Flávio Bolsonaro e o comando de sua campanha continuam investindo nas promessas de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. Segundo informações divulgadas pelo UOL, o afastamento de integrantes da Corte já é apresentado por membros da campanha como um marco de um eventual governo. Enquanto isso, Rogério Marinho, coordenador da candidatura, defende uma mudança nas regras do Senado para facilitar o encaminhamento desses pedidos. O confronto institucional ocupa, assim, o lugar que deveria ser destinado à explicação de como pretendem governar o país.
Considero que essa insistência funciona como um “apito para cachorro”: uma mensagem que mobiliza a base bolsonarista, reativa ressentimentos e transforma o STF no inimigo em torno do qual todos devem cerrar fileiras. O conflito também cumpre uma função eleitoral conveniente: desvia a atenção das consequências materiais do programa econômico. A Folha de S.Paulo noticiou justamente que a campanha explora a crise do Supremo enquanto evita detalhar suas propostas econômicas. Minha leitura é que o barulho ajuda a dispensar explicações sobre quem pagará a conta do ajuste prometido.
É nesse terreno que os trabalhadores precisam concentrar sua atenção. A desvinculação dos reajustes das aposentadorias dos aumentos reais do salário mínimo foi atribuída a integrantes da campanha em publicação da CUT. Posteriormente, Adolfo Sachsida afirmou, conforme noticiou a Reuters, que a vinculação seria preservada. Essa negativa precisa ser registrada, mas também confrontada com compromissos claros: quais despesas serão cortadas, quais direitos serão preservados e como pretendem realizar o ajuste fiscal anunciado? O eleitor merece conhecer essas respostas antes de entregar seu voto.
O mesmo cuidado vale para a Previdência. Rogério Marinho sinalizou a intenção de promover outra revisão do sistema, mas os parâmetros dessa mudança permanecem sem esclarecimento suficiente. Não há confirmação sólida, nas fontes consultadas, de que aposentadorias aos 65 anos para mulheres e aos 70 para homens constituam uma proposta oficial da candidatura. Há, contudo, motivo para cobrar uma resposta inequívoca sobre o aumento das idades e o endurecimento das condições de acesso ao benefício. Deixar esse debate para depois da eleição significa pedir autorização para governar sem apresentar previamente o tamanho do sacrifício exigido.
Retirar dos benefícios os ganhos reais associados à valorização do salário mínimo significaria excluir aposentados dessa melhoria de renda. Elevar a idade de aposentadoria, por sua vez, imporia mais anos de trabalho a pessoas que já enfrentam desgaste físico, desemprego e dificuldade de permanecer no mercado formal. Para as mulheres, seria preciso considerar ainda a sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidado. Aquilo que aparece nas planilhas como contenção de despesas se traduz, na vida cotidiana, em menos proteção e mais insegurança.
Por isso, a resposta ao apito precisa trazer a discussão de volta ao salário, à aposentadoria, à jornada e aos serviços públicos. O STF deve estar sujeito ao escrutínio público, como qualquer instituição, mas transformar o impeachment de seus ministros em promessa central de campanha favorece uma eleição movida pelo ressentimento e esvazia o debate sobre direitos. Enquanto Flávio Bolsonaro aponta para o Supremo, cabe aos trabalhadores conferir o que seu grupo pretende fazer com o bolso e com o futuro de quem vive do próprio trabalho. O entusiasmo com a revanche pode acabar servindo de autorização para um novo ataque às condições de vida da maioria.
Até poucas horas atrás, a ausência de Lula no debate da TV Globo era tratada como uma oportunidade para Flávio Bolsonaro ocupar sozinho o centro do palco. À esquerda, a crítica era direta: ao trocar o confronto com os adversários por uma entrevista no Flow Podcast, Lula deixaria o espaço televisivo aberto para que seu principal concorrente reinasse sem contestação. A decisão do TSE alterou esse roteiro. A ministra Estela Aranha proibiu a exibição do púlpito vazio reservado a Lula e também que os candidatos presentes lhe dirigissem perguntas, por entender que isso permitiria ataques sem resposta no próprio debate. Flávio Bolsonaro anunciou então que não participaria, chamando a decisão de censura.
O episódio teve outro elemento judicial decisivo. O TSE autorizou a participação de Romeu Zema, do Novo, considerando a composição atual da bancada do partido. Renan Santos, do Missão, também tentou entrar no debate, mas seus pedidos foram rejeitados pelo TSE e pelo STF. A ausência de Lula, portanto, não abriu automaticamente uma vaga para Renan: a emissora tinha liberdade para convidar outro candidato, mas não obrigação de fazê-lo.
O resultado é um roteiro que ninguém parecia ter previsto: Lula estará fora do estúdio, mas terá uma entrevista no Flow na mesma noite; Flávio, que inicialmente pretendia comparecer e explorar a ausência do presidente, agora também desistiu. O candidato que, segundo a leitura de seus estrategistas, poderia transformar o debate em confronto com Lula acabou sem o palco que esperava — e, ao menos por enquanto, com um vazio na agenda pública a poucos dias do primeiro turno.
A cadeira que a Rede Globo não poderá mostrar para representar a ausência de Lula acabou ganhando uma irmã: a cadeira que ficará vazia porque Flávio Bolsonaro desistiu de comparecer. A emissora terá de se contentar com um debate que não reunirá nenhum dos dois principais candidatos à Presidência — um verdadeiro debate de candidaturas anãs, esvaziado justamente quando deveria concentrar a atenção do eleitorado. A ironia é que Flávio, que pretendia fazer da ausência de Lula o eixo de sua atuação, retirou-se depois que as condições do debate mudaram. Lula estará em outro palco, no Flow Podcast; Flávio, por ora, não estará em palco algum.
