Na esteira do Projeto do Semiárido, monoculturas de soja e eucalipto

Na prática, recursos do Projeto de Lei do Semiárido vão financiar monoculturas de árvores e de soja

A mídia corporativa local anuncia que o Senado Federal deverá votar nesta 3a. feira o Projeto de Lei No. 1440/2019, também conhecido pela alcunha de “Projeto do Semiárido”, que deverá  conceder aos municípios do Norte e Noroeste benefícios do semiárido. A justificativa encontrada para essa equiparação à região Nordeste em termos de benefícios que compensem o ressecamento associado à escassez das chuvas.

Curiosamente o “Projeto do Semiárido” tem como um dos suas principais apoiadoras a Federação de Indústria do Rio de Janeiro (Firjan) que, por outro lado, é uma das inspiradoras da criação de um deserto verde no Norte Fluminense, a partir da implantação de grandes plantios de eucalipto.

🌱 Notícia boa para Campos! 📢, O desenvolvimento da nossa cidade segue  firme! Antes, terras sem uso e improdutivas agora estão sendo arrendadas  para o plantio de eucalipto. Já temos uma empresa ...

Wladimir Garotinho: entre o “Projeto do Semiárido” e o apoio ao Deserto Verde

É o famoso acendendo “uma vela para Deus e outra para o diabo”.  Afinal, se os municipios do Norte e Noroeste Fluminense estão assim tão prejudicados pela escassez de chuvas, como é que se explica o apoio à implantação de monoculturas de árvores, como faz a Firjan?

No plano municipal, há que se lembrar que é a Secretaria Municipal de Agricultura (SEMA) quem apoia de forma muito animada a implantação de outra monocultura voraz no consumo de águas que é a da soja.   Assim, somando-se os planos da Firjan e da SEMA teremos que qualquer financiamento que saia para o “Projeto do Semiárido” será, na prática, para apoiar monoculturas que causam alto consumo e ainda a contaminação dos recursos hídricos via o uso intensivo de agrotóxicos.

O Secretário Municipal de Agricultura, Almy Junior, participa de “colheita da soja” : semiárido que é bom, nada

Por outro lado, sobre a recuperação da cobertura vegetal via projetos de reflorestamento usando espécies da Mata Atlântica não há uma palavra sequer.  E se levarmos em conta que grande parte do ressecamento que vivemos no Norte e Noroeste Fluminense se devem à derrubada quase total das florestas para o plantio de outras monoculturas e de pastagens, esse esquecimento deixa ainda mais explícito que o “Projeto do Semiárido” oscila entre as mais puras formas de cinismo e de farsa.

E uma coisa é certa: sem correções profundas de rumo, qualquer dinheiro que vier parar por aqui por causa desta lei será para aprofundar os problemas existentes e não o contrário. 

Enchentes de 2025: Rio Grande do Sul está se tornando um forte centro propulsor de refugiados climáticos

Enchentes no RS: Para onde vão os refugiados climáticos?

Pessoas desabrigadas pelas enchentes de 2024. O drama está se repetindo em 2025

O termo refugiado climático se refere a pessoas que, por causa das mudanças climáticas têm de deixar o território em que vivem.  Pois bem, as notícias que chegam do estado do Rio Grande do Sul dão conta que, pouco mais de um ano após a ocorrência das mega enchentes que assolaram a parte central do estado e que tiveram impactos profundos sobre a cidade de Porto Alegre, há uma nova enchente gigantesca em curso.

Segundo informações do site Metsul,  o nível do Rio Jacuí, que desemboca no Guaíba, atingiu nesta sexta-feira (20/6) 26,30 metros em Cachoeira do Sul, valor que fica abaixo somente das enchentes de 1941 e 2024.  Como o Jacuí termina no Guaíba, as próximas horas poderão ser dramáticas para os segmentos da população que foram duramente afetados em 2024.  Penso ser importante lembrar que em maio de 2024, o estado do Rio Grande do Sul foi assolado por inundações históricas, afetando mais de 300 mil pessoas e 446 municípios.

Ponte do Fandango foi interditada nesta sexta-feira (20/6) com o terceiro maior nivel do Rio Jacuí já observado na história de Cachoeira do Sul | Cristiano Pontes Dias

Nos próximos dias e semanas, o Blog do Pedlowski deverá publicar textos de testemunhas privilegiadas da hecatombe climática que se abate mais uma vez sobre o Rio Grande do Sul em um esforço de oferecer informações que estão sendo negadas pela mídia corporativa.

É importante lembrar que a situação do Rio Grande do Sul é causada por uma combinação de elementos complexos que combinam mudanças no uso da terra dentro e fora dos limites estaduais com fatores climáticos que operam em diferentes escalas espaciais.  A hegemonia das monoculturas da soja e de árvores na região central do Rio Grande do Sul somada ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado representa um gatilho poderoso na detonação de uma grave crise climática que ameaça se repetir anualmente.

Enquanto isso as elites gaúchas dentro e fora do aparelho de estado continuam se comportando no melhor estilo dos ricos que estavam dentro do navio Titanic. Em outras palavras, continuam aferradas ao mesmo estilo de produção e consumo que está na gênese da crise climática que abala o Rio Grande do Sul. Afinal de contas, elas não precisam se preocupar quando as águas sobem.

