Soja brasileira: como a indústria finlandesa de carne e ração combate o desmatamento?

Relatório produzido pela ONG finlandesa Finnwatch examina o uso da soja brasileira em empresas de carnes e rações que operam na Finlândia. Este documento foi produzido com financiamento coletivo coletado em 2019
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1. Introdução

Nos últimos anos, o Brasil ganhou as manchetes com incêndios florestais generalizados e mudanças no uso da terra no país. O presidente brasileiro Jair Bolsonaro prometeu acelerar ainda mais o uso das florestas do país para fins comerciais. Vários especialistas estimam que o Brasil não cumprirá suas metas de combate ao desmatamento estabelecidas no contexto do Acordo Internacional do Clima de Paris. A soja é um dos produtos agrícolas mais significativos que aceleram o desmatamento no Brasil, importada pela Europa principalmente para a alimentação animal.

O desmatamento se refere à conversão de áreas florestais em, por exemplo, terras aráveis, pastagens ou terrenos para construção. O desmatamento desempenha um papel negativo fundamental na aceleração do aquecimento global e da perda de biodiversidade. Quando uma floresta é destruída, o carbono ligado à vegetação e ao solo é liberado na atmosfera. No caso de desmatamento, o sumidouro de carbono biológico que retém o carbono da atmosfera também é geralmente perdido ou significativamente reduzido, e a biodiversidade é reduzida à medida que há perda de habitat de espécies. O desmatamento e outras mudanças no uso da terra respondem por 13% de todas as emissões antropogênicas de gases de efeito estufa.

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), reduzir o desmatamento e a degradação florestal é uma das opções mais eficazes e eficientes para mitigar as mudanças climáticas e tem o potencial de proporcionar grandes benefícios de adaptação global. Em particular, o IPCC enfatiza a necessidade de proteger as florestas tropicais.

Este relatório examina o uso da soja brasileira em empresas de carnes e rações que operam na Finlândia. O relatório examina a adequação das práticas de responsabilidade corporativa, especialmente no combate ao desmatamento causado pela soja.

Cerca de metade da soja brasileira é produzida na região do Cerrado, onde as florestas e outros habitats são desmatados. Foto: Christoph Diewald , CC BY-NC-ND

2.  O desmatamento está acelerando no Brasil

O Brasil ganhou as manchetes nos últimos anos com a súbita aceleração do desmatamento no país. As mudanças têm suas raízes na mudança da situação política no Brasil. Jair Bolsonaro, que iniciou sua presidência no Brasil no início de 2019, prometeu acelerar ainda mais a exploração econômica das florestas. As atividades de Bolsonaro dificultaram a suspensão do desmatamento por meio de políticas oficiais do governo e mudanças no clima geral. Bolsonaro nomeou um Ministro do Meio Ambiente que minimizou a gravidade da mudança climática, reduziu significativamente o orçamento do Ministério do Meio Ambiente para o controle ambiental e reduziu o número de autoridades que controlam a extração ilegal de madeira e as sanções para a extração ilegal. O presidente também atacou ONGs ambientalistas em seus discursos, e até encorajou a extração ilegal de madeira. Isso tem levado a um aumento da cultura de impunidade no Brasil, segundo organizações de direitos humanos .

A floresta amazônica tem recebido mais atenção, a maior parte da qual, cerca de 60 por cento, está localizada no norte do Brasil. No entanto, o desmatamento continuou não apenas na floresta amazônica, mas também no Cerrado no Brasil central, onde a pressão do uso da terra também aumentou, em parte devido à proteção da Amazônia.

A soja é um dos produtos agrícolas mais significativos que aceleram o desmatamento no Brasil. A soja é produzida no Brasil nas regiões da Amazônia e do Cerrado. A situação em termos de desmatamento é particularmente grave na biomassa do Cerrado, onde quase metade da vegetação original já foi destruída. Desde 2001, a área plantada com soja no Cerrado cresceu quase 11 milhões de hectares. Ao mesmo tempo, 28 milhões de hectares de vegetação natural foram desmatados para outros usos na área .

A pressão pelo uso da terra no Cerrado se deve em parte a um acordo de moratória da soja assinado em 2006 entre o governo brasileiro, a indústria e ONGs, que reduziu a exploração madeireira na Amazônia. A pressão pelo desmatamento mudou para o Cerrado, onde um acordo semelhante ainda não existe e onde a própria legislação florestal do Brasil exige áreas protegidas significativamente menores na Amazônia.

A produção de soja na Amazônia e no Cerrado também está associada ao desmatamento ilegal. Cerca de 20% da soja importada dessas áreas para a UE inclui soja de áreas colhidas ilegalmente. Em 2015, cerca de 13% da soja brasileira foi produzida na Amazônia e 48% no Cerrado.

Em 2017, cerca de 40 milhões de toneladas de soja foram consumidas na Europa. Cerca de 31 milhões de toneladas de soja são importadas pela Europa, principalmente da Argentina, Brasil e Estados Unidos . Com o acordo de 2018 com os Estados Unidos, as importações de matérias-primas derivadas da soja dos Estados Unidos para a UE aumentaram recentemente, mas a soja do Brasil ainda representa cerca de um quinto de todas as importações .

A maior parte, cerca de três quartos, da soja importada pela União Europeia é usada como ração animal. Na UE, 29% da ração da soja é usada para a produção de suínos, 22% para a produção de ovos e 37% para a produção de frangos. A avicultura (produção de frango e ovo) também é a maior consumidora de soja na Finlândia. Além disso, a soja é usada na alimentação de peixes de criação. O uso da soja na alimentação do gado, por outro lado, foi quase totalmente interrompido na Finlândia.

As empresas mais importantes para o mercado europeu de soja estão localizadas na Holanda, onde os maiores players nos setores de carne bovina, pecuária e alimentos dependem da importação de soja. Essas empresas representam cerca de 7% do PIB holandês. Os maiores participantes do negócio de rações na Europa são as empresas holandesas ForFarmers, Nutreco (empresa-mãe SHV Holdings NV) e De Heus 1 . O comércio internacional de soja é dominado pelos gigantes internacionais de commodities Archer Daniels Midland (ADM), Amaggi, Bunge, Cargill, COFCO e Louis Dreyfus Company (LDC).

A região de savana tropical do Cerrado é o segundo maior dos grandes ecossistemas do Brasil. Cerca de metade da soja brasileira é produzida na região do Cerrado. Foto: Brazil Travel, CC BY-SA 4.0

3. Relatório sobre o uso da soja brasileira na indústria finlandesa de carne e ração

A Finnwatch pesquisou o uso da soja brasileira na Finlândia e enviou perguntas sobre a soja e sua responsabilidade a açougueiros domésticos e empresas de ração. Dos açougueiros, HKScan, Atria, Snellman e Pouttu , os maiores açougueiros domésticos, foram selecionados para a pesquisa . Berner, Hankkija, Feedex, Lantmännen Agro, Satarehu, Agrox, Rehux e Nordic Soya operando na Finlândia receberam uma pesquisa de empresas de ração.

As empresas foram questionadas sobre a origem da soja que adquirem, os subcontratados que fornecem a soja e o controle da responsabilidade relacionada à matéria-prima da soja, principalmente no que diz respeito ao combate ao desmatamento. Todas as empresas selecionadas para a pesquisa responderam ao Finnwatch, mas houve grandes diferenças em sua transparência.

HKScan é Ruokatalo, que opera na Finlândia, Suécia, Dinamarca e países Bálticos, e cujas marcas de consumo na Finlândia incluem HK, Kariniemi e Via. Na cadeia de gado HKScan, a ração não contém soja, mas na Finlândia a participação da soja na ração para suínos é de cerca de 5% e na produção de frango de 15 %.

A HKScan está empenhada em usar soja produzida de forma responsável em toda a sua cadeia de produção na Finlândia e na Suécia. Cerca de 20% da soja nos alimentos compostos usados ​​pelos produtores de carne da HKScan na Finlândia vem do Brasil. HKScan é membro da Mesa Redonda sobre Soja Responsável (RTRS), que promove o cultivo responsável de soja e obtém certificações com base em créditos RTRS (ver Capítulo 4) para soja usada em misturas de ração animal na Finlândia.

Não se sabe a porcentagem exata de soja usada na ração na Suécia, mas a soja brasileira é usada em pequenas quantidades, segundo a empresa. Na Suécia, as fábricas de rações são responsáveis ​​pela certificação da soja. A HKScan declara que aceita as seguintes certificações sob a iniciativa sueca de responsabilidade da soja Soja Dialogen: RTRS, ProTerra, Donau Soya e UE-orgânica. Segundo a empresa, a maior parte da soja usada na Suécia é certificada pela RTRS ou ProTerra, outras certificações são usadas em pequenas quantidades.

Na Dinamarca, a empresa não rastreia a origem da soja para ração usada por seus produtores, mas no Báltico, toda a soja usada pelos produtores de carne da HKScan vem do Brasil. O relatório anual da HKScan para 2018 afirma que a empresa decidiu adiar a introdução da soja responsável na Dinamarca e nos países bálticos. O motivo foi a demanda de mercado fraca ou inexistente combinada com o fraco desempenho financeiro da empresa. No momento em que este artigo foi escrito, HKScan disse à Finnwatch que agora está mudando para soja certificada na Dinamarca. No momento em que este artigo foi escrito, a empresa juntou-se à Danish Dansk Alliance for Ansvarlig Soja Group no verão de 2020, e comprometeu-se a passar a usar soja com certificação de responsabilidade na Dinamarca até 2025.

HKScan diz que promover o cultivo responsável da soja é importante para ela como parte do desenvolvimento da produção sustentável de carne, parte da qual é o combate ao desmatamento. A empresa não rastreia a origem da soja até o nível da fazenda.

3.2 Atria 

Atria é uma empresa de carnes e alimentos que opera nos países nórdicos, Estônia e Rússia. Nas granjas de frangos da Atria, o farelo de soja é responsável por 11% da ração usada. Na cadeia de suínos da Atria, a ração com soja é responsável por cerca de 3%.

Atria afirma que está trabalhando para reduzir ainda mais o consumo de soja e para substituí-la por fontes de proteína domésticas . No que diz respeito ao uso de soja, a Atria está comprometida com o uso de soja certificada pela RTRS ou ProTerra produzida de forma responsável, tanto na alimentação animal quanto na alimentação. Além disso, o Atria usa pequenas quantidades de conservante alimentar, geralmente como ingrediente em misturas de especiarias individuais. A soja para alimentos chega às fábricas da Atria por meio de fornecedores de especiarias. Segundo a empresa, sua origem é principalmente Europa ou América do Norte.

