Professora da USP destroça mito do uso seguro de agrotóxicos no Brasil

agrotoxicos

A professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo  Larissa Mies Bombardi é hoje uma das maiores conhecedoras dos problemas envolvendo o uso de venenos agrícolas nas grandes monculturas plantadas para exportação no Brasil.  Em função disso, ela vem sendo atacada por entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador (o chamado agrobusiness).

No vídeo abaixo ela fala de forma bastante esclarecedora sobre as graves consequências do uso descontrolado de venenos agrícolas em altas quantidades e sem qualquer fiscalização efetiva no cotidiano das áreas onde os mesmos são estudados.

Abaixo uma entrevista conduzida pelo jornalista Bob Fernandes onde a professora Larissa Bombardi discorre de forma esclarecedora sobre um dos maiores mitos criados para justificar o uso dos agrotóxicos na agricultura, qual seja, de que é possível fazer uso seguro dessas substâncias de forma segura.

A verdade inescapável que emerge dessa brilhante entrevista é de que estamos sendo envenenados em nome dos interesses econômicos dos grandes latifundiários brasileiros. E aqui, mais uma vez, é preciso defender a reputação científica da professora Larissa Bombardi que está sendo vilipendiada por causa de estudos rigorosos que ela vem conduzindo e que são de completo interesse público.

Greenpeace bloqueia na França chegada de navio carregado de farelo de soja contaminado com desmatamento no Brasil

O produto saiu do porto de Cotegipe, onde a grande maioria da soja exportada vem do Cerrado brasileiro, e tinha como destino o mercado europeu

forest killerA ação busca chamar a atenção para a necessidade urgente de ação por parte de governos e empresas frente à crise climática.

Por Greenpeace Brasil

“Já que o governo Francês é incapaz de cumprir seu compromisso de combater o desmatamento e as mudanças climáticas, decidimos fazer isso por eles”, disse Cecile Leuba, da campanha de florestas do Greenpeace França. Na manhã de hoje (no horário do Brasil), cerca de 50 ativistas bloquearam a chegada do navio cargueiro ELLIREA, que saiu do porto de Cotegipe, em Salvador, com destino ao porto de Sète. O cargueiro transportava 50 mil toneladas de farelo de soja , que provavelmente seria usado para alimentação animal na França e na Eslovênia, destinos finais da carga do navio.

A ação acontece duas semanas após a publicação pelo Greenpeace Internacional do relatório Contagem Regressiva para a Extinção, que expõe o modelo de negócio predatório de grandes empresas em tempos de crise climática. De 2010 a 2020, período no qual  centenas de empresas se comprometeram a acabar com o desmatamento em suas cadeias produtivas, de diversas commodities agrícolas, 50 milhões de hectares de floresta foram desmatadas em todo o mundo para ampliar essa produção — o equivalente a uma área quase do tamanho de Minas Gerais.

Para chamar a atenção para a necessidade urgente de ação frente à crise climática, que faz vítimas no mundo todo, os ativistas do Greenpeace bloquearam o acesso do navio ao cais, em Sète, impedindo que ele atracasse, com um ativista pendurado em sua âncora. Os quatro guindastes que seriam utilizados para descarregar o produto também foram ocupados por ativistas, com banners com as mensagens “Agricultura industrial = desmatamento” e “Aviso: soja de desmatamento”. No casco do navio foi pintada a mensagem “Assassino florestal”.

O cultivo de soja já foi um dos principais vetores de desmatamento da Amazônia, até o estabelecimento da Moratória da soja em 2006. Porém, o cultivo do grão se expande sobre o território do  Cerrado brasileiro, a Savana mais biodiversa do mundo, deixando um rastro de desmatamento e muitas vezes conflitos sociais pelos territórios radicionalmente ocupados pela população indígena e outras populações tradicionais. O Cerrado, que ocupava 24% da área do Brasil, já perdeu quase metade de sua vegetação original. Mesmo assim,  a soja da região continua ganhando os mercados internacionais: ao menos 88% desse grão que sai do porto de Cotegipe vem do Cerrado e tem como destino países como a China, Espanha, Alemanha e França, onde o produto é majoritariamente usado na alimentação de animais de corte , como frangos, porcos e bois.

