Preço do glifosato aumenta 300% e deixa consumidores brasileiros com altos níveis de ansiedade

Nos últimos dez anos, o preço do glifosato atingiu um novo máximo devido a um desequilíbrio na estrutura de oferta e demanda e ao aumento do preço das matérias-primas upstream. 

Glyphosate-Crop-Dusting

No curto período, não se viu aumento na capacidade de produção do Glifosato. Portanto, um novo aumento de preço está previsto. Diante da situação, a AgroPages teve a oportunidade de convidar uma equipe de especialistas do Brasil e de outras regiões para realizar uma pesquisa de mercado detalhada no mercado de terminais de glifosato de grandes países como Brasil, Paraguai e Uruguai, para obter uma compreensão básica do fornecimento atual , estoque e status de preços do glifosato em diferentes mercados. 

O resultado da pesquisa mostra que o mercado de glifosato na América do Sul está muito apertado,  com estoques  insuficientes mesmo com o preço deste agrotóxico disparado. No Brasil, a safra de soja está prestes a começar em setembro. Nessas circunstâncias, há ansiedade no mercado e não sobra muito tempo para os agricultores.

Os preços de mercado das formulações convencionais aumentaram quase 300% no ano passado

A equipe de pesquisa da Agropages entrevistou cinco grandes distribuidores brasileiros nos principais estados agrícolas – Mato Grosso, Paraná, Goiás e Rio Grande do Sul, e recebeu respostas a 32 questionários. Foram entrevistados dois grandes distribuidores no Paraguai, além do presidente da associação de plantadores agrícolas da cidade de Santa Rita Cidade do Paraguai. No Uruguai, a equipe de pesquisa conheceu um negociante de material agrícola que realiza anualmente um grande número de negócios com cooperativas e empresas agrícolas.

A pesquisa revela um aumento significativo no preço das formulações de glifosato convencionais. Até agora, o preço do glifosato no mercado brasileiro subiu de 200% a 300% em relação ao mesmo período do ano passado. Tomando 480g /LAS, como exemplo, seu preço recente no Brasil atingiu US$ 6,20-7,30/L. De acordo com a Consultoria Congshan, em julho de 2020 o preço unitário do glifosato 480g/LAS no Brasil estava entre US $ 2,56-3,44 / L, que quase triplicou ano a ano, sendo calculado à taxa de câmbio de 0,19 entre o real brasileiro e os EUA dólar. O maior preço do glifosato 79,4% WSG atingiu US $ 12,70-13,80 / kg no Brasil.

Preços convencionais de formulação de glifosato ($) no Brasil, Paraguai e Uruguai em 2021

QQ 截图 20210721103853.png

O preço de mercado terminal do glifosato no Brasil em 2020 (real brasileiro)

QQ 截图 20210716155803.pngFonte de dados: Hills Consulting

Em comparação com o preço atual do glifosato no mercado chinês (à taxa de câmbio de 0,15 entre o Yuan e o dólar), o preço do glifosato a granel 480g / L AS é $ 3,1 /L; o preço do glifosato – 757 WSG é $ 5,77 / kg, e o preço do glifosato-500 WP é $ 4,35 / kg.

Os estoques do mercado estão prestes a se esgotar

Atualmente, o glifosato está em falta no mercado de terminais do Brasil. Inúmeras empresas de material agrícola já venderam grandes quantidades de glifosato e insumos agrícolas cotados em reais em 2020, esgotando o estoque. Além disso, considerando a escassez de oferta de glifosato na China neste momento, houve cancelamentos de pedidos de compra no Brasil, o que obrigou os produtores a aceitar preços mais altos.

Além disso, a pandemia causou congestionamento no transporte marítimo, levando a atrasos nos principais portos marítimos do mundo, o que resultou no aumento do frete marítimo a um nível histórico, tendo adicionado um custo ainda maior para o glifosato. Atualmente, o custo do frete de embarque para Paranaguá de Xangai é de cerca de US $ 10.000, o que pode variar um pouco em diferentes portos. No entanto, essa parte do custo costumava ser geralmente inferior a US $ 1.000 no passado, mas agora é 10 vezes maior. Para fazer um cálculo baseado no glifosato 480g / L AS, o custo do frete por tonelada é de aproximadamente $ 400, o que seria cerca de $ 40 dólares no passado.

O Brasil está prestes a iniciar uma nova rodada de plantio de soja em setembro. No momento, os usuários finais geralmente expressam preocupações sobre o futuro do glifosato. Para onde irá o mercado de glifosato?

fecho

Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo site especializado AgroNews [Aqui!].

Notas de membros do CCAG sobre a perda de capacidade da Amazônia de absorver carbono

amazonia

Foto: USP Imagens

bori conteudo

Por David King

Nota de Sir David King, presidente do Grupo Consultivo para a Crise Climática, sobre o artigo publicado ontem (14) na Nature:

“Este é um artigo de pesquisa criticamente importante publicado na Nature que descreve como a floresta amazônica passou a ser uma fonte líquida de emissões de CO2, em vez de um grande sumidouro de CO2. É o estudo mais completo e extenso já realizado. Essas descobertas são resultado direto de uma crescente classe média em todo o mundo que pressiona a produção de carne bovina e soja, bem como da mudança catastrófica na direção das políticas do atual governo brasileiro. Trata-se de uma acusação devastadora de sua trajetória atual, já que o país passou de um dos mais progressistas em termos de gestão de emissões para um dos piores. Devemos continuar a pressionar quem está no poder a reconsiderar, a garantir um futuro melhor não apenas para o povo do Brasil, mas para a saúde do planeta. ”

Nota da Mercedes Bustamante (UnB), representante do CCAG no Brasil:

“O destino da Amazônia é central para a solução das crises climática e de biodiversidade. Os ecossistemas amazônicos são um dos elementos mais críticos do ciclo global do carbono e do sistema climático. Atualmente, 18% da Amazônia já foi desmatada, e 17% está em processo de degradação. As perturbações também colocam a biodiversidade em risco, afetando o funcionamento e a produtividade dos ecossistemas.

Os impactos simultâneos das mudanças climáticas, eventos extremos, mudanças no uso do solo, stress hídrico e mortalidade de árvores conduzem a feedbacks positivos que reduzem a resiliência da floresta e impulsionam a inversão de sumidouro para fonte de carbono em partes da região. A estação seca está começando na região, e dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial mostraram que a Amazônia tinha 2.308 focos de queimadas em junho, o maior número desde 2007 para este mês. Parar o desmatamento e as queimadas associadas e investir na restauração de ecossistemas degradados na região são pontos críticos para travar a espiral de degradação.”

Sobre o CCAG

Climate Crisis Advisory Group (em português, Grupo Consultivo de Crise Climática) é um grupo independente de 14 especialistas em mudanças climáticas de 10 nações de todos os continentes. Ele inclui experts em ciência climática, emissão de carbono, energia, meio ambiente e fontes naturais. O grupo quer se tornar referência nas tomadas de decisão dos diferentes países com relação à crise climática. Seus relatórios mensais estão sendo antecipados pela Bori desde junho de 2021.

fecho

Este texto foi produzido originalmente e publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Diminuição da chuva causada pelo desmatamento na Amazônia pode levar a quase US$200 bilhões em perdas para pecuaristas e sojeiros

deforestation_2074483b

As indústrias de carne bovina e soja na região sul da Amazônia brasileira correm o risco de quase US $ 200 bilhões de perdas de produtividade devido ao desmatamento na Amazônia, de acordo com um novo estudo científico . O estudo, publicado na Nature Communications em maio de 2021, examinou a relação entre o desmatamento e as chuvas. Também avaliou o impacto dos cenários de política de desmatamento sobre as receitas agrícolas, descobrindo que a perda de floresta em áreas de fronteira no norte da Amazônia pode resultar em reduções alarmantes de chuvas no sul da Amazônia. O sul da Amazônia é uma região agrícola altamente desenvolvida que responde pela maior parte das áreas de cultivo e pastagens no Brasil. A maior parte da produção agrícola na área é alimentada pela chuva.

