vida digna. Um em cada três paraguaios nas áreas rurais vive em extrema pobreza.

No econômico 

O agronegócio só é lucrativo para as elites, não para o país. Cria 15% dos empregos precários com condições mínimas de trabalho e as receitas fiscais são apenas 2%, embora representem 25% do PIB.

Politicamente

Favorecimento mútuo das elites políticas e econômicas, corrupção desenfreada e políticas governamentais que favorecem a agricultura industrial em detrimento da agricultura camponesa e indígena.

No Paraguai, o maior impulso ao agronegócio veio do governo de Horacio Cartes (2013-2018), ou seja, após a deposição do presidente Fernando Lugo em um golpe de Estado. Ao mesmo tempo, aumentou a criminalização do crescente protesto social, indígena e rural.

Nesse panorama, o crescimento do protesto está enraizado na desigualdade social, na perda de terras e territórios camponeses e indígenas, despejos e deslocamentos para as periferias urbanas, no lento desaparecimento da agricultura tradicional, na degradação ambiental e, coletivamente, na atrofia dos direitos e condições de vida.

A resposta do governo, além de criminalizar os protestos, é a repressão aos setores mobilizados.

Por isso, 70% da violência perpetrada contra os protestos sociais está diretamente ligada aos objetivos das elites de desmobilizar, criminalizar e reprimir a luta indígena e camponesa por terra e território. Tentativas estão sendo feitas para manter o status quo que prevaleceu no Paraguai nas últimas décadas, particularmente desde a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989).

Paraguai ou Soyguay, enfim, a vida ou os interesses dos mercados, é disso que se trata.


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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Amerika21 [Aqui!].

Gastos com agrotóxicos na soja foram de R$ 31,4 bilhões só em 2021

Fungicidas para controle da ferrugem asiática movimentaram R$ 9 bilhões

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Por: AGROLINK -Leonardo Gottems

O mercado brasileiro de defensivos agrícolas (leiam-se AGROTÓXICOS) para a soja faturou R$ 31,4 bilhões na temporada 2020-21, aponta recém-concluído estudo da consultoria Spark Inteligência Estratégica. O resultado representou alta de 17% ante o ciclo 2019-20 (R$ 26,7 bilhões).

A expansão se deve, em grande parte, ao crescimento na área plantada de 5% na safra 2020-21, para acima de 38 milhões de hectares. Com isso, a soja seguiu na posição de principal mercado do setor de defensivos agrícolas (leia-se AGROTÓXICOS), de acordo com o BIP (Business Inteligence Panel).

De acordo com o coordenador de projetos da Spark, Lucas Alves, o segmento de fungicidas liderou novamente a comercialização de agroquímicos (leia-se AGROTÓXICOS) para soja, com 41% das vendas ou R$ 12,8 bilhões. Desse montante, produtos voltados ao controle da ferrugem asiática ou ferrugem da soja movimentaram R$ 9 bilhões, uma elevação de 10% comparada à safra 2019-20. Os fungicidas como um todo tiveram alta da ordem de 13%.

Os dados do BIP Spark por categoria de produtos mostram o segmento de inseticidas na segunda posição do ranking, com 25% de participação e vendas de R$ 7,880 bilhões, uma variação positiva aproximada de 23% ante o ciclo anterior (R$ 6,39 bilhões). Já os herbicidas ocuparam a fatia de 22% do total. A comercialização destes produtos chegou a R$ 6,940 bilhões, cerca de 19% acima do período 2019-20 (R$ 5,79 bilhões).

Ainda de acordo com a Spark, produtos para tratamento de sementes, com 8% das vendas totais, avançaram 13,5%, para R$ 2,427 bilhões, contra R$ 2,138 bilhões. Outros produtos, que equivaleram a 4% do mercado de agroquímicos para soja, fecharam a safra 2020-21 com crescimento de 20%, para R$ 1,361 bilhões ante R$ 1,129 bilhões.

De acordo com Lucas Alves, a ferrugem asiática constitui hoje a preocupação central do sojicultor na safra. A doença identificada em 2001, explica ele, representa risco elevado à produtividade e enseja diferentes estratégias de manejo, sobretudo em virtude do desenvolvimento de resistência, pelo fungo causador da ferrugem (Phakopsora pachyrhizi), a determinados ingredientes ativos de fungicidas.