“Diversas empresas fizeram uma promessa há 10  anos aos seus consumidores, de que fariam a sua parte para acabar com desmatamento nos produtos que comercializam, isso teria um papel fundamental para minimizar a emergência climática que estamos enfrentando”, disse Rômulo Batista, da campanha de florestas do Greenpeace Brasil. “O curioso é que as mesmas empresas que ajudaram a sociedade a criar a Moratória da Soja, um importante mecanismo de proteção da Amazônia, hoje se negam a preservar o Cerrado e isso é inaceitável”, completa.

Os ativistas franceses exigem que os governo de seu país implemente regras mais rígidas para a entrada de produtos agrícolas não apenas do Brasil, mas de diversos outros países, com a comprovação que os produtos não têm relação com desmatamento e violações dos direitos humanos. Os franceses também buscam chamar a atenção de sua população sobre o consumo excessivo de carne e laticínios e seu impacto em ambientes como o Cerrado, a Amazônia e o Gran Chaco todos na América Latina.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil [Aqui!].

Monocultura da soja desmata e polui no Brasil para baratear consumo de carnes e laticínios na União Europeia

soja-6Avanço da monocultura da soja resultam em desmatamento explosivo e aumento exponencial do uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo.

No última 3ª. feira (18/06) postei um artigo sobre a dependência da União Europeia em relação à soja brasileira, dando ênfase a um relatório produzido pela seção francesa da organização não-governamental Greenpeace sob o título de “Apaixonada por carne, Europa alimenta a crise climática por sua dependência da soja“.

Passados alguns dias resolvi dar um mergulho nas informações que constam desse relatório, e compartilho a seguir alguns dos elementos que considero principais para um entendimento mais sólido dos altos custos ambientais, econômicos e sociais da hegemonia da monocultura da soja no Brasil, bem como dos usos preferenciais da produção brasileira na União Europeia que desmentem a falácia de que o Brasil é uma espécie de celeiro agrícola do planeta.  É que, quando muito, o Brasil se transformou numa espécie de garantidor do barateamento da produção animal europeia e, por extensão, da chinesa.

Um primeiro dado interessante é a evolução da produção mundial da soja entre 1997 e 2017 que mostra a evolução do Brasil e a aparente estagnação da produção vinda de seus principais concorrentes, que são os EUA e a Argentina. Enquanto isso, o resto do mundo continua com  produção relativamente estável, até porque com a expansão da produção brasileira restou pouco espaço para competição.

pProdução mundial de soja 1997-2017: foco nos três produtores principais.

Um segundo aspecto é a evolução espacial dos monocultivos da soja, a qual está intrinsecamente ligado no Brasil ao avanço do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, como bem mostra o mapa abaixo. Aqui é o elemento de interpretação é simples: a expansão da soja é um vetor fundamental no aumento do desmatamento no Brasil, o que desmente a falácia de que não havia plantios de soja em áreas de desmatamento novo. Essa tese já havia sido refutada em um artigo da qual sou co-autor e que foi publicado pela revista Acta Amazônica, mas o mapa feito corrobora o que havíamos indicado a partir do caso do estado de Rondônia.

mapa soja

Mapa com áreas com monoculturas de soja e o acompanhamento do processo desmatamento (áreas em vermelho).

Um aspecto particularmente interessante é o papel que a soja cumpre na alimentação dos rebanhos animais que estão estabelecidos na União Europeia (EU),  com um amplo uso em diferentes tipos de rebanhos, ainda que a dependência maior seja na alimentação de galinhas e porcos (74% do total).

repartição soja

Discriminação das necessidades da soja na EU de acordo com diferentes tipos de produção animal.

