Uma feminista indígena luta contra a destruição de suas terras no Brasil

korap mundurukuFoto: AFP / Yasuyoshi Chiba

Por  Niklas Franzen para o Neues Deutschland

Estranhos passaram muito devagar pela vila em carros com vidros escuros, tirando fotos e enviando um monte de mensagens. As ameaças, diz Alessandra Korap Munduruku, aumentaram nas últimas semanas. “Sua única maneira é eliminar pessoas como eu.”

Korap é uma ativista dos direitos das mulheres e representante do povo indígena Munduruku. A mulher baixa de 36 anos com o rosto tatuado cresceu às margens do Rio Tapajós, no meio da floresta tropical brasileira. Mas a idílica Amazônia está ameaçada: represas e projetos de mineração poluem a natureza, garimpeiros e madeireiros estão penetrando à força em áreas indígenas, cada vez mais áreas florestais estão dando lugar a pastagens de vacas e campos de soja. Pessoas que resistiram são ameaçadas.

Korap diz que é ativista desde que nasceu. Mas por muito tempo ela não se atreveu a falar publicamente. “Não havia lugar para nós, mulheres, nas reuniões da aldeia. Só os homens falavam. ”Mas quando as escavadeiras chegaram e os garimpeiros começaram seus acampamentos em sua área, a mãe de dois filhos falou cada vez com mais frequência. Hoje, diz ela, muitas mulheres estão na linha de frente da luta. Korap é agora uma das faces mais famosas da floresta amazônica, falou em 20 de setembro de 2019 no Portão de Brandemburgo na frente de 270.000 pessoas no comício final da greve climática global. A associação de mulheres Wakoborûn, que ela cofundou, é considerada uma importante voz do feminismo indígena.

Um projeto em particular preocupa Korap e seus colegas: o Ferrogrão. A linha ferroviária planejada para ser construída na área de Munduruku para transportar soja do sul até os portos do rio Tapajós e de lá diretamente para a Europa e China. Numerosas empresas estrangeiras também ganham dinheiro com negócios sujos na Amazônia. Além disso: para cultivar soja, a floresta tropical deve ser desmatada ainda mais. “Os agrotóxicos usados ​​envenenam nosso rio e os peixes”, diz Korap. “O veneno da soja tem consequências terríveis – tanto para os brancos quanto para nós.”

Korap é uma mulher que não mede as palavras: em 2019, ela dobrou políticos de alto escalão em uma sessão parlamentar. Outra vez, ela atacou diretamente uma empresa de mineração. Um vídeo de seu discurso se tornou viral, inúmeras ameaças de morte se seguiram e Korap foi parar nas listas de morte. E não eram apenas ameaças. Pouco depois do discurso,  a sua casa foi arrombada e  parcialmente destruída. Documentos, um cartão de memória e um telefone celular estavam faltando, outros objetos de valor não. Korap tem certeza: “Foi um aviso.” Há muitos pistoleiros na região – gente que é paga para matar. Por um curto período, ela teve que se esconder. Hoje ela evita aparições públicas, não revela seu paradeiro.

O fato de pessoas como Korap terem que temer por sua saúde também tem a ver com um homem: o presidente Jair Bolsonaro. Já durante a campanha eleitoral, o extremista de direita anunciou que nenhum outro centímetro de terra seria designado como área protegida para comunidades indígenas. Ele insultou os indígenas de forma racista e protestou contra os ambientalistas. Desde a posse em 2019, o governo vem reduzindo sistematicamente as medidas de proteção ambiental e lutando pela exploração comercial da floresta amazônica. Recentemente, o governador do estado de Roraima, aliado do clã Bolsonaro, anunciou que aprovaria a mineração de mercúrio na região. “Isso terá consequências devastadoras para os povos indígenas”, diz Korap.

Nesse ínterim, até defensores da feminista indígena são ameaçados, mais recentemente seu advogado. Korap está com medo? “Não devo mais ter medo”, diz ela com segurança. “Porque tenho que ser um modelo para as outras mulheres.” O único medo: perder o país.

fecho

Este texto foi originalmente escrito e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

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