Dias Toffoli e a cuspida no prato que se comeu

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O ministro José Antonio Dias Toffoli construiu sua, digamos, carreira nas asas do Partido dos Trabalhadores. Sua indicação ao Supremo Tribunal Federal pelo hoje aprisionado ex-presidente Lula foi motivo de escárnio.  Em março de 2007, foi nomeado por Lula para o cargo de advogado-geral da União, função que exerceu até outubro de 2009, quando foi então nomeado para o Supremo Tribunal Federal, deixando para trás juristas mais renomados, mas não tão alinhados ao PT.

Agora, oito anos depois, Dias Toffoli se mostra um militante político a serviço dos que querem destruir Lula e impedir a vitória de Fernando Haddad para presidir o Brasil.  Demonstrar isso talvez seja o único mérito da chicana em que se transformou o veto à decisão monocrática do também ministro Ricardo Lewandowski que havia autorizado uma entrevista com Lula no seu cárcere na Polícia Federal de Curitiba.

Mais do que uma cuspida no prato que o alçou a um lugar que sozinho provavelmente não teria capacidade de chegar, a decisão de Dias Toffoli marca um momento bastante marcante na opção que as elites brasileiras parecem estar fazendo por ter um presidente protofascista que aprofunde a desnacionalização da economia brasileira, nem que isto signifique a eliminação de quaisquer garantias individuais no Brasil.

Para o PT deveria ficar a lição de que não se mexe nas estruturas pré-modernas que vigem no Estado brasileiro com indicações de pessoas que não estejam à altura do desafio de mudar as estruturas que regulam a vida social no Brasil desde que os portugueses sentaram pés nas costas da Bahia.

Terceirização é barbárie

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A aprovação do processo de terceirização por uma folgada maioria de 7 a 4 no Supremo Tribunal Federal promete consolidar uma volta ao passado onde os trabalhadores brasileiros ficavam completamente à mercê dos patrões [1].  Mas além da medida ser prejudicial aos trabalhadores em geral, a medida deverá ter repercussões profundas, a começar pelo encurtamento do poder de compra da população que se verá submetida a uma situação de exploração cada vez maior,  enquanto terá que trabalhar mais por menos.

Esse prognóstico não chega a ser difícil de fazer, pois existem estatísticas abundantes que demonstram que o trabalhador terceirizado ganha menos e trabalha mais, visto que não possui as garantias básicas concedidas pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Além disso, como já comprovou o caso exemplar da empresa aérea LATAM que recentemente demitiu ao menos 1.300 empregados apenas nos aeroportos de Guarulhos e do Galeão para aprofundar o processo de terceirização [2], o que podemos assistir no curto prazo será uma forte onda de demissões de trabalhadores que terão de se somar ao exército de desempregados que já vaga pelas cidades brasileiras.

No meio desse vagalhão de retrocessos contra a classe trabalhadora, os representantes do patronato se rejubilam por reconhecer a oportunidade de ouro que lhes está sendo dada para pagar salários ainda menores.  O pior é que este júbilo aparece camuflado com discursos que ressaltam uma suposta modernização das relações trabalhistas e a oportunidade para que os trabalhadores se tornem “empreendedores”.  Para começo de conversa, a terceirização não tem nada de modernizador, na medida em que fragiliza a capacidade dos trabalhadores de fazerem frente aos desmandos dos patrões. Além disso, para se “empreender”, há a condição essencial de que haja o trabalhador possua capital (ou pelo menos capacidade de se endividar) para iniciar seu próprio negócio onde, com muita sorte, poderá se comportar enquanto patrão sem abandonar a sua condição intrínseca de trabalhador precarizado.

Mas é sobre o funcionamento da máquina do Estado que o processo de terceirização deverá trazer consequências deletérias para os interesses estratégicos do Brasil. É que nos países que adotaram até formas mais amenas de terceirização, as áreas estratégicas do Estado foram poupadas das formas precarizadas de contratação no serviço público. Mas não é isso que está se desenhando no caso brasileiro, o que deverá gerar brechas para a entrega de informações confidenciais sobre nosso patrimônio natural, incluindo a localização de reservas minerais. Também deveremos assistir a um processo de fragilização acentuada do já pouco eficiente processo de regulação dos serviços públicos terceirizados.