Entretanto, um dos resultados que mais me chamou a atenção foi o destino final da soja importada pela EU, pois, ao contrário do que difundem os latifundiários agroexportadores que vendem a ideia falaciosa de que o Brasil alimenta o mundo, quase 90% da soja importada pela EU é usada para alimentação animal.

uso final

Uso final da soja na UE: A principal finalidade é servir como comida animal.

Por outro lado, as atuais negociações entre o MERCOSUL e  a EU que parecem ir ao largo das graves transgressões nos direitos sociais e dos esforços para desmontar as estruturas de governança ambiental que estão sendo empreendidos pelo governo Bolsonaro ficam mais fáceis de entender quando se verifica que o Brasil fornece 37% da soja consumida pelos países europeus.

origem soja eu

Em conjunto o que o conjunto desses dados mostra é que a hegemonia da monocultura da soja na produção brasileira acaba servindo, como bem alerta o aludido relatório do Greenpeace, para baratear o consumo de carnes e produtos lactéos na União Europeia, enquanto que para o Brasil (e para a Argentina) sobram os altos custos sociais, altos níveis de consumo hídrico, e uma pesada herança associada ao uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos que estão banidos na própria EU. 

E sem falar que os alimentos que efetivamente consumimos no Brasil acabam sendo direta ou indiretamente contaminados pelos agrotóxicos que são abundantemente despejados nos grandios plantios de soja. 

‘Dependência europeia’ de soja transgênica desmata a América Latina, denuncia Greenpeace

soja desmatamento

Comer ovos e carne de frango ou porco na Europa aumenta o desmatamento em Brasil e Argentina, em consequência da importação maciça de soja transgênica destes países para alimentar animais, denunciou nesta terça-feira (11) o Greenpeace França.

“No Brasil e na Argentina, mais de 95% da soja produzida é geneticamente modificada”, indica um informe da ONG, que mostra também que mais da metade da soja que a UE utiliza é importada desses dois países (37% do Brasil, 29% da Argentina, 15% dos Estados Unidos e 19% do resto do mundo).

“O cultivo da soja nesses dois países leva a devastar suas florestas com o objetivo de alimentar os animais, especialmente na Europa”, resume à AFP a autora do informe, Cécile Leuba, encarregada de Florestas para o Greenpeace.

No estudo, com o título “Apaixonada por carne, Europa alimenta a crise climática por sua dependência da soja“, o Greenpeace indica que 87% desse grão importado para a UE é destinado à alimentação animal.

Do total das necessidades de soja da União Europeia, três quartos são destinados à criação industrial de frangos ou galinhas poedeiras (50%) ou de porcos (24%). As vacas leiteiras consomem 16% da soja importada e os bovinos cuja carne é destinada ao consumo, 7%.

“O que denunciamos é que se utiliza dois pesos e duas medidas na União Europeia. Por um lado, proibi-se os OGM e muitos pesticidas, e por outro se autoriza a importação de soja transgênica cultivada com pesticidas proibidos na Europa”, aponta Cécile Leuba.

“E o que queremos mostrar aos europeus é que em seu consumo de carne, ovos ou produtos lácteos se esconde o desmatamento, porque a maioria dos animais de criação têm soja em sua ração alimentar diária”, acrescenta.

Segundo o cálculo do Greenpeace, para obter 100 gramas de peito de frango se necessita 109 gramas de soja. Para a mesma quantidade de costela de porco, são requeridas 51 gramas de soja.

A produção de soja no Brasil “mais que quadruplicou nestes últimos 20 anos”, diz o informe.

– Reduzir 80% do consumo na Europa –

Se a Amazônia está “relativamente protegida desta expansão” graças à moratória negociada em 2006 entre ONGs, empresas e autoridades brasileiras, o cultivo de soja se desenvolveu nas savanas e florestas do Cerrado, que “perderam metade de sua vegetação original”.

A região do ‘Gran Chaco’, compartilhada entre Argentina, Bolívia e Paraguai, “também sofre uma forte pressão devido à expansão agrícola”, aponta o estudo.

