Poeira tóxica de colheita de soja atinge comunidade quilombola em Poconé (MT)

Em desacordo com a legislação de pulverização terrestre, propriedades rurais mantêm aplicações de agrotóxicos sem distanciamento mínimo da comunidade. Organizações sociais fazem denúncia ao Ministério Público

quilombo

A comunidade quilombola Jejum, localizada no município pantaneiro de Poconé (MT), foi atingida por uma nuvem tóxica da lavoura próxima ao território no dia 23/3/2021. A apenas dez metros de distância, a máquina passava realizando a colheita da soja e levando ao ar uma camada densa de poeira. As pessoas da comunidade passaram mal com tosse, irritação na garganta e problemas respiratórios. Diante do ocorrido, organizações da sociedade civil protocolaram documento junto ao Ministério Público Federal e Estadual ontem, 29/3.

“Eles plantam soja aqui na beirada de casa. Na colheita sobe aquele poeirão que ninguém aguenta”, disse uma moradora que não se identificou por uma questão de segurança. Ela contou que desde o dia 21/3 estavam realizando a colheita da soja e que a poeira provocou muitos efeitos. “A garganta ficava ardendo, os olhos ficam até lacrimejando, a cabeça dói. Assim não dá certo, porque eles secam a soja com veneno e isso prejudica demais.” Algumas pessoas mencionaram também dificuldades para dormir, enfermidades no estômago e até questões relacionadas à saúde mental por conta dos agrotóxicos.

Além dos efeitos à saúde, outros aspectos da vida da comunidade vêm sendo impactados. “Há cinco anos mudou tudo quando essa soja veio para cá. Nem horta presta mais por aqui”, conta outra moradora da comunidade. Ela desistiu de trabalhar sua horta pela presença grande de lagartas e insetos, dificuldade de crescimento da banana, mal desenvolvimento do mamão e outros efeitos que não conseguia combater frente a lavoura no cultivo de mandioca, frutas e demais produtos. Na manhã de ontem, 29/3, os moradores relataram ainda a mortandade de peixes de tanques de piscicultura na comunidade, um possível indicativo de contaminação da água.

Por conta do ocorrido, em conjunto, a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE)*, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e a Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, com apoio da organização Terra de Direitos, realizaram denúncia junto ao Ministério Público Federal (MPF) em Mato Grosso, e ainda ao Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPE) e ao Fórum Estadual de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, coordenado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). 

Entre os argumentos, está o desrespeito à distância mínima de 90 metros para pulverização terrestre, conforme estabelecido na legislação (Decreto Estadual 1651/2013/MT). “Se colheu a soja, pulverizou antes dessecante. Já vínhamos denunciando o não cumprimento da lei no que diz respeito à distância mínima para a pulverização de agrotóxicos próximo a casas, estradas e fontes de água”, contou a representante da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, Fran Paula, da FASE. De acordo com ela, situações como essa são cada vez mais frequentes no Pantanal por conta do aumento de monoculturas na região. “Os agrotóxicos representam não só uma violação à saúde dessas famílias. São várias as violações. Entre elas, o direito humano a um ambiente saudável”, destaca.

Sobre a denúncia, Laura Ferreira da Silva, quilombola e representante da Conaq em Mato Grosso, enfatiza a necessidade de ação do poder público. “A gente precisa que o Estado, que o Ministério Público Federal e o estadual tomem atitude, porque isso não pode acontecer. Isso é inadmissível. São vidas quilombolas que estão ali e vidas quilombolas importam.”

No ofício, a comunidade quilombola Jejum requer providências dos Ministérios Públicos para que seus direitos sejam preservados e para que ações preventivas sejam colocadas em prática por conta da iminência de novos danos de colheita de soja na propriedade vizinha.

*A FASE é uma das organizações que compõem a rede do Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad).

fecho

Este texto foi inicialmente publicado pelo Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad) [Aqui!].

Em 2020, principais desmatadores estão vinculados à derrubada de mais de 110.000 hectares do Cerrado

cerrado desmatamento

O bioma Cerrado, uma vasta savana tropical biodiversa no Brasil, está sob a ameaça do desmatamento impulsionado por commodities. A expansão da soja e a pecuária são as causas diretas da perda de floresta no Cerrado. Este relatório apresenta novos dados sobre atores específicos ligados ao desmatamento do Cerrado em 2020, incluindo a exposição quantificada ao risco dos maiores comerciantes de soja, frigoríficos e varejistas. Financiadores com políticas florestais estão expostos a riscos materiais em suas carteiras.

Baixe o PDF aqui: Principais desmatadores do Cerrado vinculados à clareira de mais de 110.000 hectares

Principais conclusões

  • A expansão agrícola é o principal fator para o aumento do desmatamento no Cerrado.O aumento do desmatamento ligado à soja, gado e especulação de terras ameaça interromper os sistemas naturais de água, os padrões climáticos regionais e a produtividade agrícola de longo prazo na região.
  • O desmatamento do Cerrado em 2020 totalizou 734.010 ha, um aumento de 13,2% em relação a 2019. O desmatamento em terras privadas representou 66,7%, enquanto as terras públicas representaram 19,2%. O restante do desmatamento ocorreu em terras sem designação legal.
  • Um total de 207.813 ha de desmatamento do Cerrado em 2020 ocorreu em fazendas que já possuíam áreas de plantio de soja. A CRR estima que 28,3% do desmatamento total do Cerrado estava relacionado à expansão da soja.
  • Mais da metade do desmatamento causado pela soja no Cerrado está relacionado a produtores de soja proeminentesTerras agrícolas pertencentes a produtores locais, imobiliárias e agroindústrias, como SLC Agrícola, Nuveen e JJF Holdings e Participações, registraram 110.333 ha de desmatamento no Cerrado. A maioria dessas empresas tem relações comerciais com a Cargill, Bunge, ADM, Louis Dreyfus Company (LDC) e Cofco.
  • A indústria da carne é outro fator chave do desmatamento e da especulação imobiliária no Cerrado. Os frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva estão altamente expostos ao desmatamento do Cerrado em suas cadeias produtivas, principalmente na região do Matopiba. Os varejistas Casino Group, Carrefour e Cencosud são os principais canais de venda de carne bovina, igualmente ligados ao desmatamento no bioma.
  • A escalada do risco de acesso ao mercado, risco de regulamentação, risco de financiamento e risco de reputação pode levar a perdas financeiras significativas para os financiadoresBNP Paribas, Santander, Rabobank, HSBC, AP2, Caisse de Dépôt, Santander, Credit Agricole, Barclays e Credit Suisse têm bilhões de dólares americanos de exposição aos principais desmatadores do Cerrado, o que está em conflito com suas próprias políticas florestais. A regulamentação da UE sobre a devida diligência da cadeia de abastecimento pode desencadear grandes desinvestimentos e / ou engajamento.

Expansão da agricultura está causando desmatamento e supressão de vegetação nativa no Cerrado

A vegetação natural do Cerrado brasileiro, a savana com maior biodiversidade do mundo , está ameaçada por altas taxas de desmatamento. sendo convertido em um ritmo rápido.Estendendo-se por mais de 200 milhões de hectares (ha), do tamanho da Alemanha, França, Inglaterra, Itália e Espanha combinados, o Cerrado é uma pastagem arborizada que fornece serviços ambientais essenciais para o mundo. Ele protege a biodiversidade, estabiliza o clima regional e regula as bacias hidrográficas que fornecem 40% da água doce do Brasil. Ele contém 5% de toda a biodiversidade do planeta, com 1.600 espécies de animais e 12.000 espécies de plantas – das quais quase a metade são encontradas apenas no Cerrado. Seus sistemas de raízes profundas atuam como um sumidouro de carbono crítico,estimado para armazenar 13,7 bilhões de toneladas de carbono no subsolo. O Cerrado também é a região agrícola mais produtiva do Brasil, o que tem resultado em desmatamentos e desmatamentos que estão desestabilizando o ecossistema.

A expansão agrícola é o principal fator para o aumento do desmatamento no Cerrado. Desde que as atividades agrícolas se expandiram na década de 1970, 50 por cento do Cerrado foi perdido para terras agrícolas e de pastagem, principalmente para gado, soja, algodão, milho e eucalipto. Apesar de seu papel crítico nos sistemas naturais da Terra, o Cerrado tem pouca proteção do Código Florestal do Brasil. Enquanto o Código Florestal exige que os proprietários privados na Amazônia preservem até 80% de suas propriedades, os proprietários são obrigados a reservar apenas 20-35% da vegetação nativa em todo o Cerrado. Contabilizando as áreas protegidas publicamente, estima-se que menos de 3 por cento do Cerrado está sob proteção legal, em comparação com 46%  da Amazônia. A proteção ambiental é ainda mais enfraquecida pela falta de fiscalização ambiental como resultado da agenda pró-negócios da administração Bolsonaro. Desde que o presidente Jair Bolsonaro foi eleito em 2018, o Ibama, órgão ambiental do Brasil, viu cortes orçamentários significativos e demissão de funcionários importantes. Apesar do aumento do desmatamento, o Ibama emitiu o menor número de multas desde 2019. As multas ambientais são um dos métodos do Ibama para fazer cumprir as leis de conservação. A redução na emissão mostra como a capacidade da agência foi afetada por cortes no orçamento.

Mecanismos voluntários e coalizões intersetoriais estão clamando pela proteção do Cerrado. 

Esses incluem:

  • Manifesto do Cerrado foi lançado em 2017 por organizações da sociedade civil para exigir que os produtores, comerciantes e varejistas de soja eliminem a conversão impulsionada pela soja na região.
  • A Declaração de Apoio (SoS) ao Manifesto do Cerrado é assinada por 160 empresas de bens de consumo e investidores, endossando os objetivos do Manifesto e se comprometendo a conter a perda florestal vinculada à produção agrícola.
  • Seis grandes comerciantes de commodities são membros do Soft Commodities Forum , que apresenta uma metodologia de relatório comum para aumentar a rastreabilidade da cadeia de suprimentos no bioma Cerrado.
  • O Consumer Goods Forum é uma rede do setor composta por mais de 400 empresas que apoiaram o Manifesto do Cerrado e estabeleceram uma Coalizão de Ação Positiva da Floresta para acelerar as cadeias de suprimentos de commodities livres de conversão.
  • De forma mais ampla, a Declaração de Amsterdã e a Declaração de Nova York sobre Florestas são compromissos multilaterais para eliminar o desmatamento da produção de commodities agrícolas, incluindo soja e carne bovina.

Apesar desses compromissos, as cadeias de suprimentos de commodities continuam vinculadas às altas taxas de desmatamento no Cerrado em 2020.

Atores específicos da soja ligados ao desmatamento do Cerrado em 2020

734.010 ha foram desmatados no Cerrado entre agosto de 2019 e julho de 2020 (datas de referência baseadas no cálculo do PRODES de taxas anualizadas), de acordo com o Programa Nacional de Monitoramento de Florestas por Satélite (PRODES) .Essa área, equivalente a 124 vezes o tamanho de Manhattan, representa um aumento de 13,2% em relação a 2019.

Figura 1: Desmatamento do Cerrado em 2020

Fonte: PRODES 2020

O desmatamento em terras privadas representou 489.602 ha, ou 66,7% do desmatamento total do Cerrado em 2020 . O principal hotspot de desmatamento foi a região do Matopiba (Figura 1), composta por municípios nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que detém a maior parte da vegetação nativa remanescente do Cerrado. A expansão do cultivo de safras (incluindo soja) e da pecuária são os principais motores do desmatamento na região do Matopiba. Grandes agronegócios da região exportam seus produtos para mercados internacionais como China e UE. A Figura 2 mostra o contraste entre o desmatamento em terras públicas e privadas no Cerrado.

