Desmatamento causado por carne e soja dobrou no Brasil em um ano, diz Mighty Earth

ONG internacional inicia uma campanha para que as redes de supermercados da Europa cortem vínculos com empresas envolvidas na destruição da Amazônia e do Cerrado

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Um monitoramento feito pela ONG Mighty Earth e divulgado nesta sexta-feira (30/04) mostra que o desmatamento atrelado à cadeia de fornecimento das principais empresas de soja e carne bovina do Brasil dobrou entre abril de 2020 e março de 2021 (260 mil hectares) ante o período anterior, entre março de 2019 e abril de 2020 (128 mil hectares).

Ao mesmo tempo, a esmagadora maioria dos consumidores de Alemanha, França, Holanda e Reino Unido acha que os supermercados não devem fazer negócios com as empresas que estão impulsionando a destruição das florestas no Brasil, revela uma nova pesquisa do Instituto YouGov realizada a pedido da ONG Mighty Earth e também divulgada hoje.

A Mighty Earth está usando essas duas informações em uma nova campanha que pede expressamente que as redes varejistas da europa parem de fazer negócios com empresas ligadas ao desmatamento no Brasil. Todos os anos, entre junho e setembro, os maiores comerciantes mundiais de soja unem forças com os maiores produtores de soja do Brasil para negociar contratos de compra para o próximo ano. A campanha tem o objetivo claro de influenciar as negociações sobre requisitos contratuais, como cláusulas que impedem a compra de soja cultivada em terras desmatadas após o prazo de 2020.

O monitoramento da Mighty Earth começou em março de 2019 e mostra que os dois maiores importadores europeus de soja, Bunge e Cargill, são os comerciantes com pior desempenho ambiental. A Cargill está ligada a mais de 66 mil hectares de desmatamento, uma área seis vezes maior do que a de Paris, enquanto a Bunge está ligada a quase 60 mil hectares de desmatamento.

Apesar desta espiral de desmatamento, houve apenas um caso em que uma das empresas citadas cortou laços com um fornecedor envolvido no desmatado, dos 235 casos registrados e reportados pelo Mighty Earth em seu monitoramento.

“A destruição das florestas no Brasil, impulsionada pela carne de supermercado, está piorando a cada ano. Isto está acelerando a mudança climática e dizimando a pátria da onça-pintada”, diz Martin Caldwell, Diretor da Mighty Earth na Alemanha.

Mercados: Alemanha e França

A pesquisa do Instituto YouGov entre os consumidores alemães indicou que 87% quer que os supermercados parem de fazer negócios com fornecedores que impulsionam o desmatamento no Brasil. Esse percentual é maior (89%) entre os clientes da EDEKA, o maior grupo de supermercados da Alemanha, com 24% de participação no mercado e mais de 4300 lojas. A empresa promove fortemente suas credenciais de sustentabilidade e estreou recentemente uma campanha publicitária sobre o tema na TV e nas redes sociais.

“Já é hora de a EDEKA ouvir seus clientes e abandonar as empresas de pior desempenho que estão provocando a destruição das florestas brasileiras – JBS, Cargill e Bunge”, afirma Caldwell. “A hora de impulsionar a mudança no Brasil é agora.”

Na França, o resultado é semelhante: 89% dos clientes do Carrefour no país querem que a rede deixe de comprar produtos com origem no desmatamento praticado no Brasil. No ano passado, o Carrefour liderou uma campanha voluntária neste setor que resultou em todos os grandes supermercados franceses se comprometendo a utilizar somente soja sem desmatamento em suas cadeias de abastecimento. Após seis meses, o Carrefour não fez nenhum progresso significativo na redução de suas ligações com os comerciantes de soja de pior desempenho Cargill e Bunge, e está falhando em conduzir mudanças reais no terreno, afirma a Mighty Earth.

Já a EDEKA assumiu fortes compromissos para remover o desmatamento em todas as suas cadeias de abastecimento, mas em seu relatório de 2019 , a empresa alemã admite que houve pouco progresso para melhorar a sustentabilidade de suas cadeias de abastecimento de carne e soja. Apesar disso, a varejista alemã, ainda não excluiu os comerciantes de soja de pior desempenho, que são a Cargill e a Bunge.

“Os consumidores estão preocupados, pois não suportam mais o gosto residual do desmatamento e a extinção de espécies ameaçadas que a carne comprada nas lojas do grupo Carrefour deixa”, afirma Fatah Sadaoui, Campaigner da ONG SumOfUs. “Em resumo, o que esperamos do Carrefour é menos conversa e mais ação.”

Cicatrizes da monocultura: Em Rondônia, trabalhadores da soja relatam lesões e abusos em contratada da Cargill

Pelo menos 6 funcionários da Bertolini Ltda, empresa que transporta os grãos da Cargill pelo rio Madeira (RO), relatam problemas de saúde como dedos amputados e perda de visão por conta de acidentes trabalhistas; empresa nega violar legislação trabalhista

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Por Daniel Camargos, de Porto Velho (RO). Fotos: Fernando Martinho | para a Repórter Brasil

Dedos amputados, perda de visão e cirurgias na coluna são algumas das cicatrizes deixadas pela crescente produção de soja no Brasil. Apenas o transporte do grão da Cargill — um dos maiores conglomerados do agronegócio mundial — pelo rio Madeira, em Rondônia, deixa um legado de trabalhadores com lesões graves decorrentes de acidentes trabalhistas e de violações de normas de segurança.

Repórter Brasil ouviu seis funcionários e ex-funcionários da Transportes Bertolini Ltda (TBL), empresa contratada pela Cargill para fazer o transporte da soja pelo rio, que sofreram graves acidentes trabalhistas, na maior parte das vezes após jornadas irregulares de mais de 30 horas sem descanso. Além dos problemas de saúde, os trabalhadores se queixam da exposição à poeira repleta de agrotóxicos do grão e da omissão da empresa. Três deles só conseguiram indenizações após entrarem com ações na Justiça.

Cicatriz da cirurgia de hérnia de disco de James Vasconcelos; mesmo depois da operação, ele segue trabalhando em serviços que exigem esforço da coluna. ‘Se continuar fazendo isso, o problema pode se agravar e até me deixar numa cadeira de rodas’ (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Célio Albuquerque, 56 anos, trabalhava como marinheiro em dois portos de soja movimentando cabos de aço. Ele conta que, após 19 horas seguidas de trabalho, um cabo soltou e atingiu sua cabeça. “Rasgou meu capacete, quebrou meu nariz e acertou meu olho”.

Albuquerque era integrante da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) e seis meses antes do acidente enviou para a empresa um relatório, com fotos, mostrando que a estrutura que sustentava o cabo estava avariada. Após o acidente, ele relata ter escutado dos responsáveis da TBL e da Cargill que receberia assistência médica. “As duas pularam fora e consegui fazer a cirurgia só depois de uma liminar determinando que as empresas pagassem, mas acabei perdendo a visão do olho direito”.  

Sem condições de voltar ao trabalho, Albuquerque entrou com um pedido de rescisão indireta, alegando na ação outras violações, como o excesso de jornada de trabalho, pois diz que durante a  jornada de 48 horas não tinha o tempo adequado para descanso. Já se passaram cinco anos e ele nunca recebeu qualquer tipo de reparação por parte da TBL. Nesse período, Albuquerque passou a tratar um câncer no intestino e viu uma filha morrer. “Eu acredito que esse meu sofrimento com a empresa e com a Justiça acelerou o problema [de saúde] que ela tinha”, entende o marinheiro, que também vê ligação entre a dor psicológica e o câncer. “Afetou demais meu estado emocional”.

‘É desumano. Pensar que são empresas no patamar dessas duas [TBL e Cargill]. Olha, escravidão não é só chicote’ Francisco Nascimento Barros, ex-funcionário da TBL

Sem receber as verbas trabalhistas e sem poder trabalhar por causa do câncer, que está em estado avançado e já atingiu o fígado, Albuquerque diz também que ficou quatro meses sem receber o auxílio-doença do INSS. Somente depois de a Repórter Brasil pedir explicação sobre os motivos da suspensão para o órgão é que o pagamento voltou a ser feito. “Você trabalha, se esforça a vida toda e quando precisa é abandonado”, reclama. 

Duas hastes e cinco pinos na coluna

O também marinheiro James Vasconcelos segue trabalhando na TBL mesmo depois de uma cirurgia na coluna devido a uma hérnia de disco. Ele diz que a recomendação médica é para que ele evite carregar peso, mas o funcionário segue movimentando os cabos que prendem as balsas de soja, o que exige esforço de todo o corpo. 

“Se continuar fazendo isso, o problema pode se agravar, levar novamente a uma hérnia ou me deixar numa cadeira de rodas”. Antes da cirurgia, a dor era tanta que o marinheiro não conseguia andar. “Depois da cirurgia, fiquei afastado por seis meses e voltei para a mesma função”. Ele teme pedir demissão e não ter condições de saúde para trabalhar em outra empresa. “E se um dia eu não aguentar mais trabalhar? Tenho duas hastes e cinco pinos na coluna”.

Célio Albuquerque perdeu a visão do olho direito após um acidente com um cabo de aço enquanto carregava uma balsa de soja (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Vasconcelos diz que a recomendação médica é para que ele evite carregar peso, mas ele segue movimentando os cabos que prendem as balsas de soja, o que exige esforço de todo o corpo, inclusive da coluna. “Se continuar nisso, o problema pode se agravar e até  me deixar numa cadeira de rodas”. Trabalhando na TBL há 17 anos, ele relata que é comum ocorrerem desvios de função e longas jornadas de trabalho que não respeitam o período de descanso. “Já passei 48h em cima do píer trabalhando o tempo todo”. 

“Eles [os funcionários] sofrem problemas físicos, psicológicos e até mesmo na convivência familiar. São problemas enormes, sem precedentes. Não tem como mensurar”, afirma a advogada trabalhista Caroline França Ferreira Batista, que representa funcionários e ex-funcionários da TBL.

Acidente com nove mortos

Não é a primeira vez que a TBL foi alvo de denúncias de desrespeito às normas trabalhistas. Em novembro do ano passado, a empresa foi condenada pela Justiça a pagar R$ 10 milhões por dano moral coletivo por conta de um acidente em 2017, que deixou  9 mortos. Além da multa, a Justiça determinou que a empresa deve instruir os empregados quanto às precauções para evitar acidentes de trabalho.

“A cadeia da soja é de alto risco e com grande número de acidentes de trabalho”, afirma a procuradora chefe do MPT em Rondônia e no Acre, Camilla Holanda. Um ano depois do acidente, o órgão apertou o cerco e realizou duas forças-tarefa fiscalizando os portos da região Norte. Foram encontradas mais de 100 infrações trabalhistas, que atingiram 14 das 17 empresas que atuam no rio Madeira, sendo a TBL uma delas.

Além de exportar soja, a Cargill produz óleo de cozinha, maionese e molhos em marcas próprias como Liza, Maria, Pomarola, Elefante e Veleiro (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Procurada, a Transportes Bertolini Ltda (TBL) afirmou, por meio de seu gerente jurídico, Fernando Parisotto, que o ambiente de trabalho da empresa “é absolutamente seguro e que são respeitadas rigorosamente todas as normas de medicina e segurança no trabalho, bem como todos os riscos são controlados”. 

Sobre Albuquerque, a empresa  afirmou que o funcionário não teve seus pedidos atendidos pela Justiça trabalhista e que ação ingressada pelo MPT apontando acúmulo de atividades e jornada exaustiva foi considerada improcedente. Com relação à Vasconcelos, Parisotto respondeu que as atividades executadas no ambiente de trabalho são “compatíveis com as condições físicas e psicológicas de cada empregado”. Disse também que Vasconcelos é marinheiro, mas que executa “atividades burocráticas compatíveis com a recomendação médica”.

A Cargill, contratante da TBL, afirmou que eles não são funcionários da empresa e que “realiza monitoramento constante, avaliando todos os fornecedores”. Leia as respostas na íntegra.

Jornada de 48h sem descanso

O comandante da embarcação Simeão Furtado Passos faz relato semelhante. “Peguei três hérnias de disco trabalhando lá”, conta o ex-funcionário da TBL. A escala de trabalho era de 48h por 48h e Passos afirma que não havia como descansar. “Os camarotes não tinham nem ar condicionado e nem ventilador. Mais de 40 graus”, lembra.  Passos diz que chegou a reivindicar melhorias nos alojamentos, pois era comandante, mas ouviu como resposta do gerente que não era possível. 

Aposentado por invalidez, Marcelo Dias sente dores no joelho e na coluna; e também sofreu alergias com a poeira do agrotóxico da soja (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Outro comandante, também ex-funcionário, Francisco Nascimento Barros, classifica a cabine em que trabalhava como insalubre. “É desumano. Escravidão não é só chicote”. Durante a jornada de 48h, Barros relata que precisava estar disponível o tempo todo. 

Além do descumprimento de leis trabalhistas, os trabalhadores da soja no porto são pressionados pela crescente produção do grão nos últimos anos, que em 2021 deve ter alta de 8,5% em relação à safra de 2020, segundo o IBGE. As exportações também seguem em alta, sendo a Cargill a principal exportadora do grão brasileiro.

