Professora da USP destroça mito do uso seguro de agrotóxicos no Brasil

agrotoxicos

A professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo  Larissa Mies Bombardi é hoje uma das maiores conhecedoras dos problemas envolvendo o uso de venenos agrícolas nas grandes monculturas plantadas para exportação no Brasil.  Em função disso, ela vem sendo atacada por entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador (o chamado agrobusiness).

No vídeo abaixo ela fala de forma bastante esclarecedora sobre as graves consequências do uso descontrolado de venenos agrícolas em altas quantidades e sem qualquer fiscalização efetiva no cotidiano das áreas onde os mesmos são estudados.

Abaixo uma entrevista conduzida pelo jornalista Bob Fernandes onde a professora Larissa Bombardi discorre de forma esclarecedora sobre um dos maiores mitos criados para justificar o uso dos agrotóxicos na agricultura, qual seja, de que é possível fazer uso seguro dessas substâncias de forma segura.

A verdade inescapável que emerge dessa brilhante entrevista é de que estamos sendo envenenados em nome dos interesses econômicos dos grandes latifundiários brasileiros. E aqui, mais uma vez, é preciso defender a reputação científica da professora Larissa Bombardi que está sendo vilipendiada por causa de estudos rigorosos que ela vem conduzindo e que são de completo interesse público.

Greenpeace bloqueia na França chegada de navio carregado de farelo de soja contaminado com desmatamento no Brasil

O produto saiu do porto de Cotegipe, onde a grande maioria da soja exportada vem do Cerrado brasileiro, e tinha como destino o mercado europeu

forest killerA ação busca chamar a atenção para a necessidade urgente de ação por parte de governos e empresas frente à crise climática.

Por Greenpeace Brasil

“Já que o governo Francês é incapaz de cumprir seu compromisso de combater o desmatamento e as mudanças climáticas, decidimos fazer isso por eles”, disse Cecile Leuba, da campanha de florestas do Greenpeace França. Na manhã de hoje (no horário do Brasil), cerca de 50 ativistas bloquearam a chegada do navio cargueiro ELLIREA, que saiu do porto de Cotegipe, em Salvador, com destino ao porto de Sète. O cargueiro transportava 50 mil toneladas de farelo de soja , que provavelmente seria usado para alimentação animal na França e na Eslovênia, destinos finais da carga do navio.

A ação acontece duas semanas após a publicação pelo Greenpeace Internacional do relatório Contagem Regressiva para a Extinção, que expõe o modelo de negócio predatório de grandes empresas em tempos de crise climática. De 2010 a 2020, período no qual  centenas de empresas se comprometeram a acabar com o desmatamento em suas cadeias produtivas, de diversas commodities agrícolas, 50 milhões de hectares de floresta foram desmatadas em todo o mundo para ampliar essa produção — o equivalente a uma área quase do tamanho de Minas Gerais.

Para chamar a atenção para a necessidade urgente de ação frente à crise climática, que faz vítimas no mundo todo, os ativistas do Greenpeace bloquearam o acesso do navio ao cais, em Sète, impedindo que ele atracasse, com um ativista pendurado em sua âncora. Os quatro guindastes que seriam utilizados para descarregar o produto também foram ocupados por ativistas, com banners com as mensagens “Agricultura industrial = desmatamento” e “Aviso: soja de desmatamento”. No casco do navio foi pintada a mensagem “Assassino florestal”.

O cultivo de soja já foi um dos principais vetores de desmatamento da Amazônia, até o estabelecimento da Moratória da soja em 2006. Porém, o cultivo do grão se expande sobre o território do  Cerrado brasileiro, a Savana mais biodiversa do mundo, deixando um rastro de desmatamento e muitas vezes conflitos sociais pelos territórios radicionalmente ocupados pela população indígena e outras populações tradicionais. O Cerrado, que ocupava 24% da área do Brasil, já perdeu quase metade de sua vegetação original. Mesmo assim,  a soja da região continua ganhando os mercados internacionais: ao menos 88% desse grão que sai do porto de Cotegipe vem do Cerrado e tem como destino países como a China, Espanha, Alemanha e França, onde o produto é majoritariamente usado na alimentação de animais de corte , como frangos, porcos e bois.

“Diversas empresas fizeram uma promessa há 10  anos aos seus consumidores, de que fariam a sua parte para acabar com desmatamento nos produtos que comercializam, isso teria um papel fundamental para minimizar a emergência climática que estamos enfrentando”, disse Rômulo Batista, da campanha de florestas do Greenpeace Brasil. “O curioso é que as mesmas empresas que ajudaram a sociedade a criar a Moratória da Soja, um importante mecanismo de proteção da Amazônia, hoje se negam a preservar o Cerrado e isso é inaceitável”, completa.

Os ativistas franceses exigem que os governo de seu país implemente regras mais rígidas para a entrada de produtos agrícolas não apenas do Brasil, mas de diversos outros países, com a comprovação que os produtos não têm relação com desmatamento e violações dos direitos humanos. Os franceses também buscam chamar a atenção de sua população sobre o consumo excessivo de carne e laticínios e seu impacto em ambientes como o Cerrado, a Amazônia e o Gran Chaco todos na América Latina.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil [Aqui!].

Monocultura da soja desmata e polui no Brasil para baratear consumo de carnes e laticínios na União Europeia

soja-6Avanço da monocultura da soja resultam em desmatamento explosivo e aumento exponencial do uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo.

No última 3ª. feira (18/06) postei um artigo sobre a dependência da União Europeia em relação à soja brasileira, dando ênfase a um relatório produzido pela seção francesa da organização não-governamental Greenpeace sob o título de “Apaixonada por carne, Europa alimenta a crise climática por sua dependência da soja“.

