Por que os preços do café estão sendo negociados perto das máximas de meio século?

Por Maytaal Angel para a Agência Reuters 

LONDRES, 4 de dezembro (Reuters) – Os preços globais do café atingiram o nível mais alto em quase 50 anos devido ao mau tempo no Brasil e no Vietnã, forçando torrefadores como a Nestlé (NESN.S) para aumentar os preços e levar os consumidores a procurar cervejas mais baratas em meio à crise do custo de vida.

Os altos preços beneficiarão os agricultores com a safra deste ano, mas desafiarão os comerciantes que enfrentam custos exorbitantes de hedge nas bolsas e uma corrida para receber os grãos que compraram antecipadamente.

O que impulsiona os preços?

Problemas de produção ligados ao mau tempo no Brasil e no Vietnã fizeram com que os suprimentos globais ficassem aquém da demanda por três anos. Isso deixou os estoques esgotados e levou os preços de referência da bolsa ICE a um pico de US$ 3,36 por libra. 

A última vez que o café foi negociado tão alto foi em 1977, quando a neve destruiu faixas de plantações do Brasil. No entanto, o choque para os consumidores foi muito maior naquela época. Se ajustado pela inflação, US$ 3,36 por libra em 1977 seria equivalente a US$ 17,68 hoje.

Enquanto isso, especialistas preveem mais um ano de produção fraca de café. O Brasil, que produz quase metade do arábica do mundo — grãos de alta qualidade usados ​​principalmente em misturas torradas e moídas — sofreu uma das piores secas já registradas neste ano.

Embora as chuvas finalmente tenham chegado em outubro, a umidade do solo continua baixa e especialistas dizem que as árvores estão produzindo muitas folhas e poucas flores que se transformam em cerejeiras.

No Vietnã, que produz cerca de 40% dos grãos robusta normalmente usados ​​para fazer café instantâneo, uma seca severa no início deste ano foi seguida por chuvas excessivas desde outubro.

A consultoria StoneX prevê que a produção de arábica do Brasil cairá 10,5%, para 40 milhões de sacas no ano que vem, compensada em parte pela maior produção de robusta, reduzindo assim a safra geral do país em 0,5%.

No Vietnã, a safra pode encolher até 10% no ano até o final de setembro de 2025, aumentando a escassez global de robusta.

Por que os comerciantes estão preocupados?

Produtores de café de El Salvador se preparam para a temporada de colheita em JuayuaGrãos de café torrados são vistos em um laboratório na Fazenda de Café Lechuza em Juayua, El Salvador, em 29 de novembro de 2024. REUTERS/Jose Cabezas/Arquivo Foto 

As traders brasileiras Atlantica e Cafebras estão buscando reestruturação de dívida supervisionada pela Justiça devido aos aumentos nos preços do café, custos de hedge exorbitantes e atrasos nas entregas.

A reestruturação da dívida supervisionada pelo tribunal precede a falência se a negociação não for bem-sucedida.

Os comerciantes que compram grãos de fornecedores locais como Atlantica e Cafebras normalmente assumem posições vendidas no mercado futuro para proteger sua exposição ao mercado físico.

Com medo de não conseguir mais obter seu café físico, muitos traders estão fechando posições vendidas em futuros que se tornaram deficitárias.

Fechar posições vendidas envolve comprar ou comprar futuros, o que por sua vez eleva ainda mais os preços.

Preços futuros mais altos então elevam as chamadas de margem ou pagamentos iniciais que os traders são obrigados a pagar para se proteger contra perdas comerciais, criando assim mais estresse no setor.

Impacto nos torradores e consumidores

O aumento nos preços do café é um problema para os torrefadores.

O chefe da Nestlé , a maior empresa de café do mundo, foi demitido no início deste ano depois que o conselho ficou descontente com as vendas fracas e a perda de participação de mercado devido aos aumentos de preços , o que levou os consumidores a mudar para marcas mais baratas.