Figura 2: Desmatamento por designação de terra no bioma Cerrado em 2020

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia do INPE, INCRA, Funai, Sicar

O desmatamento em terras públicas do Cerrado foi responsável por 19,2% do desmatamento total. Terras públicas que incluem assentamentos rurais, terras indígenas, unidades de conservação naturais e terras federais e estaduais foram responsáveis ​​por 141.186 ha do desmatamento total do Cerrado em 2020. Outros 96.608 ha foram desmatados em terras que estão registradas como privadas e públicas, principalmente de unidades de conservação que permitem o uso sustentável do solo. Essa questão da sobreposição das categorias de posse da terra ocorre em todo o Brasil.

Os 103.212 ha restantes ou 14 por cento do total são desmatamento em terras não designadas no bioma. São terras sem designação legal. O esclarecimento das incertezas na posse da terra pode ajudar a minimizar as taxas de desmatamento em áreas sobrepostas no Cerrado.

Principais participantes da produção de soja apresentam alto risco de desmatamento no Cerrado

O cultivo de soja é o principal fator de desmatamento nas savanas da América do Sul. O bioma Cerrado tem visto um aumento na expansão da soja nos últimos anos, causando a perda de biodiversidade, altas emissões de dióxido de carbono e interrupção dos sistemas hídricos. A produção de soja no Brasil tem aumentado constantemente nos últimos anos. Em 2018/19, o bioma Cerrado respondeu por 40% dos 123 milhões de toneladas métricas (Mt) da produção brasileira de soja.

Em 2020, um total de 207.813 ha de desmatamento ocorreu em fazendas que possuem área de plantio de soja desde 2017 . Esta área representa 28,3 por cento de todo o desmatamento do Cerrado em 2020. Este número (28,3 por cento) é uma estimativa conservadora, dado que os cálculos do desmatamento ocorreram em fazendas com plantações de soja existentes. Os dados não abrangem fazendas que começaram a plantar soja a partir de 2017.

Figura 3: Área plantada de soja no Cerrado em 2017

Fonte: Agrosatelite, INCRA

110.333 ha de desmatamento no Cerrado foram vinculados a produtores de soja de destaque. O desmatamento cai em terras de propriedade de empresas produtoras, imobiliárias e agroindústrias previamente identificadas nos relatórios do CRR . A Figura 4 mostra uma lista das 10 principais empresas e grupos produtores de soja com desmatamento do Cerrado em 2020.

Figura 4: 2020, 10 maiores desmatadores para a produção de soja no Cerrado

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, INPE, INCRA

A SLC Agrícola está vinculada ao desmatamento de 10.152 ha do Cerrado em 2020 . A SLC Agrícola é a maior produtora de soja listada no Brasil e, em 2020, uma das maiores desmatadoras da região. Em setembro de 2020, a SLC Agrícola se  comprometeu a conter o desmatamento do Cerrado e transferir a produção apenas para áreas já desmatadas. A empresa disse que esta política entrará em vigor após a conversão de 5.000 ha de vegetação de Cerrado, limite que foi ultrapassado por uma larga margem em 2020.

Os principais clientes da SLC Agrícola são Cargill Agrícola SA (27,6 por cento da receita) e Bunge Alimentos SA (17,9 por cento), de acordo com suas demonstrações financeiras do 3T 2020. Conforme relatado anteriormente pelo CRR, a derrubada da vegetação do Cerrado nas fazendas da SLC Agrícola parece estar de acordo com o Código Florestal do Brasil, mas violando os compromissos de desmatamento zero de seus clientes e de grande parte das indústrias consumidoras de soja a jusante.

Figura 5: Desmatamento da SLC Agrícola em 2020

Obs .: Esquerda: março de 2020 – 5.200 ha desmatados na Fazenda Parceiro, Formosa do Rio Preto, Bahia. À direita: maio de 2020 – 4.667 ha desmatados na Fazenda Palmeira, Tasso Fragoso, Maranhão.

Fonte: SLC Agrícola, imagens de satélite Sentinel 2

Aproximadamente 4.570 ha de desmatamento do Cerrado ocorreram em fazendas mantidas pela Nuveen em 2020. O mapa de terras agrícolas disponível ao público da gestora de ativos global lista 64 propriedades no Brasil, das quais 44 estão no Cerrado. A lista inclui soja e muitas outras culturas cultivadas em suas propriedades. Nuveen adotou uma política de desmatamento zero em 2018 que proíbe a aquisição de terras que tenham sido desmatadas com vegetação nativa. Os dados de desmatamento do Cerrado em 2020 mostram lacunas na implementação dessa política, expondo o gestor de ativos a riscos de reputação.

Os comerciantes de soja enfrentam altos riscos de desmatamento, uma vez que suas cadeias de abastecimento permanecem ligadas ao desmatamento do Cerrado em 2020 . Os maiores comerciantes de soja ADM, Bunge, Cargill, LDC e Cofco operam silos em regiões produtoras de soja do Cerrado com alta exposição ao desmatamento em 2020. A CRR identificou vários fornecedores diretos de comerciantes e relações de compra com grupos produtores de soja no Cerrado. A Figura 6 mostra os diversos níveis de exposição para os principais comerciantes e a quantidade de desmatamento direto vinculado às suas cadeias de abastecimento.

 Figura 6: Exposição ao risco de desmatamento dos principais comerciantes do Cerrado em 2020

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, INPE, INCRA. * Incluindo silos de joint venture

Como membros do Soft Commodities Forum (SCF), essas empresas se comprometeram com uma estrutura comum para relatar e monitorar o progresso de cadeias de suprimentos transparentes e rastreáveis ​​para a soja no Cerrado. No entanto, ainda não está claro como as promessas do SCF se relacionam com seus compromissos de excluir a conversão de toda a vegetação nativa do Cerrado e a implementação de mecanismos eficazes de não conformidade. Nenhum dos comerciantes incluídos na análise apóia o Manifesto do Cerrado. As políticas de desmatamento dos comerciantes podem ser insuficientes para mitigar o risco de desmatamento.

Carne e outras causas agrícolas do desmatamento

A especulação fundiária e a pecuária são outros principais motores do desmatamento do Cerrado. Muitas áreas no Cerrado são reivindicadas e depois desmatadas para dar lugar a pastagens. A área desmatada é usada como pastagem para a indústria pecuária e, anos depois, vendida a um preço mais alto aos produtores agrícolas, principalmente para a produção de soja, mas também para outras culturas como milho e algodão. A soja e seus derivados comerciais são ingredientes essenciais para a alimentação do gado, abastecendo a crescente indústria da carne no Brasil e no exterior. A insegurança fundiária no Cerrado aumenta a especulação fundiária e aumenta as taxas de conversão de terras no bioma.

Frigoríficos diretamente ligados ao desmatamento do Cerrado em 2020

A pecuária não é apenas um dos principais motores do desmatamento no bioma Amazônia, mas também contribui para a conversão do Cerrado. A JBS teve a maior exposição ao desmatamento do Cerrado em 2020 entre os três maiores frigoríficos brasileiros. JBS, Marfrig e Minerva têm a maior capacidade de abate entre um grande número de frigoríficos no Brasil. As três empresas dominam a pecuária no país e sua relação com o desmatamento do bioma Cerrado as expõe a altos riscos. Com base em uma pequena amostra de fornecedores diretos que a CRR mapeou anteriormente, houve 1.984 ha de desmatamento em propriedades que abastecem diretamente a JBS. Casos semelhantes vincularam os fornecedores da Marfrig e do Minerva a 531 ha e 328 ha de desmatamento, respectivamente. Isso se baseia em uma pequena amostra de fornecedores do Cerrado. As pegadas reais de desmatamento dos frigoríficos são muito maiores. A CRR informou recentemente que desde 2008, 20.296 ha foram desmatados na amostra da cadeia de suprimentos direta da JBS e 56.421 ha na cadeia de suprimentos indireta. Do desmatamento na cadeia de abastecimento direto da JBS, aproximadamente 71 por cento (14.783 ha) ocorreram no bioma Cerrado, em alguns casos sem as licenças ambientais exigidas. As três empresas assinaram acordos multilaterais de pecuária (G4) e Termos de Conduta Ajustada (TACs) juridicamente vinculativos. No entanto, a implementação do TAC tem lacunas e atrasos significativos e não cobre todos os estados do Cerrado. Atualmente, a maioria dos varejistas monitora seus fornecedores diretos de carne bovina, mas as fazendas indiretas apresentam alto risco de lavagem de gado e vazamento de não signatários do TAC.

Figura 7. Casos JBS, Marfrig e Minerva de desmatamento de fornecedores diretos no Cerrado em 2020

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, INPE, INCRA

Varejistas expostos ao desmatamento do Cerrado em 2020

As cadeias de abastecimento de carne do Grupo Casino, Carrefour e Cencosud estão ligadas a pelo menos 2.189 ha de desmatamento do Cerrado em 2020. Os supermercados no Brasil são um canal de distribuição crucial para a carne bovina, e 76% da carne produzida no Brasil é consumida no mercado interno. Entre as cinco maiores redes de supermercados do Brasil, Carrefour Comércio e Indústria, Grupo Pão de Açúcar (GPA) (Grupo Casino como acionista controlador) e Cencosud Brasil respondem por grande parte da carne bovina vendida no Brasil. Para este estudo, CRR rastreada a origem dos produtos amostrados carne vendida no GPA lojas , Carrefour / Atacadão   lojas , e Cencosud owned- supermercados. O estudo estabeleceu elos da cadeia de suprimentos entre supermercados e frigoríficos nos biomas Amazônia e Cerrado. Uma amostra de fornecedores diretos para os frigoríficos identificados foi determinada usando licenças de transporte de animais para calcular a exposição ao desmatamento desses varejistas no Cerrado em 2020. No monitoramento de eventos de desmatamento em 2020, a CRR identificou 1.237 ha de desmatamento do Cerrado vinculado ao Grupo Casino. Da mesma forma, uma amostra representativa de casos relacionou o Cencosud a 605 ha de desmatamento e o Carrefour a 347 ha, todos no Cerrado. Produtos de carne bovina originados de áreas de expansão agrícola ou pontos críticos de desmatamento, como a região do Matopiba (Figura 1), apresentam risco elevado de desmatamento para os varejistas.

Figura 8: Casos de desmatamento do Cerrado em 2020 vinculados às cadeias produtivas de carne do Grupo Casino, Carrefour e Cencosud

Fonte: Chain Reaction Research, Reporter Brasil, INPE, INCRA

As estratégias existentes para eliminar o desmatamento são insuficientes para atender aos compromissos das empresas

As empresas enfrentam vários riscos de negócios decorrentes da exposição contínua ao risco de desmatamento. Em janeiro de 2021, um relatório do CRR agregou riscos físicos e de transição enfrentados por empresas que não conseguem eliminar o desmatamento de suas cadeias de abastecimento. Abaixo está um resumo dos riscos que as empresas que operam no Cerrado enfrentam:

  • Os riscos físicos são mais relevantes para empresas upstream, como a SLC Agrícola. A eliminação da vegetação nativa com a expansão da soja interrompeu os sistemas de água do Brasil. O aumento das secas, o comportamento irregular do rio e as mudanças nos padrões de chuva resultaram em perdas de produtividade e podem levar a uma redução ainda maior da aptidão agrícola das fazendas na região do Cerrado.
  • Os riscos políticos e jurídicos afetam os atores intermediários e posteriores. Na UE, o segundo maior mercado para a soja brasileira, uma proposta em análise visa reduzir a pegada de desmatamento da UE por meio de medidas regulatórias e não regulatórias. Na França, a lei “Devoir de Vigilance” exige que as empresas implementem planos de due diligence que evitem os direitos humanos adversos e impactos ambientais em suas cadeias de abastecimento globais. No Reino Unido e na Alemanha , a legislação para cadeias de suprimentos de commodities livres de desmatamento também está sendo considerada. Em 2020, o Grupo Casino enfrentou riscos legais sob a lei do Dever de Vigilância da França após relatórios do CRR, Envol Vert e Mighty Earth que revelaram evidências de exposição ao risco de desmatamento.
  • O risco de acesso ao mercado tem maior impacto sobre os atores upstream e midstream. No ano passado, houve um aumento no número de empresas excluindo commodities brasileiras das cadeias de abastecimento globais. Uma carta pública de 160 signatários da Declaração de Apoio ao Manifesto do Cerrado exigia que os comerciantes de soja parassem de comprar soja de áreas no Cerrado desmatadas após 2020. Empresas europeias e varejistas franceses também ameaçaram boicotar a soja brasileira. As empresas Nestlé , VF CorpH&M e empresas norueguesas de frutos do mar tomaram medidas para excluir as commodities brasileiras de suas cadeias de abastecimento.
  • O risco de reputação afeta significativamente as empresas downstream e pode evoluir para riscos de financiamento para empresas midstream. Campanhas da sociedade civil e investigações jornalísticas têm como alvo atores de midstream, como Cargill , Carrefour e JBS . Em 2020, a Nordea Asset Management excluiu a JBS de todos os ativos que vende e relatos dizem que os analistas do HSBC “soaram alarmes” sobre os riscos de investir na JBS devido ao desmatamento em sua cadeia de suprimentos. Para as empresas downstream, a CRR concluiu que os eventos de reputação podem impactar o valor de uma empresa em 30 por cento.