Isso não significa que a decisão de Lula esteja acima de crítica. Debates públicos são espaços importantes de prestação de contas, e o presidente poderia ter escolhido enfrentar diretamente seus adversários. Mas também é preciso reconhecer que ele não desapareceu da cena: optou por outro formato de comunicação, com grande alcance digital, enquanto a campanha adversária avaliou que o debate seria uma oportunidade de concentrar ataques sobre sua ausência. O eleitor terá de julgar as duas escolhas — comparecer a um podcast ou a um debate, e desistir de um confronto depois que suas condições mudaram.
Há aqui uma ironia política evidente. A cadeira vazia de Lula, que em 2006 foi exibida pela Globo e se converteu em poderosa imagem de campanha contra o então presidente, não poderá ser reproduzida neste debate. A decisão judicial limita a capacidade da emissora de transformar a ausência em peça visual e impede que os candidatos façam do presidente ausente um interlocutor fictício, sem direito de resposta. Flávio, que parecia contar com esse recurso, decidiu não comparecer.
O episódio revela, ainda, uma transformação mais ampla na política brasileira. A Globo continua sendo uma organização de enorme alcance e capacidade de pautar o debate público, mas já não controla sozinha o palco, o formato e a audiência da disputa. Um candidato pode trocar seu debate por um podcast; decisões judiciais podem alterar as regras do espetáculo; e um concorrente pode abandonar o programa quando percebe que o roteiro previsto deixou de funcionar. Em um passado não distante, seria difícil imaginar que o debate final da maior emissora do país perdesse, na véspera, os dois candidatos mais votados nas pesquisas.
A democracia brasileira aparece, nesse episódio, ao mesmo tempo resistente e vulnerável. Resistente porque há regras eleitorais, contestação judicial e limites à tentativa de converter a ausência de um candidato em arma unilateral de campanha. Vulnerável porque a discussão programática cede lugar à disputa por formatos, vantagens de imagem e controle da narrativa; porque os principais candidatos podem evitar o confronto direto; e porque decisões judiciais, ainda que fundamentadas, passam a definir em tempo real o desenho de um dos espaços mais visíveis da campanha.
No fim, a cadeira que não poderá ser mostrada acabou expondo outra ausência: a de um debate político capaz de reunir os principais concorrentes diante do eleitorado. A Globo terá uma cadeira a menos — a de Flávio Bolsonaro — e um debate sem Lula e sem Flávio, reduzido às candidaturas que restaram no estúdio. O fato de a emissora já não conseguir garantir esse encontro como acontecimento central talvez seja o sinal mais eloquente de que o sistema político e comunicacional brasileiro mudou. Resta saber se essa mudança amplia a pluralidade democrática ou apenas fragmenta ainda mais a esfera pública.
Entre whisky caro, cifras milionárias, ministros, parlamentares e um estranho Cavalo de Troia chamado Dark Horse, o caso Master expõe as entranhas de um poder que cobra moralidade dos pobres enquanto festeja longe deles
Os últimos acontecimentos envolvendo Daniel Vorcaro são reveladores da forma como funciona o Brasil do andar de cima. As revelações envolvem não apenas ministros do STF, mas alcançam também membros estrelados do Congresso Nacional. As cifras arroladas são consideráveis, e a mistura de personagens é de impressionar até quem observa o que acontece nos palácios e tribunais com um mínimo de distanciamento crítico.
Entre as coisas que saltam aos olhos, o que mais me chama a atenção é que todos os purismos e reservas cobrados dos pobres em termos de etiqueta e comportamento não são absolutamente seguidos por quem pode participar de festas luxuosas, regadas a whisky caro e frequentadas por jovens mulheres que certamente sabem o tipo de entretenimento que se espera delas.
O que realmente importa é que muitas das relações e decisões que agora deixam ministros do STF em um emaranhado de situações embaraçosas para quem diz prezar o decoro público eram mais do que conhecidas pela classe política que, não raras vezes, era copartícipe das festinhas — vamos chamá-las assim — que Daniel Vorcaro promovia para atrair os incautos, que depois se tornavam parceiros, tal como moscas são parceiras das aranhas enquanto balançam presas em suas teias.
Mas o que realmente importa para mim é que todos esses acontecimentos burlescos nos ajudam a entender como certas decisões claramente danosas para o país e para a maioria da população são aprovadas pelo Congresso Nacional e depois mantidas pelos tribunais superiores. É muita convergência de interesses para que haja algum desvio do percurso que começa a ser traçado em festas para as quais o povo jamais é chamado a participar.
Uma nota especial deve ser reservada para a situação cada vez mais inexplicável que cerca o filme Dark Horse, que vai se mostrando um verdadeiro Cavalo de Troia para Flávio Bolsonaro. Uma pergunta que tenho visto poucos fazerem é por que Daniel Vorcaro teria interesse em investir pelo menos R$ 61 milhões em um filme cuja marca maior seria trazer para dentro do projeto um ator cuja carreira já vinha em declínio, marcado por suas ligações com a extrema-direita e por escolhas ruins de casting. O que parece transparecer é que Vorcaro não estaria simplesmente apostando no retorno comercial de uma produção cinematográfica, mas mirando o futuro político, principalmente um futuro em que a família Bolsonaro voltasse a comandar o país. Diante do que já veio à tona, essa é a hipótese que me parece mais plausível a esta altura do campeonato.
Por outro lado, toda essa exposição do que agora aparece como as entranhas do poder político confere a Daniel Vorcaro um papel que ele provavelmente jamais almejou: o de uma espécie de médico-legista de um sistema político que está morto em pé. Quanto mais aparecem as relações construídas nos salões reservados, nas festas privadas e nos encontros entre personagens dos poderes político, econômico e judiciário, mais difícil fica sustentar a ficção de que determinadas decisões públicas são tomadas em ambientes impermeáveis aos interesses privados.
O problema agora é reconhecer que já passou da hora de ficarmos escolhendo entre o mal menor. É preciso assumir uma postura ativa em defesa da construção de uma nova ordem política em que esse tipo de festa de arromba se torne impossível, não por alguma súbita conversão moral daqueles que frequentam o andar de cima, mas pela postura ativa da maioria pobre e trabalhadora que, afinal, é quem produz a riqueza que torna este país um dos mais ricos do planeta.