Passados alguns dias resolvi dar um mergulho nas informações que constam desse relatório, e compartilho a seguir alguns dos elementos que considero principais para um entendimento mais sólido dos altos custos ambientais, econômicos e sociais da hegemonia da monocultura da soja no Brasil, bem como dos usos preferenciais da produção brasileira na União Europeia que desmentem a falácia de que o Brasil é uma espécie de celeiro agrícola do planeta.  É que, quando muito, o Brasil se transformou numa espécie de garantidor do barateamento da produção animal europeia e, por extensão, da chinesa.

Um primeiro dado interessante é a evolução da produção mundial da soja entre 1997 e 2017 que mostra a evolução do Brasil e a aparente estagnação da produção vinda de seus principais concorrentes, que são os EUA e a Argentina. Enquanto isso, o resto do mundo continua com  produção relativamente estável, até porque com a expansão da produção brasileira restou pouco espaço para competição.

pProdução mundial de soja 1997-2017: foco nos três produtores principais.

Um segundo aspecto é a evolução espacial dos monocultivos da soja, a qual está intrinsecamente ligado no Brasil ao avanço do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, como bem mostra o mapa abaixo. Aqui é o elemento de interpretação é simples: a expansão da soja é um vetor fundamental no aumento do desmatamento no Brasil, o que desmente a falácia de que não havia plantios de soja em áreas de desmatamento novo. Essa tese já havia sido refutada em um artigo da qual sou co-autor e que foi publicado pela revista Acta Amazônica, mas o mapa feito corrobora o que havíamos indicado a partir do caso do estado de Rondônia.

mapa soja

Mapa com áreas com monoculturas de soja e o acompanhamento do processo desmatamento (áreas em vermelho).

Um aspecto particularmente interessante é o papel que a soja cumpre na alimentação dos rebanhos animais que estão estabelecidos na União Europeia (EU),  com um amplo uso em diferentes tipos de rebanhos, ainda que a dependência maior seja na alimentação de galinhas e porcos (74% do total).

repartição soja

Discriminação das necessidades da soja na EU de acordo com diferentes tipos de produção animal.

Entretanto, um dos resultados que mais me chamou a atenção foi o destino final da soja importada pela EU, pois, ao contrário do que difundem os latifundiários agroexportadores que vendem a ideia falaciosa de que o Brasil alimenta o mundo, quase 90% da soja importada pela EU é usada para alimentação animal.

uso final

Uso final da soja na UE: A principal finalidade é servir como comida animal.

Por outro lado, as atuais negociações entre o MERCOSUL e  a EU que parecem ir ao largo das graves transgressões nos direitos sociais e dos esforços para desmontar as estruturas de governança ambiental que estão sendo empreendidos pelo governo Bolsonaro ficam mais fáceis de entender quando se verifica que o Brasil fornece 37% da soja consumida pelos países europeus.

origem soja eu

Em conjunto o que o conjunto desses dados mostra é que a hegemonia da monocultura da soja na produção brasileira acaba servindo, como bem alerta o aludido relatório do Greenpeace, para baratear o consumo de carnes e produtos lactéos na União Europeia, enquanto que para o Brasil (e para a Argentina) sobram os altos custos sociais, altos níveis de consumo hídrico, e uma pesada herança associada ao uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos que estão banidos na própria EU. 

E sem falar que os alimentos que efetivamente consumimos no Brasil acabam sendo direta ou indiretamente contaminados pelos agrotóxicos que são abundantemente despejados nos grandios plantios de soja. 

‘Dependência europeia’ de soja transgênica desmata a América Latina, denuncia Greenpeace

soja desmatamento

Comer ovos e carne de frango ou porco na Europa aumenta o desmatamento em Brasil e Argentina, em consequência da importação maciça de soja transgênica destes países para alimentar animais, denunciou nesta terça-feira (11) o Greenpeace França.

“No Brasil e na Argentina, mais de 95% da soja produzida é geneticamente modificada”, indica um informe da ONG, que mostra também que mais da metade da soja que a UE utiliza é importada desses dois países (37% do Brasil, 29% da Argentina, 15% dos Estados Unidos e 19% do resto do mundo).

“O cultivo da soja nesses dois países leva a devastar suas florestas com o objetivo de alimentar os animais, especialmente na Europa”, resume à AFP a autora do informe, Cécile Leuba, encarregada de Florestas para o Greenpeace.

No estudo, com o título “Apaixonada por carne, Europa alimenta a crise climática por sua dependência da soja“, o Greenpeace indica que 87% desse grão importado para a UE é destinado à alimentação animal.

Do total das necessidades de soja da União Europeia, três quartos são destinados à criação industrial de frangos ou galinhas poedeiras (50%) ou de porcos (24%). As vacas leiteiras consomem 16% da soja importada e os bovinos cuja carne é destinada ao consumo, 7%.

“O que denunciamos é que se utiliza dois pesos e duas medidas na União Europeia. Por um lado, proibi-se os OGM e muitos pesticidas, e por outro se autoriza a importação de soja transgênica cultivada com pesticidas proibidos na Europa”, aponta Cécile Leuba.

“E o que queremos mostrar aos europeus é que em seu consumo de carne, ovos ou produtos lácteos se esconde o desmatamento, porque a maioria dos animais de criação têm soja em sua ração alimentar diária”, acrescenta.

Segundo o cálculo do Greenpeace, para obter 100 gramas de peito de frango se necessita 109 gramas de soja. Para a mesma quantidade de costela de porco, são requeridas 51 gramas de soja.

A produção de soja no Brasil “mais que quadruplicou nestes últimos 20 anos”, diz o informe.

– Reduzir 80% do consumo na Europa –

Se a Amazônia está “relativamente protegida desta expansão” graças à moratória negociada em 2006 entre ONGs, empresas e autoridades brasileiras, o cultivo de soja se desenvolveu nas savanas e florestas do Cerrado, que “perderam metade de sua vegetação original”.