Apesar do aumento dos riscos da exposição ao desmatamento, os compromissos e a implementação das principais empresas deixam lacunas que permitem que estejam continuamente vinculadas ao desmatamento.

Figura 9: Respostas variadas ao risco de desmatamento entre setores

Fonte: Chain Reaction Research, sites da empresa

Os compromissos de desmatamento dos produtores de soja têm limites e lacunas de implementação variados, resultando em ligações diretas contínuas com o desmatamento. A SLC Agrícola se   comprometeu a conter o desmatamento do Cerrado até o final de 2020, mas continuou a limpar a vegetação nativa. Da mesma forma, a política de desmatamento zero da Nuveen proíbe compras de terras agrícolas do Cerrado desmatadas de vegetação nativa a partir de maio de 2009, mas evidências de desmatamento ainda são observadas em suas propriedades. Com relação à divulgação, a SLC informa que tem como meta reduções de até 25% em suas emissões de GEE até 2030. Parece que a empresa não está no caminho para cumprir sua meta, com as emissões do Escopo 1 tendendo para cima em grande parte devido às emissões agrícolas. Nuveen realiza auditorias em suas fazendas e relatórios sobre soja certificada. No entanto, tanto a SLC Agrícola quanto a Nuveen não informam sobre o progresso no cumprimento de seus compromissos de desmatamento zero e não divulgam as ações tomadas para resolver os desvios de seus compromissos.

As políticas de sustentabilidade dos comerciantes de soja continuam abrindo espaço para o desmatamento no Cerrado. Como membros do Soft Commodities Forum (SCF), ADM, Bunge, Cargill, LDC e Cofco “se comprometeram a eliminar o desmatamento de suas cadeias de abastecimento”. No entanto, com exceção da Bunge, as políticas de desmatamento dos comerciantes não abordam o desmatamento legal no Cerrado e não têm uma data limite para o desmatamento. O compromisso da Bunge é alcançar “cadeias de valor livres de desmatamento em todo o mundo até 2025”, o que “se estende a áreas onde a conversão de vegetação nativa é legalmente permitida”. Sobre rastreabilidade, o SCF se comprometeu a desenvolver uma estrutura comum para relatar a rastreabilidade da soja, com foco inicial em 25 municípios do Cerrado. Os municípios selecionados representam 44% da vegetação nativa do Cerrado convertida em soja. Em 2020, os comerciantes relataram ter alcançado 100 por cento de rastreabilidade para fazenda para os 25 municípios. A estrutura de relatório do SCF não inclui padrões de divulgação que exigem que as empresas relatem sobre os fornecedores e se os volumes de compra estão em conformidade com as políticas de desmatamento das empresas. A maioria dos comerciantes permaneceu exposta a um aumento incêndios em suas regiões de abastecimento em 2020, com a Bunge e a Cargill tendo o maior risco. Apesar do alto risco de incêndios, os comerciantes não têm uma “política de não queima” que se aplica à sua cadeia de abastecimento de soja, apenas para o óleo de palma.

Os três principais frigoríficos monitoram as cadeias de suprimentos diretas, mas permanecem expostos à alta exposição ao risco de desmatamento em suas cadeias de suprimentos indiretas.As cadeias de abastecimento de gado são extremamente complexas, muitas vezes envolvendo várias transações na criação e produção de gado. Em média, uma única transação com um fornecedor direto inclui compras de 15 fornecedores indiretos. Em 2020, JBS e Marfrig anunciaram compromissos para monitorar suas cadeias de suprimentos indiretas, mas o progresso e a eficácia ainda precisam ser vistos. Além da conformidade dos fornecedores indiretos com as políticas, a qualidade e o cronograma das políticas dos frigoríficos também estão sob escrutínio. Por meio de Termos de Ajuste de Conduta (TACs) juridicamente vinculativos), os frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva se comprometeram a não comprar gado de áreas desmatadas ilegalmente, terras indígenas, unidades de conservação ou áreas vinculadas ao trabalho forçado. No entanto, esses acordos são limitados aos estados amazônicos e não se estendem ao Cerrado. Sobre os prazos de compromisso, a Marfrig tem como meta o desmatamento zero em todos os biomas até 2030 (2025 para a Amazônia). Mais recentemente, a JBS se comprometeu a eliminar o desmatamento ilegal em todos os biomas brasileiros até 2030 e atingir o desmatamento zero nas cadeias de abastecimento globais até 2035. Prazos prolongados deixam as empresas expostas a um risco crescente de desmatamento. Junto com os dados apresentados neste relatório, investigações em 2020 revelaram que todos os três frigoríficos continuam vinculados ao desmatamento no Cerrado, com vários casos de desmatamento não autorizado.

As maiores redes de supermercados no Brasil têm compromissos de desmatamento variados, mas a maioria tem escopo limitado e falta divulgaçãoCarrefour e Casino são signatários do Manifesto do Cerrado, e ambos têm compromissos de desmatamento zero e sistemas de georreferenciamento para monitorar fornecedores Tier 1 e Tier 2. No entanto, a implementação da política do Carrefour e as metas de rastreabilidade se aplicam apenas a produtos de carne bovina não processados, deixando produtos de carne processados ​​ou congelados totalmente sem monitoramento. As políticas do GPA e do Cencosud que visam mitigar o risco de desmatamento são limitadas apenas para o bioma Amazônia sem ações para conter o desmatamento no Cerrado. Outros biomas, como a região do Pantanal no Brasil, também não são cobertos pela maioria das políticas de sustentabilidade. Casino e Carrefour foram recentemente associados ao desmatamento no Pantanal. Nenhum dos varejistas tem um cronograma específico para seus compromissos. O prazo de desmatamento zero do Carrefour para 2020 não foi cumprido e ainda não foi divulgada uma nova meta. Ainda não está claro como os varejistas planejam aumentar a transparência indireta da cadeia de suprimentos. Apenas o Carrefour divulga rastreabilidade de fornecedores Tier 2, mas apenas para carne bovina (não de soja) e não divulga o progresso no monitoramento de fornecedores indiretos mais distantes em sua cadeia de suprimentos.

Comerciantes de soja, frigoríficos e varejistas não divulgam como as políticas de desmatamento são atendidas em suas cadeias de abastecimentoEstruturas existentes, como a Estrutura de Commodities Sustentáveis e iniciativas recentes anunciadas pelos frigoríficos JBS e Marfrig, enfatizam a rastreabilidade e o monitoramento do fornecedor. Outras iniciativas de rastreabilidade , como a Good Growth Partnership, apontam que a rastreabilidade não é um fim em si mesma e deve ser usada para permitir o cumprimento dos compromissos das empresas. O aumento do foco na rastreabilidade ignora a divulgação necessária sobre as ações tomadas pelas empresas em todos os setores para suspender fornecedores não conformes e cumprir suas promessas de sustentabilidade.

Os investidores enfrentam riscos financeiros significativos de exposição contínua ao desmatamento

Em vários níveis, investidores e bancos estão envolvidos no financiamento dos principais desmatadores do Cerrado, expondo-os a riscos financeiros materiais.Os financiadores podem ser expostos por meio de empréstimos, obrigações, participações e serviços de subscrição. Esses instrumentos financeiros, que os conectam a proprietários de terras, agricultores, comerciantes, processadores de carne e soja, bem como varejistas de alimentos, podem levar a riscos financeiros. As perdas financeiras potenciais podem ser vinculadas ao risco de acesso ao mercado, risco operacional, risco de ativos perdidos, risco de financiamento e risco de reputação.

Em uma análise recente, a CRR concluiu que 74% da soja e do gado brasileiros são financiados por instituições financeiras locais.De 2013 a 2020, o financiamento dos setores de carne bovina e soja no Brasil totalizou US $ 100 bilhões. O financiamento total é muito maior, mas esses números são ajustados para contabilizar apenas a participação da soja e da pecuária no Brasil. De acordo com a base de dados Florestas e Finanças, os empréstimos totalizaram US $ 82 bilhões, as subscrições US $ 13 bilhões, as ações US $ 5 bilhões e os títulos US $ 1 bilhão. As instituições financeiras estrangeiras forneceram (ajustados) US $ 14,5 bilhões para o setor de carne bovina e US $ 11,2 bilhões para a indústria da soja. Santander, Rabobank, HSBC e JPMorgan Chase, todos com políticas para conter o desmatamento, estão entre os 25 maiores financiadores. políticas para conter o desmatamento estão entre os 25 maiores financiadores.

Figura 10: Total de financiamento identificado por região de origem (em milhões de dólares) – ajustado

Fonte: forestandfinance.org, a região “Europe Other” consiste principalmente no Reino Unido, Noruega e Suíça; ajustadores são aplicados para a exposição específica à carne bovina e soja brasileiras.

Muitas instituições financeiras são signatárias do Manifesto do Cerrado e têm políticas voltadas para conter o desmatamento. As instituições financeiras sediadas na UE ou que investem em empresas da UE com elos da cadeia de abastecimento com o desmatamento enfrentarão uma regulamentação muito mais rígida sobre o desmatamento.O Manifesto do Cerrado pede a suspensão do desmatamento e a perda da vegetação nativa no Cerrado. Atualmente, investidores que representam US $ 6,3 trilhões de investimentos globais assinaram a Declaração de Apoio ao Manifesto do Cerrado, que também foi assinada pelas principais empresas de produtos de consumo rápido, incluindo varejistas. Na Europa, o Regulamento de Divulgação de Finanças Sustentáveis (SFDR), que entrou em vigor em 10 de março de 2021, deve levar a uma maior transparência sobre os riscos de sustentabilidade e questões sobre o financiamento de commodities que levam a danos ambientais. Faz parte do Quadro de Finanças Sustentáveis ​​mais amplo da UE, que é apoiado por um amplo conjunto de regulamentações novas e aprimoradas que serão aplicadas em todo o bloco de 27 países. O SFDR está alinhado com o Plano de Ação de Financiamento Sustentável, que visa promover o investimento sustentável e uma nova taxonomia da UE para criar condições de concorrência equitativas em toda a UE. Com um sistema obrigatório da UE de devida diligência para cadeias de abastecimento , essas regulamentações estão inseridas em um ambiente de Acordo Verde europeu.

No grupo de fazendeiros e proprietários de terras dos principais desmatadores, a SLC Agrícola e a Nuveen são financiadas por instituições financeiras estrangeiras com políticas florestais. A JJF Holding, por sua vez, carece de transparência financeira.A SLC Agrícola tem como principais clientes a Cargill e a Bunge e seus principais negócios são a agropecuária e a agropecuária. A empresa é detida maioritariamente pela SLC Participações SA, com vários investidores europeus com políticas de desmatamento zero detendo participações minoritárias. Nos últimos anos, o Fundo de Pensão do Governo norueguês vendeu sua participação na empresa. No entanto, a APG é o sexto maior acionista externo da SLC Agrícola com uma exposição (ajustada) de US $ 12 milhões. A Forests & Finance mostra que a empresa é financiada principalmente por entidades brasileiras.