Desde 1990, o uso de pesticidas por unidade de superfície “aumentou mais de 170% na Argentina e no Brasil”, estima o Greenpeace, e “mais de um terço dos pesticidas permitidos no Brasil não seriam autorizados pela UE”, principalmente o carbofurano e paraquat, assim como atrazina e imazethapyr na Argentina.

No entanto, a ONG considera impossível que a UE ou a França deslocalizem culturas não OGM para o velho continente para compensar.

Somente na França, para produzir as 3,5 milhões de toneladas de soja importadas a cada ano (incluindo 2 milhões do Brasil), seriam necessários outros 11.980 km2, ou seja, quase todas as terras agrícolas de Morbihan, Côtes d’Armor e do Finistère somadas.

E para reduzir as emissões de gases do efeito estufa, a ONG defende uma “transformação do sistema agrícola” através da redução do consumo e produção de proteínas animais.

“Na Europa Ocidental, onde o consumo de carne e produtos lácteos é quase o dobro da média global, esse consumo deve ser reduzido em cerca de 80% até 2050”, diz o Greenpeace.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela SwissInfo [Aqui!].

Preço da soja cai ao mais baixo em uma década à medida que a guerra comercial EUA-China se intensifica

A China disse que aumentará as tarifas de alguns produtos norte-americanos a partir de junho. Produtos agrícolas dos EUA atingidos vão da carne de porco ao retiro de algodão

colheita soja

A soja é colhida em Tiskilwa, Illinois. Fotógrafo: Daniel Acker / Bloomberg

Por Michael Hirtzer para a Bloomberg News

Os valores futuros da soja caíram para o nível mais baixo em uma década, com a escalada da guerra comercial entre os EUA e a China enfraquecendo as esperanças de que o país asiático retome as compras de grãos americanos para facilitar o excesso de oferta.

As commodities agrícolas da carne suína ao algodão caíram na segunda-feira, com a soja caindo para US $ 8 por bushel pela primeira vez desde 2008 em Chicago, depois que a China anunciou que aumentará as tarifas de alguns produtos americanos a partir de 1º de junho. e a Bunge Ltd. também recuou.

O  aumento das tensões comerciais entre os EUA e a China, o maior importador do mundo, tem agitado as perspectivas para a demanda de soja, à medida que os agricultores americanos semeiam a próxima safra. A China comprou várias rodadas de soja no início deste ano como gestos de boa vontade nas negociações comerciais.

“Claramente, há incerteza sobre para onde estamos indo”, disse Ken Morrison, analista independente de St. Louis. “Ambas as partes se apoiaram em um canto.”

A quebra nas negociações também aumenta a probabilidade de que algumas compras de produtos americanos, como soja e carne suína, sejam canceladas antes da entrega, disse Morrison. A China comprou cerca de 7,4 milhões de toneladas de grãos dos EUA que ainda não foram embarcados, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA.

As últimas negociações entre os dois países terminaram sem uma resolução, levando o presidente Trump na semana passada a prometer que as compras de safras americanas compensariam as vendas mais lentas para a China. Ainda assim, não está claro até que ponto isso iria resolver o atual excesso de oferta.

O conflito surge no momento em que a peste suína africana praga os produtores de suínos na China e nos países vizinhos, com as perdas de suínos no Vietnã chegando a 4% de seu rebanho doméstico. A febre alastrante pode reduzir ainda mais a demanda por soja e outros alimentos para gado.

Os fazendeiros americanos estão enfrentando dificuldades porque o problema tarifário que começou há um ano atrapalhou as exportações de soja, derrubando os preços e prejudicando a renda dos agricultores. A escalada das tensões reduz as esperanças de um acordo rápido e coloca o foco de volta em mercados bem supridos.

Na sexta-feira, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) divulgou sua perspectiva mensal de safra, que prevê a elevação dos estoques domésticos em sua primeira orientação para a próxima temporada.

