Do “Consenso das Commodities” ao “Consenso da Descarbonização”

Por Breno Bringel e Maristella Svampa  para o “Nueva Sociedad”

Estamos vivendo um momento decisivo, marcado por um alto nível de fragilidade e incerteza diante da emergência climática e dos múltiplos riscos e destinos globais possíveis. A narrativa de estabilidade, governança nacional e governança global criada nas últimas décadas por atores hegemônicos desmoronou, primeiro com a crise de 2008 e depois com a pandemia de Covid-19. A imprevisibilidade e a instabilidade se converteram na norma diante de uma sequência de crises profundas (sociais, políticas, sanitárias, geopolíticas, econômicas e ecológicas) que não podem mais ser tratadas como antes, pois se justapõem e se reforçam mutuamente.

Estamos passando de múltiplas crises para uma policrise civilizacional, ou seja, crises inter-relacionadas que estão causalmente interligadas – isto é, produzem danos maiores do que a soma do que produziriam isoladamente – e questionam o modelo civilizacional baseado no crescimento ilimitado, progresso e desenvolvimento. Somam-se a esse cenário o fortalecimento da extrema direita e dos autoritarismos, a erosão da democracia, o controle digital e tecnológico da vida e o fortalecimento da cultura da guerra, conforme sugerido pelo Pacto Ecossocial e Intercultural do Sul em sua recente Declaração de Bogotá.

Diante destas tendências, a transição socioecológica deixou de ser uma questão restrita a grupos de ativistas e cientistas para se tornar o eixo central das agendas políticas e econômicas contemporâneas. Entretanto, duas questões importantes surgem aqui. Primeiro, diante da urgência da descarbonização, há uma tendência de reduzir a transição socioecológica – cujo entendimento integral deve abranger os níveis energético, produtivo, alimentar e urbano – à transição energética. A segunda questão está associada à forma como a transição energética é realizada e quem pagará os custos.

A transição energética, impulsionada principalmente por grandes corporações, fundações e governos do Norte global e dos países emergentes em direção à energia supostamente “limpa”, está exercendo uma pressão cada vez maior sobre o Sul global. Para que a China, os Estados Unidos e a Europa avancem em direção à desfossilização, novas zonas de sacrifício estão sendo criadas nas periferias globais. Há vários exemplos dessa dinâmica: a extração de cobalto e lítio para a produção de baterias de alta tecnologia para carros elétricos afeta brutalmente o chamado “triângulo do lítio” na América Latina e no norte da África; a crescente demanda por madeira de balsa – abundante na Amazônia equatoriana – para a construção de turbinas eólicas exigidas pela China e por países europeus destrói comunidades, territórios e biodiversidade; e a nova licitação para megaprojetos de painéis solares e infraestrutura de hidrogênio aumenta ainda mais a apropriação de terras.

Esse processo está se tornando conhecido no ativismo e nos estudos críticos como “extrativismo verde” ou “colonialismo energético”: uma nova dinâmica de extração capitalista e apropriação de matérias-primas, bens naturais e mão de obra, especialmente (embora não exclusivamente) no Sul global, com o objetivo de uma transição para a “energia verde”.

Argumentamos que o colonialismo energético é a peça central de um novo consenso capitalista, que definimos como o “Consenso da Descarbonização”. Trata-se de um acordo global que defende a mudança de uma matriz energética baseada em combustíveis fósseis para uma matriz sem emissões de carbono (ou com emissões reduzidas), baseada em energias “renováveis”. Seu leitmotiv é lutar contra o aquecimento global e a crise climática, estimulando uma transição energética promovida pela eletrificação do consumo e pela digitalização. No entanto, em vez de proteger o planeta, contribui para destruí-lo, aprofundando as desigualdades existentes, exacerbando a exploração dos recursos naturais e perpetuando o modelo de mercantilização da natureza. Este texto analisa como se produziu a mudança dos consensos capitalistas globais anteriores – o “Consenso de Washington” e o “Consenso das Commodities” – para o “Consenso da Descarbonização”. Ele também discute suas principais características, bem como as linhas de continuidade e ruptura em um mundo multipolar. Por fim, apresenta uma série de reflexões e propostas em relação à transição energética, tanto em termos geopolíticos quanto locais-territoriais.

Do “Consenso de Washington” ao “Consenso da Descarbonização” (via “Consenso das Commodities”)

O processo de liberalização comercial e econômica, desregulamentação, privatização, redução do Estado e expansão das forças de mercado nas economias nacionais, iniciado na década de 1980 e consolidado na década de 1990, recebeu o nome de “Consenso de Washington”. Conhecemos bem a receita trágica: um pacote de reformas que promoveu o fundamentalismo de mercado, estabelecendo o neoliberalismo como a única alternativa após a queda do Muro de Berlim. Foi um consenso entre diversos atores que promoveu a globalização neoliberal, com um peso especial das instituições financeiras internacionais, como o Banco Mundial (BM), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC). Apesar das diferenças de nuance, uma série de políticas de ajuste estrutural foi imposta aos países do Sul, promovendo o livre mercado.

Essas políticas foram elaboradas tendo a América Latina como ponto de referência e acabaram sendo referendadas por boa parte dos governos da região. No entanto, os graves efeitos ambientais e sociais e as múltiplas crises econômicas que elas geraram em vários países latino-americanos serviram de base para sua crítica política e intelectual. Resistência, redes e movimentos sociais começaram a se articular contra os acordos de livre comércio, a globalização neoliberal e seus principais símbolos. Os protestos contra a OMC, o Banco Mundial, o FMI, as campanhas contra a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e o Fórum Social Mundial foram processos fundamentais que articularam a denúncia do “Consenso de Washington” com o objetivo de gerar alternativas e convergências para “outros mundos possíveis”.

Na virada do século, esse ciclo global e regional de protestos foi acompanhado por intensas mobilizações em países como Argentina (2001), Venezuela (2002) e Bolívia (2003), que impulsionaram o surgimento do chamado “ciclo progressista” latino-americano e de um imaginário pós-neoliberal. Os progressismos latino-americanos exigiram um papel mais proeminente do Estado, com políticas sociais direcionadas e, em alguns casos, redistributivas, mas o fizeram de forma intimamente ligada ao fortalecimento do capital privado multinacional. O que foi vendido em vários países como uma política win-win, em que os pobres melhoravam de vida enquanto os ricos continuavam a enriquecer, foi possível graças à entrada da América Latina em uma nova ordem econômica e político-ideológica sustentada pelo auge dos preços internacionais de matérias-primas e bens de consumo cada vez mais exigidos pelos países centrais e potências emergentes como a China.

Essa nova ordem, caracterizada pela hegemonia do desenvolvimento neoextrativista, marcou a transição para outro tipo de consenso capitalista: o “Consenso das Commodities “, visto por atores muito diversos e heterogêneos – dos mais conservadores aos mais progressistas – como uma autêntica “oportunidade econômica”. As economias latino-americanas foram reprimarizadas e a dinâmica de desapropriação se acentuou de forma muito violenta, com a destruição da biodiversidade e a expulsão e o deslocamento de populações de seus territórios.

Nesse contexto, aumentaram a conflituosidade social e a resistência das comunidades e dos movimentos sociais à expansão do agronegócio, aos megaprojetos de mineração a céu aberto, à construção de grandes barragens hidrelétricas e à expansão da fronteira de petróleo e energia para hidrocarbonetos não convencionais. Mas as lutas de resistência contra o desenvolvimentismo neoextrativista, nas quais os movimentos ecoterritoriais desempenharam um papel de liderança, não se limitaram a um repertório reativo. Do “não” emergiram muitos “sins” e alternativas ao desenvolvimento e novos horizontes propositivos começaram a ser cultivados, como o Bem Viver, os bens comuns, a plurinacionalidade, os direitos à natureza e o paradigma do cuidado.

O fim do boom das commodities em meados de 2010 coincidiu com o fim desse ciclo progressista e com o fortalecimento da direita em vários países, em meio a uma profunda deterioração dos sistemas políticos e ao questionamento dos atores sociais e políticos estabelecidos. Uma forte polarização se estabeleceu entre o progressismo, que passou a ser atacado e ficou na defensiva, e as forças conservadoras ou reacionárias que começaram a definir a agenda.

A pandemia de Covid-19 surgiu nesse contexto como um evento global crítico, que acelerou e consolidou mudanças geopolíticas que já estavam em andamento, como a militarização global, o fortalecimento da China, a disputa inter-imperialista e o aumento da distância entre o centro e a periferia. Ao mesmo tempo, abriu-se uma nova janela política de discussão sobre como seria o mundo pós-pandemia. Apesar da insistência dos setores dominantes em manter os negócios como de costume, apostando mais em um “retorno à normalidade” do que em uma “nova normalidade”, uma lógica adaptativa do capitalismo em direção a um modelo supostamente mais “limpo” e “ecológico” também começou a ganhar terreno.

Grandes corporações transnacionais, instituições supranacionais e governos, com o apoio de várias organizações internacionais e especialistas, começaram a colocar a necessidade de descarbonizar a matriz energética no centro da agenda econômica e política. O Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs) tornaram-se as principais referências oficiais para gerar estruturas internacionais compartilhadas. No terreno nacional, vários países criaram seus Pactos Verdes ou Green New Deals e até mesmo ministérios de Transição Ecológica. Atores supranacionais, como a Comissão Europeia, também pressionaram por um Pacto Verde Europeu, formulado com o objetivo de se tornar o primeiro continente “neutro em relação ao clima”. Assim, o discurso “NetZero até 2050” começou a aparecer em grande parte dos discursos convencionais, inclusive em alguns que eram abertamente negacionistas até anos atrás e agora começaram a oferecer “soluções climáticas”. Foi assim que surgiu o mais recente consenso capitalista: o que chamamos de “Consenso da Descarbonização”.

O “Consenso da Descarbonização”: características, contradições e implicações

O “Consenso da Descarbonização” baseia-se em um objetivo comum amplamente aceito. Em um mundo ferido pelo colapso, quem poderia se opor à descarbonização e à neutralidade climática? A questão principal não é o quê, mas como. A descarbonização é bem-vinda, mas não dessa forma. Entre os objetivos dessa descarbonização hegemônica não estão a desconcentração do sistema energético, o cuidado com a natureza, muito menos a justiça climática global, mas outras motivações, como atrair novos incentivos financeiros, reduzir a dependência de alguns países na busca pela segurança energética, expandir nichos de mercado ou melhorar a imagem das empresas. Em outras palavras, se os atores dominantes adotam essa agenda, é porque a veem como uma nova janela de oportunidade para o reposicionamento geopolítico e a acumulação capitalista, mais especificamente, uma “acumulação por desfossilização” que aprofunda a contradição capital/natureza.

Nesse novo consenso, a descarbonização não é vista como parte de um processo mais amplo de mudança do perfil metabólico da sociedade (nos padrões de produção, consumo, circulação de bens e geração de resíduos), mas como um fim em si mesmo. Embora se reconheça a gravidade da emergência climática, estão sendo construídas políticas que não apenas são insuficientes, mas também têm impactos muito graves, uma vez que a exploração dos recursos naturais está se intensificando e a ideologia do crescimento econômico indefinido está sendo mantida. Com mais uma transformação na retórica da “sustentabilidade”, abre-se uma nova fase de pilhagem ambiental do Sul global, afetando a vida de milhões de seres humanos e de seres sencientes não humanos, comprometendo ainda mais a biodiversidade e destruindo ecossistemas estratégicos. O Sul global, mais uma vez, se torna um depósito de recursos supostamente inesgotáveis, de onde são extraídos minerais estratégicos para a transição energética do Norte global, bem como um destino para os resíduos e a poluição gerados por essa nova “revolução industrial”.

O “Consenso da Descarbonização” mobiliza continuamente o discurso do potencial tecnológico e da inovação. Ao mesmo tempo, defende explicitamente os “negócios verdes”, o “financiamento climático”, as “soluções baseadas na natureza”, a “mineração climaticamente inteligente”, os “mercados de carbono” e várias formas de investimento especulativo. Quase sem nenhuma solução de continuidade, as políticas de “responsabilidade social” das empresas extrativistas foram convertidas nas últimas décadas em políticas de “responsabilidade socioambiental”, em uma tentativa de construir uma imagem de responsabilidade ecológica que contrasta fortemente com a realidade. Em suma, propõe-se um tipo de transição baseada em uma lógica fundamentalmente mercantil e com uma interface hiperdigitalizada, que gera novas mercadorias e formas sofisticadas de controle social e territorial.

O “Consenso da Descarbonização” é, em consequência, marcado pelo imperialismo ecológico e pelo colonialismo verde. Ele mobiliza não apenas práticas, mas também um imaginário ecológico neocolonial. Por exemplo, a ideia de “espaço vazio”, típica da geopolítica imperial, é frequentemente usada por governos e empresas. Se no passado essa ideia, que complementa a noção ratzelliana de “espaço vital” (Lebensraum), gerou ecocídio e etnocídio indígena – e mais tarde serviu para promover políticas de “desenvolvimento” e “colonização” de territórios -, hoje ela é usada para justificar a expansão territorial para investimentos em energia “verde”. Dessa forma, grandes extensões de terra em áreas rurais pouco povoadas são vistas como espaços vazios adequados para a construção de turbinas eólicas ou fábricas de hidrogênio. Esses imaginários geopolíticos das transições corporativas reproduzem relações coloniais, que não apenas podem ser vistas como uma imposição de fora para dentro, do Norte para o Sul. Em muitos casos, o que está em jogo é também um tipo de colonialismo verde interno, que cria as condições para o avanço do extrativismo verde com base em alianças e relações coloniais entre as elites nacionais e as elites globais.