Além das certificações de soja, a Atria exige que seus parceiros de negócios cumpram o Código de Conduta do Fornecedor da Atria . A implementação do Código de Conduta é monitorada com base no risco.

A Atria diz que seu feed A-feed para produção de rações sempre usa soja certificada com créditos RTRS, certificada pelo ProTerra ou atendendo aos mesmos critérios. A-Rehu compra anualmente aproximadamente 5.000 toneladas de farelo de soja brasileiro não GM certificado pelo ProTerra. A farinha de soja é adquirida por meio de uma subcontratada norueguesa e a Atria não divulga o nome da subcontratada ao público. Cerca de 15.000 toneladas de farelo de soja geneticamente modificado certificado com créditos RTRS são entregues à empresa por meio de intermediários por ano. Os produtores desse farelo de soja na Europa são a ADM e a Bunge, e a soja que utilizam como matéria-prima pode vir do Brasil ou da América do Norte. A soja com certificação RTRS não pode ser rastreada até o nível da fazenda. A soja certificada pelo ProTerra, por outro lado, é rastreável até o nível da fazenda, mas a Atria não solicitou informações sobre a origem exata da soja. Atria diz que o uso de soja na alimentação A caiu quase pela metade nos últimos cinco anos, e a quantidade de soja usada continuará diminuindo.

Na Rússia, a subsidiária da Atria também utiliza carnes de origem brasileira em sua produção. Segundo a empresa, o principal motivo para isso é a pouca disponibilidade de carne bovina dos operadores locais, bem como o preço e a qualidade da matéria-prima. A carne suína também foi importada em pequenas quantidades do Brasil no início de 2020. Segundo a empresa, as quantidades de carne adquiridas pela Atria Rússia são pequenas na escala de todo o Grupo Atria, A carne importada do Brasil representa menos de 1,5% de toda a carne processada. Atria não fornece informações mais detalhadas sobre a origem da carne brasileira adquirida pela Atria Rússia. A empresa invoca sua ética comercial de que não pode terceirizar informações de subcontratação em nome de seus fornecedores. A certificação da responsabilidade da carne brasileira utilizada é baseada nas declarações dos próprios fornecedores. Os produtos cárneos comercializados pela Atria Rússia não são importados para o mercado finlandês.

3.3 Snellman

O Snellman Group está focado na produção de alimentos, que inclui, por exemplo, produção primária de carne e fabricação de produtos cárneos. Figell Oy, uma subsidiária da Lihanjalostus Oy da Snellman, adquire ração completa e suplementar contendo soja para suas próprias unidades de criação de porcos em Kauhava e Jämsä. Caso contrário, a Snellman Meat Processing não compra ou distribui ração contendo soja aos produtores.

A ração usada pelas unidades de suínos da Figen é comprada da Hankkija Oy. O teor de soja da ração consumida pelos porcos é de cerca de 6%, e a soja é de origem brasileira. A empresa não tem informações sobre em quais fazendas no Brasil a soja é cultivada, mas a soja que utiliza é certificada pelo ProTerra.

A cadeia de produção de carne bovina usada nos produtos cárneos da Snellman é livre de soja, o que significa que os produtores de gado contratados não podem usar ração contendo soja na alimentação do gado. A soja pode ser usada na cadeia de valor da carne suína da Snellman, mas a empresa tem um objetivo estratégico de reduzir seu uso.

Os produtores de carne suína da Snellman adquirem ração principalmente de Hankkija Oy, Feedex Ab e Rehux Oy, com quem a Snellman tem acordos separados sobre rações adequadas para produção livre de OGM. Na compra de ração, a soja brasileira é certificada pelo ProTerra. O farelo de soja não transgênico utilizado pelo fornecedor é feito de soja brasileira da Europa (fabricada pela luxemburguesa Sodrugestvo). A farinha de soja é certificada pelo ProTerra. A Rehux Oy adquire produtos de soja da Nordic Soya Oy, dos quais cerca de 8% da soja processada é de origem brasileira e certificada pelo ProTerra, o restante são grãos norte-americanos ou europeus. O farelo de soja não transgênico usado pela Oy Feedex Ab é feito de soja brasileira. Feedex compra farelo de soja por meio da Berner Oy.

A Snellman também comercializa produtos de frango para os quais adquire carne de aves domésticas. De acordo com a empresa, seus fornecedores de aves responderam que a soja certificada ProTerra e RTRS é usada na alimentação. Snellman não tem mais informações sobre isso. rastreabilidade da soja até o nível da fazenda

3.4 Pouttu

A Pouttu é uma empresa que fabrica diversos produtos à base de carne e vegetais na Finlândia, com uma fábrica localizada em Kannus. A própria Pouttu não compra matéria-prima de origem brasileira. A Pouttu adquire a carne que usa em seus produtos de açougues nacionais e da UE. A soja brasileira pode ter sido usada na produção de carne.

O Pouttu não impõe requisitos de responsabilidade sobre a soja que é usada na produção da carne que compra

3,5 Agrox

Agrox é uma fábrica de rações finlandesa localizada em Mynämäki. A Agrox diz que compra o farelo de soja que usa da Finlândia, mas não quer que seu subcontratante doméstico se torne público por razões comerciais.

Mais de 90% da soja usada pela empresa vem de fora do Brasil. A soja brasileira adquirida é certificada com créditos RTRS e, além disso, a Agrox recebeu uma declaração por escrito da subcontratada americana ADM de que a soja do Brasil não provém de áreas de risco. A Agrox forneceu à Finnwatch as informações que recebeu da ADM sobre o monitoramento da responsabilidade da soja. A ADM está envolvida nas principais iniciativas de responsabilidade existentes na indústria e assinou, por exemplo, o Acordo de Moratória da Soja na Amazônia (para o Acordo do Cerrado, ver Capítulo 5). De acordo com a empresa, ela consegue rastrear todas as suas compras diretas no nível da fazenda e constatou que menos de 0,5% de suas compras vêm de fontes indiretas por meio do Soft Commodities Forum (SCF) 30 áreas de risco identificadas pelo

No Brasil, o cultivo da soja é uma ameaça em especial para o bioma Cerrado, onde metade da vegetação original foi destruída. Foto: Victor Moriyama, CC-BY-NC-ND 2.0

3.6 Fornecedores

A Hankkija Oy, parte do Danish Agro Group, vende maquinário agrícola, bem como produtos agrícolas, de alimentação e cuidado de animais, jardinagem e produtos para cavalos e animais de estimação. O fornecedor utiliza farelo de soja brasileiro, certificado pelo ProTerra, na produção de ração para suínos e aves. O fornecedor não divulga ao público as quantidades de soja adquiridas. A aquisição de soja é feita pela empresa de aquisição do Grupo DLA Agro, que adquire farelo de soja da empresa luxemburguesa Sodrugestvo. A farinha de soja que chega ao fornecedor foi prensada na fábrica da Sodrugestvo na Rússia.

Em 2019, o farelo de soja brasileiro representou cerca de um quarto de todo o farelo de soja usado pelo fornecedor na fabricação de rações. Além da certificação ProTerra, a soja deve atender aos requisitos de responsabilidade da FEFAC, a associação europeia da indústria de rações . O farelo de soja é rastreável até o nível da fazenda, mas o Fornecedor não solicitou informações específicas do lote sobre a origem exata da soja.

Na prática, os requisitos de responsabilidade da FEFAC não vão além da certificação ProTerra. O ProTerra é um dos muitos esquemas de responsabilidade da soja que a FECAF considera atender aos seus requisitos. Veja FEFAF, Combate ao desmatamento ; ITC, padrões ou programas em conformidade com as diretrizes FEFAC , (referenciado em 4.1.2021

3.7 Soja Nórdica

Nordic Soya é um produtor finlandês de proteína vegetal cujos principais produtos são concentrado de proteína de soja (SPC), farelo de soja, óleo de soja e farelo de colza higienizado. A empresa afirma que pretende expandir sua base de matéria-prima de soja para outras proteínas vegetais. Um exemplo disso é o feijão doméstico, a partir do qual a Nordic Soya processa farinha de feijão adequado para misturas de ração animal.

A Nordic Soya foi a única empresa selecionada na pesquisa da Finnwatch que não disse de onde vêm as matérias-primas que adquiriu. Segundo a empresa, não está preparada para abrir “matérias cobertas por segredos comerciais, como matérias-primas e fornecedores de matérias-primas”. A empresa afirma que seu princípio básico é se esforçar para atender às necessidades de seus clientes e “vender-lhes os ingredientes de ração que desejam comprar”. No entanto, os clientes da empresa declararam que adquirem a matéria-prima da soja de origem brasileira por meio da Nordic Soya (ver, por exemplo, seção 3.3).

O principal produto da Nordic Soya, o concentrado de proteína de soja, é amplamente utilizado na alimentação de peixes, especialmente na Noruega. No ano passado, a empresa diz que mudou de uma matéria-prima de soja produzida de forma sustentável, totalmente europeia, certificada pelo ProTerra ou EuropeSoya no concentrado de proteína de soja vendido no mercado de ração para peixes. A decisão foi influenciada pelo desejo dos produtores noruegueses de ração para peixes de avançar para a soja europeia produzida de forma responsável 32 . A Nordic Soya diz que deseja se envolver na promoção da produção europeia e sustentável de soja e é membro do ProTerra e da EuropeSoya.

3.8 Satarehu

Satarehu é uma fábrica de rações localizada em Vampula, que produz rações compostas para aves. A Satarehu usa farelo de soja na ração que comercializa, que compra principalmente da ADM e, em menor escala, da Nordic Soya e Berner. A ADM informou Satarehu que 85% da soja que usa vêm da América do Norte. Satarehu não sabe exatamente a origem da soja no farelo de soja que compra. Toda a soja contida na ração vendida pela empresa foi comprada com um certificado RTRS (o comprador dos créditos RTRS é HKScan, que adquire os créditos em nome de seus produtores contratados) ou com o certificado ProTerra ou a soja não é de origem sul-americana.

3.9 Lantmännen Agro

A Lantmännen Agro Oy, membro do Grupo Sueco Lantmännen, que comercializa rações e outros produtos agrícolas, disse à Finnwatch que não adquire produtos ou matérias-primas de origem brasileira. No entanto, a empresa apenas respondeu no que diz respeito a si própria, uma vez que todo o Grupo Lantmännen não recolhe nem partilha dados de compra de forma coordenada.

