O Brasil na imprensa alemã (28/08)

Queimadas na Amazônia continuam dominando o noticiário na Alemanha. Mídia atribui desastre à política ambiental de Bolsonaro e sua ligação com o agronegócio. Mas consumidores alemães também são responsáveis, diz revista.

queimada“Imagens de florestas tropicais queimadas e troncos de árvore carbonizados correm o mundo”

Süddeutsche Zeitung – Dias de fogo (26/08)

Em face dos devastadores incêndios na Amazônia, cresce a pressão para que o Brasil mude sua política ambiental. Também o ministro alemão do Exterior, Heiko Maas, propõe agora que o Brasil seja pressionado a adotar uma maior proteção climática por meio do acordo comercial com o Mercosul. “O fato de o acordo com o Mercosul ter sido finalmente resolvido nos dá oportunidades e meio de pressão para influenciar o que lá acontece”, disse o político social-democrata nesta segunda-feira. Ele acrescentou que existem certos valores e padrões “sem os quais nós não embarcamos”. O presidente francês, Emmanuel Macron, também fez comentários similares.

(…)

As Forças Armadas brasileiras começaram a jogar água nas áreas de incêndio com aviões de transporte Hércules. Ao mesmo tempo, a polícia está investigando os organizadores do chamado Dia do Fogo. A mídia local relatou que fazendeiros teriam combinado de queimar grandes áreas ao mesmo tempo, para dar espaço para pastos e plantações de soja. O ministro da Justiça, Sergio Moro, tuitou: “Incêndios criminosos na Amazônia serão severamente punidos.”

Esse é um novo tom, já que o presidente Jair Bolsonaro vem incentivando os agricultores a produzir fatos. O Ministério do Meio Ambiente teria tido conhecimento do planejado “Dia do Fogo”, mas não fez nada, segundo tuitou o jornalista investigativo Glenn Greenwald, que mora no Brasil. A diretora da Fundação Heinrich Böll no Rio de Janeiro, Annette von Schönfeld, também não vê mudanças políticas. “O governo Bolsonaro realmente não tem nenhum pensamento de política ambiental”, disse.

Spiegel Online – O negócio bilionário com os recursos naturais do Brasil (23/08)

Jair Bolsonaro ainda tem grandes planos para a Amazônia. Ele queria fazer da imensa área em torno do mais poderoso rio do mundo a “alma econômica” do Brasil, como anunciou o presidente recentemente durante uma visita à cidade de Manaus. “Nossa Amazônia, a região mais rica do planeta Terra”, disse Bolsonaro, acrescentando que ela pode se tornar o ponto de partida para uma nova recuperação econômica por todo o país. Em harmonia com a proteção ambiental, é claro.

O aumento dramático no desmatamento desde que Bolsonaro assumiu em janeiro ainda era uma questão regional na Amazônia naquela época. Mas agora as imagens de florestas tropicais queimadas, troncos de árvore carbonizados, grandes clareiras estéreis e o céu cinza escuro sobre São Paulo correm o mundo. E as estatísticas do instituto de pesquisa estatal Inpe parecem dar razão a todos os críticos, que sempre alertaram que a Amazônia seria impiedosamente explorada sob a égide de Bolsonaro.

(…)

Bolsonaro havia anunciado que reduziria as multas por delitos ambientais, reduziria os controles e liberaria as reservas indígenas para a mineração. Para ele, a conservação da natureza deve estar subordinada aos interesses da economia. E existem algumas empresas, corporações e indústrias que ganham muito dinheiro com a exploração da Amazônia. Em primeiro lugar está a poderosa indústria agrícola.

Focus Online – Nossa fome por carne e soja alimenta os incêndios florestais no Brasil (24/08)

As florestas tropicais do Brasil se tornaram um brinquedo das corporações do agronegócio. Onde hoje há incêndios, tem gado pastando amanhã. Os consumidores na Alemanha também são responsáveis pela ameaça à Região Amazônica. O maior apetite, no entanto, é dos chineses.

As imagens da floresta tropical em chamas no Brasil estão causando preocupação em todo o mundo. Embora os incêndios aconteçam a milhares de quilômetros da Alemanha, o desastre do outro lado do Atlântico também tem a ver com o comportamento do consumidor na Europa. Acima de tudo, o desejo por bifes suculentos e costeletas quentes alimenta o desmatamento e a queimada de grandes áreas na Amazônia.