‘Tenho sequelas para o resto da vida e me arrependo muito de não ter saído do emprego, pois hoje eu estaria inteiro’, Marcelo Inácio Dias, ex-funcionário da TBL aposentado por invalidez

Os portos do rio Madeira transportam, além da soja plantada em Rondônia, parte dos grãos produzidos no Mato Grosso, que cruzam o Amazonas e o Pará por via fluvial até chegar ao Atlântico, para o mercado internacional. 

Quem navega nos rios da região Norte já se habituou a cruzar com as embarcações puxando filas de balsas de soja. Quase 20% da soja produzida no Brasil corre pelos rios da Amazônia. Levantamento do Diálogo Chino mostra que há 100 portos fluviais industriais privados na Amazônia e que estão em andamento projetos de outros 40, com investimentos de centenas de milhões de dólares, em locais de ecossistema sensíveis.  

A balança comercial das exportações brasileiras do agronegócio somou US$ 100,81 bilhões em 2020, um crescimento de 4% na comparação com 2019. A soja foi o setor que mais contribuiu, com US$ 35,2 bilhões. O setor está imune à crise econômica brasileira agravada pela pandemia. “Plantar em real para colher em dólar”, como costumam dizer os sojeiros. 

José Ulhôa toma vários medicamentos para suportar as dores crônicas; ele ficou com os dedos da mão deformados pelo trabalho no carregamento da soja (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

O marinheiro José Cláudio Manoel Uchôa, que está afastado do trabalho na TBL há 3 anos por problemas de saúde, afirma que os trabalhadores costumam ser contemplados na primeira instância judiciária, mas perdem na segunda. 

“Eles [Cargill e TBL] têm um corpo jurídico muito grande e, Deus me perdoe, mas devem ter influência dentro dos tribunais”, afirma, enquanto mostra os dois dedos da mão deformados pelo trabalho. Ele sente dores recorrentes na coluna e teve que fazer uma cirurgia no joelho. “Escorreguei na embarcação e rompi o menisco e o ligamento do joelho”. Quando começou a trabalhar na TBL, Uchôa afirma que não tinha nenhum problema de saúde. “Agora eu não durmo direito, não tenho sono, fico zanzando pelo meio da casa”, diz. Em casa, um pote preto está lotado de remédios, que ele toma várias vezes ao dia para suportar as dores.

“Tenho sequelas para o resto da vida e me arrependo de não ter saído do emprego, pois hoje eu estaria inteiro”, afirma Marcelo Inácio Dias, ex-funcionário da TBL, aposentado por invalidez. Ele ficou com problemas na coluna mesmo após uma cirurgia, sente dores crônicas no ombro, no joelho e ficou com um dedo da mão imobilizado por causa de um acidente movimentando as balsas. Teve problemas também por conta dos agrotóxicos aplicados aos grãos: “Tem veneno demais. Passei muito tempo com coceira no corpo”. 

Dias lamenta que a TBL e a Cargill não paguem os direitos trabalhistas devidos e que os funcionários precisem pedir judicialmente. “Para eles é pouquinho, mas para a gente é muito. Precisamos desse dinheiro para tentar recomeçar a vida e seguir em frente”. 

Célio Albuquerque mostra relatórios que fez quando era integrante da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa). Segundo ele, as empresas ignoraram avisos sobre riscos de acidentes (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Simeão Passos afirma que não havia como descansar nas embarcações pois os camarotes não tinham nem nem ventilador e a temperatura chegava a mais de 40 graus (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Durante a jornada de 48h, os funcionários precisavam estar disponível o tempo todo, relata Francisco Nascimento Barros (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Remédios, especialmente para dores musculares crônicas, que Uchôa toma ao longo do dia (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

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Esta reportagem foi originalmente publicada pela Repórter Brasil [Aqui!]

Dossiê alerta que a expansão da soja provocou estagnação da produção de alimentos

Produzido pela FASE, “Dossiê crítico da logística da soja” analisa as diversas dimensões da produção dessa commodity, buscando reflexões para o futuro

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Nos últimos 40 anos, o Brasil aprofundou a lógica colonial concentrando as terras agrícolas em torno do monocultivo de poucas commodities para exportação, com graves consequências sociais e ambientais. Com Infográficos, dados e análises sobre o avanço da monocultura rumo à Amazônia, Dossiê Crítico da Logística da Soja: Em defesa de alternativas à cadeia monocultural, produzido pela FASE, detalha o risco de desabastecimento de produtos básicos como o arroz e o feijão e os diversos conflitos de terra que estão surgindo por consequência dos avanços da cultura de soja rumo às terras e portos do Norte.

“O estrangulamento da agricultura familiar tem provocado a fragilização dos sistemas tradicionais de cultivo desses alimentos. No caso do arroz, por exemplo, nesses 40 anos, um único estado (Rio Grande do Sul) passou de 34% para 70% da produção nacional, com graves consequências para o abastecimento”, analisa Silvio Porto, coautor e professor da Universidade do Recôncavo da Bahia. Além disso, a estratégia de formação de estoques públicos foi abandonada. “O estoque atual de arroz não atende sequer ao consumo nacional de dois dias, enquanto as exportações só crescem”, completa.

A soja, carro-chefe do agronegócio “moderno”, representou, junto com o milho, mais de 90% de toda a safra de grãos colhida no Brasil em 2020. Em 43 anos, a produção brasileira da oleaginosa foi ampliada em 10 vezes, saltando de 12 milhões de toneladas (na safra 1976/77) para 124,8 milhões de toneladas (na safra 2019/20). A logística da soja tem estado no centro da agenda “pública” do país, em detrimento de alternativas de infraestrutura com potencial de dinamizar outras economias e formas de viver e produzir.

Devastação, conflitos e resistência

O terceiro capítulo do dossiê analisa a “guerra das rotas”, como os interesses do agronegócio incidem sobre os programas públicos de infraestrutura em um contexto de disputas entre diferentes projetos para o escoamento da soja. Em comum, o desenho de rotas que permitam conectar as fronteiras agrícolas ao novo destino prioritário: a China.

Em 2020, dos 12 principais complexos portuários em termos de volume de soja exportada no país, seis estavam na Amazônia: Barcarena (PA), Itaqui (MA), Santarém (PA), Itacoatiara (AM), Porto Velho (RO) e Itaituba (PA). Mais um complexo portuário do Arco Norte (fora da Amazônia Legal) figurava entre os doze principais: Cotegipe em Salvador (BA). Há diversos projetos de concessão previstos até 2022, em especial das ferrovias de Integração Oeste-Leste (FIOL) TO-BA, em obras, e a Ferrogrão (MT- PA). Além do Ministério de Infraestrutura, os governos estaduais se mobilizam ativamente pela atração de investimentos em seus estados, em especial Maranhão, Pará, Bahia e Mato Grosso. “Além das evidentes consequências econômicas e ambientais, a apropriação privada da terra, a concentração fundiária e a violência no campo são a face mais perversa desse processo”, conclui Diana Aguiar, pesquisadora e organizadora da publicação.

Para Diana, a continuidade desses projetos ao longo de inúmeros governos representa a vigência de um consenso: ênfase nas infraestruturas para a viabilização da extração e escoamento de commodities. “Para cada um desses projetos, há processos de mobilização e resistência em curso. Esses projetos são desenhados a partir de lógicas totalmente alheias aos territórios por onde cruzam, gerando legítimos questionamentos de povos e comunidades tradicionais sobre o que é o ‘desenvolvimento’ que prometem e, acima de tudo, para quem é esse desenvolvimento”.

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Este publicação foi originalmente publicada pela Fase [Aqui! ]

China e Rússia fazem queixas de agrotóxico e coronavírus em carne e soja exportadas pelo Brasil

Nos telegramas, as duas embaixadas disseram que os órgãos de fiscalização da Rússia e da China pediram providência ao MAPA

Soya Plantation in the Amazon
Plantação de soja na Amazônia

Por Raquel Lopes / FolhaPress

As embaixadas do Brasil na China e na Rússia reportaram, em telegramas ao Itamaraty, problemas em alimentos brasileiros exportados. Segundo diplomatas, autoridades nos dois países cobram soluções e há até queixa por “falta de controle” em relação aos produtos brasileiros.

Moscou, por exemplo, alertou para o índice de agrotóxico acima do limite permitido. Só em 2020, a reclamação envolveu mais de 300 mil toneladas de soja.

A missão em Pequim, por outro lado, relatou ao menos seis registros de presença do novo coronavírus em embalagens de carne e de pescado.

Nos telegramas, as duas embaixadas disseram que os órgãos de fiscalização da Rússia e da China pediram providência ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

A Folha teve acesso a 350 páginas das correspondências enviadas ao Ministério das Relações Exteriores. Os documentos foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

Segundo dados do Comex Stat, um sistema do governo para consultas e extração de dados do comércio exterior brasileiro, a soja correspondeu a 25% da exportação brasileira para a Rússia em 2020.

Em um dos telegramas de janeiro, a embaixada do Brasil em Moscou cita que o Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia está preocupado com casos repetidos de detecção de glifosato acima do tolerado.

O documento pontuou que o país está endurecendo o controle sobre a presença da substância em produtos de grãos tanto no mercado interno quanto nas operações de exportação e importação.

A justificativa usada pelo país seria por causa do alto grau de toxicidade do glifosato para humanos e animais, confirmado por estudos da  Organização Mundial de Saúde (OMS).

Como funciona a permissão de agrotóxicos no Brasil

No Brasil, esse tipo de agrotóxico é permitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O telegrama assinado pelo embaixador na Rússia, Tovar da Silva Nunes, citou que a agência reguladora russa tem informado repetidamente ao MAPA sobre o fornecimento ao país de soja com níveis acima do permitido desde 2019.

“O lado russo chamou a atenção dos colegas brasileiros para a necessidade de tomar medidas corretivas o quanto antes”, escreveu o diplomata.

Nunes acrescentou ainda que o desrespeito aos limites do agrotóxico corresponde a uma violação aos requisitos do regulamento técnico da União Aduaneira sobre a segurança dos grãos.

Segundo consta do telegrama, os resultados de verificação de segurança de grãos importados pela Rússia constataram, em parte da soja exportada no ano passado, teor de glifosato até 14,2 vezes superior ao máximo de 0,15 mg/kg previsto nas exigências do regulamento técnico da união aduaneira.

“O que aponta para a falta de controle estatal adequado por parte das autoridades competentes do Brasil. Nesse sentido, Rosselkhoznadzor [a vigilência russa] disse em comunicado que se reserva o direito de impor uma proibição temporária à importação dos produtos em questão do Brasil”, escreveu Nunes.

A Folha já publicou reportagem sobre o risco de o governo da Rússia adotar restrições temporárias à importação de soja caso não fosse reduzida a quantidade de pesticidas nos grãos importados do Brasil.
Já os telegramas da embaixada em Pequim citaram a detecção do coronavírus em produtos exportados ao país asiático no ano passado.

Em uma das correspondências, de novembro, o embaixador Paulo Estivallet de Mesquita relatou que a aduana da China suspendeu um estabelecimento brasileiro exportador de pescado.

A medida foi tomada em razão da não apresentação de medidas corretivas após os produtos apresentarem resultado positivo para o vírus causador da COVID-19.

“Na comunicação, a aduana chinesa afirma esperar que o Mapa atribua importância à identificação do novo coronavírus em produtos exportados pelo Brasil para a China e às não conformidades encontradas na auditoria por videoconferência”, escreveu Mesquita.

De acordo com ele, o órgão “solicita, ademais, que as autoridades brasileiras adotem medidas para investigar a causa da contaminação, requeiram a adoção de medidas corretivas pelo estabelecimento e notifiquem as referidas correções ao lado chinês, a fim de garantir a segurança dos pescados exportados para este mercado”.

Também em novembro, Mesquita informou que a imprensa chinesa intensificava as notícias que associavam o surgimento de novos casos de COVID-19em portos e aeroportos do país a contato com produtos importados.

Ao falar especificamente do Brasil, citou ao menos cinco vezes em que a mídia tratou da detecção do coronavírus em produtos importados da cadeia de frio. Os casos ocorreram nas províncias de Hubei, Shanxi e Shandong.

“A mídia chinesa continua a insistir na narrativa de que alimentos importados da cadeia de frio apresentam alto risco de transmissão da COVID-19, chegando mesmo a insinuar que o primeiro caso da epidemia, em Wuhan, teria origem em produtos vindos de outros países”, escreveu o embaixador.

O MAPA afirmou, por meio de nota, que rotineiramente são tratados temas similares na relação comercial entre países. “Os dois pontos citados já foram analisados e continuamente são monitorados entre o Brasil e os governos da China e Rússia. O fluxo comercial desses países com o Brasil permanece fluído, sem interrupção”, afirmou.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) disse, em nota, que desenvolveu protocolo com o Hospital Israelita Albert Einstein, que rege os cuidados adotados pelas empresas do setor, assim como a legislação brasileira.

“Ambos protegem a saúde dos colaboradores e preservam a inocuidade dos alimentos produzidos para o mercado interno e internacional.”

A entidade disse ainda que organizações técnico-científicas relacionadas à saúde humana e à produção de alimentos realizaram pesquisas que constataram que o risco de transmissão de COVID-19 por embalagens é praticamente nulo.

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Este texto foi originalmente publicado pelo Diário do Nordeste [Aqui!].