3.10 Rehux

A Rehux, fabricante de ração para suínos e frangos, diz que não importa o farelo ou a polpa de soja que usa, mas adquire produtos à base de soja da Berner e Nordic Soya. A empresa diz que prefere soja europeia ou americana sempre que possível, mas se não estiver disponível, compra ProTerra ou soja brasileira com certificação RTRS. A certificação RTRS é baseada em créditos RTRS.

3,11 Berner

Berner é um grupo diversificado que fabrica, comercializa e distribui uma ampla gama de diferentes produtos e matérias-primas. A Berner adquire e encaminha soja da Denofa, do Grupo Amaggi. A origem da soja é o Brasil. Em 2020, 4.500 toneladas de soja foram adquiridas e foi certificado pelo ProTerra. Por meio da certificação do ProTerra, é possível rastrear a soja em nível de fazenda, mas isso ainda não foi feito na Berner.

A Berner também importa soja Kikkoman para a Finlândia, que é feita com soja do Brasil, Canadá ou Estados Unidos. A soja brasileira é certificada pelo ProTerra.

3.12 Feedex

A Feedex fabrica e vende ração para fazendas. A Feedex não importa a soja que ela mesma usa, mas afirma que compra da Berner pequenos lotes de soja brasileira certificada pelo ProTerra. Através da certificação ProTerra, a soja pode ser rastreada até o nível da fazenda, mas a Feedex não solicitou informações sobre a origem exata da soja.

Tabela 1: Resumo das divisões da soja e controle de responsabilidade da soja das empresas que operam na Finlândia

Companhia

A soja brasileira é usada na cadeia de valor da empresa?

Como é monitorada a responsabilidade da soja brasileira?

De qual subcontratado a soja brasileira é comprada?

A soja brasileira é rastreada / rastreável até o nível da fazenda?

HKScan

Sim, na alimentação de porcos e galinhas

Na Finlândia, RTRS-Krediitit, na Suécia também outras certificações. A Dinamarca está em processo de mudança para as certificações. As certificações não são usadas no Báltico.

Vários subcontratados, na Finlândia, por ex. Satarehu

Não

Atria / A-rehu

Sim, na alimentação de porcos e galinhas

Créditos RTRS, Certificação ProTerra (Segregação)

Farelo de soja brasileiro certificado pelo ProTerra através de um subcontratado norueguês. Em. o nome do subcontratado não é divulgado ao público. O farelo de soja brasileiro geneticamente modificado certificado com créditos RTRS é adquirido da ADM e da Bunge.

A soja com certificação RTRS não é rastreável. A soja certificada pelo ProTerra pode ser rastreada até o nível da fazenda, mas a Atria não solicitou informações sobre a origem exata da soja.

Snellman /
Figen Oy

sim

Certificação ProTerra (segregação)

A ração usada pelas unidades de suínos da Figen é comprada da Hankkija Oy.

Os produtores de suínos da Snellman adquirem ração principalmente de Hankkija Oy, Feedex Ab e Rehux Oy.

A soja certificada pelo ProTerra pode ser rastreada até o nível da fazenda, mas Snellman não solicitou informações sobre a origem exata da soja.

Pouttu

Não compre matérias-primas de origem brasileira. Obtém carne de açougueiros domésticos e da UE. A soja brasileira pode ter sido usada na produção de carne.

Não impõe requisitos de responsabilidade sobre a soja usada na produção de carne.

Não rastreia a origem da soja usada na produção de carne.

Agrox

sim

RTRS-Credits, controle de responsabilidade do próprio subcontratado

Da ADM

A própria Agrox não rastreou suas compras de soja nas fazendas. No entanto, o subcontratado da Agrox, ADM, diz que é capaz de rastrear todas as suas compras diretas no nível da fazenda.

Fornecedor

sim

Certificação ProTerra (segregação)

A aquisição de soja é realizada pela empresa de aquisição do Grupo DLA Agro, que adquire farelo de soja da Sodrugestvo.

O farelo de soja certificado pelo ProTerra pode ser rastreado até o nível da fazenda, mas o Fornecedor não solicitou informações específicas do lote sobre a origem exata da soja.

Soja Nórdica

A empresa não divulga segredos comerciais

Sem informação

Sem informação

Sem informação

Satarehu

sim

Créditos RTRS e Certificação ProTerra (Segregação). A RTRS-Krediitit compra o HKScan em nome de seus próprios produtores contratados.

Da ADM e, em menor grau, da Nordic Soya e Berner

A soja certificada pelo ProTerra pode ser rastreada até o nível da fazenda, mas Satarehu não solicitou informações sobre a origem exata da soja.

Lantmännen
Agro Oy

Não compre matérias-primas de origem brasileira. No entanto, a resposta aplica-se apenas à própria empresa, não a todo o Grupo Lantmännen.

Rehux

Sim, se europeu ou americano não estiver disponível

Certificação ProTerra (Segregação) ou Créditos RTRS

De Berner ou Nordic Soya

A soja certificada pelo ProTerra pode ser rastreada até o nível da fazenda, mas Rehux não solicitou informações sobre a origem exata da soja.

Berner

sim

Certificação ProTerra (segregação)

Denofalta, faz parte do grupo Amaggi

A farinha de soja certificada pelo ProTerra pode ser rastreada até o nível da fazenda, mas Berner não solicitou informações específicas do lote sobre a origem exata da soja.

Feedex

sim

Certificação ProTerra (segregação)

De Berner

A farinha de soja certificada pelo ProTerra pode ser rastreada até o nível da fazenda, mas a Feedex não solicitou informações específicas do lote sobre a origem exata da soja.

4. Certificações de responsabilidade da soja usadas por empresas que operam na Finlândia

Em sua certificação de responsabilidade, os frigoríficos finlandeses e empresas da indústria de rações favorecem as certificações de responsabilidade líderes mais comuns do mercado, cujos critérios para a produção carecem de desmatamento e corte da vegetação original. As mais comumente usadas são as certificações RTRS e ProTerra.

Muitas das empresas que operam na Finlândia e que compram soja abrangidas por este relatório contam com a certificação RTRS para atestar a responsabilidade da soja. A Mesa Redonda da Associação de Soja Responsável (RTRS) é uma organização fundada na Suíça em 2006 com o objetivo de aumentar a produção, o comércio e o uso da soja produzida de forma responsável. A RTRS mantém a certificação de responsabilidade RTRS da soja em todo o mundo.

A certificação RTRS é baseada no padrão RTRS para produção de soja responsável, que é atualizado a cada quatro anos. A versão válida atual do padrão foi aprovada em 2017 e a próxima atualização está prevista para 2021.

A norma é construída em torno de cinco princípios relacionados a 1) conformidade com a lei e boas práticas comerciais, 2) condições de trabalho responsáveis, 3) relações responsáveis ​​com as partes interessadas locais, 4) responsabilidade ambiental e 5) boas práticas agrícolas. Além disso, Diretrizes Nacionais de Interpretação mais detalhadas para a aplicação da norma foram desenvolvidas para cada país produtor, incluindo o Brasil.

Em termos de combate ao desmatamento, o elemento mais importante da RTRS é a proibição do desmatamento, que se limitará a maio de 2009. Isso significa que a soja certificada não deve ser produzida em fazendas onde a natureza de floresta nativa crítica para a biodiversidade, áreas úmidas, florestas costeiras ou vegetação de encostas íngremes foram desmatadas desde maio de 2009.

De acordo com diversos relatórios de avaliação, a RTRS é uma das certificações mais ambiciosas em termos de combate ao desmatamento. Na comparação de 2019 de sistemas de certificação preparados pela consultoria Profundo com foco em pesquisa de sustentabilidade, apenas o sistema ISCC Plus alemão ficou à frente da RTRS.

Uma empresa que compra soja pode obter soja certificada RTRS de muitas maneiras diferentes: por meio de créditos RTRS, por meio de um sistema de balanço de massa ou segregado. O uso de créditos RTRS é uma compra separada de certificados. De acordo com o esquema de crédito, os usuários finais da soja compram certificados de produtores certificados pela RTRS e, assim, fornecem apoio financeiro aos produtores RTRS. A soja adquirida pelo próprio não é rastreável e o comprador e o produtor certificado não têm outra relação comercial além dos certificados. Conclui-se que não há requisitos de certificação ou controle de produção para os próprios grãos de soja comercializados e, portanto, também pode vir de fazendas onde os requisitos da RTRS não são cumpridos.

A segunda que ocorre no mercado finlandês de certificação de sustentabilidade de terceiros para soja é a Proter, que tem como foco os produtos não geneticamente modificados, ou seja, os chamados. Certificação de soja livre de OGM. A liberdade de OGM requer o tratamento separado da soja e, portanto, a soja certificada pelo ProTerra é freqüentemente mais rastreável até o nível da fazenda do que a soja certificada pela RTRS. Os requisitos do ProTerra são em muitos aspectos semelhantes aos requisitos do padrão RTRS. No ProTerra, a proibição do desmatamento é mais rígida do que o padrão RTRS, com a chamada data de corte de 2008. No entanto, para alguns outros critérios ambientais, o esquema de certificação do ProTerra foi avaliado como mais fraco do que o RTRS.

Do ponto de vista do desmatamento, o maior problema das certificações de soja não são tanto os critérios dos sistemas mais ambiciosos do mercado como RTRS e ProTerra, mas o fato de que a quantidade de soja certificada adquirida é insignificante. Das terras com cultivo de soja, apenas cerca de 2 milhões de hectares são cobertos por certificações. Essa área representa cerca de 1,6% da área total de soja. Além disso, a certificação da soja comprada, principalmente por meio de uma comercialização de crédito separada da comercialização física, pode, ao mesmo tempo, dar suporte e viabilizar o comércio convencional que causa o desmatamento.

Pelos motivos mencionados acima, a certificação da soja por si só não é mais suficiente e, além disso, deve-se garantir que os subcontratados se comprometam com um dia de corte para evitar o desmatamento em toda a produção de soja. Isso é discutido com mais detalhes no próximo capítulo.

A RTRS não inclui a exigência de que as áreas de alto valor de conservação em uma fazenda certificada sejam avaliadas por uma parte externa. Profundo, 2019, Definindo o padrão para soja livre de desmatamento na Europa – Uma referência para avaliar a adequação de sistemas de padrões voluntários , p. 18.

