Uma viagem aos povos fumigados da Argentina

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Ainda que eu sempre fale das graves consequências sociais e ambientais do abundante uso de agrotóxicos (muitos deles proibidos em outras partes do mundo) na agricultura brasileira, é importante lembrar que o caso da Argentina é ainda mais agudo em muitos aspectos. Lamentavelmente, os brasileiros não têm muito conhecimento do que se passa no país vizinho, onde os monocultivos de soja resultaram em processos de contaminação ambiental e humana que podem servir como uma espécie de  “worst case scenario” do que se passa por aqui.

Felizmente, há uma forte resistência entre os argentinos ao modelo de envenenamento que os cultivos impuseram em seu país. De quebra, também existe uma crescente documentação visual sobre os impactos que os agrotóxicos estão tendo sobre ecossistemas e seres humanos.

Graças a um colega professor que é argentino, recebi a sugestão para que assistisse ao documentário “Viaje a los pueblos fumigados” do diretor Fernando E. Solanas que foi lançado no início de 2018, e que permanece basicamente desconhecido no Brasil (ver extrato abaixo).

Entre os dados mais alarmantes que o documentário apresenta estão os casos de malformação, abortos instântaneos e câncer, cuja incidência explodiu nas provîncias argentinas onde o uso de agrotóxicos foi exponencializada pelo uso de soja transgênica fortamente.

Quem desejar assistir à versão integral deste documentário altamente revelador das chagas sociais e ambientais causada pelo uso intensivo de agrotóxicos na Argentina, basta clicar [Aqui!].

Enquanto Brasil afronta, EUA vendem soja para a China

As últimas semanas têm sido caracterizadas por uma série de ataques de membros da família Bolsonaro contra a China, percebida como um dos componentes de uma pretensa ameaça comunista ao Brasil [1]. Isto em que pese a China ser atualmente o primeiro parceiro comercial do Brasil, sendo inclusive o principal mercado para a soja, principal commodity da agricultura brasileira.

Pois bem, eis que hoje (13/12), o jornal China Daily publicou uma matéria informando que a China irá realizar uma grande aquisição de soja, só que dos EUA [2].  Esta compra será segundo o China Daily, uma espécie de porta voz extra oficial do governo chinês, uma demonstração de boa vontade da China para com os EUA no processo de retomada de negociações para resolver as pendências comerciais existentes entre os dois países.

china daily

Como se pode verificar de apenas esta única aquisição que beira o valor de US$ 180 milhões, o governo Trump pode até arreganhar os dentes para a China, mas não tem como desprezar o potencial de consumo do mercado chinês. E aí o que conta é a necessidade de vender produtos, e a ideologia que se dane.

A coisa é que a geopolítica da trocas capitalistas não tem mais (se algum dia já teve) espaço para amadores. E seria bom que o governo Bolsonaro entendesse isso logo na relação com a China. Do contrário, quem vai acabar sendo isolado do mercado chinês de soja será o Brasil. Aí eu gostaria de ver o que diriam os latifundiários que ajudaram a eleger Jair Bolsonaro.


[1] https://www.brasil247.com/pt/247/poder/376943/Chanceler-informal-Eduardo-Bolsonaro-amea%C3%A7a-rela%C3%A7%C3%A3o-Brasil-China.htm

[2] http://www.chinadaily.com.cn/a/201812/13/WS5c127dbaa310eff303290e56.html

França lança plano para evitar desmatamento que pode impactar soja transgênica

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Parcela da Floresta Amazônica desmatada para uso de agricultores. REUTERS/Nacho Doce

Por RFI

O governo francês adotou nesta quarta-feira (14) sua “Estratégia Nacional contra o Desmatamento Importado (SNDI)”. O plano interministerial prometido ao ex-ministro ecologista Nicolas Hulot tem como objetivo oficial “encerrar até 2030 o desmatamento causado pela importação de produtos florestais ou agrícolas não sustentáveis”, o que pode ter impacto na soja transgênica produzida no Brasil e em outros países da América Latina, destinada à alimentação do gado, além do óleo de palma do sudeste da Ásia e o cacau da África.