Em um cenário de “governança ambiental fraca”, os cientistas projetam perdas de receita associadas à produtividade de US$5,6 bilhões para o cultivo da soja e US $ 180,8 bilhões para a produção de carne bovina. De acordo com os autores, “o Brasil pode ter ultrapassado um limite no qual mais desmatamento na Amazônia se traduz em dano econômico direto”. Conclui que a atual trajetória de expansão para áreas florestadas coloca em risco a produtividade agrícola de todo o país. Em entrevista à Thomson Reuters, um coautor do estudo, Argemiro Teixeira, disse que a proteção florestal pode apoiar o setor agrícola do Brasil. “[É] possível e necessário melhorar a indústria preservando o meio ambiente”, afirmou.

O estudo quantificou o risco financeiro em um dos mais prementes riscos físicos crônicos de desmatamento para os setores de commodities agrícolas. Conforme descrito em janeiro 2021 da CRR papel em seu quadro TCFD alinhado para avaliar os riscos de desmatamento, perda de floresta é a maior risco de mudanças climáticas da agricultura. Com as altas taxas atuais de desmatamento do Brasil e o papel substancial do país nos mercados globais de commodities leves, as mudanças no padrão de chuvas podem ter um efeito cascata nos sistemas globais de alimentos.

As partes interessadas em todas as cadeias de abastecimento de carne bovina e soja são as que correm maior risco. Os produtores agrícolas serão os mais diretamente afetados pelas perdas de produtividade quantificadas neste estudo. Mas a oferta reduzida e os preços flutuantes também podem afetar as empresas mais abaixo na cadeia de abastecimento. Por exemplo, os preços do gado no Brasil já aumentaram 60 por cento no último ano. Isso resultou na paralisação temporária da produção nos frigoríficos para ajustar a oferta à demanda , com supostas consequências financeiras para os frigoríficos do Brasil. A redução da produtividade do gado, desencadeada por desmatamento futuro, pode exacerbar muito esses impactos.

Da mesma forma, as instituições financeiras com participações nesses setores enfrentam maior exposição ao risco e podem ter que mitigar os riscos climáticos físicos decorrentes do desmatamento. Empresas como o UBS, que recentemente formou uma joint venture com o Banco do Brasil com foco no agronegócio, afirmam que “é possível lidar com o agronegócio brasileiro sem se envolver em problemas ambientais”. No entanto, qualquer cliente UBS localizado no sul da Amazônia brasileira pode enfrentar tais problemas ambientais, mesmo sem estar diretamente envolvido no desmatamento da floresta.

O risco físico de mudanças no padrão de chuvas aumenta os riscos de transição decorrentes da mudança global em direção a uma economia de baixo carbono. Os setores de carne bovina e soja do Brasil enfrentam uma série de riscos de transição:

  • Os avanços tecnológicos permitem que fontes alternativas de proteína vegetal, como hambúrgueres vegetarianos, concorram com o preço da carne bovina ;
  • A preferência do consumidor por opções vegetarianas está crescendo no Brasil , China , UE e em outros lugares;
  • Empresas downstream, incluindo Nestlé , H&M , VF Corporation , Grieg Seafood , Bremnes Seafood Gårdsand , excluíram o Brasil ou fornecedores brasileiros específicos de suas compras em resposta a preocupações com o desmatamento.
  • Os investidores têm pressionado por políticas corporativas de desmatamento zero mais rigorosas, arquivando resoluções dos acionistas (por exemplo, na Bunge , JP Morgan e Procter & Gamble), emitindo cartas públicas e iniciando processos de engajamento colaborativo .
  • Os estados estão colocando requisitos de due diligence de desmatamento mais rigorosos para suas empresas domiciliadas (por exemplo , França , Alemanha e Reino Unido) ou estão endurecendo as restrições de importação de mercado (por exemplo, União Europeia). Nos Estados Unidos, os esforços diplomáticos do presidente Biden podem ser complementados pela expansão da Lei Lacey para incluir a proibição da importação de commodities cultivadas em terras desmatadas ilegalmente. Os Estados Unidos também podem exigir que as empresas informem sobre o desmatamento em sua cadeia de suprimentos ou banir as importações relacionadas ao desmatamento.

Apesar dessas tendências notáveis, os riscos de transição relacionados ao desmatamento até agora não impactaram os resultados das principais empresas nas cadeias de abastecimento de carne bovina e soja. O lucro líquido, os preços das ações e as margens de lucro dos principais frigoríficos e comerciantes de soja no Brasil não viram mudanças significativas. Ao contrário do setor de óleo de palma, as evidências da materialidade financeira dos riscos de desmatamento permanecem teóricas nas indústrias de carne e soja. Apesar de tais perdas financeiras não se materializarem no curto prazo, impactos climáticos e naturais sobre a produtividade agrícola são esperados nos próximos anos.

fecho

Este texto foi escrito originalmente em inglês e foi publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Agricultura ilegal é o principal motor do desmatamento na América Latina e no Caribe

agricultura-deforestacion1-996x567

No Brasil, os principais produtos agrícolas responsáveis ​​pelo desmatamento são a carne bovina e a soja. As pastagens geraram 74% e a soja, 20% da perda florestal. Crédito da imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil , sob licença Creative Commons 3.0

O desmatamento na América Latina e no Caribe é responsável por 44% da perda total das florestas tropicais, e a maior parte da conversão agrícola foi realizada ilegalmente, conclui um estudo global da organização sem fins lucrativos Forest Trends .

De acordo com o relatório, o planeta perdeu 77 milhões de hectares de florestas tropicais entre 2013-2019 na América Latina, Sudeste Asiático e África. Destes, 60 por cento – 46,1 milhões de hectares – foram impulsionados pela agricultura comercial , e pelo menos 69 por cento desta agro-conversão foi realizada ilegalmente.

Commodities como carne bovina, soja e óleo de palma foram responsáveis ​​pela destruição de pelo menos 31,7 milhões de hectares de florestas tropicais no mundo durante os últimos sete anos, um montante que representa 4,5 milhões de hectares por ano e representa 2,7 gigatoneladas de emissões anuais de CO2.

“Não precisamos cortar mais florestas para cultivar alimentos”, disse o ecologista Arthur Blundell, co-autor do novo relatório que lança luz sobre a inter-relação entre a agricultura comercial e o desmatamento ilegal , ao SciDev.Net . “As pessoas precisam entender o papel da agricultura comercial em impulsionar o desmatamento ilegal e a importância das florestas tropicais”, acrescenta.

“Infelizmente, a floresta ainda não é considerada algo viável (economicamente), daí o interesse em desmatar para torná-la produtiva. O agronegócio, por sua vez, tem viabilidade econômica e altos incentivos do ponto de vista financeiro ”, conta o geógrafo Eraldo Matricardi, professor associado da Universidade de Brasília (UnB), que não participou do estudo , à SciDev.Net .

Com base em dados de 23 países, o estudo estima que o desmatamento na América Latina e no Caribe é responsável por 44% (33,9 milhões de hectares) de todas as perdas florestais nos trópicos, e 77% dessa perda foi devido à agricultura comercial.

Na Ásia, as perdas florestais representam 31% do total, 76% das quais causadas pelo agronegócio.

Na África, a extração de madeira é responsável por 25 por cento da perda de floresta tropical do mundo, mas o desmatamento ilegal impulsionado pela agricultura comercial é baixo no continente (10 por cento), com a maior parte da perda devido à agricultura de subsistência.

Embora algum desmatamento seja necessário por razões sociais e econômicas – atividades de subsistência, por exemplo, exigem algum desmatamento, assim como a agricultura comercial – Matricardi explica que a diferença é que o desmatamento legal segue critérios técnicos. Mas “faltam critérios para o desmatamento ilegal”, diz o especialista em mudanças no uso do solo.

De acordo com o relatório, cerca de 81% da extração de óleo de palma da Indonésia, o principal alimento básico do país, é ilegal.