Como me chegaram notícias de que sequer as comportas que protegem (ou deveriam proteger) foram consertadas, o produto final disso será a criação de uma massa de refugiados climáticos que terão de procurar outras partes do Brasil para se instalar. 

Instituto Escolhas publica relatório devastador sobre a (in) sustentabilidade da produção de soja no Brasil

O prometido e antecipado relatório técnico produzido pelo Instituto Escolhas sobre a (in) sustentabilidade da principal commodity de exportação produzida no Brasil, a soja, acaba de ser publicado e traz dados alarmantes sobre a forte dependência em relação ao uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos.

Os dados baseados principalmente em estatísticas oficiais são quase tão devastadores para a soja, como a soja é para as florestas e ecossistemas hídricas nacionais. O que o estudo do Instituto Escolhas revela é que o aumento exponencial do uso de agrotóxicos no Brasil está diretamente ancorado na expansão dos monocultivos de soja.

E, pior, o estudo mostra que apesar do aumento exponencial no uso de agrotóxicos, o retorno em termos de produção vem caindo ao longo do tempo, o que faz com que o custo proporcional dos venenos agrícolas represente atualmente uma parte substancial do custo associado ao plantio de soja.

O relatório tem o sugestivo título de “Brasil como líder mundial em produção de soja: até quando e a que custo?”,  e sua leitura deixará claro aos leitores que essa é uma liderança é uma espécie de tigre de papel, mas que traz custos econômicos, sociais e ambientais altíssimos.

O Instituto Escolha está distribuindo o relatório na forma completa, mas também está publicando um sumário com as informações mais significativas.  Em qualquer um dos formatos, essa é uma leitura obrigatória para quem deseja entender melhor o peso significativo da soja no uso exponencial de agrotóxicos no campo brasileiro.

Soja lidera uso de agrotóxicos no Brasil, mas apesar disso a produtividade está caindo drasticamente, mostra relatório

De acordo com um estudo realizado pelo Instituto Escolhas, o latifúndio agro-exportafor brasileiro tem intensificado o uso de agrotóxicos e fertilizantes para aumentar a produção de soja, na qual o Brasil é líder mundial.  Além disso, esse aumento se dá em um ritmo mais acelerado do que a expansão da área plantada, o que pode acarretar riscos ambientais e reduzir a rentabilidade dos produtores. Por outro lado, ao se comparar com países líderes no uso de agrotóxicos, como Estados Unidos, Argentina, China e Índia, o Brasil se destaca, conforme mostram dados oficiais.

Por outro lado, o levantamento feito pelo Instituto Escolhas aponta que mesmo com um aumento da produtividade de 2% ao ano, esse crescimento é inferior à expansão da área plantada e ao aumento do uso de insumos, que foram de 5% e 11% respectivamente.  O estudo também mostra que, em 30 anos, a área de soja saltou de 11 para 44 milhões de hectares, mas a eficiência do uso dos agrotóxicos caiu drasticamente: em 1993, eram 23 sacas de soja produzidas para cada quilo de agrotóxico aplicado; hoje, são apenas 7.

Além disso, o estudo mostra que o custo dos agrotóxicos e fertilizantes saltou de 30% para 44% sobre o valor bruto da produção. 

Livre da soja, Pantanal sofre com veneno que chega pelos rios

Segundo Jaqueline Ferreira, do Instituto Escolhas, o aumento do uso de agrotóxicos e fertilizantes é frequentemente minimizado pelos alta na produção de soja, que é essencial para o abastecimento mundial e fonte de exportação de dólares para o país. Para a safra 2024/2025, o Brasil projeta uma produção recorde de 168 milhões de toneladas de soja, 13% a mais que o ano anterior. Mas esse resultado não pode esconder que isso está acontecendo graças ao aumento do desmatamento e do uso de agrotóxicos, muitos deles banidos na Europa e até na China.

Corporações da soja receberam R$ 4,7 bilhões em isenções fiscais no Mato Grosso entre 2019 e 2024, mostra relatório do TCE/MT

Uma das grandes fontes de sangria fiscal nos estados brasileiros são as políticas de isenção criadas supostamente para alavancar o processo de desenvolvimento econômico, sempre às custas da qualidade do serviço público que é usado como espantalho quando a coisa se trata de encontrar culpados pela falência financeira dos estados brasileiros.

Eis que agora me chegou uma matéria indicando que um relatório preliminar do Tribunal de Contas do Estado do Mato Grosso (TCE/MT) indicou que apenas entre  2019 e 2024, cinco grandes empresas que controlam o mercado da soja (i.e., Bunge, ADM, Cofco, Cargill e Fiagril) receberam 28% das isenções fiscais concedidas naquele período pelo governo matogrossense, com um custo astronômico aos cofres públicos de R$ 4,7 bilhões.

As principais beneficárias dessa farra fiscal teriam sido as corporações estadunidenses Bunge e ADM, que teriam sido seguida pela também estadunidense Cargill e pela chinesa Cofco, deixando em quinto lugar a brasileira Fiagril.