Os torrefadores tendem a comprar café com muitos meses de antecedência, o que significa que os consumidores provavelmente verão o preço subir em 6 a 12 meses.

Os consumidores que bebem fora sentirão menos o impacto do aumento atual dos preços.

Torrefadores como Starbucks (SBUX.O) que vendem principalmente para cafés devem se sair melhor, já que o preço global do café representa apenas cerca de 1,4% do preço total de uma xícara de café típica de US$ 5 em um café.

(Esta história foi corrigida para esclarecer que os comerciantes fazem hedge, não importa de quem compram, no parágrafo 13, e para remover a referência estranha a empresas comerciais específicas, no parágrafo 14)

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Reportagem de Maytaal Angel; edição de David Evans


Fonte: Agência Reuters

Starbucks: fazendas de café certificadas são flagradas com trabalho escravo e infantil em Minas Gerais

café

Investigação exclusiva revela casos de descontos ilegais em salários e falta de banheiro e equipamentos de proteção em propriedades que ostentam o selo de ‘aquisição ética’ da multinacional. Representantes dos trabalhadores apontam falhas em auditorias

Maior e mais famosa rede de cafeterias do mundo, com 35 mil pontos de venda em 83 países, a Starbucks mantinha em seu programa de “aquisição ética” produtores flagrados com trabalho escravo e infantil, além de cafeicultores autuados por descontos ilegais nos salários, falta de fornecimento de água potável e de equipamentos de proteção básicos para a colheita do grão.

Ao menos quatro propriedades foram palco de problemas assim enquanto ainda eram fornecedoras da multinacional americana. Os casos são retratados no relatório “Por trás do café da Starbucks”, publicado pela Repórter Brasil (disponível em português e em inglês).

Fazendas no Brasil são origem de parte do café usado pela rede de cafeterias americana, que afirma comprar 3% do grão produzido no mundo

O documento mostra que fazendas de café em Minas Gerais onde a fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego flagrou violações trabalhistas possuem – ou possuíram até recentemente – o selo C.A.F.E. Practices, sigla para Coffee and Farmer Equity, o programa de certificação que, segundo a Starbucks, avalia fornecedores em mais de 200 indicadores ligados à transparência, qualidade, responsabilidade social e ambiental. É mais uma situação que expõe as limitações do mercado certificador.

“Independente da certificadora, o modelo é frágil, pouco transparente. Todos os anos mostramos casos de fazendas certificadas com trabalhadores sem registro, que não recebem férias, 13º”, observa o coordenador da Articulação dos Empregados Rurais do Estado de Minas Gerais (Adere), Jorge Ferreira dos Santos Filho.

As irregularidades trabalhistas no setor não se resumem à cadeia de fornecimento da Starbucks. A Repórter Brasil já mostrou problemas semelhantes entre fornecedores da Nestlé, McDonald’s e outras grandes empresas compradoras de grãos.

Em 2022, o cultivo de café foi um dos cinco setores com maior volume de denúncias de exploração de trabalhadores no Brasil. Ao todo, 39 propriedades de café foram fiscalizadas e 159 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão.

Safrista resgatado tinha 15 anos

Um dos casos destacados é o da Fazenda Mesas, em Campos Altos, onde 17 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão em agosto de 2022. No grupo havia um adolescente de 15 anos e outros dois jovens de 16 e 17 anos.

O trabalho exposto ao sol ou à chuva e que exige manuseio de cargas pesadas – a saca de café pesa 60 quilos – está enquadrado na Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil e é proibido para jovens de 16 a 18 anos. Já o trabalho de menores de 16 é proibido em qualquer circunstância, com exceção da categoria aprendiz, com requisitos como frequência escolar e tutoria.

A Mesas é administrada por Guilherme de Oliveira Lemos, que também comanda a Fazenda Ourizona e a torrefadora Café Ourizona, em Córrego Danta, e a Fazenda Bom Jesus e Pedras, em Santa Rosa da Serra.