O “Consenso de Descarbonização” também gera, em nome da “transição verde”, pressões nos próprios territórios do Norte global, tanto nos EUA quanto na Europa , com um grande impacto nas áreas rurais menos populosas. Mas nada disso se compara aos impactos e à escala desses processos na periferia globalizada. Como bem aponta um estudo recente de Alfons Pérez sobre os Pactos Verdes:

A distribuição geográfica da extração e das reservas atuais dessas matérias-primas essenciais desenha um mapa que é certamente diferente daquele da extração de combustíveis fósseis. Embora o Oriente Médio tenha sido o epicentro geoestratégico para o fornecimento de hidrocarbonetos, o foco agora está mudando para outras áreas do planeta. As principais regiões para a exploração desses elementos estão concentradas no Sul global e em regiões como a África Subsaariana, o Sudeste Asiático, a América do Sul, a Oceania e a China.

Apesar da busca incessante por esses minerais críticos, a forma e a temporalidade da implementação do “Consenso da Descarbonização” provocam contradições até mesmo entre seus próprios promotores. A exacerbação de políticas esquizofrênicas – ou double bind, para usar os termos de Gregory Bateson – parece ser um sinal da policrise civilizacional. Há aqueles que, embora reconheçam sua importância, procuram adiar a descarbonização e extrair até a última gota de petróleo, como é o caso de muitas empresas de combustíveis fósseis e seu lobby junto aos governos. Um exemplo foi o presidente Joe Biden que, em março de 2023, desafiando sua promessa eleitoral, aprovou o Projeto Willow, que permite a expansão da fronteira petrolífera no Ártico do Alasca, colocando em risco um ecossistema extremamente frágil que já está sofrendo com o derretimento do gelo devido ao aquecimento global. Outro exemplo vem da União Europeia que, ao mesmo tempo em que busca expandir o Pacto Verde Europeu, optou por voltar ao carvão até meados de 2022, usando como justificativa a crise energética acelerada pela guerra na Ucrânia. Assim, o governo alemão ordenou, em janeiro de 2023, a demolição de um vilarejo para dar lugar à expansão de uma mina de carvão de lignito, o tipo de carvão mais poluente entre os combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, como parte do plano europeu de recuperação pós-crise, a Alemanha pressionou os estados-membros da UE a destinar parte desses fundos para o desenvolvimento do hidrogênio verde. Mais recentemente, o governo brasileiro também parece haver entrado no Consenso da Descarbonização, anunciando um plano de ‘transformação ecológica’ ancorado, contudo, na lógica do crescimento econômico e sem renunciar a novas frentes de exploração de petróleo.

O tipo de lógica pós-fóssil promovida pelo “Consenso da Descarbonização” leva, portanto, a uma transição corporativa, tecnocrática, neocolonial e insustentável. Diversas projeções alertam que, abordada dessa forma, a transição energética é metabolicamente insustentável. O próprio Banco Mundial alertou, em 2020, que a extração de minerais

como grafite, lítio e cobalto, poderia aumentar em quase 500% até 2050 para atender à crescente demanda por tecnologias de energia limpa. Estima-se que mais de 3 bilhões de toneladas de minerais e metais serão necessários para a implantação de energia eólica, solar e geotérmica, bem como para o armazenamento de energia, a fim de alcançar uma redução de temperatura abaixo de 2 °C no futuro.

Relatórios mais recentes são ainda mais assustadores com relação ao aumento do uso de “minerais de transição”. Como argumenta o jornalista francês Guillaume Pitron, “centenas de milhares de turbinas eólicas, algumas mais altas que a Torre Eiffel, serão construídas nos próximos anos e exigirão enormes quantidades de cobalto, zinco, molibdênio, alumínio, zinco, cromo… entre outros metais”.

O “Consenso da Descarbonização” restringe o horizonte da luta contra as mudanças climáticas ao que a pesquisadora brasileira Camila Moreno define como a “métrica do carbono”: uma forma limitada de quantificar o carbono apenas em termos de moléculas de CO2, que oferece uma espécie de moeda para a troca internacional, gerando a ilusão de que algo está sendo feito contra a degradação ambiental. Dessa forma, o problema subjacente é encoberto e não apenas a poluição continua, mas também novos negócios são feitos com a poluição (por meio, por exemplo, do comércio de compensação de emissões). Os limites naturais e ecológicos do planeta continuam sendo ignorados, pois é evidente que não há lítio ou minerais críticos suficientes se os modelos de mobilidade e os padrões de consumo não forem alterados. O próprio fato de as baterias de lítio, assim como os projetos eólicos e solares, também exigirem minerais (como cobre, zinco e muitos outros) deve nos alertar para a necessidade de uma reforma radical do sistema de transporte e do modelo de consumo existentes.

Portanto, a transição não pode ser reduzida apenas a uma mudança de matriz energética que garanta a continuidade de um modelo insustentável. Ao propor uma transição energética corporativa de curto prazo, o “Consenso da Descarbonização” mantém o padrão hegemônico de desenvolvimento e acelera a fratura metabólica, com o objetivo de preservar o estilo de vida e o consumo atuais, especialmente nos países do Norte e nos setores mais ricos em escala global.

Continuidades e rupturas entre os três consensos capitalistas

Se durante a Guerra Fria a imaginação geopolítica hegemônica falava de um mundo bipolar, dividido em dois blocos ideologicamente polarizados, com a queda do Muro de Berlim começou a ser forjada uma imaginação geopolítica hegemônica baseada em consensos capitalistas globais. Se analisarmos o “Consenso da Descarbonização” sob a perspectiva da processualidade sócio-histórica, veremos que há continuidades e rupturas entre os três consensos hegemônicos em vigor nas últimas décadas. Entre os pontos de continuidade, três elementos principais podem ser destacados. O primeiro é o discurso da inevitabilidade, que afirma que não há alternativa a esses consensos. Após o “There is no Alternative” do Consenso de Washington, a restrição do mundo do possível foi sendo aperfeiçoada com diferentes repertórios de legitimação social, seja o acesso ao consumo pelos setores populares, seja a retórica de respirar um ar mais saudável. O “Consenso das Commodities” foi construído com base na ideia de que havia um acordo sobre a natureza irrevogável ou irresistível da dinâmica extrativista resultante da crescente demanda global por matérias-primas, cujo objetivo era fechar a possibilidade de alternativas. De maneira semelhante, o “Consenso da Descarbonização” hoje busca instalar a ideia de que, dada a urgência climática, não há outra transição possível e que a única existente e “realista” é a transição corporativa.

Em segundo lugar, todos esses consensos implicam em uma maior concentração de poder em atores não democráticos (grandes corporações, agentes financeiros e organizações internacionais), minando qualquer possibilidade de governança democrática, ainda mais em um contexto de “transição”. Isso se manifesta de duas formas principais. Por um lado, é visto na captura corporativa dos espaços de governança. Espaços como a Conferência das Partes (COP), que, como órgão supremo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, deveriam ser fóruns multilaterais para avançar na luta contra as mudanças climáticas, são cada vez mais uma feira de negócios para o capitalismo verde que mantém as relações de poder energético entre o Norte e o Sul. Podemos dizer que as COPs servem ao “Consenso da Descarbonização”, assim como a OMC serviu ao “Consenso de Washington” e ao “Consenso das Commodities“.

Por outro lado, ela se manifesta na forte concentração de poder entre as grandes empresas, do início ao fim das cadeias globais. Se considerarmos o caso do lítio na Argentina e no Chile, por exemplo, no final da cadeia de valor global estão os gigantes automotivos (Toyota, BMW, Audi, Nissan, General Motors) e empresas elétricas como a Vestas e a Tesla. 50% da industrialização de baterias para fábricas automotivas está concentrada em empresas chinesas, e o controle da extração também é dominado por poucas empresas: a americana Albemarle, a chilena SQM, a americana Livent Corp, a australiana Orocobre e a chinesa Ganfeng. Por sua vez, o Chile e a Argentina exportam carbonato de lítio, uma commodity sem valor agregado e, apesar dos anúncios recorrentes sobre “industrialização”, os países do chamado “triângulo do lítio” estão longe de controlar a cadeia global do lítio, das salinas às baterias.

Em muitos casos, a extração de lítio está sendo realizada sem licença social, acordo ou consulta com as comunidades indígenas que habitam esses territórios há milênios e que denunciam o consumo excessivo de água e seus impactos no processo de extração. Nas Salinas Grandes, em Jujuy, Argentina, desde 2010, um grupo de comunidades indígenas (chamadas de “as 33 comunidades”) vem rejeitando a extração de lítio em seus territórios, exigindo consulta livre, prévia e informada e defendendo uma perspectiva holística e ancestral que integra território, autonomia, Bem Viver, plurinacionalidade, água e sustentabilidade da vida. O salar é considerado pelos povos indígenas como “um ser vivo, um doador de vida”, e eles têm como lema “A água e a vida valem mais do que o lítio”, como pode ser visto estampado no Aerocene Pacha, um balão de ar quente sem combustível que o artista argentino Tomás Saraceno ergueu em janeiro de 2020.

Em terceiro lugar, a constante busca pela expansão das fronteiras capitalistas envolve, em todos esses casos, a promoção de megaprojetos voltados para o controle, a extração e a exportação de bens naturais. E, para isso, há uma clara aposta em garantir “segurança jurídica” ao capital com bases regulatórias e legais que permitam a maior lucratividade empresarial. Não é inocente, por exemplo, que nos novos acordos comerciais bilaterais que a UE está negociando (com o Chile e o México, entre outros) ela tenha incorporado capítulos sobre energia e matérias-primas para garantir o acesso a minerais essenciais para a transição. A Comissão Europeia deixou bem claro na declaração do Pacto Verde Europeu que “o acesso aos recursos é uma questão de segurança estratégica para a implementação do Pacto Verde” e que é essencial “garantir o fornecimento de matérias-primas sustentáveis, em especial as necessárias para as tecnologias renováveis, digitais, espaciais e de defesa”. Nesse contexto, apresentou, em março de 2023, uma proposta para uma “Regulamentação de Matérias-Primas Críticas”, ostensivamente destinada a garantir um fornecimento seguro e sustentável dessas matérias-primas. No entanto, conforme explicado em um relatório do Centre for Research on Multinational Corporations (SOMO, para sua sigla em holandês), a estratégia proposta pela UE não levará a um fornecimento sustentável de minerais críticos para a Europa, pois exacerbará os riscos aos direitos humanos e ao meio ambiente, prejudicará a dinâmica econômica nos países parceiros e continuará a reforçar o consumo insustentável nos países ricos.

Além dessas linhas de continuidade, há também novidades. Uma característica importante do “Consenso de Descarbonização” está ligada à complexidade das relações neocoloniais em um mundo multipolar, marcado pela competição inter-imperial, onde a geopolítica se transforma em geoeconomia e em múltiplos colonialismos. Não é apenas a UE, que carece de minerais essenciais, que está buscando acesso direto a eles. A China, apesar de possuir esses minerais, está muito bem-posicionada no Sul global, onde há quase duas décadas vem fazendo investimentos muito agressivos em setores extrativistas estratégicos, mantendo um tipo de relacionamento diferente daqueles estabelecidos pelos EUA e pela Europa. Uma das peculiaridades da nova dependência gerada entre a China e os países latino-americanos, dos quais, em quase todos os casos, é o principal parceiro comercial, é que, embora seus investimentos sejam de longo prazo em diferentes setores (agronegócio, mineração, petróleo, infraestrutura ligada às atividades extrativistas), em termos de transferências de tecnologia – particularmente em relação à transição verde – ela tende a usar tecnologia chinesa de ponta, que também inclui, às vezes, mão de obra chinesa. A disputa inter-imperial é concluída com os EUA. Embora essas questões pareçam estar ausentes das declarações do Departamento de Estado, em várias ocasiões a chefe do Comando Sul, Laura Richardson, deixou claro o interesse estratégico da América do Sul para seu país (em termos de água, petróleo, lítio, entre outros). Por fim, acrescentamos que a Rússia, como um ator tendencialmente hegemônico em um mundo multipolar, está longe de ter o alcance das potências mencionadas no campo da disputa sobre a transição energética.

Outro elemento de distinção importante entre esses três consensos é o papel do Estado. Sabemos que o “Consenso de Washington” foi marcado por uma lógica de Estado mínimo e o “Consenso das Commodities” defendeu um Estado moderadamente regulador, mas em estreita aliança com o capital transnacional. Por sua vez, o “Consenso da Descarbonização” parece inaugurar o surgimento de um tipo de neoestatismo de planejamento – em alguns casos, mais próximo de um estado eco-corporativo – que busca combinar a transição verde com a promoção de fundos privados e a financeirização da natureza. Dessa forma, as transições verdes conduzidas por instituições governamentais e pelo Estado tendem a se aproximar, facilitar e se fundir com as transições corporativas, em uma dinâmica de subserviência do setor público aos interesses privados. Entretanto, em alguns casos em que há ciclos intensos de mobilização social, o Estado pode tentar recuperar alguma autonomia relativa promovendo transições ecossociais que incentivem a descentralização e a desconcentração do poder corporativo.

Além disso, embora tanto o “Consenso das Commodities” quanto o “Consenso da Descarbonização” impliquem em uma lógica extrativista, os produtos e os minerais necessários foram ampliados. No primeiro caso, são principalmente produtos alimentícios, hidrocarbonetos e minerais, como cobre, ouro, prata, estanho, bauxita e zinco, enquanto no segundo, além dos minerais mencionados, o foco de interesse são os chamados minerais críticos para a transição energética, como lítio, cobalto, grafite, índio, entre outros, e terras raras. Em ambos os casos, a extração e a exportação de matérias-primas têm consequências catastróficas em termos de destruição ecológica e geração de dependência. No entanto, como argumenta a socióloga alemã Kristina Dietz, um aspecto fundamental que diferencia o extrativismo verde do neoextrativismo é o discurso usado para legitimar o primeiro, uma vez que os atores que o promovem afirmam que ele é sustentável e que é a única maneira possível de enfrentar a emergência climática.

Descarbonização sim, mas com justiça geopolítica

Para que a descarbonização saia dessa lógica perversa, ela deve ser desmercantilizada e descolonizada a partir de um questionamento estrutural. Qualquer hipótese de uma transição ecossocial justa e integral deve enfrentar esse desafio e não pode estar ancorada apenas no nível local – como geralmente acontece – mas também deve considerar o nível geopolítico como uma prioridade. Isso implica incorporar o imperativo do decrescimento por parte do Norte global, bem como a dívida ecológica com os povos do Sul, buscando construir pontes entre os atores e diagnósticos críticos em busca de uma justiça ecológica global.