Segundo a lógica utilizada pelo conselheiro encarregado do relatório que utilizou o custo médio da construção de um hospital para dar parâmetros aos prejuízos econômicos causados pela farra fiscal em prol das corporações da soja, com esse valor seria possível construir em torno 15 hospitais públicos em Mato Grosso.

O interessante é que se levarmos em conta todas as evidências científicas levantadas pelo grupo de pesquisas do professor Wanderlei Antonio Pignati  da Universidade Federal do Mato Grosso sobre as consequências deletérias do uso intenso de agrotóxicos na monocultura da soja na saúde da população matogrossense, esses hospitais seriam mais do que benvindos. Só que não, visto que toda essa fortuna não foi aplicada em hospitais, mas no aumento da faixa de lucros bilionários das corporações que controlam a produção e o comércio da soja.

Há ainda que se lembrar que para beneficiar ainda mais as corporações da soja, a Assembleia Legislativa do Mato Grosso aprovou uma lei, chamado popularmente de “PL do Veneno Sem Limites“, que diminui a distância em que agrotóxicos podem ser utilizados em áreas urbanas, o que deverá aumentar exponencialmente o processo de contaminação.

Enquanto, as corporações da soja agradecem as benesses oferecidas na forma de isenções fiscais.

No Norte Fluminense,a soja é sonho para poucos, mas poderá ser pesadelo para muitos

Tenho acompanhado anúncios publicitários disfarçados de matérias jornalísticas dando conta do que se pode chamar de chegada da soja no Norte Fluminense. A produção é ainda residual, mas existe o incentivo para dar algum tipo de uso para as estruturas subutilizadas do Porto do Açu. Além disso, em face das pressões por reforma agrária em terras improdutivas, que são maioria por estas bandas, a ideia de plantar soja acaba sendo uma espécie de saída de oportunidade.  

Por essas e outras é que a soja se tornou uma espécie de sonho para latifundiários e autoridades municipais. Mas o que é um sonho para poucos poderá se tornar um pesadelo para a maioria. É que quem vende a ideia de que a soja pode prosperar por aqui, esquece oportunamente de dizer que esta monocultura só é viável com muito agrotóxico sendo aplicado ao longo de todo o processo, desde antes do plantio até a estocagem dos grãos.

Não é à toa que a soja sozinha é responsável pelo consumo de mais de 50% de todos os agrotóxicos consumidos no Brasil, incluindo produtos altamente tóxicos e perigosos para o meio ambiente, a começar pelos herbicidas Glifosato e Diquat. Como esta região já tem uma alta memória em seus solos e recursos aquáticos de agrotóxicos utilizados em outra monocultura, a da cana de açúçar, a expansão da soja significará ainda mais resíduos de produtos altamente venenosos na água que chega na torneira dos campistas, bem como na poeira que invade as casas quando venta forte na região.

Uma pesquisa publicada recentemente com os resultados de coletas feitas em residências na Europa encontrou resíduos de nada menos do que 197 agrotóxicos diferentes, a maioria deles oriunda de campos cultivados com esses venenos agrícolas. O estudo mostrou que esses resíduos chegaram na forma de poeira trazida pelos ventos ou até por animais domésticos que retornavam de seus passeios em áreas públicas.

De minha parte, considero que diferente dos anúncios publicitários em prol da soja e da monocultura de árvores, o que se precisa por aqui é de uma ampla reforma agrária que impulsione a produção de alimentos saudáveis, especialmente em um momento de altas incertezas sobre o comércio mundial que está causando a elevação contínua da cesta básica.

Além disso, é preciso que se cobra a imediata imposição de um mecanismo de licenciamento ambiental que estabeleça limites claros para as distâncias permitidas dos cultivos de soja em relação à áreas residênciais e corpos hídricos.  Do contrário, o que teremos pela frente será um cenário de ampliação do processo de contaminação ambiental e de adoecimento da população em fase da exposição às dezenas de agrotóxicos que são utilizados nos plantios de soja.

Recuperações judiciais do agronegócio crescem 138% em 2024. Soja lidera pedidos entre produtores rurais

Recuperações Judiciais no Agronegócio Crescem 138% em 2024

Por Sean Lennon para o Agrolink

O setor agropecuário brasileiro registrou 1.272 pedidos de recuperação judicial em 2024, segundo levantamento da Serasa Experian. O número representa a soma de solicitações feitas por produtores rurais atuando como pessoa física e jurídica, além de empresas do setor. O total quase triplicou em relação a 2023, quando foram registrados 534 pedidos.

De acordo com Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, diversos fatores impactaram a saúde financeira do setor, especialmente entre os produtores mais alavancados. “A alta da taxa de juros, aliada ao aumento dos custos de produção com insumos agrícolas – que ficaram mais caros devido à inflação e à desvalorização cambial –, foram alguns dos desafios principais e, para além disso, tivemos o agravante das adversidades climáticas”, explica.