Agronegócio e mercado financeiro avançam, de mãos dadas

Financeirização se dá pela entrada de fundos de pensão e de investimentos nos negócios da cadeia agropecuária

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Montagem sobre foto de Rosilene Miliotti / FASE

Por Leonardo Furhamann para o site “O Joio e o Trigo”

Para ‘facilitar’ a compra de geladeiras, TVs e outros bens, as redes de lojas de departamentos, como as Casas Bahia e o Magazine Luiza, têm seus próprios cartões para o financiamento dos bens adquiridos. Algumas ainda ofertam os tradicionais carnês, com os juros embutidos no parcelamento do valor das compras. As montadoras de automóveis também mantêm seus bancos, assim cuidam das operações financeiras relacionadas à aquisição e troca de carros. 

Apesar de menos visível ao consumidor, o agronegócio também vive uma expansão das atividades financeiras nas mais diversas etapas de sua produção. Os negócios são amplos. Vão desde a aquisição de terras até a comercialização da safra, muitas vezes paga adiantada ao produtor, e envolvem internacionalização das propriedades, seja pela aquisição, seja pelo arrendamento. 

Os principais alvos dessa cadeia globalizada e com grande participação de agentes do mercado financeiro são as commodities, produzidas principalmente pelo agronegócio, e os minérios. Duas riquezas abundantes no Brasil de hoje e que recebem uma atenção especial de uma parcela expressiva do Congresso Nacional e do Executivo, que buscam torná-las ainda mais lucrativas para quem especula no país.

Fundos de pensão na agropecuária

Tal financeirização se dá pela entrada de fundos de pensão e de investimentos nos negócios da cadeia agropecuária, como explica o professor Sérgio Pereira Leite – do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA-UFRRJ).

Os fundos podem participar diretamente na aquisição de terras ou no arrendamento de conjuntos de propriedades. Esses investimentos também podem ser feitos em empresas de maquinários e insumos e, depois, nos mecanismos de estocagem e comercialização do produto no mercado internacional. Como cada etapa pode gerar títulos e a garantia, em última análise, seria o produto final, existe uma multiplicação dos títulos relacionados a um mesmo produto. “Uma saca de soja produzida gera uma especulação em valor equivalente a mais de dez sacas”, afirma. Assim, os negócios dos títulos se tornam mais importantes do que a produção em si, pois geram mais riqueza.

“Uma saca de soja produzida gera uma especulação em valor equivalente a mais de dez sacas.”

Tudo isso sem falar em processos de industrialização e na formação de novas cadeias. A soja, por exemplo, é produto na cadeia de plantio e se torna insumo quando entra na produção de ração para a produção de proteína animal.

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Um dos primeiros impactos da especulação no campo, segundo ele, é a valorização estratosférica do preço das terras, principalmente naquelas regiões que antes eram pouco exploradas pelo agronegócio, tratadas por eles como “novas fronteiras agrícolas”.

Um relatório feito pela ONG inglesa Planet Tracker e divulgado pelo site Mongabay, mostra que sete empresas de investimento seriam capazes de reduzir o desmatamento por conta da grande participação delas no mercado de soja. Elas são gestoras de fundos negociados em bolsas (ETFs, na sigla em inglês).

Segundo o levantamento, US$ 9,3 bilhões de ETFs são investidos em 26 empresas envolvidas com o comércio de soja e ligadas ao desmatamento. Os ETFs chegaram a um valor coletivo de US$ 6,7 trilhões de no segundo semestre de 2020. O relatório aponta que 70% do mercado de ETFs está nas mãos das empresas financeiras americanas BlackRock, State Street Global Advisors e Vanguard. 

O estudo da Planet Tracker afirma ainda que o investimento total nestes produtos em 2020 foi cinco vezes maior do que em 2010. Para além da questão ambiental, os dados mostram também o peso da financeirização no agronegócio global. Além de estarem presentes nas bolsas internacionais, esses fundos foram regulamentados no Brasil em 2002. Atualmente, são oferecidos pouco mais de 20 ETFs na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo.

Expulsão e violência no campo

A situação fica clara quando é analisado o aumento de preço das terras no Matopiba (região que inclui partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que inclui a parte oeste destes estados do Nordeste e a leste do Tocantins e é chamada pelo agronegócio de uma das novas fronteiras agrícolas do país. 

Entre 2004 e 2017, época em que a inflação foi de 120%, as terras em Imperatriz e Açailândia, ambas no Maranhão, tiveram uma valorização de 594%; em Santa Maria (BA), 483%; Gurupi (TO), 471%; e Balsas (MA), 452%.

A média na região, segundo o estudo citado por Leite, foi de 390%. “Esta busca obsessiva por novos territórios está ligada ao desmatamento, à expulsão de povos originários e tradicionais de seus territórios e a violência no campo”, afirma.

Outras áreas que são alvo da valorização confirmam a relação direta com a expulsão das comunidades e o desmatamento, como a região de Humaitá, no Amazonas, Santarém, no Pará, e o Meio-Norte do Mato Grosso. “As terras se transformaram praticamente em um ativo financeiro”, comenta Leite. 

A situação trouxe mais jogadores para próximo da roleta. A tendência é global. Nos doze anos, segundo dados da Global Advisors, o número de fundos de investimento que atuam no setor agrícola e alimentício internacionalmente subiu de 38 para 441. Em 2017, eles geriam juntos cerca de US$ 73 bilhões. Fazem parte desse grupo de investidores os fundos de pensão soberanos, instituições bancárias, seguradoras, grupos de investimento familiar e grandes corporações, por exemplo. O objetivo principal dessa atuação é o estoque de riqueza.

Sul do Piauí. Foto: Rosilene Miliotti / FASE

Baixo custo de investimento

A falta de uma legislação capaz de controlar a atuação desses fundos e o custo relativamente baixo do investimento tornam o Brasil atrativo, assim como a Ucrânia e alguns países africanos. “Hoje, estima-se que 8,5 milhões de hectares no Brasil são controlados direta ou indiretamente por empresas estrangeiras”, afirma Leite. A conta inclui empresas que são subsidiárias locais de multinacionais, subsidiárias de holdings com atuação no Brasil e subsidiárias de holdings com sede fora.

O foco dessas empresas é em commodities, produtos que são colocados no mercado internacional com preços operados em bolsa, sem distinção de qualidade ou pela forma como é produzido. Além da soja, carne bovina, algodão, cana-de-açúcar e as madeiras pinus e teca são commodities internacionais. Esses produtos também concentram os subsídios públicos. No Sistema Nacional de Crédito Rural, de 60% a 75% dos recursos agrícolas são investidos em apenas quatro produtos: soja, café, cana e milho. 

Professora visitante da Universidade Federal do ABC, de São Paulo, Yamila Goldfarb destaca que, diferentemente do discurso apresentado pelo agronegócio, o setor cria poucos recursos para as contas públicas. “Além de contar com subsídios nas operações de crédito e isenções fiscais, com a Lei Kandir, de meados dos anos 1990, a arrecadação com a exportação de commodities passou a ser pífia”, afirma. 

Ela lembra que estados como São Paulo também isentam a compra de agrotóxicos da cobrança do ICMS. Outras mudanças na legislação tornaram a exportação de commodities a partir do Brasil mais atraente para os investidores internacionais, como as seguidas facilitações da regularização fundiária, que beneficiam grileiros e colocam mais terras no mercado.

Financiamento para aquisição

Essa mudança no perfil do capitalismo faz com que o agronegócio se preocupe cada vez menos com o abastecimento do mercado interno de alimentos, principalmente em países menos ricos, como é o caso do Brasil, afirma o defensor público de São Paulo Marcelo Carneiro Novaes. “O capitalismo financeiro não precisa de mercado consumidor e, por isso, é indiferente a questões de geração de emprego e renda”, diz. 

Ele explica que “o lucro das grandes empresas de insumos está mais ligado ao financiamento para aquisição do que ao produto em si. Quando você fala de um fundo como o Blackrock, que geria US$ 8,68 trilhões em janeiro deste ano, você vê como esses valores se deslocaram completamente da base material”, afirma. Esse valor é maior, por exemplo, do que o Produto Interno Bruto (PIB) de países como Alemanha e Japão.

Novaes cita como exemplos desse mercado os contratos de hedge (contratos antecipados de venda com valor fixado, são garantidores para grandes quedas de preço ou mudanças no câmbio), letras de crédito (são títulos emitidos pelos bancos para financiamento da atividade agropecuária, no caso) e cédulas de produto rural (títulos emitidos por produtores ou suas cooperativas, inclusive para bancos, rastreados na produção). As letras de crédito do agronegócio (LCA) começaram a ser emitidas em 2005 e são títulos oferecidos de renda fixa oferecidos por bancos. 

Criada nos anos 1990, a cédula de produto rural é emitida pelo próprio produtor. “São negócios com pouca ou nenhuma tributação e valores que entram e saem dos países livremente”, explica. Além disso, ao se ligarem à produção de commodities, as empresas e fundos também se beneficiam de isenções e subsídios dados pelo governo. Para ele, os grandes arrendamentos feitos por investidores fazem com que latifundiários possam ter grande lucro sem risco ou preocupação nenhuma. 

Em cooperativas, condições piores

No meio desse movimento, as cooperativas de crédito também se tornaram uma opção de negócio para produtores de médio e grande porte. As cooperativas de financiamento existiam desde o início do século passado, mas ganharam força principalmente a partir de meados dos anos 1990. O negócio envolve conseguir taxas melhores de juros e outras vantagens ligadas à entrada no mercado financeiro e uma melhor margem em negociações conjuntas. 

A antropóloga Luciana Schleder Almeida, professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), pesquisou a vida dos produtores em Lucas do Rio Verde e Sorriso, ambos no Mato Grosso. “A entrada nas cooperativas é um privilégio dos grandes, os menores seguem dependendo de outras formas de financiamento, com condições piores”, afirma. 

Em municípios como esses, onde é grande a influência do agronegócio, segundo ela, a própria entrada em uma cooperativa de crédito de produtores se torna um sinal de status, parecido com a participação em outras entidades associativas locais. “Muitas vezes, os produtores menores também têm dificuldade de obter taxas menores em bancos públicos, o que faz com que eles passem a depender do financiamento das tradings”, explica.

Participação na política do agronegócio

O antropólogo Caio Pompeia, autor do livro Formação Política do Agronegócio (Editora Elefante e O Joio e O Trigo), vê uma maior participação dos agentes financeiros na atuação política do agronegócio na última década. A mudança é gradativa, mas já apresenta os primeiros sinais tanto na participação em entidades como nas pautas que defendem. “Os grandes bancos de varejo, até por uma questão de imagem, preferem atuar em grupos que têm a pauta ambiental junto”, diz.  

O Instituto Pensar Agro, ligado à Frente Parlamentar da Agropecuária, já tem entre seus sócios uma federação de seguradoras e uma cooperativa de crédito. “A bancada ruralista está defendendo mais programas de seguro rural, com uma forte participação de subsídios públicos, e deixando um pouco de lado a bandeira dos financiamentos públicos”, analisa. 

A FPA é a bancada que representa os interesses do agronegócio no Congresso Nacional. Formado por entidades representativas de diferentes setores do agronegócio, o Instituto Pensar Agro se firmou como o braço empresarial da atuação da FPA. O ex-deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT), que já presidiu a FPA, foi eleito em fevereiro deste ano o presidente do instituto.

Os interesses e esforços da bancada ruralista na regularização de mais terras e no repasse de parte delas para fundos estrangeiros. No ano passado, o Senado aprovou, com relatório do atual presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), um projeto de lei para facilitar a aquisição de terras no Brasil por pessoas e empresas estrangeiras. O autor da proposta é Irajá Abreu (PSD-TO), filho da também senadora Katia Abreu (PP-TO), ministra da Agricultura no governo Dilma Rousseff e ex-presidente da Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária (CNA).

Irajá também chegou a ser um dos relatores da MP da Grilagem, como foi chamada ironicamente por organizações ambientalistas sob o pretexto que beneficiava infratores ambientais. A Medida Provisória 910, anunciada pelo governo Bolsonaro, pretendia facilitar a regularização fundiária em terras públicas que foram invadidas e desmatadas de até 2,5 mil hectares. 

Mais do que interesses corporativos, a família Abreu e seus aliados têm interesse direto nos temas. Em abril de 2018, o empresário Moises Pinto Gomes, atual marido de Katia, esteve numa feira de negócios no Qatar para oferecer oportunidade a empresários locais. A mais vistosa delas, o Fundo Matopiba, criado para aquisição de terras e produção agrícola no Brasil. O fundo teria US$ 500 milhões, a serem aplicados na aquisição de fazendas a serem preparadas e aprimoradas para a produção de grãos (arroz, soja, sementes e milho) e o objetivo de gerenciar e operar a produção antes da alienação de terras e operações agrícolas.

Gomes esteve no Qatar pela empresa Agroinvest Brasil, criada em 2015, no mesmo ano em que se casou com a então ministra da Agricultura. Na empresa, ele é sócio do advogado Arno Jerke Junior, assessor parlamentar da senadora desde julho de 2018. Jerke é um colaborador de confiança da senadora. Pelas mãos de Katia, ele ocupou a Secretaria Nacional de Desenvolvimento do Cooperativismo do Ministério da Agricultura e depois a diretoria da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Antes, havia sido advogado da CNA e coordenador técnico do instituto ligado à entidade.

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Este texto foi originalmente publicado pelo site “O Joio e o Trigo”  [Aqui!].