“É claro que nossas ações na Alemanha têm muito a ver com a perda da floresta tropical”, diz o professor da economia mundial de alimentos da Universidade de Göttingen, Matin Qaim. “Por exemplo, estamos importando grandes quantidades de soja como ração para nossos bovinos e suínos, e o aumento do cultivo da soja está contribuindo para o corte de florestas tropicais no Brasil.”

__________________________________

Este compêndio de notícias da imprensa alemã sobre a catástrofe ambiental na AmaZônia foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Professora da USP destroça mito do uso seguro de agrotóxicos no Brasil

agrotoxicos

A professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo  Larissa Mies Bombardi é hoje uma das maiores conhecedoras dos problemas envolvendo o uso de venenos agrícolas nas grandes monculturas plantadas para exportação no Brasil.  Em função disso, ela vem sendo atacada por entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador (o chamado agrobusiness).

No vídeo abaixo ela fala de forma bastante esclarecedora sobre as graves consequências do uso descontrolado de venenos agrícolas em altas quantidades e sem qualquer fiscalização efetiva no cotidiano das áreas onde os mesmos são estudados.

Abaixo uma entrevista conduzida pelo jornalista Bob Fernandes onde a professora Larissa Bombardi discorre de forma esclarecedora sobre um dos maiores mitos criados para justificar o uso dos agrotóxicos na agricultura, qual seja, de que é possível fazer uso seguro dessas substâncias de forma segura.

A verdade inescapável que emerge dessa brilhante entrevista é de que estamos sendo envenenados em nome dos interesses econômicos dos grandes latifundiários brasileiros. E aqui, mais uma vez, é preciso defender a reputação científica da professora Larissa Bombardi que está sendo vilipendiada por causa de estudos rigorosos que ela vem conduzindo e que são de completo interesse público.

Greenpeace bloqueia na França chegada de navio carregado de farelo de soja contaminado com desmatamento no Brasil

O produto saiu do porto de Cotegipe, onde a grande maioria da soja exportada vem do Cerrado brasileiro, e tinha como destino o mercado europeu

forest killerA ação busca chamar a atenção para a necessidade urgente de ação por parte de governos e empresas frente à crise climática.

Por Greenpeace Brasil

“Já que o governo Francês é incapaz de cumprir seu compromisso de combater o desmatamento e as mudanças climáticas, decidimos fazer isso por eles”, disse Cecile Leuba, da campanha de florestas do Greenpeace França. Na manhã de hoje (no horário do Brasil), cerca de 50 ativistas bloquearam a chegada do navio cargueiro ELLIREA, que saiu do porto de Cotegipe, em Salvador, com destino ao porto de Sète. O cargueiro transportava 50 mil toneladas de farelo de soja , que provavelmente seria usado para alimentação animal na França e na Eslovênia, destinos finais da carga do navio.

A ação acontece duas semanas após a publicação pelo Greenpeace Internacional do relatório Contagem Regressiva para a Extinção, que expõe o modelo de negócio predatório de grandes empresas em tempos de crise climática. De 2010 a 2020, período no qual  centenas de empresas se comprometeram a acabar com o desmatamento em suas cadeias produtivas, de diversas commodities agrícolas, 50 milhões de hectares de floresta foram desmatadas em todo o mundo para ampliar essa produção — o equivalente a uma área quase do tamanho de Minas Gerais.

Para chamar a atenção para a necessidade urgente de ação frente à crise climática, que faz vítimas no mundo todo, os ativistas do Greenpeace bloquearam o acesso do navio ao cais, em Sète, impedindo que ele atracasse, com um ativista pendurado em sua âncora. Os quatro guindastes que seriam utilizados para descarregar o produto também foram ocupados por ativistas, com banners com as mensagens “Agricultura industrial = desmatamento” e “Aviso: soja de desmatamento”. No casco do navio foi pintada a mensagem “Assassino florestal”.