A análise trimestral também apontou crescimento. No quarto trimestre de 2024, o setor registrou 320 pedidos de recuperação judicial, contra 254 no terceiro trimestre. Segundo Pimenta, a variação confirma um represamento de solicitações no terceiro trimestre. “O aumento registrado nos últimos três meses do ano comprova a estimativa de represamento que aconteceu no terceiro trimestre, quando a quantidade de pedidos caiu. Então, no último recorte de 2024 é possível confirmar uma amostragem com o patamar real de requisições. Ainda assim, apesar da alta, é preciso ponderar o número absoluto de solicitações, que é pequeno se considerarmos um universo com cerca de 1,4 milhão de produtores que tomaram crédito rural durante os últimos dois anos no país.”

Os produtores rurais que atuam como pessoa física somaram 566 pedidos em 2024, um aumento significativo em relação aos 127 registrados em 2023. O número também cresceu entre o terceiro e o quarto trimestre, com alta de 32,1%. Do total de solicitações feitas ao longo do ano, 224 foram realizadas por arrendatários ou grupos econômicos ligados ao setor. Entre os proprietários, os grandes responderam por 132 pedidos, os pequenos por 113 e os médios por 97. O levantamento destacou Mato Grosso e Goiás como os estados com maior número de requerimentos.

Os pedidos feitos por produtores rurais que atuam como pessoa jurídica também apresentaram alta. Em 2024, foram 409 solicitações, contra 162 no ano anterior. A tendência de crescimento foi confirmada pela análise trimestral, com um aumento de 19,6% entre o terceiro e o quarto trimestre. Entre os setores mais impactados, o cultivo de soja liderou com 222 pedidos, seguido pela criação de bovinos (75), cultivo de cereais (49), cultivo de café (16) e cultivo de algodão e outras fibras de lavoura temporária (10). Mato Grosso e Goiás também lideraram a demanda nesse segmento.

As empresas relacionadas ao agronegócio registraram 297 pedidos de recuperação judicial em 2024, frente a 245 em 2023. No comparativo trimestral, o quarto trimestre apresentou um crescimento de 25% em relação ao terceiro. O setor de agroindústrias de transformação primária concentrou o maior número de pedidos (73), seguido pelos serviços de apoio à agropecuária (64), indústrias de processamento de agroderivados (58), comércio atacadista de produtos agropecuários primários (33) e revendedores de insumos agropecuários (32). Os estados com maior número de solicitações foram São Paulo e Paraná, seguidos por Goiás, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

A Serasa Experian destacou que o uso de ferramentas de análise de risco pode reduzir os impactos da inadimplência no setor. O Agro Score, solução da empresa para prever riscos financeiros no agronegócio, apontou que os produtores que pediram recuperação judicial apresentavam sinais de instabilidade financeira anos antes da solicitação. “Usar análises mais criteriosas para conceder linhas de crédito protege o mercado da realização de financiamentos com perfis economicamente instáveis, diminuindo riscos e fomentando a regulamentação da saúde financeira no setor”, conclui Marcelo Pimenta.

O levantamento da Serasa Experian foi baseado em dados de processos de recuperação judicial registrados nos tribunais de justiça de todos os estados brasileiros. A análise considerou produtores rurais de diferentes portes, atuando como pessoa física ou jurídica, além de empresas do setor com Classificação Nacional de Atividade Econômica (CNAE) vinculada ao agronegócio.


Fonte: Agrolink

O Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos e vê aumento no risco de doenças graves

O motivo é a maior industrialização da agricultura.  Agrotóxicos são usados principalmente no cultivo de soja. Bayer e BASF estão entre as empresas líderes. Pesquisadores apontam aumento do risco de câncer por causa do uso de agrotóxicos, muito banidos na Europa

Por Ulrike Bickel para o Amerika21 

 Segundo informações da imprensa  , o Brasil se consolidou como o maior mercado global de defensivos agrícolas em 2024, com um faturamento estimado em 14,3 bilhões de dólares. O país ultrapassa assim os EUA (13,3 mil milhões de dólares) e a China (10,8 mil milhões de dólares). O motivo é a maior industrialização da agricultura.

O uso de pesticidas no Brasil cresceu 9,2% em valor e 8,5% em volume em 2024 em comparação ao ano anterior, de acordo com dados da organização guarda-chuva brasileira da indústria de agrotóxicos . O consumo total, portanto, foi de cerca de 1,5 milhão de toneladas.

Essa pegada química e de uso intensivo de energia é baseada principalmente em três produtos agrícolas: soja 56%, milho 16% e algodão 8%, que juntos respondem por 80% dos agrotóxicos usados ​​no Brasil. Soma-se a isso o uso de agroquímicos em grandes plantações de cana-de-açúcar e café. Foram utilizados principalmente herbicidas, inseticidas e fungicidas. O restante foi usado para outros fins, como tratamento de sementes.

Os estados do Mato Grosso e Rondônia lideram o uso de pesticidas com uma participação de mercado de 28% devido às monoculturas de soja em larga escala, seguidos por São Paulo e Minas Gerais, cada um com 18%, e os estados do nordeste da Bahia, Maranhão, Tocantins, Piauí e Pará, com 15%.

O avanço da soja na Amazônia e no Cerrado depende fortemente do uso de agrotóxicos, até porque o avanço das grandes monoculturas favorece a proliferação de pragas, doenças fúngicas e virais.

