Embargo sanitário contra o Brasil por causa do excesso de agrotóxicos é uma questão de tempo

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A agência Publica vem publicando uma série de reportagens sobre os efeitos avassaladores que o amplo uso de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo, está causando na cadeia agrícola brasileira.  No  dia 07 de julho, uma reportagem assinada por Pedro Grigori mostra o extermínio de algo em torno de 0,5 bilhão de abelhas apenas em quatro estados brasileiros (RS, SC, MS e SP) por causa do contato com agrotóxicos à base de neonicotinoides e de Fipronil, produto proibido na Europa há mais de uma década

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Mas nem a mortandade de abelhas ou as crescentes evidências de que os brasileiros estão sendo paulatinamente envenenados por resíduos de agrotóxicos que estão contaminados até o lençol freático em áreas agrícolas com menor intensidade de uso destes venenos agrícolas estão servindo para conter  a sede por novos venenos por parte do latifúndio agro-exportador que tem hoje na soja a sua principal fonte de renda.

Isto fica evidente numa reportagem assinada pela jornalista Natália Cancian para a Folha de São Paulo onde são apresentados dados oficiais sobre a velocidade de aprovação para a comercialização de agrotóxicos altamente tóxicos para a saúde humana e o ambiente (ver infográfico abaixo).

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Fonte: Folha de São Paulo

Apenas para que se tenha uma ideia da amplitude do crescimento exponencial de venenos agrícolas disponíveis no mercado brasileiro, em 2012 publiquei um artigo científico na revista Crop Protection dando conta que estavam disponveis 1.079 produtos formulados registrados no Brasil, o que representaria um crescimento de 197% em apenas 7 anos.  E o pior é constatar que apenas nos primeiros dois meses de governo Bolsonaro foram aprovados 74 novos agrotóxicos, a maioria nas faixas consideradas mais perigosas para a saúde humana e o meio ambiente.

A verdade é que em vez de se buscar um maior aperfeiçoamento nos sistemas de manejo de culturas agrícolas que contemplasse a diminuição no uso de fertilizantes sintéticos e agrotóxicos, os latifundiários optaram pelo caminho aparentemente mais fácil de aumentar a quantidade do uso destes insumos altamente poluentes.

O problema é que esse modelo viciado em venenos cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde) vai ter sua compra barrada em outras partes do mundo onde a tolerância à quantidade existente de resíduos de venenos agrícolas na produção agrícola é menor, a começar pela União Europeia, mas certamente isto não ficará restrito a este bloco comercial, como ficou bem claro na ameaça feita pela Federação Russa de barrar a compra de soja brasileira em função do alto nível de resíduos de herbicidas produzidos a partir do glifosato.

Mas enquanto o inevitável não chega, há que se discutir como impedir o avanço da Tsunami de venenos que está sendo desencadeada pelo governo Bolsonaro sob pena de termos uma catástrofe humana e ambiental no Brasil. Os sinais de alerta já estão claros, e será de bom senso não desprezá-los. Simple assim!

Recado dado pela China e desprezado por Bolsonaro gera prejuízo bilionário para o Brasil

E os problemas comerciais e políticos do Brasil podem estar apenas começando…..

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No dia 31 de Outubro, a revista “Pequenas Empresas & Grandes Negócios” publicou uma matéria repercutindo uma dura mensagem do governo chinês ao então presidente eleito Jair Bolsonaro no sentido de que não ele não atrapalhasse as relações comerciais Brasil-China.

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Desnecessário dizer que o que se viu entre o dia da eleição e o pós-Carnaval 2019 foi uma total desconsideração do recado dado pelo governo chinês em prol de um alinhamento tacanha com a retórica emanada do Departamento de Estado dos EUA. Fosse por meio do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, ou do próprio presidente Jair Bolsonaro, o que se viu foi uma série de declarações demonizando a China, no que se configurou uma das ações mais destrambelhadas do atual governo brasileiro.

E por que essas declarações seriam destrambelhadas? As razões para essas são muitas, mas a principal é de que não apenas a China é atualmente o maior parceiro comercial não apenas do Brasil, mas também dos EUA.  Aí não é preciso ser nenhum grande expert em comércio internacional para saber que o mais sábio seria evitar se embrenhar nas disputas espinhosas que estão sendo travadas pelo governo de Donald Trump com o governo chinês, sob pena de sofrer duras consequências no plano econômico.

