Aumento de morte de crianças por leucemia é associada à expansão da soja no Brasil

Agrotóxicos: uso na soja aumentou morte de crianças por leucemia

Aplicação de agrotóxicos levou à morte adicional de 123 crianças em 11 anos na Amazônia e no Cerrado, revela pesquisa

Por Giovana Girardi para a Agência Pública

Em meio à discussão no Congresso de um projeto de lei para flexibilizar o acesso aos agrotóxicos no país, amplamente defendido pela bancada ruralista, um estudo divulgado nesta segunda-feira (30) associa o aumento de casos de leucemia infantil no Brasil à expansão do cultivo da soja e ao grande uso de pesticidas nas plantações do grão.

Eles encontraram pelo menos 123 mortes adicionais de crianças com menos de 10 anos entre 2008 e 2019 relacionadas indiretamente ao uso de  agrotóxicos no cultivo de soja no Cerrado e na Amazônia.

O trabalho fez uma análise populacional, considerando 15 anos de dados de saúde, cruzando informações de câncer infantil com o avanço da soja pelos dois biomas. 

O grupo de pesquisadores norte-americanos, liderados por Marin Skidmore, da Universidade de Illinois, aponta no artigo que a área de soja no Cerrado triplicou de 5 milhões de hectares para 15 milhões de hectares entre 2000 e 2019. Na Amazônia, cresceu 20 vezes: de 0,25 milhão para 5 milhões de hectares. Já o uso de agrotóxicos nessas duas regiões – que foram as analisadas no trabalho – cresceu entre 3 e 10 vezes no mesmo período.

Este aumento, revelam, se refletiu nos casos da doença. De acordo com os cálculos dos cientistas, a cada 10 pontos percentuais de aumento na produção de soja, houve 4 mortes adicionais de crianças de menos de 5 anos e de 2,1 abaixo de 10 anos por 100 mil habitantes.

“Os resultados sugerem que cerca de metade das mortes pediátricas por leucemia no período podem ser ligadas à intensificação agrícola da soja e à exposição aos agrotóxicos”, afirmou Skidmore em comunicado à imprensa. O trabalho foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)

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Aplicação de agrotóxicos levou à morte adicional de 123 crianças em 11 anos na Amazônia e no Cerrado

Os cientistas indicaram também que o contato com os produtos químicos deve ter se dado via fornecimento de água, em geral em localidades onde a produção de soja fica à montante na bacia hidrográfica. Eles chegaram a essa conclusão ao procurar evidências de aplicação de pesticidas rio acima. Os casos de leucemia estavam à jusante da mesma bacia. “Isso indica que o escoamento de agrotóxicos para as águas superficiais é um método provável de exposição”, explicou Skidmore.

Ou seja, as crianças que desenvolveram leucemia não moravam necessariamente nas áreas onde se dá a produção da soja – o que revela o amplo alcance dos agrotóxicos. Skidmore aponta que a área rural da região avaliada no trabalho tinha, de acordo com dados de 2006, cerca de 50% das casas com poços ou cisternas, mas a outra metade dependia do escoamento na superfície como fonte de água. “Se a água na superfície está acostumada, os pesticidas usados rio acima podem alcançar as crianças rio abaixo”, disse.

O artigo retrata o Brasil como o país que se tornou, nos últimos anos, tanto o líder mundial na produção de soja quanto de consumo de agrotóxicos perigosos. Segundo a análise, aplicamos, por hectare, 2,3 vezes mais agrotóxicos que os Estados Unidos e 3 vezes mais que a China, que são o primeiro e o terceiro colocado em volume total de agrotóxicos. O estudo relata ainda que o uso no cultivo de soja cresceu após a aprovação, em 2004, de variantes transgênicas do grão.

Um fator capaz de amenizar a mortalidade foi a presença de hospitais próximos às áreas de contaminação. De acordo com a pesquisa, as mortes de crianças por leucemia relacionadas com a expansão da soja se deram em regiões que ficavam a mais de 100 quilômetros de um centro de tratamento. A doença é tratável, mas depende de um atendimento oncológico especializado, o que não é amplamente oferecido no interior do Brasil, em especial na Amazônia, por exemplo.

“Nós certamente não estamos advogando por uma interrupção total do uso dos agrotóxicos”, diz a pesquisadora, reconhecendo que tiveram uma importância para a expansão da produção de soja. “São tecnologias importantes e válidas, mas precisam ser adotadas com segurança. [Os resultados] são um forte aviso de que o uso seguro de agrotóxicos é o melhor tanto para a produtividade agrícola quanto para as comunidades”, afirma. 

O recado final do artigo é mais duro: “Este trabalho sublinha a importância de considerar as implicações à saúde humana da intensificação da agricultura”.

Durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), mais de 14 mil pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos no Brasil, segundo levantamento inédito feito pela Agência Pública e Repórter Brasil, com dados de 2019 a março de 2022.

Nos últimos anos, vários estudos vêm revelando a relação entre o uso intenso de agrotóxicos com diversos problemas de saúde e ao ambiente. A presença de substâncias cancerígenas nos agrotóxicos é bem conhecida, mas a relação direta de causa e efeito com o câncer é mais difícil de estabelecer.  

Levantamento recente feito pelo InfoAmazonia com a Fiocruz observou que mulheres, crianças e adolescentes de municípios do Mato Grosso que têm pelo menos 5% da área ocupada por soja têm risco entre 26% e 33% mais chances de desenvolver e morrer por leucemia e linfoma.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Pública [Aqui!].

Sementes geneticamente modificadas ainda não dominaram as vastas plantações da Índia

sojaSementes de soja – um item popular na agricultura OGM. O mais alto tribunal da Índia bloqueou a plantação de culturas geneticamente modificadas.

A engenharia genética de culturas – onde são inseridos genes do mesmo ou de outro organismo – pode aumentar a resistência de uma planta às pragas, ajudá-la a crescer em condições difíceis, como a seca, e aumentar os seus níveis de nutrientes.

Então, como é que as empresas multinacionais não conseguiram prejudicar nenhum dos principais produtores e consumidores de alimentos agrícolas na Índia?

A multinacional norte-americana Monsanto, através de uma subsidiária indiana, a Mahyco, conseguiu promover o algodão Bt, um produto não alimentar. Geneticamente modificado para produzir proteínas emprestadas da bactéria do solo Bacillus thuringiensis, tem como objetivo matar a praga mortal da lagarta rosa.

Mas isso foi há 20 anos e nenhuma outra cultura geneticamente modificada, alimentar ou não alimentar, conseguiu desde então entrar nas explorações agrícolas indianas.

As culturas alimentares estão a revelar-se particularmente difíceis de quebrar para as empresas geneticamente modificadas. Para começar, a grande população de vegetarianos da Índia, estimada em 40 por cento dos seus 1,4 mil milhões de habitantes, não aceita bem a ideia de haver alimentos modificados sob qualquer forma na mesa.

Em segundo lugar, embora as culturas geneticamente modificadas sejam promovidas como forma de poupar pesticidas tóxicos, a maioria exige a utilização de herbicidas com glifosato e glufosinato, que não são menos tóxicos.

Em 2015, a Organização Mundial da Saúde identificou o glifosato como um provável carcinógeno humano, acrescentando combustível ao debate sobre a segurança das culturas geneticamente modificadas.

Além disso, genes adicionais de espécies estranhas são colocados em camadas para proteger as plantas de herbicidas, o que torna sua produção mais cara.

A forma como o algodão Bt surgiu na Índia, apanhando os reguladores do país desprevenidos e forçando-os a aprovar um facto consumado, também não inspirou confiança pública.

O algodão Bt domina agora os 12.000 hectares que a Índia possui sob explorações de algodão. No entanto, a praga da lagarta rosada está a começar a mostrar sinais de resistência às proteínas Bt, levando alguns agricultores a regressar aos pesticidas.

A entrada furtiva do algodão Bt na Índia galvanizou ambientalistas e activistas a recorrerem ao Supremo Tribunal em 2004 para garantir uma regulamentação mais rigorosa de todas as culturas geneticamente modificadas.

Até agora, o tribunal, que criou o seu próprio comité de peritos, não tem sido favorável aos apelos do conselho governamental de que as culturas alimentares geneticamente modificadas são essenciais para alimentar a grande população da Índia.

Na última audiência, a 29 de Agosto, o Supremo Tribunal indicou que não se apressaria a permitir a plantação de mostarda geneticamente modificada na época de sementeira de Setembro.

“Um ano aqui ou ali não importa”, disse o juiz BV Nagarathna, membro da bancada.

“Esta é apenas uma temporada. No próximo ano haverá outra temporada. No entanto, os danos ambientais não podem ser revertidos.”

O tribunal estava ouvindo depoimentos apresentados por litigantes contra a aprovação do governo, em fevereiro, da “liberação ambiental” da mostarda geneticamente modificada. A liberação ambiental está a um passo do cultivo comercial completo.

O governo, no entanto, alertou que o assunto estava sob julgamento no Supremo Tribunal.

Inversão de marcha no GM

A mostarda geneticamente modificada não foi a primeira cultura alimentar geneticamente modificada desenvolvida na Índia e depois proibida.

Mahyco usou genes do mesmo B.thuringiensis para produzir berinjela Bt (também conhecida como berinjela ou berinjela) apenas para ver o governo ordenar uma moratória na semeadura, com base no feedback das consultas com as partes interessadas.

Mahyco, embora frustrado com a moratória, negociou com sucesso com o vizinho Bangladesh a aceitação da berinjela Bt. Em 2018, o conglomerado alemão Bayer comprou a Monsanto, ganhando o controlo da Mahyco e em 2022 os novos proprietários tinham assegurado um acordo semelhante com as Filipinas.

A FAO reconhece as preocupações sobre os riscos potenciais das culturas geneticamente modificadas levantadas pelos cientistas, pelo público e pelos reguladores, incluindo as pragas que se tornam resistentes aos pesticidas e aos alimentos geneticamente modificados que colocam problemas de segurança para os seres humanos e os animais. No entanto, insiste que os benefícios superam esses riscos.

A FAO afirma que mais de 17 milhões de agricultores estão plantando culturas geneticamente modificadas em 29 países e a “colher rendimentos mais elevados com uma utilização reduzida de pesticidas e uma melhor gestão de ervas daninhas, entre outros benefícios”. Mas isso não parece convincente na Índia, que sozinha tem 120 milhões de agricultores.

Os sentimentos pró-vegetarianos, os receios dos agricultores de que os herbicidas que os acompanham pudessem destruir outras culturas plantadas numa base rotativa, e as exigências de uma regulamentação mais rigorosa e transparente por parte dos litigantes detiveram a mão do governo.

Os litigantes citam o caso da variedade de algodão Bt tolerante a herbicidas (HT), ou algodão HTBt, obrigando os produtores de algodão indianos a adicionar herbicidas à sua lista crescente de insumos agrícolas dispendiosos.

Esperava-se que a Índia, um grande importador de óleo comestível, comprasse até 14 milhões de toneladas de óleo comestível durante a temporada de setembro de 2022 a outubro de 2023. Paradoxalmente, a Índia é também o principal exportador mundial de óleos comestíveis – especialmente óleo de mostarda.

Preocupações com o glifosato

Mas um exame mais atento mostra que o óleo de mostarda “branca” que os comerciantes indianos importam é na verdade canola, extraída da colza, uma variedade de mostarda geneticamente modificada para ser tolerante a herbicidas.

No Canadá, onde a canola é uma das principais culturas do país, os herbicidas, especialmente o glifosato, poupam aos produtores o custo de arrancar ervas daninhas. Citando a aparente negligência relativamente à utilização do glifosato, um estudo publicado em Janeiro acusa os reguladores do Canadá de “abraçarem as narrativas da indústria” e de recorrerem a “tomadas de decisões opacas e falta de transparência” para promover interesses comerciais em detrimento dos imperativos da saúde pública e da protecção ambiental.