Os grandes vencedores do crescente consumo de pesticidas no Brasil são as cinco multinacionais que dominam o mercado: Syngenta, Bayer, BASF, Corteva Agriscience e UPL. As empresas também vendem no Brasil a maior parte dos agrotóxicos proibidos na Europa. Apesar das flutuações do mercado global, prevê-se um crescimento anual adicional de 1,8% até 2030.

A crescente poluição dos solos e bacias hidrográficas brasileiras é promovida politicamente por meio de isenções de impostos e taxas. Segundo o professor Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense,  os próprios contribuintes subsidiam um modelo agrícola intensivo em  agrotóxicos e promotor de doenças, ao mesmo tempo em que o acesso aos serviços de saúde pública está diminuindo.

Um novo estudo da Universidade de Caxias do Sul publicado na revista “Saúde em Debate”  mostra que agricultores expostos a agrotóxicos têm risco aumentado de câncer. O estudo analisa 29 estudos publicados entre 2012 e 2021 em todo o mundo. Portanto, o contato prolongado com  agrotóxicos pode causar danos celulares que favorecem o desenvolvimento de todos os tipos de câncer. Os mais comuns são o câncer de pulmão, mama e próstata, bem como o câncer hematológico (leucemia e linfoma).

Segundo uma das autores do artigo, Fernanda Meire Cioato, o tipo e a duração do contato são essenciais. O risco é ainda mais pronunciado entre trabalhadores rurais do sexo masculino, pois eles geralmente não usam equipamentos de proteção termicamente desconfortáveis ​​ao pulverizar. As mulheres também são afetadas quando manuseiam equipamentos contaminados ou armazenam agrotóxicos. A toxicidade dos agrotóxicos geralmente aumenta porque os agricultores costumam combinar diversas substâncias.

Os pesquisadores acreditam que a ação governamental é essencial para garantir melhor controle e segurança no uso de agrotóxicos. Da mesma forma, o treinamento de profissionais médicos para diagnosticar e tratar os trabalhadores agrícolas afetados em um estágio inicial. Além disso, a comunicação de risco deve ser melhorada: como muitos agricultores têm pouca educação, as complicadas instruções de segurança nos rótulos dos pesticidas devem ser simplificadas para reduzir o impacto negativo dos venenos agrícolas na saúde da população rural.


Fonte: Amerika21

Exportações de soja e o nível de desmatamento nos diferentes biomas florestais brasileiros

As taxas de desmatamento e conversão associadas à expansão da produção de soja no Brasil aumentaram de acordo com os últimos dados da Trase para 2021–2022

Vista aérea do desmatamento da Amazônia no Brasil

Desmatamento na Amazônia. Imagem: Phototreat

Por Osvaldo Pereira e Paula Bernasconi para a “Trase”

O Brasil é o maior produtor e exportador de soja do mundo. Em 2023, produziu quase 152 milhões de toneladas de soja , das quais 127,3 milhões de toneladas foram exportadas como 80% de soja crua, 18% de torta de soja e 2% de óleo de soja. A soja foi a segunda maior exportação do Brasil, respondendo por 16% do total das exportações em 2023 e gerando uma receita anual de quase US$ 53 bilhões .

Desde 2019, o preço da soja aumentou devido à demanda por ração animal à base de soja da China e à guerra da Rússia na Ucrânia. Os preços da soja em 2024 se estabilizaram, mas permanecem altos, potencialmente incentivando mais desmatamento e conversão para expandir as plantações de soja.

Dados da Trase mostram que a quantidade de desmatamento e conversão ligada à produção de soja aumentou de 635.000 hectares (ha) em 2020 para 794.000 ha em 2022, enquanto a área total de soja plantada aumentou de 37,2 milhões de hectares (Mha) em 2020 para 41,2 Mha em 2022. Apesar desse aumento de 4 Mha na área total de plantações de soja (2020–2022), o Brasil viu uma redução de 14 milhões de toneladas na produção de soja entre 2021 e 2022. Esse declínio foi devido às secas causadas por La Niña na região sul do país .

A soja também pode ser um impulsionador indireto ao se expandir para pastagens de gado que foram o impulsionador original do desmatamento e conversão. Dos 39,8 Mha de soja plantados em 2023, 6,7% (2,6 Mha) eram pastagens em 2015 .

O Cerrado e os Pampas são focos ativos de desmatamento e conversão

As plantações de soja se expandiram mais no Cerrado e em 2022 foram associadas a 375.000 ha de desmatamento e conversão – uma área mais que o dobro do tamanho da cidade de São Paulo. Os Pampas também experimentaram altas taxas de conversão de vegetação natural para soja. Em 2022, 250.800 ha de soja foram colhidos em áreas recentemente desmatadas e convertidas nos Pampas.

Para efeito de comparação, a produção de soja na Amazônia em 2022 foi associada a 117.000 ha de desmatamento – muito menor do que nos biomas Cerrado e Pampas.

Embora apenas 6,3% do desmatamento de soja em 2022 tenha ocorrido na Mata Atlântica (50.000 ha), isso é particularmente preocupante, pois é ilegal desmatar florestas nativas da Atlântica desde 2006.