Se Franz Kafka tivesse conhecido Brasília, talvez tivesse desistido da literatura por falta de imaginação, pois o caso do Banco Master está demonstrando que, no Brasil, realidade, ficção e sátira podem disputar uma corrida em que a realidade costuma vencer com vários corpos de vantagem.
No centro da história está Daniel Vorcaro, personagem que passou em poucos anos da relativa obscuridade ao seleto clube dos banqueiros capazes de circular pelos salões onde política, dinheiro e poder se encontram sem precisar marcar audiência. O crescimento do Master ocorreu em meio a uma extraordinária expansão de operações financeiras que agora estão sendo destrinchadas por investigadores e órgãos reguladores. A CVM acaba, inclusive, de condenar o Banco Master, Daniel Vorcaro e outros envolvidos por práticas fraudulentas ocorridas entre 2018 e 2019, período em que o grupo procurava viabilizar a aquisição do antigo Banco Máxima. Mais interessante ainda é que a história do Master atravessou governos e construiu relações em diferentes quadrantes políticos, confirmando que o dinheiro sofre de uma conhecida dificuldade para distinguir direita de esquerda.
A situação mudou quando apareceu a Polícia Federal e Daniel Vorcaro acabou preso quando se preparava para deixar o país em um avião privado, enquanto as investigações começaram a revelar uma impressionante rede de contatos envolvendo políticos, empresários e integrantes das instituições que deveriam fiscalizar justamente esse tipo de atividade. De repente, o Banco Master deixou de parecer apenas um banco com problemas e começou a adquirir a aparência de uma espécie de rede social VIP da República: quanto mais se investigava, mais gente importante aparecia.
No meio dessa história surgiu ainda o Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro confirmou ter procurado Daniel Vorcaro em busca de recursos para o filme e declarou que estava apenas fazendo aquilo que qualquer filho dedicado faria: procurando patrocínio privado para contar a história do pai. Segundo informações tornadas públicas, Daniel Vorcaro teria colocado R$ 61 milhões na produção, enquanto Flávio chegou a solicitar R$ 134 milhões. Convenhamos que é uma homenagem filial de proporções cinematográficas, pois há filhos que dão gravatas no Dia dos Pais, enquanto outros procuram banqueiros para levantar dezenas de milhões de reais.
O roteiro ficaria apenas curioso se Flávio Bolsonaro não estivesse agora disputando a Presidência da República apresentando-se como adversário da corrupção e utilizando justamente o escândalo Master como arma política. O homem que procurou Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre o pai transformou-se, por alguma maravilhosa alquimia eleitoral, em acusador das relações de terceiros com Daniel Vorcaro. O Dark Horse talvez ainda nem tenha chegado às telas, mas já poderia disputar o prêmio de melhor roteiro político adaptado.
Como toda boa produção brasileira sobre poder precisa chegar ao Supremo, eis que André Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. André Mendonça sustenta que relatórios produzidos pela PF representariam monitoramento ilegal e violação do Estado de Direito, mas existe um inconveniente político difícil de esconder debaixo do tapete: o próprio nome de André Mendonça apareceu no emaranhado de relações que as investigações do caso Master passaram a escrutinar. Temos, portanto, uma situação extraordinária em que integrantes da instituição investigadora produziram informações envolvendo autoridades e uma dessas autoridades participou da decisão que afastou justamente o chefe da instituição investigadora.
Não é necessário acusar ninguém de crime para perceber o tamanho do problema institucional, pois a questão deixou de ser apenas aquilo que cada autoridade fez ou deixou de fazer e passou a envolver algo muito mais elementar: quem investiga os investigadores, quem investiga os julgadores e, sobretudo, quem julga quando o próprio julgador aparece no universo dos fatos investigados?
Talvez essa seja a grande contribuição histórica do Banco Master, pois Daniel Vorcaro conseguiu produzir uma espécie de teste de estresse da República brasileira. Ao puxar um fio, apareceram banqueiros, políticos, ministros, advogados, empresários, contratos milionários, relações pessoais e até uma superprodução cinematográfica sobre Jair Bolsonaro. O Master foi liquidado, mas sua verdadeira contabilidade talvez esteja apenas começando a ser conhecida, e não se trata daquela registrada nos balanços bancários, mas da contabilidade muito mais interessante das relações entre dinheiro e poder.
É precisamente nesse ponto que a sátira deixa de ser engraçada, porque o caso Master revela como parcelas das elites brasileiras circulam por uma zona onde negócios privados, relações políticas e instituições públicas parecem perigosamente próximas. As ideologias proclamadas diante das câmeras tornam-se surpreendentemente flexíveis quando as portas se fecham, permitindo que um banqueiro converse com gente situada em diferentes pontos do espectro político porque, nas alturas da República, talvez exista uma ideologia muito mais ecumênica do que aquelas apresentadas ao eleitorado: a proximidade com o dinheiro e com quem pode abrir portas.
Por isso, transformar o Master simplesmente em escândalo “do bolsonarismo”, “do lulismo”, “da direita” ou “da esquerda” pode acabar servindo justamente aos personagens que precisam ser investigados. O que emerge dessa história é algo estruturalmente mais desagradável: um sistema de relações entre dinheiro e poder capaz de atravessar governos, partidos e instituições, enquanto cada grupo tenta convencer a população de que Daniel Vorcaro só conhecia profundamente os integrantes do campo adversário.
Daniel Vorcaro talvez tenha começado essa história querendo construir um banco e terminado ajudando involuntariamente a produzir uma radiografia da República. O problema é que, diante do que começa a aparecer na chapa, o diagnóstico talvez não recomende simplesmente trocar o médico, mas examinar com muito mais cuidado o hospital inteiro.