O Norte global precisa urgentemente começar a decrescer em várias áreas: em termos de consumo, redução da esfera de mercantilização, desmaterialização da produção, transporte e distribuição das horas de trabalho. Embora em muitas das propostas de decrescimento os fatores mencionados acima pareçam estar ligados a uma lógica de redistribuição social, a “desmaterialização” – ou seja, a redução da intensidade do uso de matérias-primas e energia – é inexorável. Embora seja uma responsabilidade prioritária do Norte global, isso não significa que seja “apenas uma coisa do Norte”, como é frequentemente argumentado no debate público, e que o Sul tenha que reivindicar seu “direito ao desenvolvimento”, porque é o chamado desenvolvimento e a lógica do crescimento insustentável que está nos levando ao colapso hoje.

O decrescimento é uma demanda por justiça global, no contexto de um planeta já danificado. Além disso, como advertiram vários defensores do decrescimento (como Giorgos Kallis, Federico Dimaria e Jason Hickel, entre muitos outros), a redução progressiva do metabolismo social se traduziria em menos pressão sobre os recursos naturais e os territórios do Sul, o que abriria um “espaço conceitual” no Sul global que seria necessário para avançar em direção ao pós-extrativismo. Ainda assim, como afirma Hickel, “o decrescimento é uma demanda por descolonização. Os países do Sul devem ser livres para organizar seus recursos e seu trabalho em torno da satisfação das necessidades humanas e não em torno de servir ao crescimento do Norte”.

O complemento do decrescimento só pode ser o pagamento da dívida ecológica com os povos e países do Sul. Em termos contábeis, a dívida climática é apenas uma linha no balanço de uma dívida ecológica mais ampla. Assim, a dívida ecológica poderia ser entendida como a obrigação e a responsabilidade que os países industrializados do Norte têm para com os países do Sul pela pilhagem e exploração de seus recursos naturais (petróleo, minerais, florestas, biodiversidade, recursos marinhos), à custa da energia humana de seus povos e da destruição, devastação e poluição de seu patrimônio natural e de suas próprias fontes de subsistência.

A dívida ecológica também está intimamente ligada à dívida externa. A superexploração dos recursos naturais se intensifica quando as relações comerciais pioram para as economias extrativistas, que precisam fazer pagamentos da dívida externa e financiar as importações necessárias. A pressão que os centros capitalistas exercem sobre a periferia para extrair recursos naturais é exacerbada no contexto da dívida externa. O imperativo de crescimento dos países ricos tem como contrapartida a “obrigação de exportar” do Sul, que nos países capitalistas periféricos parece estar associado à necessidade de pagar a dívida externa e seus juros, o que renova um círculo interminável de desigualdade. Isso está acontecendo hoje na Argentina, um país com uma dívida externa (contraída pelo governo neoliberal de Mauricio Macri entre 2015 e 2019) que o torna incapaz de pensar em qualquer alternativa de mudança que não seja expandir as fronteiras do neoextrativismo, a fim de obter dólares para aliviar os pagamentos de juros da dívida externa com o FMI.

Durante décadas, houve inúmeras e recorrentes iniciativas exigindo reparações abrangentes por responsabilidades históricas e que também articulam explicitamente a dívida ecológica com a dívida externa. Esse foi o caso da campanha Quem deve a quem? que, no auge do movimento altermundialista, na virada do século, exigiu o cancelamento da dívida externa e o pagamento da dívida ecológica. Além de denunciar a natureza ilegítima da dívida externa, o objetivo era conscientizar a população do Norte global sobre sua responsabilidade pela dívida ecológica. Mais recentemente, em 27 de fevereiro de 2023, o movimento Debt for Climate lançou um convite para se reunir com representantes dos países mais afetados pela interseção da crise climática e da dívida, a fim de discutir o cancelamento da dívida do Sul global e, assim, permitir uma transição justa. Esse dia marcou o 70º aniversário do Acordo de Londres, por meio do qual a Alemanha recebeu um alívio de 50% da dívida acumulada antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial. Alguns dos países que permitiram que a Alemanha vivesse seu chamado “milagre econômico”, graças a esse cancelamento, estão hoje altamente endividados. No entanto, a Alemanha impede qualquer medida progressiva para aliviar esses países de seu pesado fardo de dívida, enquanto, ao mesmo tempo, eles estão sofrendo as consequências devastadoras da crise climática.

De acordo com Alberto Acosta, se isso foi possível para a Alemanha em um contexto pós-guerra, por que não seria possível para os países do Sul em um cenário pós-pandemia e de emergência climática? O Acordo de Londres também nos oferece uma lista de questões a serem consideradas no enfrentamento da dívida externa: capacidade de pagamento, cancelamento substancial da dívida, redução significativa das taxas de juros, transparência nas negociações para determinar os benefícios das partes, cláusulas de contingência, esquemas de gerenciamento de disputas e a possibilidade de arbitragem justa e transparente, entre muitas outras. Para avançar na busca de soluções duradouras, é necessário, embora não seja suficiente, exigir o cancelamento da dívida, auditorias cidadãs e atenção às repetidas denúncias de violência e corrupção ligadas à dívida externa. Em suma, uma reconfiguração do sistema financeiro internacional que deixe claro que nenhum país pode se salvar sozinho, algo que não surgirá espontaneamente, mas que requer uma reativação das articulações internacionalistas que conectem o Norte e o Sul global neste cenário de policrise civilizacional.

Nesse marco, o decrescimento e o pós-extrativismo são duas perspectivas complementares e multidimensionais que permitem a construção de pontes internacionalistas e Norte-Sul em torno de uma transição ecossocial integral. Ambas formulam uma crítica aos limites ecológicos do planeta e enfatizam a insustentabilidade dos modelos de consumo imperial e do aprofundamento das desigualdades sociais. São também conceitos-horizonte que constituem um ponto de partida para a construção de ferramentas de mudança e alternativas civilizacionais, com base em outro regime socioecológico, diferente do regime economicista e pragmático de certos ambientalismos do momento. Podem avançar, com justiça climática, em direção a um horizonte de transformação ecossocial.

Construir transições ecossociais justas, populares e territorializadas

Em contraste com o que propõe o “Consenso da Descarbonização”, a energia deve ser vista como um direito e a democracia/soberania energética como um horizonte para sustentar o tecido da vida. A justiça ecossocial deve ter como objetivo eliminar a pobreza energética e desmantelar as relações de poder. No horizonte de uma transição energética justa, os combustíveis fósseis devem ser deixados no solo e os processos de exploração de hidrocarbonetos devem ser “desescalonados”, conforme sugerem as companheiras da organização Censat Agua Viva na Colômbia, o que implica uma ruptura de sentido para ressignificar a natureza.

Há cada vez mais vozes que, felizmente, buscam desmascarar o “Consenso da Descarbonização”, argumentando que a transição energética não pode ser feita às custas da água, dos ecossistemas e dos povos. Elas mostram, ao mesmo tempo, que as transições ecossociais justas não são e não podem ser uma projeção do futuro, mas estão acontecendo no presente, na experiência cotidiana de múltiplos territórios urbanos e rurais, no Norte e no Sul. Como resultado, o desafio não é tanto construir novas utopias e narrativas ecoutópicas para um mundo em que gostaríamos de viver, mas expandir, reconhecer e aprimorar essas práticas, conduzidas por diversas comunidades, organizações e movimentos sociais, que já existem e prefiguram alternativas sociais.

As transições ecossociais populares e territoriais estão, portanto, ancoradas em experiências concretas que, embora locais, podem ser ampliadas, conectadas e inspirar outras realidades. Elas têm vários eixos estratégicos que se alimentam mutuamente: energia (comunidade), alimentos (agroecologia e soberania alimentar), produção e consumo (estratégias de deslocalização e práticas pós-extrativistas de economia social e solidária, agricultura urbana), trabalho e cuidado (redes de cuidado e sociabilidades anticapitalistas), infraestruturas (moradia, mobilidade etc.), cultura e subjetividade (mudança cultural e de mentalidade), disputa política e normativa (geração de novos imaginários políticos relacionais vinculados a direitos territoriais e da natureza, eco-dependência, eco-feminismos, múltiplas dimensões da justiça e ética interespécies).

Essas propostas entendem que as transições ecossociais não podem se restringir apenas às questões climáticas e energéticas, como é comum no tipo dominante de transição, mas devem ser holísticas e integrais. Elas exigem uma transformação estrutural do sistema energético, mas também do modelo urbano e de produção, bem como dos vínculos com a natureza: desconcentrar, desprivatizar, desmercantilizar, descentralizar, despatriarcalizar, desierarquizar, reparar e curar. Além disso, ela busca um conceito de justiça integral que transcende a visão limitada das transições corporativas: o social não pode ser separado do ambiental; e a justiça social, ambiental, étnica, racial e de gênero também são indissociáveis.

Longe de romantizar as experiências de transições ecossociais justas, é essencial entender suas contradições, dificuldades e obstáculos internos e externos. Nesse registro, a multiescalaridade e as mediações políticas são elementos fundamentais. Por exemplo, uma alternativa ecossocial restrita a pequenas comunidades e lugares específicos que não se relacionam com outras experiências não é o mesmo que experiências localizadas, mas não localistas, que buscam construir articulações e sentidos para além de seu próprio território. Em um contexto de desglobalização gradual, a tentação de uma forte desconexão é grande. Mas para que as transições justas avancem, precisamos da criação de blocos regionais fortes, bem como do avanço na direção de um estado ecossocial.

A crise ecológica e climática está introduzindo novos riscos, a maioria com danos irreversíveis, que afetam a população de forma desigual. Como o economista Rubén Lo Vuolo aponta, precisamos ir além da lógica de um Estado que repara os danos para construir um Estado capaz de preveni-los. A distribuição deve ser pensada independentemente do crescimento. Um Estado ecossocial deve buscar um mecanismo de proteção social que seja o mais universal possível. Em vez de garantir uma aposentadoria (para aqueles que contribuem há anos), devemos buscar uma renda universal ou uma renda básica, a fim de passar de um Estado compensatório para um Estado preventivo, mais preocupado com as necessidades das pessoas do que com os interesses das corporações.

Sem uma mobilização social constante, coordenada e maciça, é improvável que isso aconteça. Não se trata apenas de reunir os movimentos climáticos ou repensar o ambientalismo, mas também de integrar uma multiplicidade de lutas que nem sempre estiveram conectadas entre si, mas que nos últimos anos tendem a aderir progressivamente ao paradigma das transições justas, contribuindo para que avancem em suas diferentes dimensões: movimentos feministas, antirracistas, camponeses, indígenas, animalistas, sindicais, de economia popular e solidária, entre outros. Longe das soluções individualistas que emergem do “Consenso da Descarbonização”, isso nos permite entender que a saída é coletiva; que não é apenas técnica, mas profundamente política. Essa é a chave para gerar processos de confluência e libertação cognitiva que permitam nos percebermos como sujeitos valiosos, embora não únicos, na construção urgente e necessária de uma história interespécies que merece ser vivida.