A região do ‘Gran Chaco’, compartilhada entre Argentina, Bolívia e Paraguai, “também sofre uma forte pressão devido à expansão agrícola”, aponta o estudo.

Desde 1990, o uso de pesticidas por unidade de superfície “aumentou mais de 170% na Argentina e no Brasil”, estima o Greenpeace, e “mais de um terço dos pesticidas permitidos no Brasil não seriam autorizados pela UE”, principalmente o carbofurano e paraquat, assim como atrazina e imazethapyr na Argentina.

No entanto, a ONG considera impossível que a UE ou a França deslocalizem culturas não OGM para o velho continente para compensar.

Somente na França, para produzir as 3,5 milhões de toneladas de soja importadas a cada ano (incluindo 2 milhões do Brasil), seriam necessários outros 11.980 km2, ou seja, quase todas as terras agrícolas de Morbihan, Côtes d’Armor e do Finistère somadas.

E para reduzir as emissões de gases do efeito estufa, a ONG defende uma “transformação do sistema agrícola” através da redução do consumo e produção de proteínas animais.

“Na Europa Ocidental, onde o consumo de carne e produtos lácteos é quase o dobro da média global, esse consumo deve ser reduzido em cerca de 80% até 2050”, diz o Greenpeace.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela SwissInfo [Aqui!].

Preço da soja cai ao mais baixo em uma década à medida que a guerra comercial EUA-China se intensifica

A China disse que aumentará as tarifas de alguns produtos norte-americanos a partir de junho. Produtos agrícolas dos EUA atingidos vão da carne de porco ao retiro de algodão

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A soja é colhida em Tiskilwa, Illinois. Fotógrafo: Daniel Acker / Bloomberg

Por Michael Hirtzer para a Bloomberg News

Os valores futuros da soja caíram para o nível mais baixo em uma década, com a escalada da guerra comercial entre os EUA e a China enfraquecendo as esperanças de que o país asiático retome as compras de grãos americanos para facilitar o excesso de oferta.

As commodities agrícolas da carne suína ao algodão caíram na segunda-feira, com a soja caindo para US $ 8 por bushel pela primeira vez desde 2008 em Chicago, depois que a China anunciou que aumentará as tarifas de alguns produtos americanos a partir de 1º de junho. e a Bunge Ltd. também recuou.

O  aumento das tensões comerciais entre os EUA e a China, o maior importador do mundo, tem agitado as perspectivas para a demanda de soja, à medida que os agricultores americanos semeiam a próxima safra. A China comprou várias rodadas de soja no início deste ano como gestos de boa vontade nas negociações comerciais.

“Claramente, há incerteza sobre para onde estamos indo”, disse Ken Morrison, analista independente de St. Louis. “Ambas as partes se apoiaram em um canto.”

A quebra nas negociações também aumenta a probabilidade de que algumas compras de produtos americanos, como soja e carne suína, sejam canceladas antes da entrega, disse Morrison. A China comprou cerca de 7,4 milhões de toneladas de grãos dos EUA que ainda não foram embarcados, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA.

As últimas negociações entre os dois países terminaram sem uma resolução, levando o presidente Trump na semana passada a prometer que as compras de safras americanas compensariam as vendas mais lentas para a China. Ainda assim, não está claro até que ponto isso iria resolver o atual excesso de oferta.

O conflito surge no momento em que a peste suína africana praga os produtores de suínos na China e nos países vizinhos, com as perdas de suínos no Vietnã chegando a 4% de seu rebanho doméstico. A febre alastrante pode reduzir ainda mais a demanda por soja e outros alimentos para gado.

Os fazendeiros americanos estão enfrentando dificuldades porque o problema tarifário que começou há um ano atrapalhou as exportações de soja, derrubando os preços e prejudicando a renda dos agricultores. A escalada das tensões reduz as esperanças de um acordo rápido e coloca o foco de volta em mercados bem supridos.

Na sexta-feira, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) divulgou sua perspectiva mensal de safra, que prevê a elevação dos estoques domésticos em sua primeira orientação para a próxima temporada.

“O relatório do USDA tem sido bastante pessimista na última sexta-feira e contribuiu para a atmosfera sombria em vigor sobre commodities agrícolas devido às intermináveis ​​e tensas discussões comerciais entre EUA e China”, disse Agritel em nota.

PREÇOS OLEOSOS

  • Valores futuros de soja para entrega em julho caíram 2,3%, para US $ 7,91 o bushel, na Bolsa de Chicago.
  • Esse é o menor valor para contratos ativos desde o final de 2008.
  • Os preços caíram 11% até agora este ano.
  • Farinha de soja -1,3% para US $ 283,60 por 2.000 libras.

MERCADOS DE GRÃOS

  • Futuros de trigo para entrega em julho -0,7% para US $ 4,21 3/4 por bushel na CBOT.
  • Esse é o menor valor desde janeiro de 2018 para contratos ativos
  • Os valores futuros de trigo para moagem em dezembro também caem em Paris, com os preços atingindo uma baixa de contrato de EU 171,75 /t.
  • Os valores futuros de milho seguem para a quarta queda direta na CBOT.

 

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela Bloomberg News [Aqui!].

Ricardo Salles e a sombra dos 602 cientistas que cobram ações da UE contra a depredação ambiental do Brasil

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Manifesto de 602 cientistas europeus demanda que a União Europeia exija práticas de sustentabilidade do Brasil por causa do avanço do desmatamento na Amazônia e do Cerrado.

O ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, parece querer repetir o papelão de seu colega de ministério Sérgio Moro, que foi a Portugal para bater boca com o ex-primeiro ministro José Socrates (e saiu de terras portuguesas sem penas), e resolveu bater boca com os cerca de 600 cientistas europeus que publicaram uma carta na revista Science demandando ações concretas para conter o vandalismo ambiental que está sendo executado pelo governo Bolsonaro e que ameaça a integridade do que ainda resta da floresta Amazônica.