A atuação de André Mendonça pode oferecer às defesas de Daniel Vorcaro um caminho para contestar a investigação e transformar um escândalo financeiro em uma crise de credibilidade das instituições brasileiras
O escândalo envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro parece estar entrando numa fase particularmente perigosa. Depois das revelações sobre a extensa rede de relações mantida pelo banqueiro com personagens situados nos estratos superiores da República, cresce agora a discussão sobre a possibilidade de que decisões tomadas pelo ministro André Mendonça tenham introduzido irregularidades capazes de provocar a anulação de parte da investigação.
A comparação que alguns analistas fazem com o caso Banestado é pertinente, ainda que os dois episódios não sejam juridicamente idênticos. Em 2020, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) anulou uma condenação relacionada ao Banestado por considerar que Sergio Moro ultrapassara os limites da atuação judicial e participara diretamente da produção de provas durante a investigação. O ponto central daquele julgamento foi relativamente simples: num sistema acusatório, investigar cabe à polícia e ao Ministério Público, enquanto ao juiz compete controlar a legalidade dos procedimentos, e não assumir o comando da investigação.
É precisamente por isso que a atuação de André Mendonça no caso Master desperta preocupação. As determinações para que a Polícia Federal aprofundasse determinados aspectos do material apreendido com Daniel Vorcaro levantaram questionamentos sobre os limites da atuação do relator. O procurador-geral Paulo Gonet chegou a pedir a nulidade de um relatório produzido pela PF a partir dessas determinações. Há, portanto, uma controvérsia processual real, e seria imprudente tratá-la simplesmente como uma manobra imaginária das defesas.
Isso não significa, entretanto, que todo o inquérito sobre o Banco Master esteja automaticamente condenado à anulação. Uma coisa é considerar ilegais determinadas ordens de André Mendonça e eventualmente invalidar o que foi produzido diretamente a partir delas; outra, muito diferente, seria destruir provas anteriormente obtidas de forma regular e independente. O perigo está no efeito dominó: uma primeira nulidade poderá oferecer às diversas defesas uma porta para questionar sucessivamente outros elementos da investigação.
Aqui o precedente do Banestado, somado à experiência posterior da Lava Jato, deveria servir de advertência. O Brasil parece ter desenvolvido um estranho ciclo no qual grandes escândalos produzem investigações excepcionais, a excepcionalidade leva autoridades a ultrapassarem limites processuais e, anos depois, justamente esses excessos fornecem os argumentos jurídicos para anulações. O resultado costuma ser perverso: muita revelação, enorme desgaste institucional e pouca responsabilização definitiva.
No caso Master, as consequências podem ser ainda maiores porque estamos em plena campanha eleitoral de 2026 e porque as relações de Daniel Vorcaro aparentemente atravessam diferentes campos políticos. Uma eventual anulação ampla seria imediatamente incorporada à disputa eleitoral. Para alguns, seria apresentada como prova de uma investigação politicamente orientada; para outros, como demonstração de que as instituições brasileiras são incapazes de investigar os muito ricos e suas relações com os poderosos. Em ambos os casos, quem perderia seria a credibilidade das instituições.
Mas talvez o problema mais sério esteja para além das eleições. O caso Master colocou sob os holofotes as relações entre o grande capital financeiro e setores importantes do sistema político, jurídico e institucional brasileiro. O STF, que deveria funcionar como árbitro final dessa crise, terminou ele próprio envolvido nela, seja pelas referências a ministros no material investigado, seja pela controvérsia sobre a condução do inquérito. Quando aqueles que precisam decidir sobre a legalidade de uma investigação aparecem simultaneamente dentro do universo político e institucional revelado por ela, surge inevitavelmente um problema de legitimidade.
Por isso, respeitar as garantias processuais não significa proteger Daniel Vorcaro ou qualquer outro investigado. É exatamente o contrário: quanto mais grave e politicamente sensível for uma investigação, mais rigorosamente ela precisa obedecer às regras, justamente para impedir que erros cometidos pelos investigadores ou magistrados acabem se transformando na melhor estratégia de defesa dos investigados.
O pior desfecho possível para o caso Master seria termos uma enorme quantidade de revelações sobre as relações entre dinheiro e poder e, ao final, assistirmos à investigação desaparecer num labirinto de nulidades processuais. Isso reforçaria uma percepção extremamente corrosiva para qualquer democracia: a de que as instituições brasileiras conseguem aplicar todo o rigor da lei sobre os cidadãos comuns, mas começam a apresentar dificuldades extraordinárias quando precisam investigar aqueles que circulam pelos gabinetes mais importantes da República.
Se isso acontecer, o problema deixará de ser apenas Vorcaro ou o Banco Master. A pergunta que permanecerá depois das eleições de 2026 será muito mais incômoda: o Estado brasileiro ainda consegue investigar o andar de cima quando o andar de cima alcança as próprias instituições responsáveis pela investigação?
O escândalo do Banco Master começa a mostrar que o verdadeiro privilégio dos muito ricos talvez não seja apenas possuir dinheiro, mas ter acesso direto a quem exerce o poder
O imbróglio envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master parece estar longe de terminar, pois praticamente a cada nova rodada de informações surge algum elemento capaz de ampliar ainda mais a dimensão política de um caso que começou como um gigantesco escândalo financeiro. O que inicialmente poderia ser visto como mais um episódio envolvendo operações bancárias suspeitas começa a oferecer uma oportunidade particularmente reveladora para observar como funcionam as relações entre dinheiro e poder no Brasil.
As informações que vieram a público nos últimos dias são especialmente perturbadoras. Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro teria mantido pelo menos seis encontros com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, entre 2024 e 2025, chegando, dois dias antes de ser preso, a enviar uma mensagem perguntando se deveria deixar o país. As respostas eventualmente enviadas por Moraes não foram recuperadas pela investigação, o que impede qualquer conclusão sobre o conteúdo efetivo dessas conversas, mas o simples fato de um banqueiro que posteriormente seria preso possuir tamanho grau de acesso a um ministro do STF já deveria provocar alguma reflexão sobre a forma como as elites econômicas circulam pelas estruturas superiores do Estado brasileiro.
