A recusa aos rankings e ao produtivismo acadêmico: o exemplo da Sorbonne

A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada

Imagem: Chepe Nicoli

Por Everton Fargoni para “Outras Palavras”

A decisão da Universidade Sorbonne, instituição cuja trajetória longeva se amalgama à própria gênese do pensamento ocidental, de interromper o fornecimento de dados ao sistema World University constitui um ato de ruptura contra a lógica da reificação acadêmica. Não se vislumbra ali um capricho administrativo, mas a insurgência diante de um modelo que reduz a densidade da atividade intelectual a categorias quantitativas desprovidas de substância humana e histórica.

O que emerge é o esgotamento de um método que intenta aprisionar a universidade em tabelas globais, obliterando que o conhecimento possui raízes profundas na totalidade da vida social. Como pretender mensurar séculos de compromisso científico e ensino público sob o peso de um padrão abstrato, voltado unicamente à valorização de indicadores estranhos à ontologia do ser social?

Tal fratura adquire o caráter de denúncia ao desvelar a estrutura de captura do trabalho vivo. Por trás da frieza dos índices, reside a exploração da atividade intelectual levada ao paroxismo. Pesquisadores docentes e discentes não apenas exercem o ensino ou a investigação, mas são capturados por uma teia burocrática que exige o gerenciamento da própria produtividade.

Observa-se uma intensificação das tarefas que expropria o tempo de vida e converte corpos exaustos em combustível para alimentar o fetiche da excelência. O adoecimento e o esgotamento configuram-se como o valor de troca oculto nesse processo de avaliação, no qual a saúde do cientista é imolada perante a abstração da métrica.

A contradição atinge seu ápice quando essa estrutura de opressão é celebrada por aqueles que ela própria desumaniza. É recorrente o espetáculo de instituições e indivíduos que difundem, com entusiasmo, posições e universidades em rankings, como se a conquista de um lugar na hierarquia justificasse a penúria da existência cotidiana. Opera-se aqui uma forma de alienação na qual a consciência do sujeito é obscurecida pelo fetiche do reconhecimento simbólico.

O trabalhador do conhecimento, ao festejar tais números, comemora a eficácia dos meios que garantem sua própria subordinação. A competição institucional é apresentada como prestígio, ocultando que este nada mais representa do que a legitimação do desgaste humano em prol da acumulação de capital simbólico.

O movimento de recusa observado na Sorbonne reverbera em outras latitudes, evidenciando o declínio da legitimidade desses modelos de controle. Nos Estados Unidos, faculdades de direito centenárias romperam com classificações que desvalorizavam a função social das ciências humanas.

Na Ásia, instituições sul-coreanas reagiram à volatilidade de empresas como a Quacquarelli Symonds, cujas oscilações metodológicas revelam a fragilidade de critérios impostos como verdades inquestionáveis. Na Europa central, o boicote ao envio de dados reflete a percepção de que tais sistemas em nada contribuem para a efetiva missão acadêmica. O desconforto não é um fenômeno episódico; é o sintoma de uma estatistização forçada que tenta converter a universidade em uma sucursal do “Big Brother” acadêmico. Essa competitividade-vigiada institui uma numeralização da consciência, subjugando a produção intelectual a uma burocracia-algorítmica que aniquila a finalidade política do conhecimento.

No Brasil, o cenário assume tons de uma dramaticidade corrosiva. Tornou-se trivial presenciar perfis oficiais celebrando o fato de uma universidade pública estatal superar outra de mesma natureza, como se o êxito residisse no aniquilamento simbólico do par. Questiona-se a racionalidade de uma lógica de rivalidade entre entes que deveriam constituir o alicerce de um projeto coletivo de nação.

Ao mimetizar códigos competitivos típicos do mercado financeiro, o ambiente acadêmico renuncia à cooperação para se lançar em uma corrida por visibilidade numérica. Essa prática ignora as desigualdades históricas, tratando instituições com realidades distintas como se estivessem em uma pista de competição corporativa.