No Brasil, os principais produtos agrícolas responsáveis ​​pelo desmatamento são a carne bovina e a soja. As pastagens geraram 74% e a soja, 20% da perda florestal. No México, a agricultura comercial é a causa de 68% da perda florestal, com uma combinação de grandes fazendas e campos menores para plantações e frutas

“Os produtores agrícolas precisam fazer cumprir suas leis e impedir o desmatamento ilegal, mas os consumidores internacionais também têm um papel a cumprir. Eles têm que ter certeza de que o que compram não tem relação com a perda de florestas ”

Arthur Blundell, ecologista e co-autor principal do relatório Forest Trends

Junto com a soja, o óleo de palma e os produtos da pecuária (carne e couro), outros produtos básicos, como cacau, borracha, café e milho, também são os principais responsáveis ​​pelo desmatamento ilegal.

O estudo também chama a atenção para a responsabilidade dos consumidores dos Estados Unidos, China e União Europeia (UE), principais importadores desses produtos básicos.

“Os produtores agrícolas precisam fazer cumprir suas leis e impedir o desmatamento ilegal, mas os consumidores internacionais também têm um papel a cumprir. Eles devem garantir que o que compram não está relacionado à perda de floresta. Se você está comprando algo no Brasil, por exemplo, há muitas evidências de que pode vir do desmatamento ”, diz Blundell.

Matricardi concorda que a melhor estratégia seria controlar o consumidor e explica que atualmente os países europeus estão mais atentos ao que compram. Isso se reflete nas exportações brasileiras de soja: 70% vai para a China e 13% para a UE, mas enquanto as exportações para a China estão aumentando, as importações da UE do Brasil estão diminuindo.

A ilegalidade é apresentada como o principal motor do desmatamento: a maior parte da conversão agrícola foi realizada em violação às leis e regulamentos nacionais na América Latina (88%), África (66%) e Ásia (41%). Nos 23 países analisados, o percentual de conversação agrícola ilegal varia de 37% na Malásia a 89% na Colômbia e 97% no México.

Os autores apontam que a ilegalidade é consequência dos sistemas corruptos nos países, especialmente no Brasil e na Indonésia.

No Brasil, a ilegalidade supõe “impunidade para desmatamento em reservas legais e áreas preservadas, anistia para apreensão de terras e desmatamento acelerado de proteções ambientais, desde a chegada do presidente Jair Bolsonaro ao poder”, diz o relatório. Na Indonésia, políticos corruptos usaram autorizações de concessão para melhorar suas chances nas eleições locais, e as empresas estão evitando impostos de desmatamento e outras taxas.

Olhando para o papel que o desmatamento desempenhou na mudança climática, o relatório mostra que as emissões da agroconversão ilegal respondem por mais de 2,7 gigatoneladas de CO 2 por ano, o que é mais do que as emissões da Índia de combustíveis fósseis em 2018.

“Não podemos lidar com a mudança climática a menos que abordemos o desmatamento ilegal, e não podemos lidar com o desmatamento ilegal sem abordar a alimentação comercial”, conclui Blundell.

Matricardi também alerta sobre os efeitos que as mudanças climáticas podem ter na agricultura comercial. “Existem regiões onde o clima e a redução das chuvas terão grande influência na agricultura. A irrigação será resolvida por um tempo, mas no longo prazo os efeitos serão graves. “

Um problema que os pesquisadores enfrentam é que muitos países não relatam dados sobre o desmatamento ilegal e as informações nacionais confiáveis ​​são escassas.

Link para o estudo Forest Trends

fecho

Este texto foi escrito originalmente em Espanhol e publicado pelo SciDev [Aqui].

Com o espectro do embargo no ar: corporação norueguesa da avicultura exclui soja brasileira de suas rações devido ao desmatamento da Amazônia

cover defor

  • O produtor de aves norueguês Gårdsand desenvolveu uma nova receita de ração que exclui a soja brasileira devido a preocupações com o risco de desmatamento.
  • De acordo com a Rainforest Foundation Norway, Gårdsand reformulou sua ração para aves em resposta ao aumento do desmatamento na Amazônia brasileira.
  • A ação de Gårdsand segue uma decisão no ano passado da Bremnes Seashore, produtora de salmão, de excluir a soja brasileira de sua ração para peixes, enquanto os fornecedores de soja para as empresas de aquicultura norueguesas Caramuru, Imcopa e CJ Selecta indicaram que farão o mesmo.
  • O desmatamento na Amazônia brasileira tem aumentado constantemente desde meados da década de 2010, com a maior aceleração ocorrendo desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência em janeiro de 2019.

gardsand chic

Gårdsand, uma grande empresa produtora de aves da Noruegadesenvolveu uma nova receita de ração que exclui a soja brasileira devido a preocupações com o risco de desmatamento.

De acordo com a Rainforest Foundation Norway, uma organização que faz campanha sobre questões florestais como o desmatamento vinculado a cadeias de suprimentos de commodities, a Gårdsand reformulou sua ração para aves em resposta ao aumento do desmatamento na Amazônia brasileira. Gårdsand agora eliminou completamente a soja de sua cadeia de suprimentos, usando outras fontes de proteína.

“Acompanhamos a situação no Brasil com crescentes preocupações nos últimos anos”, disse May Iren Varlid Aarvold, líder de marketing da Gårdsand, em um comunicado. “Os números dos incêndios florestais e do desmatamento continuam aumentando a um ritmo alarmante. Sabendo que a produção de soja é um impulsionador do desmatamento em curso, achamos que o risco de incluir esta commodity em nosso fornecimento é tão alto que excluímos totalmente a soja de nossa cadeia de fornecimento e mudamos para outras fontes de proteína. ”

Aves alimentadas com a nova receita de Gårdsand são rotuladas como “produzido sem soja – para o bem das florestas tropicais” nos supermercados “Meny” da Noruega sob a marca “Lerstang”.

mata sojaO desmatamento para plantações de soja e fazendas de gado põe em risco os habitats dos primatas da Amazônia e impede seu deslocamento para novos locais. Os rios limitam ainda mais a capacidade de movimentação de pequenos primatas. Foto de Rhett A. Butler

A ação de Gårdsand segue uma decisão no ano passado da Bremnes Seashore, produtora de salmão, de excluir a soja brasileira de sua ração para peixes, enquanto os fornecedores de soja para as empresas de aquicultura norueguesas Caramuru, Imcopa e CJ Selecta indicaram que farão o mesmo. A Noruega também está eliminando o uso de biodiesel à base de óleo de palma devido a preocupações com o desmatamento, com o consumo diminuindo de 317 milhões de litros em 2017 para 118 milhões de litros em 2019 para 2 milhões de litros em 2020.

A Rainforest Foundation Norway diz que a Amaggi, um dos maiores produtores e exportadores de soja do mundo, não se comprometeu com uma data limite de 2020 para eliminar o desmatamento de sua cadeia de abastecimento. A Amaggi é o principal fornecedor de soja para o setor agrícola norueguês, de acordo com a ONG.

“Enquanto os números do desmatamento continuam aumentando no Brasil e a indústria da soja não consegue conter a crise, o risco de estar associado à soja só vai aumentar”, disse Ida Breckan Claudi, assessora sênior da Rainforest Foundation Norway, em um comunicado.

“A nova ração sem soja da Gårdsand envia uma mensagem clara aos comerciantes de soja de que o modelo de negócios atual dos comerciantes é incompatível com as ambições de sustentabilidade das empresas. A menos que os líderes do setor Cargill, Bunge e Amaggi estabeleçam instrumentos para proteger os remanescentes de florestas nativas brasileiras da expansão da soja, eles continuarão perdendo market share, devido ao risco de desmatamento ”.

desmatamento amazonia

Desmatamento mensal alerta dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais INPE e Imazon desde 2010

O desmatamento na Amazônia brasileira tem aumentado constantemente desde meados da década de 2010, com a maior aceleração ocorrendo desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência em janeiro de 2019. O desmatamento nos 12 meses encerrados em 31 de julho de 2020 foi 47% maior do que dois anos antes. A soja tem o maior impacto direto no cerrado, uma floresta tropical encontrada ao sul e leste da floresta amazônica, embora a produção de soja também afete a cobertura florestal na própria floresta.

Imagem do cabeçalho: Desmatamento na Amazônia Brasileira. Crédito da foto: Rhett A. Butler

fecho

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Mongabay [Aqui! ].