Um relatório recente da ONG WWF mostrou que nos últimos cinco anos a França contribuiu potencialmente para o desmatamento de 5,1 milhões de hectares apenas com a importação de sete matérias-primas, incluindo a soja, o couro e o dendê. Entre 1990 e 2015, a área florestal do planeta foi reduzida em 129 milhões de hectares, uma superfície equivalente ao dobro do tamanho do território francês. Esse desmatamento é responsável por cerca de 11% das emissões globais de gases de efeito estufa e tem consequências desastrosas para a biodiversidade.

De acordo com cálculos da ONG Envol Vert, divulgados na semana passada, os hábitos de consumo dos franceses (carne, ovos, couro, agrocombustíveis, cacau, borracha etc.) levam a um desmatamento anual massiço.

O plano de 17 medidas propõe uma mudança nas práticas de todos os atores do mercado, começando pelos países produtores dessas matérias-primas. No entanto, a iniciativa não tem caráter vinculante nem prevê sanções.

Monitoramento visual das áreas desmatadas

No início de 2019, será lançada uma plataforma onde as empresas francesas importadoras desse tipo de insumo poderão se informar sobre produtos de origem duvidosa, tendo acesso a dados de controles de fronteira aprimorados, dados alfandegários e de monitoramento por satélite da cobertura florestal. Essa plataforma também terá a missão de desenvolver até 2020 um selo de “desmatamento zero” para orientar os consumidores. O plano não prevê multas ou a proibição de importações, mas aposta numa mudança de mentalidade para reduzir o desmatamento.

As matérias agrícolas visadas inicialmente pelas medidas são soja, óleo de palma, carne bovina, cacau, borracha e madeira. Mas a lista poderá ser acrescida de outros produtos, como café, algodão, cana-de-açúcar, milho e produtos de mineração, em etapas de revisão do dispositivo previstas em 2020 e 2025.

Campanha de imagem

Em relação à soja transgênica utilizada na alimentação do gado, a intenção do governo é promover alternativas, em discussão com os produtores, para alcançar a autonomia proteica a partir de 2030. Mas nada impede que até lá atores públicos, como municípios e regiões, além de empresas, adotem a tática de “nomear para envergonhar” (“name and shame), educando os consumidores para marcas e produtos que não respeitam as florestas, disse o Ministério da Transição Ecológica.

O diretor-geral da WWF na França, Pascal Canfin, felicitou o governo pela “estratégia nacional mais completa produzida até hoje nessa área”. A iniciativa propõe “um ângulo concreto” para enfrentar o declínio da biodiversidade, afirma Canfin, um tema que ainda enfrenta lacunas jurídicas e de conteúdo político e diplomático sensíveis. Segundo Canfin, as mudanças vão depender da capacidade de liderança política e da mobilização da sociedade civil nessa direção.

Já a ONG Greenpeace considerou “tímidos” os avanços do governo e lembrou que o plano não remedia a autorização concedida à petrolídera Total para importar 550 mil toneladas de óleo de palma para sua biorefinaria de La Mède (sul). Clément Senechal, responsável pela campanha de florestas na Greenpeace França, criticou a falta de mecanismos de coerção no plano, nenhuma proibição ou regulação. “Como poderemos freiar o desmatamento dessa forma?”, questionou Senechal.

FONTE: http://br.rfi.fr/franca/20181114-franca-lanca-plano-para-evitar-desmatamento-que-pode-impactar-soja-transgenica?fbclid=IwAR0FrSGr_ODzMxxQ6uFNW4BKZZKyjOnNUVj2NaxEHekBJUB-dMoza5EywTg

 

Extinção do Ministério do Meio Ambiente tornará Brasil um pária no sistema de nações

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O anúncio feito hoje de que o Ministério do Meio Ambiente será fundido com o da Agricultura é uma forma indireta de dizer que o mesmo será extinto [1]. Esta medida sendo tomado em um país que contém os principais estoques de biodiversidade do planeta não pode ser tomada de forma leve, pois representa um erro gravíssimo e que comprometerá ainda mais a já depauperada imagem internacional do Brasil.

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Para quem não sabe, o Brasil foi, ainda na vigência do regime militar instaurado em 1964, um dos pioneiros na criação de um órgão específico para cuidar das questões relacionadas ao meio ambiente. Isto ocorreu em 1973 com a criação da  Secretaria Especial de Meio Ambiente, então vinculada ao Ministério do Interior,  com a promulgação do Decreto nº 73.030, de 30 de outubro de 1973.