Nuveen, gestora de ativos da TIAA, é proprietária de terras no Brasil. A falta de transparência na complexa rede de investimentos da Nuveen pode colocar os investidores nos fundos da Nuveen em conflito com suas políticas de mudança climática, levando a riscos de reputação. Os credores incluem BNP Paribas, Santander, Rabobank e HSBC, e participantes de fundos agrícolas com apólices incluem AP2, Caisse de Dépôt e ABP.

A JJF Holding é uma empresa privada que carece de transparência. Nenhum empréstimo foi encontrado . O risco financeiro pode ser identificado para investidores da Bunge e financiadores da ALZ Grãos e Cargill, que mantêm relações comerciais com a JJF Holding. O corte dos laços comerciais com a JJF Holding protegeria o valor (reputação) para os financiadores desses comerciantes de soja.

Dos comerciantes de soja, ADM, Bunge, Cargill, LDC / Amaggi e Cofco são os atores mais vinculados ao desmatamento no Cerrado. Esses comerciantes são financiados por investidores internacionais. Os acionistas das entidades listadas ADM e Bunge enfrentam riscos financeiros. A exposição da Bunge no Piauí, região onde é líder dominante no mercado, totaliza 1% de seus ativos globais. Embora o risco financeiro de ativos retidos seja baixo, a Bunge enfrenta um alto risco de acesso ao mercado. Esse risco é significativo para o mercado da UE e para os FMCGs que são membros do CGF e assinaram o Manifesto do Cerrado, possivelmente afetando o valor de mercado da Bunge em mais de 20% . ADM é o quinto maior comerciante de soja na região de Matopiba, no BrasilEmbora sua exposição à área de alto risco de produção de soja do Matopiba seja limitada a 1,5 por cento, os riscos de desmatamento do Cerrado podem impactar até 30 por cento de seu valor patrimonial.

Financiadores europeus de títulos e empréstimos bancários para comerciantes de soja de propriedade privada Cargill e LDC enfrentam riscos de reputação e de regulamentação também, seguindo o SFDR. A ligação da Cargill com o desmatamento do Cerrado pode prejudicar seu relacionamento com os membros do CGF, o que pode levar a risco de 6% a 15% do faturamento da Cargill.

No grupo dos frigoríficos, JBS, Minerva e Marfrig estão mais ligados ao desmatamento do Cerrado. São financiados por investidores brasileiros e também estrangeiros.Os investidores europeus já financiaram mais de US $ 10 bilhões para os três maiores frigoríficos brasileiros. Parte de seus negócios pode estar ligada ao Cerrado. A Figura 11 consiste em números não ajustados e se baseia no financiamento de todas as empresas do grupo global. Como os investidores europeus contribuem com 24-32% do financiamento para essas três empresas, eles têm alavancagem para se engajar. Agora que o SFDR foi instalado pela UE, espera-se que o engajamento aumente. Além disso, o custo de capital para os frigoríficos pode aumentar, impactando sua avaliação. Essa avaliação também será impactada pelo risco de acesso ao mercado para JBS, Minerva e Marfrig para a Europa. Respectivamente, 1,4%, 4,6% e 1,8% das receitas globais das três empresas são geradas na Europa. A maioria dos principais financiadores europeus (Barclays, Rabobank, Santander e BNP Paribas) têm políticas de desmatamento zero para a carne bovina ou são muito expressivos (HSBC) têm políticas florestais.

Figura 11: Financiamento Identificado para JBS, Minerva e JBS e exposição a financiadores europeus (milhões de dólares)

Fonte: Chain Reaction Research, Thomson-Eikon, Bloomberg; dados de 3 de junho de 2020; nenhum ajustador foi aplicado.

No varejo de alimentos, Casino Group, Carrefour e Cencosud são líderes na distribuição de carne bovina no mercado brasileiro local. O acesso a financiadores europeus provavelmente se tornará mais difícil. Para todas as empresas, o mercado brasileiro é parte relevante de suas vendas e rentabilidade. A ligação com o desmatamento pode ter impacto sobre suas vendas em vários mercados locais (receita em risco). Além disso, o Grupo Casino e o Carrefour dependem fortemente de financiamento de instituições sediadas na UE. Gestores de ativos e bancos que se adaptam aos requisitos do SFDR da UE podem impactar o custo de financiamento e avaliações de empresas com ligações com o desmatamento no Cerrado e na Amazônia. 

Em 2020, 60% do financiamento identificado do Grupo Casino se originou de investidores europeus. Se os investidores europeus exigirem um aumento de 25 pontos-base no rendimento, as despesas extras serão iguais a 9% do lucro antes dos impostos do Grupo Casino.

Figura 12: Financiadores identificados do Grupo Casino, GPA e empresas relacionadas (milhões de dólares)

Fontes: Chain Reaction Research, Refinitiv, Bloomberg

Um impacto muito maior viria do risco de perda de valor da reputação. A escalada dos riscos, caso nenhuma ação fosse tomada, poderia ser de tamanho significativo, totalizando 83% do valor patrimonial do Grupo Casino naquela época em 2020.

Figura 13: Resumo dos impactos financeiros em vários cenários

Fonte: Chain Reaction Research

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Chain Reaction Research  [Aqui!].

Agronegócio esquizofrênico: supersafras bilionárias e um povo faminto

O Ministério da Agricultura comemora a supersafra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos. E a fome cada vez mais ronda famílias brasileiras

fome-no-brasilA China compra 80% da soja produzida no Brasil. A maior parte vai para a produção de ração para bovinos, suinos e aves

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – O Ministério da Agricultura está exultante com a safra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos anunciada esta semana. Isso porque o resultado recorde representa 15,4 milhões de toneladas a mais que na safra 2019/2020. Um feito e tanto em tempos de pandemia de covid-19, que esfriou a economia ao afetar negócios e empregos e levar o país a um tombo de 4,1% em seu PIB, que já estava encolhido. E mais grave ainda: empurrou milhões de brasileiros para situação de pobreza extrema e de fome.

O milho teve uma produção recorde, de 108 milhões de toneladas, e com isso deve superar em 5,4% a safra anterior, diz o Ministério. No caso da soja, segue a tendência de crescimento na área cultivada, e ainda pode crescer 4,1%, com 135,1 milhões de toneladas. Já o arroz e o feijão de cada dia, que são base da dieta dos brasileiros, não alcançam tais patamares. Foram apenas 3,3 milhões de toneladas de feijão e 11 milhões de toneladas de arroz.

“Salvação da lavoura”

Há anos a agropecuária é considerada a “salvação da lavoura” quando o assunto é produção, exportações e balança comercial. Beneficiado por subsídios, como descontos e isenção de ICMS e de imposto de importação, fora o perdão de PIS e Cofins, o setor se acha. Tanto puxa brasa para a sua sardinha que se autointitulou “pop, tech e tudo”. E com tudo isso, a fome aumenta no país das supersafras e volta a assombrar milhões de brasileiros. Como isso é possível?

Dois anos antes da pandemia, entre junho de 2017 e julho de 2018, mais de 10 milhões de pessoas já não tinham o que comer conforme a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE. Desse total, perto de 8 milhões moravam na zona urbana e pouco mais de 2 milhões na zona rural, onde a rigor se produzem alimentos. 

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Entre 2017 e 2018, 10 milhões de pessoas já não tinham o que comer. Inação do governo na pandemia agravou a situação da fome no país. (Arquivo/Agência Brasil)

De acordo com a pesquisa, a insegurança alimentar grave – quando a pessoa relata passar fome – atingiu em cheio 4,6% das famílias brasileiras, o equivalente a 3,1 milhões de lares. E ainda segundo o IBGE, o quadro vem piorando. Aumentou 43,7% em cinco anos.  

Mais desigualdade

A tendência é que tenha se agravado com a pandemia, pois esta ao chegar já encontrou um Brasil marcado pelo aprofundamento da desigualdade social a partir do golpe de 2016. “Parte significativa dos trabalhadores está sem a proteção social do trabalho formal devido à crise estrutural do capitalismo”, destaca a socióloga Sirlândia Schappo. Professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sirlândia observa que essa crise de dimensões globais assola o país mais intensamente a partir de 2014. Em seu artigo “Fome e insegurança alimentar em tempos de pandemia da COVID-19“, ela assinala: “O reflexo imediato foi a ampliação do trabalho informal, que passou de 39,1% da população ocupada em 2014 para para 41,5% em 2018, segundo o IBGE”.

Ainda segundo Sirlânia, a pandemia pode ter ampliado em 56% a pobreza em países como o Brasil, como prevê a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Trabalhadores domésticos perderam o emprego. E, sem o apoio de políticas sociais, se viram diante da subnutrição e da falta de serviços básicos, como saneamento básico e saúde.

Plano safra

Logo que assumiu, o governo Bolsonaro apresentou um Plano Safra para 2019/2020 que já sinalizava as dificuldades que viriam pela frente. Dos R$ 225,59 bilhões destinados à agropecuária, o crédito rural ficou com R$ 222,74 bilhões. O problema é que desse montante, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) recebeu apenas R$ 31,22 bilhões. Como custear a produção e a comercialização?

“A partir de 2016, com o golpe e a Emenda 95, do teto de gastos, as políticas sociais e programas de transferência de renda foram sendo esvaziadas. Equipamentos de segurança alimentar, como banco de alimentos, foram fechados. Assim que tomou posse, Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) não foi extinto, mas tem orçamento ridículo, de R$ 500 milhões. Esse montante, aliás, resulta de muita pressão das organizações da agricultura familiar durante a pandemia. Mas mesmo assim, esse orçamento ainda insuficiente não foi totalmente executado”, disse à RBA a assessora de Direitos Humanos da Fian BrasilNayara Côrtes.

combate à fomePequenos agricultores têm sido atacados. Alternativa econômica de geração de trabalho e renda e combate à fome não está na agenda do governo de Bolsonaro (Itesp)

Mais golpes

Para piorar, Jair Bolsonaro escolheu a agricultura familiar como inimiga. Além de ter excluido esses trabalhadores do auxilio emergencial de R$ 600, vetou quase que integralmente o Projeto de Lei (PL) 735/20. Apresentado em abril e só aprovado em agosto, foi quase que integralmente vetado, pois, de 20 itens, 17 foram derrubados.

Entre os pontos vetados estão o auxílio emergencial no valor de R$ 600 pagos em cinco parcelas, como aos trabalhadores urbanos, recursos para compras públicas pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), renegociação e adiamento de dívidas e linhas de crédito emergenciais. Tudo o que era considerado essencial pelos agricultores. Até hoje é aguardada apreciação dos vetos, que depende de muita pressão para ser pautada.

Para Bolsonaro, não há previsão financeira para essas ações. No entanto, o governo concedeu benefícios ao agronegócio, facilitando o acesso a crédito e a financiamento de dívidas de grandes produtores e desoneração do segmento em contribuições à Seguridade Social.

Segundo levantamento da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e pelo Fórum Brasileiro pela Soberania e Segurança Alimentar (FBSSAN), em 2019 o rendimento total da agricultura familiar foi de aproximadamente R$ 27 milhões. O número de produtores de alimentos era 4,5 mil. Até setembro de 2020, os mesmos produtores venderam o equivalente a R$ 3,6 milhões.

Sem recursos para plantar

“Muitos não têm recursos para plantar e muitas vezes falta o que comer”, disse Nayara Côrtes. “Levamos anos para construir uma política de segurança alimentar para ser totalmente desconstruída em pouco tempo. E pensar que em 2014, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil saiu do Mapa Mundial da Fome para voltar 6 anos depois.”

O retrocesso é tão grande que há no Congresso a proposta de votação em regime de urgência de um projeto de interesse das indústrias. Trata-se do PL 3.292/2020, de autoria do deputado federal Vitor Hugo (PSL-GO), que propõe mudar o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Entre as mudanças, abolir a compra de alimentos, da prioridade dada a comunidades tradicionais indígenas e de remanescentes de quilombos.