O cultivo de soja já foi um dos principais vetores de desmatamento da Amazônia, até o estabelecimento da Moratória da soja em 2006. Porém, o cultivo do grão se expande sobre o território do  Cerrado brasileiro, a Savana mais biodiversa do mundo, deixando um rastro de desmatamento e muitas vezes conflitos sociais pelos territórios radicionalmente ocupados pela população indígena e outras populações tradicionais. O Cerrado, que ocupava 24% da área do Brasil, já perdeu quase metade de sua vegetação original. Mesmo assim,  a soja da região continua ganhando os mercados internacionais: ao menos 88% desse grão que sai do porto de Cotegipe vem do Cerrado e tem como destino países como a China, Espanha, Alemanha e França, onde o produto é majoritariamente usado na alimentação de animais de corte , como frangos, porcos e bois.

“Diversas empresas fizeram uma promessa há 10  anos aos seus consumidores, de que fariam a sua parte para acabar com desmatamento nos produtos que comercializam, isso teria um papel fundamental para minimizar a emergência climática que estamos enfrentando”, disse Rômulo Batista, da campanha de florestas do Greenpeace Brasil. “O curioso é que as mesmas empresas que ajudaram a sociedade a criar a Moratória da Soja, um importante mecanismo de proteção da Amazônia, hoje se negam a preservar o Cerrado e isso é inaceitável”, completa.

Os ativistas franceses exigem que os governo de seu país implemente regras mais rígidas para a entrada de produtos agrícolas não apenas do Brasil, mas de diversos outros países, com a comprovação que os produtos não têm relação com desmatamento e violações dos direitos humanos. Os franceses também buscam chamar a atenção de sua população sobre o consumo excessivo de carne e laticínios e seu impacto em ambientes como o Cerrado, a Amazônia e o Gran Chaco todos na América Latina.

________________________________

Este artigo foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil [Aqui!].

Monocultura da soja desmata e polui no Brasil para baratear consumo de carnes e laticínios na União Europeia

soja-6Avanço da monocultura da soja resultam em desmatamento explosivo e aumento exponencial do uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo.

No última 3ª. feira (18/06) postei um artigo sobre a dependência da União Europeia em relação à soja brasileira, dando ênfase a um relatório produzido pela seção francesa da organização não-governamental Greenpeace sob o título de “Apaixonada por carne, Europa alimenta a crise climática por sua dependência da soja“.

Passados alguns dias resolvi dar um mergulho nas informações que constam desse relatório, e compartilho a seguir alguns dos elementos que considero principais para um entendimento mais sólido dos altos custos ambientais, econômicos e sociais da hegemonia da monocultura da soja no Brasil, bem como dos usos preferenciais da produção brasileira na União Europeia que desmentem a falácia de que o Brasil é uma espécie de celeiro agrícola do planeta.  É que, quando muito, o Brasil se transformou numa espécie de garantidor do barateamento da produção animal europeia e, por extensão, da chinesa.

Um primeiro dado interessante é a evolução da produção mundial da soja entre 1997 e 2017 que mostra a evolução do Brasil e a aparente estagnação da produção vinda de seus principais concorrentes, que são os EUA e a Argentina. Enquanto isso, o resto do mundo continua com  produção relativamente estável, até porque com a expansão da produção brasileira restou pouco espaço para competição.

pProdução mundial de soja 1997-2017: foco nos três produtores principais.

Um segundo aspecto é a evolução espacial dos monocultivos da soja, a qual está intrinsecamente ligado no Brasil ao avanço do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, como bem mostra o mapa abaixo. Aqui é o elemento de interpretação é simples: a expansão da soja é um vetor fundamental no aumento do desmatamento no Brasil, o que desmente a falácia de que não havia plantios de soja em áreas de desmatamento novo. Essa tese já havia sido refutada em um artigo da qual sou co-autor e que foi publicado pela revista Acta Amazônica, mas o mapa feito corrobora o que havíamos indicado a partir do caso do estado de Rondônia.

mapa soja

Mapa com áreas com monoculturas de soja e o acompanhamento do processo desmatamento (áreas em vermelho).

Um aspecto particularmente interessante é o papel que a soja cumpre na alimentação dos rebanhos animais que estão estabelecidos na União Europeia (EU),  com um amplo uso em diferentes tipos de rebanhos, ainda que a dependência maior seja na alimentação de galinhas e porcos (74% do total).

repartição soja

Discriminação das necessidades da soja na EU de acordo com diferentes tipos de produção animal.