Notas

  1. Michael Lawrence, Scott Janzwood y Thomas Homer-Dixon: «What is a Global Polycrisis? And How Is It Different from a Systemic Risk?», informe para discussão, Cascade Institute, 9/2022.
  2. Ver https://pactoecosocialdelsur.com/declaracion-de-bogota/
  3. M. Svampa y Pablo Bertinat (eds.): La transición energética en la Argentina. Una hoja de ruta para entender los proyectos en pugna y las falsas soluciones, Siglo XXI Editores, Buenos Aires, 2022.
  4. M. Svampa: «‘Consenso de los Commodities’ y lenguajes de valoración en América Latina» en Nueva Sociedad No 244, 3-4/2013, disponível em nuso.org.
  5. B. Bringel y Geoffrey Pleyers (eds.): Alerta global. Políticas, movimientos sociales y futuros en disputa en tiempos de pandemia, Clacso, Buenos Aires, 2020.
  6. Este conceito foi formulado pelo Grupo de Estudios en Geopolítica y Bienes Comunes de la Universidad de Buenos Aires. Ver, entre otros, «El litio y la acumulación por desfosilización en Argentina» en M. Svampa y P. Bertinat (eds.): La transición energética en Argentina.
  7. Thea Riofrancos: «Por qué relocalizar la extracción de minerales críticos en el Norte global no es justicia climática» en Viento Sur, 8/3/2022.
  8. A. Pérez: Pactos verdes en tiempos de pandemias. El futuro se disputa ahora, Observatori del Deute en la Globalització / Libros en Acción / Icaria, Barcelona, 2021, p. 62.
  9. G. Bateson: Steps to an Ecology of Mind, Chandler, San Francisco, 1972.
  10. Etienne Beeker: «¿Hacia dónde va la transición energética alemana?» em Agenda Pública, 15/2/2023.
  11. Banco Mundial: Minerals for Climate Action: The Mineral Intensity of the Clean Energy Transition, BM, Washington, DC, 2020.
  12. G. Pitron: «El impacto de los metales raros. Profundizando en la transición energética» em Green European Journal, 5/2/2021.
  13. C. Moreno, Daniel Speich Chassé y Lili Fuhr: A métrica do carbono: abstrações globais e epistemicídio ecológico, Fundação Heinrich Böll, Río de Janeiro, 2016.
  14. Melisa Argento, Ariel Slipak y Florencia Puente: «Cambios en la normativa de explotación y creación de una empresa 100% estatal», Serie Políticas y Líneas de Acción, Clacso, 2021.
  15. Para mais informações, ver https://pacha.aerocene.org
  16. A. Pérez, op. cit., p. 58.
  17. Disponivel em: single-market-economy.ec.europa.eu/publications/european-critical-raw-materials-act_en.
  18. «SOMO Position Paper on Draft Critical Raw Materials Regulation», 17/5/2023, disponível em somo.nl/somo-position-paper-on-critical-raw-materials-regulation/.
  19. M. Svampa y A. Slipak: «Amérique Latine, entre vieilles et nouvelles depéndances: le rôle de la Chine dans la dispute (inter)hégémonique» em Hérodote. Revue de Géographie et de Géopolitique vol. 2018/4, No 171, 2018.
  20. M. Argento, A. Slipak y F. Puente, p. cit.
  21. Camilo Solís: «Laura Richardson: la jefa del Comando Sur de EEUU que pretende el litio sudamericano y que cierren Russia Today y Sputnik» em Interferencia, 6/6/2023.
  22. K. Dietz: «Transición energética y extractivismo verde», Serie Análisis y Debate No 39, Fundación Rosa Luxemburgo, Oficina Región Andina, Quito, 9/2022. Ver o artigo nesse número, p. 108.
  23. F. Demaria: «Decrecimiento: una propuesta para fomentar una transformación socioecológica profundamente radical» em Oikonomics No 16, 11/2021. Vale destacar que enquanto na Europa o debate sobre o decrecimiento desbordou o campo militante, abandonando seu caráter «abstrato» para permear os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mundanças Climáticas (que questionam a lógica do crescimento econômico) e inserir-se cada vez mais na discussão política institucional de la União Europeia, nos EUA, pelo contrário, esse continua sendo um tema tabu, inclusive dentro dos círculos ecossocialistas, pouco propensos a retomá-lo nos debates sobre a transição ecossocial.
  24. J. Hickel: «The Anti-Colonial Politics of Degrowth» em Resilience, 4/5/2021.
  25. «Alerta verde No 78: ¡No más saqueo, nos deben la deuda ecológica!» em Ecología Política No 18, 1999.
  26. M. Svampa y E. Viale: «De la ceguera ecológica a la indignación colectiva», ElDiarioAR, 14/5/2023.
  27. Francisco Cantamutto y Martín Schoor: «América Latina y el mandato exportador» en Nueva Sociedad edición digital, 6/2021, disponível em nuso.org.
  28. Joan Martínez Alier y Arcadi Oliveres: ¿Quién debe a quién? Deuda ecológica y deuda externa, Icaria, Barcelona, 2010.
  29. A. Acosta: «Un aniversario histórico, 70 años del Acuerdo de Londres. ¿Por qué es un imposible para los países del sur?» em Ecuador Today, 23/2/2023.
  30. Ver o Manifiesto de los Pueblos del Sur por una Transición Justa y Popular, 2023, disponível em: pactoecosocialdelsur.com/manifiesto-de-los-pueblos-del-sur-por-una-transicion-energetica-justa-y-popular-2/.
  31. Ver, a respeito, os trabajos de Pablo Bertinat e a Declaración de Bogotá del Pacto Ecosocial e Intercultural del Sur.
  32. R. Lo Vuolo: «Crisis climática y políticas sociales. Del Estado de Bienestar al Estado Eco-Social», Serie Documentos de Trabajo CIEPP No 111, 12/2022.

Fonte: Editora Elefante 

Brechas na exportação na França permitem remessas crescentes de agrotóxicos banidos

O fracasso do governo francês em preencher lacunas nas regras de exportação de substãncias banidas significa que as exportações, principalmente para o Sul Global, continuam

Wheat crops before harvest, in Arapongas

Por Crispin Dowler e Naira Hofmeister para a Unearthed

Empresas multinacionais estão exportando quantidades crescentes de produtos químicos proibidos da França para serem usados ​​na produção de pesticidas no exterior, depois que o governo francês não cumpriu sua promessa de acabar com essa prática .

Uma nova investigação realizada pela Unearthed e pela Public Eye revela como a indústria de pesticidas está explorando o fracasso da França em fechar uma brecha na proibição histórica de exportação de pesticidas cujo uso é proibido em suas próprias fazendas. 

No ano passado, as autoridades francesas aprovaram a exportação de mais de 4.500 toneladas de produtos químicos proibidos não diluídos para uso na fabricação de pesticidas, ante cerca de 3.400 toneladas em 2022 .

Dois terços dessas exportações foram destinadas ao Brasil – sem dúvida o país com as reservas mais importantes de biodiversidade da Terra . Elas incluíam vastas quantidades de picoxistrobina – um fungicida proibido na Europa devido a ameaças à vida selvagem e preocupações de que seus resíduos pudessem danificar o DNA humano – e o inseticida matador de abelhas fipronil , que foi associado ao envenenamento recente de milhares de colmeias no Brasil . 

Essas exportações foram aprovadas apesar da posição da França como o primeiro país do mundo a aprovar uma lei contra a exportação de pesticidas proibidos devido aos riscos que eles representam para a saúde humana ou para o meio ambiente. Brechas nessa lei, que é conhecida como loi Egalim , deixaram as fábricas francesas livres para continuar exportando grandes quantidades de pesticidas proibidos, principalmente para o Sul global. 

Quando isso foi revelado pela primeira vez por uma investigação da Unearthed and Public Eye , em dezembro de 2022, o governo francês prometeu fechar as brechas . Em particular, o então ministro do meio ambiente Christophe Béchu prometeu fechar uma “lacuna” apelidada de “brecha da substância pura” : a lei Egalim proibia apenas a exportação de pesticidas contendo produtos químicos proibidos, e não a exportação desses ingredientes ativos em si. 

Isso deixou as empresas livres para continuar enviando esses produtos químicos perigosos e proibidos em sua forma não diluída, para serem misturados a produtos prontos para consumo no exterior . 

“Proibimos a exportação de produtos sem especificar que isso [também] se aplicava às substâncias ativas, e temos empresas tirando proveito disso”, disse Béchu ao parlamento francês .

“Temos que corrigir isso, emendá-lo, porque a intenção do legislativo não era permitir essa lacuna”, disse ele.

O ex-ministro do meio ambiente da França, Christophe Bechu, discursa na Assembleia Nacional em Paris, em 2022. Foto: Emmanuel Dunand/AFP via Getty

Entretanto, nos 21 meses desde essa promessa, a França não fechou a brecha e não tomou nenhuma medida pública nesse sentido.“É vergonhoso que venenos proibidos na França continuem a ser produzidos e exportados de nosso solo, mais de quatro anos após a proibição ter sido aprovada”, disse Delphine Batho, uma política do grupo Social e Ecologista no parlamento francês . “As empresas agroquímicas estão explorando uma brecha legal, mas também podem contar com a benevolência do governo, que não fez nada para remediar a situação. ”

No ano passado, Batho, ex-ministra do meio ambiente que agora atua como deputada na Assembleia Nacional da França , apresentou um projeto de lei com a intenção de fechar as brechas na proibição de exportação da França – incluindo a brecha da substância pura . Ela disse à Unearthed e à Public Eye que havia recentemente reapresentado esse projeto de lei , após as eleições da Assembleia Nacional de julho . 

Nicolas Thierry, um deputado do grupo Social e Ecologista no parlamento francês que desafiou o governo quando as lacunas na lei foram reveladas pela primeira vez , disse que o “escândalo de saúde pública” dessas exportações foi agora “agravado pelo fracasso de um governo que assumiu o compromisso perante a Assembleia Nacional de tapar as lacunas legais” .

O Ministério da Transição Ecológica da França se recusou a responder diretamente quando perguntado pela Unearthed e Public Eye se o governo ainda planejava fechar a brecha da substância pura. Em vez disso, um porta-voz do ministério indicou que a França apoiava uma iniciativa – que começou sob a última Comissão Europeia – para introduzir uma proibição em toda a UE da exportação de produtos químicos cujo uso é proibido dentro da União Europeia. 

Isso “tornaria possível estender a proibição francesa à exportação de produtos fitofarmacêuticos que contenham substâncias proibidas para o nível europeu e, em particular, garantir uma concorrência leal entre todos os estados-membros da UE e um melhor funcionamento do mercado interno da União Europeia”, disse o porta-voz .

A brecha da substância pura não foi a única lacuna na lei Egalim que as empresas de pesticidas fizeram uso no ano passado. No total, a França aprovou a exportação de 7.294 toneladas de pesticidas proibidos em 2023, uma ligeira queda em comparação com o ano anterior . 

No entanto, dessas exportações, 4.517 toneladas, ou 62%, eram substâncias puras. Isso representou um aumento acentuado em relação a 2022, quando menos da metade das exportações eram substâncias puras .

exportações banidas

Outras remessas foram permitidas sob uma brecha diferente, que declarou que a lei Egalim não se aplicava imediatamente em casos em que a aprovação de um pesticida para uso na UE havia expirado sem que os produtos fossem formalmente proibidos. No entanto, essa brecha foi fechada em março deste ano após uma contestação legal por um grupo de campanha. 

O governo já havia consultado planos para fechar essa brecha de “substâncias sem suporte”, mas esses planos foram tornados desnecessários pela decisão do tribunal, disse o porta-voz do Ministério da Transição Ecológica .

Duas empresas

Os principais beneficiários da brecha de substâncias puras da França são duas corporações estrangeiras: a gigante agroquímica americana Corteva e sua concorrente alemã BASF, mostram os dados obtidos pela Unearthed e pela Public Eye. 

Juntas, essas duas empresas foram responsáveis ​​por 97% dos produtos químicos proibidos não diluídos exportados para a fabricação de pesticidas no ano passado. 

A Corteva foi a maior exportadora em peso, recebendo aprovação para embarcar 3.044 toneladas do pesticida picoxistrobina . Isso seria o suficiente para fabricar mais de 15.000 toneladas do fungicida mais vendido da empresa, o Approach Prima , e, por sua vez, pulverizar mais de 50 milhões de hectares de campos de soja – uma área quase do tamanho da França . 

A picoxistrobina foi proibida na Europa e no Reino Unido em 2017, devido à preocupação sobre seu potencial de danificar os cromossomos humanos, bem como o “alto risco” que representava para a vida aquática, minhocas e os mamíferos que as comiam. 

As exportações da Corteva deste produto químico da França no ano passado foram destinadas a oito países , incluindo Argentina, Índia e Estados Unidos . Mas a maioria – 2.000 toneladas – foi para o Brasil . 

A Unearthed entrou em contato com a Corteva para este artigo, mas a empresa não respondeu .

‘Danos ambientais absurdamente enormes’

A BASF foi a segunda maior exportadora em peso, recebendo aprovação para enviar 1.311 toneladas de fipronil puro , um produto químico que tem sido associado a mortandades massivas de abelhas em todo o mundo . Semelhante à Corteva, mais de três quartos das exportações aprovadas da BASF foram para o Brasil . 

O enorme agronegócio do Brasil fez dele o mercado mais importante do mundo para pesticidas altamente perigosos. Autoridades no país documentaram múltiplos casos de colônias de abelhas sendo acidentalmente envenenadas com fipronil. 

Apicultores coletando mel perto de Brasília, Brasil, 2022. Organizações de apicultura e acadêmicos no Brasil dizem que o fipronil tem sido a principal causa de envenenamentos em massa de abelhas no país. Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty

Um porta-voz da BASF disse que o “entendimento da empresa a partir das evidências disponíveis” era que os produtos que causaram esses envenenamentos “não foram produzidos ou vendidos pela BASF” e que as mortes resultaram do “uso indevido” de sprays direcionados às folhas das plantas, que a BASF não vende. 

Várias empresas comercializam inseticidas à base de fipronil no Brasil, mas os produtos que a BASF vende no país são usados ​​para tratar sementes ou aplicados ao solo. Esses usos do fipronil também são proibidos na UE. 

Embora não haja um número nacional sobre o número de abelhas mortas pela exposição a esse produto químico, apicultores e acadêmicos disseram à Unearthed que ele foi o principal pesticida envolvido nos casos relatados de envenenamento de colônias no Brasil.  

Rodrigo Zaluski, pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina , analisou dados de cerca de uma dúzia de pesquisas nas quais cientistas testaram abelhas de colmeias suspeitas de terem sido envenenadas por pesticidas. As primeiras mortes investigadas foram em 2014, a mais recente em 2023. Em todas as principais pesquisas que ele analisou, o fipronil foi detectado na maioria dos casos. 

No ano passado, somente o estado de São Paulo, no sul do país, recebeu 54 relatos de mortandade massiva de abelhas – representando 2.717 colmeias. Autoridades testaram abelhas de 47 dessas mortandades e encontraram fipronil presente em dois terços dos casos. 

O número de envenenamentos de abelhas relatados em São Paulo subestima significativamente o número real, de acordo com Renata Taviera, gerente do programa de saúde das abelhas do estado. “Os apicultores não relatam todos os casos ao órgão investigativo”, ela explicou. “E quando relatam, nem sempre é possível obter amostras e testá-las.”

Ricardo Orsi, membro do comitê científico nacional da Confederação Brasileira de Apicultura, estima que 70% dos casos registrados de intoxicações por abelhas no país são causados ​​pelo fipronil. 

No entanto, quase todas essas mortes relatadas são de abelhas de apiários comerciais. Não há como rastrear o impacto que os pesticidas estão tendo sobre as abelhas nativas selvagens que podem ser mais sensíveis a agrotóxicos , disse Orsi ao Unearthed . 

“Se estamos matando abelhas, então as abelhas nativas, as borboletas e outros insetos também estão mortos”, ele acrescentou. “É um dano ambiental absurdamente grande que não podemos nem medir.”

Cana-de-açúcar sendo colhida no ano passado no estado do Rio de Janeiro, Brasil. A BASF vende inseticidas à base de fipronil no Brasil para uso em culturas como cana-de-açúcar e milho. Foto: Fabio Teixeira/Anadolu Agency via Getty

Agora, as autoridades no Brasil estão começando a reprimir alguns usos do fipronil. Em dezembro passado, a agência nacional de meio ambiente do país, o Ibama, suspendeu temporariamente toda pulverização de fipronil de aviões e helicópteros, bem como de dispositivos montados em tratores que pulverizam o pesticida indiscriminadamente em grandes áreas. 