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 É que em vez de começar a agir como o ministro do Meio Ambiente em vez do desmantelador geral da pasta, Ricardo Salles concedeu uma entrevista ao site G1 onde repete fábulas insustentáveis, tais como a de que o “Brasil é exemplo de sustentabilidade” e que o “problema ambiental brasileiro está nas cidades, e não no campo“. Segundo ainda a reportagem do G1, Ricardo Salles teria declarado que “em comparação com outros países, “nós é que somos exemplo de cuidado com o meio ambiente“.

Esse tipo de declaração pode até cair bem com os segmentos mais retrógrados do latifúndio agroexportador, mas dificilmente servirá para diminuir a pressão política que a carta assinada por cientistas de mais de 28 países europeus que demanda que a União Europeia pare de “importar desmatamento brasileiro” na forma de commodities agrícolas e minerais, e que também aja para combater a violência contra os povos indígenas.

O que Ricardo Salles e sua colega ministra da Agricultura, Tereza Cristina, deveriam estar se preocupando, e não estão, é com o fato de que cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde), o Brasil irá sofrer uma espécie de isolamento sanitário por causa do uso excessivo de agrotóxicos e do aumento explosivo de desmatamento que está ocorrendo em diversos biomas nacionais, especialmente na Amazônia e no Cerrado.

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E que ninguém tenha dúvida de que o alerta da Rússia sobre o alto teor de Glifosato na soja brasileira deverá ser apenas o primeiro, e que outras commodities deverão em breve ter a continuidade de sua aquisição questionada pelo mesma exata razão.

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Aviso da Rússia sobre problemas com a compra da soja por causa do excesso de Glifosato deverá se repetir com outras commodities brasileiras.

Ainda que o governo Bolsonaro e seus ministros neófitos já tenham dados amplas demonstrações de seu despreparo para lidar com atores que não possuam caráter paroquial, alguma mente pensante que ainda resta no Ministério das Relações Exteriores deveria informar a Ricardo Salles do peso que uma correspondência do tipo publicado justamente pela revista Science deverá ter sobre os organismos colegiados da União Europeia.

É que lá, diferente do acontece por cá, o momento é de um forte engajamento entre a comunidade científica, governos nacionais, União Europeia e o empresariado. Prova disso é a iniciativa chamada de “Horizon Europe” que deverá aportar em torno de R$ 500 bilhões em financiamento de projetos de pesquisa que contribuam para o processo de desenvolvimento econômico daquele bloco econômico.

E no meio disso beira a sandice acreditar que um manifesto do porte do que foi publicado na Science vá ser desprezado em prol das declarações de Ricardo Salles.  Isso simplesmente não acontecerá.

Como estive residindo na Europa por 6 meses,  posso dizer que o estado de humor em relação aos retrocessos que estão sendo executados pelo governo Bolsonaro, retrocessos esses que têm em Ricardo Salles um dos principais executores, é péssimo. Com essas declarações do antiministro do Meio Ambiente, a chance de que o humor vá azedar de vez não é desprezível. E se isso realmente acontecer, vamos ver como Ricardo Salles vai se virar.

 

ONG liga empresas da Europa e EUA a desmatamento na Amazônia

Relatório lista empresas que compram produtos, como carne e madeira, de fornecedores multados por desmatamento no Brasil, em meio a temores de retrocesso ambiental no governo Bolsonaro.

desmatamento

Desmatamento ilegal no sul do estado do Amazonas, em 2017

“Estamos vivendo os primeiros estágios de um apocalipse”, declarou este mês uma aliança de povos indígenas ao diário francês Le Monde. A origem dessa preocupação está no desmantelamento acelerado dos direitos de posse de terras indígenas na Amazônia, um tema que domina o debate político-ambiental no Brasil desde que o presidente Jair Bolsonaro chegou ao poder.

Mas, ao escreverem num jornal que é publicado na Europa, os 13 autores – que representam povos nativos de vários países, incluindo o Brasil e a Nova Zelândia – miravam um público importante e nem sempre levado em conta. A França, assim como outros países ocidentais, é a sede de empresas cuja cadeia produtiva é manchada pelo desmatamento ilegal na Amazônia.

Nos últimos dois anos, a empresa brasileira Benevides Madeiras exportou, respectivamente, 266 e 125 toneladas de madeira para as empresas francesas Guillemette & Cie e Groupe Rougier, segundo um relatório publicado nesta quinta-feira (25/04) pela ONG Amazon Watch. E isso apesar de o proprietário, Arnaldo Betzel, ter sido multado em R$ 2,2 milhões por desmatamento ilegal.

O relatório afirma ainda que empresas da Bélgica, da Holanda e da Dinamarca também receberam carregamentos de madeira da Benevides Madeiras. Uma empresa alemã que produz bebidas, a Acai GmbH, importou 9 toneladas de polpa de fruta em 2018 de outra empresa de Betzel, a Argus, acrescenta o levantamento da Amazon Watch.

Essas empresas fazem parte de um grupo de 27 empresas europeias e norte-americanas cuja cadeia produtiva foi ligada ao desmatamento ilegal pela Amazon Watch, basicamente por meio da importação de produtos como carne bovina, couro, soja e madeira.

O relatório levanta questões sobre a responsabilidade de nações ricas – e das suas empresas – no desmatamento da Amazônia brasileira. “Nós cultivamos a terra para alimentar a nossa gente e não para alimentar animais no outro lado do mundo”, escreveram os representantes da Aliança dos Guardiães da Mãe Natureza no Le Monde.

A destruição da Amazônia para a produção de carne, grãos e madeira tem causado perda de biodiversidade e elevadas emissões de gases do efeito estufa. Especialistas consideram que o desmatamento da Amazônia é um dos principais empecilhos para se chegar às metas climáticas globais.