Agora, quem conseguiu chegar até este ponto do texto, pode se perguntar se a terceirização é tão ruim como estou falando, por que não se viu nenhuma forma de mobilização dos sindicatos para pressionar o STF, de modo a impedir a aprovação tão fácil da terceirização do trabalho no Brasil. A resposta para isso está no próprio papel de muitos sindicatos enquanto agentes da aplicação dos interesses dos patrões dentro da classe trabalhadora. Esse aspecto é talvez o mais crítico para os trabalhadores, pois demanda a constituição de novas formas de ação direta que passem ao largo da imensa maioria da máquina sindical brasileira.

Mas uma coisa é certa, se os trabalhadores não passarem por cima das direções sindicais traidoras para estabelecer novos mecanismos de defesa dos interesses de classe, o que teremos no Brasil será a instalação da barbárie nos locais de trabalho. 


[1] https://www.viomundo.com.br/politica/decisao-do-stf-sobre-terceirizacao-leva-o-brasil-aos-anos-20-diz-pochmann.html

[2] http://www.aeroflap.com.br/latam-demite-1300-trabalhadores-em-dois-aeroportos/

 

CNPq, mais uma vítima da política de destruição do futuro imposta pelo governo Temer

Às ruas, cientistas!

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No mesmo dia em que o Brasil acorda sabendo que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se concederam um aumento de 16,38% em seus salários que atualmente são de “módicos” R$ 33,7 mil mensais, criando um efeito cascata que deverá gerar um custo adicional de R$ 4 bilhões para os cofres públicos, o jornalista Herton Escobar nos traz a informação de que o orçamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) também levou uma tesourada brutal pelo governo “de facto” de Michel Temer, o implicará na ausência de financiamento para projetos de pesquisa em 2019 [1 & 2].
Como de forma geral não há um entendimento imediato do que significa desprover a ciência brasileira de novos investimentos, é preciso lembrar que serão interrompidas e/ou perdidas pesquisas estratégicas em várias áreas sensíveis, começando, por exemplo, pela saúde, onde certamente serão interrompidas pesquisas sobre, por exemplo, doenças tropicais como a malária e a dengue. Mas ainda na área da saúde serão devastados grupos de pesquisa que estudam doenças como o câncer.
Apenas à guisa de comparação com os custos gerados pelo auto aumento concedido pelos ministros do STF que vão onerar os cofres públicos em R$ 3 bilhões, Herton Escobar nos informa que o orçamento do CNPq irá cair de R$ 1,2 bilhão para R$ 800 milhões em 2019, sendo que só as bolsas providas pela agência já custam por volta de R$ 900 milhões!
Apenas para parafrasear uma declaração do ministro Celso de Mello durante a sessão em que a maioria dos ministros do STF decidiram aumentar seus salários e mandar a conta para a víuva, , “estamos aqui em face daquelas escolhas trágicas”. A questão é que a tragédia que está se desenhando com a liquidação do ainda incipiente sistema brasileiro de ciência e tecnologia extrapola o destino de quem insiste em praticar ciência no Brasil. Com a liquidação da CAPES e do CNPq, o que está se fazendo a partir de escolhas que só são trágicas para que não está encastelado na alta burocracia do estado e para os segmentos da sociedade que se beneficiam do rentismo que sufoca a economia brasileira. O problema é que os excluídos dessas benesses representam quase a totalidade da população brasileira.
É por isso que eu repito que a comunidade científica precisa sair da sua letargia e tomar as ruas para pressionar o governo Temer para que estes cortes absurdos sejam revistos. Do contrário, estaremos diante do abismo de onde será difícil sair se os atuais cenários de asfixia orçamentária foram concretizados.
Às ruas, cientistas!


[1] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2018/08/08/stf-aprova-reajuste-de-16-para-ministros-da-corte-a-partir-de-2019.htm
[2] https://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,cnpq-diz-que-so-tera-verba-para-bolsas-em-2019,70002438970

Lula indo do jeito que quer para as masmorras de Sérgio Moro

Possuo grandes diferenças com a linha política que o ex-presidente Lula aplica no plano estratégico, mas não tenho como negar seu brilhantismo tático. Nesse aspecto, Lula é um gênio sem par na política mundial.

Ao ter determinada a sua prisão, o que faz Lula? Ignora a oferta supostamente gentil de seu algoz e se abriga no sindicato onde começou sua ascensão política. Ali, em São Bernardo, Lula dá mais uma lição aos seus amigos e inimigos sobre sua incrível capacidade de responder às adversidades.