Mas como sabedoria não é o forte do governo Bolsonaro, a China já enviou dois recados duros para a dupla Araújo-Bolsonaro que deverão agravar ainda mais a crise econômica que o Brasil vive neste momento e, por extensão, também os problemas políticos do atual governo.  O primeiro foi a retomada pela China das compras da soja produzida pelos EUA. Esta opção chinesa pela soja estadunidense deverá com que os produtores brasileiros de soja arquem com prejuízos bilionários pela simples ausência de outros compradores para o montante que a China agora comprará dos EUA, já que em 2018 o país asiático comprou 86% da produção brasileira.

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O segundo recado é ainda mais problemático porque sinaliza que a China não mais fará investimentos bilionários na área da infraestrutura no âmbito do “Fundo de Cooperação Brasil-China para Expansão da Capacidade Produtiva“, a começar pela suspensão de um projeto que financiaria a distribuição da energia gerada pela hidrelétrica de Belo Monte.

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A falta de senso por parte do governo Bolsonaro sobre o papel econômico cumprido pela China parece ser total, na medida em que em vez de visitar primeiro o nosso principal parceiro comercial, Jair Bolsonaro visitará primeiro países como EUA, Chile e Israel, onde o que conta não é a situação complicada em que se encontra a economia brasileira, mas sim a alegada “batalha cultural” que norteia as ações do atual governo. E o pior é que além da alienar a China, Jair Bolsonaro ainda arrisca exponencializar as contradições já abertas com os países árabes que também compram parte considerável da produção do agronegócio brasileiro.

Tudo isso colocado junto aponta para um isolamento político e econômico do Brasil em relações aos seus principais parceiros  comerciais, justamente num momento em que a economia brasileira mais depende da exportação de commmodities agrícolas e minerais para não entrar no vermelho em sua balança comercial. Aliás, fico só imaginando a cara dos latifundiários que apoiaram Jair Bolsonaro na esperança de aumentar seus ganhos e agora se vêem na iminência de terem prejuízos bilionários por causa dele.

Enquanto isso, Donal Trump se prepara para receber Jair Bolsonaro por míseros 20 minutos na Casa Branca, enquanto retoma as vendas dos produtos agrícolas estadunidenses para os chineses. E la nave va…..

Argentina: o fundo de um afluente do Rio Paraná tem mais glifosato que um campo de soja

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Um estudo recente da Conicet detectou a presença alarmante de agroquímicos e metais pesados ​​na bacia de um dos principais rios do país.

“Não há nenhuma razão de Estado e dos interesses económicos das empresas para justificar o silêncio quando se trata de saúde pública”, disse o pesquisador Andres Carrasco (1946-2014), o cientista argentino célebre que desafiou a política estabelecimento e seus pares-a denunciar os efeitos nocivos do uso de glifosato em cultivos transgênicos quando ninguém fez.

Essa mesma frase lembrou Dr. Damian Marino, CONICET pesquisador e professor da Faculdade de Ciências Exatas da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), durante uma palestra no Chaco, que apresentou os resultados de estudos que comprovaram a presença de resíduos de agroquímicos e metais pesados ​​nas águas do rio Paraná.

Como para os detalhes, a biólogo revelou que na secção superior da bacia “não há concentrações de vários insecticidas para uso agrícola”, enquanto que a partir da média para baixo “contém uma contaminação múltipla” com alguns metais e especialmente com glifosato.

“Eles são os sites mais afetados. O glifosato é uma molécula dominante. O Paraná está com problemas “, destacou Marino.

Ele também explicou que, se levadas em conta as normas internacionais, amostras excederam por uma ampla níveis toleráveis ​​presença de margem em relação ao inseticida endosulfan (proibida no país em 2013), e seus substitutos mais tarde: clirpirifós e cipermetrina.

“A publicação científica globalmente validada diz que todas as amostras de água excederam, pelo menos para alguns dos pesticidas, o nível de orientação recomendado para toda a biota aquática e recomenda a articulação de políticas imediatas. Hoje, no mercado mundial, 90 por cento dos pesticidas é o glifosato e os restantes 10% é dividido entre clirpirifós, cipermetrina e endosulfan “, ele disse e mencionou que resultados semelhantes foram obtidos no Rio Paraguai, que também foi incluído no trabalho.     

