81% do desmatamento no Cerrado em 2023 foi concentrado em cinco bacias hidrográficas

Bioma perdeu 1 milhão de hectares em 2023, elevando o risco hídrico em 373 municípios em todo o Cerrado.
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Em 2023, 81% do desmatamento no Cerrado se concentrou nas regiões abastecidas pelas bacias hidrográficas do Alto Tocantins, São Francisco Médio, Alto Parnaíba, Itapecuru e Araguaia, potencialmente elevando o risco hídrico de 373 municípios na região. Dados foram publicados nesta sexta-feira pelo SAD Cerrado (Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado), desenvolvido pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Conhecido como a caixa d’água do Brasil por abrigar oito das doze principais regiões hidrográficas brasileiras, o Cerrado tem reduzido sua capacidade de absorção e retenção de água por conta da perda de vegetação nativa. As altas taxas de desmatamento nessas áreas podem causar diversos impactos negativos nos recursos hídricos, como o rebaixamento dos lençóis freáticos e o aumento do risco de escassez de água.

“O desmatamento afeta diretamente os recursos hídricos, e estudos recentes mostram uma diminuição da vazão dos rios no Cerrado nos últimos anos devido às altas taxas de desmatamento no bioma. Essa redução pode impactar o abastecimento hídrico de cidades, a produção de energia elétrica e a agropecuária. o”, alerta Fernanda Ribeiro, coordenadora do SAD Cerrado e pesquisadora do IPAM.

Essas bacias estão localizadas no norte do Cerrado e na região do Matopiba, onde se concentram as grandes áreas de desmatamento e as nascentes dos principais rios brasileiro, como por exemplo o Rio Araguaia e o Rio Tocantins. A região também concentra a maior parte dos remanescentes de vegetação nativa do bioma.

Bacias mais afetadas

Na bacia do Tocantins Alto, segunda maior do bacia do Cerrado e a mais desmatada em 2023 no bioma, foram perdidos 274 mil hectares de vegetação nativa – 26% de tudo que foi perdido em 2023. A bacia abriga as nascentes do Rio Tocantins, segundo maior território brasileiro e serve como uma rota comercial fundamental para o escoamento e irrigação da produção agrícola na região central do País.

Já a bacia do Médio São Francisco, sexta maior do país e a segunda mais desmatada em 2023 no Cerrado, perdeu 200 mil hectares de vegetação nativa – 14,4% de todo o desmatamento do ano passado no bioma. Essa bacia abriga as principais afluentes do Rio São Francisco que se estende por 2.863 km, abastece mais de 15 milhões de habitantes e possui quatro usinas de geração de energia que, juntas, possuem produção estimada em 9.9 milhões de quilowatts, mas que se encontra ameaçada pelas secas cada vez mais frequentes.

A bacia do Alto Parnaíba teve 189 mil hectares de sua vegetação desmatada – cerca de 13% do desmatamento do bioma em 2023. A bacia abriga as nascentes do Rio Parnaíba, localizado na região central do Matopiba. Essa região é dominada por grandes propriedades, com um crescente uso de água para a irrigação de sua produção. Em 2023, um Parque Nacional foi criado para proteger suas nascentes, mas esse esforço de conservação parece ser ainda insuficiente para a conservação dos recursos hídricos da região.
 

“A proteção das bacias hidrográficas do Cerrado depende de um melhor entendimento e caracterização da destinação da água do bioma, aliado à uma estratégia integrada entre os setores público e privado. Além disso, é necessário implementar e reforçar políticas públicas que promovam a conservação dos remanescentes de vegetação nativa e a restauração de áreas degradadas em locais estratégicos nas bacias hidrográficas”, destaca Fernanda.

Cenário em 2024

Em fevereiro de 2024, o SAD Cerrado detectou 38 mil hectares de desmatamento no Cerrado, uma redução de 52% em relação a fevereiro de 2023, quando o desmatamento somou 79 mil hectares. Os Estados mais afetados foram o Tocantins, com 10 mil hectares desmatados, Bahia, com 8 mil hectares desmatados e Piauí, que perdeu 5 mil hectares de vegetação nativa. O município de Cocos localizado no oeste da Bahia foi o responsável pela maior área desmatada, totalizando 3 mil hectares desmatados.

Em relação às bacias hidrográficas, o cenário se repete no primeiro bimestre de 2024. Nos dois primeiros meses do ano o Cerrado já acumulou 89 mil hectares desmatados. Desse total, 83% estão concentrados em cinco das vinte e quatro bacias hidrográficas do Cerrado (São Francisco Médio com 24 mil hectares; Tocantins Alto com 22 mil hectares; Parnaíba Alto com 15 mil hectares; Parnaíba Baixo com 6 mil hectares e Araguaia com 5 mil hectares desmatados).

Sobre o SAD Cerrado

O Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado é um projeto de monitoramento mensal e automático que utiliza imagens de satélites ópticos do sensor Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia. O SAD Cerrado é uma ferramenta analítica que fornece alertas de supressão de vegetação nativa para todo o bioma, trazendo informações sobre desmatamento no bioma desde agosto de 2020.

A confirmação de um alerta de desmatamento é realizada a partir da identificação de ao menos dois registros da mesma área em datas diferentes, com intervalo mínimo de dois meses entre as imagens de satélite. O método é detalhado no site do SAD Cerrado.

Os relatórios de alertas para o mês de fevereiro e períodos anteriores estão disponíveis neste link. No painel interativo, é possível selecionar estados, municípios, categorias fundiárias e o intervalo temporal para análise.

O objetivo do sistema é fornecer alertas de desmatamentos maiores de um hectare, atualizados mês a mês. Pesquisadores entendem que o SAD Cerrado constitui uma ferramenta complementar a outros sistemas de alerta de desmatamento no bioma, como o DETER Cerrado, do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), otimizando o processo de detecção em contextos visualmente complexos.

Acesse os dados georreferenciados clicando aqui.

Brasil usa mais agrotóxicos que Estados Unidos e China juntos

Agência da ONU indica que Brasil aplica mais de 720 mil toneladas de veneno contra pestes em lavouras

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Intensificação da pulverização aérea com agrotóxicos é uma das preocupações nos territórios vizinhos às plantações – Alberto César Araújo/Amazônia Real

Por Vinicius Konchinski para o Brasil de Fato

O Brasil já usa mais agrotóxicos em suas lavouras do que a China e os Estados Unidos juntos. Isso é o que mostra um levantamento da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês).

Os dados divulgados pela FAO são referentes a 2021. Naquele ano, segundo a agência, foram aplicadas 719,5 mil toneladas de venenos contra pestes em lavouras nacionais. No mesmo ano, a China, que tem quase sete vezes mais habitantes que o Brasil, aplicou 244 mil toneladas. Já os EUA aplicaram 457 mil toneladas. Juntos, eles uasaram 701 mil toneladas.

De acordo com os dados da FAO, o Brasil é o país que mais usa agrotóxicos no mundo. É seguido justamente pelos EUA. A Indonésia, que usou 283 mil toneladas de veneno em suas lavouras – menos da metade do Brasil –, vem em terceiro lugar.