Estas são também as acusações que os litigantes estão a levantar contra os reguladores da Índia – concedendo autorizações para a mostarda geneticamente modificada e o herbicida glufosinato que a acompanha. Banido na UE desde 2020, o glufosinato apresenta perigos adicionais para os indianos que utilizam não só o óleo, mas também as sementes e folhas na cozinha tradicional.

A mudança para culturas geneticamente modificadas para poupar em pesticidas fez com que os produtores tivessem de usar herbicidas – de modo que existe uma confusão entre um tipo de agroquímico tóxico e outro. Os OGM também normalmente abordam apenas uma única praga quando há várias que exigem o uso de pesticidas.

Com a lagarta rosada a tornar-se resistente às proteínas Bt, a realidade é que os agricultores estão longe de estarem livres de pesticidas – um insumo agrícola já dispendioso, ao qual será necessário adicionar herbicidas.

Por enquanto, o principal obstáculo para os proponentes das culturas alimentares geneticamente modificadas é o facto de o próprio comité técnico de peritos do Supremo Tribunal ter recomendado fortemente a proibição total das culturas tolerantes a herbicidas no país.

Dado que o governo preferiu deixar a questão para o tribunal, é seguro dizer que poderá levar anos até que as culturas alimentares geneticamente modificadas cheguem aos portões das explorações agrícolas da Índia.


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Este artigo foi escrito originalmente em inglês pela área Ásia e Pacífico do SciDev.Net e publicada [Aqui!].

Agricultura envenenada: gastos com agrotóxicos na soja alcançam R$ 54,84 bilhões na safra 2022-2023

soja agrotóxicos

O site especializado Agrolink divulgou hoje o resultado de uma pesquisa indicando que os gastos com agrotóxicos nas monoculturas de soja na safra 2022-2023 teriam alcançado estratosféricos US$ 11,4 bilhões (algo em torno de R$ 54,84 bilhões na cotação de hoje). Esse valor representaria uma elevação de 50% em relação à safra 2021-2022.

O Agrolink confirmou ainda algo conhecido que é o fato de que a parte substancial dos gastos com agrotóxicos no Brasil está concentrada em três monoculturas de exportação que são, respectivamente, soja, milho e cana-de-açúcar. Tal informação apenas reafirma o impacto das monoculturas de exportação sobre o uso intensivo de agrotóxicos no Brasil.

Por outro lado, os dados indicam que os maiores gastos estão concentrados nos herbicidas, sendo que este tipo de agrotóxicos representa 60% dos gastos realizados pelos agricultores, com forte participação de diferentes formulações de glifosato.  Esse é um fato particularmente significativo, na medida em que o glifosato tem sido associado ao desenvolvimento de um tipo específico de câncer pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer (IARC), o chamado Linfoma de Non-Hodgkin.

O fato é que para além do enorme custo financeiro dos agrotóxicos, haveria que se considerar os impactos sociais e ambientais causados pela forte dependência das monoculturas de exportação em relação a este tipo de venenos agrícolas.  

Urgente! Observatório dos Agrotóxicos divulga base com os 232 agrotóxicos liberados pelo governo Lula

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Desde o início do governo Lula, o Observatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski vem monitorando os atos publicados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), tendo contabilizado a publicação de oito atos (5,6,15,16,22,26,30 e 32) que resultaram na liberação de mais 232 agrotóxicos no já gigantesco mercado brasileiro.

Após realizar o trabalho de compilar todos os agrotóxicos liberados, o Observatório dos Agrotóxicos agora divulga uma base com mais informações sobre cada um desses produtos, adicionando, por exemplo, as cidades e estados onde localizados os detentores dos registros. Isso pareceu importante, na medida em que não há muita informação sobre como esta distribuída essa rede de empresas que detém os registros.

Por outro lado, uma observação inicial leva à observação de que o processo de liberação de agrotóxicos no governo Lula está seguindo os mesmos procedimentos que foram criados pelo governo Bolsonaro, o que implica na aceitação de critérios rebaixados para a definição de toxicidade humana. Isto não apenas gera a falsa sensação de que os agrotóxicos aprovados não são perigosos, pois nenhum dos 232 agrotóxicos foi incluído na categoria de maior risco para a saúde humana, em que pese a presença de agrotóxicos conhecidos por serem causadores de câncer como é o caso do inseticida organofosforado Acefato.  Mas o acefato não é um caso isolado, pois vários outros agrotóxicos presentes na lista de aprovados do governo Lula já possuem farta documentação científica acerca de suas implicações sobre a saúde humana.

Agência Pública on Twitter: "Há alta incidência de casos de câncer e  malformação nas regiões de maior produção agrícola do Mato Grosso, campeão  no consumo de agrotóxicos do país. Saiba mais: https://t.co/l3LSyKKHb3

Por outro lado, a lista traz vários exterminadores de polinizadores como  é o caso dos inseticidas Imidacloprido e Fipronil, mas eles não são os únicos, o que gera uma enorme preocupação com o uso do aumento dessas substâncias no território nacional, especialmente em regiões que concentram a criação de abelhas.

Warning about the downside to insecticides

É importante notar que pelo menos 33% dos agrotóxicos liberados no governo Lula já se encontram proibidos na União Europeia, o que não impede que empresas europeias como a Basf e a Bayer, mas também a sino-suiça Syngenta, continuem enviando para cá produtos altamente perigosos, tanto para o meio ambiente como para a saúde dos brasileiros.

Por outro lado, a China continua sendo a principal fornecedora de agrotóxicos para o Brasil, com 65% dos produtos liberados em 2023 sendo produzidos diretamente na China, o que indica uma influência ainda maior do principal comprador da soja brasileira, visto que a Syngenta e a Adama que são agora controladas por empresas chinesas, também estão enviando seus produtos para o Brasil a partir de outros países, principalmente da Europa (ver figura abaixo).

mapa de paises

Há ainda que se notar que a grande maioria dos produtos aprovados estão destinados para uso nas grandes monoculturas, principalmente da soja. Com isso, fica clara um modelo de trocas imperfeitas, na medida em que o maior fornecedor de agrotóxicos é também o principal comprador deste grão, sendo que os produtos industrializados possuem maior valor agregado.

Há que se lembrar ainda que o que está ruim, ainda pode piorar mais se a bancada ruralista no Senado Federal conseguir aprovar o “Pacote do Veneno” na forma que foi enviado pela Câmara de Deputados.

Para os interessados em ter acesso ao banco de dados contendo as informações sobre os 232 agrotóxicos liberados desde janeiro pelo governo Lula, basta clicar [Aqui!].

Gigante chinesa recebe bilhões para garantir soja sustentável no Brasil, mas compra de desmatadores

Cofco assinou maior empréstimo do planeta vinculado a metas sustentáveis, mas investigação mostra caminho de grãos de áreas desmatadas até seus armazéns, em Mato Grosso

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Por Poliana Dallabrida e Sasha Chavkin para a Repórter Brasil

Em julho de 2019, a multinacional chinesa Cofco, uma das principais compradoras da soja brasileira, anunciou a assinatura do maior contrato de empréstimo vinculado a critérios de sustentabilidade do mundo recebido por uma empresa de commodities: 2,3 bilhões de dólares. Desde então, a linha de crédito já foi renovada em duas oportunidades – a última delas em julho do ano passado.

O Brasil tem um papel central nessa conquista: os 19 bancos responsáveis pelo financiamento bilionário, entre eles o espanhol Banco Bilbao Vizcaya Argentaria (BBVA), que coordena o negócio, só aceitaram oferecer capital a juros baixos porque a Cofco se comprometeu a garantir a rastreabilidade da soja adquirida por fornecedores diretos no país, além de atingir outras metas de sustentabilidade em suas operações.

Mas uma investigação da Repórter Brasil, em parceria com a Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center, mostra que no mesmo período em que desfrutava do crédito verde a juros reduzidos, a trading estava recebendo em seus armazéns soja produzida em um complexo agrícola com áreas de desmate recente.

As compras foram realizadas com intermediação da Nutrade Comercial Exportadora, subsidiária da multinacional suíça Syngenta. Ou seja, a aquisição dos grãos pela companhia chinesa se deu de forma indireta – e por isso não descumpre a meta do empréstimo bilionário, de rastreamento de fornecedores diretos. Mas mostra que a Cofco ainda tem um longo caminho para alcançar a aquisição de soja livre de desmatamento.

Armazéns da Cofco em Mato Grosso receberam soja plantada em áreas desmatadas no estado através de contratos com intermediários (Foto: Sasha Chavkin)

“Talvez não seja diretamente uma violação aos termos do contrato, mas é preocupante porque os bancos emprestaram a uma empresa que promete melhorar o rastreamento e, no entanto, não o faz ou não faz eficientemente bem. Se eu fosse um banco, estaria preocupado”, avalia Merel Van der Mark, coordenadora da Coalizão Florestas & Finanças, plataforma que analisa os financiamentos recebidos por empresas do agronegócio que potencialmente podem causar danos socioambientais.

A reportagem utilizou bases de dados públicas, imagens de satélite e documentos obtidos com exclusividade e descobriu que parte dos grãos adquiridos pela Cofco no Mato Grosso em 2021, maior produtor nacional, foi cultivada em áreas desmatadas do Cerrado e da Amazônia.

Inicialmente, a Cofco negou qualquer relação comercial com as fazendas de soja mapeadas por esta investigação. Depois de ter acesso às notas fiscais e contratos obtidos pela reportagem, a trading mudou o discurso: “Atualmente, estamos trabalhando para aumentar a rastreabilidade das compras indiretas, o que nos levará a reforçar nossos controles e monitoramento de risco para esta parte da cadeia de fornecimento” e destacou que os compromissos assumidos nos empréstimos vinculados à critérios de sustentabilidade dizem respeito apenas aos seus fornecedores diretos.

Já a Nutrade afirmou que, no momento da compra, todos os fornecedores cumpriam as regulamentações ambientais e não se encontravam na lista de embargos do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Leia as respostas na íntegra aqui.

Violação da Moratória da Soja

Um desses casos é o do produtor João Luiz Lazarotto, dono das fazendas União e União II, em Tapurah, município localizado na Amazônia. As propriedades, coladas uma na outra, totalizam 9,5 mil hectares, e são destinadas aos cultivos de soja, algodão e milho.

Notas fiscais emitidas pela Nutrade e obtidas pela Repórter Brasil mostram diversos envios de soja da Fazenda União, em fevereiro de 2021, para o armazém da Cofco International em Lucas do Rio Verde, também em Mato Grosso. Outro documento acessado pela investigação reforça a parceria comercial entre a trading e o produtor: um contrato de compra e venda assinado em janeiro de 2021 entre a Nutrade e a Cofco prevê a retirada de 1,8 milhão de toneladas de soja do armazém de João Lazarotto pela multinacional chinesa.

Imagens de satélite acessadas pela Repórter Brasilrevelam que 650 hectares de vegetação nativa foram desmatados dentro da Fazenda União II em 2017. O desmatamento não ocorreu ilegalmente. No mesmo ano, Lazarotto recebeu autorização da Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Mato Grosso (Sema-MT) para desmatar 689 hectares na propriedade.

Imagens de satélite revelam desmate de centenas de hectares em propriedade de Lazarotto no ano de 2017, área depois cultivada com lavouras (Foto: Reprodução Google Earth)

Segundo análise feita com imagens da plataforma MapBiomas, corroborada por outros sistemas de satélite, a área desmatada na Fazenda União II foi destinada ao cultivo de soja já em 2018 – o que estaria em desacordo com  a Moratória da Soja, acordo que prevê o boicote à aquisição do grão plantado em áreas desmatadas da Amazônia após julho de 2008. A Cofco é uma das signatárias.