Os monitoramentos ambientais sobre as bacias Rio Paraná foram definidos em três fases: a primeira foi em 2013, o segundo, em 2016 e, mais recentemente, em Janeiro de 2017, com a presença de produtos agroquímicos em água e sedimento foi ratificado (lama de baixo).

“As amostras foram tomadas na foz dos córregos ou rios que drenam a partir do interior em direção Paraná, a fim de ver o gotejamento permanente sobre o grande rio”, disse Marino, que durante cinco anos (2010-2015) Ele realizou um trabalho de pesquisa sobre o estado dos recursos hídricos na área de Pampa del Índio, junto com a Dra. Alcira Trinelli, especialista em química da UBA e Conicet.

O especialista disse que, a partir das amostras obtidas, os efeitos letais (organismos mortos) e subletais (alteração de desenvolvimento e reprodução) foram analisados. “O que importa que se obteve é ​​que as concentrações de metais não excedeu os níveis de guias”, revelou, e apontou que apenas o chumbo encontrado em quase todas as amostras de sedimentos, abaixo das quantidades aceites, verificando o impacto das actividades humanas das cidades que cruza o Paraná em sua bacia.

Como exemplo, ele mencionou que as águas dos rios San Lorenzo, Saladillo e Pavón possuem sedimentos com concentrações mais altas que causam efeitos letais nos organismos. Em tanto, as implicações subletales foram notadas na alta cuenca (província de Buenos Aires), com alterações no crescimento ligadas a altos níveis de plaguicidas.       

“Olhando para os resultados, vimos que o glifosato estava preso em partículas em suspensão ou fazendo parte do sedimento. A partir da bacia média, a concentração começou a aumentar. E quando chegou ao auge de Luján, aumentou muito “, disse ele.

Levando números explicação e comparações advertiu níveis de glifosato mais AMPA (metabólito na degradação glifosato) encontrados na bacia do rio “são cerca de quatro vezes as concentrações podem estar em um campo plantado com soja”. Então ele concluiu:”O fundo de um rio que deságua no Paraná tem mais glifosato do que um campo de soja.”

Há mais: todas as amostras de água, material em suspensão e sedimento de fundo tiveram presença de inseticidas projetados para matar insetos. “Isso mostra que os inseticidas estão distribuídos em toda a bacia”, disse o pesquisador.

Biodiversidade no outono

O contexto inicial em que Marino localizou sua apresentação foi o relatório do Planeta Vivo, uma organização internacional que produz um índice que mede a biodiversidade do planeta. Este índice foi feito em 10 mil espécies de diferentes tipos. “É visto que entre 1970 e 2010, houve um declínio de 52% das populações em todo o mundo. Mas na América Latina o valor é de 80%. Não é que há menos espécies, mas que os grupos populacionais são menores “, disse ele, e passando para a experiência diária, ele explicou que as pessoas podem observar a presença de quantidades menores de rãs ou peixes.

Como um conceito emergente do relatório, ele enfatizou que em menos de duas gerações humanas, metade da população de espécies que estiveram na Terra durante toda a sua evolução foi destruída. Enquanto isso, usando o conceito de Pegada Ecológica, que é medido em vários países, disse que “a Argentina tem essencialmente uma pegada baseada em sistemas agro-produtivos”.

Então ele disse outra dados gráficos: tomar biocapacidade, ou seja, o quanto você pode oferecer ao mundo sobre o que está sendo usado, e cruzando com informações sobre a evolução da população, pode ser visto que o 08 de agosto de 2016 a humanidade consumiu todos os recursos naturais desse ano. “De lá, consumimos recursos a crédito, estamos levando-os para as gerações futuras. A última vez que saímos foi em dezembro de 1970. Hoje estamos consumindo um ano e meio de planeta. Algo não está indo “, ele avisou.

Nesse sentido, ele ressaltou que os pesticidas “são uma pegada que estamos deixando para os sistemas ecológicos” e disse que eles têm um conceito dinâmico associado a eles. A partir do momento da aplicação, os processos ocorrerão na atmosfera, no solo e outros que ligam o solo à água. Eles são todos dados simultaneamente “.    