Os rankings internacionais atuam como reguladores das consciências e das práticas pedagógicas, impondo uma temporalidade que nega a maturação do pensamento. A investigação científica é expropriada do tempo do kairós, voltado à elaboração teórica profunda e à escuta das necessidades sociais, para se submeter ao império do kronos, marcado pela aceleração linear e pela contabilidade fria.

Projetos são arquitetados sob a receita da fragmentação e da entrega imediata, enquanto investigações que exigem demora e rigor são relegadas ao abandono. Por que o sistema premia o cientista que converte sua atividade em índice? Como aceitar que a densidade intelectual morra em nome da mera exibição de rendimento? Seria essa a vitória final do “Big Brother acadêmico” sobre a nossa própria consciência?

Essa análise não descarta a necessidade de diagnósticos sobre o ensino superior, desde que estes funcionem como instrumentos de identificação de assimetrias estruturais a serviço de políticas públicas de fortalecimento. A patologia se instala quando a classificação passa a ditar o financiamento e a sobrevivência, constrangendo a universidade a se adequar a um modelo de excelência que atende apenas aos interesses da hegemonia global.

Instituições com trajetórias singulares são forçadas a abrir mão de suas identidades para que possam ser contempladas no figurino estreito da padronização mercadológica, perdendo sua capacidade de resposta às contradições da realidade nacional.

A decisão da Sorbonne de romper com este circuito deve ser apreendida como um ato de resistência contra a mercantilização do conhecimento. Ao questionar as regras estabelecidas, a instituição recoloca no centro do debate a função social da universidade. Marx nos lembraria que a produção intelectual assume a forma de mercadoria, na qual o valor de uso da ciência é eclipsado pelo seu valor de troca simbólico.

Marx veria esses critérios de classificação como o fetiche da mercadoria em sua expressão máxima: o conhecimento deixa de servir à emancipação humana para ser um objeto quantificável. Como o pensamento pode sobreviver quando a métrica dita o que é real? Por que aceitamos que algoritmos de instituições-rankings funcionem como o capital variável que extrai a mais-valia do nosso intelecto? Essa tomada de posição demonstra que a comparação seriada desidrata a relevância histórica da produção do conhecimento. É a revolta contra a alienação de um sistema que nos obriga a produzir apenas para alimentar o apetite de um mercado de prestígio vazio.

O risco reside na fabricação (formação) de um cientista funcional à cadência da produtividade incessante. Pesquisas distantes dos interesses de conglomerados editoriais perdem tempo e legitimidade, pois o trabalho intelectual mira abstrações numéricas em vez de problemas sociais.

Ao romper com esse ciclo, a universidade francesa nos faz questionar: a quem serve esse conhecimento? Nossos pares refutam a hostilidade científica que reduz o semelhante a adversário por resíduos de prestígio. Ou será que, obcecados por selos estrangeiros, aceitamos o fetiche do ranking como substância da vida acadêmica? Marx veria o triunfo da mercadoria: o conhecimento não respira como práxis, mas jaz como mercadoria inerte. Qual o resultado dessa corrida senão o eclipse da soberania intelectual e o silêncio da negatividade crítica? Como cultivar a dúvida se cada ideia é vendida antes de ser dita? Resta o peso de uma consciência reduzida a números.

*Everton Fargoni é doutor em educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Fonte: Outras Palavras


Anulação de uma tese de doutorado por plágio desestabiliza a Sorbonne

O doutorado de Arash Derambarsh, que permitiu a ele se tornar advogado, foi retirado pela seção disciplinar da instituição. Diversas disfunções foram trazidas à luz

copia cola

Por Por Yann Bouchez e Camille Stromboni para o Le Monde

Espera-se que o assunto afete a academia e além. Uma tese de direito, defendida e validada na Sorbonne, foi prejudicada pelo uso intenso da estratégia do “copia e cola”, constituindo assim plágio? A Seção Disciplinar do Conselho Acadêmico da Universidade de Paris-I-Panthéon-Sorbonne decidiu que sim, em uma decisão de terça-feira, 21 de julho, que Le Monde pôde consultar.