Dados da FAO mostram os países líderes em uso de agrotóxicos em lavouras no mundo / Reprodução/elaboração Gerson Teixeira (Abra)

O Brasil usa 10,9 kg de agrotóxicos para cada hectare de lavoura (10 mil m2). Já os EUA usam 2,85 kg/ha; a China, 1,9 kg/ha.

Em 2021, foram usados no Brasil 3,31 kg de agrotóxicos por pessoa. Nos EUA, foram 1,36 kg per capita; e na China, 0,17 kg per capita.

Modelo do agronegócio

Para Gerson Teixeira, engenheiro agrônomo e diretor da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), dados como esse mostram como a agricultura nacional tem se tornado dependente dos agrotóxicos devido a escolhas de métodos de produção.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Teixeira explicou que o Brasil, décadas atrás, optou por um modelo de produção agropecuária voltado à exportação, principalmente de soja. Isso tornou o país o segundo maior exportador de produtos agrícolas do mundo, segundo a FAO, atrás só dos EUA.

Acontece que lavouras de soja são altamente dependentes do uso de fertilizantes e agrotóxicos, ressaltou Teixeira. Isso aumentou o consumo desse tipo de veneno no Brasil.

Em 1990, segundo a FAO, o Brasil consumia 51,1 mil toneladas de agrotóxicos por ano. Em 31 anos, essa quantidade aumentou 1.300%.

“A agricultura brasileira pensava que a soja transgênica reduziria a necessidade do veneno e dos fertilizantes”, afirmou Teixeira. “Na verdade, aumentou a dependência dos dois.”

Dados do Banco Mundial tabulados por Teixeira apontam que o Brasil também já é o segundo maior consumidor de fertilizantes do mundo quando considerados a quantidade de quilos aplicados por hectares de lavouras, ficando atrás da China.

Do total de fertilizantes utilizados na agricultura nacional, 87% é importado, de acordo com a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Segundo a FAO, o Brasil é o maior importador de fertilizantes do mundo. Consome 18% das importações mundiais. Os EUA consomem 13% e a China, 5%.


Dados do Banco Mundial indicam quais países mais usam fertilizantes por área de lavoura / Reprodução/elaboração Gerson Teixeira (Abra)

O Brasil também é líder nas importações de agrotóxicos. Foram 283 mil toneladas importadas durante o ano de 2022, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).


Dados do Ibama mostram aumento da importação de agrotóxicos pelo Brasil desde 2008 / Reprodução/elaboração Gerson Teixeira (Abra)

Riscos à saúde

Por conta do uso crescente de agrotóxicos no país, a cada dois dias, uma pessoa morre por intoxicação por uso desse tipo de veneno no Brasil. Uma a cada cinco vítimas é criança ou adolescentes de até 19 anos. Esse dado consta num relatório publicado em 2022 pela rede ambientalista europeia Friends of the Earth Europe.

De acordo com a entidade, empresas agroquímicas europeias como a Bayer e a Basf trabalham conjuntamente com o agronegócio brasileiro para disseminar o uso de veneno no Brasil, desconsiderando os malefícios causados por eles à população.

Larissa Bombardi, professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), escreveu em seu livro Agrotóxicos e Colonialismo Químico (editora Elefante) que a Europa concentra um terço da produção de agrotóxicos no mundo. Autoridades europeias, porém, já proibiram o uso de 269 tipos de defensivos por conta dos danos causados por eles à saúde. Em países como Brasil, os banimentos não chegam a 30.

Entre os 10 mais vendidos por aqui, cinco são proibidos na União Europeia, ressaltou Bombardi. “Enquanto a área plantada no país cresceu 29% de 2010 a 2019, o uso de agrotóxicos cresceu 78%”, disse ela, em palestra feita em Curitiba, no ano passado.

“Essa forma de agricultura faz mal à população e ao planeta”, disse ela. “Só a reforma agrária com foco na agroecologia oferece uma solução.”

A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) participa da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e tem várias ações em parceria com a sociedade civil organizada e movimentos sociais para alertar para o perigo dos agrotóxicos e para buscar aumentar o controle e reduzir seu uso.

Edição: Nicolau Soares


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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!].

Mais veneno nos alimentos e na água dos brasileiros: uso de agrotóxicos cresceu 3,7% em 2023

Durante o segundo semestre de 2023 (H2), um total de 811 mil toneladas de agrotóxicos foi utilizado no controle de pragas

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Uma pesquisa recente encomendada pelo Sindiveg – Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Vegetal revelou que a área tratada com agrotóxicos no Brasil teve um aumento significativo de 3,7% em comparação com a safra anterior. Os resultados da pesquisa, realizada pela Kynetec Brasil, destacam a influência da expansão da área cultivada de soja e das condições climáticas favoráveis no Sul do país durante a safra 23/24.

De acordo com os dados levantados, durante o segundo semestre de 2023 (H2), um total de 811 mil toneladas de agrotóxicos foi utilizado no controle de pragas, doenças e plantas daninhas, considerando o número de aplicações necessárias por situação. Deste montante, 49% correspondem a herbicidas, 24% a fungicidas, 18% a inseticidas, 1% a tratamento de sementes e 8% a outros produtos. Esses números representam o tratamento de aproximadamente 1.25 bilhão de hectares, impulsionado pela expansão da área cultivada.

De acordo com a projeção, o aumento da área controlada com nematoides na cultura da soja deve ser 26,1% e de percevejos, 8,8%. A cultura de soja representa 55% do total da área e deverá refletir um aumento, com crescimento de 6,5% na safra 23/24. Neste caso, o uso de fungicidas premium apresentou aumento de 7,9%, enquanto o de fungicidas protetores 32%, ambos em uma área cultivada de 45 milhões de hectares, refletindo uma expansão de 4% em relação à safra passada (22/23)

A projeção desenvolvida pelo Sindiveg considera a metodologia PAT (produto por área tratada), que leva em conta o volume efetivamente utilizado pelo produtor rural e o número de aplicações de defensivos na área cultivada.


Fonte: Sindiveg

A mentira da soja: o principal agente do desmatamento não é cultivado para humanos, mas para a pecuária

“Os modelos matemáticos mais recentes mostram como, mesmo que conseguíssemos parar imediatamente as emissões de combustíveis fósseis, as emissões provenientes apenas da produção alimentar excederiam significativamente o limite de 1,5°C”, escreve Javier H. Rodríguez, em artigo publicado por El Salto, 03-01-2024. 

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A agricultura comercial em nível industrial foi a causa de pouco mais de 40% do desmatamento das florestas tropicais entre 2000 e 2020 através de três agentes principais: a pecuária, o cultivo deóleo de palma e as plantações de soja, também utilizada principalmente para a pecuária intensiva. Os dados consolidados obtidos graças ao cruzamento de centenas de bases de dados governamentais foram fornecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) há apenas algumas semanas. A mesma monitorização atualiza a distribuição do território: as florestas são o habitat de 80% das espécies de anfíbios, 75% das aves e 68% dos mamíferos e essas mesmas florestas tropicais dizimadas albergam cerca de 60% de todas as espécies de plantas vasculares. Ou seja, a grande maioria tanto em número de espécies quanto em número de indivíduos, já que apenas musgos e algas ficariam de fora desse guarda-chuva.