“O relatório do USDA tem sido bastante pessimista na última sexta-feira e contribuiu para a atmosfera sombria em vigor sobre commodities agrícolas devido às intermináveis ​​e tensas discussões comerciais entre EUA e China”, disse Agritel em nota.

PREÇOS OLEOSOS

  • Valores futuros de soja para entrega em julho caíram 2,3%, para US $ 7,91 o bushel, na Bolsa de Chicago.
  • Esse é o menor valor para contratos ativos desde o final de 2008.
  • Os preços caíram 11% até agora este ano.
  • Farinha de soja -1,3% para US $ 283,60 por 2.000 libras.

MERCADOS DE GRÃOS

  • Futuros de trigo para entrega em julho -0,7% para US $ 4,21 3/4 por bushel na CBOT.
  • Esse é o menor valor desde janeiro de 2018 para contratos ativos
  • Os valores futuros de trigo para moagem em dezembro também caem em Paris, com os preços atingindo uma baixa de contrato de EU 171,75 /t.
  • Os valores futuros de milho seguem para a quarta queda direta na CBOT.

 

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela Bloomberg News [Aqui!].

Ricardo Salles e a sombra dos 602 cientistas que cobram ações da UE contra a depredação ambiental do Brasil

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Manifesto de 602 cientistas europeus demanda que a União Europeia exija práticas de sustentabilidade do Brasil por causa do avanço do desmatamento na Amazônia e do Cerrado.

O ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, parece querer repetir o papelão de seu colega de ministério Sérgio Moro, que foi a Portugal para bater boca com o ex-primeiro ministro José Socrates (e saiu de terras portuguesas sem penas), e resolveu bater boca com os cerca de 600 cientistas europeus que publicaram uma carta na revista Science demandando ações concretas para conter o vandalismo ambiental que está sendo executado pelo governo Bolsonaro e que ameaça a integridade do que ainda resta da floresta Amazônica.

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 É que em vez de começar a agir como o ministro do Meio Ambiente em vez do desmantelador geral da pasta, Ricardo Salles concedeu uma entrevista ao site G1 onde repete fábulas insustentáveis, tais como a de que o “Brasil é exemplo de sustentabilidade” e que o “problema ambiental brasileiro está nas cidades, e não no campo“. Segundo ainda a reportagem do G1, Ricardo Salles teria declarado que “em comparação com outros países, “nós é que somos exemplo de cuidado com o meio ambiente“.

Esse tipo de declaração pode até cair bem com os segmentos mais retrógrados do latifúndio agroexportador, mas dificilmente servirá para diminuir a pressão política que a carta assinada por cientistas de mais de 28 países europeus que demanda que a União Europeia pare de “importar desmatamento brasileiro” na forma de commodities agrícolas e minerais, e que também aja para combater a violência contra os povos indígenas.

O que Ricardo Salles e sua colega ministra da Agricultura, Tereza Cristina, deveriam estar se preocupando, e não estão, é com o fato de que cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde), o Brasil irá sofrer uma espécie de isolamento sanitário por causa do uso excessivo de agrotóxicos e do aumento explosivo de desmatamento que está ocorrendo em diversos biomas nacionais, especialmente na Amazônia e no Cerrado.

agrotoxicos

E que ninguém tenha dúvida de que o alerta da Rússia sobre o alto teor de Glifosato na soja brasileira deverá ser apenas o primeiro, e que outras commodities deverão em breve ter a continuidade de sua aquisição questionada pelo mesma exata razão.

soja

Aviso da Rússia sobre problemas com a compra da soja por causa do excesso de Glifosato deverá se repetir com outras commodities brasileiras.

Ainda que o governo Bolsonaro e seus ministros neófitos já tenham dados amplas demonstrações de seu despreparo para lidar com atores que não possuam caráter paroquial, alguma mente pensante que ainda resta no Ministério das Relações Exteriores deveria informar a Ricardo Salles do peso que uma correspondência do tipo publicado justamente pela revista Science deverá ter sobre os organismos colegiados da União Europeia.