Como alguém que realiza estudos relacionados na Amazônia desde 1991 não posso deixar de apontar que hoje o Brasil já possui dificuldades significativas para entrar na União Europeia que possui regras bastantes rígidas para a entrada de carne, por exemplo, vinda de áreas recentemente desmatadas na região amazônica.  Como já existe quem antecipe o estabelecimento de aceleração de desenfreada do desmatamento na Amazônia graças às várias promessas feitas pelo presidente eleito, o que poderia chegar a um aumento de quase 300% de novas áreas de florestas impactadas [2].

O incrível é que existem evidências científicas suficientes demonstrando que há um ligação direta entre a floresta amazônica e o cerrado com a disponibilidade de água no território nacional. Essa ciência é robusta e está amparada em incontáveis estudos acerca dos impactos climáticos locais e regionais do desmatamento na Amazônia. Em outras palavras, a facilitação do desmatamento e do aumento da área degradada nesses dois biomas deverá acarretar ciclos ainda mais agudos de seca e escassez hídrica para além da Amazônia e do Centro Oeste. Isto apenas se for considerado os impactos nacionais. O problema é que a proteção da Amazônia e seus estoques de carbono é um elemento chave na tentativa de impedir que as mudanças climáticas se tornem ainda mais aceleradas. 

Desconhecer a necessidade ampliar o processo de proteção ambiental trará consequências desastrosas para o Brasil e sua já combalida economia. Como bem alertou hoje a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, a extinção do ministério implicará num triplo desastre, na medida em que: 1) trará prejuízo à governança ambiental e à proteção do meio ambiente; 2) passará aos consumidores no exterior a ideia de que todo o agronegócio brasileiro, em que pese ter aumentado sua produção por ganho de produtividade, sobrevive graças à destruição das florestas, sobretudo na Amazônia, atraindo a sanha das barreiras não tarifárias em prejuízo de todos; 3) empurrará o movimento ambientalista, a ter que voltar aos velhos tempos da pressão de fora para dentro, algo que há décadas vinha sendo superado, graças aos sucessivos avanços que se foram galgando em diferentes governos, uns mais outros menos [3].

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Particularmente não acredito que os formuladores da nova estrutura ministerial serão demovidos dessa extinção desastrosa.  O que veremos será um avanço da franja de desmatamento nos mesmos moldes que a região amazônica experimentou no início da década de 1970, algo que um dos generais que assessoram o presidente eleito já se mostrou nostálgico.  Essas são favas praticamente contadas, e provavelmente favas de soja. O problema para o Brasil é que o mundo mudou bastante nas últimas 4 décadas e os custos políticos e econômicos serão incalculáveis.  


[1] https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/30/governo-bolsonaro-transicao-fusao-ministerios-guedes-e-onyx.htm

[2] http://amazonia.inesc.org.br/destaque/desmatamento-saida-do-acordo-de-paris-a-amazonia-no-governo-bolsonaro/

[3] https://www.revistaforum.com.br/marina-critica-extincao-do-ministerio-do-meio-ambiente-retrocesso-e-incalculavel/

Financial Times faz matéria sobre soja e desmatamento no Cerrado

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A provável eleição de Jair Bolsonaro para presidir o Brasil traz entre muitas promessas o desmantelamento das estruturas de proteção ambiental visando, supostamente, abrir novos espaços para a agricultura em biomas ameaçados como o Cerrado e a Floresta Amazônica.   Mas quem pensa que isso acontecerá sem custos econômicos para o Brasil, de curto a longo prazo, está redondamente enganado, pois se confirmadas as ações para liberar o desmatamento, os produtos brasileiros tenderão a sofrer um forte boicote, especialmente na União Européia. Como os Estados Unidos da América são concorrentes e não parceiros comerciais na área de commodities agrícolas, também se engana que qualquer apoio do governo Trump a esse “liberal geral” vá amenizar os problemas que advirão da política de desmatamento livre, leve e solto.