E a supersafra?

Conforme os autores do Atlas do Agronegócio – Fatos e números sobre as corporações que controlam o que comemos –, não é de hoje que o discurso do combate à fome é utilizado para alavancar o desenvolvimento tecnológico com fins prioritariamente comerciais. Assim, a aplicação de mais tecnologia na produção agrícola é difundida como a única solução capaz de eliminar a escassez de alimentos e a carência de nutrientes.

Na realidade, porém, as supersafras servem apenas para dar lucro, e não para matar a fome da população. Nessa perspectiva, toneladas e toneladas de soja, milho, cana e outras commodities têm como destino o mercado mais lucrativo no momento, seja a produção de alimentos, agrocombustíveis ou ração para bovinos, suínos e aves. Esta aliás, tem sido a principal aplicação da soja comprada pela China, que corresponde a 80% da produção brasileira. É preciso alimentar a fome dos novos padrões alimentares adotados pelos chineses; ninguém come tanta soja assim.

Ironicamente, esse sistema alimenta a fome e a subnutrição. E por outro lado, o crescimento da obesidade, transtornos alimentares diversos e doenças crônicas. “Da mesma forma, as desigualdades e as injustiças socioambientais também fazem parte das contradições desse modelo em que a comida aparece como mercadoria, e a fome como um negócio com segmentos diversificados, que vão da ausência ao excesso”, dizem os autores do Atlas.

Engordar lucros

O cultivo de soja ou outros grãos nos latifúndios que avançam sobre assentamentos e terras indígenas e de povos tradicionais, ou nas lavouras que invadem a Amazônia, assim como o gado, não vão matar a fome daqueles que ainda possa comprar comida no Brasil. E sim engordar o lucro de empresas de exportação e importação desses produtos. É o caso da Archer Daniels Midland, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Company. E também das empresas de sementes transgênicas e agrotóxicos, como a Bayer, dona da Monsanto, a Basf, Dow e outras.

A saída, segundo especialistas, está em novas práticas que contribuam não apenas para a produção de alimentos e a soberania alimentar. Mas também com a produção sustentável de alimentos de verdade, livres de venenos, com a reconexão com a natureza, com respeito a quem produz e com a democratização do acesso ao direito à terra.

Terminal da Cargill Amsterdam, Holanda. Contraste com um mundo de fome (Alf van Beem/Wikimedia Commons)

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Este texto foi publicado originalmente pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Chance de reduzir desmatamento está nas mãos de apenas sete empresas de investimento, aponta relatório

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  • Os fundos ETFs (exchange-traded funds) e os fundos de índice são algumas das ferramentas de investimento mais populares disponíveis tanto entre investidores individuais quanto institucionais.

  • Algumas poucas empresas de gestão de ativos controlam entre 60% e 70% desses fundos, de acordo com um relatório recente da think tank financeira Planet Tracker.

  • A análise da Planet Tracker descobriu que US$ 9,3 bilhões de ETFs são investidos em 26 empresas envolvidas com o comércio de soja e ligadas ao desmatamento.

  • O relatório conclui que as empresas financeiras nas quais as ETFs e os fundos de índice estão concentrados são fundamentais para combater o apoio financeiro ao desmatamento.

Por John C. Cannon em 9 Março 2021 | Traduzido por Carol de Marchi

Os fundos negociados em bolsa, ou ETFs, varreram o mundo financeiro, chegando a um valor coletivo de 6,7 trilhões de dólares no segundo semestre de 2020. Um ETF é uma espécie de híbrido entre uma ação facilmente negociável de uma única empresa e um fundo mútuo diversificado e de baixo custo que espalha o risco do investidor entre uma seleção de diferentes empresas.

Aparentemente uma solução ideal e atrativa tanto para investidores individuais quanto institucionais, essa prática equivale a apoiar o desmatamento e outros danos ambientais, de acordo com um relatório recente da think tank financeira Planet Tracker, sediada em Londres.

O relatório descobriu que 70% do mercado de ETFs está nas mãos das empresas financeiras americanas BlackRock, State Street Global Advisors e Vanguard. A respeito dos fundos de índice — que rastreiam os principais indicadores do mercado, como o S&P 500 em Nova York ou o FTSE em Londres e que possuem muitos ETFs vinculados a eles —, quatro empresas detêm 60% do mercado. Os principais participantes são Bloomberg, MSCI e S&P Dow Jones, sediadas nos EUA, e a FTSE Russell, baseada no Reino Unido.

Esse nível de influência significa que essas empresas têm uma enorme oportunidade de diminuir o apoio financeiro para as empresas que desmatam florestas — se elas optarem por fazê-lo, segundo John Willis, principal autor do relatório.

Land recently cleared to make way for oil palm in Indonesia. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.

Terra desmatada para dar lugar a plantação de palma na Indonésia. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

Os fundos de índice, e especialmente os ETFs, têm crescido em popularidade nas últimas décadas. O investimento total nestes produtos em 2020 foi cinco vezes maior do que em 2010. “Eles ainda estão crescendo a um ritmo fenomenal”, observa Willis.

Para se ter uma ideia da escala de apoio das ETFs ao desmatamento, Willis e seus colegas analisaram 26 empresas de capital aberto que produzem ou processam soja, e que também possuem vínculos com o desmatamento segundo uma lista ranqueada de empresas compilada pela plataforma de pesquisa Deforestation-Free Funds. A produção de soja está logo atrás da criação de gado como a maior força por trás do desmatamento nos trópicos, causando a perda de meio milhão de hectares de floresta a cada ano. A análise da Planet Tracker revelou investimentos no valor de US$ 9,3 bilhões de ETFs nessas empresas em meados de 2020.

Como esses mercados estão altamente concentrados nas mãos de apenas algumas empresas, eles “juntos têm poder desproporcional para atenuar o risco de desmatamento (bem como outros riscos de capital natural) no mercado de ETFs”, escrevem os autores do relatório da Planet Tracker. 

Cattle, pictured here in the Bolivian Chaco, are the primary driver of tropical forest loss. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.

Rebanho bovino no Chaco boliviano; a pecuária é a principal responsável pela perda de cobertura de floresta tropical no mundo. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay

Redução imediata do desmatamento

Willis e seus colegas argumentam que esses gerentes de ativos deveriam livrar-se rapidamente de “empresas ligadas ao desmatamento em suas ofertas de produtos”. Eles também defendem os direitos dos consumidores de saber para onde seu dinheiro está indo.

Com os fundos de índice, essa transparência é descomplicada. Um investidor em um fundo de índice S&P 500 possui fatias de todas as 500 empresas que compõem o indicador mais conhecido do mercado de ações dos EUA. Como o mercado de ETF cresceu — e com ele a concorrência para clientes que procuram investimentos fáceis e de baixo custo —, as empresas financeiras desenvolveram instrumentos por vezes complicados a fim de obter os maiores retornos. As escolhas de investimentos feitas pelos gerentes acabam ficando camufladas nesses fundos, da mesma forma que a Coca-Cola protege a receita de seu refrigerante. A justificativa é que sua mistura especial de empresas é um segredo de propriedade que eles não querem que outras empresas de investimento roubem, nem querem avisar outros investidores sobre grandes ordens de compra ou venda que possam estar chegando.

“Essa falta de clareza significa que os investidores não têm como saber se esses fundos estão apoiando empresas com desmatamento em suas cadeias produtivas”, afirma Willis. “Como investidor, a primeira coisa que eu acho que preciso saber é: o que estou comprando? Porque em muitos casos, eu não comprarei”.

Para Willis a questão da escolha está relacionada à transparência. As empresas financeiras poderiam — e até certo ponto o fazem — fornecer fundos que não incluam investimentos em empresas que prejudiquem o meio ambiente, normalmente sob uma categoria conhecida como ESG, abreviação de Ambiental, Social e Governança (corporativa), em inglês.

De acordo com Willis, os gerentes desses fundos poderiam ir ainda mais longe, usando sua influência para convencer os próprios índices a excluir de suas carteiras as empresas ligadas ao desmatamento. Os investimentos das gestoras de ativos se espalham em muitos setores da economia. “Com essa abrangência, elas também têm a capacidade de orientar a direção dessas empresas”, escreve a equipe da Planet Tracker. Como outros acionistas, elas podem votar em propostas que tratem de questões como o desmatamento. Até recentemente, no entanto, os gerentes da ETF têm se mantido, em grande parte, fora dessa discussão.

Os autores do relatório apontaram para as descobertas das ONGs Profundo e Friends of the Earth U.S. analisando o impacto das empresas de gestão de ativos após o Fórum de Bens de Consumo, uma rede mundial de empresas sediada na França, comprometida em 2012 com o desmatamento líquido zero para seus países membros até 2020. As pesquisas das ONGs revelaram que, até setembro de 2020, BlackRock, State Street e Vanguard haviam se abstido ou votado contra 16 resoluções de acionistas destinadas a combater o desmatamento nas cadeias de fornecimento dessas empresas. 

Deforestation for soy plantations in the Peruvian Amazon. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.

Desmatamento para plantação de soja na Amazônia peruana. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

A resposta

Várias das empresas financeiras listadas no relatório da Planet Tracker disseram à Mongabay que estão trabalhando para gerar mudanças.

“A equipe de Administração de Investimentos se envolve regularmente com executivos e conselhos, incluindo discussões com empresas relevantes sobre desmatamento e seus riscos para a sustentabilidade empresarial a longo prazo”, disse um porta-voz da Vanguard por e-mail. “Se uma empresa não fizer progressos para enfrentar tais riscos, nós os responsabilizaremos para promover e proteger o valor a longo prazo para nossos investidores.”

Um porta-voz da S&P Dow Jones disse que ela monitora “a evolução do mercado e a demanda dos investidores” para desenvolver novos índices adequados às exigências de seus clientes. “Por exemplo, oferecemos índices focados no meio ambiente destinados a atingir certas metas de sustentabilidade e excluímos empresas que não atingem essas metas”, disse o porta-voz da S&P por e-mail.

A Bolsa de Valores de Londres recusou-se a comentar o relatório. A Bloomberg, MSCI e State Street não responderam aos pedidos de entrevistas ou comentários.

Até o momento, poucos líderes financeiros participaram mais da conversa em torno do crescente mercado de ESG do que Laurence D. Fink, fundador e CEO da BlackRock. Em 2020, sua carta anual aos CEOs das empresas nas quais a BlackRock está investindo se concentrou na mudança climática, e especificamente em como ela afetará os balanços.

“Os investidores estão cada vez mais considerando estas questões e reconhecendo que o risco climático é um risco de investimento”, escreveu Fink.

No ano seguinte, a BlackRock diz ter acrescentado 51 ETFs de índice com foco no ESG a seu menu, com o objetivo de alcançar 150 ofertas desse tipo. (No final de janeiro de 2021, ela tinha 141 “soluções” ESG, de acordo com o site da empresa). Fundos como a Economia Circular BGF  prometem aos investidores que 80% de seu dinheiro irá apoiar as empresas que fazem parte da ética da “economia circular” minimizadora de resíduos. Os gestores do fundo também não compram participações em empresas relacionadas a petróleo, carvão e gás.

Recently cleared forest in the Bolivian Chaco for soy plantations. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.
Floresta recém desmatada no Chaco boliviano para cultivo de soja. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

Em uma entrevista ao Aspen Times logo após a carta de Fink ter sido publicada em 2020, o ambientalista e autor Bill McKibben observou “a notícia bastante notável de que, após a pressão inflexível dos ativistas, a BlackRock está agora intensificando seus esforços para pelo menos começar a fazer algo a respeito da mudança climática”.

“Precisamos de muito mais do que isso”, acrescentou McKibben.

Ainda assim, Fink e a BlackRock foram criticados por não se movimentarem antes para abordar o apoio financeiro a emissores de CO2 e empresas de combustíveis fósseis. A recente preocupação da empresa em questões de ESG foi chamada de nada mais do que uma lavagem verde“.