Observe que a versão mais recente do banco de dados MapBiomas usado pela Trase para calcular o desmatamento e a conversão nos Pampas, Pantanal, Caatinga e Mata Atlântica contabiliza com mais precisão a perda de outras terras arborizadas e pastagens naturais do que as versões anteriores, resultando em estimativas mais altas da área total de desmatamento e conversão de soja. Isso é particularmente significativo nos Pampas, para os quais o desmatamento e a conversão total para soja em 2008–2023 mudam de 363.800 ha para 508.800 ha. Para todo o Brasil, no mesmo período, a estimativa muda de 2,07 milhões de ha para 2,56 milhões de ha.

A regulamentação da UE sobre desmatamento cria desafios e oportunidades para produtores brasileiros de soja

O regulamento de desmatamento da UE (EUDR) entrou em vigor em 2023 com obrigações vinculativas a partir de 30 de dezembro de 2025. Ele exigirá due diligence obrigatória nas importações de certas commodities agrícolas, incluindo soja do Brasil, para evitar produtos cultivados em terras convertidas ou desmatadas após a data limite de 31 de dezembro de 2020. O regulamento estabelece um sistema de benchmarking para classificar países como de baixo, padrão ou alto risco, para facilitar processos simplificados de due diligence por operadores que compram de países de baixo risco e permitir que autoridades competentes efetivamente visem a fiscalização.

Dados da Trase mostram que em 2022, apenas 370 de um total de 2.525 municípios produtores de soja foram responsáveis ​​por 95% do desmatamento e conversão para soja no Brasil (entre 2017 e 2022). Esses municípios representaram 58% da produção de soja do Brasil em 2022 (70 milhões de toneladas) e 52% das exportações (51 milhões de toneladas). Dos 370 municípios, 123 estão localizados na região do Matopiba, um grande hotspot responsável por 38% do total do desmatamento e conversão para soja em 2022. No estado do Rio Grande do Sul (bioma Pampas), 75 municípios produtores de soja foram responsáveis ​​por 33% do total do desmatamento e conversão vinculados à commodity em 2022.

Isso significa que a maioria das exportações de soja em 2022 está associada a menos de 5% do desmatamento e conversão de soja do Brasil, destacando que os riscos de não conformidade com a EUDR estão concentrados em certas regiões. Isso demonstra o valor do sistema de benchmarking da EUDR na classificação do risco de regiões de produção subnacionais, particularmente em países grandes como o Brasil, onde o desmatamento está concentrado em regiões específicas. Da mesma forma, o uso da avaliação de risco subnacional por autoridades competentes para direcionar verificações pode concentrar a fiscalização onde ela é mais necessária.

Exposição ao desmatamento dos mercados de exportação

A China continua sendo o mercado mais exposto ao desmatamento por causa de suas importações de soja, seguida pelo mercado interno do Brasil e pelas importações da União Europeia (UE).

A capacidade da Trase de vincular todas as exportações brasileiras de soja aos municípios de produção com base em dados disponíveis publicamente é um desafio para o período de 2020-2022 devido principalmente à falta de informações nos dados comerciais e à falta de informações sobre a propriedade do silo e da unidade de esmagamento do comerciante. Como resultado, 15–18% da soja comercializada em 2020–2022 (aproximadamente 20 milhões de toneladas) não podem ser vinculadas a um município específico de produção de soja (município desconhecido). Para contabilizar isso, os dados da cadeia de suprimentos de soja brasileira da Trase agora incluem a exposição ao desmatamento de empresas comerciais e mercados associados ao seu fornecimento de municípios desconhecidos.

Para fazer isso, a Trase primeiro atribui a exposição ao desmatamento a empresas e mercados importadores de acordo com sua origem em municípios produtores de soja conhecidos com base no desmatamento de soja específico do município por tonelada. Em segundo lugar, o desmatamento de soja restante não contabilizado é alocado a empresas e fluxos comerciais de mercado de importação originários de municípios desconhecidos. Semelhante à primeira etapa, o desmatamento por tonelada é calculado dividindo-se o desmatamento de soja restante pela produção total originária de municípios desconhecidos e atribuído a empresas e mercados com base em seu volume comercializado originário de municípios desconhecidos. Isso evita que países importadores e comerciantes com um volume maior de soja de origem desconhecida pareçam ter uma exposição menor ao desmatamento. Também permite a alocação de todo o desmatamento de soja do Brasil para cadeias de suprimentos nacionais e internacionais.

Para alguns países importadores, há uma diferença significativa na quantidade de soja e desmatamento que pode ser vinculada a municípios produtores de soja específicos. Por exemplo, em 2022, 97% das importações de soja da China e 96% de sua exposição ao desmatamento associada poderiam ser vinculadas a municípios produtores de soja, enquanto para a UE, apenas 58% das importações e 55% da exposição ao desmatamento poderiam ser vinculadas. Dadas essas diferenças, é importante que os usuários entendam que os países ou empresas importadores com um grau maior de origem desconhecida terão uma proporção menor de sua estimativa de exposição ao desmatamento que é específica para seu padrão de origem, pois sua exposição ao desmatamento de origem desconhecida é o desmatamento médio por tonelada de todos os fluxos comerciais desconhecidos.