“Esse cenário elevou a taxa de utilização dos ‘fungicidas multissítios’ de 6% na safra 2014/15 (R$ 75 milhões), para 70% no ciclo 2020-21 (R$ 2,5 bilhões). Mais de 26 milhões de hectares da oleaginosa receberam tratamentos com esses produtos na última safra”, enfatiza Alves. 

Ele acrescenta que os ‘multissítios’ são empregados, principalmente, no manejo de resistência do fungo Phakopsora pachyrhizi. A prática consiste na alternância da aplicação de fungicidas com diferentes modos-de-ação, e preserva a eficácia das tecnologias no controle da doença.

“O manejo da ferrugem é realizado de maneira preventiva. Realizam-se, em média, de 3,5 a 4 aplicações desses produtos”, complementa. Conforme Alves, outras doenças da soja, que nos últimos anos eram consideradas ‘secundárias’, ganharam mais relevância no mercado de fungicidas.

A Spark realizou pesquisa com mais de 3,8 mil entrevistas junto a produtores rurais das principais regiões produtoras da oleaginosa no Brasil.


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Este texto foi publicado originalmente pelo portal Agrolink [Aqui!].

WWF: Produção de soja causa destruição ambiental em massa

sojaFoto: Charles Echer / Presenza CC0
Por Moritz Ettlinger para o Unsere Zeitung

Em um  novo relatório  , a organização ambientalista WWF chama a atenção para as consequências devastadoras da produção de soja para o meio ambiente, pede uma mudança em nossa dieta e regulamentações legais em nível da UE para proteger as florestas, especialmente na América do Sul.

Seja carne, peixe ou queijo: há mais soja em muitos produtos de origem animal do que você pensa – pelo menos indiretamente. Porque cerca de 55 Kg de soja per capita acabam no prato europeu todos os anos através da alimentação de vacas, porcos ou galinhas. Isso é relatado pela organização de proteção ambiental WWF em seu novo relatório, no qual chama a atenção para a destruição ambiental causada pela produção e cultivo de soja, especialmente na América do Sul.

De acordo com isso, a produção de soja na América do Sul quase dobrou nas últimas décadas – com consequências devastadoras, afinal, o cultivo da soja em sua forma atual, muitas vezes monocultural, libera grandes quantidades de gases de efeito estufa e causa considerável destruição do meio ambiente e dos ecossistemas.

A Europa não é isenta de culpa, pelo contrário, como afirma Hannah-Heidi-Schindler, especialista do WWF em nutrição sustentável: “Com o nosso consumo na Europa, estamos a contribuir para a destruição de florestas, pastagens e zonas húmidas noutros continentes” . exige “cadeias de suprimentos livres de desmatamento” para proteger florestas e ecossistemas.

Demanda por uma mudança na dieta e alterações legais

Uma mudança na dieta seria, portanto, um passo na direção certa, explica Schindler: “Uma redução no consumo de carne austríaca em um quinto liberaria tanta terra que toda a necessidade restante de ração animal de soja neste país poderia ser produzida”. Segundo a ONG, as importações de soja podem ser economizadas em 500 mil toneladas.

O atual projeto de lei da Comissão da UE, que visa combater o desmatamento para produtos que são comercializados na UE ou importados para a União, não é suficiente para o WWF.

Entre outras coisas, porque muitos ecossistemas estariam isentos disso, a ONG está, portanto, pedindo melhorias e apelando à Ministra da Agricultura Elisabeth Köstinger para fazer campanha por uma “lei efetiva de proteção florestal”. Porque: “Produtos para os quais as florestas são destruídas não têm lugar nas prateleiras dos nossos supermercados”, diz Hannah-Heidi Schindler em palavras claras.

De acordo com estimativas  de Johann Vollmann da Universidade de Recursos Naturais e Ciências da Vida (BOKU) , 90 a 95% de toda a soja em todo o mundo é processada em ração animal,  o Greenpeace  fala de 87 % das importações sendo usadas para alimentação animal na UE.

 Em 2016, a participação da soja na engorda de suínos e aves foi de 20% a 30%, como explicou  ao orf.at Werner Zollitsch, do BOKU Institute for Livestock Research . Esse procedimento nem é particularmente eficiente, pois para um 1 Kg carne seriam necessários 10 Kg de soja, diz Vollmann. O consumo direto de soja poderia alimentar dez vezes mais pessoas.

