Desmatamento na Amazônia vai ultrapassar os 10 mil km²

Estudo revela que incêndios foram causados por aumento da destruição da floresta. Medo de represálias leva alguns cientistas a não assinarem o documento

Queima-1Incêndios florestais na Amazônia, praga que se repete anualmente, estáão em ritmo acelerado em 2019 com aumento de grilagem e desmatamento (Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace)

Por Marizilda Cruppe para o Projeto Colabora

Poderia ser mais um artigo científico, fundamental para ajudar a sociedade a entender as recentes queimadas que acometeram a floresta amazônica. Não fosse um detalhe: a frase que encerra os agradecimentos finais. “Alguns colaboradores declinaram da autoria para manter o anonimato. Lamentamos que isso seja necessário e agradecemos a eles por sua importante contribuição.”

Tão grave quanto a projeção de que o desmatamento deve ultrapassar os dez mil quilômetros quadrados, a maior taxa registrada desde 2008, é ver cientistas precisarem esconder suas identidades por questões de segurança, com medo de represálias do governo.

“É chocante. Fiquei indignado de ver que isso tenha sido necessário” desabafa o inglês Jos Barlow, professor das universidades de Oxford e Lavras,  que liderou o estudo divulgado ontem, e que pesquisa as emissões de carbono na Floresta Amazônica brasileira há tempo suficiente para ter passado por quatro presidentes. Está no quinto. “Nunca vi nada parecido no Brasil. O país está seguindo as estratégias da extrema-direita. Não demite, mas torna a vida dos cientistas insuportável”.

Em março deste ano, Barlow assinou, com mais seis cientistas, um editorial no Jornal de Ecologia Aplicada da Sociedade Ecológica Britânica, fundada em 1913, que falava de países onde a influência científica e as liberdades acadêmica e pessoal foram comprometidas. O Brasil foi citado como um país com a liberdade acadêmica comprometida por medidas adotadas pelo governo Bolsonaro, como a extinção de órgãos que lideravam discussões internacionais sobre mudanças climáticas e de departamentos do Ministério do Meio Ambiente que tratavam do desmatamento.

Soja e fragmento de floresta em Belterra.

Foto Marizilda Cruppe/DivulgacãoAs plantações de soja estão entre os vilões do desmatamento na Amazônia. Foto Marizilda Cruppe/Rede Amazônia Sustentável

“Desmatamento e fogo andam de mãos dadas”

O artigo Clarifying Amazonia’s burning crisis (Esclarecendo a crise das queimadas na Amazônia) foi publicado ontem pelo periódico inglês Global Change Biology (versão original aqui), um dos maiores do mundo na área de meio ambiente. Os cientistas identificaram os diferentes tipos de incêndios, os agentes causadores e potencializadores e examinaram as possíveis soluções. O estudo se refere ao período de agosto deste ano quando ocorreu um pico de queimadas diretamente ligadas ao desmatamento. Erika Berenguer, cientista sênior das universidades de Oxford e Lancaster, pesquisa emissões de carbono na Amazônia há mais de uma década. Ela comenta sobre o principal resultado:

“Mostramos nesse estudo que os incêndios de 2019 são um reflexo do aumento do desmatamento, já que desmatamento e fogo andam de mãos dadas. Depois da floresta derrubada, ela continua existindo, só que no chão, morta. É aí que os invasores entram com o fogo, transformam tudo em cinzas para que a agricultura possa chegar”.

Para a brasileira radicada na Inglaterra o Brasil sabe como diminuir o desmatamento e tem essa capacidade “porque de 2004 a 2012 o desmatamento caiu 80%.” Ela lamenta que “pela primeira vez em dez anos o desmatamento pode chegar a dez mil quilômetros quadrados, o que parecia impensável que o Brasil voltasse a fazer.” E arremata “o país sabe o que e como fazer, o que falta é vontade política.”

São vários os agentes causadores apontados pelo estudo como governança fraca, rebanhos enormes e mal administrados, comércio ilegal de madeira e mudanças climáticas. Uma frouxidão do governo pode levar ao aumento do desmatamento que por sua vez é um gatilho para incêndios. As mudanças climáticas tornam as florestas mais quentes e secas e, por isso, mais propensas a incêndios fora do controle. Cada tipo de incêndio traz impactos diferentes. Um incêndio em área aberta pode matar o gado e acabar com plantações, enquanto incêndios florestais, mesmo de baixa intensidade, podem matar metade das árvores.

O estudo avaliou as alegações do governo Bolsonaro de que os incêndios de agosto eram “normais” e “abaixo da média histórica”. Os cientistas compararam dados públicos sobre queimadas e desmatamento e constataram que os incêndios deste ano foram os maiores desde 2010. E, se comparados ao mesmo período de 2018, os incêndios foram quase três vezes maiores.