5. Novas soluções para combater o desmatamento causado pela soja

As certificações de responsabilidade da soja têm sido uma solução fraca para os problemas ambientais da produção de soja, especialmente no que diz respeito ao desmatamento e à destruição de ecossistemas naturais, já que a participação da soja certificada no total da soja permanece insignificante. Ao mesmo tempo, o desmatamento e outras mudanças no uso da terra causados ​​pelo cultivo da soja permaneceram insustentáveis, especialmente na biomassa do Cerrado. Vários grandes compradores europeus descreveram a situação no Brasil como fora de controle e apelaram ao setor da soja para tomar medidas urgentes para remediar a situação, instando a indústria a se comprometer com o chamado GTC (Grupo de Trabalho do Cerrado, Grupo de Trabalho da Soja do Cerrado) .

No Brasil, indústria e ONGs vêm negociando há quatro anos um acordo GTC que interromperia o desmatamento e o desmatamento de ecossistemas naturais na biomassa do Cerrado. O acordo seria uma reminiscência do acordo de moratória da soja na Amazônia, que produziu bons resultados. Sob o acordo, os comerciantes de soja se comprometeriam a comprar soja apenas de fazendas onde nenhum novo ecossistema será eliminado do cultivo de soja após uma data mutuamente acordada (a chamada data limite) O monitoramento do acordo seria feito por imagens de satélite das fazendas de soja e pela auditoria das compras das empresas compradoras. O acordo é baseado no Quadro de Responsabilidade, desenvolvido em cooperação entre organizações e sistemas de certificação e publicado em 2019. A Estrutura de Responsabilidade contém padrões, definições e diretrizes para agricultura e silvicultura responsáveis, e é baseada não apenas nas opiniões das organizações envolvidas, mas também em padrões internacionais, como os Princípios Orientadores da ONU, as Convenções da OIT, a Declaração de Nova York sobre Florestas e as Metas de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas .

Um novo acordo foi negociado entre as partes do denominado grupo de trabalho GTC. No entanto, exatamente quando o acordo concluído deveria ser anunciado no início de 2020, empresas brasileiras e internacionais que comercializavam soja, inesperadamente, desistiram de assinar o acordo.

Compromissos estão sendo feitos internacionalmente, segundo os quais, no futuro, os compradores internacionais só poderão negociar com empresas que tenham celebrado um acordo GTC. Já foram assinados compromissos na Suíça, Áustria, Alemanha e França. Ainda não foram assumidos compromissos na Finlândia.

Até o momento, o número de empresas que comercializam a soja brasileira ainda é pequeno. Caramuru, Imcopa e Selecta estão incluídos . Uma frente unida dos atores europeus em apoio ao acordo é, portanto, essencial para a sua entrada em vigor. o em 22.1.2021)

6.  Resumo

O desmatamento no Brasil continua. No que diz respeito ao cultivo da soja, a situação é aguda, principalmente no grande ecossistema do Cerrado.

Na Finlândia, a soja brasileira ainda é amplamente utilizada na alimentação de porcos e galinhas. Nove das 12 empresas de carnes e rações que responderam à pesquisa da Finnwatch confirmaram que suas cadeias de valor incluem a soja brasileira. A Lantmännen Agro Oy não compra soja do Brasil, mas forneceu à Finnwatch informações apenas sobre suas próprias operações, não sobre todo o Grupo Lantmännen. Pouttu não compra matéria-prima de soja em si, mas a soja brasileira usada como ração em suas cadeias de valor provavelmente virá por meio da compra de carne. Um grande player na indústria de rações, a Nordic Soya, foi a única empresa que não forneceu à Finnwatch informações sobre a origem da soja que comprou. A empresa declarou publicamente que busca o reconhecimento como produtora de proteína responsável. A transparência das atividades não contribui para esse objetivo. Os clientes da empresa disseram que adquirem a matéria-prima da soja de origem brasileira por meio da Nordic Soya.

Todas as empresas que compram soja brasileira na Finlândia usam soja certificada pela RTRS ou ProTerra. Cinco das empresas respondentes contam com créditos RTRS para certificação de responsabilidade da soja. O uso de créditos RTRS é uma compra separada de certificados, onde a soja adquirida não é rastreável e o comprador não sabe de onde a soja vem (ver Capítulo 4). Conclui-se que a soja física usada como ração pode não atender a nenhum requisito de certificação e sua produção não foi controlada.

Nenhuma das empresas respondentes que usam soja brasileira em sua cadeia de valor rastreou a soja brasileira que compraram até sua fazenda. Todas as empresas que compram soja segregada certificada pelo ProTerra teoricamente teriam a capacidade de rastrear a soja, mas não o fizeram.

Grande parte das compras de empresas que operam na Finlândia vem de resíduos internacionais de soja. As empresas internacionais de matérias-primas das quais as casas de carne e rações que operam na Finlândia compram suas matérias-primas de soja são Denofa (Amaggi), ADM, Bunge e Sodrugestvo. Nenhum desses subcontratados de soja usados ​​por empresas finlandesas ainda entrou em um acordo GTC para proteger a biomassa do Cerrado. Dos participantes da lista, Bunge e Sodrugestvo são considerados fracos em suas práticas de responsabilidade corporativa em várias comparações.

Algumas das respostas das empresas sugerem que a responsabilidade não é necessariamente um valor absoluto, mas está fortemente ligada à demanda do mercado. Por exemplo, o HKScan não usa soja certificada no Báltico. Já a subsidiária da Atria adquire carne brasileira para o mercado russo, cuja procedência exata a empresa não fornece. A carne brasileira também é um produto de alto risco do ponto de vista do desmatamento.

Em um resumo do mercado finlandês de soja examinado neste estudo, pode-se afirmar que uma parte significativa das empresas que usam ou comercializam soja na Finlândia contam com o comércio de certificado para certificação de responsabilidade. Além disso, compram soja de empresas que não firmaram acordo para evitar o desmatamento no Cerrado. Por isso, pode-se considerar muito provável que a soja utilizada para a produção de carne na Finlândia contribua para o desmatamento do Brasil e a destruição de ecossistemas naturais. Também é possível que parte da soja usada na Finlândia venha de áreas colhidas ilegalmente.

7.  Recomendações
Para empresas
  • O acordo GTC abordaria o desmatamento que ameaça o bioma Cerrado. As empresas que operam na Finlândia usando soja brasileira devem cooperar em questões de responsabilidade corporativa e se juntar à frente de compradores europeus para apoiar o acordo GTC. Em todas as empresas compradoras, toda a cadeia da soja deve se comprometer a comprar soja no futuro apenas de fornecedores de matéria-prima que façam parte do acordo GTC.
  • As empresas devem apresentar certificações de soja que permitam a rastreabilidade física da soja adquirida. Contar apenas com os créditos da RTRS não é uma forma suficiente de garantir a sustentabilidade social ou ecológica da soja comprada. As empresas devem garantir a sustentabilidade ecológica das matérias-primas em suas cadeias de valor, planejando suas aquisições de acordo com os padrões estabelecidos pelo Quadro de Responsabilidade.
  • As empresas devem continuar a investir na aquisição e processamento de proteínas vegetais mais ecologicamente sustentáveis ​​e geograficamente mais próximas. Os operadores do setor alimentar precisam aumentar o fornecimento de produtos de proteína vegetal ecologicamente sustentáveis.
Para cidadãos
  • Toda exploração de recursos naturais geralmente tem um impacto direto ou indireto sobre o uso de florestas e outros ecossistemas. A proteção das florestas e da biodiversidade, portanto, não é apenas uma questão de deixar certas áreas intocadas, mas também, na medida do possível, da necessidade de reduzir o uso de matérias-primas. A soja é importada do Brasil para a Europa principalmente para alimentação animal. Reduzir o consumo de carne e adotar uma dieta vegetariana é a melhor maneira de garantir que os próprios hábitos de consumo não contribuam para o desmatamento no Brasil e em outros países.
  • No caso de compra de carne, devem ser selecionados produtos para os quais a empresa possa indicar de onde vem a ração utilizada e como tem sido monitorada sua responsabilidade. No futuro, os produtos cárneos só devem ser comprados de empresas que se comprometeram não apenas com o acordo de moratória da soja na Amazônia, mas também com o acordo GTC, que está ausente no desmatamento do Cerrado.

Para tomadores de decisão

  • A Finlândia não deve aceitar o acordo comercial de baixa sustentabilidade do Mercosul negociado com o Brasil em sua forma atual. A nível da UE, as negociações futuras com o Brasil também não devem ser retomadas até que este tenha assumido um compromisso credível de implementar os compromissos assumidos no Acordo de Paris.
  • A União Europeia deve definir a União Europeia produzir um rehusoijalle requisitos de durabilidade e exige todas as formas de poder de mercado na rejeição de desmatamento União soijalta de certificação ou outros controles de terceiros credíveis para evitar o desmatamento.
  • Tanto na Finlândia quanto na União Européia, a preparação de legislação de responsabilidade corporativa baseada no dever de cuidado deve continuar. A Comissão Europeia deve também preparar uma proposta legislativa de combate ao desmatamento nas cadeias de valor das empresas, em linha com a resolução aprovada pelo Parlamento Europeu em outubro de 2020 47 .
  • Os contratos públicos devem promover resolutamente a transição para uma dieta vegetariana. Ao comprar carne, os requisitos devem ser definidos para a responsabilidade da soja usada como ração: a ração de soja deve ser certificada e rastreável às instalações de produção.

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Este relatório foi escrito originalmente em finlândes e publicado pela ONG Finnwatch [Aqui!].

Soja da Amazônia não é “livre de desmatamento”

Abiove e Ministério da Agricultura divulgam informação falsa após ameaça do presidente francês

pulverizadoraMáquina pulveriza agrotóxico sobre plantação de soja na Amazônia Foto: © Bruno Kelly / Greenpeace

20% da soja dos biomas Amazônia e Cerrado foi produzida em imóveis rurais que desmataram, aponta estudo

Em resposta ao presidente da França, Emmanuel Macron, que ameaçou boicotar a soja brasileira em razão do desmatamento da Amazônia, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) afirmou em nota nesta terça-feira (12/01) que “a soja produzida no bioma Amazônia no Brasil é livre de desmatamento desde 2008 graças à Moratória da Soja, iniciativa internacionalmente reconhecida que monitora, identifica e bloqueia a aquisição de soja produzida em área desmatada no bioma, garantindo risco zero do envio de soja de área desmatada (legal ou ilegal) deste bioma para mercados internacionais”.

No mesmo tom, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) afirmou, em nota divulgada no dia seguinte, que “a soja brasileira não exporta desmatamento”.