Após uma investigação aprofundada que foi resumida em 40 páginas, a Seção Disciplinar privou Arash Derambarsh de seu diploma obtido em 2015, uma “ponte” que o havia permitido se tornar advogado. O órgão da universidade decidiu pelo “cancelamento do exame de defesa da tese em questão”, “o que implica, de fato, a retirada do doutorado em direito”.

Acreditando que o plágio foi estabelecido e que o “fato agravante” da fraude é a recusa do interessado em reconhecê-la, bem como a “produção de versões falsificadas da tese antes da reunião da Seção Disciplinar”, o órgão decidiu , por maioria absoluta, pela exclusão definitiva do autor de qualquer estabelecimento público de ensino superior.

Resultados de comunicação

Personalidade da mídia,  ele vem sendo eleito para a Câmara de Vereadores de Courbevoie (Hauts-de-Seine) desde 2014; agora ele é vice-responsável pelo desenvolvimento sustentável. Autor de um livro “Caia 9 vezes, levante-se 10″. Insucesso escolar: nunca desista” (Le Recherches Midi, 2019), tornou-se conhecido em particular por sua luta contra o desperdício de alimentos ou mesmo por golpes de comunicação, como quando se apresentou como presidente do Facebook na França.

Por vários meses, os debates em torno de sua tese intitulada “Arquivos policiais, uma estrutura jurídica e social em um ambiente controverso”, defendidos em 11 de dezembro de 2015, alimentaram as redes sociais. Em fevereiro, uma conta anônima no Twitter, “Tese e Síntese”, denunciou grandes empréstimos não citados na tese de M. Derambarsh, que tem quase 500 páginas e estimou que 92% dela – excluindo apêndices e bibliografia – era  um simples exercício de “copia e cola”. As conclusões da Seção Disciplinar são finais. “Desde sua introdução (…) até sua conclusão (…), incluindo suas notas, apêndices, bibliografia, o manuscrito da tese de M. Derambarsh é quase inteiramente composto por um conjunto de textos, produzido em um contexto acadêmico ou publicado por outros autores que não ele próprio, e copiado de acordo com um ou mais dos procedimentos de plágio que visam fazer o leitor acreditar que o Sr. Derambarsh é o autor ”, escreve a autoridade.

“Este caso é terrível” Contou pelo menos 110 páginas – não se trata de um “censo exaustivo” – no qual são plagiados vários relatórios institucionais – do criminologista Alain Bauer, da Comissão Nacional de Computação e Liberdades (CNIL), o deputado (Ecologia, democracia, solidariedade) de Deux-Sèvres Delphine Batho e o ex-deputado (Les Républicains) de Val-de-Marne Jacques-Alain Benisti… -, artigos de jornal ou mesmo trabalho acadêmico.

O autor da tese de doutorado anulada denunciou ao Le Monde que é vítima de uma “conspiração”, enquanto anuncia que está apelando da decisão para o Conselho Nacional de Ensino Superior e Pesquisa, e solicita a suspensão de sua execução. “Não há plágio nesta tese, em nenhum momento recebo uma idéia de outra pessoa”, ele se defende. Por outro lado, é verdade, há um problema de forma, as aspas não são colocadas no lugar certo. “Se estou na fraude – não estou -, a Sorbonne é cúmplice, pois validou todas as etapas da minha tese”, acrescenta. Seu advogado, Me Yassine Bouzrou, lamenta o fracasso em respeitar os “direitos fundamentais” de seu cliente e, em particular, que a universidade rejeitou “os testemunhos que foram prestados para atestar sua boa fé”.

A presidência da Universidade de Paris enfatiza que o início desse procedimento se deu em julho de 2019, assim que surgiram suspeitas de fraude. “Esse caso é terrível”, reage Georges Haddad, presidente da Universidade de Paris-I, “haverá um antes e um depois, é claro que terá consequências. “Para o funcionário”, é a honra da universidade que está em jogo, a qualidade de seus diplomas, ainda mais no nível de doutorado, o grau absoluto. ” Ele e outros insistem, a decisão parece sem precedentes. “O cancelamento de uma tese na França e a retirada do título de doutor são extremamente raros”, observa Michelle Bergadaà, professora emérito da Universidade de Genebra, que trabalha com plágio acadêmico há quinze anos.