Mas segundo a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) – que representa as indústrias signatárias da moratória e integra o Grupo de Trabalho da Soja (GTS), responsável pelo monitoramento do pacto – a área desmatada se destinava ao plantio de arroz. Por isso, o produtor João Luiz Lazarotto não integra a lista atual de propriedades bloqueadas, segundo a associação. “Entretanto, há indícios que o produtor produziu soja não conforme na safra 2022 e 2023. Caso confirmado, ele passará a constar na Moratória da Soja a partir deste ano”, complementou a entidade. Leia as respostas na íntegra aqui.

Já a Cofco afirmou que conseguiu detectar, por meio de imagens de satélite, que a soja adquirida de Lazarotto foi cultivada na Fazenda União, área sem registro de desmatamento, “já que a outra área (Fazenda União II) só começou a colheita em 21 de abril e nosso contrato com a Lazarotto via Nutrade foi 100% recebido em 21 de fevereiro”.

No entanto, durante a entrevista concedida para esta reportagem, realizada 8 meses depois do fim do contrato com a Nutrade, Lazarotto afirmou que é também era fornecedor direto da Cofco, seu segundo maior cliente, segundo o próprio produtor. Confrontada com este fato, a Cofco não se manifestou.

João Luiz Lazarotto confirma que é fornecedor da Cofco e vende, também, sem intermediários para a companhia (Foto: Giovanny Vera)

Mesmo com o possível impacto comercial, o produtor, que também forneceu para a brasileira Amaggi, afirma que seguirá com o desmatamento na Fazenda União II. “Eu tenho direito de abrir mais 350 hectares. Está na lei, e eu vou abrir esses 350 hectares”, garante, referindo-se ao percentual de 20% da propriedade que pode ser desmatado legalmente na Amazônia, sempre que autorizado pelo órgão ambiental. “Essa Moratória da Soja tem que ser revista”, defende Lazarotto.

Dois cadastros, mesma propriedade

Em seus esclarecimentos, a Cofco também informa que adquire soja originada apenas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) da fazenda União. Apesar da divisão da propriedade em duas áreas – União e União II –, Lazarotto possui inscrição estadual apenas na primeira. Este documento é obrigatório para a emissão de notas fiscais. Ou seja, qualquer produção agrícola da União II necessariamente será repassada ao mercado com outro documento fiscal – talvez o da União, evidenciando o risco de “contaminação” dos grãos cultivados na fazenda União com a soja plantada na área desmatada.

A Repórter Brasil visitou a propriedade de Lazarotto em setembro de 2022 e constatou que as duas áreas de lavoura das propriedades contíguas ficam distantes pouco mais de um quilômetro uma da outra e são unidas por uma estreita faixa de terra cultivada – este corredor permite o manejo integrado das duas fazendas, bem como o transporte dos grãos da União II até os silos de armazenamento, que estão localizados na União.

Fazendas União e União II produzem grãos, mas apenas uma possui inscrição estadual e silos de armazenamento (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

“O fato de a declaração comercial ser proveniente de um CAR não significa que a produção não seja proveniente de outro. É uma interpretação errada das empresas considerar o CAR como uma declaração de propriedade”, explica Joana Faggin, consultora da organização holandesa Aidenvironment. Ela ressalta que não é incomum que proprietários dividam uma mesma área em vários CARs com outro propósito, como excluir áreas irregulares da propriedade nomeada no registro comercial da fazenda. “O comprador da commodity precisa considerar o que está acontecendo em toda a área e verificar se existe algum desmatamento ou outra irregularidade”.

Desmatamento para plantio ameaça Cerrado

Outro caso mapeado pela reportagem é de um fornecedor da Cofco International no Cerrado, segundo bioma mais desmatado do país, atrás da Amazônia. A região é central para o setor da soja: 52% do grão cultivado no país está concentrado em municípios do bioma.

Em março de 2021, a Uggeri Agropecuária, localizada em Nova Mutum, fez diversas entregas de soja ao armazém da trading chinesa em Lucas do Rio Verde, também em Mato Grosso. Assim como no primeiro caso, um contrato de compra e venda de novembro de 2020 firmado entre a Cofco e a Nutrade mostra a promessa de entrega de 1,3 toneladas de soja com origem na Uggeri Agropecuária.

A empresa é dona da Fazenda Ranchão, onde cultiva grãos e cereais. Na propriedade contígua Fazenda Ranchão II, três áreas foram embargadas pela Sema-MT em agosto de 2015. Imagens de satélite mostram que a Uggeri Agropecuaria continuou a plantar na área embargada, inclusive durante o período de suas vendas para a Cofco, o que constitui uma violação aos compromissos que assumiu publicamente, segundo especialistas que analisaram o caso a pedido da reportagem.

Em 2015 a Fazenda Ranchão, da Uggeri, foi multada por desmates além do limite autorizado e por isso sua área foi embargada (Foto: Sasha Chavkin)

Segundo o Código Florestal, é proibido realizar qualquer atividade econômica em áreas embargadas, que devem ser preservadas para a recuperação da vegetação nativa. Por sua vez, a Política de Fornecimento Sustentável de Soja da Cofco, diz que a empresa adquire soja apenas de produtores que estejam de acordo com legislações ambientais federais, estaduais e municipais, e que respeitem áreas embargadas e acordos setoriais. Tais políticas são aplicáveis “a todos os fornecedores, diretos e indiretos”.

Mas isso nem sempre é aplicado. No caso da Uggeri, a empresa tinha autorização do órgão estadual para desmatar 992 hectares na propriedade em junho de 2012. A área desmatada, no entanto, ultrapassou o limite permitido, e em agosto de 2015 a Uggeri Agropecuária recebeu três multas: uma por destruir 3,15 hectares de vegetação nativa em Área de Preservação Permanente, outra por desmatar 22,2 ha em área de reserva legal e a terceira por não atender solicitação do órgão ambiental. Pelas três infrações, a empresa foi multada em R$ 157 mil, além de ter as áreas embargadas.

Em janeiro deste ano, as áreas bloqueadas na Fazenda Ranchão II foram desembargadas pela Sema-MT – portanto, durante a vigência do contrato com a Nutrade, a soja produzida nessa área era irregular. A Repórter Brasil entrou em contato com a empresa e com a secretaria estadual para esclarecer o motivo do desembargo e para ouvir a versão dos fatos da produtora de soja.

À reportagem, a Sema-MT afirmou apenas que o desembargo à Fazenda Ranchão II, ocorrido no dia 16 de janeiro de 2023, “está embasado no artigo 15B do Decreto Federal nª 6514/2008. O artigo em questão afirma que uma área poderá ser desembargada caso a empresa ou indivíduo autuado apresente documentação que regularize a obra ou atividade na área. Leia a resposta completa aqui. A Uggeri Agropecuária não respondeu às tentativas de contato. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

Assim como no caso do produtor Lazarotto, a Cofco afirmou que a Fazenda Ranchão está dividida em três CARs e que adquiriu soja apenas do cadastro sem irregularidades ambientais. Leia as respostas na íntegra aqui.

Metas repetidas e falta de transparência

A obtenção das vantagens financeiras de empréstimos ligados a critérios de sustentabilidade – mais conhecidos pelo seu termo em inglês Sustainability-Linked Loans –, como juros baixos ou flexibilidade no prazo de pagamento da dívida, tem como contrapartida o cumprimento de metas pré-acordadas junto aos financiadores, avaliadas por meio de indicadores-chave de desempenho (KPI ou Key Performance Indicator, no termo em inglês).

Nessa modalidade de empréstimo, cada meta de sustentabilidade é auditada anualmente por uma terceira-parte independente. As metas e os prazos para o cumprimento de cada promessa, no entanto, não são públicos em contratos desse tipo.

Por outro lado, não há legislações nacionais que determinem o que é e o que não é uma operação financeira ligada a critérios de sustentabilidade. Sequer as regras do mercado financeiro possuem força para obrigar o cumprimento dos objetivos propostos em contratos deste tipo.

Empresas de grãos prometem metas de sustentabilidade, mas não conseguem garantir rastreabilidade completa de suas cadeias produtivas (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

“O que existem são princípios que norteiam esse tipo de investimento. Todas as operações que querem ter credibilidade vão ser baseadas nesses princípios. Mas como o próprio nome já diz, são princípios, não são diretrizes”, ressalta Cristóvão Alves, diretor de pesquisa e avaliação ESG [Ambiental, Social e Governança, na sigla em português] da consultoria NINT, comprada em fevereiro pela ERM, maior consultoria global de sustentabilidade.

No primeiro contrato “verde” assinado pela Cofco International, em julho de 2019, a multinacional divulgou que, entre as metas acordadas, estavam a de “melhoria anual da performance ESG” e de “aumentar a rastreabilidade de commodities agrícolas, com foco para a aquisição direta de soja no Brasil”. A renovação dos acordos, nos anos seguintes, porém, não ensejou mudanças nas promessas, que seguiram sendo exatamente as mesmas inclusive em julho de 2022, na mais recente renovação.

“Como não tem transparência e não há regras definidas, é um mercado de faroeste. Qualquer um pode chamar um empréstimo de Sustentability-Linked”, avalia Merel Van der Mark, da Florestas & Finanças. “O que vemos é que fazem muita publicidade sobre isso: ‘é o maior Sustainability Linked Loan’, mas não fazemos ideia de qual foi acordo e nem se o acordo está sendo cumprido”.

Lavouras de grãos são um importante vetor de desmatamento na Amazônia e no Cerrado brasileiros (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Alves pondera que o mercado de dívida sustentável ainda é recente e tem espaço para desenvolvimento e adequações. Como resposta, defende mais transparência. “Seria bem importante, até para operações bilaterais, entre um banco e uma empresa, ter algum nível de transparência. Quais são os indicadores? Quais são as metas? Não são aspectos tão confidenciais e estratégicos assim. Passa um pouco a impressão de que as empresas só divulgam quando há obrigação”.

À reportagem, a Cofco International afirmou que os contratos, os indicadores de desempenho e as vantagens obtidas na aquisição dos empréstimos vinculados a critérios de sustentabilidade são confidenciais. A reportagem também questionou o BBVA, coordenador do consórcio que forneceu e renovou os financiamentos bilionários à Cofco, se os casos de desmatamento ligados a fornecedores de soja da trading não violariam as regras estabelecidas em contrato. O banco declarou apenas não poder fornecer nenhuma informação sobre a relação com seus clientes. Leia as respostas na íntegra aqui.

Regras para diretos e indiretos

Em 2020, a Cofco anunciou a meta de rastrear toda a soja adquirida de forma direta no Brasil até este ano. Não há nenhuma menção ou meta específica relacionada ao monitoramento de fornecedores indiretos nos anúncios dos empréstimos obtidos desde 2019.

Em resposta à reportagem, a Cofco afirmou “embora este tópico seja uma prioridade, os fornecedores indiretos de soja não estão incluídos em nossos últimos KPIs [indicadores-chave de desempenho] de empréstimos”. Leia as respostas na íntegra aqui.

O rastreamento dos indiretos é um dos principais gargalos do setor, já que o maior número de irregularidades ambientais acontecem nessa etapa “oculta” do fornecimento do grão. Ainda que a passos lentos, esse monitoramento já é realidade no setor: a brasileira Amaggi afirma ter 26% de rastreabilidade das aquisições indiretas de soja na Amazônia e no Cerrado e a americana Bunge divulgou ano passado ter atingido 64% do monitoramento de indiretos no Cerrado. A Cofco não divulga a porcentagem de fornecedores indiretos rastreados.