 

Desmatamento causado por carne e soja dobrou no Brasil em um ano, diz Mighty Earth

ONG internacional inicia uma campanha para que as redes de supermercados da Europa cortem vínculos com empresas envolvidas na destruição da Amazônia e do Cerrado

me
Um monitoramento feito pela ONG Mighty Earth e divulgado nesta sexta-feira (30/04) mostra que o desmatamento atrelado à cadeia de fornecimento das principais empresas de soja e carne bovina do Brasil dobrou entre abril de 2020 e março de 2021 (260 mil hectares) ante o período anterior, entre março de 2019 e abril de 2020 (128 mil hectares).

Ao mesmo tempo, a esmagadora maioria dos consumidores de Alemanha, França, Holanda e Reino Unido acha que os supermercados não devem fazer negócios com as empresas que estão impulsionando a destruição das florestas no Brasil, revela uma nova pesquisa do Instituto YouGov realizada a pedido da ONG Mighty Earth e também divulgada hoje.

A Mighty Earth está usando essas duas informações em uma nova campanha que pede expressamente que as redes varejistas da europa parem de fazer negócios com empresas ligadas ao desmatamento no Brasil. Todos os anos, entre junho e setembro, os maiores comerciantes mundiais de soja unem forças com os maiores produtores de soja do Brasil para negociar contratos de compra para o próximo ano. A campanha tem o objetivo claro de influenciar as negociações sobre requisitos contratuais, como cláusulas que impedem a compra de soja cultivada em terras desmatadas após o prazo de 2020.

O monitoramento da Mighty Earth começou em março de 2019 e mostra que os dois maiores importadores europeus de soja, Bunge e Cargill, são os comerciantes com pior desempenho ambiental. A Cargill está ligada a mais de 66 mil hectares de desmatamento, uma área seis vezes maior do que a de Paris, enquanto a Bunge está ligada a quase 60 mil hectares de desmatamento.

Apesar desta espiral de desmatamento, houve apenas um caso em que uma das empresas citadas cortou laços com um fornecedor envolvido no desmatado, dos 235 casos registrados e reportados pelo Mighty Earth em seu monitoramento.

“A destruição das florestas no Brasil, impulsionada pela carne de supermercado, está piorando a cada ano. Isto está acelerando a mudança climática e dizimando a pátria da onça-pintada”, diz Martin Caldwell, Diretor da Mighty Earth na Alemanha.

Mercados: Alemanha e França

A pesquisa do Instituto YouGov entre os consumidores alemães indicou que 87% quer que os supermercados parem de fazer negócios com fornecedores que impulsionam o desmatamento no Brasil. Esse percentual é maior (89%) entre os clientes da EDEKA, o maior grupo de supermercados da Alemanha, com 24% de participação no mercado e mais de 4300 lojas. A empresa promove fortemente suas credenciais de sustentabilidade e estreou recentemente uma campanha publicitária sobre o tema na TV e nas redes sociais.

“Já é hora de a EDEKA ouvir seus clientes e abandonar as empresas de pior desempenho que estão provocando a destruição das florestas brasileiras – JBS, Cargill e Bunge”, afirma Caldwell. “A hora de impulsionar a mudança no Brasil é agora.”

Na França, o resultado é semelhante: 89% dos clientes do Carrefour no país querem que a rede deixe de comprar produtos com origem no desmatamento praticado no Brasil. No ano passado, o Carrefour liderou uma campanha voluntária neste setor que resultou em todos os grandes supermercados franceses se comprometendo a utilizar somente soja sem desmatamento em suas cadeias de abastecimento. Após seis meses, o Carrefour não fez nenhum progresso significativo na redução de suas ligações com os comerciantes de soja de pior desempenho Cargill e Bunge, e está falhando em conduzir mudanças reais no terreno, afirma a Mighty Earth.

Já a EDEKA assumiu fortes compromissos para remover o desmatamento em todas as suas cadeias de abastecimento, mas em seu relatório de 2019 , a empresa alemã admite que houve pouco progresso para melhorar a sustentabilidade de suas cadeias de abastecimento de carne e soja. Apesar disso, a varejista alemã, ainda não excluiu os comerciantes de soja de pior desempenho, que são a Cargill e a Bunge.

“Os consumidores estão preocupados, pois não suportam mais o gosto residual do desmatamento e a extinção de espécies ameaçadas que a carne comprada nas lojas do grupo Carrefour deixa”, afirma Fatah Sadaoui, Campaigner da ONG SumOfUs. “Em resumo, o que esperamos do Carrefour é menos conversa e mais ação.”

Cicatrizes da monocultura: Em Rondônia, trabalhadores da soja relatam lesões e abusos em contratada da Cargill

Pelo menos 6 funcionários da Bertolini Ltda, empresa que transporta os grãos da Cargill pelo rio Madeira (RO), relatam problemas de saúde como dedos amputados e perda de visão por conta de acidentes trabalhistas; empresa nega violar legislação trabalhista

pasted image 0

Por Daniel Camargos, de Porto Velho (RO). Fotos: Fernando Martinho | para a Repórter Brasil

Dedos amputados, perda de visão e cirurgias na coluna são algumas das cicatrizes deixadas pela crescente produção de soja no Brasil. Apenas o transporte do grão da Cargill — um dos maiores conglomerados do agronegócio mundial — pelo rio Madeira, em Rondônia, deixa um legado de trabalhadores com lesões graves decorrentes de acidentes trabalhistas e de violações de normas de segurança.

Repórter Brasil ouviu seis funcionários e ex-funcionários da Transportes Bertolini Ltda (TBL), empresa contratada pela Cargill para fazer o transporte da soja pelo rio, que sofreram graves acidentes trabalhistas, na maior parte das vezes após jornadas irregulares de mais de 30 horas sem descanso. Além dos problemas de saúde, os trabalhadores se queixam da exposição à poeira repleta de agrotóxicos do grão e da omissão da empresa. Três deles só conseguiram indenizações após entrarem com ações na Justiça.

Cicatriz da cirurgia de hérnia de disco de James Vasconcelos; mesmo depois da operação, ele segue trabalhando em serviços que exigem esforço da coluna. ‘Se continuar fazendo isso, o problema pode se agravar e até me deixar numa cadeira de rodas’ (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Célio Albuquerque, 56 anos, trabalhava como marinheiro em dois portos de soja movimentando cabos de aço. Ele conta que, após 19 horas seguidas de trabalho, um cabo soltou e atingiu sua cabeça. “Rasgou meu capacete, quebrou meu nariz e acertou meu olho”.

Albuquerque era integrante da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) e seis meses antes do acidente enviou para a empresa um relatório, com fotos, mostrando que a estrutura que sustentava o cabo estava avariada. Após o acidente, ele relata ter escutado dos responsáveis da TBL e da Cargill que receberia assistência médica. “As duas pularam fora e consegui fazer a cirurgia só depois de uma liminar determinando que as empresas pagassem, mas acabei perdendo a visão do olho direito”.  

Sem condições de voltar ao trabalho, Albuquerque entrou com um pedido de rescisão indireta, alegando na ação outras violações, como o excesso de jornada de trabalho, pois diz que durante a  jornada de 48 horas não tinha o tempo adequado para descanso. Já se passaram cinco anos e ele nunca recebeu qualquer tipo de reparação por parte da TBL. Nesse período, Albuquerque passou a tratar um câncer no intestino e viu uma filha morrer. “Eu acredito que esse meu sofrimento com a empresa e com a Justiça acelerou o problema [de saúde] que ela tinha”, entende o marinheiro, que também vê ligação entre a dor psicológica e o câncer. “Afetou demais meu estado emocional”.

‘É desumano. Pensar que são empresas no patamar dessas duas [TBL e Cargill]. Olha, escravidão não é só chicote’ Francisco Nascimento Barros, ex-funcionário da TBL

Sem receber as verbas trabalhistas e sem poder trabalhar por causa do câncer, que está em estado avançado e já atingiu o fígado, Albuquerque diz também que ficou quatro meses sem receber o auxílio-doença do INSS. Somente depois de a Repórter Brasil pedir explicação sobre os motivos da suspensão para o órgão é que o pagamento voltou a ser feito. “Você trabalha, se esforça a vida toda e quando precisa é abandonado”, reclama. 