Com o agravamento da crise climática e tendo em conta não só o desmatamento como também a produção alimentar representam mais de um quarto (26%) das emissões globais de gases do efeito de estufa, diversas correntes dentro do ambientalismo contemporâneo defendem uma mudança na dieta humana para orientá-la a opções baseado no vegetarianismo e no veganismo. Os impactos das mudanças alimentares nas emissões de gases do efeito de estufa, na utilização dos solos, na utilização da água e na saúde emergiram como centrais para a equação do aquecimento global, apesar da reação do lobby da carne com dezenas de propostas para limitar estes mercados emergentes.

As principais fontes de emissões de gases do efeito de estufa encontram-se nos setores da energia e da produção alimentar. Às vezes é sugerida a ideia de focar exclusivamente em um desses aspectos, mas essa perspectiva é enganosa. Enfrentar as alterações climáticas envolve necessariamente reduzir a nossa dependência dos combustíveis fósseis.

Da mesma forma, conforme explicado neste artigo, é crucial abordar a produção global de alimentos para alcançar os objetivos climáticos delineados pelo  Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) e mesmo os menos ambiciosos apoiados pela comunidade internacional através dos acordos da Cúpula do Clima. Na verdade, os modelos matemáticos mais recentes mostram como, mesmo que conseguíssemos parar imediatamente as emissões de combustíveis fósseis, as emissões provenientes apenas da produção alimentar excederiam significativamente o limite de carbono de 1,5°C, deixando pouco espaço para atingir a meta de 2°C. Grandes revistas médicas de impacto global, como a britânica The Lancet, também alertam sobre isso há anos, como no mais que citado relatório Dietas saudáveis ​​a partir de sistemas alimentares sustentáveis

Foto: Reprodução El Salto

Nesse trabalho, com a participação de investigadores das principais escolas médicas do Reino Unido, já se propunha uma diminuição de 81% no consumo de carne até 2050, limitando a ingestão a um máximo de 300 gramas de produtos cárneos por pessoa e por semana. Se este ajustamento não for alcançado, o relatório sugere que alcançar o objetivo do Acordo de Paris, de manter as temperaturas abaixo de 1,5ºC, seria “extremamente desafiador ou praticamente impossível”.

Na verdade, segundo um trabalho publicado em 2019 a transição para uma dieta baseada em vegetais apresenta-se como uma condição essencial para alcançar um sistema alimentar sustentável. Mas nos últimos artigos científicos a este respeito as mesmas teses tornam-se cada vez mais palpáveis. Em Environmental Impacts of Food Production, assinado por investigadores da Universidade de Oxford, estimou-se que 50% das terras habitáveis ​​são utilizadas para agricultura e que, dessa percentagem, 77% são utilizadas para produção pecuária, como pastagens que são destinadas à produção de rações, e apenas 23% ao resto das culturas, incluindo alimentação humana direta.

Os dados também são cristalinos em um nível energético. Aproximadamente 36% das calorias provenientes das culturas em todo o mundo vão para a alimentação do gado, enquanto essa percentagem sobe para 55% para a população humana em geral. Esta proporção reflete uma enorme extensão de terras agrícolas dedicadas exclusivamente à produção de ração animal, principalmente a partir da soja, o que resultou na perda de milhares de hectares de florestas, especialmente na região Amazônica.

A maior parte da soja consumida é transgênica

Além de ser produzida principalmente para consumo animal, mais de 90% da produção de soja no Brasil, nos Estados Unidos e na Argentina, principais exportadores para Espanha e União Europeia, é de origem transgênica. Em outras palavras, a soja foi geneticamente modificada, incorporando genes de outros organismos através da engenharia genética. Esta abordagem, embora proporcione propriedades como a resistência a herbicidas, também acarreta riscos imprevistos para a saúde, o ambiente e a segurança alimentar, uma vez que a manipulação genética pode desencadear efeitos indesejados, conforme abordado e documentado pela organização Ecologistas en Acción durante a sua campanha Crops that Kill.

A característica distintiva da soja transgênica é fundamentalmente sua resistência a herbicidas, especialmente ao glifosato, amplamente utilizado para eliminar plantas concorrentes por recursos como água e nutrientes. Na última década foram desenvolvidas variedades transgênicas que resistem a herbicidas mais potentes, como o glufosinato e o Agente Laranja, autorizados nos três países mencionados e, indiretamente, também na União Europeia e na Espanha. Num bom número de casos, uma única variedade pode tolerar múltiplos herbicidas.

A aplicação massiva de um único herbicida nas monoculturas de soja transgênica tem levado ao surgimento de plantas daninhas resistentes a esses produtos. A resistência ao glifosato, por exemplo, foi identificada pela primeira vez nos Estados Unidos em 1998 e, até o fim de 2020, 53 casos haviam sido confirmados em todo o mundo, sendo 19 deles no Brasil. Em resposta, decidiu-se desenvolver variedades de soja resistentes a diversos herbicidas, incentivando o uso de combinações de herbicidas mais tóxicos.

O modelo de produção da soja transgênica depende em grande parte do uso de agrotóxicos, atingindo cerca de 500 milhões de litros por ano somente na Argentina. O abuso destes produtos químicos é tão pronunciado que, segundo a organização Nature of Rights, pode-se afirmar que na Argentina “está chovendo glifosato”. Tanto o glifosato quanto a atrazina, os herbicidas mais utilizados no cultivo da soja argentina, são detectados em 80% das amostras de água pluvial analisadas no país latino-americano.


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Este texto foi inicialmente publicado em português pelo Instituto Humanitas Unisinos [Aqui!].

Produção de soja no país tem impactos socioambientais monitorados pelas próprias empresas e pouca ação do Estado

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Organismos internacionais pedem mais transparência sobre a origem e produção da soja no Brasil, segundo relatório

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Grandes empresas produtoras de soja são as responsáveis por determinar as normas do seu setor produtivo e por definir se a cadeia produtiva do grão cumpre com critérios de responsabilidade socioambiental, em relatórios anuais — papel de fiscalização que deveria ser executado pelo Estado. As conclusões são de um relatório divulgado nesta semana por pesquisadoras do Grupo de Pesquisa em Sociologia das Práticas Alimentares (SOPAS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O documento mostra a ausência do Estado no processo de monitoramento e divulgação de dados sobre a produção de soja no país e a falta de uma definição sobre um processo produtivo sustentável nos relatórios das empresas, o que gera lacunas no rastreamento desta produção. As pesquisadoras analisaram dados de documentos públicos do setor de sustentabilidade das empresas da cadeia da soja, de relatórios de desempenho dos programas e certificações. Elas também realizaram entrevistas entre abril e junho de 2023 com representantes do setor e entidades ambientalistas ativas no debate sobre sojicultura.

O objetivo foi entender a governança na cadeia produtiva da soja no Brasil, diante da demanda por transparência e responsabilidade socioambiental. O relatório aponta que a partir do momento em que as empresas determinam suas metas, sem que exista uma padronização sobre quais aspectos são relevantes e como tais informações devem ser divulgadas, se torna difícil obter dados sobre desmatamento, trabalho escravo, uso de agrotóxicos e invasões de terras indígenas.