O Café Ourizona ostenta o selo C.A.F.E. Practices, da Starbucks. Entrou no programa um mês antes do flagrante de trabalho escravo na Mesas, mostra um post no Instagram de julho de 2022. Além disso, as propriedades são certificadas pela Rainforest Alliance, selo renovado em março deste ano, mesmo após o resgate dos trabalhadores.

Evidências indicam a administração conjunta das propriedades. Trabalhadores da Fazenda Mesas que estavam na informalidade tiveram suas carteiras registradas em nome da Ourizona depois da operação dos auditores fiscais do Trabalho.

Conforme o relatório de fiscalização, o empregador não fornecia nem as ferramentas básicas para a colheita, como rastelo, bolsa e pano para armazenar grãos. Uma trabalhadora contou que precisava comprar luva nova a cada quatro dias para proteger as mãos ao colher os grãos. Os R$ 5 por luva saíam de seu bolso, assim como o valor do chapéu, de botinas, da comida e do alojamento – tudo em desacordo com as leis trabalhistas.

Descontos irregulares para pagamento de equipamentos, como a máquina derriçadeira (acima), são comuns em fazendas de café, dizem representantes de trabalhadores

Na lavoura não havia local montado para o almoço. No chão ou dentro de um ônibus, trabalhadores consumiam uma comida fria ou aquecida numa lata com álcool. Sem banheiro químico, as necessidades eram feitas no mato ou no cafezal.

Por meio de seu advogado, Lemos afirmou que não responderia à reportagem. A Starbucks admitiu que a Mesas é certificada, mas não explicou se será suspensa. “Nossos registros não mostram queixas trabalhistas ativas, litígios ou reclamações abertas contra Guilherme de Oliveira Lemos”, afirmou a empresa. A Rainforest Alliance confirmou a certificação e informou que duas auditorias foram feitas no local. “De acordo com os relatórios da Entidade Certificadora enviados à Rainforest Alliance para a auditoria de maio de 2023, não havia informações sobre essas inspeções em agosto de 2022”, alegou. Leia a íntegra das respostas aqui.

‘Erro do RH’

Outro caso de adolescente trabalhando irregularmente é o da Fazenda Cedro-Chapadão, em Ilicínea, administrada juntamente com a Fazenda Conquista por Sebastião Aluísio de Sales, esposa e filhos.

Em julho de 2022, um jovem de 17 anos foi resgatado de condições análogas à escravidão nos cafezais da família. Ele e outros 25 haviam saído de Irecê (BA), a 1.500 quilômetros de distância, para colher café nas duas fazendas. A fiscalização identificou outras 11 violações trabalhistas.

Selos de certificação e placas de “Atenção” não foram suficientes para prevenir irregularidades trabalhistas em fazendas do grupo Cedro-Chapadão, em Ilicínea (MG)

Segundo Rodrigo Sales, filho de Sebastião, a contratação do jovem de “17 anos e 9 meses” ocorreu por “erro do nosso departamento contábil de RH [Recursos Humanos]”. Documentos acessados pela fiscalização trabalhista apontam que outro adolescente, de 16 anos, havia sido contratado para colher café naquele ano.

O resgate do jovem ocorreu na Fazenda Conquista e não na Cedro, que tem o selo C.A.F.E. Practices. Mas as práticas eram as mesmas nas duas propriedades, e os trabalhadores também haviam sido contratados para atuar na Cedro. “As Fazendas Reunidas Cedro-Chapadão são um grupo, portanto a administração é feita de forma conjunta, os trabalhadores safristas estão cientes do cronograma de trabalho para colheita, que se inicia na Fazenda Conquista e segue para as demais fazendas conforme a maturação do café”, admitiu Rodrigo Sales.

Alojamento de trabalhadores temporários do grupo Cedro-Chapadão; em 2022, um jovem de 17 anos foi resgatado de condições análogas à escravidão na colheita da empresa

A fiscalização diz que o empregador não disponibilizava água potável e equipamentos de proteção, como luvas, chapéus e botas. No alojamento não havia roupas de cama, armários nem local apropriado para refeição. O grupo ainda precisou pagar pelas passagens de ônibus desde Irecê, o que era obrigação do contratante. Em depoimento, o jovem resgatado disse que lhe foram descontados R$ 400 da passagem, além de despesas de alimentação.