O caso de Pampa del Indio

Depois de encontrar o glifosato na água usada para consumo em Pampa del Indio em 2012, a medida provisória teve efeitos e as pulverizações pararam de ser feitas em superfícies perto de cidades. Este foi resumida Doctor química da UBA e CONICET científica, Alcira Trinelli, que durante meia década água estudado para beber e para irrigação na localidade Chaco e lugares na área onde a população indígena é a vulnerabilidade social predominante e de alta .  

“Sabíamos que naquela época havia aviões fumigando sem restrições sobre o afastamento das áreas povoadas. Encontramos níveis elevados, como 500 partes por bilhão na entrada da estação de tratamento de água “, disse Alcira Trinelli.

Trinelli explicou que as amostras foram coletadas na estação de tratamento de água, tanques de água da escola, águas de Napa, Pampa Chica, Lote 4, Campo Medina e Campo Nuevo; o rio Bermejo e a rede de água Presidencia Roca. Houve campanhas de amostragem em 2012, 2013 e 2014.

“Graças à medida de precaução que foi registrada logo após as amostras em que o glifosato foi encontrado, a partir de 2013, as amostras não foram detectadas novamente”, disse ele. A coisa mais preocupante, ele lembrou, era a água analisada na área de Campo Medida, que misturava vários contaminantes.

O estudo em Pampa del Indio surgiu um pedido expresso da comunidade Qom na região, a falta de acesso à água de qualidade, e foi financiado por uma voluntária, concede o secretário de Políticas Universitárias e da própria universidade.

Como detalha Trinelli, o objetivo foi analisar a qualidade da água para consumo e irrigação, e assim poder gerar uma ferramenta científica que serviria para sustentar as reivindicações de acesso à água. “Em todos os lugares encontramos algum tipo de tóxico, exceto no rio Bermejo e na presidencia Roca”, concluiu o especialista.

Fonte: Foro Ambiental / Diario Norte

Links para pesquisar documentos (em Inglês): 


Este texto foi publicado originalmente em Espanhol pelo Foro Ambiental [Aqui!]

Banido na União Européia, acefato continuará com venda liberada no Brasil

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O anúncio pelo Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia  de que estabeleceu uma espécie de período de moratória para a soja brasileira se adaptar aos padrões vigentes para os limites máximos de glifosato  parece ter caído em ouvidos mocos no governo Bolsonaro.

É que a  Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou no último dia 23 a atualização anual dos temas que fazem parte da lista de prioridades da agência para definição de regras até 2020.  E para este anor etirado da lista de prioridades, o processo de “revisão do regulamento técnico para o ingrediente ativo acefato em decorrência de sua reavaliação toxicológica”.

Como informou a “Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, o “acefato é um componente altamente tóxico usado em agrotóxicos e que pode causar câncer”, segundo a própria Anvisa.  Além disso, na nota técnica publicada por ocasião da reavaliação do acefato, a Anvisa estabeleceu que “o potencial carcinogênico do acefato foi avaliado em vários estudos em roedores (ratos e camundongos) e em um estudo em cães” e que “há uma preocupação em relação à exposição crônica à doses baixas aos possíveis efeitos sobre a saúde humana”.

O acefato é um agrotóxico do grupo dos Organofosforados cuja utilização tem sido associado a várias consequências negativas sobre a saúde humana. Em função disso, os organofosforados vem sendo paulatinamente proibidas em várias partes do mundo.   O uso acefato já se encontra completamente banido na União Europeia, um dos principais parceiros comerciais do Brasil, onde é fabricado pela Nortox S/A.

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Um detalhe a mais é que uma das culturas onde o acefato é mais largamente usAado é justamente a soja, a mesma que está sob o efeito de uma “bandeira vermelha” na Rússia por causa do glifosato. Além disso, como já mostrado pela professora Larissa Bombardi na obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, o limite brasileiro para resíduos de acefato na soja é três vezes maior do que o aplicado pela União Européia (ver figura abaixo).acefato soja

Assim, que nenhum grande produtor de soja venha reclamar se barreiras fitossanitárias foram levantadas por causa do amplo uso de agrotóxicos que, como o acefato e glifosato, estão sendo cada vez mais vistos como detrimentais à saúde dos consumidores.  É que eles estão sendo repetidamente avisados sobre os riscos de continuarem com seu modelo de agricultura viciada em agrotóxicos perigosos, vários deles banidos no exterior.