A situação fica ainda mais complicada quando lembramos que o Banco Master havia firmado um contrato que poderia alcançar R$ 131 milhões com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Segundo as informações divulgadas, documentos apreendidos pela Polícia Federal indicariam que o próprio ministro teria participado da análise do contrato, enquanto o escritório sustenta que sua participação teria se limitado à verificação da inexistência de impedimentos à contratação. Evidentemente, nada disso permite concluir automaticamente pela existência de qualquer ilegalidade, mas também seria ingenuidade imaginar que relações envolvendo dezenas ou centenas de milhões de reais e pessoas situadas no topo da estrutura institucional brasileira sejam politicamente irrelevantes.
Como se esse quadro já não fosse suficientemente espinhoso, agora sabemos que Daniel Vorcaro também esteve pessoalmente com outro ministro do Supremo Tribunal Federal. André Mendonça confirmou ter recebido o banqueiro em março de 2025 para tratar de uma questão relacionada a precatórios de interesse do Banco Master e afirma que apenas ouviu Vorcaro, acrescentando que sua atuação posterior teria sido contrária aos interesses defendidos pelo banqueiro. O fato ganhou uma dimensão adicional porque Mendonça é hoje justamente o relator das investigações envolvendo o Banco Master no STF, situação que não demonstra por si mesma qualquer irregularidade, mas inevitavelmente aumenta a necessidade de transparência sobre as circunstâncias e o conteúdo desses contatos.
É preciso deixar claro que ter conversado com Daniel Vorcaro não transforma automaticamente ninguém em participante de qualquer atividade ilegal, assim como conhecer ou receber um empresário não constitui crime. Entretanto, talvez estejamos fazendo a pergunta errada se ficarmos apenas tentando descobrir se cada encontro, jantar, telefonema ou mensagem configura individualmente algum delito, pois a questão politicamente mais interessante é entender como um banqueiro conseguiu construir uma rede de acesso que aparentemente alcançava alguns dos personagens mais poderosos da República.
Os tentáculos dessa história tampouco parecem terminar no Supremo Tribunal Federal, pois outra revelação particularmente saborosa envolve o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro, que negociou com Vorcaro recursos para financiar Dark Horse, um filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro. Segundo as informações publicadas pela imprensa, o projeto poderia receber até US$ 24 milhões, algo em torno de R$ 134 milhões na cotação da época, dos quais aproximadamente R$ 61 milhões teriam efetivamente sido aportados. Flávio Bolsonaro reconheceu que procurou Vorcaro em busca dos recursos, mas sustenta que se tratava simplesmente de um investimento privado numa produção cinematográfica.
Ainda que se aceite essa explicação, permanece uma questão que atravessa todo o caso: não é qualquer brasileiro que consegue telefonar para um banqueiro e discutir algumas dezenas de milhões de reais para financiar um filme sobre o próprio pai, da mesma forma que não é qualquer empresário que consegue chegar diretamente a ministros do Supremo Tribunal Federal para discutir assuntos de seu interesse. É justamente quando juntamos essas diferentes peças que o caso Vorcaro deixa de parecer apenas uma sucessão de episódios curiosos e começa a revelar algo estrutural sobre o funcionamento do poder no Brasil.
Existe o Brasil das instituições formais, onde cidadãos precisam preencher formulários, protocolar requerimentos, esperar meses por respostas administrativas, contratar advogados e atravessar anos de processos judiciais para fazer valer direitos relativamente elementares. Paralelamente, parece existir outro Brasil, onde pessoas suficientemente ricas conseguem circular por gabinetes, escritórios, restaurantes e residências frequentados pelos integrantes das camadas superiores do poder político, econômico e judicial, estabelecendo um tipo de interlocução com o Estado que permanece simplesmente inacessível para a esmagadora maioria da população.
Talvez esteja justamente aí uma das formas menos discutidas da desigualdade brasileira. Quando pensamos em desigualdade, normalmente lembramos da concentração de renda, da pobreza, das diferenças salariais ou da distribuição profundamente desigual da propriedade, mas existe também uma desigualdade de acesso ao Estado, na qual milhões de brasileiros encontram diante de si balcões, protocolos e burocracias enquanto uma pequena parcela da população parece dispor de números de telefone, intermediários e relações pessoais capazes de abrir portas que permanecem hermeticamente fechadas para quase todos os demais.
Não é necessário encontrar uma mala de dinheiro sobre uma mesa para reconhecer que existe um problema democrático nessa situação, pois o poder econômico também se transforma em poder político por meio da capacidade de estabelecer relações, financiar projetos, contratar escritórios influentes, organizar encontros e fazer com que determinados interesses cheguem rapidamente aos ouvidos daqueles que possuem capacidade para tomar decisões. O problema, portanto, não começa necessariamente quando se comprova uma propina, mas muito antes, quando percebemos que alguns grupos possuem condições extraordinariamente superiores para colocar seus interesses diante daqueles que controlam as engrenagens do Estado.
Por isso, talvez o maior erro neste momento seja transformar Daniel Vorcaro em personagem de mais uma disputa infantil entre esquerda e direita, pois tudo o que começa a aparecer sugere justamente o contrário. O banqueiro aparentemente sabia circular por diferentes ambientes políticos e institucionais, mantendo relações com personagens que dificilmente poderiam ser colocados dentro de uma mesma caixinha ideológica, algo que não deveria surpreender ninguém porque o grande capital raramente possui fidelidades políticas permanentes. Governos mudam, partidos alternam-se e ministros chegam e vão embora, enquanto os interesses econômicos continuam procurando as portas pelas quais possam chegar aos centros onde decisões importantes são tomadas.