No vídeo abaixo, a síntese dessa capacidade com Lula sendo carregado nos ombros pela militância. Alguém já tinha visto alguém se preparar para ser preso dessa forma?

Discordo daqueles que veem no dia de hoje, um momento de derrota de Lula e da esquerda. É que Lula se introjetou de vez nas eleições de 2018 e continuará sendo um elemento capital, mesmo estando incomunicável nas masmorras de Sérgio Moro. Além disso, ao levantar os braços de Guilherme Boulos (PSOL) e de Manuela D´Ávila no ato desta manhã em São Bernardo do Campo, Lula já sinalizou que o seu apoio político poderá ir para além do PT, no que significaria uma restauração de uma ampla aliança da esquerda brasileira.

Agora, se Lula for solto da prisão em poucos meses, é muito provável que saia das masmorras de Sérgio Moro com o capital político intacto e potencialmente aumentado. Caso isto se confirme, é muito provável que ele ainda consiga votos suficientes para ser eleito para presidir o Brasil mais uma vez. A ver!

Sérgio Moro, o apressadinho que ameaça incendiar o Brasil

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Que a prisão de Lula era uma questão de tempo já se sabia desde que o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) negou por 6 votos contra 5 o habeas corpus apresentado pela equipe de advogados do ex-presidente.  Agora, o que ninguém previa era a velocidade com que o juiz Sérgio Moro decretaria a prisão, passando, inclusive, por cima de procedimentos a que a defesa de Lula ainda teria direito de fazer para protelar (legalmente é preciso que se diga) sua prisão.

Essa “pressa” pegou de calças curtas até a Polícia Federal que estará encarregada de encarcerar Lula. É que não tendo ocorrido a devida coordenação entre Sérgio Moro e a Superintendência da Polícia Federal está restando aos delegados responsáveis pela prisão e encarceramento de Lula recorrer ao improviso. É como se a primeira prisão de um ex-presidente da república, que ainda reúne amplo apoio popular, estivesse sendo feita ao sabor do improviso.  Na verdade, o condicional ficou por minha conta, pois a prisão se dará sob profunda improvisação e risco de caos político.

A lógica que guia a pressa de Sérgio Moro é ainda nebulosa, pois ele poderia proceder com mais cautela, mas optou por não fazê-lo. Com isso, pode-se especular muita coisa sobre os fatores que estão impondo a pressa de Sérgio Moro. Mas como pressa é inimiga da perfeição, Lula terá em Sérgio Moro o maior interessado em que sua integridade física seja mantida no momento da prisão e pelo período que ela durar.

E o detalhe da duração da prisão de Lula é outro aspecto curioso. É que até o joão-de-barro que mora em frente do STF sabe que a prisão de Lula tem tudo para ser curto, na medida em que a suprema corte deverá rever a questão da prisão sem que se faça o trânsito em julgado determinado pela Constituição Federal.  Assim, talvez se explique a pressa em se ter Lula na prisão, nem que seja por uns poucos visando sua desmoralização junto ao eleitorado.

O risco aqui é que Lula soube aproveitar muito bem o período anterior e construiu a quase inafastável imagem de mártir que está sendo perseguido por defender os pobres. Assim, a ida para a prisão (e essa não seria a primeira vez em que Lula será colocado no cárcere) deverá reafirmar o enredo que foi sendo construído ao longo do esquisito processo de julgamento comandado pelo juiz apressadinho em Curitiba.

Finalmente, com a prisão de Lula está sendo dificultada a reedição de um novo governo de coalizão. Isto sinaliza que o próximo período deverá ser marcado pela radicalização e não pelo acalmar de ânimos. E, pior, se decidirem prender Lula por mais tempo do que se planeja inicialmente, é provável que o principal bombeiro que a política brasileira dispõe decida ficar sentado na sua cela esperando o circo pegar fogo.

E tudo o que vier pela frente será colocado nas costas de Sérgio Moro, o apressadinho. Mas como Sérgio Moro já deu vários sinais que pretende imigrar para os EUA, ele acabará sobrevivendo ao peso da história. Já os pobres brasileiros, esses não terão a possibilidade de sair do Brasil na classe executiva.