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Agronegócio viciado em agrotóxicos vai acabar quebrando o Brasil

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Modelo ancorado em grandes monoculturas tornou agricultura brasileira viciada em agrotóxicos.

A notificação recebida recentemente pelo governo Bolsonaro de que a Rússia irá suspender a compra de soja brasileira deveria ter soado um alarme estridente na mídia corporativa brasileira e, principalmente, nos altos escalões do agronegócio brasileiro.  É que, como já declarei em postagem anterior, se a Rússia está seguindo este caminho, outros parceiros comerciais o seguirão, incluindo a China. 

Entretanto, não acredito que essa sinalização russa será levada a sério, até que a seja concretizada. É que o mês de janeiro passou e ficará marcado pela liberação de mais substâncias tóxicas para serem usadas na agricultura, incluindo um agrotóxico à base de Sulfoxaflor, princípio ativo que tem sido associado ao extermínio de espécies não-alvo, incluindo as abelhas, que desempenham papel fundamental na polinização de diversas espécies. O Sulfoxaflor é tão polêmico que chegou a ter seu registro cancelado nos Estados Unidos, mas a licença foi recuperada depois, com restrições (ou seja, só pode ser usado em condições muito controlados. Apesar dos ativos presentes em outros 27 agrotóxicos já eram liberados no Brasil,  partes deles estão proibidos no exterior devido à alta toxicidade.

A verdade dura e crua é que o agronegócio brasileiro, que se suporta em grandes monoculturas de soja, cana de açúcar, milho e algodão, está crônica e agudamente viciado e dependente de agrotóxicos, muitos deles já banidos em outras partes do mundo. Um exemplo de substância banida por sua alta periculosidade à saúde humana (sendo considerado um mutagênico) e ambiental é o Paraquat (também vendido com o nome de Gramaxon).  No caso da China, maior produtor desta substância, o Paraquat foi banido de uso em lavouras chinesas desde 2016, e teve sua venda banida pelo governo chinês para o resto do mundo a partir de 2020.

Enquanto isso no Brasil, o banimento do uso do Paraquat só deverá ocorrer em 2020 (coincidentemente o mesmo ano em que a China deverá parar de produzir a substância ativa do agrotóxico). Isso se os esforços da bancada ruralista para derrubar este banimento não forem exitosos.

Mas os casos do Glifosato, do Sulfoxaflor e do Paraquat são apenas ilustrativos de uma ampla dependência do uso de venenos agrícolas por parte do agronegócio brasileiro. Como mostrou recentemente uma reporagem da Agência de Jornalismo Investigativo Pública, apenas em 2018  o governo “de facto” de Michel Temer aprovou o registro de 450 agrotóxicos, um recorde histórico, e destes apenas 52 são de baixa toxicidade (ver figura abaixo).

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Além das consequências negativas para o meio ambiente e para a população do Brasil, essa condição de viciados em veneno tenderá a criar um cordão de isolamento sanitário contra as commodities agrícolas brasileiras em todo o mundo.  

E que ninguém se surpreenda, se apesar dessa possibilidade, o agronegócio e seus representantes dentro do congresso nacional e do governo Bolsonaro  (a começar pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS) continuarem a ampliar o registro de venenos agrícolas, incluindo os que já foram banidos em outras partes do mundo.  É que como a prioridade que parece guiar os representantes do agronegócio é com as escalas de curto e médio prazo, eles tenderão a prosseguir com essa marcha do envenamento, a despeito dos avisos e alertas que venham da comunidade científica e até dos principais parceiros comerciais brasileiros.

Desta forma,  há que se ampliar não apenas o conhecimento público da situação de envenamento coletivo via um modelo dependente em venenos agrícolas, mas também das formas de criação de mecanismos de apoio a modelos alternativos de produção de alimentos que são menos dependentes em venenos e fertilizantes sintéticos. Essa me parece será uma das principais batalhas a serem desenvolvidas no Brasil nos próximos anos.