Sebastião Sales pagou cerca de R$ 6 mil em rescisões e danos morais. Rodrigo Sales se defende: “As Fazendas Reunidas Cedro-Chapadão jamais submeteram qualquer trabalhador a condições degradantes, trabalho forçado ou condições análogas à escravidão”. Segundo ele, a Cedro foi certificada pela C.A.F.E. Practices em 2021, mas só participou do programa em 2022 e não houve comercialização com a Starbucks no período. Já a multinacional se limitou a dizer que a propriedade não está mais ativa no programa, sem informar quando saiu e o porquê. Leia a íntegra dos esclarecimentos aqui. 

Reincidentes

Também detentora do C.A.F.E. Practices, a empresa familiar Bernardes Estate Coffee, dona de duas fazendas em Patrocínio, é reincidente em violações.

Em 2019 foram nove multas por não oferecer equipamentos de proteção individual (EPIs) nem material para primeiros socorros gratuitos, não fornecer papel higiênico, nem chuveiros em quantidade suficiente, não garantir local adequado para refeições e tampouco uma caixa d’água protegida contra contaminação. Três anos depois, José Eduardo Bernardes foi autuado por 16 infrações, entre elas não possuir os recibos de pagamento de empregados, não oferecer treinamentos exigidos por lei e não garantir banheiros na frente de trabalho.

Repórter Brasil esteve na fazenda neste ano e testemunhou a repetição de problemas. Constatou que nem todos utilizavam EPIs. Trabalhadores relatam que são recrutados em cidades distantes, mas o contrato só é assinado quando chegam, estratégia usada para burlar o pagamento do transporte. Contam também que os patrões cobram aluguel dos que se hospedam num alojamento da família.

Colheita na Bernardes Estate Coffee, em Patrocínio (MG). Trabalhadores colhem o café, jogam os frutos na lona, separam os galhos e enchem sacos de 60 kg

A Bernardes Estate Coffee não respondeu às perguntas enviadas por e-mail. A Starbucks confirmou que a empresa é certificada, disse que passa por investigações, mas se negou a compartilhar detalhes. Leia a íntegra.

Outro caso de reincidência é o do produtor Carlos Augusto Rodrigues de Melo, presidente da Cooxupé, maior cooperativa de cafeicultores do país e principal fornecedora da Starbucks, segundo dados de exportações acessados pela Repórter Brasil. Propriedades da família Melo foram autuadas por descumprimento de regras trabalhistas em 2021 e em 2022.

Em 2021, uma fiscalização constatou descontos ilegais em salários para aquisição de máquinas derriçadeiras e combustível para a colheita na Fazenda Pedreira, em Cabo Verde (MG). No ano seguinte, outra fazenda da família, a Palmital, recebeu 16 autos de infração por não pagar direitos trabalhistas, como o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e a multa de 40% em demissão sem justa causa.

Os problemas persistem. Neste ano, a Repórter Brasil encontrou no local trabalhadores provenientes do Vale do Jequitinhonha, norte de Minas, que dizem trabalhar nas lavouras por falta de outras oportunidades. “Gostar, a gente não gosta, mas a necessidade faz o trabalho ficar maravilhoso”, afirmou um rapaz de 24 anos que já tinha perdido dez quilos em um mês.

O aspecto dos pequenos alojamentos (quarto, cozinha e banheiro) denota descuido com a limpeza. A reportagem constatou paredes de banheiro encardidas do chão ao teto. Não há área para refeições, preparadas em um fogão de duas bocas comprado pelos trabalhadores. Os empregados dizem que o gás de cozinha também sai do bolso deles, assim como cobertores e travesseiros, o que contraria a lei. A água de consumo e de banho é armazenada em um antigo tanque de combustível.