Marília Luz David, professora adjunta do departamento de Sociologia da UFRGS e autora do estudo, destaca a importância do setor da soja e do Estado brasileiro se articularem para entrar no debate internacional sobre regras mais rígidas para a compra de produtos de origem agropecuária. Hoje, a expansão agropecuária da soja é responsável por índices altos de desmatamento no Cerrado, o que poderia trazer perdas de fatias de mercado em países com normas de governança mais rígidas como a China e alguns países da União Europeia.

“Estes resultados nos permitem sugerir que uma maior participação do Estado é bem-vinda na regulação e padronização dos modos de rastrear a soja e reportar resultados, assim como na articulação de compromissos internacionais com os maiores compradores da soja brasileira – notadamente, a China”, afirma David.

O trabalho das pesquisadoras chama a atenção para a emergência de modelos corporativos de governança ambiental. “Um olhar a partir dos estudos sociais, das ciências e das tecnologias pode oferecer novas perspectivas para questões do agronegócio no país, em particular, quais visões de vida em sociedade – o que queremos para biomas como Amazônia e Cerrado? – estão incorporadas em tecnologias, formas de mensuração e avaliação de práticas produtivas que prometem tornar a cadeia da soja mais sustentável e responsável “, diz a pesquisadora.

Para dar continuidade a essa pesquisa, David e Ângela Camana, doutora em Sociologia pela UFRGS e coautora do artigo, pretendem seguir explorando os acordos corporativos de governança ambiental na cadeia da soja, principalmente como são definidas a “soja livre de desmatamento e de conversão de vegetação nativa”. “O termo aparece em diversos documentos de empresas do setor e, por isso, precisa ser estudado”, explicam as autoras.

Fonte: Agência Bori

O desmatamento impulsionado por commodities e a perda de turfeiras emitem mais carbono do que a Alemanha

Enquanto todos os olhares se voltam para as negociações sobre o clima na COP28, Trase quantifica as emissões de gases com efeito de estufa causadas pela desflorestação e pela degradação das turfeiras ligadas à produção e consumo de carne bovina, soja, óleo de palma e outras mercadorias pelos países

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Por Carina Mueller e André Vasconcelos para a Trase

Os líderes mundiais estão a reunir-se na cimeira climática COP28, nos Emirados Árabes Unidos, para fazer um balanço do progresso no sentido de reduzir as emissões de carbono para zero emissões líquidas até 2050. Embora muito debate se concentre no sector da energia, não há caminho para zero emissões líquidas sem combater o desmatamento.

Se o desmatamento fosse um país, seria o terceiro maior emissor do mundo . Na COP26, em Glasgow, 145 países, representando 91% das florestas do mundo, comprometeram-se a travar e reverter a perda florestal e a degradação dos solos até 2030. Mas os compromissos precisam urgentemente de ser traduzidos em ações. A última Avaliação da Declaração Florestal mostra que não estamos no caminho certo para travar o desmatamento e a degradação florestal até 2030.

Globalmente, quase todo o desmatamento tropical está direta ou indiretamente ligado à expansão agrícola . Pesquisas anteriores estimam que o comércio e o consumo internacionais de produtos agrícolas e florestais são responsáveis ​​por aproximadamente um quarto da perda florestal nas áreas tropicais e por cerca de um terço das emissões de carbono relacionadas com a desflorestação tropical . As emissões resultam quando florestas ricas em carbono, savanas arborizadas, turfeiras e outros ecossistemas naturais são desmatados para a criação de gado e o cultivo de culturas e madeira.

A Trase quantificou as emissões provenientes do desmatamento e da degradação das turfeiras ligadas às cinco commodities agrícolas comercializadas globalmente com maior impacto nas florestas produzidas em seis países principais: carne bovina do Brasil; soja do Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia; cacau da Costa do Marfim; e óleo de palma e polpa de madeira da Indonésia.

Commodities e países produtores em análise - carne bovina do Brasil, soja do Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia, celulose da Indonésia, cacau da Costa do Marfim

No geral, os resultados mostram que a desflorestação associada à expansão da produção destes produtos gera emissões equivalentes a 444 milhões de toneladas de CO2 por ano. Se forem adicionadas as emissões provenientes da degradação das turfeiras, este número aumentaria para 701 milhões de toneladas – mais do que as emissões anuais totais da Alemanha , o décimo maior emissor do mundo em 2020.

Limitando isto à percentagem de produtos exportados, a conversão de terras gera emissões equivalentes a 120 milhões de toneladas de CO2 por ano. Se forem adicionadas as emissões resultantes da degradação das turfeiras, este número aumentaria para 282 milhões de toneladas – o equivalente às emissões anuais totais de Espanha, o 29.º maior emissor do mundo em 2020.

A ação dos mercados consumidores é urgentemente necessária

A China é o país consumidor associado, de longe, à maior quantidade de desmatamento e de emissões relacionadas com a turfa, equivalente a 99,4 milhões de toneladas de CO2 por ano – mais do que as emissões anuais totais da Roménia. As principais fontes de exposição da China são as importações de pasta de madeira (48,5 milhões de toneladas), carne bovina (27,4 milhões de toneladas), óleo de palma (20,5 milhões de toneladas) e soja (3 milhões de toneladas).

As importações dos países do Médio Oriente e Norte de África (MENA) estão associadas a emissões equivalentes a 25,3 milhões de toneladas de CO2 por ano – uma pegada de carbono maior do que a da Croácia. Isto deve-se principalmente à carne bovina (14,3 milhões de toneladas), ao óleo de palma (9,2 milhões de toneladas), à pasta de madeira (1,3 milhões de toneladas) e ao cacau (0,1 milhões de toneladas). As emissões associadas às importações da Índia são semelhantes em 24,8 milhões de toneladas de CO2 por ano, das quais o óleo de palma indonésio representa 90%.

As importações da UE estão associadas ao desmatamento e às emissões relacionadas com a turfa, equivalentes a 24,2 milhões de toneladas de CO2. As principais fontes de exposição são o óleo de palma indonésio (16 milhões de toneladas), o cacau da Costa do Marfim (5,2 milhões de toneladas), a carne bovina brasileira (1,6 milhões de toneladas) e a soja (1,5 milhões de toneladas).

Exposição às emissões de carbono associadas às importações de commodities por mercado regional

Os países precisam urgentemente de tomar medidas em relação às emissões de gases com efeito de estufa associadas ao desmatamento e à degradação das turfeiras, impulsionadas pela sua crescente procura de produtos de base, especialmente a China. Os países poderiam contribuir significativamente para a redução das emissões globais, agindo nas suas cadeias de abastecimento em concertação com os esforços dos países produtores.

Rumo à colaboração internacional nas cadeias de abastecimento

Se for implementada de forma eficaz, a legislação que exige a devida diligência nas importações de mercadorias e nas suas ligações com o desmatamento, como o novo regulamento da UE sobre desflorestação , poderá ser um grande passo na direção certa. É provável que impulsione avanços nos sistemas de rastreabilidade, identificação e comunicação em muitos sectores produtores de mercadorias. Isto pode oferecer uma experiência útil para outros países importadores no desenvolvimento dos seus próprios quadros políticos.