É que lá, diferente do acontece por cá, o momento é de um forte engajamento entre a comunidade científica, governos nacionais, União Europeia e o empresariado. Prova disso é a iniciativa chamada de “Horizon Europe” que deverá aportar em torno de R$ 500 bilhões em financiamento de projetos de pesquisa que contribuam para o processo de desenvolvimento econômico daquele bloco econômico.

E no meio disso beira a sandice acreditar que um manifesto do porte do que foi publicado na Science vá ser desprezado em prol das declarações de Ricardo Salles.  Isso simplesmente não acontecerá.

Como estive residindo na Europa por 6 meses,  posso dizer que o estado de humor em relação aos retrocessos que estão sendo executados pelo governo Bolsonaro, retrocessos esses que têm em Ricardo Salles um dos principais executores, é péssimo. Com essas declarações do antiministro do Meio Ambiente, a chance de que o humor vá azedar de vez não é desprezível. E se isso realmente acontecer, vamos ver como Ricardo Salles vai se virar.

 

ONG liga empresas da Europa e EUA a desmatamento na Amazônia

Relatório lista empresas que compram produtos, como carne e madeira, de fornecedores multados por desmatamento no Brasil, em meio a temores de retrocesso ambiental no governo Bolsonaro.

desmatamento

Desmatamento ilegal no sul do estado do Amazonas, em 2017

“Estamos vivendo os primeiros estágios de um apocalipse”, declarou este mês uma aliança de povos indígenas ao diário francês Le Monde. A origem dessa preocupação está no desmantelamento acelerado dos direitos de posse de terras indígenas na Amazônia, um tema que domina o debate político-ambiental no Brasil desde que o presidente Jair Bolsonaro chegou ao poder.

Mas, ao escreverem num jornal que é publicado na Europa, os 13 autores – que representam povos nativos de vários países, incluindo o Brasil e a Nova Zelândia – miravam um público importante e nem sempre levado em conta. A França, assim como outros países ocidentais, é a sede de empresas cuja cadeia produtiva é manchada pelo desmatamento ilegal na Amazônia.

Nos últimos dois anos, a empresa brasileira Benevides Madeiras exportou, respectivamente, 266 e 125 toneladas de madeira para as empresas francesas Guillemette & Cie e Groupe Rougier, segundo um relatório publicado nesta quinta-feira (25/04) pela ONG Amazon Watch. E isso apesar de o proprietário, Arnaldo Betzel, ter sido multado em R$ 2,2 milhões por desmatamento ilegal.

O relatório afirma ainda que empresas da Bélgica, da Holanda e da Dinamarca também receberam carregamentos de madeira da Benevides Madeiras. Uma empresa alemã que produz bebidas, a Acai GmbH, importou 9 toneladas de polpa de fruta em 2018 de outra empresa de Betzel, a Argus, acrescenta o levantamento da Amazon Watch.

Essas empresas fazem parte de um grupo de 27 empresas europeias e norte-americanas cuja cadeia produtiva foi ligada ao desmatamento ilegal pela Amazon Watch, basicamente por meio da importação de produtos como carne bovina, couro, soja e madeira.

O relatório levanta questões sobre a responsabilidade de nações ricas – e das suas empresas – no desmatamento da Amazônia brasileira. “Nós cultivamos a terra para alimentar a nossa gente e não para alimentar animais no outro lado do mundo”, escreveram os representantes da Aliança dos Guardiães da Mãe Natureza no Le Monde.

A destruição da Amazônia para a produção de carne, grãos e madeira tem causado perda de biodiversidade e elevadas emissões de gases do efeito estufa. Especialistas consideram que o desmatamento da Amazônia é um dos principais empecilhos para se chegar às metas climáticas globais.

Mas a responsabilidade não é apenas brasileira. “Comerciantes internacionais, instituições financeiras e empresas importadoras desempenham um papel extremamente importante”, diz um dos autores do relatório, Christian Poirier, da Amazon Watch. “Nossas conclusões mostram que eles são cúmplices na crescente destruição da Amazônia brasileira e de suas comunidades e povos indígenas.”