Poeira tóxica de colheita de soja atinge comunidade quilombola em Poconé (MT)

Em desacordo com a legislação de pulverização terrestre, propriedades rurais mantêm aplicações de agrotóxicos sem distanciamento mínimo da comunidade. Organizações sociais fazem denúncia ao Ministério Público

quilombo

A comunidade quilombola Jejum, localizada no município pantaneiro de Poconé (MT), foi atingida por uma nuvem tóxica da lavoura próxima ao território no dia 23/3/2021. A apenas dez metros de distância, a máquina passava realizando a colheita da soja e levando ao ar uma camada densa de poeira. As pessoas da comunidade passaram mal com tosse, irritação na garganta e problemas respiratórios. Diante do ocorrido, organizações da sociedade civil protocolaram documento junto ao Ministério Público Federal e Estadual ontem, 29/3.

“Eles plantam soja aqui na beirada de casa. Na colheita sobe aquele poeirão que ninguém aguenta”, disse uma moradora que não se identificou por uma questão de segurança. Ela contou que desde o dia 21/3 estavam realizando a colheita da soja e que a poeira provocou muitos efeitos. “A garganta ficava ardendo, os olhos ficam até lacrimejando, a cabeça dói. Assim não dá certo, porque eles secam a soja com veneno e isso prejudica demais.” Algumas pessoas mencionaram também dificuldades para dormir, enfermidades no estômago e até questões relacionadas à saúde mental por conta dos agrotóxicos.

Além dos efeitos à saúde, outros aspectos da vida da comunidade vêm sendo impactados. “Há cinco anos mudou tudo quando essa soja veio para cá. Nem horta presta mais por aqui”, conta outra moradora da comunidade. Ela desistiu de trabalhar sua horta pela presença grande de lagartas e insetos, dificuldade de crescimento da banana, mal desenvolvimento do mamão e outros efeitos que não conseguia combater frente a lavoura no cultivo de mandioca, frutas e demais produtos. Na manhã de ontem, 29/3, os moradores relataram ainda a mortandade de peixes de tanques de piscicultura na comunidade, um possível indicativo de contaminação da água.

Por conta do ocorrido, em conjunto, a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE)*, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e a Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, com apoio da organização Terra de Direitos, realizaram denúncia junto ao Ministério Público Federal (MPF) em Mato Grosso, e ainda ao Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPE) e ao Fórum Estadual de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, coordenado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). 

Entre os argumentos, está o desrespeito à distância mínima de 90 metros para pulverização terrestre, conforme estabelecido na legislação (Decreto Estadual 1651/2013/MT). “Se colheu a soja, pulverizou antes dessecante. Já vínhamos denunciando o não cumprimento da lei no que diz respeito à distância mínima para a pulverização de agrotóxicos próximo a casas, estradas e fontes de água”, contou a representante da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, Fran Paula, da FASE. De acordo com ela, situações como essa são cada vez mais frequentes no Pantanal por conta do aumento de monoculturas na região. “Os agrotóxicos representam não só uma violação à saúde dessas famílias. São várias as violações. Entre elas, o direito humano a um ambiente saudável”, destaca.

Sobre a denúncia, Laura Ferreira da Silva, quilombola e representante da Conaq em Mato Grosso, enfatiza a necessidade de ação do poder público. “A gente precisa que o Estado, que o Ministério Público Federal e o estadual tomem atitude, porque isso não pode acontecer. Isso é inadmissível. São vidas quilombolas que estão ali e vidas quilombolas importam.”

No ofício, a comunidade quilombola Jejum requer providências dos Ministérios Públicos para que seus direitos sejam preservados e para que ações preventivas sejam colocadas em prática por conta da iminência de novos danos de colheita de soja na propriedade vizinha.

*A FASE é uma das organizações que compõem a rede do Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad).

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad) [Aqui!].

Em 2020, principais desmatadores estão vinculados à derrubada de mais de 110.000 hectares do Cerrado

cerrado desmatamento

O bioma Cerrado, uma vasta savana tropical biodiversa no Brasil, está sob a ameaça do desmatamento impulsionado por commodities. A expansão da soja e a pecuária são as causas diretas da perda de floresta no Cerrado. Este relatório apresenta novos dados sobre atores específicos ligados ao desmatamento do Cerrado em 2020, incluindo a exposição quantificada ao risco dos maiores comerciantes de soja, frigoríficos e varejistas. Financiadores com políticas florestais estão expostos a riscos materiais em suas carteiras.

Baixe o PDF aqui: Principais desmatadores do Cerrado vinculados à clareira de mais de 110.000 hectares

Principais conclusões

  • A expansão agrícola é o principal fator para o aumento do desmatamento no Cerrado.O aumento do desmatamento ligado à soja, gado e especulação de terras ameaça interromper os sistemas naturais de água, os padrões climáticos regionais e a produtividade agrícola de longo prazo na região.
  • O desmatamento do Cerrado em 2020 totalizou 734.010 ha, um aumento de 13,2% em relação a 2019. O desmatamento em terras privadas representou 66,7%, enquanto as terras públicas representaram 19,2%. O restante do desmatamento ocorreu em terras sem designação legal.
  • Um total de 207.813 ha de desmatamento do Cerrado em 2020 ocorreu em fazendas que já possuíam áreas de plantio de soja. A CRR estima que 28,3% do desmatamento total do Cerrado estava relacionado à expansão da soja.
  • Mais da metade do desmatamento causado pela soja no Cerrado está relacionado a produtores de soja proeminentesTerras agrícolas pertencentes a produtores locais, imobiliárias e agroindústrias, como SLC Agrícola, Nuveen e JJF Holdings e Participações, registraram 110.333 ha de desmatamento no Cerrado. A maioria dessas empresas tem relações comerciais com a Cargill, Bunge, ADM, Louis Dreyfus Company (LDC) e Cofco.
  • A indústria da carne é outro fator chave do desmatamento e da especulação imobiliária no Cerrado. Os frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva estão altamente expostos ao desmatamento do Cerrado em suas cadeias produtivas, principalmente na região do Matopiba. Os varejistas Casino Group, Carrefour e Cencosud são os principais canais de venda de carne bovina, igualmente ligados ao desmatamento no bioma.
  • A escalada do risco de acesso ao mercado, risco de regulamentação, risco de financiamento e risco de reputação pode levar a perdas financeiras significativas para os financiadoresBNP Paribas, Santander, Rabobank, HSBC, AP2, Caisse de Dépôt, Santander, Credit Agricole, Barclays e Credit Suisse têm bilhões de dólares americanos de exposição aos principais desmatadores do Cerrado, o que está em conflito com suas próprias políticas florestais. A regulamentação da UE sobre a devida diligência da cadeia de abastecimento pode desencadear grandes desinvestimentos e / ou engajamento.

Expansão da agricultura está causando desmatamento e supressão de vegetação nativa no Cerrado

A vegetação natural do Cerrado brasileiro, a savana com maior biodiversidade do mundo , está ameaçada por altas taxas de desmatamento. sendo convertido em um ritmo rápido.Estendendo-se por mais de 200 milhões de hectares (ha), do tamanho da Alemanha, França, Inglaterra, Itália e Espanha combinados, o Cerrado é uma pastagem arborizada que fornece serviços ambientais essenciais para o mundo. Ele protege a biodiversidade, estabiliza o clima regional e regula as bacias hidrográficas que fornecem 40% da água doce do Brasil. Ele contém 5% de toda a biodiversidade do planeta, com 1.600 espécies de animais e 12.000 espécies de plantas – das quais quase a metade são encontradas apenas no Cerrado. Seus sistemas de raízes profundas atuam como um sumidouro de carbono crítico,estimado para armazenar 13,7 bilhões de toneladas de carbono no subsolo. O Cerrado também é a região agrícola mais produtiva do Brasil, o que tem resultado em desmatamentos e desmatamentos que estão desestabilizando o ecossistema.

A expansão agrícola é o principal fator para o aumento do desmatamento no Cerrado. Desde que as atividades agrícolas se expandiram na década de 1970, 50 por cento do Cerrado foi perdido para terras agrícolas e de pastagem, principalmente para gado, soja, algodão, milho e eucalipto. Apesar de seu papel crítico nos sistemas naturais da Terra, o Cerrado tem pouca proteção do Código Florestal do Brasil. Enquanto o Código Florestal exige que os proprietários privados na Amazônia preservem até 80% de suas propriedades, os proprietários são obrigados a reservar apenas 20-35% da vegetação nativa em todo o Cerrado. Contabilizando as áreas protegidas publicamente, estima-se que menos de 3 por cento do Cerrado está sob proteção legal, em comparação com 46%  da Amazônia. A proteção ambiental é ainda mais enfraquecida pela falta de fiscalização ambiental como resultado da agenda pró-negócios da administração Bolsonaro. Desde que o presidente Jair Bolsonaro foi eleito em 2018, o Ibama, órgão ambiental do Brasil, viu cortes orçamentários significativos e demissão de funcionários importantes. Apesar do aumento do desmatamento, o Ibama emitiu o menor número de multas desde 2019. As multas ambientais são um dos métodos do Ibama para fazer cumprir as leis de conservação. A redução na emissão mostra como a capacidade da agência foi afetada por cortes no orçamento.

Mecanismos voluntários e coalizões intersetoriais estão clamando pela proteção do Cerrado. 

Esses incluem:

  • Manifesto do Cerrado foi lançado em 2017 por organizações da sociedade civil para exigir que os produtores, comerciantes e varejistas de soja eliminem a conversão impulsionada pela soja na região.
  • A Declaração de Apoio (SoS) ao Manifesto do Cerrado é assinada por 160 empresas de bens de consumo e investidores, endossando os objetivos do Manifesto e se comprometendo a conter a perda florestal vinculada à produção agrícola.
  • Seis grandes comerciantes de commodities são membros do Soft Commodities Forum , que apresenta uma metodologia de relatório comum para aumentar a rastreabilidade da cadeia de suprimentos no bioma Cerrado.
  • O Consumer Goods Forum é uma rede do setor composta por mais de 400 empresas que apoiaram o Manifesto do Cerrado e estabeleceram uma Coalizão de Ação Positiva da Floresta para acelerar as cadeias de suprimentos de commodities livres de conversão.
  • De forma mais ampla, a Declaração de Amsterdã e a Declaração de Nova York sobre Florestas são compromissos multilaterais para eliminar o desmatamento da produção de commodities agrícolas, incluindo soja e carne bovina.

Apesar desses compromissos, as cadeias de suprimentos de commodities continuam vinculadas às altas taxas de desmatamento no Cerrado em 2020.

Atores específicos da soja ligados ao desmatamento do Cerrado em 2020

734.010 ha foram desmatados no Cerrado entre agosto de 2019 e julho de 2020 (datas de referência baseadas no cálculo do PRODES de taxas anualizadas), de acordo com o Programa Nacional de Monitoramento de Florestas por Satélite (PRODES) .Essa área, equivalente a 124 vezes o tamanho de Manhattan, representa um aumento de 13,2% em relação a 2019.

Figura 1: Desmatamento do Cerrado em 2020

Fonte: PRODES 2020

O desmatamento em terras privadas representou 489.602 ha, ou 66,7% do desmatamento total do Cerrado em 2020 . O principal hotspot de desmatamento foi a região do Matopiba (Figura 1), composta por municípios nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que detém a maior parte da vegetação nativa remanescente do Cerrado. A expansão do cultivo de safras (incluindo soja) e da pecuária são os principais motores do desmatamento na região do Matopiba. Grandes agronegócios da região exportam seus produtos para mercados internacionais como China e UE. A Figura 2 mostra o contraste entre o desmatamento em terras públicas e privadas no Cerrado.

Figura 2: Desmatamento por designação de terra no bioma Cerrado em 2020

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia do INPE, INCRA, Funai, Sicar

O desmatamento em terras públicas do Cerrado foi responsável por 19,2% do desmatamento total. Terras públicas que incluem assentamentos rurais, terras indígenas, unidades de conservação naturais e terras federais e estaduais foram responsáveis ​​por 141.186 ha do desmatamento total do Cerrado em 2020. Outros 96.608 ha foram desmatados em terras que estão registradas como privadas e públicas, principalmente de unidades de conservação que permitem o uso sustentável do solo. Essa questão da sobreposição das categorias de posse da terra ocorre em todo o Brasil.

Os 103.212 ha restantes ou 14 por cento do total são desmatamento em terras não designadas no bioma. São terras sem designação legal. O esclarecimento das incertezas na posse da terra pode ajudar a minimizar as taxas de desmatamento em áreas sobrepostas no Cerrado.

Principais participantes da produção de soja apresentam alto risco de desmatamento no Cerrado

O cultivo de soja é o principal fator de desmatamento nas savanas da América do Sul. O bioma Cerrado tem visto um aumento na expansão da soja nos últimos anos, causando a perda de biodiversidade, altas emissões de dióxido de carbono e interrupção dos sistemas hídricos. A produção de soja no Brasil tem aumentado constantemente nos últimos anos. Em 2018/19, o bioma Cerrado respondeu por 40% dos 123 milhões de toneladas métricas (Mt) da produção brasileira de soja.

Em 2020, um total de 207.813 ha de desmatamento ocorreu em fazendas que possuem área de plantio de soja desde 2017 . Esta área representa 28,3 por cento de todo o desmatamento do Cerrado em 2020. Este número (28,3 por cento) é uma estimativa conservadora, dado que os cálculos do desmatamento ocorreram em fazendas com plantações de soja existentes. Os dados não abrangem fazendas que começaram a plantar soja a partir de 2017.