A iminente prisão de Lula e a dialética da dependência

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A iminente prisão do ex-presidente Lula após a negação de um habeas corpus pelo mesmo Supremo Tribunal Federal (STF) que concedeu salvo conduto a Aécio Neves ocorre no momento em que estou lendo a obra “Dialética da dependência” de Ruy Mauro Marini [1].  E essa é uma feliz coincidência, pois a interpretação do significado da decisão do STF pode ser feita minimamente criteriosa se levarmos em conta as elaborações de Marini.

É que somente numa variação da reprodução do Capitalismo que Marini chamou de “sui generis”  podemos entender as nuances e as flagrantes contradições que cercam a negação do HC pleiteado pelos advogados de Lula. É que, por um lado, essa negação se reveste de caráter inconstitucional, enquanto que, por outro, se encaixa perfeitamente na decisão das elites brasileiras de aprofundar um processo de subordinação aos países centrais na forma de trocas desiguais que estão fazendo com que o Brasil retorne à condição de uma neocolônia. 

Na prática ao se prender Lula, o que as elites estarão fazendo é se livrar do único interlocutor capaz de impedir uma ampla conflagração social que resultará no encurtamento do já limitado padrão de inserção da maioria dos brasileiros nos circuitos de consumo. Essa situação que pode parecer paradoxal em uma primeira análise faz totalmente sentido se aceitarmos a tese geral que Ruy Mauro Marini expôs no “Dialética da Dependência” que era a de que a inserção dependente do Brasil se dava mormente pela dependência no comércio de commodities agrícolas e minerais e na superexploração do trabalho. Nesse contexto, até a incipiente industrialização que o Brasil alcançou serviria para atender o consumo da parcela mais afluente da nossa sociedade, o que explicaria o desinteresse em melhorar as condições gerais da maioria pobre, inclusive na esfera do consumo.

Trocando em miúdos o que Marini formulou, a prisão de Lula, a qual arrisca incendiar o Brasil não pelo fato em si mas pelo vácuo político que criará num momento de extrema crise, não é tratada como um risco, mas como uma possibilidade aprofundar a já flagrante desigualdade que existe na sociedade brasileira a partir ainda maior dependência aos interesses ao países hegemônicos do Capitalismo, principalmente os dos EUA.  O que interessa às elites nacionais e ao estado bonapartista que elas criaram é simplesmente manter os muitos privilégios que o modelo dependente de inserção na economia mundial lhes garante.

Uma última observação é que o julgamento do HC pelo STF evidencia quão orientada está a justiça brasileira pela defesa da propriedade e dos seus detentores. Aos pobres que estão celebrando a iminente prisão de Lula é preciso lembrar que o aniquilamento da presunção da inocência até que todas as instâncias judiciais sejam exauridas servirá para mandar e na manter na prisão milhões de brasileiras que não dispõe de um milionésimo da assessoria juridica que o ex-presidente Lula dispõe.   Ainda que essa jurisprudência tenha existido historicamente de maneira informal contra os pobres, agora teremos isso como regra formal, o que certamente contribuirá para um aumento ainda maior da população carcerária. E tudo isso dentro dos limites da dialética da dependência formulada por Ruy Mauro Marini.

Finalmente, a única saída para resolver os impasses localizados e estratégicos criados pela inserção dependente do Brasil será a partir dos enfrentamentos políticos liderados pela classe trabalhadora que é quem tem mais a perder com tudo o que está sendo realizado pelo governo “de facto” de Michel Temer e seus aliados dentro do aparelho de estado (estejam eles no judiciário, no legislativo ou nas forças armadas).


[1] https://expressaopopular.com.br/loja/produto/ruy-mauro-marini-vida-e-obra/

Aroeira retrata presidente do STF com rara fidedignidade

Sou fã de carteirinha do trabalho do chargista Renato Aroeira. Mas a charge abaixo é  de uma primazia ímpar ao retratar de forma singular e precisa as contradições cercando a presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Carmen Lúcia, que, em reunião recente que contou com a presença de executivos das multinacionais Shell e Coca Cola , resolveu deitar falação sobre a questão óbvia que é a iminente prisão do ex-presidente Lula.

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E adorei especialmente o título da charge… L´Acqua Nera (água negra em italiano). Perfeita metáfora para nossos tempos de luta de classes rasgada e aberta. É que reunião de presidente do STF com executivos da Shell e da Coca Cola não tem que deixar a coisa mais explícita.