Um sinal dessa questão é a matéria assinada pelos jornalistas Andres Schipani e Joe Leahy para o “Financial Times” onde eles abordam os problemas causados pelo avanço da fronteira da soja no bioma do Cerrado [1]. 

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A matéria está centrada na prerrogativa apontada pelos diversos atores que foram entrevistados para produzí-la de que já espaço suficiente para ampliar os plantios de soja, sem que haja a necessidade de desmatar ainda mais áreas de florestas. Essa é uma questão óbvia para quem tem um mínimo de conhecimento sobre a relação entre uso e cobertura da terra existente não apenas nas áreas cobertas por cerrado mas também na Amazônia [2].

O fato é que novos desmatamentos podem até ser feitos sob a alegação de que estão necessários para a abertura de novas áreas agrícolas, mas a verdade é que a remoção de áreas florestadas serve aos interesses daqueles que apostam na especulação financeira por meio do controle do ativo terra. Em outras palavras, desmatar é lucrativo porque permite que áreas antes ocupadas por florestas entrem na ciranda financeira.

Entretanto, um ponto que parece ser ignorado pelos dublês de latifundiários e especuladores do mercado financeiro é que já existe uma forte concordância sobre o papel central que a Amazônia e o Cerrado cumpre na regulação hídrica e climática não apenas no continente sul americano, mas em todo o planeta. Em função disso é que ninguém deva se surpreender se o Brasil passar a ser o foco de sanções econômicas e seus produtos agrícolas se tornarem alvos de barreiras cada vez maiores se, de fato, as barreiras de contenção ao avanço do desmatamento forem fragilizadas.

Só à guisa de exemplo, a Holanda foi condenada pela Corte de Haia por não atingir suas próprias metas de redução das emissões de carbono [3]. Imaginemos o que acontecerá com o Brasil se forem confirmadas as notícias de que o Ministério do Meio Ambiente será extinto e o processo de licenciamento ambiental será enviado de volta para a metade do século XX!  A questão central é que apesar de toda as eventuais resistências , o processo de responsabilização pela proteção das florestas, por causa da sua importância na regulação climática e hídrica da Terra, é um elemento chave nas decisões econômicas que estão sendo formuladas neste exato momento. Em outras palavras, quem apostar no desmatamento pode estar assinando seu próprio atestado de óbito.


[1]https://www.ft.com/content/c54abafe-ad30-11e8-8253-48106866cd8a?fbclid=IwAR3AEHf6VcNjIvS7dajtvuHYC8bnsel0ZTr4bkHLnL0fwj1xiCngnN2KgAg

[2] http://www.scielo.br/pdf/aa/v47n1/1809-4392-aa-47-01-00029.pdf

[3]  https://www.theguardian.com/environment/2018/may/28/dutch-government-appeals-against-court-ruling-over-emissions-cuts

Paraísos fiscais protegem empresas responsáveis pelo desmatamento na Amazônia e pesca excessiva no mundo

70% dos navios implicados na pesca ilegal, não declarada ou não regulamentada estão registrados em paraísos fiscais, segundo o relatório

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Monocultura de soja na floresta amazônica perto de Santarém, no Brasil, com algumas árvores isoladas. Foto: Ricardo Beliel / LightRocket / Getty Images

Por Fioney Harvey, correspondente do “The Guardian” para matérias relacionadas ao Meio Ambiente

O dinheiro canalizado através de paraísos fiscais secretos tem sido usado para alimentar o desmatamento na Amazônia e a pesca ilegal em todo o mundo, acumulando um pesado custo ambiental, mas deixando poucas maneiras para as empresas serem responsabilizadas.

Bilhões de libras esterlinas foram enviados países reconhecidos como paraísos fiscais, e foram rastreadas como tendo sido usadas em atividades que contribuem para a destruição do meio ambiente, tais como o crescimento da monocultura da soja e produção de carne bovina em áreas desmatadas da Amazônia, e expandir uma rede, em grande parte não regulamentada, de navios de pesca que operam sob “bandeiras de conveniência”.

Os montantes traçados são provavelmente apenas uma fração do montante total canalizado através de paraísos fiscais que acabam financiando praticas ambientalmente destrutivas, de acordo com Beatrice Crona, co-autora de um relatório publicado hoje na revista “Nature, Ecology and Evolution”.