Entretanto, um dos resultados que mais me chamou a atenção foi o destino final da soja importada pela EU, pois, ao contrário do que difundem os latifundiários agroexportadores que vendem a ideia falaciosa de que o Brasil alimenta o mundo, quase 90% da soja importada pela EU é usada para alimentação animal.

uso final

Uso final da soja na UE: A principal finalidade é servir como comida animal.

Por outro lado, as atuais negociações entre o MERCOSUL e  a EU que parecem ir ao largo das graves transgressões nos direitos sociais e dos esforços para desmontar as estruturas de governança ambiental que estão sendo empreendidos pelo governo Bolsonaro ficam mais fáceis de entender quando se verifica que o Brasil fornece 37% da soja consumida pelos países europeus.

origem soja eu

Em conjunto o que o conjunto desses dados mostra é que a hegemonia da monocultura da soja na produção brasileira acaba servindo, como bem alerta o aludido relatório do Greenpeace, para baratear o consumo de carnes e produtos lactéos na União Europeia, enquanto que para o Brasil (e para a Argentina) sobram os altos custos sociais, altos níveis de consumo hídrico, e uma pesada herança associada ao uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos que estão banidos na própria EU. 

E sem falar que os alimentos que efetivamente consumimos no Brasil acabam sendo direta ou indiretamente contaminados pelos agrotóxicos que são abundantemente despejados nos grandios plantios de soja. 

‘Dependência europeia’ de soja transgênica desmata a América Latina, denuncia Greenpeace

soja desmatamento

Comer ovos e carne de frango ou porco na Europa aumenta o desmatamento em Brasil e Argentina, em consequência da importação maciça de soja transgênica destes países para alimentar animais, denunciou nesta terça-feira (11) o Greenpeace França.

“No Brasil e na Argentina, mais de 95% da soja produzida é geneticamente modificada”, indica um informe da ONG, que mostra também que mais da metade da soja que a UE utiliza é importada desses dois países (37% do Brasil, 29% da Argentina, 15% dos Estados Unidos e 19% do resto do mundo).

“O cultivo da soja nesses dois países leva a devastar suas florestas com o objetivo de alimentar os animais, especialmente na Europa”, resume à AFP a autora do informe, Cécile Leuba, encarregada de Florestas para o Greenpeace.

No estudo, com o título “Apaixonada por carne, Europa alimenta a crise climática por sua dependência da soja“, o Greenpeace indica que 87% desse grão importado para a UE é destinado à alimentação animal.

Do total das necessidades de soja da União Europeia, três quartos são destinados à criação industrial de frangos ou galinhas poedeiras (50%) ou de porcos (24%). As vacas leiteiras consomem 16% da soja importada e os bovinos cuja carne é destinada ao consumo, 7%.

“O que denunciamos é que se utiliza dois pesos e duas medidas na União Europeia. Por um lado, proibi-se os OGM e muitos pesticidas, e por outro se autoriza a importação de soja transgênica cultivada com pesticidas proibidos na Europa”, aponta Cécile Leuba.

“E o que queremos mostrar aos europeus é que em seu consumo de carne, ovos ou produtos lácteos se esconde o desmatamento, porque a maioria dos animais de criação têm soja em sua ração alimentar diária”, acrescenta.

Segundo o cálculo do Greenpeace, para obter 100 gramas de peito de frango se necessita 109 gramas de soja. Para a mesma quantidade de costela de porco, são requeridas 51 gramas de soja.

A produção de soja no Brasil “mais que quadruplicou nestes últimos 20 anos”, diz o informe.

– Reduzir 80% do consumo na Europa –

Se a Amazônia está “relativamente protegida desta expansão” graças à moratória negociada em 2006 entre ONGs, empresas e autoridades brasileiras, o cultivo de soja se desenvolveu nas savanas e florestas do Cerrado, que “perderam metade de sua vegetação original”.

A região do ‘Gran Chaco’, compartilhada entre Argentina, Bolívia e Paraguai, “também sofre uma forte pressão devido à expansão agrícola”, aponta o estudo.

Desde 1990, o uso de pesticidas por unidade de superfície “aumentou mais de 170% na Argentina e no Brasil”, estima o Greenpeace, e “mais de um terço dos pesticidas permitidos no Brasil não seriam autorizados pela UE”, principalmente o carbofurano e paraquat, assim como atrazina e imazethapyr na Argentina.

No entanto, a ONG considera impossível que a UE ou a França deslocalizem culturas não OGM para o velho continente para compensar.