Que eu saiba, isso nunca aconteceu através de procedimentos internos da universidade, houve apenas alguns casos nos tribunais. As lições devem ser aprendidas neste caso, é o sistema que deve ser redesenhado em torno da integridade da pesquisa. “

“A questão de um júri de conveniência surge”

Além do plágio, a Seção Disciplinar se concentrou em várias questões delicadas: como essa tese poderia ser colocada sob o selo da confidencialidade – um procedimento extremamente raro – por um período de mais de trinta anos? A confidencialidade aumentou recentemente, quando a escola de doutorado foi alertada para essa anomalia. E como o júri da tese foi capaz de deixar esse trabalho passar?

Várias irregularidades são levantadas, em particular no que diz respeito à composição do júri, que reuniu o diretor de tese, o professor de direito Bruno Dondero, dois professores, Oleg Curbatov e Anne-Dominique Merville, além do ex-ministro e ex-ministro. deputado Frédéric Lefebvre e advogado Francis Szpiner.

Os perfis deles questionam. Primeiramente por sua falta de proximidade com o assunto da tese. “É muito incomum nomear como pré-colaborador de uma tese um professor-pesquisador que não pertence à disciplina em que a tese é defendida”, observam os autores da decisão em particular.

Mas também por causa da proximidade com o doutorado. A Seção Disciplinar identifica fatos que provavelmente serão considerados uma “comunidade de interesse óbvio”, em particular um dos membros do júri, o Sr. Curbatov, que também presidiu uma associação cultural no município do qual o Sr. Derambarsh é eleito. Acima de tudo, “é sabido que uma obra de Frédéric Lefebvre foi editada por Derambarsh com as edições do Recherches Midi em 2011”, sublinha a autoridade. O livro em questão, intitulado Le Mieux est ami du bien, fora marcado por plágio.

“Se lermos nas entrelinhas, podemos ver que surge a questão de um júri de conveniência”, aponta Jean-François Hamelin. O professor de direito da Universidade da Borgonha, “denunciante” da Universidade de Paris, há quase dois anos, elogia “um trabalho importante” que “devolve toda a sua honra a Paris-I”.

Disfunções perturbadoras

Nenhum membro do júri afirma ter detectado o plágio. No entanto, o software anti-plágio existente não foi usado. Atingido pelo escândalo, o professor de direito Bruno Dondero (orientador da tese em questão) descarta as acusações que o atacam. “O plágio é estabelecido, é perfeitamente normal que seja penalizado”, afirmou. Lamento, é claro, que o júri não tenha visto isso, mas me recuso a dizer que cobri uma tese de conveniência. “O pesquisador gostaria de salientar que ele “não dirigiu a redação desta tese”.

Depois de iniciar seu trabalho na Universidade vizinha de Assas com outro diretor de tese – que não havia aceito que o manuscrito fosse defendido, como é -, Arash Derambarsh virou-se para Bruno Dondero, em Paris -I, que assumiu a administração no outono de 2015.

Quanto à confidencialidade dos escritos por um período de trinta anos – “indevido”, segundo o órgão disciplinar, que concluiu que nada poderia justificá-lo – o professor de direito nega ter sido responsável por isso. . Alegadamente, isso foi solicitado por Arash Derambarsh à administração da escola de doutorado, sob o pretexto de que sua tese continha elementos considerados como um segredo de defesa. Derambarsh disse que não era um tomador de decisão sobre o assunto.

Ainda existem várias disfunções perturbadoras apontadas nesta decisão, como a ausência de um relatório de defesa, uma obrigação regulatória essencial para validar uma tese. O supervisor da tese “declara que acha que se lembra de ter escrito esse relatório, mas que, infelizmente, foi vítima de roubo de seus pertences e, em particular, de seu laptop e que não tem mais vestígios. documentos eletrônicos de tal documento ”, relata a seção disciplinar.

A senhora Bouzrou disse que seu cliente ainda não havia sido convocado pelo Conselho da Ordem dos Advogados e, portanto, ele ainda pode exercer sua profissão como advogado.

fecho

Este escrito foi originalmente escrito em francês e publicado pelo Le Monde [Aqui!].