Mas a responsabilidade não é apenas brasileira. “Comerciantes internacionais, instituições financeiras e empresas importadoras desempenham um papel extremamente importante”, diz um dos autores do relatório, Christian Poirier, da Amazon Watch. “Nossas conclusões mostram que eles são cúmplices na crescente destruição da Amazônia brasileira e de suas comunidades e povos indígenas.”

O relatório, que analisou remessas de 56 empresas brasileiras envolvidas no desmatamento ilegal para as empresas de nações ricas que compram delas, não afirma que um determinado carregamento continha produtos obtidos do desmatamento ilegal, mas mostra que importadores da Europa e da América do Norte compraram de fornecedores brasileiros que recentemente receberam multas das autoridades ambientais.

Num dos casos, a maior exportadora brasileira de carne bovina, a JBS, teria abatido animais da AgroSB, empresa que recebeu as maiores multas por desmatamento ilegal do país em 2017. Os maiores acionistas ocidentais da JBS incluem a Blackrock, maior empresa mundial de gestão de ativos, e a Capital Group e detêm quase 2 bilhões de dólares em ações, afirma o relatório.

Em outro caso, uma subsidiária do Grupo Bihl, uma empresa de produção de carne bovina, exportou couro para cinco curtumes italianos em 2017. Naquele ano, uma outra empresa do Grupo Bihl, a Agropecuária MALP, foi multada em R$ 3,8 milhões por desmatamento ilegal, afirma o relatório.

A JBS afirmou que “não adquire animais de fazendas envolvidas com desmatamento de florestas nativas, invasão de áreas indígenas e áreas de conservação ambiental” e que auditorias mostraram que, nos últimos três anos, mais de 99,9% dos animais adquiridos pela empresa estão em conformidade com os seus critérios sociais e ambientais.

Todas as demais empresas mencionadas se recusaram a comentar o relatório ou não responderam a pedidos para se posicionarem.

Ambientalistas afirmam que o setor privado tem um papel importante a desempenhar na prevenção de um retrocesso na situação ambiental do Brasil sob Bolsonaro. Desde que assumiu o poder, em janeiro, o militar da reserva seguidamente defendeu a expansão do agronegócio na Amazônia, mesmo às custas dos direitos dos povos indígenas e do meio ambiente.

“Este relatório é um convite para pedir [a essas empresas] que repensem, e para agir como vigilante sobre os piores atores no Brasil e, em último caso, sobre o regime Bolsonaro”, diz Poirier. “Isto não é um ataque, mas um alerta – as empresas precisam melhorar suas cadeias de fornecimento e seus portfólios financeiros.”

Décadas de ativismo fizeram as taxas de desmatamento no Brasil caírem, mas analistas temem que elas possam voltar a crescer. Em 2018, o Brasil registrou sua maior taxa de desmatamento em uma década, segundo dados do governo, em parte devido a pessoas que se sentiram encorajadas a desmatar sob o novo governo. Em todo o mundo, o desmatamento é a segunda maior fonte de emissões de gases do efeito estufa.

O Ministério do Meio Ambiente brasileiro não retornou os contatos feitos pela DW.

Informar o consumidor

A presença de produtos obtidos a partir do desmatamento ilegal em lojas de cidades europeias e norte-americanas – de bolsas de luxo a smoothies orgânicos – levanta questões éticas para consumidores e governos ocidentais, assim como para as empresas responsáveis.

“Muitas das florestas sendo destruídas estão sendo destruídas ilegalmente”, diz David Kaimowitz, diretor de recursos naturais de mudanças climáticas da Fundação Ford. “De uma perspectiva de políticas, isso é importante porque governos têm o direito de impedir produtos produzidos de forma ilegal de entrar em seus países.”

Especialistas dizem que o problema é ainda pior porque consumidores muitas vezes não sabem que efeitos os produtos que eles compram deixaram em florestas tropicais. “Acho que consumidor típico não sabe quando está comprando carne ou biscoitos cujos ingredientes estão entre as maiores causas de desmatamento”, diz Kaimowitz.

Se os produtos tivessem mais informações nas suas embalagens, os consumidores poderiam tomaram uma decisão de forma mais consciente. “Se o consumidor sabe, pode decidir ele mesmo”, diz a economista Ruth Delzeit, do instituto econômico alemão IFW.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!]. A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. 

2-4,D (Agente Laranja): o herbicida que tem feito agricultores gaúchos desistirem de produzir uva

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Por Felipe Prestes para o Sul 21

Há cerca de cinco anos um fenômeno incompreensível começou a ser notado pelos associados da Cooperativa Agrária São José, que produz vinhos na cidade de Jaguari, região centro-oeste do Estado. Em uma das mais antigas cooperativas gaúchas, fundada em 1932, nada parecido havia acontecido antes. “Começaram a enrugar as folhas dos parreirais, torcer e definhar a produção. Nossos técnicos analisavam e não encontravam doença nenhuma”, conta o presidente da entidade, João Minuzzi.

Embora já existissem suspeitas, só no ano passado é que se comprovou a causa do problema: análises mostraram que o culpado pela queda na produção da cooperativa era a presença do 2-4,D, um herbicida utilizado largamente nos últimos anos por sojicultores. O produto é usado no combate da buva, uma planta tida como “invasora”, que criou resistência ao glifosato.  

“Produzíamos cerca de 18 toneladas de uva e agora cinco, seis”, relata o presidente da cooperativa. A queda na produção tem trazido consequências bastante graves. “Eu comprei neste ano várias toneladas de uva. Não tenho mais matéria-prima para fazer o vinho”, conta. Se, em um futuro próximo, mais de 30% das uvas utilizadas na produção do vinho vierem de não-associados, esta operação pode deixar de ser considerada um ato cooperativo, implicando em uma série de mudanças para a São José, como, por exemplo, o aumento de tributos.  