No entanto, a dimensão limitada do mercado da UE deixa claro que são necessárias medidas num conjunto muito mais vasto de mercados importadores. Sinais recentes sugerem um interesse crescente por parte de alguns intervenientes chineses em abordar a questão do desmatamento importado. Em Novembro, a comercializadora estatal COFCO assinou um pedido de compra de soja do Brasil no valor de 30 milhões de dólares , que incorporou pela primeira vez uma cláusula de “livre de desmatamento e conversão”. São necessários quadros políticos mais claros para transformar tais iniciativas em ações sistemáticas.

Uma vez que os mercados importadores partilham uma exposição significativa aos mesmos produtos, países produtores e empresas comerciais, o campo está maduro para colaboração. Os governos podem convocar a cooperação nacional e internacional entre empresas importadoras para estabelecer estruturas partilhadas para um abastecimento livre de desmatamento. Os mercados importadores também podem agir em conjunto para fornecer financiamento e apoio técnico aos países produtores. Juntos, podem ajudar os países produtores a reforçar a implementação dos seus quadros de utilização dos solos, proporcionando incentivos adequados às partes interessadas e melhor monitorizando a proteção das florestas.

Para obter mais informações, visite o COP28 Hub da Global Canopy e o guia SEI para a COP 28


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Trase [Aqui!].

Incêndios florestais no Brasil e na Bolívia: desmatamento ilegal para a instalação de pastagens e cultivo de soja agravam crise climática

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Extensão devastadora: mais de 5 mil focos de incêndio já foram contabilizados no Pantanal matogrossense em 2023. Joédson Alves/Agência Brasil/dpa

Por Norbert Suchanek para o JungeWelt

Não é apenas o Pantanal brasileiro que voltou a arder nas últimas semanas. Na vizinha Bolívia, os incêndios florestais também se espalharam de forma tão catastrófica nos últimos dias que o governo boliviano pediu ajuda de todo o mundo para combatê-los.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável pelo monitoramento florestal por satélite dos biomas florestais brasileiros, já foram contabilizados 5.019 incêndios no Pantanal de janeiro a 21 de novembro deste ano, 355% a mais que no mesmo período do ano passado. Cerca de um milhão de hectares desta zona húmida única do mundo já estavam em chamas.

Já na Bolívia, o INPE contabilizou 40.442 incêndios florestais este ano,  6% a mais que em 2022. Segundo o último relatório do Ministério do Meio Ambiente boliviano, as chamas já destruíram mais de 900 mil hectares de floresta e cerca de dois milhões de hectares de outras áreas. Os departamentos de Santa Cruz, La Paz, Cochabamba e a região amazônica de Beni foram particularmente afetados.

Os incêndios também estão se espalhando inexoravelmente em diversas comunidades indígenas e reservas naturais entre os quais se destacam: o Parque Nacional “Noel Kempff Mercado” de 1,5 milhão de hectares, nas planícies orientais da Bolívia, e o Parque Nacional “Otuquis”, de aproximadamente um milhão de hectares, no Pantanal boliviano, no sudeste do Departamento Santa Cruz; o Parque Nacional “Madidi” com cerca de 1,9 milhão de hectares no noroeste da Bolívia; o Parque Nacional e área indígena protegida “Isiboro Sécure” com 1,2 milhão de hectares entre os departamentos de Beni e Cochabamba; a reserva da biosfera “Pilón Laja” com cerca de 400.000 hectares no sudoeste do país e a reserva natural “San Matías” de 2,9 milhões de hectares a leste de Santa Cruz.

Uma das causas é considerada a agricultura praticada em áreas que foram objeto  de desmatamento ilegal seguido de queimadas, processo esse que  foi realizado aproveitando a seca excepcional deste ano para obter terras para criação de gado ou para o cultivo de soja. O Departamento de Santa Cruz, mais afetado pelos incêndios, é também a principal área produtora de soja na Bolívia.

A Venezuela foi um dos primeiros países a responder ao pedido de ajuda do governo boliviano e enviou 30 bombeiros à reserva natural de Madidi para ajudar a combater um incêndio que ali coorria. Segundo relatos da imprensa, o presidente francês, Emmanuel Macron, também quer enviar um contingente de 100 bombeiros à Bolívia para acabar com os incêndios florestais, especialmente no leste e norte de La Paz e na região de Beni.

No entanto, as comunidades indígenas afetadas, em particular, sentem-se abandonadas pelo governo boliviano  devido às semanas de incêndios. Em nota pública, a Coordenação Nacional de Defesa dos Territórios Indígenas e Áreas Protegidas escreve: “O que nós, o povo do norte de La Paz e da Amazônia, fizemos para que o governo departamental e o governo central da Bolívia nos jogassem no meio deste fogo infernal?

O relator especial das Nações Unidas (ONU) para os direitos humanos e o ambiente, David Boyd, também expressou “profunda preocupação com a situação na Bolívia”  em um comunicado. Os incêndios destruíram florestas e territórios tradicionais dos povos indígenas bolivianos. O governo boliviano deve tomar medidas para apagar os incêndios, prevenir novos incêndios no futuro e respeitar os direitos humanos.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Junge Welt” [Aqui!].

Estudo aponta agrotóxicos como possível causa do aumento casos de leucemia em crianças no Brasil

Segundo o estudo, o glifosato pode ser um gatilho. As áreas de cultivo de soja são particularmente afetadas. Aprovações de agrotóxicos não diminuíram no governo Lula

glifo ame21O governo Lula mantém o ritmo do governo anterior de Jair Bolsonaro no que diz respeito a aprovações de agrotóxicos. Fonte:© ULRIKE BICKEL

Por Ulrike Bickel para o Amerika21

Brasília/WashingtonUm novo estudo dos EUA relaciona o aumento dos casos de leucemia infantil, a expansão do cultivo de soja e o uso generalizado de agrotóxicos nas plantações de soja no Brasil. A publicação surge em meio a discussões no congresso brasileiro sobre um projeto de lei para desregulamentar ainda mais e acelerar a aprovação de agrotóxicos, que os críticos descrevem como um “pacote do veneno” .

O estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), documenta que pelo menos 123 mortes adicionais entre crianças menores de dez anos entre 2008 e 2019 estavam ligadas ao uso de agrotóxicos no cultivo de soja na região seca do Cerrado, região de savana, e na floresta amazônica.

Os pesquisadores conseguiram constatar que, entre 2000 e 2019, a área cultivada com soja no Cerrado triplicou, de cinco para 15 milhões de hectares, enquanto na floresta amazônica cresceu 20 vezes: de 0,25 para cinco milhões de hectares. A utilização de agrotóxicos nas duas regiões examinadas aumentou de três a dez vezes durante o mesmo período.

Este aumento anda de mãos dadas com o número de casos de câncer. De acordo com os cálculos do estudo, por cada aumento de 10% na produção de soja, ocorreram quatro mortes adicionais em crianças menores de cinco anos e 2,1 mortes adicionais em crianças menores de dez anos por 100.000 habitantes.

Cerca de metade das mortes infantis por leucemia entre 2000 e 2019 estão ligadas à intensificação agrícola da produção de soja e à exposição das crianças a agrotóxicos, de acordo com a autora principal, Marin Elisabeth Skidmore . O contato com os produtos químicos ocorreu através das águas superficiais quando a produção de soja e o uso de agrotóxicos ocorrem a montante na área de captação.