O relatório, que analisou remessas de 56 empresas brasileiras envolvidas no desmatamento ilegal para as empresas de nações ricas que compram delas, não afirma que um determinado carregamento continha produtos obtidos do desmatamento ilegal, mas mostra que importadores da Europa e da América do Norte compraram de fornecedores brasileiros que recentemente receberam multas das autoridades ambientais.

Num dos casos, a maior exportadora brasileira de carne bovina, a JBS, teria abatido animais da AgroSB, empresa que recebeu as maiores multas por desmatamento ilegal do país em 2017. Os maiores acionistas ocidentais da JBS incluem a Blackrock, maior empresa mundial de gestão de ativos, e a Capital Group e detêm quase 2 bilhões de dólares em ações, afirma o relatório.

Em outro caso, uma subsidiária do Grupo Bihl, uma empresa de produção de carne bovina, exportou couro para cinco curtumes italianos em 2017. Naquele ano, uma outra empresa do Grupo Bihl, a Agropecuária MALP, foi multada em R$ 3,8 milhões por desmatamento ilegal, afirma o relatório.

A JBS afirmou que “não adquire animais de fazendas envolvidas com desmatamento de florestas nativas, invasão de áreas indígenas e áreas de conservação ambiental” e que auditorias mostraram que, nos últimos três anos, mais de 99,9% dos animais adquiridos pela empresa estão em conformidade com os seus critérios sociais e ambientais.

Todas as demais empresas mencionadas se recusaram a comentar o relatório ou não responderam a pedidos para se posicionarem.

Ambientalistas afirmam que o setor privado tem um papel importante a desempenhar na prevenção de um retrocesso na situação ambiental do Brasil sob Bolsonaro. Desde que assumiu o poder, em janeiro, o militar da reserva seguidamente defendeu a expansão do agronegócio na Amazônia, mesmo às custas dos direitos dos povos indígenas e do meio ambiente.

“Este relatório é um convite para pedir [a essas empresas] que repensem, e para agir como vigilante sobre os piores atores no Brasil e, em último caso, sobre o regime Bolsonaro”, diz Poirier. “Isto não é um ataque, mas um alerta – as empresas precisam melhorar suas cadeias de fornecimento e seus portfólios financeiros.”

Décadas de ativismo fizeram as taxas de desmatamento no Brasil caírem, mas analistas temem que elas possam voltar a crescer. Em 2018, o Brasil registrou sua maior taxa de desmatamento em uma década, segundo dados do governo, em parte devido a pessoas que se sentiram encorajadas a desmatar sob o novo governo. Em todo o mundo, o desmatamento é a segunda maior fonte de emissões de gases do efeito estufa.

O Ministério do Meio Ambiente brasileiro não retornou os contatos feitos pela DW.

Informar o consumidor

A presença de produtos obtidos a partir do desmatamento ilegal em lojas de cidades europeias e norte-americanas – de bolsas de luxo a smoothies orgânicos – levanta questões éticas para consumidores e governos ocidentais, assim como para as empresas responsáveis.

“Muitas das florestas sendo destruídas estão sendo destruídas ilegalmente”, diz David Kaimowitz, diretor de recursos naturais de mudanças climáticas da Fundação Ford. “De uma perspectiva de políticas, isso é importante porque governos têm o direito de impedir produtos produzidos de forma ilegal de entrar em seus países.”

Especialistas dizem que o problema é ainda pior porque consumidores muitas vezes não sabem que efeitos os produtos que eles compram deixaram em florestas tropicais. “Acho que consumidor típico não sabe quando está comprando carne ou biscoitos cujos ingredientes estão entre as maiores causas de desmatamento”, diz Kaimowitz.

Se os produtos tivessem mais informações nas suas embalagens, os consumidores poderiam tomaram uma decisão de forma mais consciente. “Se o consumidor sabe, pode decidir ele mesmo”, diz a economista Ruth Delzeit, do instituto econômico alemão IFW.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!]. A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.