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Este texto foi inicialmente publicado pela ONG Repórter Brasil [Aqui!].

Gigantes do agro compram soja de fazendeiros multados por plantio em terra indígena embargada em MT

Bunge, Cargill, Cofco, Amaggi, ADM do Brasil, Viterra e General Mills adquiriram soja e milho em área em que “lavagem de grãos” é admitida por produtores e servidores públicos

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Por André Campos e Naira Hofmeister, da Repórter Brasil, e Tatiana Merlino, João Peres e Leonardo Fuhrmann, de O Joio e O Trigo 

Um esquema ilegal de escoamento de grãos em Mato Grosso, admitido publicamente por fazendeiros e reconhecido por funcionários públicos, pode ter levado soja e milho plantados sem licenciamento em terras indígenas no estado – e dentro de áreas embargadas pelo Ibama – até armazéns de algumas das maiores empresas globais de commodities.

Uma investigação conjunta da Repórter Brasil e O Joio e O Trigo revela relações comerciais entre sete gigantes do agronegócio (Bunge, Cargill, Cofco, Amaggi, ADM do Brasil, Viterra e General Mills) e fazendeiros autuados pelo Ibama por cultivarem irregularmente dentro das terras indígenas (TIs) Pareci, Utiariti e Rio Formoso, do povo Paresí.

As negociações de soja e milho ocorreram em 2018 e 2019, período em que havia embargo sobre as áreas.

Terras indígenas estão localizadas em uma região de Mato Grosso que concentra grande parte da produção de grãos brasileira (Arte: O Joio e O Trigo)

Contudo, as notas fiscais de venda dos grãos acessadas pela reportagem não identificam as fazendas dentro das TIs como a local da produção – isso inviabilizaria os negócios, já que é ilegal plantar e também comprar produção de terras embargadas. Os documentos indicam outras propriedades agrícolas como a origem dos grãos, mas todas são vizinhas (em alguns casos, coladas) à TI e pertencentes aos mesmos produtores multados pelo Ibama por levarem adiante lavouras irregulares.

É o caso de Eleonor Ogliari, que em maio de 2018 tomou uma multa de quase R$ 9 milhões por manter atividade agrícola na terra indígena Pareci e por impedir a regeneração da mata nativa em 1,6 mil hectares do território. A mesma área foi embargada pelo Ibama semanas depois, em junho de 2018, por estar semeada com milho transgênico – a legislação brasileira veda o cultivo de organismos geneticamente modificados em terras indígenas.

As coordenadas geográficas das autuações do Ibama incidem sobre uma lavoura dentro da TI que é limítrofe à Fazenda Chapada do Sol – propriedade registrada em nome de Eleonor Ogliari e separada do território dos Paresí apenas pela estrada que o margeia. Foi dessa propriedade que Bunge, Cargill e Cofco compraram milho e soja em 2018 e 2019.

Fazenda Chapada do Sol (vermelho), identificada como origem da produção comercializada, é separada de lavoura na TI Pareci (verde) apenas por uma estrada local (Foto: Reprodução)

Ao todo, a reportagem identificou cinco produtores multados pelo Ibama em 2018 por produzirem dentro das terras indígenas e que fizeram vendas durante a vigência dos embargos nas áreas para grandes tradings internacionais de grãos.

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Fontes: autos de infração Ibama, notas fiscais e Cadastro Ambiental Rural

Essa proximidade entre as fazendas que constam nas notas fiscais como a origem da produção e as terras indígenas abre espaço para a chamada “lavagem de grãos”, quando um produtor mistura produção feita em unidades de conservação, áreas griladas ou embargadas com soja e milho plantados e colhidos legalmente, mascarando a procedência da parte irregular da lavoura.

Porém, no caso dos indígenas Paresí, a lavagem de grãos foi admitida publicamente por produtores e funcionários públicos que trabalham na região, em uma série de reportagens do programa Globo Rural, veiculada em março de 2019 – quando já havia embargo sobre a área.

Em um dos vídeos, um fazendeiro “parceiro” dos indígenas nas lavouras de soja dá entrevista: “o trabalho é feito por eles e eu forneço equipamentos e insumos. O resultado é dividido entre nós, meio a meio”, explicou Sérgio Stefanello ao repórter. Ele também dá a entender que os grãos eram declarados como sendo produzidos em suas propriedades fora da TI: “a soja vai sair em meu nome [porque] o tempo da burocracia não é o mesmo tempo da planta, não dá para esperar”, justificou.

Ao Joio e O Trigo, Stefanello confirmou que declarava como sua a produção feita em território tradicional: “Foi uma questão de urgência, a agricultura não espera. Era errado, mas justificável”, acredita.

Em outra reportagem da série, um diálogo entre Carlos Márcio Vieira Barros, da Coordenação Regional da Funai em Cuiabá, e o repórter confirma o esquema para escoar a soja plantada sem licença. O servidor público admite que a manobra “não é legal”. Agora, em entrevista aos autores deste texto, Barros disse não saber avaliar se o esquema era ilegal, mas o descreveu com detalhes: “As tradings como Bunge, Cargill, ADM e Amaggi podem sofrer punições econômicas internacionais se comprarem soja dos índios, então elas não compram [diretamente]. Normalmente, os índios vendem para uma empresa local que dilui, mistura com a [soja] dos fazendeiros, digamos assim, e vai como dos fazendeiros. Os índios são invisíveis na soja”, explica. A íntegra das entrevistas pode ser lida aqui.

Área de lavoura dentro da terra indígena Utiariti, em Mato Grosso, pode estar fornecendo grãos para multinacionais do agronegócio (Foto: Fellipe Abreu/O Joio e O Trigo)

Consultadas pela reportagem, a maioria das empresas garante manter um “rígido controle” sobre a situação socioambiental de seus fornecedores. A General Mills, proprietária de marcas famosas como Yoki, Kitano e Häagen-Dazs, informou que Edson Fermino Bacchi não é mais fornecedor nem “um parceiro de negócios fixo”, “tendo apenas fornecido pontualmente ingredientes para a companhia no passado”.

A Bunge não comentou sua relação com os produtores citados, mas assegurou que seu monitoramento “é capaz de identificar mudanças no uso da terra e no plantio de soja em cada uma das fazendas de onde origina” e que calcula se o volume de soja entregue está de acordo com a capacidade produtiva de uma propriedade, o que reduz o risco de triangulação. Já a Amaggi afirmou usar “imagens de satélites e informações geoespaciais” para fazer a rastreabilidade da origem da soja, mas tampouco comentou sobre os contratos investigados nesta reportagem.

ADM e Viterra não responderam nossas tentativas de contato. Após a publicação desta reportagem, a Abiove – Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais – informou que sua manifestação representava, também, o posicionamento das duas companhias. Cargill e Cofco haviam indicado, anteriormente, que a entidade seria sua porta-voz.

Em sua nota, a Abiove garantiu que a soja produzida “em áreas embargadas por órgãos de fiscalização ambiental e sobrepostas com Terras Indígenas [entre outros] não entra na cadeia produtiva do setor”. Mas, embora faça referência  “ao potencial risco de triangulação” dos casos apontados por esta reportagem, não se pronunciou especificamente a seu respeito, limitando-se a listar medidas que “são utilizadas rotineiramente” por suas associadas para reduzir o problema. A íntegra de todas as manifestações pode ser lida aqui.

Apesar das tecnologias aplicadas pelas empresas e esforços de associações setoriais para reduzir o risco de triangulação, ainda não há uma solução que efetivamente impeça esse procedimento, já que as técnicas de verificação levam em conta a origem declarada da soja pelo produtor.

Também procuramos os fazendeiros mencionados nesta reportagem para ouvir suas considerações. Os advogados de Eleonor Ogliari e José Carlos Acco informaram que seus clientes não comentariam os fatos apurados. Além disso, fizemos inúmeras tentativas de falar com Jacs Tadeu Ventura, Rogério Acco e Edson Fermino Bachi através de telefones e e-mails que constam em cadastros públicos e advogados ligados a eles, mas não foi possível localizá-los. O espaço permanece aberto para suas manifestações.

Duas décadas de produção

Os indígenas Paresí arrendam terras para plantio de grãos em larga escala desde pelo menos 2004, mas nunca conseguiram licenciar suas lavouras – que apesar disso, seguiram produzindo. Um acordo com o governo federal chegou a ser assinado em 2013, prevendo a retirada dos fazendeiros não indígenas do território, para que os indígenas pudessem assumir a produção, mas a área de lavoura precisava ser reduzida. Só que, ao contrário do previsto pelo pacto, a área plantada subiu de 16,1 mil para 16,6 mil hectares – e os não indígenas não arredaram o pé de dentro das TIs.

Em meados de 2018, no governo Michel Temer (MDB), o Ibama multou  produtores rurais e associações indígenas por desmatamento, produção de grãos sem licenciamento ambiental e plantio de transgênicos. A lista traz nomes que coincidem com os de signatários do pacto feito em 2013.

O indígena Arnaldo Zunizakae, liderança entre os sojicultores, diz que sem licenciamento não podem vender diretamente para multinacionais (Foto: Fellipe Abreu/O Joio e O Trigo)

Em 2019, com a chegada de Jair Bolsonaro (na época, PSL, hoje, PL) ao poder, tudo mudou. Logo nos primeiros meses da gestão, os então ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles (hoje deputado federal pelo PL-SP), e da Agricultura, Tereza Cristina (atual senadora pelo PP-MS), participaram da festa da colheita nas terras indígenas – que já estavam embargadas na época – conforme mostrou reportagem de O Joio e O Trigo. Além deles, o governador Mauro Mendes (União Brasil), também aliado de Jair Bolsonaro, esteve no encontro. A superintendência do Ibama em Mato Grosso alertou a direção do órgão em Brasília que a área não poderia receber plantios, mas isso foi ignorado pelas autoridades que compareceram ao evento.

Em setembro de 2019, o então presidente do Ibama Eduardo Fortunato Bim, desembargou as fazendas e cancelou as multas aplicadas, em uma medida vista por servidores como canetada para acomodar interesses de Jair Bolsonaro, que estava à frente da Presidência da República na época e apresentava os Paresí como exemplo de sua política de “integração” dos povos indígenas.

Depois disso, o Ministério Público Federal capitaneou a assinatura de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), abrindo espaço para a legalização da produção agrícola nas terras indígenas Rio Formoso, Pareci, Utiariti, e também nos territórios Tirecatinga e Irantxe, na mesma região – com algumas condições: que os fazendeiros não indígenas se retirassem da área e que houvesse licenciamento ambiental pelo Ibama – o que ainda não aconteceu. 

“A gente ainda não pode comercializar esse produto de maneira legal, ainda existe uma restrição muito grande”, admite Arnaldo Zunizakae, líder dos indígenas sojicultores entrevistado em agosto de 2022 pelo O Joio e O Trigo.

Zunizakae disse que a falta de licenciamento impede exportações, mas não veta vendas domésticas. “Nossa soja é comercializada aqui [no Brasil]. Essas empresas não podem exportar, se embarcar em um navio, a Bunge vai ter problema, a Amaggi vai ter problema, a Cargill vai ter problema. Eles sabem que eles vão ser punidos severamente por estar comprando soja de terra indígena. É mais uma política trabalhada para impedir que o indígena possa desenvolver agricultura nas suas terras. Infelizmente”, critica.

Já Ronaldo Zokezomaiake, um ex-presidente da cooperativa Copihanama, criada em 2018 e responsável pelo plantio de soja dentro dos territórios, diz que mesmo as vendas internacionais estão acontecendo – apesar da falta de licenciamento do Ibama. “Por enquanto, nós ainda estamos usando algumas empresas para fazer essa ponte [comercial]. O que nós produzimos aqui, entregamos para as empresas que nos financiam e daí elas dão continuidade, mandam para fora, para exportação. Agora, quando tivermos esse licenciamento, nós mesmos podemos fazer diretamente essa comercialização”, explica.