Rússia pode parar compra de soja brasileira por excesso de agrotóxicos

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Excesso de resíduos de glifosato poderá levar a Rússia a suspender a compra de soja brasileira.

Faz algum tempo que venho alertando para os riscos que as principais commodities brasileiras estão correndo de sofrer um boicote generalizado de seus principais parceiros comerciais, entre outras coisas pelo excesso de resíduos de agrotóxicos que ultrapassam os limites estabelecidos em outras partes do planeta.

Para piorar a situação, o presidente Jair Bolsonaro colocou à frente do ministério da Agricultura uma deputada que liderou as tentativas de aprovação do chamado “Pacote do Veneno” no Congresso Nacional.  Apesar de não ter conseguido a aprovar o Pacote do Veneno, a ministra Tereza Cristina está usando o seu cargo para aceleração da entrada de agrotóxicos extremamente tóxicos no mercado brasileiro. Uma prova disso é que só em janeiro foram liberados 28 agrotóxicos e princípios ativos; entre  o Sulfoxaflor, que já foi banido nos EUA e agora só pode ser usado por lá em condições altamente controladas.

Pois bem,  o Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia (Rosselkhoznadzor) informou hoje (31/01) que poderá proibir temporariamente a importação de soja brasileira devido à  alta quantidade de resíduos de agrotóxicos, principalmente do herbicida glifosato (ver comunicado oficial do Rosselkhoznadzor logo abaixo).

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Em seu comunicado,  o Rosselkhoznadzor afirma que já avisou à Secretaria para a proteção de plantas e animais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil sobre a necessidade de tomar medidas urgentes para garantir o cumprimento dos regulamentos técnicos da União Aduaneira TR TS 015/2011 “Sobre a segurança dos grãos” em termos de conteúdo de pesticidas fornecido à Rússia produtos. 

Na prática, isso significa que foi dado um prazo para que os produtores brasileiros se ajustem à diretiva TR TS 015/2011 sob pena de terem a sua produção bloqueada no mercado russo. 

Como alguém que estuda o uso de agrotóxicos há quase duas décadas, eu fico só imaginando o que as autoridades sanitárias russas farão quando souberem os tipos de agrotóxicos que foram aprovados pelo governo Bolsonaro apenas ao longo do mês de janeiro.

Outro detalhe que mereceria ser levado em questão é que se os russos realmente implementarem essa suspensão na compra de soja brasileira por causa do excesso de agrtóxicos, outros mercados ainda mais exigentes irão inevitavelmente seguir o exemplo.

Aí vamos ver como vai se sair a ministra Tereza Cristina e a bancada ruralista que são os responsáveis diretos pelo aumento do grau de contaminação da produção agrícola brasileira por agrotóxicos de alta toxicidade. 

Uma viagem aos povos fumigados da Argentina

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Ainda que eu sempre fale das graves consequências sociais e ambientais do abundante uso de agrotóxicos (muitos deles proibidos em outras partes do mundo) na agricultura brasileira, é importante lembrar que o caso da Argentina é ainda mais agudo em muitos aspectos. Lamentavelmente, os brasileiros não têm muito conhecimento do que se passa no país vizinho, onde os monocultivos de soja resultaram em processos de contaminação ambiental e humana que podem servir como uma espécie de  “worst case scenario” do que se passa por aqui.

Felizmente, há uma forte resistência entre os argentinos ao modelo de envenenamento que os cultivos impuseram em seu país. De quebra, também existe uma crescente documentação visual sobre os impactos que os agrotóxicos estão tendo sobre ecossistemas e seres humanos.

Graças a um colega professor que é argentino, recebi a sugestão para que assistisse ao documentário “Viaje a los pueblos fumigados” do diretor Fernando E. Solanas que foi lançado no início de 2018, e que permanece basicamente desconhecido no Brasil (ver extrato abaixo).

Entre os dados mais alarmantes que o documentário apresenta estão os casos de malformação, abortos instântaneos e câncer, cuja incidência explodiu nas provîncias argentinas onde o uso de agrotóxicos foi exponencializada pelo uso de soja transgênica fortamente.

Quem desejar assistir à versão integral deste documentário altamente revelador das chagas sociais e ambientais causada pelo uso intensivo de agrotóxicos na Argentina, basta clicar [Aqui!].