Alojamento de trabalhadores da Fazenda Pedreira, ao fundo, e antigo tanque de gasolina utilizado para armazenar a água consumida pelos safristas

Em nota, a Fazenda Pedreira se limitou a dizer que “cumpre a legislação trabalhista” e que segue “as determinações exigidas para obtenção de certificações internacionais”. A propriedade não negou relação com a Starbucks, mas não esclareceu quando foi certificada. A Starbucks afirmou que o selo da Pedreira está “expirado”, sem informar quando isso ocorreu. Já a Cooxupé afirmou que garante a rastreabilidade de seus produtos e que respeita normas ambientais, sociais e legais. Todos os esclarecimentos podem ser lidos, na íntegra, aqui.

Sem surpresa

As violações ocorrem num setor que está em quarto lugar em receita no ranking de receita da balança comercial do Brasil. Em 2022, foram 52,8 milhões de sacas colhidas, o que garante ao país o posto de maior exportador mundial do produto. Na ponta da cadeia, a Starbucks Corporation, que compra cerca de 3% do café produzido no mundo, registrou lucro líquido de US$ 3,2 bilhões em 2022.

Nesse cenário, não há “desculpas” para não garantir a contratação formal de safristas e seus direitos trabalhistas, diz Gustavo Ferroni, da Oxfam Brasil: “Isso não depende de uma articulação de políticas públicas, mas do próprio setor”.

A Starbucks Corporation registrou lucro líquido de US$ 3,2 bilhões em 2022. Fazendas fornecedoras da rede são certificadas por programa próprio de aquisição ética (Foto: Asael Peña/Unsplash)

Em 2020, a organização calculou em 41% a lacuna entre o salário médio nas lavouras em Minas e um salário digno, que é aquele capaz de contemplar gastos com alimentação, moradia, educação, saúde, vestuário e outras necessidades essenciais, conforme parâmetros dGlobal Living Wage Coalition (Coalizão Global de Salário de Bem Estar).

Para Ferroni, a C.A.F.E. Practices seria mais efetiva se inspeções ocorressem durante a safra, se as auditorias fossem verdadeiramente surpresas (as visitas são avisadas com antecedência) e se houvesse diálogo com atores de fora das fazendas, como sindicalistas.

A opinião é compartilhada por Jorge Ferreira dos Santos Filho, coordenador da Adere. “Se os produtores são avisados que a fazenda será auditada, não existe auditoria-surpresa”, conclui o representante dos trabalhadores.


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Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Batatas fritas como ferramentas do complexo industrial militar capitalista?

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A indústria de alimentos (?) de fast food gera doenças e erosão cultural. A saída de corporações como Coca Cola, Mc Donald´s e Starbucks da Rússia por causa da ação militar na Ucrânia pode ter o efeito inesperado que é o de diminuir os níveis de doenças entre os russos

Um desdobramento curioso da ação militar da Rússia na Ucrânia foi a saída das redes americanas de “fast food” do mercado russo em uma ação que claramente é uma espécie de retaliação gastronômica das corporações capitalistas da área de alimentos (sendo Coca Cola, McDonald´s e Starbucks apenas as bandeiras mais pesadas que já o fizeram) contra o governo de Vladimir Putin.

Deixando de lado o fato de que essas redes de “fast food” não apenas oferecem pseudo alimentos que nada de têm de saudáveis, e que são vendidos a preços exorbitantes enquanto os empregados das lojas franquiadas recebem salários miseráveis, o que essa ação das corporações multinacionais ocidentais demonstra é que até as batatas fritas vendidas pelo McDonald´s são parte integrante do chamado complexo industrial militar, ou mais simplesmente da indústria da guerra.

É que se pensarmos bem, a Rússia não é nem de perto quem lucra quando permite que as corporações do fast food operem em seu território.  Se analisarmos melhor o que essas corporações realizam na prática é a eliminação de alimentos locais, muitas vezes mais nutritivos e saudáveis do que qualquer “burguer” que a McDonald´s e seus congêneres fabricam.  Aliás, a saída da Starbucks deverá causar uma diminuição no custo de vida russo, na medida que após pagar preços miseráveis aos cafeicultores no Sul Global essa multinacional estadunidense, que possui mais de 30 mil lojas distribuídas em 80 países, vende cafés a preços ultrajantes para clientes que nunca param para pensar que estão sendo vítimas de um golpe financeiro.