Comerciantes com maior exposição ao desmatamento e conversão de soja

Os grandes comerciantes estabelecidos – Bunge, COFCO e Cargill – são os mais expostos ao desmatamento e conversão em sua cadeia de fornecimento de soja, respondendo respectivamente por 77.700 ha (9,6%), 67.800 ha (9%) e 55.100 ha (8%) em 2022. Em 2020–2022, a exposição da Bunge e da Cargill permaneceu estável, enquanto a exposição da COFCO aumentou significativamente de 27.100 ha em 2020. Isso se deve ao fornecimento da COFCO dos Pampas e, conforme observado acima, à capacidade aprimorada do Mapbiomas de detectar a conversão de outras terras arborizadas e pastagens naturais.

A NovaAgri, empresa brasileira de agronegócio e subsidiária da Toyota Tsusho Corporation, foi a quarta comercializadora mais exposta ao desmatamento e conversão em 2022, apesar de ficar apenas em sétimo lugar nas exportações de soja.

Conforme discutido acima para mercados de exportação, os dados da cadeia de suprimentos de soja brasileira da Trase agora incluem exposição ao desmatamento para soja originária de regiões de produção desconhecidas. É importante que os usuários entendam as implicações disso ao interpretar os dados sobre exposição ao desmatamento de empresas comerciais.

Compromissos de desmatamento zero fora da Amazônia ficam aquém

Em 2022, 59 milhões de toneladas de soja (79% do volume total) foram comercializadas por empresas com compromisso de desmatamento zero (ZDC).

A Moratória da Soja na Amazônia, um compromisso voluntário assinado por mais de 25 empresas, é a ZDC mais eficaz do Brasil. Em 2022, 92% da soja da região (7 milhões de toneladas) foi adquirida por empresas signatárias. As áreas cobertas pela moratória têm taxas relativas de desmatamento direto para soja muito menores do que outras regiões de produção de soja. A intensidade de desmatamento da produção de soja na Amazônia é de 3,2 hectares por 1.000 toneladas em 2022 em áreas cobertas pela moratória, em comparação com 5 hectares por 1.000 toneladas para a produção não coberta por nenhuma ZDC. Isso mostra a importância da moratória na promoção da produção sustentável de soja na Amazônia e a necessidade de resistir às tentativas de enfraquecê-la .

Fora da Amazônia, 73% da produção total de soja (52 milhões de toneladas) foi comercializada por empresas com uma ZDC. Apesar dessa cobertura, o desmatamento e a conversão para soja continuam altos em biomas como Cerrado e Pampas, o que significa que as ZDCs das empresas parecem ser muito menos eficazes na prevenção do desmatamento.

Emissões de carbono do desmatamento e conversão da soja

O desmatamento e a conversão ligados à expansão da produção de soja em 2022 resultaram na liberação de 121 milhões de toneladas de CO₂ – 9% das emissões anuais totais de mudança no uso da terra do país . A soja substituiu três vezes mais vegetação nativa no Cerrado do que na Amazônia, mas as emissões do desmatamento foram apenas 42% maiores no Cerrado (49 milhões de toneladas de CO₂) quando comparadas ao bioma Amazônia (28 milhões de toneladas de CO₂).

Os autores agradecem aos pesquisadores e cientistas de dados que contribuíram para esta análise: Harry Biddle, Florian Gollnow, Michael Lathuillière, Nicolás Martín, Carina Mueller, Vivian Ribeiro e Clément Suavet.

Explore nossos novos dados sobre a cadeia de suprimentos de soja do Brasil

Uma explicação detalhada da metodologia da Trase está disponível em: Trase. (2025). SEI-PCS Brasil soja v2.6 supply chain map: Data sources and methods. Trase. https://doi.org/10.48650/X24R-YK29

Para referenciar este artigo, use a seguinte citação: Pereira, O., & Bernasconi, P. (2025). Exportações brasileiras de soja e desmatamento. Trase. https://doi.org/10.48650/Q48G-MJ07


Fonte: Trase

Governo Lula quebra recorde de liberação de agrotóxicos: 663 novos produtos foram autorizados só em 2024

Tem mais veneno no seu prato: Brasil bate recorde de liberação de agrotóxicos em 2024. Aumento foi de 19% em relação a 2023, quando o país registrou queda no registro de novos produtos 

O Brasil é o país que mais usa agrotóxicos no mundo, com percentual maior do que a China e os Estados Unidos juntos

Por Leonardo Fernandes para o Brasil de Fato

 Brasil bateu recorde de liberação de agrotóxicos em 2024, segundo informações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Foram 663 produtos aprovados, um aumento de 19% em relação a 2023, quando foram liberados 555 produtos. Naquele ano, houve redução no número de liberações. A maioria dos novos produtos aprovados são genéricos de outros agentes já liberados (541). Quinze novas substâncias foram aprovadas, assim como 106 produtos de origem biológica, os chamados “bioinsumos”.   