Duas hastes e cinco pinos na coluna

O também marinheiro James Vasconcelos segue trabalhando na TBL mesmo depois de uma cirurgia na coluna devido a uma hérnia de disco. Ele diz que a recomendação médica é para que ele evite carregar peso, mas o funcionário segue movimentando os cabos que prendem as balsas de soja, o que exige esforço de todo o corpo. 

“Se continuar fazendo isso, o problema pode se agravar, levar novamente a uma hérnia ou me deixar numa cadeira de rodas”. Antes da cirurgia, a dor era tanta que o marinheiro não conseguia andar. “Depois da cirurgia, fiquei afastado por seis meses e voltei para a mesma função”. Ele teme pedir demissão e não ter condições de saúde para trabalhar em outra empresa. “E se um dia eu não aguentar mais trabalhar? Tenho duas hastes e cinco pinos na coluna”.

Célio Albuquerque perdeu a visão do olho direito após um acidente com um cabo de aço enquanto carregava uma balsa de soja (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Vasconcelos diz que a recomendação médica é para que ele evite carregar peso, mas ele segue movimentando os cabos que prendem as balsas de soja, o que exige esforço de todo o corpo, inclusive da coluna. “Se continuar nisso, o problema pode se agravar e até  me deixar numa cadeira de rodas”. Trabalhando na TBL há 17 anos, ele relata que é comum ocorrerem desvios de função e longas jornadas de trabalho que não respeitam o período de descanso. “Já passei 48h em cima do píer trabalhando o tempo todo”. 

“Eles [os funcionários] sofrem problemas físicos, psicológicos e até mesmo na convivência familiar. São problemas enormes, sem precedentes. Não tem como mensurar”, afirma a advogada trabalhista Caroline França Ferreira Batista, que representa funcionários e ex-funcionários da TBL.

Acidente com nove mortos

Não é a primeira vez que a TBL foi alvo de denúncias de desrespeito às normas trabalhistas. Em novembro do ano passado, a empresa foi condenada pela Justiça a pagar R$ 10 milhões por dano moral coletivo por conta de um acidente em 2017, que deixou  9 mortos. Além da multa, a Justiça determinou que a empresa deve instruir os empregados quanto às precauções para evitar acidentes de trabalho.

“A cadeia da soja é de alto risco e com grande número de acidentes de trabalho”, afirma a procuradora chefe do MPT em Rondônia e no Acre, Camilla Holanda. Um ano depois do acidente, o órgão apertou o cerco e realizou duas forças-tarefa fiscalizando os portos da região Norte. Foram encontradas mais de 100 infrações trabalhistas, que atingiram 14 das 17 empresas que atuam no rio Madeira, sendo a TBL uma delas.

Além de exportar soja, a Cargill produz óleo de cozinha, maionese e molhos em marcas próprias como Liza, Maria, Pomarola, Elefante e Veleiro (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Procurada, a Transportes Bertolini Ltda (TBL) afirmou, por meio de seu gerente jurídico, Fernando Parisotto, que o ambiente de trabalho da empresa “é absolutamente seguro e que são respeitadas rigorosamente todas as normas de medicina e segurança no trabalho, bem como todos os riscos são controlados”. 

Sobre Albuquerque, a empresa  afirmou que o funcionário não teve seus pedidos atendidos pela Justiça trabalhista e que ação ingressada pelo MPT apontando acúmulo de atividades e jornada exaustiva foi considerada improcedente. Com relação à Vasconcelos, Parisotto respondeu que as atividades executadas no ambiente de trabalho são “compatíveis com as condições físicas e psicológicas de cada empregado”. Disse também que Vasconcelos é marinheiro, mas que executa “atividades burocráticas compatíveis com a recomendação médica”.

A Cargill, contratante da TBL, afirmou que eles não são funcionários da empresa e que “realiza monitoramento constante, avaliando todos os fornecedores”. Leia as respostas na íntegra.

Jornada de 48h sem descanso

O comandante da embarcação Simeão Furtado Passos faz relato semelhante. “Peguei três hérnias de disco trabalhando lá”, conta o ex-funcionário da TBL. A escala de trabalho era de 48h por 48h e Passos afirma que não havia como descansar. “Os camarotes não tinham nem ar condicionado e nem ventilador. Mais de 40 graus”, lembra.  Passos diz que chegou a reivindicar melhorias nos alojamentos, pois era comandante, mas ouviu como resposta do gerente que não era possível. 

Aposentado por invalidez, Marcelo Dias sente dores no joelho e na coluna; e também sofreu alergias com a poeira do agrotóxico da soja (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Outro comandante, também ex-funcionário, Francisco Nascimento Barros, classifica a cabine em que trabalhava como insalubre. “É desumano. Escravidão não é só chicote”. Durante a jornada de 48h, Barros relata que precisava estar disponível o tempo todo. 

Além do descumprimento de leis trabalhistas, os trabalhadores da soja no porto são pressionados pela crescente produção do grão nos últimos anos, que em 2021 deve ter alta de 8,5% em relação à safra de 2020, segundo o IBGE. As exportações também seguem em alta, sendo a Cargill a principal exportadora do grão brasileiro.

‘Tenho sequelas para o resto da vida e me arrependo muito de não ter saído do emprego, pois hoje eu estaria inteiro’, Marcelo Inácio Dias, ex-funcionário da TBL aposentado por invalidez

Os portos do rio Madeira transportam, além da soja plantada em Rondônia, parte dos grãos produzidos no Mato Grosso, que cruzam o Amazonas e o Pará por via fluvial até chegar ao Atlântico, para o mercado internacional. 

Quem navega nos rios da região Norte já se habituou a cruzar com as embarcações puxando filas de balsas de soja. Quase 20% da soja produzida no Brasil corre pelos rios da Amazônia. Levantamento do Diálogo Chino mostra que há 100 portos fluviais industriais privados na Amazônia e que estão em andamento projetos de outros 40, com investimentos de centenas de milhões de dólares, em locais de ecossistema sensíveis.  

A balança comercial das exportações brasileiras do agronegócio somou US$ 100,81 bilhões em 2020, um crescimento de 4% na comparação com 2019. A soja foi o setor que mais contribuiu, com US$ 35,2 bilhões. O setor está imune à crise econômica brasileira agravada pela pandemia. “Plantar em real para colher em dólar”, como costumam dizer os sojeiros. 

José Ulhôa toma vários medicamentos para suportar as dores crônicas; ele ficou com os dedos da mão deformados pelo trabalho no carregamento da soja (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

O marinheiro José Cláudio Manoel Uchôa, que está afastado do trabalho na TBL há 3 anos por problemas de saúde, afirma que os trabalhadores costumam ser contemplados na primeira instância judiciária, mas perdem na segunda. 

“Eles [Cargill e TBL] têm um corpo jurídico muito grande e, Deus me perdoe, mas devem ter influência dentro dos tribunais”, afirma, enquanto mostra os dois dedos da mão deformados pelo trabalho. Ele sente dores recorrentes na coluna e teve que fazer uma cirurgia no joelho. “Escorreguei na embarcação e rompi o menisco e o ligamento do joelho”. Quando começou a trabalhar na TBL, Uchôa afirma que não tinha nenhum problema de saúde. “Agora eu não durmo direito, não tenho sono, fico zanzando pelo meio da casa”, diz. Em casa, um pote preto está lotado de remédios, que ele toma várias vezes ao dia para suportar as dores.

“Tenho sequelas para o resto da vida e me arrependo de não ter saído do emprego, pois hoje eu estaria inteiro”, afirma Marcelo Inácio Dias, ex-funcionário da TBL, aposentado por invalidez. Ele ficou com problemas na coluna mesmo após uma cirurgia, sente dores crônicas no ombro, no joelho e ficou com um dedo da mão imobilizado por causa de um acidente movimentando as balsas. Teve problemas também por conta dos agrotóxicos aplicados aos grãos: “Tem veneno demais. Passei muito tempo com coceira no corpo”. 