Os cientistas apontam no estudo caminhos para a prevenção dos incêndios florestais que exigiriam ações do governo no combate ao desmatamento e ao comércio ilegal de madeira, pois mudanças no microclima tornam as florestas mais inflamáveis. Outra ação seria o monitoramento da intensidade da seca e o risco de incêndios com o apoio de brigadas de incêndio locais.

A taxa anual de desmatamento do período que compreende agosto de 2018 a julho de 2019 será divulgada na segunda-feira e os números do PRODES são ansiosamente aguardados porque os monitoramentos do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) apontam para o maior desmatamento dos últimos 11 anos.

*Marizilda Cruppe tentou ser engenheira, piloto de avião e se encontrou mesmo no fotojornalismo. Trabalhou no Jornal O Globo um bom tempo até se tornar fotógrafa independente. Gosta de contar histórias sobre direitos humanos, gênero, desigualdade social, saúde e meio-ambiente. Fotógrafa para organizações humanitárias e ambientais. Em 2016 deu a partida na criação da YVY Mulheres da Imagem, uma iniciativa que envolve mulheres de todas as regiões do Brasil. Desde 2015 é nômade e vai onde a Fotografia a leva. Usa seu celular para fotografar as camas onde dorme nessa vida sem casa – já são 130 e contando!

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Projeto Colabora [Aqui!].

Amazon Watch: o que acontece quando a floresta desaparece?

Em um local remoto onde a maior floresta tropical do mundo confina com terras desmatadas para a agricultura, cientistas brasileiros e americanos estão atentos a um ponto crítico – o momento em que a Amazônia deixa de ser um sumidouro de carbono e se transforma em uma fonte de emissões de carbono.

yale 4A fronteira entre a Fazenda Tanguro e a floresta amazônica no Mato Grosso, Brasil. CORTESIA DE CHRIS LINDER

Por Fred Pearce* para o Yale 360

O contraste é impressionante. De um lado de uma trilha estreita, encontra-se a floresta úmida, fresca e úmida, estendendo-se a noroeste por centenas de quilômetros através da quase intacta reserva indígena do Xingu. Do outro lado, está quente, o solo nu sendo preparado para plantar soja em uma fazenda do tamanho de 14 Manhattans. Isso, diz meu guia, o cientista de sistemas terrestres Michael Coe, é a linha de frente do desmatamento na Amazônia – onde a floresta tropical encontra o agronegócio, mas também onde um ecossistema da floresta tropical está sendo degradado em pastagens de savana.

É também “o laboratório perfeito” para explorar como as florestas interagem com o clima e como isso muda quando a floresta desaparece, diz Coe, do Centro de Pesquisa Woods Hole, em Massachusetts. E é aí que os cientistas brasileiros e americanos estão vigiando o ponto de inflexão previsto há muito tempo – o momento em que a Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, inicia um processo de degradação descontrolada, quando tantas florestas foram perdidas que a transição para a savana é perdida. irreversível. Esse será o momento em que a Amazônia deixará de ser um sumidouro de carbono que ajudará a proteger o planeta das mudanças climáticas e se transformará em uma fonte global de emissões de carbono.

Estamos na Fazenda Tanguro, no estado brasileiro de Mato Grosso, uma das maiores fazendas de soja do mundo. A 16 horas de ônibus de Brasília, a fazenda fica na bacia do rio Xingu, um dos maiores afluentes do rio Amazonas. Há um século, quando a área ainda era uma selva remota, o excêntrico explorador britânico Percy Fawcett desapareceu aqui enquanto procurava a suposta “Cidade Perdida de Z” e onde cerca de 100 pessoas morreram procurando resgatá-lo.

Talvez nunca tenha havido uma “cidade perdida”. Mas a cidade local de Canarana está repleta de silos de grãos, bares e franquias da John Deere, atendendo às grandes fazendas. Uma dos maiores, a Fazenda Tanguro, foi parcialmente desmatada para o plantio de pastos na década de 1980 e convertida em cultivo a partir de 2003 pela corporação Amaggi, o maior conglomerado agrícola de soja do mundo. Hoje, metade é composta por fragmentos de floresta; o restante consiste em campos gigantes que cultivam soja, milho e, a partir deste ano, algodão.

Graças a um acordo fechado em uma reunião casual entre o pesquisador de Woods Hole, Dan Nepstad, e o CEO da empresa e então governador do estado, Blairo Maggi, pesquisadores e colegas americanos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) monitoram a floresta desde 2004 e pesquisam como o clima está mudando dentro e ao redor dele.