A Moratória da Soja, uma iniciativa de ONGs ambientais com participação da Abiove e da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), tem de fato contribuído para reduzir a pressão sobre a floresta amazônica, mas isso não significa soja “livre” de desmatamento, nem que há “risco zero” de exportação de soja de áreas desmatadas no bioma ou que “a soja brasileira não exporta desmatamento”.

Segundo pesquisa publicada recentemente na Science, uma das mais importantes revistas científicas, cerca 20% da soja dos biomas Amazônia e Cerrado exportada para a União Europeia foi produzida em imóveis rurais que desmataram entre 2008 e 2018, desrespeitando o código florestal. O levantamento foi feito com base em informações declaradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e dados de exportação de soja.

Além disso, o estudo indica que 0,5 milhão de tonelada de soja da Amazônia é exportada para países europeus, contra 1,4 milhão de tonelada do Cerrado, embora esse bioma seja cinco vezes menor que a Amazônia. Isso reforça um problema que vem se agravando: o desmatamento no Cerrado, que em 2020 aumentou 13%segundo o Inpe, totalizando quase 50% de eliminação da vegetação nativa do bioma.

A manifestação da Abiove ocorreu logo após Macron afirmar, no Twitter, que “continuar a depender da soja brasileira seria o mesmo que apoiar o desmatamento da Amazônia”. Em seguida, ele completou: “Somos coerentes com nossas ambições ecológicas, estamos lutando para produzir soja na Europa”. O presidente francês tem mantido posição contrária ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, sob alegação de que o Brasil precisa cumprir o Acordo de Paris e reduzir o desmatamento, gerando pressão sobre o governo Bolsonaro e acenando para agricultores locais.

Em 2019, o Brasil produziu 114 Mton de soja, das quais 28 Mton no bioma Amazônia e 40 Mton na Amazônia Legal (o que inclui o Cerrado de MT, MA e TO), aponta o professor da UFMG Raoni Rajão, um dos autores do estudo da Science, com dados do IBGE. Ou seja, a região é responsável por 25% a 35% da produção nacional, dependendo da definição territorial utilizada.

A exemplo da moratória da soja na Amazônia, ONGs têm pressionado as indústrias por um acordo para o Cerrado, com o objetivo de barrar a expansão da soja sobre a vegetação nativa. No entanto, após um longo período de tratativas, nenhum resultado concreto foi atingido. O governo, que participava dos grupos de trabalho e endossava a iniciativa voluntária, retirou-se das negociações na gestão Bolsonaro, sinalizando o desinteresse pelo combate ao desmatamento.

A moratória da soja começou a funcionar a partir de 2006, após forte pressão de ONGs sobre compradores internacionais, com o argumento de que eles estimulavam o desmatamento na Amazônia ao produzir a oleaginosa.

Para resolver o embate foi criado um grupo de trabalho e pactuado, entre as ONGs e a Abiove, que as indústrias não comprariam mais soja de produtores cuja área para produção no bioma Amazônia tenha sido desmatada após 2008, mesmo com autorização.

Foi criado um sistema de monitoramento privado com imagens de satélite nos principais municípios produtores de soja, que identifica quem descumpre as regras e bloqueia a compra por parte das indústrias.

De acordo com o último relatório sobre a moratória, divulgado em abril de 2020 (safra 2018/2019) pelo Grupo de Trabalho da Soja, 1,8% dos produtores de soja no bioma Amazônia estariam em desacordo, ou seja, desmataram após 2008. O documento também considera que após a implementação do acordo houve uma redução de 4,6 vezes da taxa média de desmatamento na Amazônia, atribuindo parte desse resultado à iniciativa. No entanto, segundo dados do Inpe, o desmatamento na Amazônia aumentou 34,5% em 2019 e 8,5% em 2018.

Na quinta-feira (14/1), Bolsonaro atacou o presidente francês, classificando suas declarações de “politicalha” e “campanha contra o Brasil”: “(…) Quanto de floresta tem a França? Porque eles falam tanto em reflorestamento, em dar dinheiro pra nós. Não tem que dar dinheiro pra nós, não, nós vamos dar mudas de árvores para você replantar, reflorestar aí (…)”. Ao contrário do Brasil, a França tem recuperado suas florestas desde o início da revolução industrial: em 1800 elas cobriam menos de 15% do território, hoje se aproximam dos 30%, mostrou o professor da UFMG.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo site Fakebook.eco [Aqui!].

Desmatamento na Amazônia, Emmanuel Macron, e o boicote às commodities agrícolas brasileiras

“Depender da soja brasileira é endossar desmatamento na Amazônia”, diz Macron

Presidente francês volta a criticar o desflorestamento no Brasil e diz que Europa deve investir mais no cultivo local de soja para ser “coerente” com suas ambições ecológicas.

macron

Macron é uma das vozes mais críticas à política ambiental do governo Bolsonaro

O presidente da França, Emmanuel Macron, voltou a criticar o desmatamento na Amazônia nesta terça-feira (12/01), afirmando que a Europa precisa investir mais no cultivo de soja em seu território, senão estará “endossando” o desflorestamento em terras brasileiras.

“Continuar dependendo da soja brasileira é endossar o desmatamento da Amazônia”, escreveu Macron em postagem no Twitter. “Somos coerentes com as nossas ambições ecológicas, estamos lutando para produzir soja na Europa!”, completou.

O texto acompanha um vídeo de 30 segundos, em que o presidente francês destaca que, “quando importamos a soja produzida a um ritmo rápido a partir da floresta destruída no Brasil, nós não somos coerentes” com as ambições ecológicas europeias.

“Nós precisamos da soja brasileira para viver? Então nós vamos produzir soja europeia ou equivalente”, acrescenta ele no vídeo, após uma visita a agricultores orgânicos na cidade de Tilly nesta terça-feira.

A publicação vem um dia depois da One Planet Summit, uma cúpula liderada por Macron com a participação de chefes de Estado, empresários e representantes de organizações não governamentais, dedicada à preservação da biodiversidade.

Críticas à política ambiental

O aumento do desmatamento na Amazônia e em outros biomas brasileiros nos últimos dois anos gerou uma onda de indignação internacional, com Macron sendo uma das vozes mais críticas à política ambiental do presidente Jair Bolsonaro.

Os líderes francês e brasileiro chegaram a trocar farpas públicas. Em 2019, Macron disse que as queimadas no Brasil – cujas imagens correram o mundo e aumentaram a pressão sobre o governo brasileiro – eram uma “crise global” e precisavam ser discutidas “com urgência” pelo G7.

À época, a posição de Macron irritou Bolsonaro, que reagiu afirmando que a postura do francês evocava “mentalidade colonialista descabida no século 21”. Membros do governo Bolsonaro e filhos do presidente chegaram a xingar Macron nas redes sociais, e o próprio presidente fez um insulto machista à primeira-dama francesa, Brigitte Macron.

A situação do meio ambiente no Brasil levou inclusive alguns países europeus a ameaçarem não ratificar o acordo de livre-comércio assinado entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, que ainda precisa ser confirmado pelos parlamentos de ambas as partes.

Em agosto de 2020, a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, se uniu a Macron como voz crítica ao acordo. Por meio de seu porta-voz, ela disse ter “sérias dúvidas” sobre a implementação do pacto comercial devido ao aumento do desmatamento na Amazônia.

Segundo o porta-voz, Berlim observa “com grande preocupação” o desmatamento e as queimadas na região. “Nesse sentido, surgem sérias dúvidas sobre se, no momento, uma implementação do acordo pode ser garantida dentro do espírito pretendido. Vemos isso com ceticismo”, alertou.

Em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, o desmatamento na Amazônia cresceu 85%, atingindo 9.165 quilômetros quadrados, o maior nível registrado no bioma desde 2016, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Europa importadora de soja

A Europa é uma grande importadora de soja da América Latina, principalmente do Brasil. O cultivo e a importação de soja para ser usada, por exemplo, como ração para pecuária e biocombustível têm sido fortemente criticados por impulsionar o desflorestamento.

Um relatório apresentado na semana passada em Berlim, intitulado Fleischatlas 2021 (“Atlas da carne 2021”), apontou que 50% dos produtos agrícolas enviados do Brasil à União Europeia, especialmente soja, carne bovina e café, são produto do desmatamento.

Já entre os países europeus, a França é o maior produtor de soja. Em 2020, o governo francês anunciou um plano para aumentar a produção local do grão, visando reduzir a dependência das importações, uma vez que o país continua comprando soja de outros países, sobretudo do Brasil – o que já gerou protestos de organizações ambientalistas como o Greenpeace.

Varejistas franceses também anunciaram que, a partir de 2021, não mais comprariam soja brasileira que tivesse sido cultivada em áreas desmatadas.

EK/dpa/lusa/ots

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Este artigo foi publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

De volta para o futuro: ciclos de commodities e a concorrência da soja africana no mercado chinês

sojaA commodity da vez. Foto: Pixabay.

Por André Albuquerque Sant’Anna e Carlos Eduardo Frickmann Young

Todo país tem seus mitos fundadores. No nosso caso, o mito da abundância de recursos naturais se confunde com a própria identidade nacional. Afinal, somos os “brasileiros” – aqueles que extraíram o pau-brasil até o limite de sua quase extinção na Mata Atlântica¹.

Somos também a terra do “se plantando, tudo dá”. Diante da crença em tanta benevolência divina, não é de se estranhar que na literatura nacional desponte como herói o preguiçoso Macunaíma. Como se a complementar a extensão de terras, não houvesse o sangue e suor dos escravos, indígenas nativos e africanos sequestrados.

Voltando a “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”, o livro traz o lema “pouca saúde, muita saúva, os males do Brasil são”. Chama a atenção que Mario de Andrade, participante do movimento modernista, concordasse com a ideia de Brasil como celeiro. Afinal, bastaria nos livrar das saúvas para que nossa agricultura mostrasse toda sua pujança. Ora, esse diagnóstico não deve surpreender, uma vez que o escritor cresceu em São Paulo, no auge do café.

Àquela época, o Brasil – e, sobretudo, São Paulo – vivia um boom econômico com o café. No entanto, assim como já vivera com a borracha, o algodão e a cana, esse ciclo se esgotou. Como se não houvesse aprendizado, a cada ciclo, o país expandiu a produção agrícola utilizando mais terra, sem compromisso com inovações que aumentassem a produtividade. Deitados em berço esplêndido, agricultores aproveitavam o virtual monopólio na produção mundial para auferir renda.