 O procedimento nem é particularmente eficiente, pois para um quilo de carne seriam necessários dez quilos de soja, diz Vollmann. O consumo direto de soja poderia alimentar dez vezes mais pessoas.

O artigo original pode ser visitado aqui

A publicação faz parte da nossa parceria de mídia com a Pressenza


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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo “Global Magazine” [Aqui!].

Desmatamento e mudança climática colocam em risco nova fronteira agrícola brasileira

A combinação desses fatores agravou na última década as condições de seca severa na zona de transição entre o leste da Amazônia e o Cerrado, onde está situada a região conhecida como Matopiba, aponta estudo. Pesquisadores alertam para o risco de queda na produção (foto: arquivo/Agência Brasil)

Elton Alisson | Agência FAPESP – O desmatamento para a expansão do agronegócio, juntamente com as mudanças climáticas, induziu o agravamento das condições de seca severa na última década na zona de transição entre o leste da Amazônia e o Cerrado.

Essa combinação de tendências pode colocar em risco a estabilidade dos biomas e, consequentemente, a produção de alimentos na região onde está situado o Matopiba – área considerada a nova fronteira agrícola brasileira, compreendida por porções dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, e responsável por quase 12% da produção brasileira de soja.

O alerta foi feito por um grupo de cientistas ligados a instituições de pesquisa no Brasil e no exterior em artigo publicado na revista Scientific Reports.

O estudo, conduzido por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), teve apoio da FAPESP por meio de um Projeto Temático e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC) – um dos INCTs financiados pela FAPESP em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no Estado de São Paulo.

“As condições atuais já mostram que essa região de transição entre a Amazônia e o Cerrado está sofrendo os impactos do uso da terra para expansão do agronegócio e também das mudanças climáticas”, diz à Agência FAPESP José Marengo, coordenador-geral de pesquisa do Cemaden e primeiro autor do estudo.

“Esses processos podem se tornar mais intensos no futuro e impactar tanto os biomas como a produção agrícola na região do Matopiba, particularmente a soja”, estima Marengo, que também coordena o INCT de Mudanças Climáticas.

Os pesquisadores usaram uma combinação de dados meteorológicos e de satélites para analisar mudanças nas variáveis hidrológicas e climáticas na América do Sul tropical durante as últimas quatro décadas.

As regiões que sofreram aquecimento de longo prazo ou apresentaram tendência de seca no período de 1981 a 2020 foram identificadas por meio da análise de padrões espaciais para diferentes variáveis radiativas, atmosféricas e hidrológicas.

Os resultados das análises indicaram que as maiores tendências de aquecimento e seca na América do Sul nesse período de 40 anos foram observadas justamente na região de transição entre o leste da Amazônia e o Cerrado.

A região experimentou nas últimas quatro décadas uma ampla e significativa tendência de aquecimento durante a estação de transição seca para úmida, que ocorre entre os meses de julho e outubro.

Essas tendências de aquecimento induziram o atraso na estação chuvosa e pioraram as condições de seca severa na última década.

“Os resultados evidenciam um aumento na temperatura, déficit de pressão de vapor, frequência de dias secos e diminuição na precipitação, umidade e evaporação”, afirma Marengo.

“Também apontam um atraso no início da estação chuvosa, o que aumenta o risco de incêndio durante a estação de transição seca para úmida”, explica.

A despeito do aquecimento nas últimas quatro décadas, a área agrícola na região mais do que dobrou no período entre 2003 e 2013, saltando de 1,2 milhão para 2,5 milhões de hectares.

Aproximadamente 74% das novas terras agrícolas na região são de áreas de Cerrado, até então intactas.

“Esses achados fornecem evidências observacionais da pressão climática crescente nessa área, que é sensível para a segurança alimentar global, e a necessidade de conciliar a expansão agrícola e a proteção dos biomas tropicais naturais”, avalia Marengo.

Plano de adaptação

De acordo com o pesquisador, as secas na Amazônia e na região adjacente ao Cerrado geralmente estão relacionadas a eventos como El Niño e/ou às temperaturas da superfície do Atlântico Norte.