Victor Galaz, do Stockholm Resilence Centre da Universidade de Estocolmo e principal autor do estudo, acrescentou que: “o uso de paraísos fiscais não é apenas um desafio sociopolítico e econômico, mas também ambiental. Embora o uso de paraísos fiscais não seja ilegal, o sigilo financeiro dificulta a capacidade de analisar como os fluxos financeiros afetam as atividades econômicas no terreno e seus impactos ambientais. “

O estudo constatou que mais de dois terços do capital estrangeiro direcionados aos setores de soja e carne bovina do Brasil entre 2000 e 2011, conforme registrados pelo Banco Central do Brasil, foram canalizados por meio de paraísos fiscais.  E os plantios de soja a pecuária bovina têm sido associados ao desmatamento na Amazônia.

Durante o período estudado, quase US$ 27 bilhões de capital estrangeiro foram transferidos para empresas-chave dentro desses setores, e cerca de US$ 18,4 bilhões vieram de paraísos fiscais, sendo que as Ilhas Cayman foram as mais usadas.

Beatrice Crona, diretora-executiva da Comissão Econômica para a Dinâmica global e do Programa Biosfera na Real Academia Sueca de Ciências, disse que a disponibilidade dos dados do Banco Central do Brasil para o período em questão foi incomum, e jogou um pouco de luz sobre o que é provavelmente um negócio global muito maior.

Os defensores do verde pediram aos governos que tornem os fluxos financeiros mais transparentes. “Isso é dinheiro sujo, usado para alimentar atividades ilegais que estão impulsionando a crise ambiental global”, disse Elaine Gilligan, ativista internacional da Amigos da Terra. “Comunidades de evasão fiscal agressivas de fundos necessários para uma série de medidas, entre elas as proteções ambientais que desempenham um papel no combate ao caos climático.”

Esta ações estão atrasadas,  afirmou Gilligan. “Está claro que o governo do Reino Unido pode fazer muito para consertar isso. Para começar, eles devem apoiar os esforços internacionais para cobrar impostos e cumprir seu compromisso de maior transparência nos territórios ultramarinos britânicos “.

Andrea Marandino, gerente de finanças sustentáveis ​​do WWF, acrescentou que as empresas também podem desempenhar um papel. “A natureza está enfrentando ameaças sem precedentes à medida em que continuamos a tirar mais recursos das áreas naturais mais ricas do mundo. Os paraísos fiscais dificultam o rastreamento dos fluxos internacionais de capital e isso significa que não há responsabilidade “, disse ela. “Se quisermos garantir um futuro para áreas como a Amazônia, precisamos ter uma maior transparência corporativa e rastreabilidade dos fluxos de capital ao redor do mundo que financiam a destruição da natureza.”

Nos oceanos, cerca de 70% dos navios que foram implicados na pesca ilegal, não declarada ou não regulamentada, foram registrados em paraísos fiscais, de acordo com os resultados do estudo. A posse de barcos de pesca tem sido de interesse para os ativistas, devido às enormes diferenças existentes no monitoramento e regulação da pesca em várias jurisdições. Teias complexas de propriedade permitem que as capturas sejam comercializadas, desembarcadas e, em alguns casos, eliminadas fora dos regulamentos que devem impedir a sobrepesca.

Tony Long, executivo-chefe da Global Fishing Watch, disse: “[O jornal] acrescenta à crescente evidência que ilustra as práticas criminosas e obscuras que fornecem cobertura para a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada [IUU]. Um foco internacional em bandeiras de conveniência e sua diligência insuficiente no monitoramento de suas embarcações sinalizadas já está há muito tempo “.

Os proprietários de embarcações podem usar “bandeiras de conveniência” para disfarçar suas atividades ou torná-las mais difíceis de rastrear, registrando sua embarcação sob a jurisdição que tem regulamentação frouxa sobre o envio. A enorme sobreposição entre os navios conhecidos por estarem operando em pesca IUU e voando bandeiras de conveniência de paraísos fiscais reconhecidos mostra a extensão do problema, disseram os autores do estudo da Nature.

Há muito tempo pedimos mais transparência nos movimentos dos navios, licenciamento, documentação de captura e a divulgação dos verdadeiros proprietários de todos os navios de pesca. “Sem isso, esses operadores inescrupulosos extrairão tudo, do oceano, para os próprios bolsos, com dinheiro às custas da sustentabilidade, afirmou Tony Long.