Uma investigação realizada em 2020 pelo site de jornalismo ambiental ((o))eco descobriu que a BlackRock tinha investido mais de US$ 400 milhões através de vários fundos nos três maiores frigoríficos do Brasil. Coletivamente, as operações de gado da JBS, Marfrig e Minerva foram ligadas a 69 mil quilômetros quadrados de terra  sob o risco de desmatamento na Amazônia.

Além disso, uma investigação realizada pela Mongabay América Latina e Repórter Brasil revelou que a BlackRock investiu quase US$ 10 milhões na JBS, o maior exportador de carne do mundo, através de seu fundo Carbon Efficient Index. Embora não esteja na lista da BlackRock de ETFs de ESG, este fundo acompanha um índice brasileiro para empresas que adotam “práticas transparentes em relação às suas emissões de gases de efeito estufa”, de acordo com a ficha da BlackRock. Os documentos informativos do fundo não fazem nenhuma menção aos gases de efeito estufa contendo carbono emitidos como resultado do desmatamento.

Forest clearance in Bolivia for soy plantations. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.

Desmatamento florestal para plantações de soja na Bolívia. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay

Desmatamento em segundo plano

Ainda assim, a carta de Fink de 2021 foi muito esperada, refletindo a influência do maior gestor de ativos do mundo e sua carteira de 7 trilhões de dólares. Fink se baseia no conceito de zero líquido, no qual as empresas e os países trabalham para equilibrar suas emissões de carbono, ao mesmo tempo em que afirmam que é possível, sim, fazer dinheiro nessa mudança.

“Acreditamos também que a transição climática apresenta uma oportunidade histórica de investimento”, escreveu ele.

No entanto, não há qualquer menção ao desmatamento na carta deste ano nem na missiva de 2020. Após críticas sobre seu registro de voto como acionista, a BlackRock diz ter votado a favor de uma proposta relacionada ao desmatamento na reunião da Procter & Gamble em outubro de 2020. A proposta pediu à P&G que relatasse seus esforços para eliminar suas conexões com o desmatamento e a degradação florestal, especificamente em suas cadeias de fornecimento de celulose de madeira e de óleo de palma.

De forma geral, a BlackRock diz ter votado a favor de oito das nove propostas de acionistas relacionadas ao meio ambiente desde julho de 2020. A BlackRock se recusou a comentar publicamente este artigo.

Como McKibben, Willis afirma que, ainda que possuam os meios para saber quais investimentos acarretam riscos de desmatamento, empresas como a BlackRock têm que ser convencidas por ONGs e ativistas de que vale a pena confrontar cadeias de fornecimento causadoras de desmatamento, como as que produzem o fornecimento mundial de óleo de palma, borracha, madeira, gado e soja.

“Eles poderiam se dar ao luxo de fazer a pesquisa para fazer isso”, disse Willis. Com essas informações, então, quão complicado seria afastar esse risco de seus portfólios?

“Você poderia apertar um botão”, disse ele, “se você realmente quisesse”.

Imagem do banner: rebanho bovino na Colômbia. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

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Este texto foi originalmente publicado pela agência de notícias Mongabay [Aqui!].

Uma feminista indígena luta contra a destruição de suas terras no Brasil

korap mundurukuFoto: AFP / Yasuyoshi Chiba

Por  Niklas Franzen para o Neues Deutschland

Estranhos passaram muito devagar pela vila em carros com vidros escuros, tirando fotos e enviando um monte de mensagens. As ameaças, diz Alessandra Korap Munduruku, aumentaram nas últimas semanas. “Sua única maneira é eliminar pessoas como eu.”

Korap é uma ativista dos direitos das mulheres e representante do povo indígena Munduruku. A mulher baixa de 36 anos com o rosto tatuado cresceu às margens do Rio Tapajós, no meio da floresta tropical brasileira. Mas a idílica Amazônia está ameaçada: represas e projetos de mineração poluem a natureza, garimpeiros e madeireiros estão penetrando à força em áreas indígenas, cada vez mais áreas florestais estão dando lugar a pastagens de vacas e campos de soja. Pessoas que resistiram são ameaçadas.

Korap diz que é ativista desde que nasceu. Mas por muito tempo ela não se atreveu a falar publicamente. “Não havia lugar para nós, mulheres, nas reuniões da aldeia. Só os homens falavam. ”Mas quando as escavadeiras chegaram e os garimpeiros começaram seus acampamentos em sua área, a mãe de dois filhos falou cada vez com mais frequência. Hoje, diz ela, muitas mulheres estão na linha de frente da luta. Korap é agora uma das faces mais famosas da floresta amazônica, falou em 20 de setembro de 2019 no Portão de Brandemburgo na frente de 270.000 pessoas no comício final da greve climática global. A associação de mulheres Wakoborûn, que ela cofundou, é considerada uma importante voz do feminismo indígena.

Um projeto em particular preocupa Korap e seus colegas: o Ferrogrão. A linha ferroviária planejada para ser construída na área de Munduruku para transportar soja do sul até os portos do rio Tapajós e de lá diretamente para a Europa e China. Numerosas empresas estrangeiras também ganham dinheiro com negócios sujos na Amazônia. Além disso: para cultivar soja, a floresta tropical deve ser desmatada ainda mais. “Os agrotóxicos usados ​​envenenam nosso rio e os peixes”, diz Korap. “O veneno da soja tem consequências terríveis – tanto para os brancos quanto para nós.”

Korap é uma mulher que não mede as palavras: em 2019, ela dobrou políticos de alto escalão em uma sessão parlamentar. Outra vez, ela atacou diretamente uma empresa de mineração. Um vídeo de seu discurso se tornou viral, inúmeras ameaças de morte se seguiram e Korap foi parar nas listas de morte. E não eram apenas ameaças. Pouco depois do discurso,  a sua casa foi arrombada e  parcialmente destruída. Documentos, um cartão de memória e um telefone celular estavam faltando, outros objetos de valor não. Korap tem certeza: “Foi um aviso.” Há muitos pistoleiros na região – gente que é paga para matar. Por um curto período, ela teve que se esconder. Hoje ela evita aparições públicas, não revela seu paradeiro.

O fato de pessoas como Korap terem que temer por sua saúde também tem a ver com um homem: o presidente Jair Bolsonaro. Já durante a campanha eleitoral, o extremista de direita anunciou que nenhum outro centímetro de terra seria designado como área protegida para comunidades indígenas. Ele insultou os indígenas de forma racista e protestou contra os ambientalistas. Desde a posse em 2019, o governo vem reduzindo sistematicamente as medidas de proteção ambiental e lutando pela exploração comercial da floresta amazônica. Recentemente, o governador do estado de Roraima, aliado do clã Bolsonaro, anunciou que aprovaria a mineração de mercúrio na região. “Isso terá consequências devastadoras para os povos indígenas”, diz Korap.

Nesse ínterim, até defensores da feminista indígena são ameaçados, mais recentemente seu advogado. Korap está com medo? “Não devo mais ter medo”, diz ela com segurança. “Porque tenho que ser um modelo para as outras mulheres.” O único medo: perder o país.

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Este texto foi originalmente escrito e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

Dossiê revela série de violações socioambientais das operações da Hidrovias do Brasil no Pará

Documento publicado pelo Inesc, elaborado com base em denúncias de moradores, revela que a empresa não cumpre com as medidas para mitigar os impactos negativos de suas operações na região de Itaituba. Hidrovias tem dentre seus principais investidores a IFC, braço de investimentos do Banco Mundial para o setor privado.

Estação de transbordo e carregamento de barcaças - HBSA - Estrutural Zortea

Enquanto a soja passa: impactos da empresa Hidrovias do Brasil em Itaituba – revela que a empresa de logística Hidrovias do Brasil tem descumprido sistematicamente uma série de medidas que deveriam ser adotadas para mitigação dos impactos negativos de suas operações na região de Itaituba, no Pará, que se transformou nos últimos anos em um importante centro de transporte da cadeia global de fornecimento de commodities ao ligar a rodovia BR-163 com o Rio Tapajós, é que conclui um estudo divulgado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) publicado nesta terça-feira , 23/02.

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Durante a alta safra da soja, cerca de 1500 caminhões transitam diariamente em Miritituba, distrito de Itaituba, onde vivem 15 mil pessoas. O território é peça fundamental na reestruturação da Amazônia brasileira como caminho para a exportação de grãos do Mato Grosso para o Atlântico, com destino para a China, União Europeia e outros países. Atualmente, pelo menos 41 novos portos estão planejados ou em construção para os principais rios da região.

Na região, já foram construídos diversos empreendimentos, como hidrelétricas, hidrovias, garimpos e minas. Desde 2013, pelo menos 10 portos industriais – a maioria ligados ao agronegócio – foram construídos ao redor da cidade de Itaituba. Em Miritituba existem cinco Estações de Transbordo de Carga (ETC), instalações portuárias privadas que escoam os grãos pelos rios Tapajós e Amazonas até os portos Pará e do Amapá. O dossiê analisa os efeitos dos portos na região, com foco na empresa de logística Hidrovias do Brasil (HDB).

A instituição tem entre seus acionistas a Corporação Financeira Internacional (International Finance Corporation – IFC), braço de investimentos do Banco Mundial para o setor privado. A IFC, que é um banco multilateral de desenvolvimento, exigiu que a Hidrovias do Brasil, para receber o investimento, cumprisse com os Padrões de Desempenho sobre Sustentabilidade Socioambiental (PDs), um conjunto de medidas necessárias para impedir, diminuir ou mitigar os efeitos socioambientais negativos da sua atuação na região. 

No entanto, o dossiê do Inesc evidencia que a política socioambiental, aparentemente rigorosa da IFC, não está sendo cumprida pela Hidrovias do Brasil. O relatório produzido por meio de denúncias de moradores de Itaituba e Miritituba, representantes de movimentos sociais, lideranças indígenas, entre outros, analisa detalhadamente cada meta de sustentabilidade que deveria estar sendo executada pela Hidrovias do Brasil e aponta falhas na vistoria da instituição financeira investidora. 

“A Hidrovias do Brasil foi financiada por um banco que tem uma política socioambiental, à princípio, robusta, que envolve um monitoramento da empresa para ter certeza que, se estão previstos impactos negativos, deverão ser mitigados ou compensados. Existem instâncias que podemos apelar ao banco, para que monitore a empresa e faça estas políticas de fato serem cumpridas. Portanto, este dossiê é um primeiro passo para que a IFC retome o monitoramento da Hidrovias do Brasil e a faça cumprir a política socioambiental da própria instituição”, afirma Livi Gerbase, assessora política do Inesc e autora do estudo.

Um exemplo é a construção do desvio para que os caminhões contornem Miritituba ao invés de cortá-la, obra prometida pela Hidrovias do Brasil ao Banco e que não saiu do papel. Para além do trânsito e do aumento do número de acidentes, os 1500 caminhões geram poluição no ar e deixam parte da soja espalhada por toda a cidade, causando graves danos à saúde da população e interferência na fauna e na flora local. Um morador de Miritituba resume a sensação de viver entre o tráfego intenso: “aqui a gente disputa com as carretas, e o menor é quem tem que correr”. 

O aumento dos índices de violência, comércio ilegal de drogas e prostituição, trazidos com a multidão de caminhoneiros que chega diariamente, são outros impactos sofridos pela população local e ainda pouco mapeados pelos órgãos competentes. 

Moradores de Miritituba revelam, ainda, outras violações da parte da Hidrovias do Brasil e outras empresas portuárias na região, como a proibição da pesca em lugares tradicionalmente acessados pelos pescadores devido a utilização de cordões de isolamento como medidas de segurança por cinco portos instalados lado a lado. Além disso, pescadores também denunciam que a soja que cai nos rios, ao serem transportadas pelas barcaças, está sendo encontrada na barriga dos peixes. 