Mas o problema não fica restrito à Cooperativa São José, muito pelo contrário: se estende por diversas regiões do Estado, como, por exemplo, a região da Campanha. “Faz uns três anos que a gente começou a sentir a pouca produção, mas não se sabia o motivo. Então alguns produtores mais experientes, e que também plantavam soja, perceberam a causa. A perda é gigante em praticamente todas as vinhas da região”, conta a presidente da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha, Clori Peruzzo. 

“O 2,4-D é similar a um hormônio, envia mensagens para a planta, por isto quantidades muito pequenas já causam sintomas, causam uma desregulação”, relata o engenheiro agrônomo e chefe da Divisão de Agrotóxicos da FEPAM, Gianfranco Badin Aliti. “Nas plantas mais sensíveis mesmo que não leve à morte, causa queda de produção, de floração, na safra atual e nas seguintes”, explica. 

Por este efeito duradouro do 2-4,D muitos agricultores têm simplesmente desistido de trabalhar com uva. “O 2-4,D está erradicando os parreirais. Tu plantas e ele não vem mais, sobe uns 50 centímetros, bate o veneno e não cresce mais. Os associados estão largando e plantando fumo no lugar”, lamenta Minuzzi, da cooperativa de Jaguari. 

Na Campanha, a presidente da associação teme que isto também possa acontecer. “Muitas plantas morreram ao longo desses três anos. Então nós temos que replantar. Mas se não pararem de aplicar esse produto, nem vale a pena replantar”, diz Clori Peruzzo.

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Foto: Cooperativa Agrária São José

Prejuízos para diversas cadeias produtivas e para a saúde 

Entre setembro e dezembro do ano passado, a Secretaria Estadual de Agricultura coletou 61 amostras de videiras, em 21 municípios e encontrou 2-4,D em 56 amostras, em 18 municípios. Apesar de a maioria das amostras terem sido coletadas na Região da Campanha, o 2-4,D aparece nos parreirais de municípios de várias regiões do Estado, como São Borja, na Fronteira Oeste; Monte Alegre dos Campos, nos Campos de Cima da Serra; e Sobradinho, na Região Central do Estado. A Secretaria também detectou o 2-4,D em cinco amostras de oliveiras em Candiota e uma em Santana do Livramento. E também em duas amostras de cinamomo, e uma em milho, azevém, campo nativo, pasto e guabiju. 

Os problemas ocorrem devido à deriva, que é quando o agrotóxico aplicado em uma lavoura vai para fora da área de cultivo. A pulverização aérea costuma trazer maiores riscos de deriva, mas o 2-4,D costuma ser aplicado por tratores e mesmo assim tem gerado deriva. Pairam dúvidas sobre que distância o 2-4,D pode atingir. Fala-se em dois a três quilômetros, mas os vitivinicultores dizem ter sido atingidos por aplicações a até dez quilômetros de suas propriedades. 

O Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) projeta prejuízos de R$ 94 milhões, com redução de 32% apenas na colheita atual da uva, sem considerar que os efeitos do 2-4,D vêm sendo notados há alguns anos.  “Nós projetamos de forma muito conservadora os prejuízos”, ressalta Helio Marchioro, conselheiro do Instituto. “Não consideramos custos intangíveis, como o custo de implantação, de parreirais que precisarão ser implantados novamente. Só consideramos o custo da safra e o valor agregado no vinho, com preços conservadores”. 

Mas a deriva do 2-4,D não coloca em perigo apenas atividades econômicas. “Se encontrou 2-4,D até em área urbana de Bagé e ninguém fala na questão da saúde humana, do meio ambiente que está sendo contaminado, dos trabalhadores rurais que aplicam, as crianças, gestantes, idosos todas as crianças que ficam expostas”, ressalta o coordenador do Fórum Gaúcho de Combate ao Impacto dos Agrotóxicos, Rodrigo Valdez de Oliveira. “O Brasil ano passado foi responsável por 20% do consumo mundial de agrotóxicos. Pena que essa situação só tomou relevo por conta do problema entre cadeias econômicas”, lamenta. 

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Foto: Cooperativa Agrária São José

Vitivinicultores cobram a suspensão do uso de 2-4,D 

O Ministério Público Estadual apura os danos causados pelo 2-4,D. Por meio da assessoria de imprensa, o MP informa que em meados de março o promotor responsável pela investigação, Alexandre Saltz, chamou “representantes dos diversos setores atingidos pelo agrotóxico para buscar uma avaliação sobre o impacto do mesmo na economia do estado, já que há indícios de que prejudica culturas de uva, oliva, maçã, produção de vinho, dentre outras”. A assessoria informa ainda que o promotor aguarda “documentações desses produtores e buscando reunir-se com os secretários de Estado da Agricultura, Saúde e Meio Ambiente para ver quais providências serão tomadas”. Por fim, esclarece que, “dependendo das respostas dos secretários, o MP não descarta o ajuizamento de ação para proibir a utilização do 2,4 -D no Estado”. 

Anteriormente, a promotora Anelise Grehs, coordenadora do Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais do Ministério Público Estadual, chamou as partes envolvidas para buscar uma solução conjunta, mas não houve acerto. O Governo do Estado também criou um Grupo de Trabalho para discutir a questão com todas partes envolvidas, mas a primeira reunião só foi ocorrer no último dia 17. E os vitivinicultores têm pressa, pois o preparo do plantio de soja e, portanto, a aplicação de 2-4,D, começa em junho. “No mais tardar final de maio temos que ter isto resolvido”, defende Clori Peruzzo.  

O impasse entre os produtores de uva e vinhos e os de soja parece residir na suspensão ou não do uso da substância. Os vitivinicultores com quem o Sul21 conversou são taxativos. “A gente não vê alternativa senão a suspensão pelo menos neste ano para a gente trabalhar mais tranquilo”, afirma Peruzzo. O conselheiro do Ibravin Helio Marchioro concorda: “Não tem outra saída”. 