No entanto, as leis da economia vigoram: se há lucro econômico excessivo, haverá entrada de concorrentes no mercado. Como ocorrido antes, com o declínio dos engenhos litorâneos pela concorrência das plantações de cana de açúcar no Caribe, e como sucedeu de forma concomitante à expansão do café, com os seringais do Sudeste Asiático interrompendo a “era de ouro” da borracha amazônica.

Isso tudo serve de algum aprendizado? Pelo visto, é como a lição difícil que o aluno prefere ignorar, torcendo para que não caia na prova. Mas a história sempre se repete, como tragédia, farsa ou mero enfado, e o problema sempre volta à tona.

Na última semana de outubro, uma notícia passou quase despercebida do noticiário econômico: a China fechou acordo para importar soja da Tanzânia. O Ministério da Economia se apressou para afirmar que a diversificação de compradores por parte da China não afetaria o Brasil. De fato, no curto prazo, as exportações de soja da Tanzânia não representam grande perigo para os produtores brasileiros. Mas, e no longo prazo? Uma análise adequada deve fugir da miopia de só olhar para apenas alguns poucos meses à frente.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) produz informações sobre aptidão do solo para produção de soja. O Mapa 1 é baseado nas informações da FAO e considera a produtividade potencial na produção de soja pela aptidão do solo com alto nível de insumos (mecanização, aplicação de fertilizantes e agrotóxicos). As áreas mais claras representam as regiões com produtividade potencial mais alta para o cultivo da soja, incluindo as regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil. Os principais países competidores do Brasil nesse mercado global também estão nessa condição: Estados Unidos e Argentina. Como no Brasil, esses países conjugam alta produtividade potencial, investimentos e grande extensão de terras.

Mapa 1 – Produtividade potencial de soja com mecanização e utilização de fertilizantes e agrotóxicos. Fonte: FAO-GAEZ.

Porém, outras partes do planeta também possuem elevado potencial, mas ainda não desenvolveram o cultivo. O Mapa 2 mostra as áreas com maior produção efetiva de soja, e fica evidente que a África é a principal parte do mundo com largas extensões de terra com alto potencial de produção, mas com baixo aproveitamento produtivo. E isso não passou despercebido pela China.

Mapa 2 – Produção efetiva de soja, em 2018. Fonte: Our World in Data.

Deve-se recordar que a China criou, em 2013, a iniciativa conhecida como Belt and Road, pela qual realiza investimentos em infraestrutura em diversos países do mundo, sobretudo na Ásia e África. Nesse sentido, deve-se compreender a recente demanda chinesa pela soja tanzaniana como um passo geopolítico com vistas a garantir o suprimento futuro de soja a partir da África, sem depender da produção sul-americana.

A crescente reticência do atual governo brasileiro em relação ao seu principal parceiro comercial possivelmente ratificou a motivação para a China diversificar seus fornecedores de matérias primas. Esse movimento não deve se restringir à soja, e tende a afetar outras commodities que hoje dinamizam a balança comercial brasileira.

Como em um filme de roteiro previsível, corremos o risco de rever o mesmo final dessa história: a concorrência de outros países derruba o preço das commodities, a atividade entra em estagnação, mas a vegetação nativa destruída nesse processo jamais se recupera. Alteram-se os protagonistas (borracha, café, soja), mas o final é sempre o mesmo: boom de crescimento associado à depleção de recursos naturais, com o mesmo triste fim de alta desigualdade.

Não custa lembrar, o agro é pop e o pop não poupa ninguém.

Nota

[1] Uma divertida discussão sobre as possíveis da origem do nome “Brasil”, incluindo a mítica ilha de Hy Brazil e a história da extração de pau-brasil, é apresentada por Eduardo Bueno em https://www.youtube.com/watch?v=XPnOYnxU7lw

Foto de destaque: Colheitadeira em plantação de soja. Crédito: Charles Echer/Pixabay.

Autores

*André Albuquerque Sant’Anna é Pesquisador do Centro de Estudos sobre Desigualdade e Desenvolvimento (CEDE/UFF ) e do Grupo de Economia do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (GEMA/UFRJ).

**Carlos Eduardo Frickmann Young é economista, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Este texto foi originalmente pelo site ((o))eco [Aqui!].

Agricultura afogada em veneno: Atlas do Espaço Rural mostra avanço do uso de agrotóxicos em todas as regiões brasileiras

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A 2a. edição do “Atlas do Espaço Rural” que acaba de ser publicado pelo IBGE mostra o avanço do uso de agrotóxicos em todas as regiões brasileiras. Segundo os dados levantados pelas equipes de pesquisa que produziram o Atlas, a proporção de estabelecimentos que admitiram usar agrotóxicos aumentou 22,9% nos últimos 11 anos, passando de 27,0% em 2006 para 33,1% em 2017. A publicação informa ainda que o aumento ocorreu em todas as grandes regiões, com o Centro-Oeste apresentando a maior elevação em pontos percentuais (13,3) em comparação a 2006 (ver figura abaixo).

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Há que se salientar que, apesar do avanço no Centro-Oeste, a região Sul continua sendo aquela com maior uso proporcional de agrotóxicos, muito em parte pela forte presença de diversas monoculturas, especialmente as de soja e de plantio de árvores para exploração industrial (ver figura abaixo).

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As principais consequências desse avanço no uso de agrotóxicos é a contaminação de ecossistemas e dos usuários e consumidores dos alimentos que são obtidos a partir de um modelo fortemente dependente do uso de venenos agrícolas cada vez mais perigosos, muitos deles banidos em outras partes do mundo.

Atacada pelo governo Bolsonaro, China faz super acordo para comprar soja argentina

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A disposição de diferentes membros do governo Bolsonaro, a começar pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, de provocar a China, principal parceira comercial do Brasil neste momento, é antes de tudo uma irracionalidade econômica. É que o Brasil depende da China para vender parte significativa da produção nacional de soja e de outras commodities agrícolas e minerais. 

Pois bem, o site especializado em fornecer informações sobre o agronegócio, o Agrolink, publicou hoje a informação indicando que o “Grupo Syngenta anunciou na Argentina um acordo de grandes proporções com a Sinograin – empresa responsável pela exploração da reserva de grãos e óleo da China. A iniciativa Agri Value Chain visa melhorar as condições das operações de barter, exportar diretamente os grãos e seus derivados para o mercado chinês e promover a cooperação de toda a cadeia agroindustrial“.

Esse acordo de “grandes proporções” confirma o fato de que após todas as declarações provocativas, o governo chinês começou a fazer o que já tinha advertido que faria, qual seja, dar preferência para fazer negócios com parceiros que tratem respeitavelmente a China, em que pese as eventuais diferenças ideológicas entre os governos.

Todas as ações provocativas que têm sido feitas contra a China parecem ter como base o pressuposto de que a China precisa mais das commodities brasileiras do que o Brasil precisa dos bilhões de dólares geradas pelas importações chinesas. Obviamente essa é uma crença sem base na realidade. 

Assim, ao provocar o principal parceiro comercial do Brasil se baseando em um falso pressuposto, o que o governo Bolsonaro pode ter garantido é a perda da preferência chinesa por nossas commodities. Se isso se confirmar, a situação da economia brasileira que já anda ruim, deverá piorar ainda mais em 2021.

Há que se lembrar ainda que mesmo que a China passa a optar pela Argentina para comprar soja, o Brasil continuará dependendo dos fabricantes chineses de insumos agrícolas para tocar as grandes áreas de monoculturas, a começar pelos agrotóxicos. Resta saber onde vão arrumar os dólares para comprar os insumos chineses.

E isso tudo para quê? Para agradar o governo comandado por Donald Trump?

Rondônia é novamente a bola da vez na destruição na Amazônia

rondonia_desmatamentoMosaico de imagens de satélite mostra em vermelho as áreas desmatadas em Rondônia até 2016

A minha trajetória como pesquisador está diretamente relacionada com as quase duas décadas que me levaram a mergulhar nas complexas relações que regem as mudanças no uso e na cobertura florestal do estado de Rondônia. Tendo ido pela primeira vez a Rondônia em 1991, pude observar com o passar do tempo o lento, mas contínuo, avanço da franja do desmatamento para áreas de alto valor ecológico e que abrigam um grande número de povos indígenas e áreas ocupadas por seringueiros.

A partir da realização do trabalho de campo que realizei para escrever a minha tese de doutoramento realizada na Virginia Tech e que tinha como objeto a análise da execução de um programa financiado pelo Banco Mundial, o Planafloro, pude percorrer por meses as estradas empoeiradas distantes da BR-364, onde pude testemunhar a ação de madeireiros e garimpeiros para quem os esforços de conservação das florestas e das comunidades tradicionais não passavam de obstáculos indesejados.

Com base nessas andanças e no uso de estudos de imagens de satélite, eu e um grupo de pesquisadores realizamos uma análise sobre o montante desmatado em unidades de conservação, e identificamos então o que consideramos ser a criação de uma nova fronteira do desmatamento em Rondônia. Desta pesquisa resultou a publicação em 2005 de um artigo na prestigiosa revista científica Environmental Conservation.

Em 2017, em outro artigo documentamos o impacto do avanço da monocultura da soja não apenas em áreas antigas de desmatamento, mas também em áreas localizadas no norte de Rondônia, principalmente em terras públicas, incluindo unidades de conservação. Esse artigo serviu, entre outras coisas, para desmistificar a ideia de que a soja não era um condutor do que se pode chamar de “desmatamento novo” por supostamente ocorrer em áreas de pastagens abandonadas.

Em todas as minhas visitas que fiz em Rondônia, ao que se convenciona chamar de “grotões” pude constatar que os que avançam ilegalmente sobre unidades de conservação e terras indígenas agem de forma articulada, sempre contando com o apoio de representantes dos setores que lucram com as formas mais predatórias de exploração das riquezas naturais existentes.  E obviamente esses representantes tinham seus interesses protegidos dentro da Assembleia Legislativa e no governo estadual de Rondônia.

Por isso, não me surpreende nenhum pouco as tentativas que estão sendo realizadas pelo governador de Rondônia, Marcos Rocha (PSL), e pelo presidente da Assembleia Legislativa de Rondônia, Laerte Gomes (PSDB). para efetivamente legalizar a ocupação ilegal de terras no interior. 

Recentemente Marcos Rocha, policial militar da reserva, que foi eleito na esteira do vagalhão de 2018,  já declarou, ao ser perguntado por um jornalista inglês se era a favor de acabar com as reservas, respondeu: “sim, porque tem reservas demais. Não é acabar com as reservas, é tirar o excesso de reservas”. Já Laerte Gomes, tem se dito a favor de transferir Rondônia para a região Centro Oeste, provavelmente para chegar aos mesmos níveis de desmatamento que foram alcançados em estados vizinhos.