O número de agrotóxicos aprovados no terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva já subiu para 431 no início de Novembro e espera-se que continue a aumentar até ao final do ano. O atual governo está mantendo o ritmo do governo anterior do presidente de ultradireita Jair Bolsonaro no que diz respeito à aprovação de agrotóxicos.

Nos últimos anos, vários estudos mostraram a ligação entre o uso intensivo de agrotóxicos no Brasil, o aumento das taxas de câncer e outros problemas de saúde . Segundo levantamento da Agência Pública e Repórter Brasil, mais de 14 mil pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos no Brasil de 2019 a março de 2022 .

Os 21 agrotóxicos recentemente aprovados são produtos concentrados que têm de ser misturados para serem vendidos comercialmente. Segundo uma análise inicial, 17 dos produtos aprovados são de empresas chinesas e os outros quatro de empresas indianas. A maioria dos agrotóxicos vendidos no Brasil e em outros países do sul global vem agora da China e da Índia.

Estes são genéricos mais baratos ou produtos “pós-patente”. Muitas vezes já não são permitidas no país de origem da patente ou estão atualmenteproibidas porque são muito perigosas para o ambiente e para a saúde humana.

Segundo a análise, o Brasil usa 2,3 vezes mais agrotóxicos por hectare que os Estados Unidos e três vezes mais que a China, que ocupa o primeiro e o terceiro lugar em uso absoluto de agrotóxicos. O uso de agrotóxicos no cultivo de soja brasileiro aumentou, principalmente após a primeira aprovação de variedades de soja geneticamente modificada em 2004.

Um novo estudo realizado por cientistas da Europa, dos EUA e da América do Sul sugere uma possível ligação entre a explosão de casos de leucemia infantil e o uso do glifosato, o herbicida mais utilizado no mundo. Mesmo doses de 0,5 mg por quilograma de peso corporal por dia, atualmente consideradas seguras na União Europeia, têm efeitos negativos, concluiu o estudo.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), que anteriormente classificou o glifosato como não cancerígeno, tem de reexaminar a aprovação do ingrediente ativo na sequência de uma ordem judicial porque não investigou adequadamente se o ingrediente ativo provoca cancro. Nos últimos anos, o mais alto tribunal dos EUA no país ordenou à empresa química e farmacêutica alemã Bayer, que comprou a Monsanto, que indemnizasse as vítimas do glifosato, muitas das quais desenvolveram leucemia.

A Organização Mundial da Saúde classificou o glifosato como perigoso para a saúde humana e “provavelmente cancerígeno para os seres humanos” em 2015. Na União Europeia, a aprovação do glifosato expira em 15 de dezembro deste ano, mas até agora não há maioria entre os estados membros da UE a favor de uma extensão nem de uma proibição.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo Amerika21 [Aqui!] .

Produtos de carne bovina, soja e óleo de palma ligados ao desmatamento ainda são importados para o Reino Unido

Ativistas acusam o governo britãnico de não cumprir as promessas feitas na cúpula climática Cop26 em 2021

Fogo e neblina engolfam floresta na província de Riau, na Indonésia

Desmatamento na província de Riau, na Indonésia, para dar lugar a plantações de óleo de palma. Fotografia: NurPhoto/Getty Images

Por Helena Horton para o “The Guardian”

Produtos de carne bovina, soja e óleo de palma que impulsionam o desmatamento ainda são importados para o Reino Unido, apesar das promessas do governo de que essa prática acabaria, revelaram os dados.

Os ativistas criticaram o Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (Defra) por não implementar práticas para impedir a importação de bens de áreas com altas taxas de desmatamento. Isto apesar de o governo ter prometido na conferência climática Cop26 em 2021 implementar as regras.

A Lei Ambiental de 2021 estabeleceu a proibição do uso de commodities produzidas em terras desmatadas ilegalmente no exterior, mas isso não entrou em vigor porque o Defra não publicou a lista de commodities abrangidas pelo regime.

O ex-ministro do Meio Ambiente, Zac Goldsmith, disse: “Aprovamos a Lei Ambiental com muito alarde, principalmente para que pudéssemos nos apresentar como líderes mundiais na Cop26, e foi uma lei genuinamente histórica para reduzir o desmatamento ilegal causado pela produção de commodities de nosso abastecimento. correntes. Mas não houve praticamente nenhum progresso desde que a lei foi aprovada e nem uma única árvore tropical foi ainda salva.

“Deveria ser desnecessário dizer que não há solução para as alterações climáticas e, na verdade, não há futuro para a nossa espécie, se não conseguirmos travar a perda das grandes florestas do mundo. Portanto, o governo precisa parar com os atrasos e reviravoltas e seguir em frente.”

Uma investigação da Global Witness e da Trase descobriu que o Reino Unido ainda importa sete produtos associados ao desmatamento, incluindo óleo de palma, soja e produtos pecuários.

Do total estimado de 20.400 hectares (50.400 acres) de desmatamento ligado às importações do Reino Unido entre novembro de 2021 e julho de 2023, estima-se que 8.800 hectares estejam ligados ao óleo de palma, 3.470 hectares à soja e 2.950 hectares aos produtos pecuários.

Os pesquisadores disseram que esses números provavelmente seriam subestimados porque incluíam matérias-primas em vez de produtos processados ​​que continham os ingredientes, como o chocolate.

Os ativistas também disseram que o regime do Reino Unido era mais fraco do que o da UE, que abrangie o desmatamento e a degradação florestal. A proibição do Reino Unido cobre apenas o desmatamento ilegal.

Veronica Oakeshott, chefe da campanha florestal da Global Witness, disse: “Durante dois anos, o governo tem hesitado sobre quais produtos causadores de desmatamento incluir nestas regulamentações. Neste período, as florestas tropicais continuaram a ser destruídas para o cultivo e pastoreio de gado. E parte desse produto acaba à venda no Reino Unido. Este atraso está a contaminar os produtos do público do Reino Unido – desde a carne de vaca nos nossos pratos até ao óleo de palma no nosso champô.

Ela disse que o governo deveria ouvir os varejistas do Reino Unido e alinhar-se totalmente com a regulamentação de desmatamento da UE, que abrange todas as commodities que representam risco florestal.

Oakeshott acrescentou: “É ultrajante que o Defra não esteja conseguindo dar luz verde a regulamentações simples necessárias para impedir a importação de destruição florestal para o Reino Unido. Se o Reino Unido quiser ser visto como líder climático, deve agir agora.”

Um porta-voz da Defra disse: “A grande maioria do desmatamento para a agricultura comercial é conduzida em violação às leis dos países produtores, e é por isso que nossa Lei Ambiental inclui legislação de devida diligência líder mundial para ajudar a combater esta atividade ilegal e para livrar esses produtos do varejo do Reino Unido. prateleiras. Estaremos definindo nossos próximos passos em breve.”