Esses aumentos de temperatura oceânica favorecem a ocorrência de déficits regionais anômalos de água, temperaturas mais quentes e intensas temporadas de incêndios, que podem ser fatores limitantes para o desenvolvimento, colheita e produção de soja no Matopiba.

Durante o El Niño de 2015-2016 foi registrada redução na produtividade da soja – que entre 2014 e 2015 foi de pouco mais de 96 milhões de toneladas e, no período do fenômeno climático, caiu para 95,4 milhões de toneladas.

“No futuro, eventos como o El Niño de 2015-2016 podem ser mais intensos. Por isso, é preciso começar a implementar medidas de adaptação para mitigar os impactos das mudanças climáticas naquela região, como redução do desmatamento da Amazônia e de mudanças do uso no Matopiba”, aponta Marengo.

“Se nada for feito, a produção agrícola vai cair porque é fortemente dependente do clima”, afirma.

O trabalho teve a participação de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e das universidades de Valência, na Espanha, e de Grenoble, na França.

O artigo Incresed climate pressure on the agricultural frontier in the Eastern Amazonia-Cerrado transition zone (DOI: 10.1038/s41598-021-04241-4), de José A. Marengo, Juan C. Jimenez, Jhan-Carlo Espinoza, Ana Paula Cunha e Luiz E. O. Aragão, pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41598-021-04241-4.

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Este texto foi originalmente publicado pela Revista da Fapesp [Aqui ].
 

Pesquisadores do INPA demandam que países europeus e China boicotem soja e carne para combater o desmatamento da Amazônia

Em artigo, os pesquisadores denunciam a nova alta de desmatamento na Amazônia e pressionam os países a pararem de comprar soja e carne bovina brasileira

oeco deforestationPesquisadores denunciam expansão da fronteira do desmatamento na Amazônia. Foto: Mauro Pimentel/AFP

Por Duda Menegassi para

Em texto publicado na revista científica internacional Nature na última semana, dois cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) denunciam a alta do desmatamento no Brasil e pressionam para que países europeus e China boicotem as importações de soja e carne bovina do país.

Em um dos trechos do texto, assinado por Lucas Ferrante e Philip Fearnside, ambos do INPA, os pesquisadores insistem que “os países que importam grandes quantidades de soja e carne bovina do Brasil a tomarem medidas para deter essa destruição. Cerca de 9,5% da soja exportada do Brasil e 5,3% de sua carne bovina vão para países europeus, com outros 79% e 52%, respectivamente, indo para a China. Os importadores devem mudar para outros exportadores até que o Brasil elimine o desmatamento causado pela exportação”.

“Há anos, os pecuaristas do estado de Mato Grosso vendem suas pastagens por preços altos para produtores de soja e compram terras baratas mais ao norte para desmatar para a produção de carne bovina”, explicam. 

Um dos autores do texto, o pesquisador Lucas Ferrante, explica a ((o))eco que o desmatamento na Amazônia traz ainda consequências econômicas para o país, como a escassez hídrica, que afeta diretamente tanto a agricultura quanto o bolso dos brasileiros. “Além disso, esse novo ciclo do desmatamento impulsionado tanto pela soja quanto pela pecuária, vem tirando a carne da mesa do trabalhador brasileiro, porque hoje a exportação da carne está atrelada ao preço do dólar. Isso faz com que seja mais vantajoso pros desmatadores, que lucram em dólar, e também para esses pecuaristas que invadem essas terras”, analisa o cientista do INPA.

O artigo destaca ainda a expansão da fronteira do desmatamento para o oeste do estado do Amazonas, seguindo a rodovia BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. “O desmatamento no Brasil hoje está ameaçando o último grande bloco de floresta amazônica intacta”, alertam.

Além disso, o aumento do desmatamento vai contra o compromisso do Brasil de mitigar as emissões de carbono, acrescentam os pesquisadores.

Ano de 2021 teve alta de 29% no desmatamento

A Amazônia viveu em 2021 o seu pior ano em uma década, com 10.362 km² de floresta destruída entre janeiro e dezembro – o equivalente a quase sete vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Os dados foram divulgados pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), e revelaram um aumento de 29% na taxa de desmatamento em comparação ao ano anterior – que já havia batido recorde com 8.096 km² de floresta perdidos. 

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Este texto foi inicialmente publicado pelo site OECO [Aqui!].