“Investigações já realizadas indicam a existência potencial de um risco ambiental inaceitável para as abelhas”, explicou a agência na época. A suspensão estará em vigor enquanto a agência reavalia o impacto ambiental do pesticida. 

No entanto, os agricultores ainda podem usar sementes tratadas com fipronil , aplicar o produto químico diretamente no solo e pulverizá-lo de forma direcionada em áreas da cultura onde há pragas presentes. 

Antes mesmo da suspensão nacional, alguns estados brasileiros já haviam proibido a pulverização foliar de fipronil. Santa Catarina foi o primeiro, em 2021, após encontrar fipronil em todas as amostras retiradas de 300 colmeias de abelhas mortas. 

“Após a proibição, vimos uma grande diminuição nas mortes de abelhas”, disse Ivanir Cella, ex-presidente da Federação dos Apicultores de Santa Catarina. “Eu diria que reduzimos 70% do problema.”

Um porta-voz da BASF disse que os relatos de mortes significativas de abelhas relacionadas ao fipronil eram “uma grande preocupação para nós, particularmente o número de relatos de mortes de abelhas no Brasil nos últimos anos, dada a importância do Brasil para a segurança alimentar e a biodiversidade globalmente”. 

“Estamos cientes das discussões controversas sobre o possível impacto do fipronil em abelhas, polinizadores e outros insetos benéficos”, ele disse à Unearthed . “É por isso que já revisamos completamente nosso portfólio e comercializamos produtos sem fipronil para aplicações como pulverização foliar aérea ou over-the-top, que apresentam um risco maior de causar incidentes com abelhas.”

Ele disse que no Brasil a BASF eliminou as pulverizações foliares à base de fipronil em 2013. Os únicos produtos de fipronil que a empresa vende atualmente no país são usados ​​como tratamento de sementes ou aplicados em sulcos ou na superfície do solo.   

“Em relação aos casos recentes de mortes agudas de abelhas no Brasil relacionadas ao fipronil, nosso entendimento a partir das evidências disponíveis para nós é que os produtos não foram produzidos ou vendidos pela BASF, e resultaram de uso indevido durante aplicação aérea ou foliar, que é uma aplicação para a qual não vendemos produtos”, ele acrescentou. “No entanto, ainda estamos preocupados com qualquer um desses incidentes.”

Orsi, no entanto, disse que os problemas causados ​​pelo fipronil no Brasil só poderiam ser totalmente remediados com uma proibição abrangente. 

Nos últimos anos, ele conduziu uma série de estudos sobre o impacto do fipronil em abelhas em doses muito pequenas. Essas doses não são letais, mas produzem, ele diz, “envenenamento crônico”. 

Um campo de soja é pulverizado com pesticidas por avião em Goiás, Brasil. No ano passado, as autoridades brasileiras suspenderam a pulverização aérea de fipronil, mas as organizações de apicultura querem uma proibição abrangente do produto químico. Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty

“Nós provamos que essas doses mínimas promovem efeitos fisiológicos e comportamentais. Elas afetam a nutrição da abelha rainha, levam a uma vida mais curta para as abelhas e afetam seu sistema imunológico, então elas se tornam mais suscetíveis a doenças”, ele disse ao Unearthed . 

“Os efeitos do fipronil foram estudados e avaliados nos últimos anos, e podemos dizer que ele realmente é um dos [pesticidas] mais agressivos para as abelhas”, ele acrescentou. “A única solução é proibir o uso do fipronil, para desenvolver e encontrar moléculas que sejam menos prejudiciais às abelhas.”

Potencial genotóxico

Fipronil puro e picoxistrobina foram responsáveis ​​por quase dois terços do peso total das exportações de pesticidas proibidos da França no ano passado . No entanto, o país também aprovou embarques de 21 outros agroquímicos proibidos, por mais de uma dúzia de empresas.

Algumas dessas exportações eram substâncias puras, mas 2.778 toneladas eram produtos agrícolas prontos contendo produtos químicos proibidos . Isso incluía mais de 750 toneladas de sementes tratadas com inseticidas ‘neonicotinoides’ matadores de abelhas, como clotianidina e tiametoxam , destinados a países como Ucrânia, Rússia, Bielorrússia, Chile e Turquia.

Muitas dessas exportações parecem ter sido aprovadas sob uma brecha que foi introduzida em março de 2022, três meses após a lei entrar em vigor. Naquela época, o governo francês emitiu um decreto de que a proibição de exportação não se aplicaria imediatamente em casos em que a aprovação da UE de um pesticida tivesse simplesmente expirado, sem uma proibição formal. Essa brecha se aplicava mesmo em casos em que as próprias autoridades da UE consideravam o pesticida proibido. 

Este decreto foi anulado em março deste ano pelo Conselho de Estado, o mais alto tribunal da França , após uma contestação legal pela ONG francesa Générations Futures . O tribunal considerou que o decreto violava a lei, porque nem a lei francesa nem a europeia permitiam que o governo concedesse um “período de carência” para essas “substâncias sem suporte”, disse um porta-voz do Ministério da Transição Ecológica à Unearthed e à Public Eye.

Desde a decisão do Conselho de Estado, a exportação desses produtos químicos foi considerada proibida, ela acrescentou, e o ministério se opôs a pedidos de exportação de sementes revestidas com produtos químicos “não suportados”, como tiametoxam ou clotianidina. 

No entanto, alguns produtos também foram notificados para exportação por empresas francesas, embora contivessem produtos químicos que haviam sido formalmente proibidos pela UE. Por exemplo, a França emitiu notificações de exportação para 762 toneladas de produtos contendo o fungicida fenamidona , embora seu uso tenha sido proibido na UE em 2018 devido ao seu “potencial genotóxico” e “alto potencial de contaminação de águas subterrâneas”. 

O porta-voz do ministério sugeriu que a França não conseguiu se opor a essas exportações, porque, embora tenham sido contratadas por empresas francesas, os produtos foram armazenados e exportados de outros territórios da UE. Isso significa que eles não são cobertos pela lei Egalim .

Esses produtos, ela disse à Unearthed e à Public Eye, “não foram produzidos nem estavam em circulação no território nacional francês, então não era legalmente possível se opor a essas exportações”. Ela acrescentou que “estender a proibição francesa ao nível europeu tornaria possível evitar tais evasões”. 

A Comissão Europeia se comprometeu a acabar com a exportação de produtos químicos perigosos proibidos em 2020, depois que uma investigação da Unearthed e da Public Eye descobriu que o bloco emitiu planos para exportar mais de 81.000 toneladas de agrotóxicos proibidos em um único ano.

No início deste mês, o representante da comissão Almut Bitterhof disse aos eurodeputados que o trabalho sobre este compromisso tinha “avançado”, mas houve um atraso após as eleições da UE deste ano, de acordo com um relatório do site de notícias políticas Politico. Ela acrescentou que este trabalho seria acelerado assim que a nova Comissão estivesse em vigor.


Fonte:  Unearthed

A armadilha fóssil: países ricos forçam nações pobres a investir em projetos de combustíveis fósseis

Ativistas criticam ‘nova forma de colonialismo’, onde os países do sul global são forçados a investir em projetos de combustíveis fósseis para pagar dívidas

tempestade

As consequências do ciclone Freddy na cidade de Quelimane, Moçambique, em março deste ano. O país mergulhou em uma crise de dívida quando os preços do gás caíram em 2014-16. Fotografia: Alfredo Zuniga/UNICEF/AFP/Getty Images

Por Kaamil Ahmed para o “The Guardian”

Os países mais ricos e os credores privados estão aprisionando os países altamente endividados na dependência de combustíveis fósseis, de acordo com um novo relatório.

A pressão para pagar dívidas está forçando os países pobres a continuar investindo em projetos de combustíveis fósseis para pagar seus empréstimos do que geralmente são empréstimos de nações e instituições financeiras mais ricas, de acordo com uma nova análise dos ativistas antidívida Debt Justice e parceiros nos países afetados.

O grupo pede que os credores cancelem todas as dívidas dos países em crise – especialmente aquelas ligadas a projetos de combustíveis fósseis.

“Os altos níveis de dívida são uma grande barreira para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis para muitos países do sul global”, disse Tess Woolfenden, oficial sênior de políticas da Debt Justice. “Muitos países estão presos à exploração de combustíveis fósseis para gerar receita para pagar dívidas, enquanto, ao mesmo tempo, os projetos de combustíveis fósseis muitas vezes não geram as receitas esperadas e podem deixar os países ainda mais endividados do que quando começaram. Essa armadilha tóxica deve acabar.”

Daniel Ribeiro, coordenador do programa da campanha ambiental moçambicana Justiça Ambiental, disse que o peso da dívida do país foi duplicado por empréstimos contraídos sem a permissão do parlamento de bancos londrinos em 2013, com base em projeções de ganhos de suas descobertas de campos de gás.

Moçambique mergulhou em uma crise de dívida quando os preços do petróleo e do gás caíram em 2014-16 , disse Ribeiro, mas as soluções dos credores internacionais para resgatar o país dependeram do reembolso de empréstimos por meio de receitas futuras do gás.

“As dívidas causadas pelos combustíveis fósseis estão sendo estruturadas para serem pagas pelos combustíveis fósseis, solidificando um ciclo vicioso de ter que seguir em frente e ter consequências muito graves de não querer continuar com os combustíveis fósseis”, disse Ribeiro.

O Suriname enfrentou situação semelhante após o calote de sua dívida, quando em 2020 fechou um acordo que daria aos credores o direito a quase 30% da receita do petróleo do Suriname até 2050.

Sharda Ganga, diretor do grupo da sociedade civil surinamesa Projekta, disse que esperava que o acordo permanecesse dentro dos compromissos climáticos do país.

Ganga disse: “Como nossa dívida se tornou insustentável, ela domina todas as decisões políticas e afeta a vida de nossos cidadãos de todas as maneiras possíveis. Ganhar dinheiro o mais rápido possível para pagar os credores é, portanto, a prioridade número um. Isso significa que não há mais espaço para paciência e coisas chatas como sustentabilidade ou justiça climática.

“A realidade é que esta é a nova forma de colonialismo – trocamos um governante pelo governo de nossos credores que basicamente já possuem o que é nosso. A diferença é que desta vez nós mesmos assinamos o acordo.”

Leandro Gómez, ativista de investimentos e direitos da Fundação do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Farn) na Argentina, disse que o país foi despojado de soberania para fazer a transição dos combustíveis fósseis e teve que subsidiar empresas de combustíveis fósseis, incentivar projetos de fracking e cancelar projetos de energia renovável.

O relatório também disse que muitos países afetados pelo clima precisam de mais acesso a subsídios para pagar pelos efeitos da mudança climática, já que muitos são forçados a se endividar ainda mais para pagar reparos após ciclones e inundações.

Ativistas climáticos seguram uma faixa exigindo o cancelamento das dívidas dos países em desenvolvimento durante a conferência do clima Cop27 em Sharm el-Sheikh, no Egito, em novembro passado.
Ativistas climáticos seguram uma faixa exigindo o cancelamento das dívidas dos países em desenvolvimento durante a conferência do clima Cop27 em Sharm el-Sheikh, no Egito, em novembro passado. Fotografia: Ahmad Gharabli/AFP/Getty Images

A maior parte dos US$ 10 bilhões (£ 7 bilhões) em assistência financeira fornecida ao Paquistão após as enchentes do ano passado foi na forma de empréstimos, enquanto a parcela da dívida de Dominica em seu produto interno bruto (PIB) aumentou de 68% para 78% após o furacão Maria em 2017.

Mae Buenaventura, do Movimento do Povo Asiático sobre Dívida e Desenvolvimento, disse: “As crises climáticas e da dívida surgiram do mesmo sistema baseado na extração implacável de recursos humanos, econômicos e ambientais do norte global para alimentar a busca por lucro e ganância .”

Ela disse que o cancelamento da dívida é o mínimo que os países ricos e os credores podem fazer.


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Debate sobre extrativismo: onde chegar se não…

A transição energética e a descarbonização consomem enormes recursos. O fato de virem do Sul Global mostra um padrão de exploração bem conhecido

palm oilEm outros lugares, regiões inteiras precisam abrir caminho para os recursos que uma economia descarbonizada precisa neste país. Como aqui durante a derrubada e queima de uma futura plantação de óleo de palma. Foto: CHAIDEER MAHYUDDIN/AFP

Por Anne Tittor para o Neues Deutschland

A redução das alterações climáticas é agora considerada um dos desafios mais importantes do século XXI. A ação rápida é agora mais importante do que nunca para limitar o aquecimento global. A descarbonização desempenha aqui um papel central, ou seja, a redução das emissões que contêm carbono, em particular, afastando-se dos combustíveis fósseis e dispensando matérias-primas que contenham carbono. A descarbonização é um alicerce necessário e central para atingir as metas climáticas, mas ainda não é um passo suficiente. No entanto, no debate político atual, o foco está principalmente na viabilidade técnica da descarbonização, e não em um grande número de medidas necessárias em termos de uma desejável transformação socioecológica.

Na Alemanha, sob esta palavra-chave, o foco está principalmente na reestruturação da indústria automotiva, na situação social nas áreas de mineração de linhito e nos setores industriais intensivos em energia ou nos eixos de conflito entre diferentes grupos sociais. Mas os conflitos de transformação socioecológica não existem apenas em países altamente industrializados. Assim que a base de matéria-prima é descarbonizada, essa descarbonização afeta também os fornecedores de energia e matéria-prima. Afinal, matérias-primas renováveis ​​também precisam ser produzidas e energia precisa ser produzida. Ambos ocupam grandes áreas de terra. Um terço da terra arável da Alemanha seria atualmente necessário para substituir o petróleo bruto usado na produção de plásticos da Alemanha por matérias-primas renováveis.

Descarbonização do driver de conflito

Transição Energética Ecossocial

A demanda por uma transição energética ecossocial que não mais se aproprie de territórios e matérias-primas do Sul Global de forma colonial e extrativista também está sendo levantada por grupos ambientalistas e ativistas do Sul Global. Por exemplo, no “Manifesto dos Povos do Sul – Por uma Transição Energética Ecossocial” de 10 de fevereiro de 2023, traduzido para o alemão pelo Escritório de Informação da Nicarágua.