Dias lamenta que a TBL e a Cargill não paguem os direitos trabalhistas devidos e que os funcionários precisem pedir judicialmente. “Para eles é pouquinho, mas para a gente é muito. Precisamos desse dinheiro para tentar recomeçar a vida e seguir em frente”. 

Célio Albuquerque mostra relatórios que fez quando era integrante da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa). Segundo ele, as empresas ignoraram avisos sobre riscos de acidentes (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Simeão Passos afirma que não havia como descansar nas embarcações pois os camarotes não tinham nem nem ventilador e a temperatura chegava a mais de 40 graus (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Durante a jornada de 48h, os funcionários precisavam estar disponível o tempo todo, relata Francisco Nascimento Barros (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Remédios, especialmente para dores musculares crônicas, que Uchôa toma ao longo do dia (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

fecho
Esta reportagem foi originalmente publicada pela Repórter Brasil [Aqui!]

Dossiê alerta que a expansão da soja provocou estagnação da produção de alimentos

Produzido pela FASE, “Dossiê crítico da logística da soja” analisa as diversas dimensões da produção dessa commodity, buscando reflexões para o futuro

dossie fase

Nos últimos 40 anos, o Brasil aprofundou a lógica colonial concentrando as terras agrícolas em torno do monocultivo de poucas commodities para exportação, com graves consequências sociais e ambientais. Com Infográficos, dados e análises sobre o avanço da monocultura rumo à Amazônia, Dossiê Crítico da Logística da Soja: Em defesa de alternativas à cadeia monocultural, produzido pela FASE, detalha o risco de desabastecimento de produtos básicos como o arroz e o feijão e os diversos conflitos de terra que estão surgindo por consequência dos avanços da cultura de soja rumo às terras e portos do Norte.

“O estrangulamento da agricultura familiar tem provocado a fragilização dos sistemas tradicionais de cultivo desses alimentos. No caso do arroz, por exemplo, nesses 40 anos, um único estado (Rio Grande do Sul) passou de 34% para 70% da produção nacional, com graves consequências para o abastecimento”, analisa Silvio Porto, coautor e professor da Universidade do Recôncavo da Bahia. Além disso, a estratégia de formação de estoques públicos foi abandonada. “O estoque atual de arroz não atende sequer ao consumo nacional de dois dias, enquanto as exportações só crescem”, completa.

A soja, carro-chefe do agronegócio “moderno”, representou, junto com o milho, mais de 90% de toda a safra de grãos colhida no Brasil em 2020. Em 43 anos, a produção brasileira da oleaginosa foi ampliada em 10 vezes, saltando de 12 milhões de toneladas (na safra 1976/77) para 124,8 milhões de toneladas (na safra 2019/20). A logística da soja tem estado no centro da agenda “pública” do país, em detrimento de alternativas de infraestrutura com potencial de dinamizar outras economias e formas de viver e produzir.

Devastação, conflitos e resistência

O terceiro capítulo do dossiê analisa a “guerra das rotas”, como os interesses do agronegócio incidem sobre os programas públicos de infraestrutura em um contexto de disputas entre diferentes projetos para o escoamento da soja. Em comum, o desenho de rotas que permitam conectar as fronteiras agrícolas ao novo destino prioritário: a China.

Em 2020, dos 12 principais complexos portuários em termos de volume de soja exportada no país, seis estavam na Amazônia: Barcarena (PA), Itaqui (MA), Santarém (PA), Itacoatiara (AM), Porto Velho (RO) e Itaituba (PA). Mais um complexo portuário do Arco Norte (fora da Amazônia Legal) figurava entre os doze principais: Cotegipe em Salvador (BA). Há diversos projetos de concessão previstos até 2022, em especial das ferrovias de Integração Oeste-Leste (FIOL) TO-BA, em obras, e a Ferrogrão (MT- PA). Além do Ministério de Infraestrutura, os governos estaduais se mobilizam ativamente pela atração de investimentos em seus estados, em especial Maranhão, Pará, Bahia e Mato Grosso. “Além das evidentes consequências econômicas e ambientais, a apropriação privada da terra, a concentração fundiária e a violência no campo são a face mais perversa desse processo”, conclui Diana Aguiar, pesquisadora e organizadora da publicação.

Para Diana, a continuidade desses projetos ao longo de inúmeros governos representa a vigência de um consenso: ênfase nas infraestruturas para a viabilização da extração e escoamento de commodities. “Para cada um desses projetos, há processos de mobilização e resistência em curso. Esses projetos são desenhados a partir de lógicas totalmente alheias aos territórios por onde cruzam, gerando legítimos questionamentos de povos e comunidades tradicionais sobre o que é o ‘desenvolvimento’ que prometem e, acima de tudo, para quem é esse desenvolvimento”.

fecho

Este publicação foi originalmente publicada pela Fase [Aqui! ]

China e Rússia fazem queixas de agrotóxico e coronavírus em carne e soja exportadas pelo Brasil

Nos telegramas, as duas embaixadas disseram que os órgãos de fiscalização da Rússia e da China pediram providência ao MAPA

Soya Plantation in the Amazon
Plantação de soja na Amazônia

Por Raquel Lopes / FolhaPress

As embaixadas do Brasil na China e na Rússia reportaram, em telegramas ao Itamaraty, problemas em alimentos brasileiros exportados. Segundo diplomatas, autoridades nos dois países cobram soluções e há até queixa por “falta de controle” em relação aos produtos brasileiros.

Moscou, por exemplo, alertou para o índice de agrotóxico acima do limite permitido. Só em 2020, a reclamação envolveu mais de 300 mil toneladas de soja.

A missão em Pequim, por outro lado, relatou ao menos seis registros de presença do novo coronavírus em embalagens de carne e de pescado.

Nos telegramas, as duas embaixadas disseram que os órgãos de fiscalização da Rússia e da China pediram providência ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

A Folha teve acesso a 350 páginas das correspondências enviadas ao Ministério das Relações Exteriores. Os documentos foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

Segundo dados do Comex Stat, um sistema do governo para consultas e extração de dados do comércio exterior brasileiro, a soja correspondeu a 25% da exportação brasileira para a Rússia em 2020.

Em um dos telegramas de janeiro, a embaixada do Brasil em Moscou cita que o Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia está preocupado com casos repetidos de detecção de glifosato acima do tolerado.

O documento pontuou que o país está endurecendo o controle sobre a presença da substância em produtos de grãos tanto no mercado interno quanto nas operações de exportação e importação.

A justificativa usada pelo país seria por causa do alto grau de toxicidade do glifosato para humanos e animais, confirmado por estudos da  Organização Mundial de Saúde (OMS).

Como funciona a permissão de agrotóxicos no Brasil

No Brasil, esse tipo de agrotóxico é permitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O telegrama assinado pelo embaixador na Rússia, Tovar da Silva Nunes, citou que a agência reguladora russa tem informado repetidamente ao MAPA sobre o fornecimento ao país de soja com níveis acima do permitido desde 2019.

“O lado russo chamou a atenção dos colegas brasileiros para a necessidade de tomar medidas corretivas o quanto antes”, escreveu o diplomata.

Nunes acrescentou ainda que o desrespeito aos limites do agrotóxico corresponde a uma violação aos requisitos do regulamento técnico da União Aduaneira sobre a segurança dos grãos.

Segundo consta do telegrama, os resultados de verificação de segurança de grãos importados pela Rússia constataram, em parte da soja exportada no ano passado, teor de glifosato até 14,2 vezes superior ao máximo de 0,15 mg/kg previsto nas exigências do regulamento técnico da união aduaneira.

“O que aponta para a falta de controle estatal adequado por parte das autoridades competentes do Brasil. Nesse sentido, Rosselkhoznadzor [a vigilência russa] disse em comunicado que se reserva o direito de impor uma proibição temporária à importação dos produtos em questão do Brasil”, escreveu Nunes.

A Folha já publicou reportagem sobre o risco de o governo da Rússia adotar restrições temporárias à importação de soja caso não fosse reduzida a quantidade de pesticidas nos grãos importados do Brasil.
Já os telegramas da embaixada em Pequim citaram a detecção do coronavírus em produtos exportados ao país asiático no ano passado.