Por meio da Lei de Acesso à Informação, a reportagem perguntou ao Ibama se foi feita fiscalização na área após o embargo, incluindo o monitoramento do destino da produção, mas a autoridade ambiental informou que nada constava em sua base de dados. Tampouco houve sucesso nas tentativas de contato com a assessoria de imprensa. O espaço permanece aberto.

Atualização: Esta reportagem foi atualizada em 29/05/2023, às 14:30, para incluir a informação, enviada pela Abiove após a publicação, de que sua manifestação representava, também, o posicionamento de ADM e Viterra.


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Este texto foi originalmente publicado pela “Repórter Brasil” [Aqui!].

China, Holanda e França estão importando soja com risco de desmatamento ilegalmente na Mata Atlântica

China, Holanda e França estão importando soja com risco de ser cultivada em terras desmatadas ilegalmente na Mata Atlântica no Brasil, segundo análise da Trase e SOS Mata Atlântica

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Por Vivian Ribeiro, Luís Fernando Guedes Pinto e Tiago Reis

O desmatamento para limpar terras para plantações de soja está aumentando na Mata Atlântica do Brasil, apesar da proteção legal. Nos últimos cinco anos, mais de 30.000 hectares (ha) de floresta nativa e 50.000 ha de campos naturais foram convertidos em plantações de soja, segundo análise da Trase e do grupo de conservação SOS Mata Atlântica.

A Mata Atlântica corre de norte a sul ao longo das regiões orientais do Brasil, Argentina e Paraguai. Originalmente, era a segunda maior floresta tropical do mundo depois da Amazônia, mas apenas cerca de um quarto dela permanece como resultado de séculos de exploração madeireira, urbanização e expansão agrícola (veja o mapa).

Mata Atlântica Brasil

De acordo com a Lei da Mata Atlântica  promulgada em 2006, qualquer desmatamento no bioma é proibido com poucas exceções. Apesar disso, o desmatamento continua devido à forte demanda global por commodities agrícolas e ao fraco monitoramento e fiscalização do governo.

A análise da Trase dos dados do MapBiomas mostra que cerca de 3,2 milhões de hectares de vegetação nativa na Mata Atlântica foram desmatados para novas terras agrícolas ou pastagens entre 2008 e 2021 – 14% para o cultivo de soja (448.000 hectares). Esses números provavelmente estão subestimados porque são baseados nos limites oficiais do bioma Mata Atlântica, que são menores do que os limites da Lei da Mata Atlântica. Áreas adicionais cobertas pela lei que não estão incluídas no bioma oficial incluem fronteiras de desmatamento de soja nos estados da Bahia, Piauí e Mato Grosso do Sul.

China e UE são os principais mercados de exportação da soja da Mata Atlântica

Dados da Trase Supply Chainsmostram que a Mata Atlântica produziu quase 35 milhões de toneladas de soja em 2020 – 29% da produção anual de soja do Brasil. A China importou 55% da soja da Mata Atlântica, enquanto 25% foi para o mercado interno do Brasil. Os 20% restantes foram exportados para países como Holanda, França e Coréia do Sul. A soja importada pela Holanda provavelmente será reexportada para outros países da UE. Dados da Trase mostram que 11% da soja da Mata Atlântica foi comercializada pela Cargill, 10,6% pela Bunge e quase 5% pela COFCO.

A produção de soja ocupou cerca de 10,7 milhões de hectares de terras na Mata Atlântica. A Trase calcula que mais de 22.000 ha de soja colhida em 2020 foram plantados em terras na Mata Atlântica que foram desmatadas nos últimos cinco anos – um aumento de 15.000 ha em 2013. Grande parte dessa terra foi convertida diretamente para plantações de soja, provavelmente contrariando a Lei da Mata Atlântica (ver figura).

O desmatamento da soja na Mata Atlântica está aumentando

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Desmatamento de soja por ano no bioma Mata Atlântica, 2013-2020 (Fonte: Trase Supply Chains)

Cerca de 46% da soja com exposição ao desmatamento da Mata Atlântica foi exportada para a China em 2020, enquanto 44% foi consumida no Brasil. O agronegócio estatal chinês COFCO foi responsável por 14% da exposição ao desmatamento, enquanto os comerciantes americanos Bunge representaram 7% e a Cargill cerca de 5%.

Embora a exposição da UE ao desmatamento da soja da Mata Atlântica seja muito menor, cerca de 3%, o bloco concordou recentemente com uma legislação que proíbe a importação de soja e outras commodities agrícolas cultivadas em terras desmatadas. Os comerciantes nos países consumidores serão obrigados a realizar a devida diligência em suas cadeias de abastecimento para demonstrar que estão livres de desmatamento.

O desmatamento contínuo corre o risco de minar os esforços de conservação. Em 2022, a ONU declarou a Mata Atlântica como um dos dez ‘ Carro-chefe da Restauração Mundial ‘ sob a bandeira de sua Década de Restauração de Ecossistemas. Cerca de 700.000 ha já foram restaurados com a meta de atingir 1 milhão de hectares até 2030 e 15 milhões até 2050.

Ver artigo Soja também desmata Mata Atlântica de Luís Fernando Guedes Pinto e Vivian Ribeiro no Valor Econômico.


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Este texto originalmente escrito em inglês foi publicado pela Trase Insights [Aqui!].

Sodrugestvo: comerciante de soja está ligado ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado e às finanças russas

A Sodrugestvo é um grupo agroindustrial luxemburguês de propriedade russa.  Embora menos conhecida do que os principais comerciantes de soja, ela expandiu significativamente seu fornecimento, processamento e comercialização de soja brasileira nos últimos anos. A empresa está ligada a diversas questões sociais e ambientais.

Baixe o PDF [Aqui!]

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Principais conclusões

  • O Grupo Sodrugestvo é um exportador brasileiro de soja, mas menos reconhecido que os traders de soja do ABCD — ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus.Embora Rússia, China e Turquia sejam os principais países de destino, o grupo também fornece soja para países europeus e, portanto, precisará cumprir a futura regulamentação europeia antidesmatamento. Além da comercialização e processamento de grãos, a empresa atua em infraestrutura e logística.
  • A subsidiária brasileira Aliança Agrícola do Cerrado fornece soja dos biomas Amazônia e Cerrado para ADM, Bunge, Cargill e CofcoNo Brasil, a empresa opera duas plantas de esmagamento e capacidade de armazenamento de mais de 275.000 toneladas. A empresa compra principalmente de Minas Gerais, Mato Grosso e Pará, sendo os dois últimos estados os mais expostos ao risco de desmatamento da Amazônia e do Cerrado. Apesar da alta capacidade de armazenamento de carbono, a vegetação do Cerrado é apenas ligeiramente protegida pelo Código Florestal do Brasil e pela futura regulamentação de desmatamento da UE.
  • A Aliança está ligada ao desmatamento ilegal da Amazônia apesar de ser signatária da Moratória da Soja . Uma amostra de 73 fornecedores de soja da Aliança, bem como estudos de caso existentes, sugere que a empresa está ligada ao desmatamento ilegal nas propriedades de vários de seus fornecedores de soja na Amazônia. A Bunge continuou comprando da Aliança, apesar das alegações.
  • A Sodrugestvo pode ser controversa em processos de due diligence . A associação indireta à guerra Ucrânia-Rússia e links para bilionários russos sancionados (pela Ucrânia) podem trazer riscos reputacionais para seus compradores, incluindo Cargill, Bunge, ADM e Cofco.
  • As instituições e bancos da UE que estão ligados à Sodrugestvo podem enfrentar riscos financeiros, variando de reputação a risco legal.O Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) e vários grandes bancos comerciais europeus são grandes financiadores do Grupo Sodrugestvo. A Comissão Europeia, já ativa em sanções contra a Rússia, e 71 países que financiam o BERD, enfrentam riscos de reputação ao conceder um empréstimo de US$ 130 milhões ao grupo de propriedade russa. Além disso, os comerciantes de commodities podem receber multas por estarem vinculados a casos de desmatamento sob o próximo Regulamento de Desmatamento da UE.

A Sodrugestvo expandiu sua aquisição, processamento e comercialização de soja no Brasil

Sodrugestvo, conglomerado russo com sede em Luxemburgo: menos reconhecido do que os comerciantes de soja ABCD

Nos últimos anos, o grupo agroindustrial privado Sodrugestvo expandiu significativamente seu fornecimento, processamento e comercialização de soja brasileira, mas a empresa é menos conhecida em comparação com os comerciantes de soja do ABCD.Em 2022, o grupo exportou mais de 1 milhão de toneladas métricas (MT) de derivados de soja do Brasil (Figura 1). Embora muito se saiba sobre as principais tradings de grãos do mundo, reconhecidas coletivamente sob o acrônimo “ABCD” (ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus), pouco se sabe sobre o Grupo Sodrugestvo.

O conglomerado Sodrugestvo foi constituído em Luxemburgo em 1994, mas é propriedade do nacional russo e ex-oficial do exército soviético Alexander Lutsenko e sua esposa Natalia, listados como bilionários pela Forbes . O grupo integrado verticalmente é grande no processamento e comercialização de soja e colza, mas também opera em infraestrutura e logística (por exemplo, terminais marítimos, vagões, transporte rodoviário, instalações de armazenamento) e fabricação de farinha de peixe e mistura composta de proteína animal. O grupo Sodrugestvo tem seus próprios terminais no porto do Mar Báltico de Kaliningrado, estoques de vagões e plantas de processamento no Brasil, Rússia, Bielorrússia, Turquia e Dinamarca. Em 2012, os proprietários russos venderam (avaliação de US$ 2 bilhões) 10%  da Sodrugestvo para a empresa japonesa Mitsui & Co., mas comprou de volta as ações em 2016.

Figura 1: Principais grupos exportadores de soja brasileira 2022

Fonte: Profundo, com base nos dados de embarque de janeiro a dezembro de 2022, para os códigos SH 1201 (soja) e 2304 (torta/farelo de soja). Notas: *Incl. Gavilon, que a Viterra adquiriu em outubro de 2022; A Glencore detém quase 50% da Viterra. ** O Grupo Sodrugestvo inclui aqui a Sodrugestvo Agronegocios e a Aliança Agrícola do Cerrado.

O grupo começou como trader de grãos no Brasil em 2009 e integrou suas operações brasileiras sob a subsidiária Aliança Agrícola do Cerrado . A Sodrugestvo detém atualmente 100% da Aliança Agrícola do Cerrado, enquanto inicialmente a Sodrugestvo detinha 61% da empresa, e a cooperativa Carol (Cooperativa dos Agricultores da Região de Orlândia), fundada em 1963 em Orlândia (São Paulo, Brasil), possuía 39 por cento. A Sodrugestvo é a acionista controladora da Carol Sodru com 55 por cento , enquanto a cooperativa Carol tem uma participação de 45 por cento. O Grupo Sodrugestvo opera assim sob várias denominações no transporte, incluindo Aliança Agrícola do Cerrado, Carol Sodru, Sodrugestvo Agronegocios e Sodrugestvo do Brasil.

Além do processamento e comercialização de soja no Brasil, a empresa também é uma das principais exportadoras de commodities agrícolas do Paraguai (Sodrugestvo Paraguai). Alegadamente é o maior operador de portos fluviais (Sarcom ) no Paraguai. Na Rússia (Kaliningrado), a empresa possui um grande complexo de processamento , com três plantas de esmagamento, uma refinaria de petróleo, uma planta de concentrado de proteína de soja e moinhos de farinha. Também na Bielorrússia , a empresa opera uma planta de esmagamento, enquanto na Turquia , o grupo possui uma refinaria de óleo vegetal. A Sodrugestvo abastece os mercados da Europa do Norte, Central e Oriental, Ásia, Mediterrâneo, Oriente Médio e América Latina.