Por meio do acesso a matérias-primas, energia e terra, a descarbonização atua como um impulsionador de conflitos socioecológicos (de transformação) no Sul Global. Com base na socióloga argentina Maristella Svampa, os conflitos socioecológicos são entendidos como disputas associadas ao acesso e controle de recursos naturais e territórios. Implicam diferentes interesses e valores num contexto de grande assimetria de poder e expressam-se em diferentes concepções de território, ambiente e natureza. O termo socioecológico enfatiza que a sociedade e a natureza estão inseparavelmente inter-relacionadas. Os conflitos socioecológicos são, portanto, disputas sobre apropriações naturais, sua necessidade com esforços de descarbonização,

O mundo continua a ser caracterizado por relações de poder e dependências estruturais que são uma consequência duradoura do colonialismo e se mantêm no comércio e na política externa. Os países do Sul Global recebem principalmente o papel de fornecedores de matérias-primas. Essas suposições são nitidamente condensadas na frase de efeito do extrativismo. Os processos de descarbonização requerem determinadas matérias-primas (incluindo minérios e metais) e quantidades de energia, bem como acesso a terras para posterior valorização de territórios para o cultivo de biomassa (soja, dendê, madeira, etc.) grandes barragens e parques eólicos). Em suma, a base material da descarbonização tem custos socioecológicos de acompanhamento.

Os processos de descarbonização andam de mãos dadas com a mudança material na base de recursos da sociedade. Uma mudança na base de materiais para longe das substâncias fósseis está sendo buscada e já foi iniciada. No sentido geológico, »fósseis« refere-se a fontes de energia que se desenvolveram em petróleo, gás natural e carvão através da inclusão de restos de animais e plantas das primeiras eras geológicas na rocha. Estes liberam grandes quantidades de CO 2 quando queimados . Estratégias “pós-fósseis” são, portanto, chamadas de estratégias que iniciam um afastamento desses combustíveis e são consideradas fontes de energia com baixo teor de CO 2 ou livre de CO 2 .

Além disso, existem várias matérias-primas metálicas e minerais extraídas por meio da mineração, que não são renováveis, mas também não se qualificam como materiais fósseis. Tudo isso, bem como toda a gama de matérias-primas renováveis, provavelmente continuará sendo necessário à medida que as estratégias de descarbonização ganharem força. A base de recursos da sociedade pós-fóssil não inclui apenas recursos renováveis, mas também depende centralmente de minérios e sais. Exatamente como uma economia e uma sociedade pós-fósseis podem parecer é algo aberto e contestado.

Muito uso da terra

Além de matérias-primas metálicas, grandes quantidades de energia renovável e a massiva infraestrutura associada, quanto mais a descarbonização avança, mais terra para matérias-primas renováveis ​​ela precisa. Até agora, o uso da terra tem sido analisado principalmente em campos muito específicos, como a política de biocombustíveis. Essas análises mostraram que o cultivo de agrocombustíveis está associado à perda de propriedade da terra por pequenos agricultores, ao enfraquecimento da soberania alimentar e a pressões socioecológicas significativas, como desmatamento, poluição da água e perda de biodiversidade. Embora a discussão sobre agrocombustíveis tenha diminuído no país, no entanto, a produção mundial do mesmo está aumentando ano após ano (com exceção do ano corona de 2020) e um crescimento adicional está previsto na próxima década. Como parte do “Acordo Verde Europeu”, cotas de mistura mais altas da UE estão novamente sendo discutidas, e muitas estratégias de descarbonização incluem significativamente mais agrocombustíveis.

Várias estratégias políticas, incluindo as estratégias de bioeconomia, pretendem usar matérias-primas renováveis ​​não apenas para biocombustíveis, mas também para um grande número de outros usos materiais e energéticos no curso da descarbonização. Até agora, prevaleceu um entendimento de bioeconomia que se resume à substituição de matérias-primas fósseis por renováveis. No entanto, muitas vezes é ignorado que isso é simplesmente impossível porque grandes áreas de terra não estão disponíveis. A terra arável disponível na Terra já é escassa. Além disso, os debates atuais sobre crises socioecológicas são muitas vezes conduzidos separadamente uns dos outros e as áreas da terra são planejadas várias vezes: enquanto os pesquisadores da ETH Zurich querem plantar mais 900 milhões de hectares de floresta por razões de proteção do clima, Especialistas em biodiversidade propõem a designação de 1,7 bilhão de hectares de áreas protegidas para a conservação da biodiversidade. Ao mesmo tempo, os defensores da bioeconomia querem expandir drasticamente a área de cultivo de matérias-primas renováveis.

O fato de que no curso da descarbonização há um aumento acentuado dos conflitos socioecológicos, especialmente sobre a terra, tem a ver com um argumento estrutural: as fontes de energia renováveis ​​consomem muito mais terra do que os combustíveis fósseis, justamente por terem um consumo energético significativamente menor. densidade . O cientista ambiental canadense Vaclav Smil comparou um total de cerca de 50.000 quilômetros quadrados de uso da terra para energia fóssil com um uso de terra de 398.000 quilômetros quadrados para energias renováveis. Isso inclui 263.000 quilômetros quadrados para biocombustíveis modernos, 131.000 para hidrelétricas e 40.800 para eólica.

À data do cálculo, o consumo terrestre de energias renováveis ​​é quatro vezes superior ao das energias fósseis – ainda que as primeiras gerassem apenas 3,8 por cento da energia na altura. Muitas dessas áreas de terra exigidas estão ocupadas no Sul Global. Isso estabelece condições extrativistas em diferentes áreas importantes para a descarbonização. Se houver também um aproveitamento de materiais além do energético, por exemplo, substituindo o plástico à base de petróleo pelos chamados bioplásticos à base de matérias-primas renováveis, o problema torna-se ainda mais agudo. Quanto mais a descarbonização avança, mais extenso extrativismo pós-fóssil e com ele os conflitos de transformação socioecológica ameaçam se tornar.

Um padrão de exploração

O extrativismo pós-fóssil inclui a extração e cultivo de recursos renováveis, que está associado a altos custos socioecológicos, a produção em larga escala de energias renováveis ​​e os requisitos associados de recursos minerais e metálicos. Além disso, há um aumento maciço na demanda por eletricidade. Isso, por sua vez, exacerba os conflitos sobre energias renováveis ​​com seus altos requisitos de terra. Em particular, projetos de barragens e plantações de madeira estão voltando com a descarbonização, apesar de seus efeitos socioecológicos problemáticos. Todos os esforços de descarbonização também exigem a expansão da infraestrutura em grande escala.

O extrativismo é, portanto, seguindo Maristella Svampa, um padrão de divisão transnacional do trabalho no capitalismo contemporâneo, que requer cada vez mais matérias-primas e energia e, portanto, exerce uma pressão cada vez maior sobre os recursos naturais e territórios nas áreas rurais periféricas do mundo . Isso aprofunda a posição desigual dos países no sistema mundial e agrava ainda mais a atual crise socioecológica. Nas regiões mineradoras, o extrativismo aparece como um modelo socioterritorial baseado na superexploração dos recursos naturais e na ampliação dos limites de uso para áreas antes consideradas improdutivas do ponto de vista do capital. Essa compreensão do extrativismo acentua a dimensão territorial um pouco mais do que outras definições e sublinha que

O fenômeno do extrativismo pode ser visto como um padrão na história latino-americana, mas o debate sobre o extrativismo surgiu principalmente na última década. O termo é usado principalmente de forma crítica para se referir aos custos socioecológicos consequentes da extração extensiva de matérias-primas.

Expansão do extrativismo agrário

Durante muito tempo, o debate sobre o extrativismo concentrou-se nos combustíveis fósseis carvão, gás natural e petróleo, além da mineração de metais. Mas, nos últimos anos, surgiram padrões extrativistas em muitos outros campos. Vários trabalhos atuais discutem o conceito de extrativismo agrícola, também em relação aos agrocombustíveis. Inicialmente, o foco estava principalmente em soja e óleo de palma cultivados em grandes plantações, mas recentemente também em cana-de-açúcar, frutas cítricas e flores cortadas. Para o extrativismo agrícola em particular, é importante determinar com mais precisão o que é extraído e como. Por um lado, existem nutrientes no solo que são removidos a tal ponto que não podem mais se regenerar. Em 2015, a ONU declarou que o solo usado para agricultura intensiva é um “recurso não renovável”. Como a qualidade do solo está em constante declínio e o solo está constantemente sendo usado em excesso, grandes quantidades de fertilizantes artificiais são usadas. O extrativismo agrícola é, portanto, na verdade “agricultura mineira” do lado material ou biofísico.

Devido à forte dependência de substâncias fósseis, essa forma de cultivo exacerba o extrativismo clássico; ao mesmo tempo, apesar das grandes quantidades de insumos fósseis, não pode parar a degradação do solo. O extrativismo agrícola também está associado a uma forma particular de produção praticada pelo agronegócio, voltada para a produção de grandes quantidades de mercadorias para exportação. Essa exportação ocorre com pouco ou nenhum processamento. Além disso, é característica uma alta concentração da cadeia de valor em apenas algumas empresas, ao mesmo tempo em que falta um relacionamento econômico mais próximo com outras empresas locais.

Além disso, o extrativismo agrícola leva à deterioração das oportunidades de trabalho e/ou das condições de trabalho. Ele conta com o uso de equipamentos modernos e tecnologias digitais e assim contribui para a »agricultura sem agricultores«. Os efeitos colaterais são a degradação do solo, poluição da água, perda de biodiversidade, desmatamento e concentração de terras. Devido ao uso generalizado de agrocombustíveis e ao aumento do uso material e energético da biomassa cultivada, é provável uma expansão do extrativismo agrícola no futuro.

Água e florestas

Vários trabalhos também falam do extrativismo no setor florestal, em particular análises do Chile. Ali, paisagens, ecossistemas e relações homem-natureza foram redesenhados dentro de um modelo extrativista em enormes plantações de árvores de empresas privadas. A terra foi outrora utilizada pelos indígenas mapuches para a pecuária extensiva ou agricultura de subsistência e é considerada por eles como seu território histórico. Como resultado, há intensos conflitos pelo uso da terra e da água.

O paralelo com o extrativismo agrário não reside apenas nesses conflitos de uso da terra e da água e na forte e irreversível conversão de grandes áreas de terra para o cultivo de produtos prioritariamente exportados. Este tipo de economia também requer muita terra, mas quase nenhum trabalhador. As comunidades locais estão sendo expulsas, os ciclos ecológicos estão sendo alterados, a produção está sendo estabelecida para o mercado mundial e os padrões coloniais estão sendo ligados. Essas plantações de árvores são frequentemente declaradas como projetos de reflorestamento e, às vezes, cofinanciadas com fundos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Uma vez que a madeira como matéria-prima renovável também está se tornando mais importante como material de construção no contexto da descarbonização e as primeiras usinas a carvão estão agora sendo operadas com lascas de madeira em vez de carvão,

Além disso, grandes usinas hidrelétricas também podem ser classificadas como projetos extrativistas. Aqui também está ocorrendo uma transformação em larga escala e irreversível dos territórios. Cerca de quatro milhões de pessoas por ano são reassentadas por causa das barragens. Embora a água não seja apropriada diretamente, é a energia que é extraída e exportada. A assimetria nas relações de poder faz com que os lucros sejam desviados para lugares distantes, enquanto os locais arcam com os custos socioecológicos. Como as grandes barragens raramente são usadas para abastecimento local de energia e água, mas geralmente fornecem eletricidade principalmente para setores como mineração ou agronegócio, elas fazem parte da “geografia do extrativismo”.

Projetos de grandes barragens foram duramente criticados nas décadas de 1980 e 1990 por causa de seu problemático impacto social e ambiental e desde então foram removidos da agenda política de desenvolvimento. Mas diante da descarbonização, eles foram ajudados a renascer. Enquanto isso, atores como o Banco Mundial e muitos bancos privados – e cada vez mais também o capital chinês – estão financiando projetos de barragens. Este desenvolvimento foi ainda reforçado pelo estabelecimento do MDL. Nesse quadro, os países industrializados podem investir nos países em desenvolvimento, em vez de reduzir as emissões em casa. Setorialmente, os maiores projetos na área de energia eólica e hidrelétrica têm sido os mais financiados – apesar de seus custos socioecológicos problemáticos. Porque há um novo consenso em torno da estratégia de baixo carbono .

Narrativas Verdes

Devido às muitas semelhanças que surgem nos padrões de implementação e nas consequências do agroextrativismo, dos grandes projetos de barragens, das grandes plantações florestais e de biomassa e das infraestruturas associadas, faz sentido trazer esses projetos para um termo comum: »extrativismo pós-fóssil «. Esta é uma estratégia de desenvolvimento que promove a valorização das zonas rurais periféricas com base na terra e em recursos renováveis ​​e de base biológica e contribui para a descarbonização. Isso também inclui a mineração intensiva e em larga escala de matérias-primas metálicas e minerais para as tecnologias correspondentes.

O extrativismo pós-fóssil anda de mãos dadas com uma promessa de desenvolvimento, principalmente de prosperidade e empregos para as respectivas regiões. No local, as justificativas climáticas e ambientais para os respectivos projetos desempenham um papel secundário – contrariando sugestões do debate como “ecoextrativismo”, “extrativismo renovável”, “extrativismo verde” ou “extrativismo alternativo”. Pós-fóssil descreve a base material do extrativismo, o que não altera as formas de fiscalização e os efeitos socioecológicos. Ecológico ou “verde” é apenas a narrativa apropriada que acompanha os projetos.