Em 2017, a Prefeitura de Jaguari propôs e a Câmara de Vereadores aprovou a suspensão do uso de 2-4,D durante o período de 15 de setembro a 15 de março na área de vitivinicultura da cidade. Ainda assim, a utilização do princípio ativo em municípios próximos tem feito com que os parreirais de Jaguari sejam atingidos. “Tem que ter uma lei de nível estadual”, conclui João Minuzzi. 

Para o coordenador do Fórum Gaúcho de Combate ao Impacto dos Agrotóxicos, a solução também seria a suspensão do uso do 2-4,D. “Não há tempo para que o Estado regule esta matéria. O que eu acho que seria acertado seria uma suspensão do uso do 2-4,D para este ano até que sobrevenha uma legislação ou decreto estipulando uma série de medidas para minimizar esses problemas”, afirma. 

Porém, a tendência é que a suspensão não ocorra. A FEPAM, responsável pelo cadastro dos agrotóxicos no Estado, já descartou a hipótese. O órgão encaminhou a questão para a Comissão de Cadastro, que é formada por três integrantes técnicos da Secretaria de Saúde, três da Agricultura e três da FEPAM. “Para suspender tem que ter fundamentação e, neste caso, nós não vimos fundamentação. Eu levei para a Comissão e eles foram bem enfáticos de não haver restrição. Mas faço uma ressalva: isso não significa que ele não seja perigoso”, afirma o engenheiro agrônomo e chefe da Divisão de Agrotóxicos da FEPAM, Gianfranco Badin Aliti. 

O agrônomo ressalta que o produto é largamente utilizado na Europa e nos Estados Unidos e que o problema maior pode estar residindo na má aplicação. “Quanto maior a gota do produto, menos ela fica volátil, gotas pequenas podem atingir distâncias maiores. Isso depende da pressão do equipamento. Um equipamento bem regulado pode diminuir a deriva, embora não se possa garantir que não aconteça”, explica. 

Outro órgão que poderia suspender o uso do 2-4,D seria a Secretaria Estadual de Agricultura, mas o secretário Covatti Filho descarta esta medida. “A suspensão do 2,4-D, por si só, não resolve o problema, considerando que, em nossa visão, os prejuízos registrados em outras culturas foram decorrentes de aplicação incorreta do herbicida. Trocar um produto por outro não é garantia de solução para uma situação que teve como causa, conforme nossa análise preliminar, a aplicação incorreta. Em nosso entendimento, a resolução deste conflito passa por uma discussão profunda com diferentes cadeias produtivas”, afirma. 

“Se proibir o 2,4-D o problema vai se transferir para o glifosato ou para outro produto. É preciso um regramento que force as boas práticas de aplicação”, defende o presidente da Associação dos Produtores de Soja do Rio Grande do Sul (APROSOJA-RS), Luiz Fernando Fucks. Conforme o dirigente, a tecnologia de pulverização existente permite evitar a deriva. Segundo ele, foi feito um mau uso do 2-4,D, especialmente na região da Campanha, onde o vento é muito forte. “Naquela região de fronteira agrícola o pessoal não está muito consciente. Por isso que chegou a necessidade de um regramento”, diz, embora o problema esteja afetando também outras regiões do Estado. 

Fucks afirma que o controle de plantas invasoras, como a buva, é fundamental no plantio de soja. “A buva é muito difícil de controlar, se você não controlar de um ano para outro a população aumenta muito”. Ele explica que, sem o uso de agrotóxicos, seria necessário o revolvimento da terra, o que baixa muito a produtividade. 

O presidente da Cooperativa São José discorda da necessidade do uso de 2-4,D. Segundo ele, a utilização desta substância é uma questão meramente econômica. “Eu também planto soja e não uso o 2-4,D. Todos nós da cooperativa plantamos soja. Não é como estão falando, que não seria possível plantar sem o 2-4,D. Existem várias outras substâncias que podem ser utilizadas. Só sai um pouco mais caro. É pela relação custo-benefício”, afirma. João Minuzzi ressalta ainda que a buva já tem oferecido maior resistência ao 2-4,D, fazendo com que seja necessário utilizar um volume maior do agrotóxico, o que já minimiza mesmo a justificativa econômica  de seu uso. 

O conselheiro do Ibravin Helio Marchioro afirma que, apesar de a soja trazer divisas para o país, privilegiar o cultivo dela em detrimento de outras culturas não traz benefícios econômicos. “Nós queremos apoio de todos para que não haja uma valoração de uma cultura em detrimento de outras. A soja tirou do campo centenas de famílias e botou na cidade, gerando custos para os municípios, como, por exemplo, de saneamento. Mas a soja não agrega valor, os municípios arrecadam muito pouco com ela. E gera pouco emprego. No caso da uva, tem agregação de valor, tem o vinho, o rótulo, a garrafa. Tem mão-de-obra para colher, na indústria, nas vendas, no enoturismo, na hotelaria”, compara.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo site Sul 21 [Aqui!]

Embargo sanitário contra o Brasil por causa do excesso de agrotóxicos é uma questão de tempo

agrotoxicos

A agência Publica vem publicando uma série de reportagens sobre os efeitos avassaladores que o amplo uso de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo, está causando na cadeia agrícola brasileira.  No  dia 07 de julho, uma reportagem assinada por Pedro Grigori mostra o extermínio de algo em torno de 0,5 bilhão de abelhas apenas em quatro estados brasileiros (RS, SC, MS e SP) por causa do contato com agrotóxicos à base de neonicotinoides e de Fipronil, produto proibido na Europa há mais de uma década

abelhas mortas

Mas nem a mortandade de abelhas ou as crescentes evidências de que os brasileiros estão sendo paulatinamente envenenados por resíduos de agrotóxicos que estão contaminados até o lençol freático em áreas agrícolas com menor intensidade de uso destes venenos agrícolas estão servindo para conter  a sede por novos venenos por parte do latifúndio agro-exportador que tem hoje na soja a sua principal fonte de renda.