É justamente por isso que o caso Banco Master poderá terminar sendo muito mais importante do que Daniel Vorcaro. O banqueiro poderá ser condenado ou absolvido das diferentes acusações que hoje pesam sobre ele, e as investigações ainda terão de esclarecer até onde chegaram suas relações e se alguma delas resultou efetivamente em favorecimentos, mas aquilo que já apareceu oferece material suficiente para uma reflexão que deveria interessar a qualquer pessoa preocupada com a qualidade da democracia brasileira.
Nesse sentido, a pergunta que precisamos fazer não é apenas quem Daniel Vorcaro conhecia, mas como ele chegou a conhecer tanta gente poderosa, por que tantas portas estavam abertas para recebê-lo e o que exatamente circulava por essas portas além do próprio banqueiro. Se as investigações confirmarem que favores públicos foram concedidos em decorrência dessas relações privadas, estaremos diante de um problema criminal de enormes proporções; entretanto, mesmo que nenhuma dessas relações venha individualmente a configurar crime, continuará existindo uma questão política difícil de ignorar, que é a existência de uma República onde o acesso aos centros de decisão parece variar brutalmente conforme o tamanho da conta bancária de quem bate à porta.
Daniel Vorcaro pode, assim, acabar prestando ao Brasil um serviço que certamente não pretendia prestar, pois ao deixar exposta sua extraordinária rede de relações está permitindo que enxerguemos um pouco melhor os corredores laterais pelos quais circulam dinheiro, influência e poder no país. E talvez seja justamente por esses corredores, longe dos balcões, protocolos e filas onde espera a maioria dos brasileiros, que possamos compreender como uma parte importante da República realmente funciona.
Em matéria publicada pelo ClimaInfonesta quarta-feira (12), somos informados de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que contém uma contradição difícil de ignorar. Ao mesmo tempo em que a Corte reconheceu a validade da Moratória da Soja e determinou o encerramento de processos que questionavam o acordo sob alegações de irregularidade concorrencial, considerou legítimas leis estaduais que retiram benefícios fiscais de empresas que participam desse mecanismo de proteção ambiental.
Em outras palavras, o STF reconheceu que a Moratória da Soja é legítima, mas permitiu que governos estaduais criem mecanismos econômicos capazes de punir as empresas que decidam continuar participando dela. A decisão produz, assim, uma situação paradoxal: preserva-se formalmente um dos mais importantes instrumentos privados de combate ao desmatamento associado à expansão da soja na Amazônia, enquanto se legitima a utilização do poder público para aumentar o custo econômico de participar dele.
O problema se torna ainda mais grave quando essa decisão é confrontada com as evidências científicas acumuladas sobre o agravamento da crise climática. O desmatamento das florestas tropicais não representa apenas perda de biodiversidade. A remoção da vegetação libera carbono, reduz a capacidade dos ecossistemas de armazená-lo e interfere na evapotranspiração e na reciclagem da umidade, afetando o funcionamento do sistema climático regional. Na Amazônia, a continuidade desse processo ameaça progressivamente a própria capacidade da floresta de sustentar seu regime climático e hidrológico.
No Cerrado, onde a Moratória da Soja não se aplica, o avanço da fronteira agropecuária sobre a vegetação nativa também representa uma ameaça crescente à biodiversidade, aos recursos hídricos e à estabilidade climática. Aliás, no mesmo dia em que publicou a matéria sobre a decisão do STF, o ClimaInfo noticiou novos dados do MapBiomas mostrando o avanço do agro e a redução da vegetação nativa brasileira.
É justamente nesse contexto que a Moratória da Soja precisa ser avaliada. Criada em 2006, ela estabeleceu um mecanismo pelo qual grandes empresas passaram a se comprometer a não adquirir soja produzida em áreas da Amazônia desmatadas depois da data de referência estabelecida pelo acordo. Ao separar, ao menos parcialmente, a expansão da soja da derrubada direta da floresta amazônica, a Moratória demonstrou que cadeias produtivas podem ser submetidas a critérios ambientais mais rigorosos do que aqueles estabelecidos pelo mínimo exigido pela legislação.
É exatamente aí que reside um dos aspectos mais preocupantes da decisão do STF. Existe uma diferença fundamental entre os estados estabelecerem critérios para a concessão de benefícios fiscais e utilizarem esses instrumentos para penalizar empresas justamente porque elas decidiram adotar compromissos ambientais. O precedente pode contribuir para transformar a legislação ambiental brasileira não em um piso mínimo de proteção, sobre o qual empresas e cadeias produtivas poderiam estabelecer compromissos mais ambiciosos, mas em uma espécie de teto ambiental, acima do qual comportamentos empresariais ambientalmente mais responsáveis poderiam ser economicamente desestimulados.
Uma decisão que ignora o Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade
A gravidade dessa contradição fica ainda mais evidente quando lembramos um tema que tratei recentemente aqui no Blog do Pedlowski: o Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade(World Scientists’ Warning to Humanity: A Third Notice).
O documento, elaborado por William Ripple, Christopher Wolf, Johan Rockström e diversos outros pesquisadores, dá continuidade aos grandes alertas científicos dirigidos à humanidade em 1992 e 2017. Desta vez, porém, o diagnóstico é ainda mais contundente: os autores concluem que a Terra já se encontra em um estado de emergência planetária, provocado pela combinação entre mudança climática, perda de biodiversidade, degradação das terras e das águas, poluição e padrões insustentáveis de produção e consumo. O alerta destaca ainda que sete dos nove limites planetários já foram ultrapassados, aumentando os riscos de mudanças de grande escala e potencialmente irreversíveis no sistema terrestre.
Entre as seis grandes transformações propostas pelos cientistas está justamente algo que deveria orientar decisões públicas no Brasil: proteger e restaurar a natureza. O documento afirma que a proteção imediata dos ecossistemas ainda intactos e a restauração daqueles já degradados são essenciais para a estabilidade do sistema terrestre e para o bem-estar humano. Florestas e outros ecossistemas não são, portanto, obstáculos ao desenvolvimento econômico, mas componentes fundamentais da regulação climática, da disponibilidade de água, da conservação da biodiversidade e da própria manutenção das condições que tornam nossas sociedades possíveis.