E após os incêndios generalizados estabelecidos este ano nas margens da Amazônia – quebrando uma série de 15 anos durante os quais o desmatamento foi dramaticamente reduzido – lugares como esse estão na linha de frente, pois a Amazônia enfrenta sua crise mais fundamental, com as temperaturas subindo, estações secas se prolongando e árvores da floresta tropical sendo substituídas por espécies de savana.

Mais de um terço da Bacia do Xingu, uma região maior que o Estado de Nova York, está desmatada. Restos de cobertura de árvores são tudo o que permanece fora da reserva indígena do Xingu, ainda densamente florestada, em seu coração. Sou mostrado por Coe e Divino Silvério, filho de um fazendeiro local. cujo trabalho de pesquisa na estação lhe rendeu um doutorado e uma série de artigos científicos conceituados. “Temos mais de uma década de dados aqui. Em nenhum outro lugar nos trópicos há isso ”, diz Coe.

yale 3Tanguro é uma das maiores fazendas do Mato Grosso. No total, mais de um terço da Bacia do Xingu foi desmatado, grande parte para o cultivo de soja. CORTESIA DE MICHAEL COE

O que eles estão vendo é alarmante.

O desmatamento está aumentando drasticamente as temperaturas locais. O ar sobre a fazenda é em média 5 graus Celsius mais quente do que na reserva florestal sobre a cerca: 34 graus C, em vez de 29 graus C. A diferença sobe para impressionantes 10 graus no final da estação seca, diz Coe.

E a estação seca está aumentando. Em toda a bacia do Xingu e na região sul da Amazônia, conhecida como “arco do desmatamento”, dura quase quatro semanas a mais do que meio século atrás.

Por que essas grandes mudanças? As respostas não estão nas mudanças climáticas globais, mas no impacto do desmatamento, diz Coe. Antigamente, as árvores da floresta agiam como bombas de água, reciclando a maior parte da água da chuva, que bombeavam do subsolo e liberavam na atmosfera os poros de suas folhas, um processo conhecido como transpiração.

A transpiração requer grandes quantidades de energia, extraídas da radiação solar. “Todo metro quadrado de floresta remove o equivalente ao calor de cerca de duas lâmpadas de 60 watts que queimam 14 horas por dia”, calculou Coe em um estudo. Então, esfria o ar da floresta intacta. Mas tire a floresta e o ar fica instantaneamente muito mais quente.

A transpiração de uma típica grande árvore amazônica também libera cerca de 500 litros de água por dia na atmosfera. A umidade cria nuvens e chuva que sustentam a floresta. Três quartos da chuva que cai nas partes florestadas da Bacia do Xingu são reciclados de volta ao ar dessa maneira. Mas essa proporção cai para 50% ou menos se as árvores forem substituídas por pastagens ou áreas de cultivo.

Atualmente, a Amazônia ainda gera cerca de metade de suas próprias chuvas, com alguma chuva soprando nos ventos alísios do Oceano Atlântico caindo e transpirando de volta para o ar cinco ou seis vezes enquanto atravessa a vasta bacia. Mas o desmatamento reduziu a reciclagem anual de umidade na Bacia do Xingu em 35 quilômetros cúbicos nas últimas duas décadas, segundo Silvério.

Assim, o desmatamento cria o que Coe chama de “uma mudança gigante no balanço de água e energia. O clima muda. ”A selva permanentemente úmida é substituída por um clima mais quente e seco, com demônios de poeira substituindo árvores transpirantes.

A mudança é especialmente importante no final da estação seca. Tocando a água no subsolo, as árvores continuam transpirando mesmo depois de meses sem chuva. De fato, graças à energia do sol implacável, elas transpiram ainda mais na estação seca do que na estação chuvosa. Pesquisas em Tanguro confirmaram que isso é vital para o término da estação seca, porque fornece a primeira umidade para que as chuvas sejam retomadas, diz Coe.

À medida que o clima muda, o mesmo acontece com a vegetação. O aumento da temperatura e uma estação seca mais longa, ambos causados ​​pela perda de árvores, criam estresse hídrico que inverte os ecossistemas da floresta tropical para a savana.

Uma longa estação seca também torna as florestas mais suscetíveis a incêndios. E os incêndios, por sua vez, aceleram a mudança na vegetação. Como Coe coloca: “O fogo é a maneira da natureza começar de novo”. E agora, quando começa aqui, muda para as espécies de savana.

yale 2Incêndios experimentais na Fazenda Tanguro permitem que os cientistas estudem como a floresta amazônica responde e se recupera após os incêndios. CORTESIA DO WHRC E DO IPAM

A combinação de temperaturas crescentes, estações secas mais longas e mais incêndios está impulsionando a “savanização” das florestas – um processo previsto pela primeira vez em 1991 pelo preeminente cientista climático brasileiro Carlos Nobre. “Quando a estação seca se prolonga por mais de quatro meses, a floresta tropical se transforma em savana”, ele me disse quando nos encontramos em sua cidade natal fora de São Paulo após minha visita a Tanguro.