A CRR compartilhou uma versão preliminar deste relatório com a Sodrugestvo em março de 2023, mas a empresa não forneceu nenhum comentário sobre o relatório.

Com a Europa como destino de exportação, a Sodrugestvo estará sujeita ao Regulamento da UE

ADM e Bunge Europe adquirem diretamente da subsidiária da Sodrugestvo, a Aliança Agrícola do Cerrado

Os operadores de soja precisarão cumprir o próximo Regulamento de Desmatamento da UE. Em 6 de dezembro de 2022, a Comissão Europeia, o Conselho e o Parlamento chegaram a um  acordo político  sobre o novo regulamento sobre cadeias de abastecimento livres de desmatamento. A lei exige que os operadores de commodities, incluindo soja, precisem garantir que todos os produtos de soja que vendem no mercado da UE não possam mais estar vinculados ao desmatamento global e à degradação florestal a partir de 31 de dezembro de 2020 (“data limite”). A próxima fase na implementação do regulamento livre de desmatamento da UE é o período de transição de 18 a 24 meses, previsto para começar no primeiro semestre de 2023. Durante esse período, grandes comerciantes e operadores de commodities precisarão se adaptar e se preparar para a conformidade com a lei. Com base em dados comerciais para países europeus, particularmente a Bunge e a ADM precisarão garantir que a soja proveniente do Grupo Sodrugestvo esteja em conformidade com o Regulamento da UE.

Embora Rússia, China e Turquia sejam os principais países de destino das exportações brasileiras de soja do Grupo Sodrugestvo, também fornece volumes de soja para países europeus, por meio da ADM e da BungeEntre janeiro de 2017 e dezembro de 2022, o Grupo embarcou diretamente produtos de soja (soja e farelo de soja) para Espanha (49.888 MT), Lituânia (31.500 MT), Polônia (1.932 MT), Luxemburgo (122.500 MT do Paraguai) e Holanda (3.000MT). Desde janeiro de 2021, após a data-limite adotada recentemente no Regulamento de Desmatamento da UE, a Holanda e a Espanha continuam sendo os países de destino, com a Bunge Espanha (2.388 MT de soja) e a ADM Holanda (3.000 MT de farelo de soja) como principais destinatários. Em 2021, a Sodrugestvo também embarcou 98.500 toneladas de volumes de soja do Paraguai para Luxemburgo, mas as empresas que receberão as importações são desconhecidas. Com destinos fora da Europa, Cofco e Cargill também recebem produtos de soja do Grupo Sodrugestvo (Figura 2), especificamente de sua subsidiária brasileira Aliança Agrícola do Cerrado.

Figura 2: Destinatários de produtos de soja das subsidiárias brasileiras da Sodrugestvo, 2017 a 2022

Fonte: Profundo, com base nos dados de embarque de janeiro de 2017 a dezembro de 2022 para os códigos SH 1201 (soja) e 2304 (torta/farelo de soja).

Sodrugestvo potencialmente controverso em processos de due diligence

Além dos requisitos de abastecimento sem desmatamento, outras iniciativas legislativas futuras exigem processos de due diligence mais rigorosos nas cadeias de suprimentos, o que pode influenciar o (futuro) abastecimento da Sodrugestvo.Uma dessas iniciativas é a Diretiva da UE em Due Diligence de Sustentabilidade Corporativa (CSDD), que pode envolver desafios para compradores que compram de um grupo de propriedade de bilionários russos sancionados (pela Ucrânia). De acordo com a proposta de diretiva de 2022, as empresas de commodities precisam estabelecer processos de due diligence para identificar e avaliar os direitos humanos e os riscos ambientais em suas cadeias de suprimentos e tomar as medidas adequadas para prevenir ou mitigar impactos adversos e monitorar a eficácia dessas ações. O Grupo Sodrugestvo pode estar sob escrutínio mais minucioso no processo de due diligence. Embora o grupo não esteja diretamente ligado à guerra da Rússia contra a Ucrânia, a Ucrânia sancionou os proprietários do Grupo Sodrugestvo, Alexander Lutsenko , um ex-oficial do exército soviético, e sua esposa Natalia Lutsenko ., já que o Grupo Sodrugestvo supostamente gerou uma fonte significativa de receita para o governo russo. Segundo o governo ucraniano, por meio de suas atividades comerciais, o casal Lutsenko é “responsável pelo apoio material ou financeiro para ações que minam ou ameaçam a integridade territorial, a soberania e a independência da Ucrânia”. No entanto, a Sodrugestvo e seus proprietários não estão sujeitos a sanções internacionais.

Estar indiretamente associado à guerra Rússia-Ucrânia e vinculado a bilionários russos sancionados também pode envolver riscos de reputação para os comerciantes de commodities vinculados Cargill, Bunge, ADM e Cofco . Sob a crescente sensibilidade para laços comerciais estreitos entre autoridades europeias e empresas russas, no ano passado, a relação entre uma autoridade luxemburguesa e a Sodrugestvo tornou-se pública. Alegadamente , um membro do Conselho de Estado do Luxemburgo fez parte do conselho de administração da Sodrugestvo, mas renunciou em março de 2022 devido à controvérsia em torno desta posição. Há relatos sobre os laços estreitos entre Sodrugestvo e o governo russo, incluindo especulações que a vice-ministra russa da Agricultura, Oksana Luth, promoveu os interesses da Sodrugestvo. Finalmente, Lutsenko supostamente nomeou ex-oficiais do exército russo como executivos da Sodrugestvo em sua estratégia de contratação. Sob maior escrutínio devido à guerra russo-ucraniana, essas associações podem envolver riscos de reputação para empresas ligadas à Sodrugestvo.

Fontes da Sodrugestvo dentro dos vulneráveis ​​biomas brasileiros do Cerrado e Amazônia

A subsidiária do Grupo, Aliança Agrícola do Cerrado, obtém principalmente dos biomas Amazônia brasileira e Cerrado. Menos conhecido que a Amazônia, o Cerrado é um grande bioma de savana tropical que cobre mais de 20% do Brasil e que registra altas taxas de desmatamento desde 2000. Dados do Trase 2020 mostram que as principais regiões e municípios produtores brasileiros da Sodrugestvo estão em Minas Gerais , Mato Grosso e Pará (Figura 3), com os dois últimos estados mais expostos ao risco de desmatamento do Cerrado e da Amazônia. Mais de 60% de toda a produção de soja ligada ao Grupo Sodrugestvo parece ocorrer nesses 10 principais municípios.

Figura 3: Top 10 maiores municípios produtores de soja Sodrugestvo (2020)

Fonte: Pesquisa Reação em Cadeia, derivada da Trase Earth , com dados de produção combinados de 2020 sob os nomes de Sodrugestvo/Aliança, Carol Sodru e Sodrugestvo Agronegocios.

A empresa diz possuir “capacidade de armazenamento de mais de 275 mil toneladas em suas filiais localizadas nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Goiás” e ainda possui “parcerias com outros armazéns, para receber e armazenar grãos durante a safra”. Em 2011, a Sodrugestvo adquiriu 100% da Liders Armazens Gerais, uma das maiores empresas privadas brasileiras de armazenamento e transbordo de grãos, com 15 armazéns relatados nas regiões agrícolas de crescimento mais rápido do Brasil. Além disso, a Sodrugestvo Brasil opera duas plantas de esmagamento, localizadas em São Joaquim da Barra (São Paulo) e Bataguassu (Mato Grosso do Sul). As operações e infraestrutura da empresa no Brasil são visualizadas na Figura 4 abaixo.

Figura 4: Locais e infraestrutura da Sodrugestvo no Brasil

Fonte: AidEnvironment, com base no site da Sodrugestvo Avaliado em janeiro de 2023. Notas: A Sodrugestvo não é proprietária dos portos, ela usa os terminais. Não há informações públicas sobre a localização dos “armazéns em parceria ou alugados” da empresa.

Apesar da alta capacidade de armazenamento de carbono, a vegetação do Cerrado é insuficientemente protegida pelas leis brasileiras e da UE

O C errado é uma pastagem arborizada que fornece serviços ecossistêmicos críticos para o mundo.Ele abriga uma rica biodiversidade, estabiliza o clima regional e regula as bacias hidrográficas que fornecem  40%  da água doce do Brasil. Ele  contém  5% de toda a biodiversidade do mundo, com 1.600 espécies animais e 12.000 espécies vegetais — das quais quase metade são  encontradas  apenas no Cerrado. Seus sistemas radiculares profundos atuam como um sumidouro crítico de carbono,  estimado  para armazenar 13,7 bilhões de toneladas de carbono no subsolo.

Com a exclusão de “outras terras arborizadas” do escopo do Regulamento de Desmatamento da UE, mais de 70% da vegetação nativa do Cerrado não seria protegida pelo Regulamento . Grande parte dos produtos de soja e carne bovina que chegam ao mercado europeu são produzidos no Cerrado brasileiro e estão ligados ao desmatamento. Em 2016, 77% do desmatamento associado à soja importada para a UE teve origem no Brasil, sendo a maior parte do Cerrado ( 70% ) e o restante da Amazônia (7%). Mais recentemente, um total de 734.010 hectares (ha)foram desmatados no Cerrado entre agosto de 2019 e julho de 2020, dos quais 28% (207.813 ha) ocorreram em fazendas com áreas plantadas com soja.

O Cerrado também carece de proteção integral pela legislação brasileira. De acordo com o Código Florestal Brasileiro e dependendo da localização, 65 a 80 por cento das propriedades agrícolas baseadas no Cerrado podem ser desenvolvidas e limpas de vegetação nativa com licenças ambientais aprovadas.

Aliança ligada ao desmatamento ilegal da Amazônia apesar da Moratória da Soja

A Aliança Agrícola do Cerrado, subsidiária da Sodrugestvo, é signatária da Moratória da Soja no Brasil, mas há evidências de desmatamento nas propriedades de seus fornecedores de soja na AmazôniaEmbora a Aliança tenha se comprometido a não comprar soja de propriedades onde a floresta amazônica foi desmatada após julho de 2008, evidências mostram que a Aliança Agrícola do Cerrado comprou soja em 2019 de um produtor rural multado em R$ 12 milhões (aproximadamente US$ 2,3 milhões) por desmatamento ilegal e Pegando fogo. O proprietário do complexo agrícola Formoso, na Amazônia brasileira, está ligado ao plantio de soja em áreas embargadas e ao descumprimento da Moratória Amazônica. Na época, Cargill, Bunge e Cofco adquiriam soja da Aliança Agrícola do Cerrado, que por sua vez adquiria soja do complexo agrícola Formoso. A Moratória proíbe a compra ou exportação de grãos cultivados em áreas da Amazônia desmatadas após julho de 2008. Além da Aliança, também a Cargill, Bunge e Cofco são signatárias da Moratória da Soja.

As investigações do Bureau of Investigative Journalism, Repórter Brasil e Unearthed levantaram preocupações sobre uma possível brecha no sistema de monitoramento da Moratória que permite a lavagem de soja . No caso, tratava-se da venda de soja de uma fazenda “suja” para uma fazenda “limpa” em um aglomerado de propriedades do mesmo proprietário, aqui o Complexo Agrícola Formoso que fica em Marcelândia (Mato Grosso) e é formado pela Agromaster /Fazendas Formoso/Formoso II/Mariana. Além disso, enquanto o produtor rural em questão estava supostamente em uma “ lista negra” de fornecedores acusados ​​de desmatamento ilegal, a soja das fazendas ainda entrou na cadeia produtiva de pelo menos duas grandes empresas, a chinesa Fiagril e a subsidiária da Sodrugestvo, a Aliança.