Somente na França, para produzir as 3,5 milhões de toneladas de soja importadas a cada ano (incluindo 2 milhões do Brasil), seriam necessários outros 11.980 km2, ou seja, quase todas as terras agrícolas de Morbihan, Côtes d’Armor e do Finistère somadas.

E para reduzir as emissões de gases do efeito estufa, a ONG defende uma “transformação do sistema agrícola” através da redução do consumo e produção de proteínas animais.

“Na Europa Ocidental, onde o consumo de carne e produtos lácteos é quase o dobro da média global, esse consumo deve ser reduzido em cerca de 80% até 2050”, diz o Greenpeace.

____________________________________________

Este artigo foi inicialmente publicado pela SwissInfo [Aqui!].

Preço da soja cai ao mais baixo em uma década à medida que a guerra comercial EUA-China se intensifica

A China disse que aumentará as tarifas de alguns produtos norte-americanos a partir de junho. Produtos agrícolas dos EUA atingidos vão da carne de porco ao retiro de algodão

colheita soja

A soja é colhida em Tiskilwa, Illinois. Fotógrafo: Daniel Acker / Bloomberg

Por Michael Hirtzer para a Bloomberg News

Os valores futuros da soja caíram para o nível mais baixo em uma década, com a escalada da guerra comercial entre os EUA e a China enfraquecendo as esperanças de que o país asiático retome as compras de grãos americanos para facilitar o excesso de oferta.

As commodities agrícolas da carne suína ao algodão caíram na segunda-feira, com a soja caindo para US $ 8 por bushel pela primeira vez desde 2008 em Chicago, depois que a China anunciou que aumentará as tarifas de alguns produtos americanos a partir de 1º de junho. e a Bunge Ltd. também recuou.

O  aumento das tensões comerciais entre os EUA e a China, o maior importador do mundo, tem agitado as perspectivas para a demanda de soja, à medida que os agricultores americanos semeiam a próxima safra. A China comprou várias rodadas de soja no início deste ano como gestos de boa vontade nas negociações comerciais.

“Claramente, há incerteza sobre para onde estamos indo”, disse Ken Morrison, analista independente de St. Louis. “Ambas as partes se apoiaram em um canto.”

A quebra nas negociações também aumenta a probabilidade de que algumas compras de produtos americanos, como soja e carne suína, sejam canceladas antes da entrega, disse Morrison. A China comprou cerca de 7,4 milhões de toneladas de grãos dos EUA que ainda não foram embarcados, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA.

As últimas negociações entre os dois países terminaram sem uma resolução, levando o presidente Trump na semana passada a prometer que as compras de safras americanas compensariam as vendas mais lentas para a China. Ainda assim, não está claro até que ponto isso iria resolver o atual excesso de oferta.

O conflito surge no momento em que a peste suína africana praga os produtores de suínos na China e nos países vizinhos, com as perdas de suínos no Vietnã chegando a 4% de seu rebanho doméstico. A febre alastrante pode reduzir ainda mais a demanda por soja e outros alimentos para gado.

Os fazendeiros americanos estão enfrentando dificuldades porque o problema tarifário que começou há um ano atrapalhou as exportações de soja, derrubando os preços e prejudicando a renda dos agricultores. A escalada das tensões reduz as esperanças de um acordo rápido e coloca o foco de volta em mercados bem supridos.

Na sexta-feira, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) divulgou sua perspectiva mensal de safra, que prevê a elevação dos estoques domésticos em sua primeira orientação para a próxima temporada.

“O relatório do USDA tem sido bastante pessimista na última sexta-feira e contribuiu para a atmosfera sombria em vigor sobre commodities agrícolas devido às intermináveis ​​e tensas discussões comerciais entre EUA e China”, disse Agritel em nota.

PREÇOS OLEOSOS

  • Valores futuros de soja para entrega em julho caíram 2,3%, para US $ 7,91 o bushel, na Bolsa de Chicago.
  • Esse é o menor valor para contratos ativos desde o final de 2008.
  • Os preços caíram 11% até agora este ano.
  • Farinha de soja -1,3% para US $ 283,60 por 2.000 libras.