Por muitos anos, isso foi apenas uma previsão dos modelos climáticos. Mas, afirma Paulo Moutinho, cientista sênior do IPAM e membro do Woods Hole, “nossos estudos sobre incêndio em Tanguro foram os primeiros a testar o modelo de savanização de Nobre em campo. Estamos demonstrando o que Nobre previu – que o fogo transforma a floresta tropical em savana, acelerando a invasão de árvores de cerrado. ”Silvério supervisionou um inventário detalhado de milhares de árvores nas áreas florestadas da Fazenda Tanguro. O segundo censo, atualmente em andamento, encontrou um declínio no número de espécies nos últimos quatro anos. As grandes árvores da floresta tropical, em particular, estão sendo substituídas por espécies pioneiras de rápido crescimento, muitas mais conhecidas nas regiões de savana.

Parcelas experimentais em Tanguro, nas quais pedaços de floresta são submetidos a queimadas, mostram como os incêndios, as savanas e as ervas se movem para substituir a floresta perdida. As gramíneas, em particular, são mais inflamáveis; portanto, o próximo incêndio queima mais ferozmente que o primeiro.

Os gerentes da Fazenda Tanguro tentam seguir o Código Florestal do governo, que exige que plantem espécies nativas de árvores da floresta tropical em terras próximas a rios que foram ilegalmente derrubados pelos pecuaristas que os precederam. Mas o novo clima da savana significa que as mudas da floresta tropical não crescerão, diz Coe. “Provavelmente as espécies de savana cresceriam, mas o código diz que você precisa restaurar o que havia antes.” Então, em vez disso, a empresa deixa essas áreas ribeirinhas cercadas na esperança de que as espécies nativas encontrem uma maneira de retornar. Ninguém está prendendo a respiração.

Nobre argumentou em 2007 que poderia chegar a um ponto em que a savanização é imparável em grandes áreas da Amazônia. Ele disse que o ponto de inflexão pode ocorrer se 40% da floresta for perdida. Mais recentemente, ele alertou que, com o aumento global das temperaturas em segundo plano, esse limite poderia estar muito mais próximo – com perda de 20 a 25%. Com cientistas do governo brasileiro estimando a perda atual em 19,7%, o dia do juízo final pode estar próximo.

Alguns dos principais pesquisadores brasileiros entrevistados para este artigo questionaram se existe um único ponto de inflexão que se aplica a toda a Amazônia. Poderia ser um processo mais gradual. O norte e o oeste mais primitivos poderiam sobreviver. Mas outras regiões do sul e leste, incluindo Mato Grosso, já superaram a perda de 25%. E em Tanguro, a aceleração da savanização parece estar ocorrendo agora.

Isso é importante para o planeta como um todo. Pois, diz Jose Marengo, diretor de pesquisa do Centro Nacional de Monitoramento e Aviso Prévio de Desastres Naturais do Brasil, a mudança da floresta tropical para a savana mudará a Amazônia de sua posição atual como uma pia para cerca de um bilhão de toneladas de dióxido de carbono atmosférico por ano, em uma fonte de CO2. “Isso significaria adeus a Paris”, diz ele, referindo-se ao acordo de Paris de 2015 que visa manter o aquecimento global abaixo de 2 graus.

Uma pesquisadora me disse que acredita que a troca já aconteceu. Seu estudo ainda não foi concluído, mas pode produzir algumas descobertas interessantes no próximo ano.

Para os cientistas brasileiros que lutam para salvar a Amazônia, a tragédia é que eles estão vendo décadas de trabalho que estabeleceram a importância da floresta para o Brasil e o mundo aparentemente desfeitos nos meses desde que Jair Bolsonaro assumiu o cargo de presidente do Brasil em janeiro. Ele efetivamente deu uma luz verde para o desmatamento. Isso reverteu um declínio no desmatamento de mais de 75% desde 2004, logo após a ativista ambiental Marina Silva se tornar a ministra do Meio Ambiente do país. Ela introduziu uma moratória na venda de carne bovina ou soja de terras recentemente desmatadas e policiou a Amazônia com monitoramento por satélite em tempo real da destruição da floresta.