“Nossa abordagem é baseada na parceria com os países produtores e reforçará os esforços dos governos dos países produtores para garantir o uso sustentável das florestas e da terra.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Doenças neurológicas ligadas a uso de agrotóxicos crescem 600% em cidade paraense

Em 10 anos, conflitos entre sojicultores e camponeses expostos ao veneno se agravaram na região do planalto santareno

Agrotóxicos no conflito: “Os olhos coçavam, via tudo embaçado”

Por Leandro Barbosa para a Agência Pública

Ao redor da casa de Francisco Rodrigues, 43 anos, e sua esposa, Márcia Guerreiro, 50 anos, sobrou apenas um naco de floresta, que serve de moradia para alguns macacos que “gritam” em busca de comida. “É como se eles exigissem [o alimento]. O homem destruiu, que dê um jeito de resolver”, conta o agricultor que hoje vive rodeado pela soja, na comunidade Fé em Deus, no km 55 da Rodovia Santarém-Curuá-Una, em Santarém (PA). O casal convive há mais de 20 anos com os agrotóxicos da soja, um problema que continua a se expandir no Planalto Santareno. Dos anos 2000 a 2021, houve uma perda de aproximadamente 25 mil hectares de floresta para o plantio da monocultura, de acordo com dados solicitados pela Agência Pública ao MapBiomas, instituição que mapeia anualmente a cobertura e uso da terra do Brasil e monitora as mudanças do território.

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Agricultores vivem rodeados pela soja

Francisco e Márcia resistem em sua casa apesar do veneno que invade o terreno, contamina a água e prejudica suas plantações. Muitos agricultores perderam suas terras para os sojicultores que compraram e arrendaram as pequenas propriedades. Os que ficaram sofrem com os efeitos dos agrotóxicos na saúde e a violência dos conflitos fundiários, como constatou a Pública, quando visitou, em abril deste ano, as comunidades impactadas pela soja em Santarém, com base nos dados do Mapa dos Conflitos, baseado nos dados anuais da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

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Veneno usado em plantações de soja invade o terreno da família e contamina água

“Teve um dia que estavam borrifando [veneno] na soja. Eu tava na roça, trabalhando. E comecei a passar mal. Os olhos coçavam, via tudo meio embaçado. Meus lábios racharam. A garganta parecia que tava fechando. Faltava ar. Foi como se a respiração travasse”, conta Francisco. “Eu cheguei a reclamar. ‘Isso tá muito forte’, disse. Aí o homem me respondeu: ‘É pra matar besouro. Retruquei: ‘Você vai matar os besouros e vai me matar também’”, relembra Márcia. “A água que eu tomava parecia que tinha andiroba, de tão amarga”, completa. 

Além disso, Francisco relata que os igarapés da região estariam contaminados pelos agrotóxicos. “A água vem do meio da plantação de soja. E o veneno vem junto. Eu peguei uma coceira depois de ter entrado no Igarapé. Coça, arde e queima. Quando ela ataca, com força, se eu coçar, vai saindo os pedaços, vai arrancando o couro”, se queixa o agricultor. 

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Francisco mostra as marcas em sua pele após entrar nos igarapés contaminados da região

Os sintomas apontados por Francisco coincidem com os sintomas provocados por intoxicações agudas por agrotóxicos, como descreve a bióloga Annelyse Rosenthal Figueiredo, doutora em saúde pública pela Fiocruz e professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará, em Santarém. “Existem impactos diretos que são as intoxicações agudas, que são aquelas que as pessoas têm quando entram em contato imediato com os produtos tóxicos.

Os sintomas mais conhecidos são: dor de cabeça, náuseas, coceiras, alergias e alergias respiratórias. Estes são os sintomas clássicos quando tem pulverização. Mas também há os casos subagudos e crônicos, que são aqueles de exposição a agrotóxicos em pequenas doses a médio e longo prazo”, explica Annelyse, que em sua tese de doutorado buscou entender os impactos do agrotóxico na população do Planalto Santareno, que é constituído por áreas dos municípios de Santarém, Mojuí dos Campos e da região que foi o recorte de sua pesquisa, Belterra. 

A cientista analisou dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, em dois recortes temporais, de 2004 a 2014 e de 2014 a 2022. Primeiro descobriu-se que nem sequer há registros completos de possíveis casos de intoxicação e de doenças derivadas de agrotóxicos, sobretudo, do glifosato, comumente usado nas plantações de soja. “Durante os últimos 20 anos, desde que a soja chegou em Belterra, eu encontrei um número muito baixo de registros de intoxicação aguda. Tem a notificação de sete casos ao longo destes anos. E isso me deixou na dúvida se o uso de agrotóxico na região é tão bem-feito ou os dados não aparecem por algum motivo”, explica.

Annelyse relata que se deparou com casos em que o paciente chegou ao posto de saúde com todos os sintomas e afirmações que condizem com uma possível intoxicação, contudo a informação não foi lançada no sistema. “O sistema de notificação precisa ser melhorado. Os profissionais precisam ser capacitados para registrar da melhor forma o que está acontecendo. O Estado precisa agir na proteção das pessoas”, diz. 

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Francisco mostra remédio e pomadas que utiliza para tratar os efeitos do contato com agrotóxicos

Impactos à saúde

O mais alarmante, porém, foram os dados que a pesquisadora encontrou ao se debruçar sobre os casos de intoxicação subaguda e crônica, quando levantou, no DataSUS, os dados de doenças neurológicas, má-formação fetal e câncer. 

Os casos de doenças neurológicas cresceram mais de 600% em uma década. “Analisei o número de casos dessas doenças nos primeiros dez anos e depois no outro período, o que constatei foi um aumento muito grande entre os dois períodos. Foi muito intrigante encontrar dados de homens com 35 anos com Alzheimer em Belterra. E dentro desses dois grupos de anos houve um aumento de 667% nos casos de doenças neurológicas”, explica. 

A pesquisadora esclarece que existem estudos que correlacionam intoxicações por agrotóxicos com aumento no números de casos de Alzheimer, má-formação congênita e leucemias em crianças. “O elevado número de agravos que estão relacionados às intoxicações subagudas e crônicas por agrotóxicos em Belterra nos indica que os casos de intoxicação aguda muito provavelmente estão subnotificados no sistema. E isso revela uma fragilidade institucional que precisa ser observada também por outros municípios que vivem a mesma realidade de expansão do monocultivo de grãos.” 

A Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) informou que desde 2014 executa o programa de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA). O programa realiza a capacitação de médicos, técnicos em enfermagem, enfermeiros, agentes comunitários de saúde (ACS) e agentes de combate a endemias (ACE) e demais profissionais de saúde, para estarem preparados para a identificação de áreas de risco de intoxicação, população exposta a agrotóxicos, sintomas característicos de intoxicação exógena por agrotóxicos e o preenchimento correto da ficha de notificação de intoxicação exógena do Sinan.

Segundo o órgão, nesse período foi feita a capacitação nos 144 municípios, para mais de 6 mil profissionais de saúde. A Sespa ainda informou que vem realizando constantemente capacitações, orientações e alertas que chamam atenção do profissional de saúde para a ocorrência de possíveis casos agudos e crônicos de intoxicação.

A Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará), que é responsável pela fiscalização de venda e uso de agrotóxicos no estado, não respondeu às perguntas da Pública sobre como tem se dado o processo fiscalizatório na região, diante dos possíveis casos de intoxicação apontados pela pesquisadora e denunciados pelo agricultores da região do Planalto Santareno.