MERCADOS DE GRÃOS

  • Futuros de trigo para entrega em julho -0,7% para US $ 4,21 3/4 por bushel na CBOT.
  • Esse é o menor valor desde janeiro de 2018 para contratos ativos
  • Os valores futuros de trigo para moagem em dezembro também caem em Paris, com os preços atingindo uma baixa de contrato de EU 171,75 /t.
  • Os valores futuros de milho seguem para a quarta queda direta na CBOT.

 

_______________________________________

Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela Bloomberg News [Aqui!].

Ricardo Salles e a sombra dos 602 cientistas que cobram ações da UE contra a depredação ambiental do Brasil

3504

Manifesto de 602 cientistas europeus demanda que a União Europeia exija práticas de sustentabilidade do Brasil por causa do avanço do desmatamento na Amazônia e do Cerrado.

O ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, parece querer repetir o papelão de seu colega de ministério Sérgio Moro, que foi a Portugal para bater boca com o ex-primeiro ministro José Socrates (e saiu de terras portuguesas sem penas), e resolveu bater boca com os cerca de 600 cientistas europeus que publicaram uma carta na revista Science demandando ações concretas para conter o vandalismo ambiental que está sendo executado pelo governo Bolsonaro e que ameaça a integridade do que ainda resta da floresta Amazônica.

antiministro

 É que em vez de começar a agir como o ministro do Meio Ambiente em vez do desmantelador geral da pasta, Ricardo Salles concedeu uma entrevista ao site G1 onde repete fábulas insustentáveis, tais como a de que o “Brasil é exemplo de sustentabilidade” e que o “problema ambiental brasileiro está nas cidades, e não no campo“. Segundo ainda a reportagem do G1, Ricardo Salles teria declarado que “em comparação com outros países, “nós é que somos exemplo de cuidado com o meio ambiente“.

Esse tipo de declaração pode até cair bem com os segmentos mais retrógrados do latifúndio agroexportador, mas dificilmente servirá para diminuir a pressão política que a carta assinada por cientistas de mais de 28 países europeus que demanda que a União Europeia pare de “importar desmatamento brasileiro” na forma de commodities agrícolas e minerais, e que também aja para combater a violência contra os povos indígenas.

O que Ricardo Salles e sua colega ministra da Agricultura, Tereza Cristina, deveriam estar se preocupando, e não estão, é com o fato de que cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde), o Brasil irá sofrer uma espécie de isolamento sanitário por causa do uso excessivo de agrotóxicos e do aumento explosivo de desmatamento que está ocorrendo em diversos biomas nacionais, especialmente na Amazônia e no Cerrado.

agrotoxicos

E que ninguém tenha dúvida de que o alerta da Rússia sobre o alto teor de Glifosato na soja brasileira deverá ser apenas o primeiro, e que outras commodities deverão em breve ter a continuidade de sua aquisição questionada pelo mesma exata razão.

soja

Aviso da Rússia sobre problemas com a compra da soja por causa do excesso de Glifosato deverá se repetir com outras commodities brasileiras.

Ainda que o governo Bolsonaro e seus ministros neófitos já tenham dados amplas demonstrações de seu despreparo para lidar com atores que não possuam caráter paroquial, alguma mente pensante que ainda resta no Ministério das Relações Exteriores deveria informar a Ricardo Salles do peso que uma correspondência do tipo publicado justamente pela revista Science deverá ter sobre os organismos colegiados da União Europeia.

É que lá, diferente do acontece por cá, o momento é de um forte engajamento entre a comunidade científica, governos nacionais, União Europeia e o empresariado. Prova disso é a iniciativa chamada de “Horizon Europe” que deverá aportar em torno de R$ 500 bilhões em financiamento de projetos de pesquisa que contribuam para o processo de desenvolvimento econômico daquele bloco econômico.

E no meio disso beira a sandice acreditar que um manifesto do porte do que foi publicado na Science vá ser desprezado em prol das declarações de Ricardo Salles.  Isso simplesmente não acontecerá.

Como estive residindo na Europa por 6 meses,  posso dizer que o estado de humor em relação aos retrocessos que estão sendo executados pelo governo Bolsonaro, retrocessos esses que têm em Ricardo Salles um dos principais executores, é péssimo. Com essas declarações do antiministro do Meio Ambiente, a chance de que o humor vá azedar de vez não é desprezível. E se isso realmente acontecer, vamos ver como Ricardo Salles vai se virar.