Indígenas do povo Munduruku também sofrem com as operações da Hidrovias na região que alegou, em seu relatório à IFC, não haver comunidades indígenas e tradicionais afetadas pela construção da sua ETC. A realidade é outra. Duas aldeias urbanas nas margens do Tapajós convivem diariamente com os portos e seus efeitos: Praia do Índio e Praia do Mangue. Para os Munduruku, porém, toda a população indígena do Médio Tapajós sente os efeitos do projeto, pois os impactos se espalham pela rede de parentesco que liga essas comunidades, afetando outros territórios indígenas da região, que possui 868 habitantes indígenas, de acordo com dados oficiais em 2019. Apesar disso, não houve consulta prévia, livre e informada aos povos indígenas, tanto da Hidrovias do Brasil quanto dos outros portos instalados na região, uma clara violação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, um acordo do qual o Brasil é signatário. 

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Por fim, outra reclamação grave dos moradores é quanto à participação dos mesmos nos espaços de diálogos com a empresa. Eles relatam que reuniões acontecem em caráter meramente formal com os impactados, onde eles não são de fato ouvidos. “Ouvir a população é só com audiência pública de carta marcada. Na verdade, da população eles só querem a assinatura na ata ali, e o projeto todo já está sendo pronto e  implementado”, explica Josenaldo Luna de Castro, membro do Conselho Gestor de Fiscalização dos Empreendimentos e Investimentos no Distrito de Miritituba (CONGEFIMI). O conselho foi criado em 2018 para ser uma ferramenta de monitoramento da atuação de empresas como a Hidrovias do Brasil na região. 

Enquanto viola os direitos da população local e comunidades tradicionais, a Hidrovias do Brasil, com o sucesso de seus investimentos na Amazônia, completou em 2020 uma oferta pública inicial (IPO) de ações, arrecadando 600 milhões de dólares. Conforme reportagem publicada pelo site Mongabay, em novembro do ano passado, em um prospecto fornecido no seu IPO, a Hidrovias do Brasil descreveu seu porto de Itaituba, que não teve consulta dos Munduruku, como um ativo chave da empresa. A empresa também advertiu aos investidores que as regulamentações ambientais poderiam restringir severamente sua capacidade de fazer negócios e que suas operações logísticas poderiam “resultar em danos ao meio ambiente e a comunidades indígenas e quilombolas, cuja extensão e custos de reparação não são possíveis de estimar”.

BNP Paribas anuncia que vai parar de financiar que produzem ou compram carne em áreas desmatadas na Amazônia após 2008

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Por  Sudip Kar-Gupta e Matthieu Protard; Edição de Kirsten Donovan para a Reuters

PARIS, 15 de fevereiro (Reuters) – O maior banco francês, o BNP Paribas, afirmou nesta segunda-feira que não financiará mais clientes que produzem ou compram carne bovina ou soja de terras na Amazônia desmatadas ou convertidas depois de 2008.

O BNP, que traçou uma política de combate ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado, também disse que incentivaria seus clientes a não produzir ou comprar carne ou soja do Cerrado em terras desmatadas ou convertidas após 1º de janeiro de 2020.

O banco, o maior credor cotado da França, disse que só fornecerá produtos ou serviços financeiros a empresas – produtores, condicionadores de carne e comerciantes – que adotem uma estratégia de atingir o desmatamento zero em suas cadeias de produção e fornecimento até 2025, o mais tardar.

“As instituições financeiras expostas ao setor agrícola no Brasil devem contribuir para esse combate ao desmatamento”, disse o BNP Paribas em nota.

Bancos europeus como o Credit Suisse, o banco holandês ING e o BNP Paribas se comprometeram no mês passado a interromper o financiamento do comércio de petróleo bruto do Equador após pressão de ativistas que visam proteger a floresta amazônica.

Líderes indígenas que lutam para impedir a exploração de petróleo em seu território disseram que o papel dos bancos os tornou cúmplices em derramamentos de óleo, violações de direitos à terra e destruição da floresta tropical pela indústria petrolífera do Equador. 

(Reportagem de Sudip Kar-Gupta e Matthieu Protard; Edição de Kirsten Donovan)

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela agência Reuters [Aqui!]

Política ambiental brasileira causa exclusão da Cargill, Bunge e ADM de fundos do Danske Bank

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Responsável por € 237 bilhões ( cerca de R$1,5 trilhão), o Danske Bank excluiu de dois de seus fundos as gigantes Cargill, Bunge e ADM, que operam no comércio de commodities agrícolas, em especial soja. A causa é o acelerado desmatamento de áreas florestadas na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

“Apesar dos compromissos das empresas [com políticas de proteção ambiental], a taxa anual de desmatamento das florestas tropicais da Amazônia continua em um ritmo alarmante”, afirmou Erik Eliasson, o diretor de investimento sustentável do Danske Bank, ao jornal Folha de S.Paulo.

A decisão foi baseada em dados de iniciativas de monitoramento de cadeias de commodities feitos pela ONG americana Mighty Earth, da pesquisa Chain Reaction, da iniciativa Trase. Os estudos estão em curso desde 2018 e apontam que  mais de 36 mil alertas de incêndio foram registrados nas proximidades dos silos da Cargill, Bunge e ADM em 2020 no Brasil. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – que são rechaçados pelo governo – apontam que em novembro de 2020 o desmatamento atingiu seu nível mais alto desde 2008.

“Até que haja uma agenda política mais forte e planos de ação e compromissos concretos para proteger as florestas tropicais, as empresas que compram na região provavelmente estarão expostas e contribuindo para o desmatamento das florestas, independentemente de quão fortes práticas de manejo possam ter. Por sua vez, essas empresas podem ser afetadas por graves riscos de reputação e diminuição da demanda do consumidor”, concluiu Eliasson à Folha.

Cargill, ADM e Bunge alegaram respeitar a lei, que adotam voluntariamente a moratória da soja, que tenta conter o cultivo em áreas desmatadas recentemente, além de se valerem de políticas de monitoramento da cadeia e transparência. Com atuação em mais de 70 países, as três empresas somaram faturamento bruto conjunto de quase US$ 220 bilhões em 2019.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo site especializado “Money Report” [Aqui!].

Novo título verde da Amaggi levanta questões sobre compromisso com o fim do desmatamento

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O trader de commodities brasileiro Grupo Amaggi lançou recentemente um título verde para expandir sua presença no mercado de soja do país. O título verde de US $ 750 milhões da empresa alocará dois terços dos recursos para novos esquemas, como iniciativas de energia limpa, e o restante para refinanciar dívidas para projetos que incluem a compra e processamento de soja certificada. O Grupo Amaggi, de propriedade privada, é um grande exportador de soja do Brasil. Seu CEO é Blairo Maggi, ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do ex-presidente Michel Temer. Os críticos dizem que suas ações como empresário e funcionário do governo levaram à perda generalizada de florestas no Brasil.

Embora o título verde seja um sinal de progresso na construção de políticas que levem à sustentabilidade ambiental, a Amaggi ainda não concordou com uma data limite de 2020 para o desmatamento no Cerrado. No final do ano passado, os signatários do Manifesto do  Cerrado , que inclui 160 empresas e investidores que têm exposição ao mercado de soja, pediram aos principais comerciantes de soja que concordassem com a data limite de 2020 para a compra de soja no bioma Cerrado. Os investidores e as empresas também pressionaram os comerciantes a implementarem um sistema vigoroso de rastreabilidade e monitoramento, baseado nos   princípios da Accountability Framework Initiative (AFI), para mostrar a aderência à data limite.

Ao não concordar com uma data limite, a Amaggi corre o risco de ver reduzido o interesse dos investidores em seu título verde recém-lançado. A Amaggi tem o compromisso de desmatamento zero, mas não cobre o desmatamento legal e seu sistema de implementação é considerado insuficiente para mitigar totalmente os riscos. A Amaggi, que comercializa por conta própria e como parte de joint ventures como Amaggi LD (uma JV com Louis Dreyfus e Zen-Noh), é uma grande compradora de soja dos desmatadores SLC Agrícola e BrasilAgro. Durante o verão de 2020, a Amaggi viu 4.203 incêndios em suas regiões de abastecimento, um ligeiro aumento em relação ao mesmo período de 2019, de acordo com a Chain Reaction Research.

As ONGs e os investidores provavelmente questionarão o quanto a empresa melhorará sua sustentabilidade com este novo título verde e se ela se comprometerá a estar totalmente livre do desmatamento. Finnwatch, uma ONG finlandesadivulgou um relatório no final de janeiro alertando sobre a exposição ao risco de desmatamento para investidores e empresas na Escandinávia que fazem negócios com Denofa , uma exportadora de soja de propriedade da Amaggi, observando a falta de eficácia geral em conter o desmatamento no Brasil . Outros comerciantes viram reações de compradores devido a preocupações com o desmatamento. A Nestlé cortou as compras da Cargill em 2019, enquanto a Grieg Seafood disse no ano passado, que não usaria os recursos de seu título verde para comprar soja da Cargill. Os fornecedores brasileiros de soja para a indústria de salmão, CJ Selecta, Caramuru e Imcopa,  anunciaram  compromissos com a data limite de agosto de 2020 para evitar que o desmatamento entre em suas cadeias de abastecimento, pressionando os principais comerciantes do Brasil – Amaggi, LDC, ADM , Bunge, Cargill, Viterra e COFCO.

Como as políticas atuais de desmatamento dos principais comerciantes de soja podem ser insuficientes para mitigar totalmente o risco de desmatamento, eles podem enfrentar risco de receita, risco de financiamento e risco de reputação. A probabilidade de regulamentações e leis mais rígidas no Reino Unido e na UE pode trazer riscos de acesso ao mercado para os comerciantes. A possibilidade do acordo comercial UE-Mercosul desmoronar por  questões climáticas pode exacerbar os riscos. Dada a influência dos comerciantes no mercado, eles têm sido alvo de campanhas de ONGs, investidores ativistas e empresas de bens de consumo. Com os comerciantes altamente ativos no Cerrado e seus volumes de exportação de soja aumentando, um acordo com uma data limite para 2020 poderia trazer mudanças em grande escala e enviar fortes sinais aos fornecedores para interromper o desmatamento. Até que isso aconteça, os críticos provavelmente olharão para ações como o título verde da Amaggi com suspeita.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Agrotóxico usado na Guerra do Vietnã está destruindo videiras na Campanha Gaúcha

agrotoxico bbcMaior parte dos pesticidas considerados prejudiciais à saúde e ao meio ambiente é vendidos a países pobres ou emergentes. Getty Images

Por Evanildo da Silveira, de Vera Cruz (RS) para a BBC News Brasil

Há cerca de 15 anos, a Campanha gaúcha — a metade sul do Rio Grande do Sul — começou a entrar na lista das regiões produtoras de uvas e vinhos finos do mundo. Entre 2000 e 2015 sua participação no mercado nacional cresceu de 12%, para 20%. Mas a produção de vinho na região está ameaçada. Usado nas plantações de soja, o agrotóxico 2,4-D tem contaminado as videiras vizinhas, causando grandes prejuízo aos vitivinicultores — e levando muitos deles a desistir da atividade.

É o caso de Jacenir Freitas Soares, que tem sete hectares de vinhedo das uvas Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc no munícipio de Lavras do Sul, a 322 km de Porto Alegre. “Antes da chegada da soja na região — e com ela, o 2,4-D — , eu colhia 24 toneladas da primeira e 40 da segunda”, conta. “No ano passado, a queda da produção foi de cerca de 50%. Colhi 13,5 toneladas de Sauvignon e 20,3 de Franc. Assim não vai dar para continuar. Em 2022, vou cortar as parreiras e parar de produzir.”

O agrotóxico, quando aplicado de forma incorreta ou em condições atmosféricas inadequadas, é levado pelo vento (fenômeno chamado de deriva) e pode chegar a 20 ou 30 km de distância do ponto de origem. Com a deriva, ele atinge os vinhedos vizinhos, causando a queda da produção de uvas e, consequentemente, de vinho. Tecnicamente chamado de ácido diclorofenoxiacético, ele é um herbicida hormonal (que mimetiza alguns hormônios das plantas) desenvolvido na década de 1940.