A esse respeito, não estamos em uma fase de extrativismo pós-fóssil, mas o extrativismo pós-fóssil está aumentando à medida que a descarbonização avança. Até agora, apenas complementou o extrativismo fóssil, porque, embora a eliminação do carvão e do petróleo tenha sido anunciada em mais de 100 países, seus volumes de produção ainda não estão diminuindo em escala global. As energias pós-fósseis têm uma densidade energética menor do que os combustíveis fósseis e a descarbonização requer grandes quantidades de energia (renovável). Portanto, o acesso à terra e, portanto, também os conflitos socioecológicos provavelmente aumentarão acentuadamente à medida que a descarbonização avança, porque a forma de descarbonização praticada até agora requer quantidades consideráveis ​​de matérias-primas e ocupa grandes áreas de terra, especialmente para produção de energia.

Rompimento das relações extrativistas

No que diz respeito às consequências socioecológicas no local – a destruição dos ecossistemas, a impossibilidade de estratégias anteriores de subsistência , a perda da soberania alimentar e da biodiversidade – os vários extrativismos pouco diferem. Os conflitos em torno do extrativismo pós-fóssil já respondem por cerca de 40% dos conflitos socioecológicos em todo o mundo (excluindo o setor metalúrgico).

Vários desses conflitos existem há mais tempo do que o conceito de descarbonização, mas atualmente estão chegando ao auge. Portanto, esses conflitos socioecológicos também devem ser vistos como conflitos de transformação, ao invés de usar esse termo apenas para as disputas sobre as indústrias carbonífera e automobilística neste país. Muitas convulsões sociais – incluindo a descarbonização – andam de mãos dadas com uma relação Norte-Sul específica que não deve ser negligenciada. Além disso, a conceituação como conflitos de transformação sócio-ecológica sublinha que estes não são uma coisa do passado, mas provavelmente se intensificarão no futuro.

Se você descobrir a conexão estrutural entre descarbonização e custos socioecológicos no Sul Global, não estará de forma alguma isentando os governos dos países do sul de sua responsabilidade. Como já foi mostrado ao longo do debate sobre o extrativismo, tanto os governos quanto as próprias classes dominantes têm interesse em aprofundar os projetos extrativistas e os estão promovendo ativamente – seja para gerar receita do Estado ou simplesmente para lucrar. Além disso, há também esforços de descarbonização em países do Sul, que não acontecem apenas por causa das relações de poder internacionais e das condições do mercado mundial, mas às vezes são motivados pelo desejo de soberania energética ou proteção do clima.

Enquanto a descarbonização for projetada para ser apenas uma tentativa de colocar os padrões fósseis em uma base biológica, ela ajudará a perpetuar as relações extrativistas. Porque até agora apenas a base material da economia foi gradualmente alterada, mas as infraestruturas, as relações sociais e as expectativas crescentes não mudaram, também porque atores poderosos tentam segurá-los a qualquer preço. Os conflitos são multiplicados devido à densidade energética estruturalmente maior das substâncias fósseis em comparação com as renováveis ​​ou renováveis. Um projeto socialmente justo de descarbonização teria que levar esse fato em consideração, em vez de sugerir que o atual modelo de produção e consumo pode ser continuado – apenas com uma base de matéria-prima diferente.

Em vez disso, é necessário um projeto político direcionado da transformação socioecológica. Cotas de mistura e reciclagem ou o desenho da lei da cadeia de suprimentos fazem a diferença. Uma reviravolta real no transporte, por exemplo, teria um impacto ainda mais sério – longe da automobilidade individual em vez de uma mera reviravolta. A questão mais importante é se os políticos deste país estão traçando o caminho para uma redução drástica no consumo de energia e matérias-primas. Até agora, porém, não parece.

O artigo é uma versão resumida de »Extrativismo pós-fóssil? A Multiplicação de Conflitos Sócio-Ecológicos no Sul Global através da Descarbonização«, publicado em Prokla 210: Conflitos de Transformação Sócio-Ecológica e Estratégias de Esquerda. 53º ano, número 1, março de 2023, Bertz + Fischer, 196 páginas, 15€.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

A fome e os lucros fabulosos da Bayer

Crise alimentar faz com que os lucros do Grupo Bayer quadrupliquem, o glifosato mais vendido também é o principal assassino do clima

drone glifoDesenvolvimento de negócios extraordinariamente forte: Drone  faz aspersão de glifosato sobre plantação de soja no Brasil

Por Jan Pehrke para o JungeWelt

“O ano  de 2022 foi um ano de muito sucesso para a Bayer, apesar das condições adversas”, afirmou na terça-feira o CEO cessante Werner Baumann na conferência de imprensa de contas da multinacional baseada em Leverkusen. As vendas aumentaram 8,7% para 50,7 mil milhões de euros e o resultado consolidado ainda passou de mil milhões para 4,15 bilhões de euros. Em grande medida, estes números surgiram precisamente devido às “condições de enquadramento adversas”, uma vez que todo o setor agrícola se beneficia da escassez de alimentos como consequência da guerra na Ucrânia. Isso leva a uma demanda maior e, consequentemente, a preços mais altos. Portanto, há mais dinheiro envolvido, o que beneficia comerciantes globais de commodities agrícolas, como a Cargill, e também fabricantes de maquinário agrícola, como John Deere e Bayer, porque os agricultores estão comprando mais agrotóxicos e sementes.

Enquanto as vendas na divisão farmacêutica “apenas” cresceram  1,12% para 19,2 bilhões de euros, as da divisão agrícola aumentaram 15,6%, para 25,2 bilhões de euros. Um “desenvolvimento de negócios extraordinariamente forte na ‘Crop Science'”, relatou o player global: “Aumentos de preços em todas as regiões mais do que compensaram a menor área plantada na América do Norte e a menor receita de licenças”. Mercado”.

“Numa época em que a população da Alemanha geme sob uma inflação imensa, o Sul Global sofre com uma crise alimentar e cada vez mais países enfrentam a insolvência, o Grupo Bayer quer aumentar o dividendo em 20% porque fez enormes lucros. Isso fede aos céus”, disse a coordenação contra os perigos do Bayer (CBG). Como consequência, a rede crítica do grupo exige um imposto sobre o lucro excedente.

Por melhor que seja o equilíbrio comercial, o equilíbrio ecológico é ruim, e há uma conexão entre eles: o glifosato, o mais vendido, é, entre muitas outras coisas, um dos principais assassinos do clima. Todo o processo de fabricação consome muita energia e, dessa forma, garante altas emissões de CO2. A fornalha da unidade norte-americana de Soda Springs, por exemplo, precisa atingir uma temperatura operacional de 1.500 graus Celsius para extrair o fósforo, precursor do glifosato, da fosforita. Como resultado, o herbicida é responsável por uma parcela significativa das emissões de carbono da Bayer de 3,03 milhões de toneladas métricas no ano passado. “Nossa extração de matéria-prima, incluindo preparação e processamento adicional para a produção de precursores de produtos de proteção de cultivos da ‘Crop Science’, é particularmente intensiva em energia”,

E estes 3,03 milhões de toneladas provavelmente não é tudo, porque há grandes dúvidas sobre as 450 mil toneladas de CO2 que a empresa pública afirma ter neutralizado com o financiamento de projetos de reflorestação e proteção florestal. Para algumas dessas transações de compensação, adquiriu certificados da empresa Verra, que, segundo pesquisa do Die Zeit e outros meios de comunicação, não foram cobertos pela economia de dióxido de carbono, mas eram “um monte de lixo”.

Outros parâmetros ambientais não são melhores. A gigante do agro lançou mais substâncias destruidoras de ozônio, compostos orgânicos voláteis e poeira no ar. Ele introduziu mais fósforo e mais metais pesados ​​na água. E os resíduos perigosos também foram produzidos em maiores quantidades. Por tudo isso e muito mais, o CBG quer enfrentar o grupo na Assembleia Geral Ordinária no próximo dia 28 de abril, conforme anunciado em nota.


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Este texto originalmente escrito em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Livro recém-lançado pela Stanford University Press traz capítulo sobre o Porto do Açu e os esforços feitos para transformá-lo em uma “rodovia para a China”

capa livro silk

Em meio a uma ano relativamente difícil, estou tendo o prazer de saber que o livro intitulado “The Tropical Silk Road: The Future of China in South America”, lançado pela Stanford University Press já está disponível para compra aos interessados.

Um dos aspectos mais centrais deste livro é que  o mesmo captura uma junção histórica de dois dos processos mais transformadores da atualidade: a esfera de influência da República Popular da China em rápida expansão no sul global e a desintegração dos biomas amazônico, cerrado e andino. A interseção desses dois processos deu outro passo em abril de 2020, quando o presidente chinês Xi Jinping lançou uma agenda de ajuda e investimento da “Nova Rota da Seda da Saúde” que se estenderia pela América do Sul, estendendo a “Iniciativa do Cinturão e da Rota” eurasiano-africana para uma série de megaprojetos de minas, portos, energia, infraestrutura e agronegócios nos trópicos latino-americanos.

A partir de trinta ensaios curtos, este  livro reúne uma impressionante variedade de colaboradores, de economistas, antropólogos e cientistas políticos a organizadores de comunidades negras, feministas e indígenas, partes interessadas chinesas, ativistas ambientais e jornalistas locais para oferecer uma análise pioneira da presença da China na América do Sul. À medida que as rachaduras no legado progressista da “Maré Rosa” e os fracassos dos populismos ecocidas de direita moldam novas economias políticas e possibilidades geopolíticas, este livro fornece um relato de base de uma ordem mundial pós-centrada nos EUA e um mapa que o acompanha do desafios para a América do Sul que destaca vozes emergentes e formas de resistência.

A minha modesta contribuição a este  livro se dá com o capítulo “Rio’s Phantom Dubai?: Porto do Açu, Chinese Investments, and the Geopolitical Specter of Brazilian Mineral Booms”.  Neste capítulo eu analiso o papel do Estado e as repercussões socioambientais da implantação e operação do Porto do Açu, empreendimento localizado no litoral norte do Rio de Janeiro. Apesar de ser uma iniciativa privada iniciada pelo ex-bilionário Eike Batista, o Porto do Açu recebeu empréstimos de bancos públicos e recursos do governo por ser um importante ponto nodal de exportação de commodities minerais, principalmente para a China. Eike Batista organizou uma delegação para estabelecer negociações com empresas chinesas para convencê-las a se instalarem no distrito industrial do porto. A crise financeira que abalou o Grupo EBX no final de 2013 levou o Porto do Açu a ser controlado pelo fundo de private equity EIG Global Partners. Desde então o foco operacional do projeto mudou substancialmente, deixando a opção preferencial na exportação de minério de ferro para óleo e gás. No entanto, mostro no capítulo que o esforço de atração de investimentos chineses continua, ainda que sem um desenlace previsível.

Países pobres desenvolvem países ricos, e não o contrário

O Norte Global extrai US$ 2,2 trilhões em matérias-primas do Sul a cada ano. Essa soma seria suficiente para acabar com a pobreza extrema quinze vezes, em todo o mundo

globo real

Gráfico do artista cubano Falco (Alex Falco Chang). Fonte: CUBASI
Por DoJason Hickel, Dylan Sullivan, Huzaifa Zoomkawala para o Amerika21

Há muito sabemos que a ascensão industrial dos países ricos foi baseada na exploração do Sul Global durante a era colonial. A Revolução Industrial na Europa baseou-se em grande parte no algodão e no açúcar cultivados em terras roubadas dos nativos americanos – e com trabalho forçado de africanos escravizados.

A exploração da Ásia e da África tem sido usada para financiar infraestrutura, prédios públicos e estados de bem-estar na Europa – todas as marcas do desenvolvimento moderno. Os custos para o Sul, no entanto, foram catastróficos: genocídio, desapropriação, fome e empobrecimento em massa.

As potências imperiais eventualmente retiraram a maioria de suas bandeiras e exércitos do Sul em meados do século XX. Mas nas décadas que se seguiram, economistas e historiadores ligados à “teoria da dependência” argumentaram que os padrões subjacentes da apropriação colonial persistiram e continuaram a definir a economia mundial. O imperialismo nunca parou, eles declararam – apenas mudou sua forma

Você estava certo. Pesquisas recentes mostram que os países ricos ainda contam com uma grande apropriação líquida do Sul Global, incluindo dezenas de bilhões de toneladas de matérias-primas e centenas de bilhões de horas de trabalho humano por ano – investidos não apenas em bens primários, mas também em bens manufaturados de tecnologia, como smartphones, laptops, chips de computador e automóveis, que têm sido predominantemente fabricados no Sul nas últimas décadas.

Esse fluxo de apropriação líquida ocorre porque os preços são sistematicamente mais baixos no Sul do que no Norte. Por exemplo, os salários pagos aos trabalhadores no Sul representam em média apenas um quinto dos salários no Norte. Isso significa que para cada unidade de mão de obra e recursos investidos que o Sul importa do Norte, o Sul tem que exportar muito mais unidades para pagar por isso.

Os economistas Samir Amin e Arghiri Emmanuel descreveram isso como uma “transferência oculta de valor” do sul que mantém altos níveis de renda e consumo no norte. Esse “dreno” ocorre de maneira sutil e quase invisível, sem a violência ostensiva da ocupação colonial e, portanto, sem despertar protestos e indignação moral.

Em um artigo recente publicado na revista New Political Economy, nos baseamos no trabalho de Amin e outros para calcular a extensão das saídas cambiais desiguais na era pós-colonial. Descobrimos que eles aumentaram dramaticamente nas décadas de 1980 e 1990, à medida que programas neoliberais de ajuste estrutural foram impostos em todo o Sul Global.

Hoje, o Norte Global extrai US$ 2,2 trilhões em commodities do Sul a cada ano, a preços do Norte. Coloque em perspectiva: essa soma seria suficiente para acabar com a pobreza extrema em todo o mundo em quinze vezes.

Durante todo o período de 1960 até o presente, a saída é de US$ 62 trilhões em termos reais. Se esse valor tivesse sido retido pelo Sul e contribuído para o crescimento do Sul, valeria hoje US$ 152 trilhões, com base nas taxas de crescimento do Sul durante esse período.