Isto fica evidente numa reportagem assinada pela jornalista Natália Cancian para a Folha de São Paulo onde são apresentados dados oficiais sobre a velocidade de aprovação para a comercialização de agrotóxicos altamente tóxicos para a saúde humana e o ambiente (ver infográfico abaixo).

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Fonte: Folha de São Paulo

Apenas para que se tenha uma ideia da amplitude do crescimento exponencial de venenos agrícolas disponíveis no mercado brasileiro, em 2012 publiquei um artigo científico na revista Crop Protection dando conta que estavam disponveis 1.079 produtos formulados registrados no Brasil, o que representaria um crescimento de 197% em apenas 7 anos.  E o pior é constatar que apenas nos primeiros dois meses de governo Bolsonaro foram aprovados 74 novos agrotóxicos, a maioria nas faixas consideradas mais perigosas para a saúde humana e o meio ambiente.

A verdade é que em vez de se buscar um maior aperfeiçoamento nos sistemas de manejo de culturas agrícolas que contemplasse a diminuição no uso de fertilizantes sintéticos e agrotóxicos, os latifundiários optaram pelo caminho aparentemente mais fácil de aumentar a quantidade do uso destes insumos altamente poluentes.

O problema é que esse modelo viciado em venenos cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde) vai ter sua compra barrada em outras partes do mundo onde a tolerância à quantidade existente de resíduos de venenos agrícolas na produção agrícola é menor, a começar pela União Europeia, mas certamente isto não ficará restrito a este bloco comercial, como ficou bem claro na ameaça feita pela Federação Russa de barrar a compra de soja brasileira em função do alto nível de resíduos de herbicidas produzidos a partir do glifosato.

Mas enquanto o inevitável não chega, há que se discutir como impedir o avanço da Tsunami de venenos que está sendo desencadeada pelo governo Bolsonaro sob pena de termos uma catástrofe humana e ambiental no Brasil. Os sinais de alerta já estão claros, e será de bom senso não desprezá-los. Simple assim!

Recado dado pela China e desprezado por Bolsonaro gera prejuízo bilionário para o Brasil

E os problemas comerciais e políticos do Brasil podem estar apenas começando…..

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No dia 31 de Outubro, a revista “Pequenas Empresas & Grandes Negócios” publicou uma matéria repercutindo uma dura mensagem do governo chinês ao então presidente eleito Jair Bolsonaro no sentido de que não ele não atrapalhasse as relações comerciais Brasil-China.

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Desnecessário dizer que o que se viu entre o dia da eleição e o pós-Carnaval 2019 foi uma total desconsideração do recado dado pelo governo chinês em prol de um alinhamento tacanha com a retórica emanada do Departamento de Estado dos EUA. Fosse por meio do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, ou do próprio presidente Jair Bolsonaro, o que se viu foi uma série de declarações demonizando a China, no que se configurou uma das ações mais destrambelhadas do atual governo brasileiro.

E por que essas declarações seriam destrambelhadas? As razões para essas são muitas, mas a principal é de que não apenas a China é atualmente o maior parceiro comercial não apenas do Brasil, mas também dos EUA.  Aí não é preciso ser nenhum grande expert em comércio internacional para saber que o mais sábio seria evitar se embrenhar nas disputas espinhosas que estão sendo travadas pelo governo de Donald Trump com o governo chinês, sob pena de sofrer duras consequências no plano econômico.

Mas como sabedoria não é o forte do governo Bolsonaro, a China já enviou dois recados duros para a dupla Araújo-Bolsonaro que deverão agravar ainda mais a crise econômica que o Brasil vive neste momento e, por extensão, também os problemas políticos do atual governo.  O primeiro foi a retomada pela China das compras da soja produzida pelos EUA. Esta opção chinesa pela soja estadunidense deverá com que os produtores brasileiros de soja arquem com prejuízos bilionários pela simples ausência de outros compradores para o montante que a China agora comprará dos EUA, já que em 2018 o país asiático comprou 86% da produção brasileira.

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O segundo recado é ainda mais problemático porque sinaliza que a China não mais fará investimentos bilionários na área da infraestrutura no âmbito do “Fundo de Cooperação Brasil-China para Expansão da Capacidade Produtiva“, a começar pela suspensão de um projeto que financiaria a distribuição da energia gerada pela hidrelétrica de Belo Monte.

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A falta de senso por parte do governo Bolsonaro sobre o papel econômico cumprido pela China parece ser total, na medida em que em vez de visitar primeiro o nosso principal parceiro comercial, Jair Bolsonaro visitará primeiro países como EUA, Chile e Israel, onde o que conta não é a situação complicada em que se encontra a economia brasileira, mas sim a alegada “batalha cultural” que norteia as ações do atual governo. E o pior é que além da alienar a China, Jair Bolsonaro ainda arrisca exponencializar as contradições já abertas com os países árabes que também compram parte considerável da produção do agronegócio brasileiro.

Tudo isso colocado junto aponta para um isolamento político e econômico do Brasil em relações aos seus principais parceiros  comerciais, justamente num momento em que a economia brasileira mais depende da exportação de commmodities agrícolas e minerais para não entrar no vermelho em sua balança comercial. Aliás, fico só imaginando a cara dos latifundiários que apoiaram Jair Bolsonaro na esperança de aumentar seus ganhos e agora se vêem na iminência de terem prejuízos bilionários por causa dele.

Enquanto isso, Donal Trump se prepara para receber Jair Bolsonaro por míseros 20 minutos na Casa Branca, enquanto retoma as vendas dos produtos agrícolas estadunidenses para os chineses. E la nave va…..