Figura 3: Área plantada de soja no Cerrado em 2017

Fonte: Agrosatelite, INCRA

110.333 ha de desmatamento no Cerrado foram vinculados a produtores de soja de destaque. O desmatamento cai em terras de propriedade de empresas produtoras, imobiliárias e agroindústrias previamente identificadas nos relatórios do CRR . A Figura 4 mostra uma lista das 10 principais empresas e grupos produtores de soja com desmatamento do Cerrado em 2020.

Figura 4: 2020, 10 maiores desmatadores para a produção de soja no Cerrado

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, INPE, INCRA

A SLC Agrícola está vinculada ao desmatamento de 10.152 ha do Cerrado em 2020 . A SLC Agrícola é a maior produtora de soja listada no Brasil e, em 2020, uma das maiores desmatadoras da região. Em setembro de 2020, a SLC Agrícola se  comprometeu a conter o desmatamento do Cerrado e transferir a produção apenas para áreas já desmatadas. A empresa disse que esta política entrará em vigor após a conversão de 5.000 ha de vegetação de Cerrado, limite que foi ultrapassado por uma larga margem em 2020.

Os principais clientes da SLC Agrícola são Cargill Agrícola SA (27,6 por cento da receita) e Bunge Alimentos SA (17,9 por cento), de acordo com suas demonstrações financeiras do 3T 2020. Conforme relatado anteriormente pelo CRR, a derrubada da vegetação do Cerrado nas fazendas da SLC Agrícola parece estar de acordo com o Código Florestal do Brasil, mas violando os compromissos de desmatamento zero de seus clientes e de grande parte das indústrias consumidoras de soja a jusante.

Figura 5: Desmatamento da SLC Agrícola em 2020

Obs .: Esquerda: março de 2020 – 5.200 ha desmatados na Fazenda Parceiro, Formosa do Rio Preto, Bahia. À direita: maio de 2020 – 4.667 ha desmatados na Fazenda Palmeira, Tasso Fragoso, Maranhão.

Fonte: SLC Agrícola, imagens de satélite Sentinel 2

Aproximadamente 4.570 ha de desmatamento do Cerrado ocorreram em fazendas mantidas pela Nuveen em 2020. O mapa de terras agrícolas disponível ao público da gestora de ativos global lista 64 propriedades no Brasil, das quais 44 estão no Cerrado. A lista inclui soja e muitas outras culturas cultivadas em suas propriedades. Nuveen adotou uma política de desmatamento zero em 2018 que proíbe a aquisição de terras que tenham sido desmatadas com vegetação nativa. Os dados de desmatamento do Cerrado em 2020 mostram lacunas na implementação dessa política, expondo o gestor de ativos a riscos de reputação.

Os comerciantes de soja enfrentam altos riscos de desmatamento, uma vez que suas cadeias de abastecimento permanecem ligadas ao desmatamento do Cerrado em 2020 . Os maiores comerciantes de soja ADM, Bunge, Cargill, LDC e Cofco operam silos em regiões produtoras de soja do Cerrado com alta exposição ao desmatamento em 2020. A CRR identificou vários fornecedores diretos de comerciantes e relações de compra com grupos produtores de soja no Cerrado. A Figura 6 mostra os diversos níveis de exposição para os principais comerciantes e a quantidade de desmatamento direto vinculado às suas cadeias de abastecimento.

 Figura 6: Exposição ao risco de desmatamento dos principais comerciantes do Cerrado em 2020

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, INPE, INCRA. * Incluindo silos de joint venture

Como membros do Soft Commodities Forum (SCF), essas empresas se comprometeram com uma estrutura comum para relatar e monitorar o progresso de cadeias de suprimentos transparentes e rastreáveis ​​para a soja no Cerrado. No entanto, ainda não está claro como as promessas do SCF se relacionam com seus compromissos de excluir a conversão de toda a vegetação nativa do Cerrado e a implementação de mecanismos eficazes de não conformidade. Nenhum dos comerciantes incluídos na análise apóia o Manifesto do Cerrado. As políticas de desmatamento dos comerciantes podem ser insuficientes para mitigar o risco de desmatamento.

Carne e outras causas agrícolas do desmatamento

A especulação fundiária e a pecuária são outros principais motores do desmatamento do Cerrado. Muitas áreas no Cerrado são reivindicadas e depois desmatadas para dar lugar a pastagens. A área desmatada é usada como pastagem para a indústria pecuária e, anos depois, vendida a um preço mais alto aos produtores agrícolas, principalmente para a produção de soja, mas também para outras culturas como milho e algodão. A soja e seus derivados comerciais são ingredientes essenciais para a alimentação do gado, abastecendo a crescente indústria da carne no Brasil e no exterior. A insegurança fundiária no Cerrado aumenta a especulação fundiária e aumenta as taxas de conversão de terras no bioma.

Frigoríficos diretamente ligados ao desmatamento do Cerrado em 2020

A pecuária não é apenas um dos principais motores do desmatamento no bioma Amazônia, mas também contribui para a conversão do Cerrado. A JBS teve a maior exposição ao desmatamento do Cerrado em 2020 entre os três maiores frigoríficos brasileiros. JBS, Marfrig e Minerva têm a maior capacidade de abate entre um grande número de frigoríficos no Brasil. As três empresas dominam a pecuária no país e sua relação com o desmatamento do bioma Cerrado as expõe a altos riscos. Com base em uma pequena amostra de fornecedores diretos que a CRR mapeou anteriormente, houve 1.984 ha de desmatamento em propriedades que abastecem diretamente a JBS. Casos semelhantes vincularam os fornecedores da Marfrig e do Minerva a 531 ha e 328 ha de desmatamento, respectivamente. Isso se baseia em uma pequena amostra de fornecedores do Cerrado. As pegadas reais de desmatamento dos frigoríficos são muito maiores. A CRR informou recentemente que desde 2008, 20.296 ha foram desmatados na amostra da cadeia de suprimentos direta da JBS e 56.421 ha na cadeia de suprimentos indireta. Do desmatamento na cadeia de abastecimento direto da JBS, aproximadamente 71 por cento (14.783 ha) ocorreram no bioma Cerrado, em alguns casos sem as licenças ambientais exigidas. As três empresas assinaram acordos multilaterais de pecuária (G4) e Termos de Conduta Ajustada (TACs) juridicamente vinculativos. No entanto, a implementação do TAC tem lacunas e atrasos significativos e não cobre todos os estados do Cerrado. Atualmente, a maioria dos varejistas monitora seus fornecedores diretos de carne bovina, mas as fazendas indiretas apresentam alto risco de lavagem de gado e vazamento de não signatários do TAC.

Figura 7. Casos JBS, Marfrig e Minerva de desmatamento de fornecedores diretos no Cerrado em 2020

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, INPE, INCRA

Varejistas expostos ao desmatamento do Cerrado em 2020

As cadeias de abastecimento de carne do Grupo Casino, Carrefour e Cencosud estão ligadas a pelo menos 2.189 ha de desmatamento do Cerrado em 2020. Os supermercados no Brasil são um canal de distribuição crucial para a carne bovina, e 76% da carne produzida no Brasil é consumida no mercado interno. Entre as cinco maiores redes de supermercados do Brasil, Carrefour Comércio e Indústria, Grupo Pão de Açúcar (GPA) (Grupo Casino como acionista controlador) e Cencosud Brasil respondem por grande parte da carne bovina vendida no Brasil. Para este estudo, CRR rastreada a origem dos produtos amostrados carne vendida no GPA lojas , Carrefour / Atacadão   lojas , e Cencosud owned- supermercados. O estudo estabeleceu elos da cadeia de suprimentos entre supermercados e frigoríficos nos biomas Amazônia e Cerrado. Uma amostra de fornecedores diretos para os frigoríficos identificados foi determinada usando licenças de transporte de animais para calcular a exposição ao desmatamento desses varejistas no Cerrado em 2020. No monitoramento de eventos de desmatamento em 2020, a CRR identificou 1.237 ha de desmatamento do Cerrado vinculado ao Grupo Casino. Da mesma forma, uma amostra representativa de casos relacionou o Cencosud a 605 ha de desmatamento e o Carrefour a 347 ha, todos no Cerrado. Produtos de carne bovina originados de áreas de expansão agrícola ou pontos críticos de desmatamento, como a região do Matopiba (Figura 1), apresentam risco elevado de desmatamento para os varejistas.

Figura 8: Casos de desmatamento do Cerrado em 2020 vinculados às cadeias produtivas de carne do Grupo Casino, Carrefour e Cencosud

Fonte: Chain Reaction Research, Reporter Brasil, INPE, INCRA

As estratégias existentes para eliminar o desmatamento são insuficientes para atender aos compromissos das empresas

As empresas enfrentam vários riscos de negócios decorrentes da exposição contínua ao risco de desmatamento. Em janeiro de 2021, um relatório do CRR agregou riscos físicos e de transição enfrentados por empresas que não conseguem eliminar o desmatamento de suas cadeias de abastecimento. Abaixo está um resumo dos riscos que as empresas que operam no Cerrado enfrentam:

  • Os riscos físicos são mais relevantes para empresas upstream, como a SLC Agrícola. A eliminação da vegetação nativa com a expansão da soja interrompeu os sistemas de água do Brasil. O aumento das secas, o comportamento irregular do rio e as mudanças nos padrões de chuva resultaram em perdas de produtividade e podem levar a uma redução ainda maior da aptidão agrícola das fazendas na região do Cerrado.
  • Os riscos políticos e jurídicos afetam os atores intermediários e posteriores. Na UE, o segundo maior mercado para a soja brasileira, uma proposta em análise visa reduzir a pegada de desmatamento da UE por meio de medidas regulatórias e não regulatórias. Na França, a lei “Devoir de Vigilance” exige que as empresas implementem planos de due diligence que evitem os direitos humanos adversos e impactos ambientais em suas cadeias de abastecimento globais. No Reino Unido e na Alemanha , a legislação para cadeias de suprimentos de commodities livres de desmatamento também está sendo considerada. Em 2020, o Grupo Casino enfrentou riscos legais sob a lei do Dever de Vigilância da França após relatórios do CRR, Envol Vert e Mighty Earth que revelaram evidências de exposição ao risco de desmatamento.
  • O risco de acesso ao mercado tem maior impacto sobre os atores upstream e midstream. No ano passado, houve um aumento no número de empresas excluindo commodities brasileiras das cadeias de abastecimento globais. Uma carta pública de 160 signatários da Declaração de Apoio ao Manifesto do Cerrado exigia que os comerciantes de soja parassem de comprar soja de áreas no Cerrado desmatadas após 2020. Empresas europeias e varejistas franceses também ameaçaram boicotar a soja brasileira. As empresas Nestlé , VF CorpH&M e empresas norueguesas de frutos do mar tomaram medidas para excluir as commodities brasileiras de suas cadeias de abastecimento.
  • O risco de reputação afeta significativamente as empresas downstream e pode evoluir para riscos de financiamento para empresas midstream. Campanhas da sociedade civil e investigações jornalísticas têm como alvo atores de midstream, como Cargill , Carrefour e JBS . Em 2020, a Nordea Asset Management excluiu a JBS de todos os ativos que vende e relatos dizem que os analistas do HSBC “soaram alarmes” sobre os riscos de investir na JBS devido ao desmatamento em sua cadeia de suprimentos. Para as empresas downstream, a CRR concluiu que os eventos de reputação podem impactar o valor de uma empresa em 30 por cento.

Apesar do aumento dos riscos da exposição ao desmatamento, os compromissos e a implementação das principais empresas deixam lacunas que permitem que estejam continuamente vinculadas ao desmatamento.

Figura 9: Respostas variadas ao risco de desmatamento entre setores

Fonte: Chain Reaction Research, sites da empresa

Os compromissos de desmatamento dos produtores de soja têm limites e lacunas de implementação variados, resultando em ligações diretas contínuas com o desmatamento. A SLC Agrícola se   comprometeu a conter o desmatamento do Cerrado até o final de 2020, mas continuou a limpar a vegetação nativa. Da mesma forma, a política de desmatamento zero da Nuveen proíbe compras de terras agrícolas do Cerrado desmatadas de vegetação nativa a partir de maio de 2009, mas evidências de desmatamento ainda são observadas em suas propriedades. Com relação à divulgação, a SLC informa que tem como meta reduções de até 25% em suas emissões de GEE até 2030. Parece que a empresa não está no caminho para cumprir sua meta, com as emissões do Escopo 1 tendendo para cima em grande parte devido às emissões agrícolas. Nuveen realiza auditorias em suas fazendas e relatórios sobre soja certificada. No entanto, tanto a SLC Agrícola quanto a Nuveen não informam sobre o progresso no cumprimento de seus compromissos de desmatamento zero e não divulgam as ações tomadas para resolver os desvios de seus compromissos.