Para Alan Tygel, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o acréscimo ainda não é consequência da nova lei de agrotóxicos, aprovada e sancionada em 2023 com vetos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), já que a norma não está regulamentada. Ele opina que esses dados refletem a continuidade de um modelo de produção agrícola que ignora os efeitos do uso desses produtos químicos e prioriza a garantia de suas margens de lucro.  

“A curva dos novos registros vem apresentando aumento desde 2016, ano do golpe sobre a presidenta Dilma. Os dados de 2024 mostram apenas que esta tendência não se reverteu no governo Lula, pelo contrário, a estrutura de apoio ao agronegócio e às transnacionais agroquímicas segue firme e forte dentro do Executivo federal. Não estamos vendo ainda os efeitos da nova lei, pois ela ainda não está regulamentada; é apenas a continuidade de uma política de incentivo agronegócio, às exportações de produtos primários e à desindustrialização”, disse o pesquisador e ativista. 

Pedro Vasconcelos, assessor da Fian Brasil, concorda que ainda é cedo para atestar que o recorde na liberação de agrotóxicos tenha a ver com a aprovação da nova lei, mas pondera que a aprovação e sanção da nova legislação fortaleceu o papel do Mapa e enfraqueceu as demais instituições envolvidas no processo de análise e aprovação de novos registros. “A nova lei deu uma segurança jurídica para que o Ministério da Agricultura tenha a palavra final”, critica Vasconcelos. 

A nova lei dos agrotóxicos, além de encurtar os prazos de análises dos produtos, retirou da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) o poder de veto sobre a liberação dessas substâncias, cabendo a essas instituições apenas a classificação de risco dos produtos. Desta forma, a decisão passa a estar concentrada no Ministério da Agricultura, que já se manifestou publicamente contra qualquer medida que vise a redução do uso de agrotóxicos no Brasil

Vasconcelos avalia que os dados de 2024 revelam o tamanho a contradições internas do próprio governo que, embora já tenha se posicionado contra o abuso dessas substâncias, encontra forças contrárias a qualquer movimento no sentido de restringir o uso dos agrotóxicos no Brasil. “A meu ver, esse número de registros é o registro de uma de uma dificuldade muito grande na pauta, a ponto de não assumir de verdade um posicionamento contrário.”

Os pesquisadores alertam que esse modelo de produção agroalimentar tem levado o país à perda de área cultivada de alimentos que não são de interesse do agronegócio, que priorizam commodities para exportação. A situação agrava o quadro de insegurança alimentar no país. “Uma das consequências desta escolha é a alta do preço dos alimentos, já que a soja vem tomando lugar das plantações de comida“, afirma Tygel.  

“Tudo isso faz com que a população sofra os efeitos de um sistema que está destruindo. Está destruindo nossas formas de produção, a gente está comendo comida envenenada, e o nível de produtividade cai a cada momento, graças a esse modelo. É um ciclo. O nível de produtividade cai, as questões climáticas impactam cada vez, então é um modelo muito pouco adaptável, do ponto de vista climático”, avalia Vasconcelos. 

Novos venenos 

Entre as novas substâncias liberadas para uso no Brasil, duas receberam a categoria 2 na classificação toxicológica da Anvisa, como “altamente tóxico”. O Orandis, produto a base de Clorotalonil e Oxatiapiprolim, atua como fungicida e é indicado para pequenas culturas. Já o Miravis é um composto de Clorotalonil e Pidiflumetofem. Também atua como fungicida e é usado em grandes cultivos de soja, milho, algodão e trigo. Ambos são produzidos pela Syngenta. Segundo informações dos fabricantes, a inalação dos produtos pode levar a óbito, além de provocar reações alérgicas e lesões oculares em caso de exposição indevida. 


Evolução da liberação de agrotóxicos no Brasil / Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Sua comida está envenenada  

A liberação massiva de sustâncias químicas para uso agrícola se reflete na qualidade da alimentação dos brasileiros e tem consequências graves à saúde. Os resultados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para) no ano de 2023, realizado pela Anvisa, revelaram que cerca de 26% dos alimentos consumidos pelos brasileiros possuem resíduos de agrotóxicos no momento do consumo. E desses resíduos, pelo menos cinco possuem restrições e proibições em outros países, incluindo o Carbendazim, que tem uso proibido no Brasil desde 2022.  

Apenas nas amostras de arroz, foram encontrados 25 agrotóxicos tipos diferentes de agrotóxicos. Já no abacaxi, foram identificadas 31 substâncias residuais, entre elas, o glifosato, ingrediente ativo proibido em diversos países da União Europeia, a partir de estudos que o relacionam com a incidência de diversos tipos de cânceres.  

Outro produto que vem sendo utilizado em larga escala e que também foi encontrado em amostras de alimentos, como a goiaba, é o clorpirifós, que está associado a distúrbios neurológicos, malformação de fetos e ocorrências de abortos espontâneos. 

Diante desse panorama, a toxicologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Karen Friedrich reconhece o trabalho técnico da Anvisa, mas aponta limitações. “Um agrotóxico pode causar um problema ou pode não causar nada ou pode causar muito pouco, mas esse coquetel, a chance de isso interagir e potencializar os danos é muito grave”, avalia.   

Edição: Thalita Pires


Fonte: Brasil de Fato