Bolsonaro diz que o Brasil não pode permitir que seu desenvolvimento econômico seja prejudicado por restrições impostas por estrangeiros à derrubada de florestas para agricultura. Isso é bobagem, diz a maioria dos cientistas de seu país. A maior parte do desmatamento é realizada ilegalmente por especuladores que capturam terras florestais estatais. “Eles cortam e queimam as árvores. Depois, plantam gado e esperam uma anistia para legalizar sua anexação, para depois venderem ”, diz Moutinho.

yale 1A reserva indígena do Xingu, uma das poucas áreas remanescentes em grande parte intactas da floresta. CORTESIA DO WHRC E DO IPAM

Não se trata de desenvolvimento econômico, diz Moutinho. É sobre tolerar a criminalidade. O desenvolvimento econômico genuíno envolveria o uso mais intensivo de terras já desmatadas. De fato, diz Nobre, o país poderia aumentar a produção de carne e soja e ainda devolver a terra para a regeneração natural da floresta. “Se você dobrar a intensidade do gado, o que é totalmente viável, poderá liberar mais de meio milhão de quilômetros quadrados para a restauração da floresta”, ele me disse.

Tais políticas progressistas agora são apoiadas por muitos grandes agronegócios, diz Nobre. Eles temem que o desmatamento continuado possa trazer boicotes ao consumidor internacional de carne bovina, soja e outros produtos. Mas ainda não está claro se o governo continuará apoiando especuladores de terras ou ouvindo uma aliança emergente de ambientalistas e agronegócios.

Com um ponto de inflexão se aproximando, as apostas são imensamente altas para a Amazônia e o planeta. As florestas e grande parte de sua biodiversidade poderiam, com a assistência certa, ainda se recuperar. Mesmo os enormes campos de soja em Tanguro não são tão inanimados quanto se poderia esperar. Altos pássaros que não voam voam por aí à procura de sementes. Faixas e excrementos de anta estão por toda parte. Os tatus escavam nas margens. E até vi uma onça-pintada passeando por uma trilha a apenas 20 metros de um campo esperando para ser plantada com soja.

Mas no caminho de volta a Canarana, a poucos quilômetros do portão da fazenda, Silvério e eu encontramos os restos enegrecidos de uma floresta nativa. Ele havia sido engolido pelas chamas após um incêndio para limpar a vegetação no pasto apenas uma semana antes de se espalhar pela estrada. Foi deliberado ou acidental? Aqui na fronteira selvagem do Brasil, ninguém sabia – ou estava dizendo.

* Fred Pearce é um autor freelancer e jornalista baseado no Reino Unido. Ele é um colaborador do Yale Environment 360 e é autor de vários livros, incluindo The Land Grabbers, Earth Then and Now: imagens surpreendentes do mundo em mudança e The Climate Files : A batalha pela verdade sobre o aquecimento global.

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Esta reportagem foi originalmente publicada em inglês pelo Yale 360 que é produzido pela Yale School of Forestry and Environmental Studies [Aqui! ].

Cooperativa de criadores de salmão da Noruega decide banir soja brasileira

NorwayFishFarmAerialCooperativa norueguesa de criadores de salmão decidiu suspender uso de soja brasileira  em sua ração para diminuir pegada de carbono de sua produção

Em mais uma demonstração que o mar não está nada calmo para a nau do presidente Jair Bolsonaro e seus ministros negacionistas das mudanças climáticas,  a cooperativa norueguesa de piscicultores de salmão , o Salmon Group, emitiu um comunicado de imprensa informando que está suspendendo imediatamente a aquisição de soja brasileira como parte do esforço de redução de 17% da “pegada de carbono” associada à sua produção de salmão em cativeiro.

salmon group press release

Segundo o comunicado de imprensa do Salmon Group, os seus 44 acionistas “levam a sério a sustentabilidade e, por um longo tempo, trabalharam propositalmente e concretamente com questões relacionadas a isso”.  O comunicado do Salmon Group acrescentou ainda que “estamos falando de empresas familiares de segunda e terceira geração, que operam no ambiente local onde elas mesmas nasceram e foram criadas. Eles estão muito conscientes da responsabilidade que lhes cabe ao conduzir seus negócios em público. Eles pensam a longo prazo e assumem responsabilidade moral e ética.

Ainda que esta decisão do Salmon Group possa não estar diretamente associada ao atual ciclo de queimadas na Amazônia brasileira, o certo é que a condição dos mercados para a soja brasileira que já não está tão confortável como gostariam os líderes do latifúndio agro-exportador, poderá ainda ficar ainda pior após o delirante discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU no dia de ontem (24/09).