As políticas de sustentabilidade dos comerciantes de soja continuam abrindo espaço para o desmatamento no Cerrado. Como membros do Soft Commodities Forum (SCF), ADM, Bunge, Cargill, LDC e Cofco “se comprometeram a eliminar o desmatamento de suas cadeias de abastecimento”. No entanto, com exceção da Bunge, as políticas de desmatamento dos comerciantes não abordam o desmatamento legal no Cerrado e não têm uma data limite para o desmatamento. O compromisso da Bunge é alcançar “cadeias de valor livres de desmatamento em todo o mundo até 2025”, o que “se estende a áreas onde a conversão de vegetação nativa é legalmente permitida”. Sobre rastreabilidade, o SCF se comprometeu a desenvolver uma estrutura comum para relatar a rastreabilidade da soja, com foco inicial em 25 municípios do Cerrado. Os municípios selecionados representam 44% da vegetação nativa do Cerrado convertida em soja. Em 2020, os comerciantes relataram ter alcançado 100 por cento de rastreabilidade para fazenda para os 25 municípios. A estrutura de relatório do SCF não inclui padrões de divulgação que exigem que as empresas relatem sobre os fornecedores e se os volumes de compra estão em conformidade com as políticas de desmatamento das empresas. A maioria dos comerciantes permaneceu exposta a um aumento incêndios em suas regiões de abastecimento em 2020, com a Bunge e a Cargill tendo o maior risco. Apesar do alto risco de incêndios, os comerciantes não têm uma “política de não queima” que se aplica à sua cadeia de abastecimento de soja, apenas para o óleo de palma.

Os três principais frigoríficos monitoram as cadeias de suprimentos diretas, mas permanecem expostos à alta exposição ao risco de desmatamento em suas cadeias de suprimentos indiretas.As cadeias de abastecimento de gado são extremamente complexas, muitas vezes envolvendo várias transações na criação e produção de gado. Em média, uma única transação com um fornecedor direto inclui compras de 15 fornecedores indiretos. Em 2020, JBS e Marfrig anunciaram compromissos para monitorar suas cadeias de suprimentos indiretas, mas o progresso e a eficácia ainda precisam ser vistos. Além da conformidade dos fornecedores indiretos com as políticas, a qualidade e o cronograma das políticas dos frigoríficos também estão sob escrutínio. Por meio de Termos de Ajuste de Conduta (TACs) juridicamente vinculativos), os frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva se comprometeram a não comprar gado de áreas desmatadas ilegalmente, terras indígenas, unidades de conservação ou áreas vinculadas ao trabalho forçado. No entanto, esses acordos são limitados aos estados amazônicos e não se estendem ao Cerrado. Sobre os prazos de compromisso, a Marfrig tem como meta o desmatamento zero em todos os biomas até 2030 (2025 para a Amazônia). Mais recentemente, a JBS se comprometeu a eliminar o desmatamento ilegal em todos os biomas brasileiros até 2030 e atingir o desmatamento zero nas cadeias de abastecimento globais até 2035. Prazos prolongados deixam as empresas expostas a um risco crescente de desmatamento. Junto com os dados apresentados neste relatório, investigações em 2020 revelaram que todos os três frigoríficos continuam vinculados ao desmatamento no Cerrado, com vários casos de desmatamento não autorizado.

As maiores redes de supermercados no Brasil têm compromissos de desmatamento variados, mas a maioria tem escopo limitado e falta divulgaçãoCarrefour e Casino são signatários do Manifesto do Cerrado, e ambos têm compromissos de desmatamento zero e sistemas de georreferenciamento para monitorar fornecedores Tier 1 e Tier 2. No entanto, a implementação da política do Carrefour e as metas de rastreabilidade se aplicam apenas a produtos de carne bovina não processados, deixando produtos de carne processados ​​ou congelados totalmente sem monitoramento. As políticas do GPA e do Cencosud que visam mitigar o risco de desmatamento são limitadas apenas para o bioma Amazônia sem ações para conter o desmatamento no Cerrado. Outros biomas, como a região do Pantanal no Brasil, também não são cobertos pela maioria das políticas de sustentabilidade. Casino e Carrefour foram recentemente associados ao desmatamento no Pantanal. Nenhum dos varejistas tem um cronograma específico para seus compromissos. O prazo de desmatamento zero do Carrefour para 2020 não foi cumprido e ainda não foi divulgada uma nova meta. Ainda não está claro como os varejistas planejam aumentar a transparência indireta da cadeia de suprimentos. Apenas o Carrefour divulga rastreabilidade de fornecedores Tier 2, mas apenas para carne bovina (não de soja) e não divulga o progresso no monitoramento de fornecedores indiretos mais distantes em sua cadeia de suprimentos.

Comerciantes de soja, frigoríficos e varejistas não divulgam como as políticas de desmatamento são atendidas em suas cadeias de abastecimentoEstruturas existentes, como a Estrutura de Commodities Sustentáveis e iniciativas recentes anunciadas pelos frigoríficos JBS e Marfrig, enfatizam a rastreabilidade e o monitoramento do fornecedor. Outras iniciativas de rastreabilidade , como a Good Growth Partnership, apontam que a rastreabilidade não é um fim em si mesma e deve ser usada para permitir o cumprimento dos compromissos das empresas. O aumento do foco na rastreabilidade ignora a divulgação necessária sobre as ações tomadas pelas empresas em todos os setores para suspender fornecedores não conformes e cumprir suas promessas de sustentabilidade.

Os investidores enfrentam riscos financeiros significativos de exposição contínua ao desmatamento

Em vários níveis, investidores e bancos estão envolvidos no financiamento dos principais desmatadores do Cerrado, expondo-os a riscos financeiros materiais.Os financiadores podem ser expostos por meio de empréstimos, obrigações, participações e serviços de subscrição. Esses instrumentos financeiros, que os conectam a proprietários de terras, agricultores, comerciantes, processadores de carne e soja, bem como varejistas de alimentos, podem levar a riscos financeiros. As perdas financeiras potenciais podem ser vinculadas ao risco de acesso ao mercado, risco operacional, risco de ativos perdidos, risco de financiamento e risco de reputação.

Em uma análise recente, a CRR concluiu que 74% da soja e do gado brasileiros são financiados por instituições financeiras locais.De 2013 a 2020, o financiamento dos setores de carne bovina e soja no Brasil totalizou US $ 100 bilhões. O financiamento total é muito maior, mas esses números são ajustados para contabilizar apenas a participação da soja e da pecuária no Brasil. De acordo com a base de dados Florestas e Finanças, os empréstimos totalizaram US $ 82 bilhões, as subscrições US $ 13 bilhões, as ações US $ 5 bilhões e os títulos US $ 1 bilhão. As instituições financeiras estrangeiras forneceram (ajustados) US $ 14,5 bilhões para o setor de carne bovina e US $ 11,2 bilhões para a indústria da soja. Santander, Rabobank, HSBC e JPMorgan Chase, todos com políticas para conter o desmatamento, estão entre os 25 maiores financiadores. políticas para conter o desmatamento estão entre os 25 maiores financiadores.

Figura 10: Total de financiamento identificado por região de origem (em milhões de dólares) – ajustado

Fonte: forestandfinance.org, a região “Europe Other” consiste principalmente no Reino Unido, Noruega e Suíça; ajustadores são aplicados para a exposição específica à carne bovina e soja brasileiras.

Muitas instituições financeiras são signatárias do Manifesto do Cerrado e têm políticas voltadas para conter o desmatamento. As instituições financeiras sediadas na UE ou que investem em empresas da UE com elos da cadeia de abastecimento com o desmatamento enfrentarão uma regulamentação muito mais rígida sobre o desmatamento.O Manifesto do Cerrado pede a suspensão do desmatamento e a perda da vegetação nativa no Cerrado. Atualmente, investidores que representam US $ 6,3 trilhões de investimentos globais assinaram a Declaração de Apoio ao Manifesto do Cerrado, que também foi assinada pelas principais empresas de produtos de consumo rápido, incluindo varejistas. Na Europa, o Regulamento de Divulgação de Finanças Sustentáveis (SFDR), que entrou em vigor em 10 de março de 2021, deve levar a uma maior transparência sobre os riscos de sustentabilidade e questões sobre o financiamento de commodities que levam a danos ambientais. Faz parte do Quadro de Finanças Sustentáveis ​​mais amplo da UE, que é apoiado por um amplo conjunto de regulamentações novas e aprimoradas que serão aplicadas em todo o bloco de 27 países. O SFDR está alinhado com o Plano de Ação de Financiamento Sustentável, que visa promover o investimento sustentável e uma nova taxonomia da UE para criar condições de concorrência equitativas em toda a UE. Com um sistema obrigatório da UE de devida diligência para cadeias de abastecimento , essas regulamentações estão inseridas em um ambiente de Acordo Verde europeu.

No grupo de fazendeiros e proprietários de terras dos principais desmatadores, a SLC Agrícola e a Nuveen são financiadas por instituições financeiras estrangeiras com políticas florestais. A JJF Holding, por sua vez, carece de transparência financeira.A SLC Agrícola tem como principais clientes a Cargill e a Bunge e seus principais negócios são a agropecuária e a agropecuária. A empresa é detida maioritariamente pela SLC Participações SA, com vários investidores europeus com políticas de desmatamento zero detendo participações minoritárias. Nos últimos anos, o Fundo de Pensão do Governo norueguês vendeu sua participação na empresa. No entanto, a APG é o sexto maior acionista externo da SLC Agrícola com uma exposição (ajustada) de US $ 12 milhões. A Forests & Finance mostra que a empresa é financiada principalmente por entidades brasileiras.

Nuveen, gestora de ativos da TIAA, é proprietária de terras no Brasil. A falta de transparência na complexa rede de investimentos da Nuveen pode colocar os investidores nos fundos da Nuveen em conflito com suas políticas de mudança climática, levando a riscos de reputação. Os credores incluem BNP Paribas, Santander, Rabobank e HSBC, e participantes de fundos agrícolas com apólices incluem AP2, Caisse de Dépôt e ABP.

A JJF Holding é uma empresa privada que carece de transparência. Nenhum empréstimo foi encontrado . O risco financeiro pode ser identificado para investidores da Bunge e financiadores da ALZ Grãos e Cargill, que mantêm relações comerciais com a JJF Holding. O corte dos laços comerciais com a JJF Holding protegeria o valor (reputação) para os financiadores desses comerciantes de soja.

Dos comerciantes de soja, ADM, Bunge, Cargill, LDC / Amaggi e Cofco são os atores mais vinculados ao desmatamento no Cerrado. Esses comerciantes são financiados por investidores internacionais. Os acionistas das entidades listadas ADM e Bunge enfrentam riscos financeiros. A exposição da Bunge no Piauí, região onde é líder dominante no mercado, totaliza 1% de seus ativos globais. Embora o risco financeiro de ativos retidos seja baixo, a Bunge enfrenta um alto risco de acesso ao mercado. Esse risco é significativo para o mercado da UE e para os FMCGs que são membros do CGF e assinaram o Manifesto do Cerrado, possivelmente afetando o valor de mercado da Bunge em mais de 20% . ADM é o quinto maior comerciante de soja na região de Matopiba, no BrasilEmbora sua exposição à área de alto risco de produção de soja do Matopiba seja limitada a 1,5 por cento, os riscos de desmatamento do Cerrado podem impactar até 30 por cento de seu valor patrimonial.

Financiadores europeus de títulos e empréstimos bancários para comerciantes de soja de propriedade privada Cargill e LDC enfrentam riscos de reputação e de regulamentação também, seguindo o SFDR. A ligação da Cargill com o desmatamento do Cerrado pode prejudicar seu relacionamento com os membros do CGF, o que pode levar a risco de 6% a 15% do faturamento da Cargill.

No grupo dos frigoríficos, JBS, Minerva e Marfrig estão mais ligados ao desmatamento do Cerrado. São financiados por investidores brasileiros e também estrangeiros.Os investidores europeus já financiaram mais de US $ 10 bilhões para os três maiores frigoríficos brasileiros. Parte de seus negócios pode estar ligada ao Cerrado. A Figura 11 consiste em números não ajustados e se baseia no financiamento de todas as empresas do grupo global. Como os investidores europeus contribuem com 24-32% do financiamento para essas três empresas, eles têm alavancagem para se engajar. Agora que o SFDR foi instalado pela UE, espera-se que o engajamento aumente. Além disso, o custo de capital para os frigoríficos pode aumentar, impactando sua avaliação. Essa avaliação também será impactada pelo risco de acesso ao mercado para JBS, Minerva e Marfrig para a Europa. Respectivamente, 1,4%, 4,6% e 1,8% das receitas globais das três empresas são geradas na Europa. A maioria dos principais financiadores europeus (Barclays, Rabobank, Santander e BNP Paribas) têm políticas de desmatamento zero para a carne bovina ou são muito expressivos (HSBC) têm políticas florestais.

Figura 11: Financiamento Identificado para JBS, Minerva e JBS e exposição a financiadores europeus (milhões de dólares)

Fonte: Chain Reaction Research, Thomson-Eikon, Bloomberg; dados de 3 de junho de 2020; nenhum ajustador foi aplicado.

No varejo de alimentos, Casino Group, Carrefour e Cencosud são líderes na distribuição de carne bovina no mercado brasileiro local. O acesso a financiadores europeus provavelmente se tornará mais difícil. Para todas as empresas, o mercado brasileiro é parte relevante de suas vendas e rentabilidade. A ligação com o desmatamento pode ter impacto sobre suas vendas em vários mercados locais (receita em risco). Além disso, o Grupo Casino e o Carrefour dependem fortemente de financiamento de instituições sediadas na UE. Gestores de ativos e bancos que se adaptam aos requisitos do SFDR da UE podem impactar o custo de financiamento e avaliações de empresas com ligações com o desmatamento no Cerrado e na Amazônia. 