Veneno no fluxo da águaO igarapé em que Francisco Rodrigues se banhou – o que ele afirma ter sido a causa de seus problemas na pele – fica na comunidade Guaraná, também à beira da Santarém-Curuá-Una, que é um local vizinho da Fé em Deus, onde ele vive. O curso d’água fica entre uma plantação de soja e a rodovia. A água gelada garante ao povo o frescor diante do calor amazônico. De criança a idosos, o que não falta é gente nadando durante todo o dia. Mas, assim como ele disse, bastam uns minutos dentro da água para o corpo começar a coçar.

O relato dele é confirmado por Maria Luzenira Mesquita da Silva, 67 anos, presidente da Associação de Moradores da Comunidade do Guaraná (Amocomg). “Esse pessoal que trabalha com soja desmata e envenena as terras, a água está contaminada. Quem vem tomar banho fica com a pele irritada, com coceira. Antes não tinha isso, a água era muito limpa. Você via até o fundo [do igarapé], e agora você não vê mais”, afirma Maria Luzenira. 

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Igarapé com água contaminada

O igarapé segue o seu fluxo até o rio Curuá-Una – e, com ele, o veneno. E esse é o lamento de Raimundo Furtado Batista, de 60 anos. Ele é dono de um balneário na comunidade de Santa Maria, onde passa o mesmo igarapé que corta a Guaraná. Já faz quase dois anos que os clientes são proibidos de nadar no local. Situação que impactou diretamente o seu negócio. “Eu fiquei no prejuízo. Fechei meu balneário para banho, porque a pessoa pode adquirir uma doença e me processar”, afirma Batista. “Para os sojeiros, o que importa é o cultivo. Se está matando ou prejudicando os menores [população local], eles dizem que não têm nada a ver com isso”, reclama.

“Esse pessoal sempre fala que não precisa de água. Que água eles têm quando quiser. Que é só mandar cavar um poço. Eles dizem que só precisam de terra para trabalhar. Acredito que daqui a dez anos não teremos mais o igarapé por causa do assoreamento, devido ao desmatamento nas margens dele”, calcula Batista.

Segundo ele, o Instituto Evandro Chagas, órgão vinculado à Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA), do Ministério da Saúde (MS), esteve na região coletando água para análise, mas a comunidade não teve nenhum retorno. Questionado pela Pública sobre a pesquisa e resultados, o órgão não respondeu até a publicação da reportagem.

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“Para os sojeiros, o que importa é o cultivo. Se está matando ou prejudicando os menores [população local], eles dizem que não têm nada a ver com isso”, reclama morador

Conflitos fundiários

Além de sofrerem os efeitos dos agrotóxicos, os agricultores do Planalto Santareno lutam por áreas de plantio. Lideranças sociais na região, Francisco Rodrigues e Márcia Guerreiro estão à frente da Associação dos Moradores da Comunidade Jatobá da Volta Grande. A associação representa a comunidade Jatobá, área com um pouco mais de 700 hectares ocupada por camponeses em 2014, sob a alegação de que a expansão do monocultivo na área do Planalto tem conduzido à retirada das suas condições de trabalho. Atualmente, 60 famílias, que vivem desde a década de 1970 no Planalto Santareno, utilizam o espaço para a produção agrofamiliar. 

A área ocupada pelos agricultores faz parte da fazenda Canaã, que pertence a Alvadi Christofolli, que se dedica ao plantio de grãos, como soja e milho. No final de 2021, foi ajuizada uma ação de reintegração de posse contra as famílias do Jatobá, que, agora, correm o risco de perder as terras em processo judicial. “Nós temos muitas plantações ali. Pimenta-do-reino, macaxeira, abacate, pupunha, cana-de-açúcar. Ali a gente produz de tudo! Se a gente perder a Jatobá, nós não temos para onde ir. É o agronegócio querendo nos atropelar de qualquer forma e tirar as famílias da comunidade Jatobá”, lamenta Francisco. 

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Alimentos da produção agrofamiliar local

No último ano, os camponeses da Jatobá produziram mais de 40 toneladas de farinha de mandioca. A informação consta no inventário da associação e no laudo pericial anexado ao processo, ao qual a Pública teve acesso. De acordo com o documento, outras cadeias produtivas são complementares à venda de farinha: pimenta-do-reino, cumau, cacau, cupuaçu, citros, mamão, abacaxi, graviola, cana-de-açúcar, milho e arroz. Todo esse alimento abastece a cidade de Santarém e regiões vizinhas, além dos próprios camponeses. O documento afirma ainda que o impacto social, caso os agricultores sejam obrigados a sair das terras, seria brutal, resultando em processos de êxodo rural e geração de pobreza. Estima-se que o impacto econômico disso seria de quase meio milhão de reais por ano, caso eles fiquem sem terra para plantar. 

“Para Santarém, a gente encaminha a farinha, pimenta-do-reino e a pupunha. Vendemos por meio de um atravessador, infelizmente. Nós, da Jatobá, não temos banca na feira popular. Não conseguimos ainda. Até tem uma cooperativa próxima da gente, mas, como não estamos seguros na terra [devido à instabilidade jurídica], não é possível se associar. Só será possível se vencermos essa luta na Justiça”, explica Francisco.

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Alimentos produzidos pelos camponeses abastecem a cidade de Santarém e regiões vizinhas

O advogado popular Lincon Aguiar, do coletivo Maparajuba Direitos Humanos na Amazônia, que atua em defesa da comunidade, explica que boa parte da farinha produzida em Santarém é oriunda da Jatobá. Segundo ele, a expectativa é que em 2023 sejam produzidas cerca de 100 toneladas do alimento. Contudo, na localização do plantio se encontra o conflito. “O Planalto Santareno está sendo tomado pelo monocultivo da soja. Acredito que este seja o primeiro caso que se registra em Santarém de agricultores familiares sem terra. Os produtores de soja vão comprando todas as grandes porções de terra na região do Planalto e vão pressionando os agricultores a irem cada vez mais longe até que fiquem sem terra. É o caso destas famílias que ocuparam este lote. E agora disputam espaço com a soja, para produzir no Planalto”, diz Aguiar. 

Diante da iminência de ficar sem terra para plantar, Márcia alivia sua tensão e ansiedade em palavras. Dos muitos poemas que escreve, um ela gostaria de ler ao juiz da causa, disse ela à Pública. Um trecho diz: “Olhe em volta e veja minhas pequenas plantações. Se tirar de mim o pouco que tenho, como vou sustentar meus filhos que ainda são crianças? Veja senhor, tô com sede, mas da água não posso beber. Deve estar se perguntando porquê, simplesmente está poluída por causa do veneno. Sofre nós. E sofre a natureza também”. No Planalto Santareno, Jatobá significa esperança, diz Márcia, “é lá que a natureza compensa. Que ainda é possível acordar com a orquestra dos pássaros. E respirar sentindo o cheiro da mata”, reflete a agricultora. “Eu gostaria de perguntar: é justo perder tudo isso, seu juiz?”

Procuramos Dilermando Bentes, que atua na defesa de Christofolli, mas não houve retorno. O Tribunal de Justiça do Pará (TJPA) também não respondeu sobre as atualizações do processo e os questionamentos enviados pela reportagem.

Edição: Thiago Domenici


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Pública [Aqui! ].