O Brasil na imprensa alemã (28/08)

Queimadas na Amazônia continuam dominando o noticiário na Alemanha. Mídia atribui desastre à política ambiental de Bolsonaro e sua ligação com o agronegócio. Mas consumidores alemães também são responsáveis, diz revista.

queimada“Imagens de florestas tropicais queimadas e troncos de árvore carbonizados correm o mundo”

Süddeutsche Zeitung – Dias de fogo (26/08)

Em face dos devastadores incêndios na Amazônia, cresce a pressão para que o Brasil mude sua política ambiental. Também o ministro alemão do Exterior, Heiko Maas, propõe agora que o Brasil seja pressionado a adotar uma maior proteção climática por meio do acordo comercial com o Mercosul. “O fato de o acordo com o Mercosul ter sido finalmente resolvido nos dá oportunidades e meio de pressão para influenciar o que lá acontece”, disse o político social-democrata nesta segunda-feira. Ele acrescentou que existem certos valores e padrões “sem os quais nós não embarcamos”. O presidente francês, Emmanuel Macron, também fez comentários similares.

(…)

As Forças Armadas brasileiras começaram a jogar água nas áreas de incêndio com aviões de transporte Hércules. Ao mesmo tempo, a polícia está investigando os organizadores do chamado Dia do Fogo. A mídia local relatou que fazendeiros teriam combinado de queimar grandes áreas ao mesmo tempo, para dar espaço para pastos e plantações de soja. O ministro da Justiça, Sergio Moro, tuitou: “Incêndios criminosos na Amazônia serão severamente punidos.”

Esse é um novo tom, já que o presidente Jair Bolsonaro vem incentivando os agricultores a produzir fatos. O Ministério do Meio Ambiente teria tido conhecimento do planejado “Dia do Fogo”, mas não fez nada, segundo tuitou o jornalista investigativo Glenn Greenwald, que mora no Brasil. A diretora da Fundação Heinrich Böll no Rio de Janeiro, Annette von Schönfeld, também não vê mudanças políticas. “O governo Bolsonaro realmente não tem nenhum pensamento de política ambiental”, disse.

Spiegel Online – O negócio bilionário com os recursos naturais do Brasil (23/08)

Jair Bolsonaro ainda tem grandes planos para a Amazônia. Ele queria fazer da imensa área em torno do mais poderoso rio do mundo a “alma econômica” do Brasil, como anunciou o presidente recentemente durante uma visita à cidade de Manaus. “Nossa Amazônia, a região mais rica do planeta Terra”, disse Bolsonaro, acrescentando que ela pode se tornar o ponto de partida para uma nova recuperação econômica por todo o país. Em harmonia com a proteção ambiental, é claro.

O aumento dramático no desmatamento desde que Bolsonaro assumiu em janeiro ainda era uma questão regional na Amazônia naquela época. Mas agora as imagens de florestas tropicais queimadas, troncos de árvore carbonizados, grandes clareiras estéreis e o céu cinza escuro sobre São Paulo correm o mundo. E as estatísticas do instituto de pesquisa estatal Inpe parecem dar razão a todos os críticos, que sempre alertaram que a Amazônia seria impiedosamente explorada sob a égide de Bolsonaro.

(…)

Bolsonaro havia anunciado que reduziria as multas por delitos ambientais, reduziria os controles e liberaria as reservas indígenas para a mineração. Para ele, a conservação da natureza deve estar subordinada aos interesses da economia. E existem algumas empresas, corporações e indústrias que ganham muito dinheiro com a exploração da Amazônia. Em primeiro lugar está a poderosa indústria agrícola.

Focus Online – Nossa fome por carne e soja alimenta os incêndios florestais no Brasil (24/08)

As florestas tropicais do Brasil se tornaram um brinquedo das corporações do agronegócio. Onde hoje há incêndios, tem gado pastando amanhã. Os consumidores na Alemanha também são responsáveis pela ameaça à Região Amazônica. O maior apetite, no entanto, é dos chineses.

As imagens da floresta tropical em chamas no Brasil estão causando preocupação em todo o mundo. Embora os incêndios aconteçam a milhares de quilômetros da Alemanha, o desastre do outro lado do Atlântico também tem a ver com o comportamento do consumidor na Europa. Acima de tudo, o desejo por bifes suculentos e costeletas quentes alimenta o desmatamento e a queimada de grandes áreas na Amazônia.

“É claro que nossas ações na Alemanha têm muito a ver com a perda da floresta tropical”, diz o professor da economia mundial de alimentos da Universidade de Göttingen, Matin Qaim. “Por exemplo, estamos importando grandes quantidades de soja como ração para nossos bovinos e suínos, e o aumento do cultivo da soja está contribuindo para o corte de florestas tropicais no Brasil.”