Em 2020, 60% do financiamento identificado do Grupo Casino se originou de investidores europeus. Se os investidores europeus exigirem um aumento de 25 pontos-base no rendimento, as despesas extras serão iguais a 9% do lucro antes dos impostos do Grupo Casino.

Figura 12: Financiadores identificados do Grupo Casino, GPA e empresas relacionadas (milhões de dólares)

Fontes: Chain Reaction Research, Refinitiv, Bloomberg

Um impacto muito maior viria do risco de perda de valor da reputação. A escalada dos riscos, caso nenhuma ação fosse tomada, poderia ser de tamanho significativo, totalizando 83% do valor patrimonial do Grupo Casino naquela época em 2020.

Figura 13: Resumo dos impactos financeiros em vários cenários

Fonte: Chain Reaction Research

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Chain Reaction Research  [Aqui!].

Agronegócio esquizofrênico: supersafras bilionárias e um povo faminto

O Ministério da Agricultura comemora a supersafra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos. E a fome cada vez mais ronda famílias brasileiras

fome-no-brasilA China compra 80% da soja produzida no Brasil. A maior parte vai para a produção de ração para bovinos, suinos e aves

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – O Ministério da Agricultura está exultante com a safra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos anunciada esta semana. Isso porque o resultado recorde representa 15,4 milhões de toneladas a mais que na safra 2019/2020. Um feito e tanto em tempos de pandemia de covid-19, que esfriou a economia ao afetar negócios e empregos e levar o país a um tombo de 4,1% em seu PIB, que já estava encolhido. E mais grave ainda: empurrou milhões de brasileiros para situação de pobreza extrema e de fome.

O milho teve uma produção recorde, de 108 milhões de toneladas, e com isso deve superar em 5,4% a safra anterior, diz o Ministério. No caso da soja, segue a tendência de crescimento na área cultivada, e ainda pode crescer 4,1%, com 135,1 milhões de toneladas. Já o arroz e o feijão de cada dia, que são base da dieta dos brasileiros, não alcançam tais patamares. Foram apenas 3,3 milhões de toneladas de feijão e 11 milhões de toneladas de arroz.

“Salvação da lavoura”

Há anos a agropecuária é considerada a “salvação da lavoura” quando o assunto é produção, exportações e balança comercial. Beneficiado por subsídios, como descontos e isenção de ICMS e de imposto de importação, fora o perdão de PIS e Cofins, o setor se acha. Tanto puxa brasa para a sua sardinha que se autointitulou “pop, tech e tudo”. E com tudo isso, a fome aumenta no país das supersafras e volta a assombrar milhões de brasileiros. Como isso é possível?

Dois anos antes da pandemia, entre junho de 2017 e julho de 2018, mais de 10 milhões de pessoas já não tinham o que comer conforme a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE. Desse total, perto de 8 milhões moravam na zona urbana e pouco mais de 2 milhões na zona rural, onde a rigor se produzem alimentos. 

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Entre 2017 e 2018, 10 milhões de pessoas já não tinham o que comer. Inação do governo na pandemia agravou a situação da fome no país. (Arquivo/Agência Brasil)

De acordo com a pesquisa, a insegurança alimentar grave – quando a pessoa relata passar fome – atingiu em cheio 4,6% das famílias brasileiras, o equivalente a 3,1 milhões de lares. E ainda segundo o IBGE, o quadro vem piorando. Aumentou 43,7% em cinco anos.  

Mais desigualdade

A tendência é que tenha se agravado com a pandemia, pois esta ao chegar já encontrou um Brasil marcado pelo aprofundamento da desigualdade social a partir do golpe de 2016. “Parte significativa dos trabalhadores está sem a proteção social do trabalho formal devido à crise estrutural do capitalismo”, destaca a socióloga Sirlândia Schappo. Professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sirlândia observa que essa crise de dimensões globais assola o país mais intensamente a partir de 2014. Em seu artigo “Fome e insegurança alimentar em tempos de pandemia da COVID-19“, ela assinala: “O reflexo imediato foi a ampliação do trabalho informal, que passou de 39,1% da população ocupada em 2014 para para 41,5% em 2018, segundo o IBGE”.

Ainda segundo Sirlânia, a pandemia pode ter ampliado em 56% a pobreza em países como o Brasil, como prevê a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Trabalhadores domésticos perderam o emprego. E, sem o apoio de políticas sociais, se viram diante da subnutrição e da falta de serviços básicos, como saneamento básico e saúde.

Plano safra

Logo que assumiu, o governo Bolsonaro apresentou um Plano Safra para 2019/2020 que já sinalizava as dificuldades que viriam pela frente. Dos R$ 225,59 bilhões destinados à agropecuária, o crédito rural ficou com R$ 222,74 bilhões. O problema é que desse montante, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) recebeu apenas R$ 31,22 bilhões. Como custear a produção e a comercialização?

“A partir de 2016, com o golpe e a Emenda 95, do teto de gastos, as políticas sociais e programas de transferência de renda foram sendo esvaziadas. Equipamentos de segurança alimentar, como banco de alimentos, foram fechados. Assim que tomou posse, Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) não foi extinto, mas tem orçamento ridículo, de R$ 500 milhões. Esse montante, aliás, resulta de muita pressão das organizações da agricultura familiar durante a pandemia. Mas mesmo assim, esse orçamento ainda insuficiente não foi totalmente executado”, disse à RBA a assessora de Direitos Humanos da Fian BrasilNayara Côrtes.

combate à fomePequenos agricultores têm sido atacados. Alternativa econômica de geração de trabalho e renda e combate à fome não está na agenda do governo de Bolsonaro (Itesp)

Mais golpes

Para piorar, Jair Bolsonaro escolheu a agricultura familiar como inimiga. Além de ter excluido esses trabalhadores do auxilio emergencial de R$ 600, vetou quase que integralmente o Projeto de Lei (PL) 735/20. Apresentado em abril e só aprovado em agosto, foi quase que integralmente vetado, pois, de 20 itens, 17 foram derrubados.

Entre os pontos vetados estão o auxílio emergencial no valor de R$ 600 pagos em cinco parcelas, como aos trabalhadores urbanos, recursos para compras públicas pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), renegociação e adiamento de dívidas e linhas de crédito emergenciais. Tudo o que era considerado essencial pelos agricultores. Até hoje é aguardada apreciação dos vetos, que depende de muita pressão para ser pautada.

Para Bolsonaro, não há previsão financeira para essas ações. No entanto, o governo concedeu benefícios ao agronegócio, facilitando o acesso a crédito e a financiamento de dívidas de grandes produtores e desoneração do segmento em contribuições à Seguridade Social.

Segundo levantamento da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e pelo Fórum Brasileiro pela Soberania e Segurança Alimentar (FBSSAN), em 2019 o rendimento total da agricultura familiar foi de aproximadamente R$ 27 milhões. O número de produtores de alimentos era 4,5 mil. Até setembro de 2020, os mesmos produtores venderam o equivalente a R$ 3,6 milhões.

Sem recursos para plantar

“Muitos não têm recursos para plantar e muitas vezes falta o que comer”, disse Nayara Côrtes. “Levamos anos para construir uma política de segurança alimentar para ser totalmente desconstruída em pouco tempo. E pensar que em 2014, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil saiu do Mapa Mundial da Fome para voltar 6 anos depois.”

O retrocesso é tão grande que há no Congresso a proposta de votação em regime de urgência de um projeto de interesse das indústrias. Trata-se do PL 3.292/2020, de autoria do deputado federal Vitor Hugo (PSL-GO), que propõe mudar o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Entre as mudanças, abolir a compra de alimentos, da prioridade dada a comunidades tradicionais indígenas e de remanescentes de quilombos.

E a supersafra?

Conforme os autores do Atlas do Agronegócio – Fatos e números sobre as corporações que controlam o que comemos –, não é de hoje que o discurso do combate à fome é utilizado para alavancar o desenvolvimento tecnológico com fins prioritariamente comerciais. Assim, a aplicação de mais tecnologia na produção agrícola é difundida como a única solução capaz de eliminar a escassez de alimentos e a carência de nutrientes.

Na realidade, porém, as supersafras servem apenas para dar lucro, e não para matar a fome da população. Nessa perspectiva, toneladas e toneladas de soja, milho, cana e outras commodities têm como destino o mercado mais lucrativo no momento, seja a produção de alimentos, agrocombustíveis ou ração para bovinos, suínos e aves. Esta aliás, tem sido a principal aplicação da soja comprada pela China, que corresponde a 80% da produção brasileira. É preciso alimentar a fome dos novos padrões alimentares adotados pelos chineses; ninguém come tanta soja assim.

Ironicamente, esse sistema alimenta a fome e a subnutrição. E por outro lado, o crescimento da obesidade, transtornos alimentares diversos e doenças crônicas. “Da mesma forma, as desigualdades e as injustiças socioambientais também fazem parte das contradições desse modelo em que a comida aparece como mercadoria, e a fome como um negócio com segmentos diversificados, que vão da ausência ao excesso”, dizem os autores do Atlas.

Engordar lucros

O cultivo de soja ou outros grãos nos latifúndios que avançam sobre assentamentos e terras indígenas e de povos tradicionais, ou nas lavouras que invadem a Amazônia, assim como o gado, não vão matar a fome daqueles que ainda possa comprar comida no Brasil. E sim engordar o lucro de empresas de exportação e importação desses produtos. É o caso da Archer Daniels Midland, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Company. E também das empresas de sementes transgênicas e agrotóxicos, como a Bayer, dona da Monsanto, a Basf, Dow e outras.

A saída, segundo especialistas, está em novas práticas que contribuam não apenas para a produção de alimentos e a soberania alimentar. Mas também com a produção sustentável de alimentos de verdade, livres de venenos, com a reconexão com a natureza, com respeito a quem produz e com a democratização do acesso ao direito à terra.

Terminal da Cargill Amsterdam, Holanda. Contraste com um mundo de fome (Alf van Beem/Wikimedia Commons)

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Este texto foi publicado originalmente pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Chance de reduzir desmatamento está nas mãos de apenas sete empresas de investimento, aponta relatório

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  • Os fundos ETFs (exchange-traded funds) e os fundos de índice são algumas das ferramentas de investimento mais populares disponíveis tanto entre investidores individuais quanto institucionais.

  • Algumas poucas empresas de gestão de ativos controlam entre 60% e 70% desses fundos, de acordo com um relatório recente da think tank financeira Planet Tracker.

  • A análise da Planet Tracker descobriu que US$ 9,3 bilhões de ETFs são investidos em 26 empresas envolvidas com o comércio de soja e ligadas ao desmatamento.

  • O relatório conclui que as empresas financeiras nas quais as ETFs e os fundos de índice estão concentrados são fundamentais para combater o apoio financeiro ao desmatamento.

Por John C. Cannon em 9 Março 2021 | Traduzido por Carol de Marchi

Os fundos negociados em bolsa, ou ETFs, varreram o mundo financeiro, chegando a um valor coletivo de 6,7 trilhões de dólares no segundo semestre de 2020. Um ETF é uma espécie de híbrido entre uma ação facilmente negociável de uma única empresa e um fundo mútuo diversificado e de baixo custo que espalha o risco do investidor entre uma seleção de diferentes empresas.

Aparentemente uma solução ideal e atrativa tanto para investidores individuais quanto institucionais, essa prática equivale a apoiar o desmatamento e outros danos ambientais, de acordo com um relatório recente da think tank financeira Planet Tracker, sediada em Londres.

O relatório descobriu que 70% do mercado de ETFs está nas mãos das empresas financeiras americanas BlackRock, State Street Global Advisors e Vanguard. A respeito dos fundos de índice — que rastreiam os principais indicadores do mercado, como o S&P 500 em Nova York ou o FTSE em Londres e que possuem muitos ETFs vinculados a eles —, quatro empresas detêm 60% do mercado. Os principais participantes são Bloomberg, MSCI e S&P Dow Jones, sediadas nos EUA, e a FTSE Russell, baseada no Reino Unido.

Esse nível de influência significa que essas empresas têm uma enorme oportunidade de diminuir o apoio financeiro para as empresas que desmatam florestas — se elas optarem por fazê-lo, segundo John Willis, principal autor do relatório.

Land recently cleared to make way for oil palm in Indonesia. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.

Terra desmatada para dar lugar a plantação de palma na Indonésia. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

Os fundos de índice, e especialmente os ETFs, têm crescido em popularidade nas últimas décadas. O investimento total nestes produtos em 2020 foi cinco vezes maior do que em 2010. “Eles ainda estão crescendo a um ritmo fenomenal”, observa Willis.

Para se ter uma ideia da escala de apoio das ETFs ao desmatamento, Willis e seus colegas analisaram 26 empresas de capital aberto que produzem ou processam soja, e que também possuem vínculos com o desmatamento segundo uma lista ranqueada de empresas compilada pela plataforma de pesquisa Deforestation-Free Funds. A produção de soja está logo atrás da criação de gado como a maior força por trás do desmatamento nos trópicos, causando a perda de meio milhão de hectares de floresta a cada ano. A análise da Planet Tracker revelou investimentos no valor de US$ 9,3 bilhões de ETFs nessas empresas em meados de 2020.