Mas então por que essas corporações estadunidenses e outras de outros países do centro capitalista resolveram dar no pé da Rússia? Provavelmente por razões que misturam o medo de sua clientela nos países centrais se irritar com a permanência na Rússia após meses de propaganda russofóbica por parte da mídia corporativa, ou ainda porque receberam ordens dos controladores do complexo militar para fingirem que se importam com os direitos humanos dos Ucranianos. Há que se lembrar que se preocupação com direitos humanos guiasse as preocupações da McDonald´s ou da Starbucks, seus conselhos diretores já teriam removido as commodities agrícolas brasileiras da sua cadeia de suprimentos dada a magnitude do que está sendo feito na Amazônia, seja contra as florestas ou contra os povos que vivem nelas. Mas salvo engano não se ouviu nada muito indignado por parte da McDonald´s ou do Starbucks contra o que está ocorrendo na Amazônia brasileira.

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Batatas fritas são uma das principais fontes de renda da McDonald´s em que pese os danos causados à saúde humana pelo seu consumo

Um gaiato na internet escreveu que com a saída da Coca Cola e da McDonald´s da Rússia, o mais provável é que caiam os índices de obesos e diabéticos dentro da população russa, e que haja uma espécie de renascimento da demanda por produtos tradicionais da culinária russa, acrescentando ainda que a partida das corporações do fast food ainda deverá permitir uma diminuição das doenças associadas ao seu consumo. Pensando bem, essa afirmação de gaiatice não tem nada.

O fato é que em um país como o Brasil onde a fome está firmemente espalhada dentro da maioria da população, gastar cerca de R$ 50,00 em um “combo” não faz o menor sentido financeiro para a imensa maioria das famílias, mas não é raro ver um trabalhador sacrificado pelas políticas ultraneoliberais dos últimos governos brasileiros gastar essa verdadeira fortuna para quem ganhar salário mínimo para agradar um filho. Por essa falta de sentido é que talvez devêssemos nos antecipar a qualquer abandono futuro do território brasileiro por parte das corporações do fast food e deixar suas lojas vazias. É que agora que está evidente que as batatas fritas superfaturadas da McDonald´s são parte do complexo militar, continuar gastando com este tipo de não alimento é ainda mais contraditório do que sempre foi.

Monsanto Years, o álbum de Neil Young contra a Monsanto e outras corporações poluidoras chegou em minhas mãos!

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Venho ouvindo as músicas de Neil Young desde quando eu tinha 18 anos e ganhei o álbum “Comes a Times” de uma amiga no amigo secreto do final de ano no último ano do ensino médio. De lá para cá, aprendi inglês o suficiente para escrever uma tese de doutorado e para entender os meandros poéticos da música do bardo canadense.

Neil Young está à beira dos 70 anos e eu na beirada dos 55. Apesar de ter visto apenas um show ao vivo dele na terceira edição do Rock in Rio, comprei quase tudo o que apareceu pela frente nesses últimos 37 anos. Agora me chegou às mãos o “Monsanto Years” que comprei na forma de pré-ordem na Amazon. Posso dizer como fã que as críticas sobre certas descontinuidades no álbum são corretas, mas passam ao largo do mais relevante. Monsanto Years não é um álbum qualquer de protesto, mas sim uma síntese do que Neil Young vem dizendo desde que ficou famoso ao tocar em Woodstock em 1969.

Essa faixa é “People want to hear about love” e critica a alienação dos que só querem ouvir músicas sobre amor, e esquecem do poder que as corporações sobre todos os aspectos de suas vidas. Poluição, petróleo, OGMs e agrotóxicos.

Rock on, Neil Young!