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Este compêndio de notícias da imprensa alemã sobre a catástrofe ambiental na AmaZônia foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Professora da USP destroça mito do uso seguro de agrotóxicos no Brasil

agrotoxicos

A professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo  Larissa Mies Bombardi é hoje uma das maiores conhecedoras dos problemas envolvendo o uso de venenos agrícolas nas grandes monculturas plantadas para exportação no Brasil.  Em função disso, ela vem sendo atacada por entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador (o chamado agrobusiness).

No vídeo abaixo ela fala de forma bastante esclarecedora sobre as graves consequências do uso descontrolado de venenos agrícolas em altas quantidades e sem qualquer fiscalização efetiva no cotidiano das áreas onde os mesmos são estudados.

Abaixo uma entrevista conduzida pelo jornalista Bob Fernandes onde a professora Larissa Bombardi discorre de forma esclarecedora sobre um dos maiores mitos criados para justificar o uso dos agrotóxicos na agricultura, qual seja, de que é possível fazer uso seguro dessas substâncias de forma segura.

A verdade inescapável que emerge dessa brilhante entrevista é de que estamos sendo envenenados em nome dos interesses econômicos dos grandes latifundiários brasileiros. E aqui, mais uma vez, é preciso defender a reputação científica da professora Larissa Bombardi que está sendo vilipendiada por causa de estudos rigorosos que ela vem conduzindo e que são de completo interesse público.

Greenpeace bloqueia na França chegada de navio carregado de farelo de soja contaminado com desmatamento no Brasil

O produto saiu do porto de Cotegipe, onde a grande maioria da soja exportada vem do Cerrado brasileiro, e tinha como destino o mercado europeu

forest killerA ação busca chamar a atenção para a necessidade urgente de ação por parte de governos e empresas frente à crise climática.

Por Greenpeace Brasil

“Já que o governo Francês é incapaz de cumprir seu compromisso de combater o desmatamento e as mudanças climáticas, decidimos fazer isso por eles”, disse Cecile Leuba, da campanha de florestas do Greenpeace França. Na manhã de hoje (no horário do Brasil), cerca de 50 ativistas bloquearam a chegada do navio cargueiro ELLIREA, que saiu do porto de Cotegipe, em Salvador, com destino ao porto de Sète. O cargueiro transportava 50 mil toneladas de farelo de soja , que provavelmente seria usado para alimentação animal na França e na Eslovênia, destinos finais da carga do navio.

A ação acontece duas semanas após a publicação pelo Greenpeace Internacional do relatório Contagem Regressiva para a Extinção, que expõe o modelo de negócio predatório de grandes empresas em tempos de crise climática. De 2010 a 2020, período no qual  centenas de empresas se comprometeram a acabar com o desmatamento em suas cadeias produtivas, de diversas commodities agrícolas, 50 milhões de hectares de floresta foram desmatadas em todo o mundo para ampliar essa produção — o equivalente a uma área quase do tamanho de Minas Gerais.

Para chamar a atenção para a necessidade urgente de ação frente à crise climática, que faz vítimas no mundo todo, os ativistas do Greenpeace bloquearam o acesso do navio ao cais, em Sète, impedindo que ele atracasse, com um ativista pendurado em sua âncora. Os quatro guindastes que seriam utilizados para descarregar o produto também foram ocupados por ativistas, com banners com as mensagens “Agricultura industrial = desmatamento” e “Aviso: soja de desmatamento”. No casco do navio foi pintada a mensagem “Assassino florestal”.

O cultivo de soja já foi um dos principais vetores de desmatamento da Amazônia, até o estabelecimento da Moratória da soja em 2006. Porém, o cultivo do grão se expande sobre o território do  Cerrado brasileiro, a Savana mais biodiversa do mundo, deixando um rastro de desmatamento e muitas vezes conflitos sociais pelos territórios radicionalmente ocupados pela população indígena e outras populações tradicionais. O Cerrado, que ocupava 24% da área do Brasil, já perdeu quase metade de sua vegetação original. Mesmo assim,  a soja da região continua ganhando os mercados internacionais: ao menos 88% desse grão que sai do porto de Cotegipe vem do Cerrado e tem como destino países como a China, Espanha, Alemanha e França, onde o produto é majoritariamente usado na alimentação de animais de corte , como frangos, porcos e bois.

“Diversas empresas fizeram uma promessa há 10  anos aos seus consumidores, de que fariam a sua parte para acabar com desmatamento nos produtos que comercializam, isso teria um papel fundamental para minimizar a emergência climática que estamos enfrentando”, disse Rômulo Batista, da campanha de florestas do Greenpeace Brasil. “O curioso é que as mesmas empresas que ajudaram a sociedade a criar a Moratória da Soja, um importante mecanismo de proteção da Amazônia, hoje se negam a preservar o Cerrado e isso é inaceitável”, completa.