Em resposta às alegações, a Bunge afirmou que não compra soja da Aliança desde 2017, o que é contrariado pela análise dos dados comerciais da CRR. Por exemplo, registros de embarque mostram que em 20 de maio de 2021, a Bunge adquiriu 2.388 toneladas de soja da Aliança no Brasil, apenas um dia após a publicação das acusações no artigo .

Amostra de 73 fazendas de soja fornecedoras da Aliança mostra 830 ha de desmatamento entre 2018-2022

Uma amostra de 73 fazendas fornecedoras de soja para a Aliança Agrícola do Cerrado mostra 830 ha de desmatamento de vegetação nativa entre 2018-2022 nos biomas Amazônia e Cerrado do Brasil. A derrubada ocorreu em 9 das 73 fazendas da amostra, todas localizadas no estado de Mato Grosso (MT), que juntas cobrem uma área de fazenda de 18.177 ha (Figura 5). Ao longo de 2018 e 2019, essas nove fazendas forneceram pelo menos 1.185 toneladas de soja para a subsidiária brasileira da Sodrugestvo. Qualquer desmatamento na Amazônia que esteja vinculado à produção de soja viola a Moratória da Soja voluntária. A partir da data limite, 31 de dezembro de 2020, o Regulamento de Desmatamento da UE se aplicaria se a soja fosse enviada para a Europa. Mesmo o desmatamento legal da Amazônia que esteja em conformidade com a legislação brasileira será, a partir dessa data, não conforme com a legislação europeia.

Quarenta e seis por cento (383 ha) do desmatamento total nas nove fazendas pode ser considerado ilegal, uma vez que se enquadra nas reservas legais do Brasil (Figura 5).De acordo com o Código Florestal do Brasil, 20% das propriedades rurais na Amazônia Legal poderiam ser legalmente desmatadas com as devidas licenças ambientais. Mas isso não vale para as reservas legais e Áreas de Preservação Permanente (APP), que devem estar livres de desmatamento. Existem algumas exceções menores que permitem o uso restrito de acordo com a lei brasileira, mas é altamente improvável que essa atividade se aplique a todos os 383 ha de desmatamento nas reservas legais. Além disso, todo desmatamento legal e ilegal na Amazônia permanece incompatível com o compromisso da Aliança com a Moratória da Soja e com o próximo Regulamento de Desmatamento da UE.

Figura 5: Amostra de fornecedores de soja 2018-2019 de Mato Grosso para a Aliança com desmatamento

Fonte: AidEnvironment, com base nas transações de soja 2018-2019, desmatamento 2018-2022 Prodes e DETER (alertas). Nota: Embora as transações de soja tenham ocorrido em 2018-2019, os comerciantes costumam ter relacionamentos de longo prazo com fornecedores de soja.

A fazenda Sitio Sante Fe é um caso particular de risco de não conformidade vinculado à Bunge e à ADM.A fazenda desmatou 98 ha de floresta tropical amazônica no município de Marcelândia, no Mato Grosso, entre 2020-2022 (Figuras 5 e 6), com quase todo o desmatamento (94%) em reservas legais e, portanto, provavelmente ilegais. A última derrubada ocorreu em novembro de 2022 por incêndio e, portanto, não estaria em conformidade com o Regulamento de Desmatamento da UE. A fazenda forneceu pelo menos 120 MT de soja para a Aliança Agrícola do Cerrado em Matupá (MT) em 2019. Mas como os comerciantes costumam ter relacionamentos de longo prazo com fornecedores, a fazenda provavelmente ainda fornece a Aliança. Essas relações são um risco para a Bunge e a ADM, já que a subsidiária da Sodrugestvo está fornecendo soja para os destinos europeus desses compradores.

Figura 6: Fazenda ligada à Aliança Sítio Santa Fé mostra desmatamento ilegal da Amazônia por incêndio em 2022

   agosto de 2022                                                                                            novembro de 2022

Fonte: AidEnvironment, com base em alertas de desmatamento, dados de cadastro rural (Sigef, SNCI), CAR no Mato Grosso, Imagens ©2023 Planet Labs Inc.

Análise financeira: Bancos e instituições da UE ligadas à Sodrugestvo

Instituições envolvidas em instrumentos financeiros vinculados à Sodrugestvo podem enfrentar diversos riscos financeiros, variando de risco de reputação a risco legal. O Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) e vários grandes bancos comerciais europeus são importantes financiadores. Financiadores de empresas na cadeia de suprimentos da Sodrugestvo enfrentam riscos financeiros, pois podem estar ligados à violação do Regulamento de Desmatamento da UE. Além disso, eles podem enfrentar riscos financeiros por estarem vinculados a um grupo que gera recursos financeiros para o governo russo, o que pode violar a proposta de Diretiva da UE sobre Due Diligence de Sustentabilidade Corporativa. Para investidores e bancos ativos nos Estados Unidos e na UE, o elemento de vínculos financeiros com a Rússia por causa da guerra contra a Ucrânia pode ser um risco.

Em 2020, o BERD concedeu um grande empréstimo à Sodrugestvo.O valor do empréstimo é de US$ 130 milhões. O BERD diz que o financiamento será usado “para aumentar a cooperação transfronteiriça e beneficiar os agricultores locais, fornecimento, transporte, processamento e distribuição de produtos para alimentação animal”. O ERBD forneceu USD 85 milhões, e USD 45 milhões foram fornecidos por um sindicato de bancos comerciais. O acordo de empréstimo não é visível como um empréstimo nas contas de 2021 (30 de junho) da Sodrugestvo, mas parece ser contabilizado como uma garantia extrapatrimonial. Uma garantia financeira é um acordo que garante que uma dívida será reembolsada a um credor por outra parte se o mutuário não pagar. O BERD é propriedade de 71 países, bem como da União Europeia e do Banco Europeu de Investimento.

As contas anuais do Grupo Sudrogestvo em 30 de junho de 2021 (arquivadas em Luxemburgo) também incluem dados sobre grandes garantias extrapatrimoniais de instituições financeiras europeias. Em 2021, grandes credores como ING (mais de US$ 90 milhões), Unicredit (US$ 55 milhões), Société Général (US$ 71,4 milhões), ABN Amro (US$ 6 milhões), Credit Suisse (adquirido pelo UBS; US$ 15 milhões) e O Crédit Agricole Indosuez (USD 44 milhões) estava ligado à Sodrugustvo.

Grandes comerciantes de soja podem enfrentar risco de acesso ao mercado devido à sua exposição à Sodrugestvo.Os compradores da cadeia de suprimentos da Sodrugestvo são Cargill, Bunge, ADM e Cofco. Essas empresas e seus financiadores enfrentam múltiplos riscos financeiros decorrentes de seus laços comerciais com a Sodrugestvo. Como as toneladas de soja e farelo de soja compradas por essas empresas da Sodrugestvo não são relevantes no contexto da Cargill, Bunge, ADM e Cofco, elas poderiam facilmente ser substituídas por compras de outros fornecedores. Essas empresas podem ser confrontadas com o risco de acesso ao mercado, pois seus clientes, como produtores de ração animal e empresas de bens de consumo (FMCGs) em movimento rápido, podem mudar a direção de seu fornecimento. Por exemplo, eles podem mudar para concorrentes como Amaggi e Louis Dreyfus, que não são mencionados como clientes da Sodrugestvo.

Quatro bancos estão emprestando grandes somas aos agricultores nas regiões de risco florestal relevantes. Esses agricultores podem ser membros da cooperativa que detém 45% da joint venture Carol-Sodru. A Sodrugestvo é a acionista controladora com 55 por cento. Ao lado dos grandes traders de soja, que são clientes da Aliança Agrícola do Cerrado, subsidiária 100% brasileira da Sudrogestvo, os financiadores da acionista minoritária de 45% Carol (Cooperativa dos Agricultores da Região de Orlândia) na joint venture Carol-Sodru também enfrentam riscos financeiros. A cooperativa é formada por agricultores produtores de soja. Esses agricultores são financiados por seu próprio fluxo de caixa, bem como por empréstimos, que são fornecidos principalmente por meio do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR). Embora os bancos que fornecem esses empréstimos possam ser identificados, os beneficiários dos empréstimos não podem. Todos os principais bancos do Brasil atuam nesse sistema, inclusive diversos bancos estrangeiros, podendo, portanto, ter vínculos indiretos com produtores vinculados à cooperativa Carol ou à Aliança Agrícola do Cerrado. Ao investigar os doadores do Sistema Nacional de Crédito Rural e com foco na UE e nos Estados Unidos, Santander, Rabobank, John Deere Bank e CNH Industrial Capital são os principais financiadores. Das grandes quantias que Rabobank, John Deere e CNH Industrial Capital estão emprestando por meio do sistema, 70% ou mais são fornecidos a fazendas em regiões de risco florestal. Ajustado para financiamento às atividades de soja, os bancos estão emprestando um total de US$ 1.780 milhões a produtores que atuam no mercado de soja em regiões de alto risco de desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

Figura 7: Bancos financiando o Sistema Nacional de Crédito Rural (2018-2022)

Fonte: Chain Reaction Research, baseado em Forests & Finance. Os números de valor são ajustados para exposição ao cultivo de soja.

Os financiadores podem ser confrontados com os riscos associados ao financiamento de empresas que ajudam a Rússia a pagar por sua guerra contra a Ucrânia, e as empresas podem enfrentar multas por violações de desmatamento. A implementação do Regulamento da UE levará tempo e as instituições financeiras ainda estão excluídas do Regulamento de Desmatamento da UE. A partir de 2024, o cumprimento do desmatamento na cadeia produtiva será “checado” e as empresas “infratoras” terão que pagar multas. Um risco maior pode vir de instituições financeiras vinculadas a empresas que geram receita financeira para o governo russo. Se as sanções contra o governo russo se tornarem mais rígidas, as empresas que sabem que financiam indiretamente a guerra contra a Ucrânia podem enfrentar o risco de multas legais nos próximos anos. Com a Comissão da UE já ativa em sanções contra a Rússia,


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Multinacionais compraram soja de família com área embargada e incendiada no Mato Grosso

Cargill, Amaggi e Cofco compram soja de família com área embargada e incendiada no Mato Grosso.  Bunge também comprou milho dos Lucion, que dividiram propriedade em vários cadastros e vêm aumentando área plantada com oleaginosa dentro do embargo a cada ano

soja

Por Naira Hofmeister e André Campos para o Repórter Brasil

Se a produtividade da lavoura de soja da família Lucion tiver seguido a média da safra 2022/23 no Mato Grosso (60 sacas por hectare), apenas o que foi plantado em uma parcela de 235 hectares das fazendas Santa Ana, em Cláudia, no Mato Grosso, pode lhes render um valor próximo de R$ 2 milhões, considerando a cotação do grão em março, no estado.

Mesmo descontados os investimentos em fertilizantes, agrotóxicos e maquinário, o negócio parece estar valendo a pena, porque a família vem aumentando a área plantada dentro desta parcela de 235 hectares. Na safra 2018/2019, apenas parte da área foi cultivada, segundo dados do SojaMaps – um programa de monitoramento via satélite mantido pela Universidade Estadual do Mato Grosso. Mas a lavoura foi crescendo até cobrir, segundo o programa, toda a extensão da parcela na safra colhida no ano passado. Analistas consultados pela Repórter Brasil confirmaram que na safra atual, 2022/23, a área foi  inteiramente coberta pela soja outra vez.