Neil Young e os filhos de Willie Nelson vão lançar um  álbum de protesto possivelmente chamado de “Os Anos da Monsanto”

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“Eu estou trabalhando em um novo álbum agora e que eu vou fazer com os filhos de Willie Nelson”, disse ele, em tom de brincadeira, sugerindo que ele daria o título ” Os anos da Monsanto”  para abordar a empresa agrícola contra a qual ele vem protestando durante anos. “É uma avaliação otimista da situação.”

Mas não é, necessariamente, uma piada?

Na quinta-feira  (16/04) à noite cerca de 400 fãs sortudos no SLO Brewing Co. testemunharam a nova banda de Young misturando a estréia do novo material com clássicos em San Luis Obispo. O quinteto tocou um total de dez novas canções, muitas das quais se uniram contra empresas como a Monsanto e Starbucks de acordo com relatos de fãs.

Aqui está a lista de canções que foram tocadas no SLO Brewing Co:

 1. Country Home
2. New Song 1 – People Want To Hear About Love ??*
3. New Song 2 – New Day For The Planet ??*
4. Down By The River
5. New Song 3 – Too Big To Fail ??*
6. New Song 4 – GMO-Starbucks ??*

7. Walk On
8. New Song 5 – Monsanto ??*
9. New Song 6 – I Don’t Know You ??*
10. New Song 7 – Seeds ??*
11. Everybody Knows This Is Nowhere
12. Wolf Moon*
13. Love And Only Love
14. New Song 9*
15. New Song 10*
16. Country Home

FONTE: https://www.minds.com/blog/view/436555171724529664/neil-young-and-willie-nelson039s-sons-releasing-protest-album-possibly-called-the-monsanto-years

Neil Young lidera boicote à Starbucks por causa de ataque à rotulagem de transgênicos. E no Brasil, cadê a classe “artística”

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Um dos muitos detalhes que poucos conhecem sobre a minha vida pessoal é que sou um fã declarado do roqueiro canadense Neil Young desde que eu descobri o seu primeiro disco em 1978. De lá para cá, Neil Young a carreira de Young andou em altos e baixos, e a minha vida também. Mais razão ainda para eu me dedicar a ouvir a música que ele produz, pois junta um quê de crítica social, momentos depressivos, e até eventos de morte violenta.

Mas um detalhe que não é muito divulgado é que Neil Young não faz propaganda para grandes corporações como a Coca-Cola e a Pepsi Cola. Além disso, Neil Young vem desenvolvendo desde 1985 junto com Willy Nelson, John Mellencamp e outros artistas um projeto chamado “Farm Aid” cujo mote principal é levantar recursos para ajudar agricultores familiares a manterem suas propriedades (Aqui!).

Além dessa presença no campo do apoio à agricultura familiar, Neil Young também na luta contra os transgênicos e seu uso na alimentação humana. A última “vítima” dessa ação ativa de Neil Young é a rede Starbucks que se juntou à corporação dos venenos Monsanto para impedir a rotulagem de alimentos no estado norte-americano de Vermont (Aqui!). Segundo o que declarou à Revista Rolling Stone, ele vai parar de tomar seu “latte” na Starbucks pelo fato da empresa estar unida à Monsanto num processo que visa impedir o público de saber se há transgênico ou não na comida ou bebida que estão sendo ingeridas. 

Passando para nosso lado do Equador, não deixa de ser curioso de notar que artistas como Roberto Carlos, Toni Ramos tem se empenhando em justamente em nos empurrar a carne que a JBS Friboi reserva para o mercado interno, enquanto abastece o resto do mundo com suas melhores carnes. E, sim, não custa lembrar o que anda fazendo o roqueiro decadente Lobão em suas marchas “pela democracia”.

Assim, já que não dá para esperar muito dos artistas, que tal pararmos de gastar fortunas num copo de café na Starbucks até que eles façam a rotulagem dos transgênicos que estão servindo no Brasil? Ou será que vai ser preciso trazer o Neil Young para boicotar a Starbucks também por aqui?