Sob essa perspectiva, a decisão do STF parece caminhar precisamente na direção contrária ao alerta lançado pelos cientistas. Se estamos diante de uma emergência planetária e se uma das respostas consideradas indispensáveis é fortalecer a proteção dos ecossistemas naturais, como justificar que governos possam utilizar incentivos fiscais justamente para desestimular empresas que voluntariamente adotam mecanismos adicionais de combate ao desmatamento?
Não se trata, portanto, apenas de uma discussão jurídica sobre livre iniciativa, concorrência ou autonomia tributária dos estados. Existe uma questão ambiental muito maior. O Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade afirma que a deterioração ambiental continuou avançando desde os alertas anteriores e que a margem disponível para ações corretivas tornou-se menor. Os autores também advertem que a emergência planetária persiste não por falta de conhecimento científico, mas pela incapacidade dos sistemas econômicos e políticos de se ajustarem aos limites físicos e ecológicos do planeta.
A decisão sobre a Moratória da Soja oferece um exemplo quase didático desse problema.
E tudo isso acontece sob um El Niño muito forte
Há ainda um componente que torna o momento particularmente preocupante. Estamos atravessando um período de forte influência do El Niño, fenômeno que pode amplificar extremos climáticos e agravar situações de calor, seca e risco de incêndios em partes do território brasileiro.
Nesse cenário, enfraquecer economicamente mecanismos destinados a impedir a conversão de vegetação nativa equivale a aumentar deliberadamente nossa exposição aos efeitos de uma crise climática que já está em curso. Amazônia e Cerrado cumprem funções fundamentais na regulação climática e hidrológica da América do Sul. Continuar permitindo que interesses econômicos imediatos prevaleçam sobre mecanismos destinados a conter sua destruição significa ampliar os riscos que recaem sobre toda a sociedade. Por isso, há algo profundamente inquietante nessa decisão. Enquanto os cientistas aumentam o volume do alarme, parte das instituições brasileiras parece continuar operando como se ainda dispuséssemos de décadas para decidir o que fazer. Não dispomos. O Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade é explícito ao afirmar que a emergência planetária já está acontecendo e que as decisões tomadas nos próximos anos serão determinantes para definir se conseguiremos estabilizar o sistema terrestre ou se avançaremos em direção a transformações cada vez mais difíceis de controlar.
Nesse contexto, a contradição criada pelo STF é difícil de esconder: a Corte reconheceu a legitimidade da Moratória da Soja, mas também legitimou instrumentos capazes de contribuir para torná-la economicamente inviável. A floresta, entretanto, não responde a sutilezas jurídicas. Quando os mecanismos de proteção são enfraquecidos e o desmatamento avança, as consequências aparecem concretamente na forma de emissões de carbono, perda de biodiversidade, alterações no ciclo hidrológico, temperaturas mais elevadas e maior vulnerabilidade a secas e incêndios.
Em plena emergência climática, sob a influência de um El Niño muito forte e poucos dias depois de cientistas de diferentes partes do mundo emitirem seu terceiro grande aviso à humanidade, permitir que governos penalizem economicamente quem adota mecanismos adicionais de proteção das florestas equivale a jogar com fogo. E, quando estamos falando da Amazônia e do Cerrado, essa expressão corre o risco de ser muito mais literal do que gostaríamos.
Árvores margeiam o rio Oiapoque, na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, em Oiapoque, estado do Amapá, Brasil, 10 de março de 2026. (Foto AP/Eraldo Peres, Arquivo)
Por Gabriela Sá Pessoa para “Associated Press”
SÃO PAULO (AP) — O Supremo Tribunal Federal do Brasildeve analisar nos próximos dias uma série de casos que podem reformular as proteções à floresta amazônica e àscomunidades indígenasque dependem dela.
Os casos abrangem desde direitos territoriais indígenas, retrocessos recentes em salvaguardas ambientais e projetos de infraestrutura. Apesar de suas diferenças, compartilham um caminho comum até chegarem ao tribunal.
Nos últimos anos, um Congresso majoritariamente conservador aprovou medidas que, segundo ambientalistas, violam direitos constitucionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujo governo tem priorizado uma agenda ambiental, vetou algumas medidas por completo e partes de outras.
Mas os legisladores ignoraram essas objeções, e as disputas acabaram chegando ao Supremo Tribunal Federal, que os defensores do meio ambiente consideram cada vez mais a última linha de defesa contra o enfraquecimento das proteções ambientais no Brasil.
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva discursa durante uma coletiva de imprensa na COP30, a Cúpula do Clima da ONU, em 19 de novembro de 2025, em Belém, Brasil. (Foto AP/Andre Penner, Arquivo)
“O governo é muito fraco na arena legislativa”, disse Suely Araújo, coordenadora de políticas do Observatório do Clima, uma rede de organizações ambientais sem fins lucrativos. “Frequentemente se opõe a projetos de lei antiambientais, mas não tem força política para persuadir o Congresso a votar a favor deles.”
O agronegócio exerce considerável influência no Congresso
O governo Lula não só está em minoria no Congresso, como também tem menos poder de negociação do que os governos brasileiros anteriores. Nos últimos anos, os parlamentares têm conquistado maior controle sobre o orçamento federal, uma ferramenta fundamental de negociação política.
O agronegócio, um dos setores econômicos mais poderosos do Brasil, também detém a maioria no Congresso e impulsionou medidas que enfraquecem as proteções ambientais. Como resultado, o Supremo Tribunal Federal (STF) surgiu como um mecanismo de controle do Congresso, ajudando a preservar partes da agenda ambiental de Lula quando os parlamentares pressionam na direção oposta.