O secretismo de que as empresas desfrutam nos seus negócios em paraísos fiscais é usado principalmente para reduzir seus pagamentos de impostos, transferindo dinheiro entre as jurisdições para aproveitar as baixas taxas de impostos. Alguns dos métodos utilizados e empresas envolvidas foram destacados nos últimos anos por revelações nos chamados Panama Papers e os Paradise Papers, amplamente cobertos pelo “Thr Guardian”.

Mas a falta de transparência também permite que aqueles que querem esconder suas atividades destrutivas ao meio ambiente, disseram os pesquisadores no estudo da Nature. Eles pediram que a ONU examinasse como esse dinheiro financia o dano ambiental.

A abertura dos paraísos fiscais para o escrutínio minucioso dos órgãos reguladores e do público seria impopular com milhares de empresas, muitas delas nomes familiares, que tiram proveito de sua existência e da regulamentação frouxa que os mesmos proporcionam.

Muitas empresas se orgulham de seus altos padrões ambientais, mas ainda canalizam fundos por meio de paraísos fiscais para reduzir seus pagamentos de impostos, que custam aos governos US $ 200 bilhões por ano em receitas fiscais perdidas. Uma vez que o dinheiro passe para paraísos fiscais, há pouca maneira de descobrir como e onde ele foi usado.

O artigo do jornal Nature não nomeia empresas individuais, embora algumas tenham sido questionadas como parte da pesquisa.

Quem desejar ler o artigo a que esta matéria se refere, basta clicar [Aqui!]


Este artigo foi originalmente publicado em inglês no “The Guardian” [Aqui!]

Desmatamento aumenta no cerrado brasileiro

O Cerrado é o bioma mais ameaçado do Brasil, proclamam os ambientalistas

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Por Jeff Tollefson para a Nature [1]

O desmatamento no Cerrado, uma vasta savana arborizada na fronteira com o sul e leste da Amazônia brasileira, aumentou 9% em 2017 em comparação com 2016, segundo dados de satélite divulgados no mês passado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em São José dos Campos.

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O desmatamento do Cerrado, deve-se em parte às fracas proteções ambientais. Crédito: Roberto Jayme / Reuters

No total, estima-se que 7.408 km2 de terra foram desmatados para dar lugar a pastagens e plantações de gado. Embora a taxa de desmatamento no Cerrado permaneça bem abaixo dos níveis anuais documentados de 2013 a 2015, cientistas e ambientalistas, no entanto, alertam que a savana continua sendo o bioma mais ameaçado do Brasil atualmente. Em comparação, o INPE registrou 6.947 km2 de desmatamento na Amazônia em 2017, uma queda de 12% em relação ao ano anterior .

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“No Cerrado, estamos falando de um bioma com metade do tamanho da Amazônia e que já perdeu metade de sua vegetação nativa”, diz Ane Alencar, diretor de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que tem como base em Brasília. Uma série de fatores está por trás das tendências atuais de desmatamento, incluindo regras ambientais mais fracas no Cerrado do que na Amazônia.

Enquanto os proprietários de terras podem liberar apenas 20% de suas propriedades na floresta amazônica, eles podem reduzir até 80% da floresta no Cerrado. Cientistas e ambientalistas também alertam que a fiscalização ambiental na região continua fraca. A maior parte do desmatamento atual provém da expansão agrícola maciça nos estados do nordeste do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Grande parte da terra está sendo convertida em pastagens para gado, mas os cientistas dizem que a poderosa indústria de soja do Brasil se tornou uma importante protagonista no desmatamento no Cerrado. “O que estamos vendo agora é um padrão diferente de ocupação”, diz Mercedes Bustamante, ecologista da Universidade de Brasília. “As fronteiras de desmatamento estão sendo conduzidas agora por grãos de soja em uma região completamente nova”.

Proteger as florestas, a biodiversidade e os recursos hídricos na região exigirá ações adicionais dos governos estadual e federal no Brasil, bem como das corporações que compram e vendem commodities agrícolas, diz Alencar.


Publicado originalmente em inglês [1]