Como esses mercados estão altamente concentrados nas mãos de apenas algumas empresas, eles “juntos têm poder desproporcional para atenuar o risco de desmatamento (bem como outros riscos de capital natural) no mercado de ETFs”, escrevem os autores do relatório da Planet Tracker. 

Cattle, pictured here in the Bolivian Chaco, are the primary driver of tropical forest loss. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.

Rebanho bovino no Chaco boliviano; a pecuária é a principal responsável pela perda de cobertura de floresta tropical no mundo. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay

Redução imediata do desmatamento

Willis e seus colegas argumentam que esses gerentes de ativos deveriam livrar-se rapidamente de “empresas ligadas ao desmatamento em suas ofertas de produtos”. Eles também defendem os direitos dos consumidores de saber para onde seu dinheiro está indo.

Com os fundos de índice, essa transparência é descomplicada. Um investidor em um fundo de índice S&P 500 possui fatias de todas as 500 empresas que compõem o indicador mais conhecido do mercado de ações dos EUA. Como o mercado de ETF cresceu — e com ele a concorrência para clientes que procuram investimentos fáceis e de baixo custo —, as empresas financeiras desenvolveram instrumentos por vezes complicados a fim de obter os maiores retornos. As escolhas de investimentos feitas pelos gerentes acabam ficando camufladas nesses fundos, da mesma forma que a Coca-Cola protege a receita de seu refrigerante. A justificativa é que sua mistura especial de empresas é um segredo de propriedade que eles não querem que outras empresas de investimento roubem, nem querem avisar outros investidores sobre grandes ordens de compra ou venda que possam estar chegando.

“Essa falta de clareza significa que os investidores não têm como saber se esses fundos estão apoiando empresas com desmatamento em suas cadeias produtivas”, afirma Willis. “Como investidor, a primeira coisa que eu acho que preciso saber é: o que estou comprando? Porque em muitos casos, eu não comprarei”.

Para Willis a questão da escolha está relacionada à transparência. As empresas financeiras poderiam — e até certo ponto o fazem — fornecer fundos que não incluam investimentos em empresas que prejudiquem o meio ambiente, normalmente sob uma categoria conhecida como ESG, abreviação de Ambiental, Social e Governança (corporativa), em inglês.

De acordo com Willis, os gerentes desses fundos poderiam ir ainda mais longe, usando sua influência para convencer os próprios índices a excluir de suas carteiras as empresas ligadas ao desmatamento. Os investimentos das gestoras de ativos se espalham em muitos setores da economia. “Com essa abrangência, elas também têm a capacidade de orientar a direção dessas empresas”, escreve a equipe da Planet Tracker. Como outros acionistas, elas podem votar em propostas que tratem de questões como o desmatamento. Até recentemente, no entanto, os gerentes da ETF têm se mantido, em grande parte, fora dessa discussão.

Os autores do relatório apontaram para as descobertas das ONGs Profundo e Friends of the Earth U.S. analisando o impacto das empresas de gestão de ativos após o Fórum de Bens de Consumo, uma rede mundial de empresas sediada na França, comprometida em 2012 com o desmatamento líquido zero para seus países membros até 2020. As pesquisas das ONGs revelaram que, até setembro de 2020, BlackRock, State Street e Vanguard haviam se abstido ou votado contra 16 resoluções de acionistas destinadas a combater o desmatamento nas cadeias de fornecimento dessas empresas. 

Deforestation for soy plantations in the Peruvian Amazon. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.

Desmatamento para plantação de soja na Amazônia peruana. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

A resposta

Várias das empresas financeiras listadas no relatório da Planet Tracker disseram à Mongabay que estão trabalhando para gerar mudanças.

“A equipe de Administração de Investimentos se envolve regularmente com executivos e conselhos, incluindo discussões com empresas relevantes sobre desmatamento e seus riscos para a sustentabilidade empresarial a longo prazo”, disse um porta-voz da Vanguard por e-mail. “Se uma empresa não fizer progressos para enfrentar tais riscos, nós os responsabilizaremos para promover e proteger o valor a longo prazo para nossos investidores.”

Um porta-voz da S&P Dow Jones disse que ela monitora “a evolução do mercado e a demanda dos investidores” para desenvolver novos índices adequados às exigências de seus clientes. “Por exemplo, oferecemos índices focados no meio ambiente destinados a atingir certas metas de sustentabilidade e excluímos empresas que não atingem essas metas”, disse o porta-voz da S&P por e-mail.

A Bolsa de Valores de Londres recusou-se a comentar o relatório. A Bloomberg, MSCI e State Street não responderam aos pedidos de entrevistas ou comentários.

Até o momento, poucos líderes financeiros participaram mais da conversa em torno do crescente mercado de ESG do que Laurence D. Fink, fundador e CEO da BlackRock. Em 2020, sua carta anual aos CEOs das empresas nas quais a BlackRock está investindo se concentrou na mudança climática, e especificamente em como ela afetará os balanços.

“Os investidores estão cada vez mais considerando estas questões e reconhecendo que o risco climático é um risco de investimento”, escreveu Fink.

No ano seguinte, a BlackRock diz ter acrescentado 51 ETFs de índice com foco no ESG a seu menu, com o objetivo de alcançar 150 ofertas desse tipo. (No final de janeiro de 2021, ela tinha 141 “soluções” ESG, de acordo com o site da empresa). Fundos como a Economia Circular BGF  prometem aos investidores que 80% de seu dinheiro irá apoiar as empresas que fazem parte da ética da “economia circular” minimizadora de resíduos. Os gestores do fundo também não compram participações em empresas relacionadas a petróleo, carvão e gás.

Recently cleared forest in the Bolivian Chaco for soy plantations. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.
Floresta recém desmatada no Chaco boliviano para cultivo de soja. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

Em uma entrevista ao Aspen Times logo após a carta de Fink ter sido publicada em 2020, o ambientalista e autor Bill McKibben observou “a notícia bastante notável de que, após a pressão inflexível dos ativistas, a BlackRock está agora intensificando seus esforços para pelo menos começar a fazer algo a respeito da mudança climática”.

“Precisamos de muito mais do que isso”, acrescentou McKibben.

Ainda assim, Fink e a BlackRock foram criticados por não se movimentarem antes para abordar o apoio financeiro a emissores de CO2 e empresas de combustíveis fósseis. A recente preocupação da empresa em questões de ESG foi chamada de nada mais do que uma lavagem verde“.

Uma investigação realizada em 2020 pelo site de jornalismo ambiental ((o))eco descobriu que a BlackRock tinha investido mais de US$ 400 milhões através de vários fundos nos três maiores frigoríficos do Brasil. Coletivamente, as operações de gado da JBS, Marfrig e Minerva foram ligadas a 69 mil quilômetros quadrados de terra  sob o risco de desmatamento na Amazônia.

Além disso, uma investigação realizada pela Mongabay América Latina e Repórter Brasil revelou que a BlackRock investiu quase US$ 10 milhões na JBS, o maior exportador de carne do mundo, através de seu fundo Carbon Efficient Index. Embora não esteja na lista da BlackRock de ETFs de ESG, este fundo acompanha um índice brasileiro para empresas que adotam “práticas transparentes em relação às suas emissões de gases de efeito estufa”, de acordo com a ficha da BlackRock. Os documentos informativos do fundo não fazem nenhuma menção aos gases de efeito estufa contendo carbono emitidos como resultado do desmatamento.

Forest clearance in Bolivia for soy plantations. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.

Desmatamento florestal para plantações de soja na Bolívia. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay

Desmatamento em segundo plano

Ainda assim, a carta de Fink de 2021 foi muito esperada, refletindo a influência do maior gestor de ativos do mundo e sua carteira de 7 trilhões de dólares. Fink se baseia no conceito de zero líquido, no qual as empresas e os países trabalham para equilibrar suas emissões de carbono, ao mesmo tempo em que afirmam que é possível, sim, fazer dinheiro nessa mudança.

“Acreditamos também que a transição climática apresenta uma oportunidade histórica de investimento”, escreveu ele.

No entanto, não há qualquer menção ao desmatamento na carta deste ano nem na missiva de 2020. Após críticas sobre seu registro de voto como acionista, a BlackRock diz ter votado a favor de uma proposta relacionada ao desmatamento na reunião da Procter & Gamble em outubro de 2020. A proposta pediu à P&G que relatasse seus esforços para eliminar suas conexões com o desmatamento e a degradação florestal, especificamente em suas cadeias de fornecimento de celulose de madeira e de óleo de palma.

De forma geral, a BlackRock diz ter votado a favor de oito das nove propostas de acionistas relacionadas ao meio ambiente desde julho de 2020. A BlackRock se recusou a comentar publicamente este artigo.

Como McKibben, Willis afirma que, ainda que possuam os meios para saber quais investimentos acarretam riscos de desmatamento, empresas como a BlackRock têm que ser convencidas por ONGs e ativistas de que vale a pena confrontar cadeias de fornecimento causadoras de desmatamento, como as que produzem o fornecimento mundial de óleo de palma, borracha, madeira, gado e soja.

“Eles poderiam se dar ao luxo de fazer a pesquisa para fazer isso”, disse Willis. Com essas informações, então, quão complicado seria afastar esse risco de seus portfólios?

“Você poderia apertar um botão”, disse ele, “se você realmente quisesse”.

Imagem do banner: rebanho bovino na Colômbia. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

fecho

Este texto foi originalmente publicado pela agência de notícias Mongabay [Aqui!].

Uma feminista indígena luta contra a destruição de suas terras no Brasil

korap mundurukuFoto: AFP / Yasuyoshi Chiba

Por  Niklas Franzen para o Neues Deutschland

Estranhos passaram muito devagar pela vila em carros com vidros escuros, tirando fotos e enviando um monte de mensagens. As ameaças, diz Alessandra Korap Munduruku, aumentaram nas últimas semanas. “Sua única maneira é eliminar pessoas como eu.”

Korap é uma ativista dos direitos das mulheres e representante do povo indígena Munduruku. A mulher baixa de 36 anos com o rosto tatuado cresceu às margens do Rio Tapajós, no meio da floresta tropical brasileira. Mas a idílica Amazônia está ameaçada: represas e projetos de mineração poluem a natureza, garimpeiros e madeireiros estão penetrando à força em áreas indígenas, cada vez mais áreas florestais estão dando lugar a pastagens de vacas e campos de soja. Pessoas que resistiram são ameaçadas.

Korap diz que é ativista desde que nasceu. Mas por muito tempo ela não se atreveu a falar publicamente. “Não havia lugar para nós, mulheres, nas reuniões da aldeia. Só os homens falavam. ”Mas quando as escavadeiras chegaram e os garimpeiros começaram seus acampamentos em sua área, a mãe de dois filhos falou cada vez com mais frequência. Hoje, diz ela, muitas mulheres estão na linha de frente da luta. Korap é agora uma das faces mais famosas da floresta amazônica, falou em 20 de setembro de 2019 no Portão de Brandemburgo na frente de 270.000 pessoas no comício final da greve climática global. A associação de mulheres Wakoborûn, que ela cofundou, é considerada uma importante voz do feminismo indígena.

Um projeto em particular preocupa Korap e seus colegas: o Ferrogrão. A linha ferroviária planejada para ser construída na área de Munduruku para transportar soja do sul até os portos do rio Tapajós e de lá diretamente para a Europa e China. Numerosas empresas estrangeiras também ganham dinheiro com negócios sujos na Amazônia. Além disso: para cultivar soja, a floresta tropical deve ser desmatada ainda mais. “Os agrotóxicos usados ​​envenenam nosso rio e os peixes”, diz Korap. “O veneno da soja tem consequências terríveis – tanto para os brancos quanto para nós.”

Korap é uma mulher que não mede as palavras: em 2019, ela dobrou políticos de alto escalão em uma sessão parlamentar. Outra vez, ela atacou diretamente uma empresa de mineração. Um vídeo de seu discurso se tornou viral, inúmeras ameaças de morte se seguiram e Korap foi parar nas listas de morte. E não eram apenas ameaças. Pouco depois do discurso,  a sua casa foi arrombada e  parcialmente destruída. Documentos, um cartão de memória e um telefone celular estavam faltando, outros objetos de valor não. Korap tem certeza: “Foi um aviso.” Há muitos pistoleiros na região – gente que é paga para matar. Por um curto período, ela teve que se esconder. Hoje ela evita aparições públicas, não revela seu paradeiro.

O fato de pessoas como Korap terem que temer por sua saúde também tem a ver com um homem: o presidente Jair Bolsonaro. Já durante a campanha eleitoral, o extremista de direita anunciou que nenhum outro centímetro de terra seria designado como área protegida para comunidades indígenas. Ele insultou os indígenas de forma racista e protestou contra os ambientalistas. Desde a posse em 2019, o governo vem reduzindo sistematicamente as medidas de proteção ambiental e lutando pela exploração comercial da floresta amazônica. Recentemente, o governador do estado de Roraima, aliado do clã Bolsonaro, anunciou que aprovaria a mineração de mercúrio na região. “Isso terá consequências devastadoras para os povos indígenas”, diz Korap.

Nesse ínterim, até defensores da feminista indígena são ameaçados, mais recentemente seu advogado. Korap está com medo? “Não devo mais ter medo”, diz ela com segurança. “Porque tenho que ser um modelo para as outras mulheres.” O único medo: perder o país.

fecho

Este texto foi originalmente escrito e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].