Em uma das correspondências, de novembro, o embaixador Paulo Estivallet de Mesquita relatou que a aduana da China suspendeu um estabelecimento brasileiro exportador de pescado.

A medida foi tomada em razão da não apresentação de medidas corretivas após os produtos apresentarem resultado positivo para o vírus causador da COVID-19.

“Na comunicação, a aduana chinesa afirma esperar que o Mapa atribua importância à identificação do novo coronavírus em produtos exportados pelo Brasil para a China e às não conformidades encontradas na auditoria por videoconferência”, escreveu Mesquita.

De acordo com ele, o órgão “solicita, ademais, que as autoridades brasileiras adotem medidas para investigar a causa da contaminação, requeiram a adoção de medidas corretivas pelo estabelecimento e notifiquem as referidas correções ao lado chinês, a fim de garantir a segurança dos pescados exportados para este mercado”.

Também em novembro, Mesquita informou que a imprensa chinesa intensificava as notícias que associavam o surgimento de novos casos de COVID-19em portos e aeroportos do país a contato com produtos importados.

Ao falar especificamente do Brasil, citou ao menos cinco vezes em que a mídia tratou da detecção do coronavírus em produtos importados da cadeia de frio. Os casos ocorreram nas províncias de Hubei, Shanxi e Shandong.

“A mídia chinesa continua a insistir na narrativa de que alimentos importados da cadeia de frio apresentam alto risco de transmissão da COVID-19, chegando mesmo a insinuar que o primeiro caso da epidemia, em Wuhan, teria origem em produtos vindos de outros países”, escreveu o embaixador.

O MAPA afirmou, por meio de nota, que rotineiramente são tratados temas similares na relação comercial entre países. “Os dois pontos citados já foram analisados e continuamente são monitorados entre o Brasil e os governos da China e Rússia. O fluxo comercial desses países com o Brasil permanece fluído, sem interrupção”, afirmou.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) disse, em nota, que desenvolveu protocolo com o Hospital Israelita Albert Einstein, que rege os cuidados adotados pelas empresas do setor, assim como a legislação brasileira.

“Ambos protegem a saúde dos colaboradores e preservam a inocuidade dos alimentos produzidos para o mercado interno e internacional.”

A entidade disse ainda que organizações técnico-científicas relacionadas à saúde humana e à produção de alimentos realizaram pesquisas que constataram que o risco de transmissão de COVID-19 por embalagens é praticamente nulo.

fecho

Este texto foi originalmente publicado pelo Diário do Nordeste [Aqui!].

Agronegócio e mercado financeiro avançam, de mãos dadas

Financeirização se dá pela entrada de fundos de pensão e de investimentos nos negócios da cadeia agropecuária

joiotrigo

Montagem sobre foto de Rosilene Miliotti / FASE

Por Leonardo Furhamann para o site “O Joio e o Trigo”

Para ‘facilitar’ a compra de geladeiras, TVs e outros bens, as redes de lojas de departamentos, como as Casas Bahia e o Magazine Luiza, têm seus próprios cartões para o financiamento dos bens adquiridos. Algumas ainda ofertam os tradicionais carnês, com os juros embutidos no parcelamento do valor das compras. As montadoras de automóveis também mantêm seus bancos, assim cuidam das operações financeiras relacionadas à aquisição e troca de carros. 

Apesar de menos visível ao consumidor, o agronegócio também vive uma expansão das atividades financeiras nas mais diversas etapas de sua produção. Os negócios são amplos. Vão desde a aquisição de terras até a comercialização da safra, muitas vezes paga adiantada ao produtor, e envolvem internacionalização das propriedades, seja pela aquisição, seja pelo arrendamento. 

Os principais alvos dessa cadeia globalizada e com grande participação de agentes do mercado financeiro são as commodities, produzidas principalmente pelo agronegócio, e os minérios. Duas riquezas abundantes no Brasil de hoje e que recebem uma atenção especial de uma parcela expressiva do Congresso Nacional e do Executivo, que buscam torná-las ainda mais lucrativas para quem especula no país.

Fundos de pensão na agropecuária

Tal financeirização se dá pela entrada de fundos de pensão e de investimentos nos negócios da cadeia agropecuária, como explica o professor Sérgio Pereira Leite – do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA-UFRRJ).

Os fundos podem participar diretamente na aquisição de terras ou no arrendamento de conjuntos de propriedades. Esses investimentos também podem ser feitos em empresas de maquinários e insumos e, depois, nos mecanismos de estocagem e comercialização do produto no mercado internacional. Como cada etapa pode gerar títulos e a garantia, em última análise, seria o produto final, existe uma multiplicação dos títulos relacionados a um mesmo produto. “Uma saca de soja produzida gera uma especulação em valor equivalente a mais de dez sacas”, afirma. Assim, os negócios dos títulos se tornam mais importantes do que a produção em si, pois geram mais riqueza.

“Uma saca de soja produzida gera uma especulação em valor equivalente a mais de dez sacas.”

Tudo isso sem falar em processos de industrialização e na formação de novas cadeias. A soja, por exemplo, é produto na cadeia de plantio e se torna insumo quando entra na produção de ração para a produção de proteína animal.

Seja a água do nosso feijão

Apoie o único projeto brasileiro de jornalismo investigativo em que a alimentação nunca sai da pauta. Com R$10 por mês você já ajuda a separar o joio do trigo.

Um dos primeiros impactos da especulação no campo, segundo ele, é a valorização estratosférica do preço das terras, principalmente naquelas regiões que antes eram pouco exploradas pelo agronegócio, tratadas por eles como “novas fronteiras agrícolas”.

Um relatório feito pela ONG inglesa Planet Tracker e divulgado pelo site Mongabay, mostra que sete empresas de investimento seriam capazes de reduzir o desmatamento por conta da grande participação delas no mercado de soja. Elas são gestoras de fundos negociados em bolsas (ETFs, na sigla em inglês).

Segundo o levantamento, US$ 9,3 bilhões de ETFs são investidos em 26 empresas envolvidas com o comércio de soja e ligadas ao desmatamento. Os ETFs chegaram a um valor coletivo de US$ 6,7 trilhões de no segundo semestre de 2020. O relatório aponta que 70% do mercado de ETFs está nas mãos das empresas financeiras americanas BlackRock, State Street Global Advisors e Vanguard. 

O estudo da Planet Tracker afirma ainda que o investimento total nestes produtos em 2020 foi cinco vezes maior do que em 2010. Para além da questão ambiental, os dados mostram também o peso da financeirização no agronegócio global. Além de estarem presentes nas bolsas internacionais, esses fundos foram regulamentados no Brasil em 2002. Atualmente, são oferecidos pouco mais de 20 ETFs na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo.

Expulsão e violência no campo

A situação fica clara quando é analisado o aumento de preço das terras no Matopiba (região que inclui partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que inclui a parte oeste destes estados do Nordeste e a leste do Tocantins e é chamada pelo agronegócio de uma das novas fronteiras agrícolas do país. 

Entre 2004 e 2017, época em que a inflação foi de 120%, as terras em Imperatriz e Açailândia, ambas no Maranhão, tiveram uma valorização de 594%; em Santa Maria (BA), 483%; Gurupi (TO), 471%; e Balsas (MA), 452%.

A média na região, segundo o estudo citado por Leite, foi de 390%. “Esta busca obsessiva por novos territórios está ligada ao desmatamento, à expulsão de povos originários e tradicionais de seus territórios e a violência no campo”, afirma.

Outras áreas que são alvo da valorização confirmam a relação direta com a expulsão das comunidades e o desmatamento, como a região de Humaitá, no Amazonas, Santarém, no Pará, e o Meio-Norte do Mato Grosso. “As terras se transformaram praticamente em um ativo financeiro”, comenta Leite. 

A situação trouxe mais jogadores para próximo da roleta. A tendência é global. Nos doze anos, segundo dados da Global Advisors, o número de fundos de investimento que atuam no setor agrícola e alimentício internacionalmente subiu de 38 para 441. Em 2017, eles geriam juntos cerca de US$ 73 bilhões. Fazem parte desse grupo de investidores os fundos de pensão soberanos, instituições bancárias, seguradoras, grupos de investimento familiar e grandes corporações, por exemplo. O objetivo principal dessa atuação é o estoque de riqueza.

