5G e soja: o nada a ver que tem tudo a ver

5g

O presidente Jair Bolsonaro recebeu uma delegação de segundo escalão do governo dos EUA e deu as declarações que alegraram os visitantes do norte em um momento em que as chances eleitorais do chefe deles parecem se esmaecer. A mais forte e problemática tem a ver com a não aquisição de tecnologia e equipamentos que sejam produzidos por empresas chinesas, mais destacadamente a Huawei.

A primeira questão que cerca esse problema é o fato de que se isso for levado a sério em termos práticos, o Brasil vai encarecer sobremaneira (e sem necessidade) a transição do 4G para o 5G, atrasando ainda o processo de colocação dessa tecnologia mais avançada no sistema telefônico brasileiro, apenas para se submeter às determinações de cunho imperial dos EUA. E, pior, sem qualquer consideração técnica, mas simplesmente por capricho ideológico. Justamente o contrário do que prometia em campanha o presidente brasileiro.

A segunda e importante questão dessa situação é que, enquanto os EUA são concorrentes em áreas em que o Brasil alcançou grande relevância como é o caso da produção da soja e do etanol, a China é a principal compradora das commodities agrícolas e minerais produzidas aqui.  Fui duas vezes na China e tive contato apenas com membros da comunidade científica chinesa, sem nunca ter encontrado pessoalmente com qualquer dirigente do governo chinês. Entretanto, pelo pouco que pude aprender nesse contato, um eventual banimento da tecnologia 5G da China será respondido de forma contundente pelos chineses, de forma a atingir o Brasil no que mais dói que é justamente a capacidade de gerar renda em dólar.

A postura do governo Bolsonaro e do presidente que o encabeça tem sido de repetidas agressões verbais e gestos de descortesia aos parceiros chineses, seja para atender a pequena franja radicalizada que retransmite as posições ideológicas extremadas de Jair Bolsonaro ou para mostrar obediência às vontades e necessidades dos EUA.  Essa postura é provavelmente amparada na certeza não declarada de que os chineses não vão abrir mão de comprar nossas commodities baratas. Essa avaliação parece desconhecer a ação diligente da liderança chinesa para alcançar auto sustentação em determinadas áreas e de garantir outras áreas de fornecimento de commodities, principalmente na África.  

O desmanche da diplomacia profissional por Ernesto Araújo está provavelmente impedindo que as embaixadas brasileiras realizem a devida prospecção de inteligência, especialmente na África onde aparentemente várias delas foram fechadas por simples capricho.  Com isso, se fortalece a certeza de que os chineses estão na mão do Brasil no tocante, por exemplo, ao fornecimento de soja. Esse é um engano básico e decorre da falta de “olhos” no exterior. A mesma coisa se dá para o minério de ferro onde a Austrália está se posicionando para se tornar uma parceira ainda mais intensa, e sem os malabarismos discursivos do presidente e do chanceler brasileiros. 

Fico apenas curioso para saber quando finalmente os membros do latifúndio agro-exportador vão parar de serem tolerantes com o governo que ameaça matar a sua galinha de ovos de ouro sem o menor pudor ou desejo de ocultar que está fazendo isso.  É que, apesar da parecer o contrário, a disputa pelo mercado brasileiro na área da tecnologia 5G tem tudo ver a com a exportação da soja que justifica o desmatamento da Amazônia. E, sim, não confundam o pragmatismo chinês com a falta de sangue na veia dos dirigentes chineses. É que Xi Jinping já mostrou que de descerebrado ele nada tem.

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