Mas agora Rocha (o governador) e Gomes (o presidente da Assembleia Legislativa) passaram do discurso à ação para tentar aprovar o PLC 080/20 que altera drasticamente os limites da Reserva Extrativista Jaci-Paraná e do Parque Estadual de Guajará-Mirim para regularizar invasões e de terras públicas, e onde hoje estão estocadas mais 120 mil cabeças de gado.  Assim, para ‘passar a boiada’, como sugeriu o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o  governo de Rondônia quer diminuir em 160 mil hectares o território protegido por essas duas Unidades de Conservação, o Parque Estadual (PES) Guajará Mirim e a Reserva Extrativista (Resex) Jaci Paraná (ver imagens abaixo).

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É importante dizer que o PLC 080/20 não se trata de um artifício para legalizar a invasão de terras e subtrair áreas que deveriam mantidas sob proteção em função de sua importância ecológica. A questão é que como em casos anteriores, essa subtração de áreas apenas incentivará a ocorrência de novas invasões, incluindo as terras indígenas.

Por todas essas questões, não é possível deixar que essa tentativa de diminuir os territórios sob proteção nas mãos do governador e da Assembleia Legislativa de Rondônia, pois isso equivale a deixar as raposas cuidando do galinheiro.  Do contrário, o que teremos é ainda mais desmatamento e mais violência contra os povos indígenas, seringueiros e ribeirinhos que dependem diretamente da integridade das áreas protegidas para sobreviverem e se reproduzirem. Especial atenção deve ser ainda dada à preocupante situação dos povos indígenas isolados que estão tendo os seus territórios cada vez encurtados pela ação de madeireiros, garimpeiros e grileiros de terras.

Investigação revela que redes de supermercados e de fast food do Reino Unido usam frangos associados ao desmatamento no Brasil

Tesco, Lidl, Asda, McDonald’s e Nando’s, todas fontes de frangos alimentados com soja produzida na região do bioma tropical do Cerrado

chicken 1Uma análise recente das terras pertencentes ou usadas por fornecedores de soja no Cerrado desde 2015 encontrou 801 km2 de desmatamento. Fotografia: Jim Wicken / Cortesia da Mighty Earth

Por Jonathan Watts , Andrew Wasley , Alexandra Heal , Alice Ross , Lucy Jordan, Emma Howard e Harry Holmes para o The Guardian

Supermercados e lojas de fast food estão vendendo frango alimentado com soja importada associada a milhares de incêndios florestais e pelo menos 800 quilômetros quadrados de derrubada de árvores no Cerrado brasileiro, revelou uma investigação transfronteiriça conjunta.

Tesco, Lidl, Asda, McDonald’s, Nando’s e outros varejistas de rua, todos compram frango alimentado com soja fornecida pela gigante comercial Cargill, a segunda maior empresa privada dos Estados Unidos. A combinação de proteção mínima para o Cerrado – um sumidouro de carbono e habitat de vida selvagem de importância mundial – com uma cadeia de suprimentos opaca e sistemas de rotulagem confusos, significa que os compradores podem estar inadvertidamente contribuindo para sua destruição.

O locutor e ativista Chris Packham disse que as revelações mostram que os consumidores precisam receber mais informações sobre seus alimentos. “A maioria das pessoas ficaria incrédula quando pensasse que está comprando um pedaço de frango no Tesco’s que foi alimentado com uma plantação responsável por uma das maiores destruições de floresta tropical nos últimos tempos”, disse ele.

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Supermercados e lojas de fast food do Reino Unido estão vendendo frango alimentado com soja associada ao desmatamento no Cerrado brasileiro

“Precisamos acordar para o fato de que o que compramos nos supermercados do Reino Unido, as implicações dessa compra podem ser amplamente e enormemente prejudiciais, e este é um excelente exemplo disso.”

O Reino Unido abate pelo menos um bilhão de galinhas por ano , o equivalente a 15 aves para cada pessoa no país. Muitos são engordados com grãos de soja importados para o Reino Unido pela Cargill, que compra dos agricultores do Cerrado, uma savana tropical lenhosa que cobre uma área igual à Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália e Espanha juntas.

A análise dos dados de transporte mostra que a Cargill importou 1,5 milhão de toneladas de soja brasileira para o Reino Unido nos seis anos até agosto de 2020. Números de exportação em nível de bioma, compilados pelo órgão de vigilância da cadeia de abastecimento Trase, indicam que quase metade das exportações brasileiras da Cargill para o O Reino Unido é do Cerrado.

Entre os carregamentos mais recentes estavam 66.000 toneladas de grãos de soja que desembarcaram nas docas de Liverpool em agosto em um navio-tanque alugado pela Cargill, o BBG Dream. Esse foi o foco de uma investigação colaborativa do Bureau of Investigative Journalism, do Greenpeace Unearthed, do ITV News e do Guardian.

O porão do navio havia sido carregado no terminal portuário de Cotegipe, em Salvador, Brasil , com grãos vindos da região do Cerrado Matopiba, incluindo alguns de Formosa do Rio Preto, a comunidade mais desmatada do Cerrado. Além da Cargill, os fornecedores incluíam a Bunge (maior exportadora de soja do Brasil) e a ADM (outra grande produtora de alimentos nos Estados Unidos).

chicken 3A Cargill importou 1,5 milhão de toneladas de soja brasileira para o Reino Unido nos seis anos até agosto de 2020. Fotografia: Victor Moriyama / Greenpeace

Depois de cruzar o Atlântico, todo o carregamento foi descarregado na planta de esmagamento de soja Seaforth da Cargill em Liverpool, de acordo com registros marítimos e de embarque. A investigação rastreou a forma como o grão esmagado ali é então transportado de caminhão para moinhos em Hereford e Banbury, onde é misturado com trigo e outros ingredientes para produzir ração para gado. De lá, segue para as granjas contratadas da Avara.

Avara é uma joint venture entre a Cargill e a Faccenda Foods. Ele engorda as aves, que são abatidas, processadas e embaladas para distribuição à Tesco, Asda, Lidl, Nando’s, McDonald’s e outros varejistas. Avara prospera em relativa obscuridade. “Você pode não ter ouvido falar de nós, mas há uma boa chance de ter gostado de nossos produtos”, diz o site da empresa .

Então, de onde exatamente vem essa soja? O fornecedor da Avara, a Cargill, compra soja de muitos fornecedores no Cerrado, pelo menos nove dos quais estiveram envolvidos em desmatamentos recentes. A análise da consultoria Aidenvironment dos terrenos pertencentes ou usados ​​por essas empresas desde 2015 encontrou 801 km2 de desmatamento – uma área equivalente a 16 manhattans. Também detectou 12.397 incêndios registrados.

Vídeo sobre como o frango britânico está ligado ao desmatamento e incêndios no Brasil por Sian Butcher e Georgie Johnson para Unearthed

Ainda no mês passado, imagens de drones realizadas em Formosa do Rio Preto mostraram grandes incêndios queimando na Fazenda Parceiro, fazenda administrada pela SLC Agrícola, fornecedora da Cargill. Dados de satélite mostram que os incêndios queimaram 65 km2 da fazenda. Mais de 210 km2 foram limpos nas terras da SLC Agrícola nos últimos cinco anos, de acordo com a análise da Aidenvironment. A Cargill disse que não quebrou regras, nem suas próprias políticas, ao comprar produtos da fazenda em questão e deixou claro que não se abastece de terras desmatadas ilegalmente. A SLC Agrícola foi procurada para comentar, mas não quis se pronunciar.

Apesar dessa destruição, os produtos dessas áreas podem ser rotulados como legais e sustentáveis ​​no Brasil. Isso destaca as deficiências de um sistema de comércio internacional que depende de padrões locais, que muitas vezes são influenciados por fazendeiros focados no lucro econômico de curto prazo, ao invés do bem global de longo prazo, que incorporaria o valor dos sistemas de água, sumidouros de carbono e vida selvagem habitats.

chicken 4Os agricultores podem cortar e queimar legalmente uma proporção maior de árvores na savana do Cerrado em comparação com sua vizinha, a Amazônia. Fotografia: Jim Wicken / Cortesia da Mighty Earth

O governo brasileiro tem relaxado constantemente os controles sobre o desmatamento – e às vezes o encoraja tacitamente – ao longo da última década, principalmente com o relaxamento do Código Florestal em 2012.

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Isso é particularmente verdadeiro no Cerrado, o segundo maior bioma do Brasil, que está sendo sacrificado para aumentar as exportações, manter baixos os preços globais dos alimentos e reduzir o impacto sobre seu vizinho, a Amazônia. Os agricultores podem cortar e queimar legalmente uma proporção maior de árvores nesta savana em comparação com a Amazônia examinada internacionalmente .

Muitos biólogos acreditam que essa política é míope. As árvores, arbustos e solo do Cerrado armazenam o equivalente a 13,7 bilhões de toneladas de dióxido de carbono – significativamente mais do que as emissões anuais da China. É a origem de tantos rios que é conhecida como “o berço das águas” e abriga 1.600 espécies de pássaros, répteis e mamíferos (incluindo onças, tatus e tamanduás) e 10.000 tipos de plantas, muitas não vistas em nenhum outro lugar do mundo.

chicken 6Lobo-guará, que vive principalmente nas regiões do Cerrado e Chaco e é considerado quase ameaçado. Fotografia: Nando Bomfim

Os cientistas dizem que será difícil – senão impossível – salvar a Amazônia sem conservar o Cerrado. Mas este último sofreu o dobro do desmatamento, embora tenha metade do tamanho. Entre 50% e 80% do bioma original foi substituído por fazendas de gado e fazendas de soja, tornando esta fronteira do agronegócio que se expande mais rapidamente e uma das áreas da natureza que mais encolhe.

Independentemente de o Brasil considerar legal ou não a soja dessa área, muitos consumidores não querem comprar produtos associados ao desmatamento.

chicken 7O Reino Unido abate um bilhão de frangos por ano, muitos dos quais são engordados com ração à base de soja. Fotografia: John Eveson / FLPA / REX / Shutterstock

O Reino Unido importa 700.000 toneladas de grãos de soja in natura a cada ano, muitos do Cerrado. Também compra quase três vezes essa quantidade de ração de soja processada, a maioria da Argentina. O impacto ambiental varia enormemente de país para país. Mas os compradores não têm como saber se seu peito de frango ou hambúrguer contribuíram para o problema do Cerrado porque os rótulos fornecem informações insuficientes sobre as origens, as safras de fontes sustentáveis ​​e desmatadas podem ser misturadas e muitas empresas dependem de compensações.