Sul do Piauí. Foto: Rosilene Miliotti / FASE

Baixo custo de investimento

A falta de uma legislação capaz de controlar a atuação desses fundos e o custo relativamente baixo do investimento tornam o Brasil atrativo, assim como a Ucrânia e alguns países africanos. “Hoje, estima-se que 8,5 milhões de hectares no Brasil são controlados direta ou indiretamente por empresas estrangeiras”, afirma Leite. A conta inclui empresas que são subsidiárias locais de multinacionais, subsidiárias de holdings com atuação no Brasil e subsidiárias de holdings com sede fora.

O foco dessas empresas é em commodities, produtos que são colocados no mercado internacional com preços operados em bolsa, sem distinção de qualidade ou pela forma como é produzido. Além da soja, carne bovina, algodão, cana-de-açúcar e as madeiras pinus e teca são commodities internacionais. Esses produtos também concentram os subsídios públicos. No Sistema Nacional de Crédito Rural, de 60% a 75% dos recursos agrícolas são investidos em apenas quatro produtos: soja, café, cana e milho. 

Professora visitante da Universidade Federal do ABC, de São Paulo, Yamila Goldfarb destaca que, diferentemente do discurso apresentado pelo agronegócio, o setor cria poucos recursos para as contas públicas. “Além de contar com subsídios nas operações de crédito e isenções fiscais, com a Lei Kandir, de meados dos anos 1990, a arrecadação com a exportação de commodities passou a ser pífia”, afirma. 

Ela lembra que estados como São Paulo também isentam a compra de agrotóxicos da cobrança do ICMS. Outras mudanças na legislação tornaram a exportação de commodities a partir do Brasil mais atraente para os investidores internacionais, como as seguidas facilitações da regularização fundiária, que beneficiam grileiros e colocam mais terras no mercado.

Financiamento para aquisição

Essa mudança no perfil do capitalismo faz com que o agronegócio se preocupe cada vez menos com o abastecimento do mercado interno de alimentos, principalmente em países menos ricos, como é o caso do Brasil, afirma o defensor público de São Paulo Marcelo Carneiro Novaes. “O capitalismo financeiro não precisa de mercado consumidor e, por isso, é indiferente a questões de geração de emprego e renda”, diz. 

Ele explica que “o lucro das grandes empresas de insumos está mais ligado ao financiamento para aquisição do que ao produto em si. Quando você fala de um fundo como o Blackrock, que geria US$ 8,68 trilhões em janeiro deste ano, você vê como esses valores se deslocaram completamente da base material”, afirma. Esse valor é maior, por exemplo, do que o Produto Interno Bruto (PIB) de países como Alemanha e Japão.

Novaes cita como exemplos desse mercado os contratos de hedge (contratos antecipados de venda com valor fixado, são garantidores para grandes quedas de preço ou mudanças no câmbio), letras de crédito (são títulos emitidos pelos bancos para financiamento da atividade agropecuária, no caso) e cédulas de produto rural (títulos emitidos por produtores ou suas cooperativas, inclusive para bancos, rastreados na produção). As letras de crédito do agronegócio (LCA) começaram a ser emitidas em 2005 e são títulos oferecidos de renda fixa oferecidos por bancos. 

Criada nos anos 1990, a cédula de produto rural é emitida pelo próprio produtor. “São negócios com pouca ou nenhuma tributação e valores que entram e saem dos países livremente”, explica. Além disso, ao se ligarem à produção de commodities, as empresas e fundos também se beneficiam de isenções e subsídios dados pelo governo. Para ele, os grandes arrendamentos feitos por investidores fazem com que latifundiários possam ter grande lucro sem risco ou preocupação nenhuma. 

Em cooperativas, condições piores

No meio desse movimento, as cooperativas de crédito também se tornaram uma opção de negócio para produtores de médio e grande porte. As cooperativas de financiamento existiam desde o início do século passado, mas ganharam força principalmente a partir de meados dos anos 1990. O negócio envolve conseguir taxas melhores de juros e outras vantagens ligadas à entrada no mercado financeiro e uma melhor margem em negociações conjuntas. 

A antropóloga Luciana Schleder Almeida, professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), pesquisou a vida dos produtores em Lucas do Rio Verde e Sorriso, ambos no Mato Grosso. “A entrada nas cooperativas é um privilégio dos grandes, os menores seguem dependendo de outras formas de financiamento, com condições piores”, afirma. 

Em municípios como esses, onde é grande a influência do agronegócio, segundo ela, a própria entrada em uma cooperativa de crédito de produtores se torna um sinal de status, parecido com a participação em outras entidades associativas locais. “Muitas vezes, os produtores menores também têm dificuldade de obter taxas menores em bancos públicos, o que faz com que eles passem a depender do financiamento das tradings”, explica.

Participação na política do agronegócio

O antropólogo Caio Pompeia, autor do livro Formação Política do Agronegócio (Editora Elefante e O Joio e O Trigo), vê uma maior participação dos agentes financeiros na atuação política do agronegócio na última década. A mudança é gradativa, mas já apresenta os primeiros sinais tanto na participação em entidades como nas pautas que defendem. “Os grandes bancos de varejo, até por uma questão de imagem, preferem atuar em grupos que têm a pauta ambiental junto”, diz.  

O Instituto Pensar Agro, ligado à Frente Parlamentar da Agropecuária, já tem entre seus sócios uma federação de seguradoras e uma cooperativa de crédito. “A bancada ruralista está defendendo mais programas de seguro rural, com uma forte participação de subsídios públicos, e deixando um pouco de lado a bandeira dos financiamentos públicos”, analisa. 

A FPA é a bancada que representa os interesses do agronegócio no Congresso Nacional. Formado por entidades representativas de diferentes setores do agronegócio, o Instituto Pensar Agro se firmou como o braço empresarial da atuação da FPA. O ex-deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT), que já presidiu a FPA, foi eleito em fevereiro deste ano o presidente do instituto.

Os interesses e esforços da bancada ruralista na regularização de mais terras e no repasse de parte delas para fundos estrangeiros. No ano passado, o Senado aprovou, com relatório do atual presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), um projeto de lei para facilitar a aquisição de terras no Brasil por pessoas e empresas estrangeiras. O autor da proposta é Irajá Abreu (PSD-TO), filho da também senadora Katia Abreu (PP-TO), ministra da Agricultura no governo Dilma Rousseff e ex-presidente da Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária (CNA).

Irajá também chegou a ser um dos relatores da MP da Grilagem, como foi chamada ironicamente por organizações ambientalistas sob o pretexto que beneficiava infratores ambientais. A Medida Provisória 910, anunciada pelo governo Bolsonaro, pretendia facilitar a regularização fundiária em terras públicas que foram invadidas e desmatadas de até 2,5 mil hectares. 

Mais do que interesses corporativos, a família Abreu e seus aliados têm interesse direto nos temas. Em abril de 2018, o empresário Moises Pinto Gomes, atual marido de Katia, esteve numa feira de negócios no Qatar para oferecer oportunidade a empresários locais. A mais vistosa delas, o Fundo Matopiba, criado para aquisição de terras e produção agrícola no Brasil. O fundo teria US$ 500 milhões, a serem aplicados na aquisição de fazendas a serem preparadas e aprimoradas para a produção de grãos (arroz, soja, sementes e milho) e o objetivo de gerenciar e operar a produção antes da alienação de terras e operações agrícolas.

Gomes esteve no Qatar pela empresa Agroinvest Brasil, criada em 2015, no mesmo ano em que se casou com a então ministra da Agricultura. Na empresa, ele é sócio do advogado Arno Jerke Junior, assessor parlamentar da senadora desde julho de 2018. Jerke é um colaborador de confiança da senadora. Pelas mãos de Katia, ele ocupou a Secretaria Nacional de Desenvolvimento do Cooperativismo do Ministério da Agricultura e depois a diretoria da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Antes, havia sido advogado da CNA e coordenador técnico do instituto ligado à entidade.

fecho

Este texto foi originalmente publicado pelo site “O Joio e o Trigo”  [Aqui!].