Esse químico se tornou mais conhecido, no entanto, durante a Guerra do Vietnã (1959-1975, com a participação dos Estados Unidos a partir de 1965), quando associado ao 2,4,5-T ou ácido 2,4,5-triclorofenoxiacético. Essa combinação era usada para produzir o famoso agente laranja, empregado pelo Exército americano para desfolhar as matas daquele país e facilitar a localização de soldados inimigos.

Hoje, o 2,4-D é utilizado nas lavouras de soja antes do plantio para eliminar as plantas consideradas pragas para a cultura.

Fumigação de uma plantação de soja no BrasilCRÉDITO,AFP, Grandes culturas de soja e milho transformaram o Brasil no principal comprador de agrotóxicos do mundo

Três fatores em três momentos diferentes deram origem ao problema de contaminação com o 2,4-D, segundo o agrônomo Aldo Merotto Junior, da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

“O primeiro foi a expansão de áreas cultivadas no sistema de plantio direto (um sistema de manejo do solo), no final dos anos 90”, conta. “Até então, o herbicida 2,4-D era usado na cultura do trigo e, no inverno, em áreas cultivadas em plantio direto para aplicações em pré-semeadura, nas regiões que estavam iniciando o uso desta tecnologia (Planalto do Rio Grande do Sul e Sudoeste do Paraná).”

No final da década de 1990, o plantio direto se difundiu para outras áreas da região sul do Brasil, e assim passou a estar próximo de culturas sensíveis ao 2,4-D, como as videiras, quando então os danos passaram a acontecer com mais frequência.

“O segundo fato foi o surgimento de plantas daninhas resistentes ao herbicida glifosato (muito usado nas lavouras de soja) e a necessidade de maior utilização do 2,4-D”, explica Merotto. “Isto ocorreu de forma mais intensa a partir de 2010.”

O terceiro fator, diz, foi a recente e grande expansão da cultura da soja na Campanha gaúcha, a partir de 2015.

De acordo com o agrônomo Norton Victor Sampaio, professor dos cursos de Enologia e Agronegócio da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), os primeiros casos de 2,4-D danificando vinículas foram registrados nas regiões de Napa Valley e Santa Helena, no Estado da Califórnia, nos Estados Unidos.

“Mas aqui na nossa região foi em 2016, 2017 que começaram a aparecer os estragos, e a partir de 2018, ficaram mais intensos e começaram realmente a causar danos seríssimos”, afirma Sampaio

Substitutivo do glifosato

A Cooperativa São José, de Jaguari, a 411 km de Porto Alegre, também tem tido prejuízos desde 2013, afirma o técnico em vitivinicultura (produção de uva e vinho), Alexandre Maia.

A cooperativa tem 58 produtores associados e capacidade de produção e armazenamento de 1,6 milhão de litros de vinho, mas a queda de produtividade desde então chegou a 40% na média — atingindo 70% em algumas propriedades, diz Maia.

O problema começou, afirma, quando a buva, uma erva daninha da soja, adquiriu resistência ao herbicida glifosato. “O 2,4-D foi então integrado ao manejo de pré-plantio da soja para substituit o glifosato, pois seu princípio ativo controla as pragas de folhas largas (como a buva)”, explica.

De acordo com Maia, o 2,4-D atinge o sistema vegetativo das videiras, causando graves danos nas brotações e fazendo com que as plantas parem de se desenvolver. Ele leva ao fechamento nas folhas novas, diminuindo o vigor e assim o potencial produtivo dos vinhedos. Em casos mais graves, causa morte das plantas e sua erradicação. “Os prejuízos vêm aumentando ano a ano”, conta.

GlifosatoCRÉDITO,AFP . O 2,4-D começou a ser usado em substituição ao glifosato

Os pesquisadores da Unipampa calcularam os prejuízos dos produtores em dinheiro. “Para 2019, concluímos que foi de R$ 100 milhões, e em 2020 de R$ 200 milhões, somente na viticultura”, revela Sampaio.

Mas esse número pode aumentar, diz Sampaio, já que não se sabe como vai ser o comportamento futuro dos vinhedos que estão já no terceiro ano seguido de forte impacto do 2,4-D. “Pode ser que até que eles sejam perdidos”, diz. “Já existem vários produtores que estão desistindo, eliminando suas videiras, porque o custo de produção, do trabalho e da mão de obra é bastante alto, e o prejuízo vem se aprofundando cada vez mais.”

Sampaio diz que é preciso levar em conta também que o problema afeta toda uma cadeia produtiva que está se instalando na região. “Há prejuízos não só da produção de uva, mas em toda a cadeia produtiva, como trabalho, mão de obra, a uva que não vai para a vinícola, a vinícola que não produz o vinho, o mercado que não trabalha”, explica Sampaio. “Ou seja, todos os elos da cadeia produtiva somados com certeza contabilizariam bem mais que esses R$ 200 milhões aqui na região da Campanha do Rio Grande do Sul.”

Sem indenização

Para piorar, os produtores de uva e vinho têm dificuldade para conseguir indenização dos prejuízos. É muito difícil identificar a lavoura de soja de onde veio o agrotóxico, explicam. As vinícolas estão rodeadas de lavouras de soja e é impossível determinar de qual delas veio o 2,4-D, que pode viajar pela deriva até 30 km.

“Além disso, há a morosidade da Justiça”, diz Soares. “Há muitas ações pedindo indenização, mas o processo é muito demorado.”

No dia 16 de dezembro do ano passado, a Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha e a Associação Gaúcha dos Produtores de Maçã (Agapomi) (cultura que também vem sendo prejudicada pela deriva do 2,4-D), entraram com uma ação civil pública contra o governo do Rio Grande do Sul, solicitando a suspensão temporária do uso agrotóxico em todo o Estado.

Elas querem que o herbicida fique proibido “até que sejam delimitadas zonas de exclusão, ou seja, implementado o efetivo monitoramento e fiscalização da aplicação do 2,4-D, para evitar a deriva em culturas sensíveis”. Como a ação ainda não foi julgada, os representantes das duas associações, por recomendação de seus advogados, não quiseram dar entrevista à BBC Brasil.

Cacho sem bagas por causa do 2,4-D

CRÉDITO,JACENIR FREITAS SOARES. O 2,4-D causa problemas nas videiras, como aparecimento de cachos sem bagas

Apesar dos problemas, a Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (SEAPDR) do Rio Grande do Sul afirma que “a situação está melhorando”. No final do ano passado, o órgão divulgou um relatório com dados de um levantamento, realizado por seus técnicos de agosto a dezembro, referente à safra de uva de verão 2020/2021. Segundo o documento, houve redução de 25,89% (de 88% para 62,34%) nas amostras de vinhedos contaminadas por 2,4-D, em relação à safra anterior. O número de propriedades atingidas também diminuiu, de 110, em 2019, para 89, em 2020.

De acordo com Rafael Friedrich de Lima, chefe da Divisão de Insumos e Serviços Agropecuários da SEAPDR, a secretaria tem recebido denúncias e coletado material vegetal para verificar quais compostos estão presentes na deriva. “A SEAPDR realiza também a fiscalização do cumprimento das normas legais”, afirma. “Sempre que os fiscais estaduais agropecuários constatam alguma irregularidade é lavrado auto de infração, que vai gerar processo administrativo, podendo acabar em multa.”

O vice-diretor da Associação dos Produtores de Soja do Rio Grande do Sul (Aprosoja-RS), Luís Fernando Marasca Fucks, reconhece que a contaminação das videiras pelo 2,4-D “tem acontecido”. Mas ele afirma que ela aconteceu devido ao manejo incorreto do agrotóxico.

De acordo com ele, nem todos os produtores usam técnicas e equipamentos apropriados e eficientes. “Mesmo os aparelhos mais simples dispõem de tecnologias de bico adequados, de adjuvantes (substâncias que tornam as gotículas do agrotóxico mais pesadas, evitando que elas sejam elevadas pelo vento) e boas práticas de aplicação”, afirma.

“Mas elas (as regras) não são obedecidas por alguns poucos produtores de soja e aplicadores do produto. Então, ocorre a deriva, que é uma situação que acontece com qualquer produto se não forem seguidas as recomendações para a pulverização.”

Ele afirma que, entre as práticas corretas, está a observância das melhores horas do dia para a aplicação: as que têm as menores temperaturas possíveis. O recomendado é pulverizar o herbicida de manhã cedo ou mais à noite, quando as temperaturas são mais baixas a umidade relativa do ar é maior. “Isso evita a deriva e a evaporação das gotículas menores, quando elas não atingem o solo, ficam em suspensão no ar e evaporam. E aí qualquer brisa as leva para áreas vizinhas”, explica Fucks.

Flores de videira queimadas por causa do agrotóxicoO herbicida queima flores de videiras. CRÉDITO,JACENIR FREITAS SOARES

Segundo Domingos Velho Lopes, presidente do Conselho Superior da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), foram organizados cursos de treinamento para capacitar produtores e aplicadores para fazerem a pulverização correta. “Em 2018, foi criado um grupo de trabalho para tratar do problema do 2,4-D, liderado pelo Ministério Público do Estado, junto com a SEAPDR e entidades representativas do setor agropecuário gaúcho”, conta.

O grupo constatou que nos anos de 2018, 2019 e 2020 houve problemas de deriva do herbicida que afetaram algumas propriedades do Rio Grande do Sul com culturas sensíveis, como uva, maçã e noz, por exemplo. “Foi verificado que o problema era o equipamento de pulverização ou fatores climáticos não ideais”, explica Lopes. “Para resolver isso, foram elaboradas as três instruções normativas que estabelecem regras para a aplicação.”

O grupo de trabalho também descobriu que a contaminação de videiras e outras culturas sensíveis ao agrotóxico se concentrava em 24 municípios. “Então foi feito em todos eles um treinamento forte de orientação, não só dos aplicadores, mas também do produtor rural”, assegura Lopes. “Este é o norte, a boa capacitação, para que sejam respeitadas as condições climáticas e as técnicas de boas práticas agronômicas, para que a aplicação seja feita dentro das normas.”

Lopes diz que é um “problema pontual”. “Se pensarmos que temos 6 milhões de litros de 2,4-D aplicados no Estado, numa média de 1 a 1,5 litro por hectare, teremos entre 4 milhões e 5 milhões de hectares com o herbicida”, afirma. “Se temos cerca de 80 resultados positivos de contaminação isso quer dizer que é quase insignificante. Claro que para quem sofreu a deriva isso é um problema gravíssimo. E quem executou mal a aplicação vai ter problema grave, porque não pode desrespeitar as regras de pulverização.”

“(O problema) deve ser muito bem analisado e o que o grupo de trabalho está fazendo está surtindo efeito”, diz. “Tenho certeza que no momento que a vida voltar ao normal e os cursos de treinamento forem intensificados, os resultados vão ser cada vez melhores.”

Soares, o produtor de Lavras do Sul, não está confiante nisso. “Formei o vinhedo em 2000 e 2001, com mudas clonadas compradas na Itália e na África do Sul”, conta. “Investi R$ 68 mil e o vizinho com dois baldes de 2,4-D gastou menos de R$ 500 e derrubou quase todo a carga [produção] das videiras. Eles contabilizam lucros com a soja e eu somo prejuízo na uva.”

Ele diz que na época em que plantou o vinhedo, não havia lavoura de soja na região e seus vizinhos usavam as terras para a pecuária. “Hoje minha propriedade está cercada pela nova cultura — o produtor mais próximo fica a 50 metros”, diz. “Com o vento, a deriva do 2,4-D atinge pelo menos 20 km. Não dá para continuar, pois os custos são altos e o retorno financeiro pequeno.”

“Vou trabalhar nessa safra e na de 2022, porque tenho as minhas dívidas que o agrotóxico me deixou de herança. É com aperto no coração que terei que acabar com as videiras, que tinha plantado para deixar para minha filha e meus netos.”

fecho

Este artigo foi inicialmente publicado pela BBC Brasil [Aqui!  ].