Os ativistas franceses exigem que os governo de seu país implemente regras mais rígidas para a entrada de produtos agrícolas não apenas do Brasil, mas de diversos outros países, com a comprovação que os produtos não têm relação com desmatamento e violações dos direitos humanos. Os franceses também buscam chamar a atenção de sua população sobre o consumo excessivo de carne e laticínios e seu impacto em ambientes como o Cerrado, a Amazônia e o Gran Chaco todos na América Latina.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil [Aqui!].

Monocultura da soja desmata e polui no Brasil para baratear consumo de carnes e laticínios na União Europeia

soja-6Avanço da monocultura da soja resultam em desmatamento explosivo e aumento exponencial do uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo.

No última 3ª. feira (18/06) postei um artigo sobre a dependência da União Europeia em relação à soja brasileira, dando ênfase a um relatório produzido pela seção francesa da organização não-governamental Greenpeace sob o título de “Apaixonada por carne, Europa alimenta a crise climática por sua dependência da soja“.

Passados alguns dias resolvi dar um mergulho nas informações que constam desse relatório, e compartilho a seguir alguns dos elementos que considero principais para um entendimento mais sólido dos altos custos ambientais, econômicos e sociais da hegemonia da monocultura da soja no Brasil, bem como dos usos preferenciais da produção brasileira na União Europeia que desmentem a falácia de que o Brasil é uma espécie de celeiro agrícola do planeta.  É que, quando muito, o Brasil se transformou numa espécie de garantidor do barateamento da produção animal europeia e, por extensão, da chinesa.

Um primeiro dado interessante é a evolução da produção mundial da soja entre 1997 e 2017 que mostra a evolução do Brasil e a aparente estagnação da produção vinda de seus principais concorrentes, que são os EUA e a Argentina. Enquanto isso, o resto do mundo continua com  produção relativamente estável, até porque com a expansão da produção brasileira restou pouco espaço para competição.

pProdução mundial de soja 1997-2017: foco nos três produtores principais.

Um segundo aspecto é a evolução espacial dos monocultivos da soja, a qual está intrinsecamente ligado no Brasil ao avanço do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, como bem mostra o mapa abaixo. Aqui é o elemento de interpretação é simples: a expansão da soja é um vetor fundamental no aumento do desmatamento no Brasil, o que desmente a falácia de que não havia plantios de soja em áreas de desmatamento novo. Essa tese já havia sido refutada em um artigo da qual sou co-autor e que foi publicado pela revista Acta Amazônica, mas o mapa feito corrobora o que havíamos indicado a partir do caso do estado de Rondônia.

mapa soja

Mapa com áreas com monoculturas de soja e o acompanhamento do processo desmatamento (áreas em vermelho).

Um aspecto particularmente interessante é o papel que a soja cumpre na alimentação dos rebanhos animais que estão estabelecidos na União Europeia (EU),  com um amplo uso em diferentes tipos de rebanhos, ainda que a dependência maior seja na alimentação de galinhas e porcos (74% do total).

repartição soja

Discriminação das necessidades da soja na EU de acordo com diferentes tipos de produção animal.

Entretanto, um dos resultados que mais me chamou a atenção foi o destino final da soja importada pela EU, pois, ao contrário do que difundem os latifundiários agroexportadores que vendem a ideia falaciosa de que o Brasil alimenta o mundo, quase 90% da soja importada pela EU é usada para alimentação animal.

uso final

Uso final da soja na UE: A principal finalidade é servir como comida animal.

Por outro lado, as atuais negociações entre o MERCOSUL e  a EU que parecem ir ao largo das graves transgressões nos direitos sociais e dos esforços para desmontar as estruturas de governança ambiental que estão sendo empreendidos pelo governo Bolsonaro ficam mais fáceis de entender quando se verifica que o Brasil fornece 37% da soja consumida pelos países europeus.

origem soja eu

Em conjunto o que o conjunto desses dados mostra é que a hegemonia da monocultura da soja na produção brasileira acaba servindo, como bem alerta o aludido relatório do Greenpeace, para baratear o consumo de carnes e produtos lactéos na União Europeia, enquanto que para o Brasil (e para a Argentina) sobram os altos custos sociais, altos níveis de consumo hídrico, e uma pesada herança associada ao uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos que estão banidos na própria EU. 

E sem falar que os alimentos que efetivamente consumimos no Brasil acabam sendo direta ou indiretamente contaminados pelos agrotóxicos que são abundantemente despejados nos grandios plantios de soja.