Seria apenas um bom negócio se a produção nesta faixa da propriedade não fosse ilegal. Toda a soja que cobre os 235 hectares da parcela está em área embargada, onde os órgãos ambientais flagraram desmatamento feito sem autorização. Pela infração, a família Lucion está sendo investigada pelo Ministério Público Federal e pelo MP do Mato Grosso. A multa imposta pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente pela derrubada da porção de floresta amazônica que antes ocupava o terreno, é de mais de R$ 1 milhão; já a penalidade por descumprimento do embargo, constatado em 2021, passa de R$ 1,7 milhão. Se os processos prosperarem, o valor pode ser multiplicado.

Imagens de satélite mostram floresta que cobria parcela de 235 hectares em 2017 e foi desmatada para abrir lugar à soja (Imagem PLanet Explorer Imagery / Mighty Earth)

O plantio da família Lucion em área embargada coloca sob suspeita a venda de soja para Cargill (de 2019 a 2022), Amaggi e Cofco (2019), destinada a armazéns das empresas nos municípios de Sinop e Cláudia. A Bunge, por sua vez, comprou milho dos Lucion em 2019 – a empresa afirma que “não mantém relação comercial com as áreas citadas” (veja a íntegra), mas a Repórter Brasil obteve dados de documentos fiscais que atestam os negócios com a Fazenda Santa Ana.

Em seus esclarecimentos, as tradings dizem que no momento de suas compras o produtor não estava incluído em nenhuma lista restritiva e que suas políticas de verificação de fornecedores impedem compras de áreas embargadas – no caso dos Lucion, a área da fazenda é maior que os 235 hectares em que é proibido plantar, e, portanto, a fazenda comportaria também produção regularizada.

As empresas são signatárias da Moratória da Soja, que impõe o compromisso de não adquirir nem financiar soja cultivada em áreas desmatadas na Amazônia. Segundo a Abiove, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais, que integra o Comitê de Auditoria da iniciativa, desde o início de 2021 há áreas da fazenda bloqueadas para venda – o que foi insuficiente para impedir os negócios feitos até o ano passado. A íntegra das notas enviadas à Repórter Brasil pode ser lida aqui.

A família Lucion foi procurada para comentar o caso. Vinícius Lucion, um dos herdeiros de Clóvis Lucion, o patriarca responsabilizado pela Sema-MT pelo desmate e descumprimento do embargo, disse, informalmente, desconhecer que a área embargada ao norte da propriedade esteja plantada com soja, embora essa parcela da propriedade tenha sido registrada em nome de uma empresa na qual é sócio de uma irmã.

Lucion indicou um advogado para responder formalmente em nome da família, mas o representante não retornou as tentativas de contato da reportagem. O espaço permanece aberto para suas manifestações.

Suspeita de lavagem de soja

O caso da família Lucion revela que apesar dos procedimentos utilizados pelas empresas para reduzir o risco de compra de grãos em desacordo com o que prevê a Moratória da Soja, nem as maiores tradings conseguem eliminar por completo essa possibilidade. Isso porque a lavagem de grãos – quando um produtor repassa soja irregular misturada ou fazendo-se passar por lotes produzidos em áreas com autorização – é uma realidade no Brasil e não há como garantir que não ocorreu no caso dos Lucion.

A fazenda da família está registrada de forma fragmentada no Cadastro Ambiental Rural (CAR) – que é o documento público utilizado por empresas para monitorar a legalidade ambiental dos fornecedores. No papel, são sete propriedades diferentes, embora estejam todas coladas umas às outras.

Complexo Santa Ana é composto por sete propriedades coladas umas às outras, todas pertencentes a família Lucion (Imagem: Google Earth/Mighty Earth)

Desde o início de 2021, a Moratória da Soja impôs bloqueio sobre parte dos sete lotes, indicando que as empresas não deveriam comprar soja plantada nessas parcelas do terreno. A outra parte, entretanto, estava liberada para negociações. Para complicar, alguns desses lotes bloqueados estavam identificados no sistema de controle da iniciativa pelos nomes dos antigos proprietários.

Por outro lado, as notas fiscais de venda da soja e do milho dos Lucion trazem todas o mesmo endereço, que é também o da sede da propriedade, em um dos sete lotes registrados no CAR. Ou seja: a terra é fragmentada, mas a comercialização da produção é centralizada, dificultando a checagem real de sua origem.

Essa estratégia é comum entre fazendeiros, que assim podem declarar que plantam em um CAR livre de embargos, ainda que na prática, utilizem a área toda para a lavoura, inclusive a área onde é proibido produzir.

A Abiove admite dificuldade para controlar a triangulação de soja e defende que as fazendas de um mesmo titular que sejam limítrofes estejam registradas em um mesmo CAR, como requer a legislação. “Por outro lado, não temos gerência sobre esta situação, pois trata-se de uma decisão dos proprietários de imóveis rurais”, afirma.

Sede do complexo Santa Ana fica na parcela I da propriedade, e é ali que estão registradas as inscrições estaduais que concentram a venda da produção de todas as parcelas do território (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Segundo a entidade, em caso de suspeita de lavagem, as tradings de grãos devem tomar medidas como analisar as distâncias e as rotas entre o imóvel rural embargado e o local de entrega da carga, averiguar se há grau de parentesco entre donos de propriedades vizinhas, calcular produtividade máxima da área e mesmo contratar uma empresa especializada para garantir a origem livre de desmatamento da soja. Não há informações sobre se essas precauções foram ou não tomadas no caso dos Lucion.

Mas a Abiove defende a eficácia do monitoramento: “em 13 anos [de vigência da Moratória da Soja], a área plantada mais do que triplicou no bioma Amazônia, mas a conversão de floresta foi de apenas 3,5%”, conclui.

Floresta que não queima, seca

Além dos negócios feitos com as grandes tradings após os satélites revelarem o aparecimento da lavoura na área embargada, a família Lucion pode estar trabalhando para abrir uma nova área na propriedade, conforme constatou a reportagem quando esteve no município de Cláudia, em setembro de 2022. Flagramos um grande incêndio na borda sul da fazenda Santa Ana, na extremidade oposta onde está o embargo, onde mais de 400 hectares de floresta amazônica arderam em poucos dias. Conforme revelam imagens de satélite, o incêndio ocorreu no período em que a prática é proibida.

Segundo Vinícius Lucion, o fogo foi originado em um assentamento rural vizinho – uma justificativa que bombeiros do Mato Grosso dizem ser comum, mas normalmente inverídica.

Dados do Instituto Centro de Vida (ICV), revelam que em 2019, enquanto o monitoramento da Moratória da Soja apontava 85 mil hectares plantados fora das regras estabelecidas pelo acordo, foram cultivados quase 1 milhão de hectares de soja em propriedades com desmatamento ilegal – ou 10% da área cultivada naquele ano, no estado. “O desmatamento que ocorre dentro dos imóveis com soja, mas fora da área de cultivo, mesmo sendo desmatamento ilegal, está fora do escopo do acordo”, ressalta o ICV.

Uma lavoura já colhida na fazenda Santa Ana contrasta com a fumaça no horizonte em plena temporada de proibição de queimadas no Mato Grosso, em setembro de 2022 (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

O aumento do desmatamento e das queimadas na Amazônia produz efeitos diversos. Um estudo conduzido por 30 cientistas brasileiros e divulgado no início de setembro mostra que os recordes das infrações ambientais nos dois primeiros anos do governo de Jair Bolsonaro causaram um aumento de 89% nas emissões de gás carbônico em 2019 e de 122% em 2020, na comparação com a média anual registrada entre 2010 e 2018.

No Brasil, o desmatamento é o maior fator de emissão de gases de efeito estufa.

A biodiversidade também paga o preço. Nos grupos de WhatsApp das comunidades locais, não faltam registros de animais queimados e sufocados pela fumaça dos incêndios criminosos. “A gente até consegue controlar o fogo, mas só tiramos ele de perto das nossas casas. Dentro da floresta ele se alastra”, explica Messias Braz, pequeno produtor de guaraná de Vila Atlântica, um povoado no caminho entre Marcelândia e Cláudia, que se esforçava para controlar as chamas que se aproximavam perigosamente de sua pequena produção. “Depois você acha macaco morto, cobra, tamanduá com a mão queimada. Eu mesmo já salvei foi muito por aí”, complementa. 

Mesmo espécies recém descobertas, como o macaco Zogue-zogue (Plectorucebus Grovesi) estão ameaçadas. Animal endêmico do norte do Mato Grosso descrito em 2018, ele já integra a lista dos 25 primatas com maior risco de extinção no planeta. “É um animal que ocorre naturalmente apenas nessa região, que não vai se expandir para outro local. Isso gera muita preocupação em função dos impactos decorrentes da expansão agropecuária, como desmatamento e queimadas, que levam a perda de habitat e à desconexão dos fragmentos das florestas”, alerta a doutora em Ecologia e Conservação, Angele Tatiane Martins Oliveira.

Até os ambientes aquáticos sofrem com as queimadas. “O calor aquece a água e mata os peixes”, revela Solange Arrolho, que coordena o Centro de Biodiversidade da Amazônia Meridional. A cada novo incêndio,  a mata que não queima, resseca, o que por sua vez a torna mais suscetível à queimadas. “É uma lógica perversa”, conclui a cientista.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo Repórter Brasil [Aqui!].

O veneno está em nossa mesa: Governo Lula libera mais 44 agrotóxicos e liberações chegam a 103 em 2023

consea agrotóxicos

Como já venho indicando há algum tempo, a questão dos agrotóxicos é uma daquelas que ameaça colocar por água abaixo todos os compromissos assumidos pelo presidente Lula com a transformação da agricultura brasileira para um modelo menos devastador e mais ajustado às necessidades de alimentos saudáveis e ecossistemas naturais protegidos.

Pois bem, nesta 5a. feira (13/04), o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) publicou o Ato No. 16 de 06 Abril de 2023 que libera a utilização de mais 44 agrotóxicos em território nacional, o que eleva o total de venenos agrícolas liberados durante a gestão do ministro Carlos Fávaro (PSD/MT) chegar a 103.

Como Fávaro é historicamente ligado ao setor da monocultura da soja, a continuidade da liberação de agrotóxicos não é nenhuma novidade. O problema é que não se detecta nenhuma mudança na forma de classificação do risco ambiental e para a saúde humana desses produtos, o que faz com que agrotóxicos banidos em outras partes do mundo continuem sendo liberados no Brasil.

Um exame inicial da lista de agrotóxicos liberados pelo Ato No. 16 mostra a liberação de agrotóxicos conhecidos por causarem câncer (os herbicidas S-Metolacloro e Glifosato, e o inseticida Acefato), bem como um conhecido exterminador de abelhas, o inseticidade neonicotinóide Imidacloprido.

protesto abelhas

O pior dessa situação é que não se vê uma reorientação das práticas adotadas pelo governo Bolsonaro que escantearam os ministérios da Saúde e do Meio Ambiente em prol de uma primazia dos interesses do MAPA que continua sob a liderança de um político com fortes laços com latifúndio agro-exportador.

Há ainda que se notar a persistência dos fabricantes chineses e europeus no fornecimento de agrotóxicos que foram banidos em outras partes do mundo para atender as demandas da agricultura de exportação. Com isso, o Brasil fica mantida na condição de uma espécie de uma latrina tóxica para onde são enviados produtos que já se mostraram altamente nocivos, seja porque causam a contaminação de recursos hídricos, por exemplo, ou porque já foram identificados como prejudiciais à saúde humana.

agrotóxico 2

Por essas e outras é que qualquer expectativa de que a questão da liberação de agrotóxicos será alterada pelo governo Lula sem uma intensa mobilização social é enganosa. Como a  atual viagem o presidente Lula à China deverá ser centrada em acordos comerciais centrados na pauta agrícola, o problema poderá se tornar ainda mais grave.