O gabinete do chefe de gabinete do presidente, que coordena as relações do governo com o Congresso, afirmou em comunicado à Associated Press que não comentaria casos pendentes no Supremo Tribunal.
O Brasil é o maior produtor mundial de soja e carne bovina. Embora a maior parte da carne bovina brasileira seja consumida internamente, a maior parte da soja é exportada. De janeiro a julho de 2026, a China, maior parceiro comercial do Brasil, comprou 50% das exportações de carne bovina e 70% das exportações de soja do país, segundo dados oficiais de comércio exterior.
Uma área da floresta amazônica fica ao lado de plantações de soja em Belterra, estado do Pará, Brasil, em 30 de novembro de 2019. (Foto AP/Leo Correa, Arquivo)
A expansão da fronteira agrícola do Brasil, particularmente para a pecuária e a produção de soja, é a principal causa dodesmatamentono país , grande parte dele na Amazônia.
A Frente Agrícola Parlamentar não respondeu ao pedido de comentário. Grupos do agronegócio afirmam há tempos que se opõem ao desmatamento ilegal e apontam para o aumento da produtividade agrícola, mesmo com a redução do desmatamento.
Proteger a floresta tropical é fundamental para combater as mudanças climáticas. A Amazônia ajuda a regular o clima e os padrões de chuva, além de armazenar vastas quantidades de carbono que, se liberadas, poderiam acelerar ainda mais o aquecimento global.
Moldando o futuro das terras indígenas
Na sexta-feira, o Supremo Tribunal Federal do Brasil começou a analisar as moções finais que buscavam esclarecimentos sobre uma decisão de 2025 que rejeitou a tese do “Marco Temporal”, uma teoria jurídica apoiada pela bancada do agronegócio que restringiria as reivindicações territoriais indígenas aos territórios que eles ocupavam ou que estavam sob disputa judicial quando a Constituição entrou em vigor em 5 de outubro de 1988.
Os defensores da medida afirmam que o prazo final oferece segurança jurídica aos proprietários de terras. Grupos indígenas argumentam que ele ignora décadas de expulsões e deslocamentos forçados, particularmente durante a expansão agrícola do Brasil no século XX.
Os juízes estão analisando as moções apresentadas pelo governo, partidos políticos, agricultores e organizações indígenas, com votações previstas para 18 de agosto. Entre outras questões, espera-se que abordem as regras de indenização e os possíveis prazos para a conclusão da demarcação de terras indígenas.
Ricardo Terena, advogado da organização de defesa dos direitos indígenas Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, afirmou que algumas das propostas poderiam efetivamente paralisar futuras demarcações, adicionando entraves administrativos e ampliando os direitos de indenização para ocupantes não indígenas, permitindo que permaneçam em terras disputadas até que o pagamento seja efetuado.
O povo indígena Kawahiva, que permanece isolado e sem contato com outras comunidades na Amazônia, é uma das muitas que podem ser afetadas pelo processo. As autoridades confirmaram sua presença no estado do Mato Grosso em 1999, mas só concluíram a demarcação física de seu território, mapeando-o no início deste mês.
Segundo a organização sem fins lucrativos Survival International, os Kawahiva remanescentes são caçadores-coletores nômades que sobreviveram a ataques e doenças e continuam evitando o contato com pessoas de fora.
Outros dois casos que podem remodelar a governança da Amazon
Na quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal do Brasil também deverá analisar outros dois conjuntos de casos importantes: leis estaduais que levaram ao fim da moratória da sojae uma nova lei de licenciamento ambientalque acelerou a aprovação de projetos de infraestrutura estratégicos.
Em janeiro, as principais empresas de comércio de grãos se retiraram da moratória da soja, um pacto de quase 20 anos creditado por reduzir o desmatamento da Amazônia ao proibir o cultivo de soja em terras desmatadas. O acordo ruiu depois que os principais estados produtores de soja aprovaram leis revogando os benefícios fiscais para as empresas participantes. O juiz Flávio Dino emitiu uma liminar suspendendo temporariamente a legislação estadual, e o tribunal pleno agora analisará sua decisão.
Também nesta quarta-feira, o tribunal deverá analisar uma contestação à nova lei de licenciamento ambiental que entrou em vigor em fevereiro. A lei agiliza a emissão de licenças para projetos de grande impacto, incluindo minas, rodovias e instalações industriais.
Araújo, do Observatório do Clima, afirmou esperar que a Suprema Corte derrube pelo menos as disposições da lei que os ambientalistas consideram mais claramente inconstitucionais, incluindo aquelas que permitem a autolicenciamento para projetos com impactos ambientais moderados. Ela acrescentou que a lei já está tendo consequências tangíveis na Amazônia, citando apavimentação de uma rodovia controversae os planos de dragagem de um importante riosem a devida avaliação ambiental prévia.
O Ministério do Meio Ambiente defendeu a moratória da soja, afirmando que ela ajudou a reduzir o desmatamento na Amazônia, mesmo com a expansão da produção brasileira. Sobre a lei de licenciamento ambiental, o ministério disse que o governo tentou vetar as disposições consideradas problemáticas e que continua preocupado em manter os padrões mínimos nacionais.
“O Brasil precisa de um sistema de licenciamento ambiental mais eficiente, previsível, tecnicamente robusto e capaz de enfrentar os desafios de uma economia que precisa expandir os investimentos em infraestrutura, ao mesmo tempo que enfrenta as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade”, afirmou o ministério.
___
A cobertura da Associated Press sobre clima e meio ambiente recebe apoio financeiro de diversas fundações privadas. A AP é a única responsável por todo o conteúdo. Encontreos padrõesda AP para trabalhar com organizações filantrópicas, uma lista de apoiadores e áreas de cobertura financiadas emAP.org .
Gabriela Sá Pessoa trabalha como correspondente da Associated Press na região da Amazônia brasileira. Ela reside em São Paulo, Brasil.