As empresas envolvidas dizem que estão trabalhando para reduzir o impacto ambiental de suas ofertas, mas o progresso varia.

O McDonald’s e o Nando’s cobrem os volumes de soja que usam para ração de galinhas com “certificações” de sustentabilidade, que incluem a compra de “créditos” – semelhantes à compensação de carbono. Os créditos apoiam os agricultores que produzem de forma sustentável, mas a soja real na cadeia de abastecimento não é necessariamente desses produtores e pode vir de fazendas desmatadas.

O McDonald’s disse que visa eliminar o desmatamento de suas cadeias de abastecimento globais até 2030. Um porta-voz disse: “Estamos orgulhosos do progresso que fizemos, mas reconhecemos que há mais a fazer e continuaremos a trabalhar duro para progredir em direção ao nosso metas.”

A Nando’s não forneceu uma data-alvo para eliminar completamente o desmatamento de sua cadeia de abastecimento, mas disse que estava procurando alternativas à soja. “Reconhecemos que há mais trabalho a fazer e é por isso que também estamos investindo em pesquisas visando alternativas de alimentação mais sustentáveis ​​e esperamos poder compartilhar os resultados o mais rápido possível.”

chicken 8Várias empresas apoiam um novo acordo para impedir o desmatamento para o plantio de soja no Cerrado, mas a oposição a esta posição no Brasil significa que nenhuma ação foi tomada. Fotografia: Peter Caton

Asda e Lidl disseram que estavam trabalhando para comprar apenas soja sustentável “certificada fisicamente” até 2025, mas isso pode significar coisas diferentes. Asda entende que significa soja “segregada” livre de desmatamento – o que significa que o produto real em sua cadeia de abastecimento deve ser sustentável para atingir seu objetivo – mas Lidl esclareceu que estava incluindo um esquema em que grãos sustentáveis ​​podem ser misturados com produtos do desmatamento fazendas. Lidl disse que é atualmente o maior comprador de créditos para compensar sua pegada de soja.

A Tesco disse que estabeleceu para si mesma uma meta “líder do setor” para que sua soja venha de “áreas” comprovadamente livres de desmatamento até 2025. “Deve-se parar de fazer fogueiras para limpar terras para plantações”, disse um porta-voz. “Desempenhamos um papel de liderança ao reunir a indústria e o governo para proteger o Cerrado, incluindo o compromisso de £ 10 milhões para proteger a biodiversidade da região. Precisamos de nossos fornecedores, indústria, ONGs e governos para trabalhar conosco para acabar com o desmatamento e proteger nosso ambiente natural. ”

A Avara, joint venture da Cargill, disse que está na vanguarda dos compradores de soja no Reino Unido, cobrindo todas as suas compras de soja com certificação e trabalhando para alcançar uma transparência muito maior na cadeia de abastecimento. “Saudamos a proposta de legislação do governo do Reino Unido que visa o desmatamento ilegal, pois está alinhada com esses objetivos e é um primeiro passo importante.” A Avara faz parte da Declaração de Apoio ao Manifesto do Cerrado e faz parte do grupo gestor dessa iniciativa.

McDonald’s, Nando’s e os três supermercados citados expressaram publicamente seu apoio a um novo acordo, semelhante à moratória na Amazônia, para impedir o desmatamento para soja no Cerrado, mas a oposição no Brasil significou que nada se materializou.

chicken 9Um protesto do Greenpeace em frente à sede da Tesco, apresentando um vídeo da líder indígena Sônia Guajajara falando sobre os incêndios devastadores na Amazônia. Fotografia: Chris J Ratcliffe / Greenpeace

A Cargill – um dos atores mais importantes na cadeia de abastecimento – disse publicamente que se opõe a uma moratória do Cerrado. Na época, anunciou US $ 30 milhões (£ 22,6 milhões) em esforços de financiamento para lidar com o desmatamento, mas não especificou onde isso seria gasto. O Guardian perguntou à Cargill por que ela havia rejeitado uma moratória, mas a empresa não fez comentários sobre o assunto.

No entanto, expressou seu compromisso com uma cadeia de suprimentos sem desmatamento e com o apoio aos agricultores que trabalham de forma sustentável. Dizia: “A Cargill estima que 95,68% dos nossos volumes de soja no Brasil para a safra 2018-19 foram livres de desmatamento e conversão.” A empresa continua expandindo seu programa de certificação no Brasil e no Paraguai, mas aposta no ordenamento jurídico brasileiro. “A Cargill – junto com nossa indústria, agricultores, governos locais e clientes – é responsável pela transformação da cadeia de abastecimento de alimentos e estamos interagindo com as partes interessadas todos os dias para fazer progresso”, disse o documento. “O desmatamento naquele bioma é, na maioria das vezes, crime pela legislação brasileira. Deve ser tratado dessa forma. ”

A investigação mostra, porém, que não basta tratá-la como uma questão brasileira.

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Esta reportagem foi originalmente escrita em inglês e publicada pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

O neoliberalismo tosco de Bolsonaro e Guedes força Brasil a importar soja e milho dos EUA

milho-e-sojaApós permitir venda da safra brasileira a preços baixos, o governo Bolsonaro foi obrigado a zerar as tarifas de importação de soja e milho para abastecer o mercado interno

Há algo de muito peculiar no processo de produção, exportação e importação de grãos pelo Brasil neste momento em que estamos afundados em uma grave crise econômico que foi aprofundada pela pandemia da COVID-19. É que após o governo Bolsonaro acabar com as travas mínimas que protegiam precariamente o mercado interno, o Brasil está sendo forçado a importar soja e milho dos EUA, após ter batidos novos recordes de exportação para a China.

Essa situação é particularmente peculiar, porque o Brasil em 2019 foi o maior exportador mundial desses dois grãos, fato que deverá se repetir em 2020. Entretanto, ao não impor nenhuma medida para reservar os estoques necessários para o consumo interno, o governo Bolsonaro gerou a necessidade de que o Brasil passe a importar a produção dos EUA desses dois grãos, já que por causa do conflito com a China, sobram soja e milho nos EUA, enquanto faltam por aqui.

Essa situação insólita em que o Brasil é o maior produtor mundial de soja e milho, mas tem que importar para suprir as necessidades do seu mercado interno, é um problema grave porque tende a aumentar os custos da cesta básica, principalmente dos brasileiros mais pobres.  O fato é que, em que pese a diminuição das tarifas de importação, a soja vinda dos EUA é mais cara e tenderá a apagar, inclusive, parte dos ganhos obtido com a exportação de soja mais barata, principalmente para a China e a União Europeia.

Se acrescermos  ao encarecimento da cesta básica dos brasileiros aos dados negativos da economia as perdas e conflitos socioambientais que ocorrem na esteira da ampliação da área de plantada de soja e milho, veremoa que toda cantilena de que o latifúndio agro-exportador mata fome do mundo não passa de conversa para boi pastar em áreas ilegalmente desmatadas na Amazônia brasileira.

5G e soja: o nada a ver que tem tudo a ver

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O presidente Jair Bolsonaro recebeu uma delegação de segundo escalão do governo dos EUA e deu as declarações que alegraram os visitantes do norte em um momento em que as chances eleitorais do chefe deles parecem se esmaecer. A mais forte e problemática tem a ver com a não aquisição de tecnologia e equipamentos que sejam produzidos por empresas chinesas, mais destacadamente a Huawei.

A primeira questão que cerca esse problema é o fato de que se isso for levado a sério em termos práticos, o Brasil vai encarecer sobremaneira (e sem necessidade) a transição do 4G para o 5G, atrasando ainda o processo de colocação dessa tecnologia mais avançada no sistema telefônico brasileiro, apenas para se submeter às determinações de cunho imperial dos EUA. E, pior, sem qualquer consideração técnica, mas simplesmente por capricho ideológico. Justamente o contrário do que prometia em campanha o presidente brasileiro.

A segunda e importante questão dessa situação é que, enquanto os EUA são concorrentes em áreas em que o Brasil alcançou grande relevância como é o caso da produção da soja e do etanol, a China é a principal compradora das commodities agrícolas e minerais produzidas aqui.  Fui duas vezes na China e tive contato apenas com membros da comunidade científica chinesa, sem nunca ter encontrado pessoalmente com qualquer dirigente do governo chinês. Entretanto, pelo pouco que pude aprender nesse contato, um eventual banimento da tecnologia 5G da China será respondido de forma contundente pelos chineses, de forma a atingir o Brasil no que mais dói que é justamente a capacidade de gerar renda em dólar.

A postura do governo Bolsonaro e do presidente que o encabeça tem sido de repetidas agressões verbais e gestos de descortesia aos parceiros chineses, seja para atender a pequena franja radicalizada que retransmite as posições ideológicas extremadas de Jair Bolsonaro ou para mostrar obediência às vontades e necessidades dos EUA.  Essa postura é provavelmente amparada na certeza não declarada de que os chineses não vão abrir mão de comprar nossas commodities baratas. Essa avaliação parece desconhecer a ação diligente da liderança chinesa para alcançar auto sustentação em determinadas áreas e de garantir outras áreas de fornecimento de commodities, principalmente na África.  

O desmanche da diplomacia profissional por Ernesto Araújo está provavelmente impedindo que as embaixadas brasileiras realizem a devida prospecção de inteligência, especialmente na África onde aparentemente várias delas foram fechadas por simples capricho.  Com isso, se fortalece a certeza de que os chineses estão na mão do Brasil no tocante, por exemplo, ao fornecimento de soja. Esse é um engano básico e decorre da falta de “olhos” no exterior. A mesma coisa se dá para o minério de ferro onde a Austrália está se posicionando para se tornar uma parceira ainda mais intensa, e sem os malabarismos discursivos do presidente e do chanceler brasileiros. 

Fico apenas curioso para saber quando finalmente os membros do latifúndio agro-exportador vão parar de serem tolerantes com o governo que ameaça matar a sua galinha de ovos de ouro sem o menor pudor ou desejo de ocultar que está fazendo isso.  É que, apesar da parecer o contrário, a disputa pelo mercado brasileiro na área da tecnologia 5G tem tudo ver a com a exportação da soja que justifica o desmatamento da Amazônia. E, sim, não confundam o pragmatismo chinês com a falta de sangue na veia dos dirigentes chineses. É que Xi Jinping já mostrou que de descerebrado ele nada tem.