São somas monstruosas. Para o Norte Global (e aqui nos referimos aos EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Israel, Japão, Coréia e as economias ricas da Europa) os ganhos são tão grandes que superaram a taxa de crescimento econômico nas últimas décadas. Em outras palavras, o crescimento líquido no Norte se deve à apropriação do resto do mundo.

Para o sul, as perdas superam em muito a ajuda externa fornecida. Para cada dólar de ajuda que o Sul recebe, perde US$ 14 em fluxos de saída apenas por meio de trocas desiguais. E isso sem contar outros tipos de perdas, como saídas financeiras ilícitas e repatriação de lucros. É claro que esse número varia de país para país – alguns mais altos que outros – mas em todos os casos, o discurso de “ajuda” mascara uma realidade mais sombria de pilhagem. Os países pobres desenvolvem os países ricos, e não o contrário.

Os economistas neoclássicos tendem a ver os baixos salários no Sul como “naturais” – uma espécie de consequência neutra do mercado. Mas Amin e outros economistas do Sul Global argumentam que a desigualdade salarial é uma consequência do poder político.

Os países ricos têm o monopólio das decisões do Banco Mundial e do FMI, têm maior poder de barganha na Organização Mundial do Comércio, usam seu poder como credores para ditar a política econômica dos países devedores e controlam 97% das patentes do mundo. Os estados e corporações do Norte usam esse poder a seu favor para deprimir os preços do trabalho e dos recursos no Sul Global. Isso lhes permite alcançar a apropriação líquida por meio do comércio.

Nas décadas de 1980 e 1990, os programas de ajuste estrutural do FMI reduziram os salários e o emprego no setor público, ao mesmo tempo em que reduziram os direitos trabalhistas e outras proteções. Tudo isso tornou a mão de obra e os recursos mais baratos. Hoje, os países pobres são estruturalmente dependentes do investimento estrangeiro e não têm escolha a não ser competir entre si e oferecer mão de obra barata e recursos para agradar os mestres das finanças internacionais. Isso garante um fluxo constante de descartáveis ​​e moda rápida para consumidores abastados no Norte, mas com um tremendo custo para vidas e ecossistemas no Sul.

Existem várias maneiras de resolver este problema. Uma seria democratizar as instituições de controle econômico global para que os países pobres tenham uma palavra justa na determinação dos termos comerciais e financeiros. Outro passo seria garantir que os países pobres tenham o direito de usar tarifas, subsídios e outras políticas industriais para construir sua capacidade econômica soberana. Também poderíamos dar passos em direção a um sistema global de salários dignos e salários dignos e uma estrutura internacional para regulamentações ambientais que estabeleçam um piso para os preços do trabalho e das commodities.

Tudo isso permitiria ao Sul obter uma parte mais justa dos rendimentos do comércio internacional e liberar seus países para mobilizar seus recursos para erradicar a pobreza e atender às necessidades humanas.

Mas atingir esses objetivos não será fácil; requer uma frente organizada de movimentos sociais por um mundo mais justo contra aqueles que se beneficiam tão imensamente do status quo.

Jason Hickel, Reino Unido, antropólogo econômico

Dylan Sullivan, estudante de doutorado no Departamento de Economia Política da Universidade de Sydney

Huzaifa Zoomkawala, Pesquisador Independente e Analista de Dados em Karachi


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Este texto foi publicado originalmente em alemão pelo Amerika21 [Aqui!].

O padrão de dupla moral das corporações dos agrotóxicos: produtos proibidos nos países sede são vendidos no Sul Global

Christian_Russau_Rede_Bayer_2019_1200x600Christian Russau, porta-voz da Articulação dos Acionistas Críticos da Alemanha se pronuncia na assembleia anual dos acionistas da Bayer para cobrar coerência entre os discursos e as práticas na produção e venda de agrotóxicos fabricados pela empresa

Ainda que seja inevitável apontar para a responsabilidade do governo Bolsonaro e de sua base aliada na aprovação do Pacote do Veneno, há uma força insidiosa que permanece fora dos holofotes e que tem responsabilidade direta na tentativa de por abaixo um sistema de monitoramento  que, apesar de todas as suas falhas, ainda servia como um elemento que contenção para a entrada de agrotóxicos tão perigosos que foram banidos (alguns há mais de duas décadas) nos países em que as empresas fabricantes têm suas sedes.

Falo aqui do poderoso lobby exercido no congresso nacional e nas estruturas de governo por multinacionais como Bayer/Monsanto, Basf, DowDupont e a ChemChina/Syngenta. É por meio desse lobby que parlamentares ligados ao latifúndio agro-exportador como o deputado Luiz Nishimori (PL/PR) são eleitos para irem participar sem intermediários dos esforços em prol das corporações multinacionais que depois lucram fortunas com a venda de agrotóxicos que estão banidos na Europa, Estados Unidos e China.

Esse padrão de exportar para o Sul Global aquilo que foi proibido nos países-sede já foi documentado pela organização não-governamental suíça Public Eye que publicou em 2019 um relatório sobre os lucros fabulosos auferidos no Brasil pela ChemChina/Syngenta com a venda de produtos altamente perigosos para a saúde humana e para o meio ambiente (ver exemplos de alguns desses agrotóxicos na imagem abaixo).

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A dupla moral da Bayer e da Basf: primeiro envenena, depois vende a cura

Mas não é só a ChemChina/Syngenta que tem a prática de empurrar para o Sul Global agrotóxicos que são sabidamente causadores de doenças graves. As multinacionais alemãs Bayer/Monsanto e Basf também seguem enviando para o Sul Global um conjunto de agrotóxicos que estão banidos na Alemanha. Mas quando pressionados a dar alguma explicação, o que se ouve é que a venda dos produtos dessas empresas está em acordo com as legislações nacionais, omitindo o fato de que atuam para, juntos com os seus extensos laços de lobby, enfraqueceram as legislações nacionais para seguirem vendendo produtos que foram banidos na Alemanha e, na maioria dos casos, em toda a União Europeia.

Um interlocutor deste blog notou ainda que há algo muito cînico com a forma pela qual empresas como a Bayer/Monsanto e a BASF agem, pois, por um lado, vendem venenos agrícolas proibidos por serem causadores de todo tipo de doenças e, por outro, vendem medicamentos que supostamente irão curar os adoecidos por seus agrotóxicos.

Apesar de concordar com a indignação do interlocutor, noto que há ainda algo mais contraditório no comportamento dessas gigantes do setor químico que é o fato de em suas assembleias de acionistas ser repetido à exaustão a cantilena de que estão tomando rumos comprometidos com os desígnios do desenvolvimento sustentável, reforçando que há compromisso com a adoção de modelos agrícolas que produzam alimentos saudáveis.  

A verdade é que não algo tão distante da verdade quanto os discursos de governança corporativa e ambiental dessas empresas. Felizmente, ao menos no caso da Alemanha há ação da chamada “Articulação dos Acionistas Críticos que vem agindo para expor as contradições entre discurso e prática das multinacionais alemãs no Sul Global, mas especialmente no Brasil.

Mas até para fortalecer ações como as realizadas pelos “Acionistas Críticos”, há que se reforçar as articulações já existentes aqui mesmo no Brasil, a começar pela Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida cujos esforços permanecem desconhecidos da maioria da população brasileira. Com isso o lobby pró agrotóxicos continua agindo livre, leve e solto.

Expor os lobistas é um caminho para forçar uma mudança de comportamento das corporações

Na minha opinião não existem soluções fáceis para combater o poderoso lobby das grandes fabricantes de venenos agrícolas, pois elas estão muito bem articuladas e escondidas em organizações de lobby como é o caso da CropLife cujo braço brasileira, a CropLife Brasiltem como seu atual presidente, o candidato a vice-presidente do Partido Novo nas eleições presidenciais de 2018, o cientista Christian Lohbauer.

Como essas organizações de lobby agem tanto por detrás das cortinas como em frente delas, um caminho para diminuir a força que elas têm no congresso nacional e em órgãos reguladores, começando pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), um primeiro passo tem que ser justamente falar da existência dessas estruturas de lobby, pois ao expô-las ficará mais difícil pressionar as corporações em seus países-sede, pois lá a sensibilidade à opinião pública é maior.

Por isso tudo é que reafirmo que uma das prioridades programáticas para as eleições gerais de 2022 terá de ser a cobrança pela mudança do padrão dominante de produção agrícola que está condenando o Brasil a se transformar em uma latrina química de substâncias químicas cujo poder de destruição já está fartamente documentado pela comunidade científica internacional.

A lógica perversa do microcrédito: faça de todos um capitalista

Microcrédito pode ajudar pessoas físicas, mas segue a lógica do mercado liberal

seedsOs empréstimos para sementes são o principal exemplo de microcrédito. Foto: Pixabay

Por Philip Bles para o Neues Deutschland

Histórias de sucesso como as do livro-texto do liberalismo de mercado: As pessoas pobres que foram deixadas para trás no Sul Global nem sequer têm meios para obter as sementes para a próxima temporada. Mas um banco é misericordioso. Ela ajuda com um pequeno empréstimo. A família toda trabalha muito e depois da colheita ela pode pagar o empréstimo – e ainda ter um pouco a mais. O trabalho duro compensa.

Na verdade, é isso, toda a ideia por trás dos chamados microcréditos, que são vendidos em todo o mundo como ajuda privada ao desenvolvimento há quase 50 anos. Em 2006 eles – mais precisamente: o banco que os popularizou e seus diretores-gerentes – receberam até o Prêmio Nobel da Paz. Agricultores de pequena escala que desejam investir em sementes e equipamentos, mercearias em geral que desejam comprar novos produtos ou um pequeno armazém, todos podem emprestar pequenas quantias de dinheiro a bancos ou ONGs para fazer esses investimentos.

Alguns provedores especificam mais, outros menos requisitos. O Grameen Bank, que recebeu um prêmio do parlamento norueguês, depende da pressão dos pares. Várias pessoas têm que unir forças para conseguir um empréstimo. Isso aumenta o controle social e a vigilância mútua. O banco está em contato próximo com os devedores durante o empréstimo e os aconselha. Ao longo do tempo, também houve uma atribuição preferencial às mulheres. Em 2007, por exemplo, elas representavam cerca de 97% dos mutuários.   É que as mulheres devolvem o dinheiro de forma mais confiável e, portanto, são promovidos adicionalmente.

Acima de tudo, os atores desonestos do mercado de microcrédito têm sido criticados. Muhammad Yunus, economista e fundador do Grameen Bank, criticou outros bancos por altas taxas de juros e mau serviço. Essas ovelhas negras do microcrédito são atraídas pelo retorno e não pela ideia desenvolvimentista da opção de financiamento. Inúmeros documentários em emissoras públicas ou na Internet mostram exemplos e tristes vítimas que agora estão presas na armadilha da dívida.

Bom banco, mau banco – essa distinção pode ser mantida? Para isso, é preciso considerar qual é a finalidade econômica do crédito em geral. Eles superam as restrições orçamentárias, permitindo um investimento que provavelmente trará dinheiro que ainda não está disponível. Em um sistema financeiro bem desenvolvido, mesmo sem capital próprio, você pode obter os meios para comprar meios de produção – tudo que você precisa é de uma boa ideia que você possa vender com segurança.

Modelos de negócios simples de contabilidade de investimentos pressupõem um mercado perfeito. Uma empresa pode emprestar ao infinito e, assim, gerar mais fluxo de caixa. Uma vez que as pessoas físicas e jurídicas agem racionalmente no entendimento liberal de mercado, elas sabem quais transações e empréstimos fazem sentido, ou seja, são rentáveis. Ou o contrário: se uma empresa fizer um empréstimo absurdamente alto, ela terá lucro – caso contrário, os capitalistas não o fariam. O mercado regula o que está acontecendo através do preço.

Na realidade, o crédito permite que as restrições sejam estendidas, mas os limites não são totalmente abolidos. As preferências temporais são muito grandes, os atores – incluindo os bancos – não são neutros ao risco. E, teoricamente, também, a suposição de mercados perfeitos é principalmente rejeitada: informações incompletas levam à desconfiança e tornam necessários mecanismos de controle. Há muitos exemplos de impostores que montam uma empresa, mentem para investidores e ainda ganham dinheiro.

No entanto, o crédito permite que os players do mercado façam maiores investimentos e, portanto, maior crescimento e lucros. Eles espalham o risco por várias pessoas e, assim, ajudam a minimizá-lo. Até a gigante dos smartphones Apple prefere emprestar fundos para construir uma nova sede corporativa do que financiá-la com suas vastas reservas de caixa. Se o projeto de construção se tornar o próximo aeroporto de Berlim, o grupo não ficará sozinho com os custos. Ao mesmo tempo, como um player global confiável, a Apple pode emprestar dinheiro a taxas de juros muito baixas. O risco para os bancos de perdê-lo é pequeno.

É diferente para os pequenos agricultores indianos. Sua credibilidade é questionável. O banco assume um risco significativo ao emprestar dinheiro. As falhas de colheita são mais comuns no Sul Global, que é atormentado pelas mudanças climáticas, tecnologias complexas para aumentar as colheitas não são difundidas e os campos são bastante pequenos. O mercado supostamente neutro, que só olha para as oportunidades de lucro, talvez não seja tão cego quanto à cor da pele, origem e classe afinal.

É aí que entram os institutos de microcrédito. Seu primeiro passo, confiar em pequenos empresários autônomos e abrir opções de financiamento para eles, é definitivamente uma medida que promove a igualdade – em um cenário liberal de mercado: finalmente, os pobres podem jogar um pouco de capitalismo. Mas essa ironia provavelmente não é exata: para alguns, o microcrédito certamente era o caminho para uma vida melhor. Com bons conselhos e condições adequadas, alguns investimentos acabaram por ser um sucesso para ambas as partes. Há muito que os bancos cooperativos operam com sucesso esta ajuda para auto-ajuda como o núcleo do seu negócio.

Por outro lado, há massas de pequenos empresários e autônomos cujo microcrédito acaba na armadilha da dívida. Até o FAZ declarou em 2011 que os empréstimos não eram mais uma “bala de prata”. Os mutuários se queimam até a morte repetidas vezes porque não veem saída para a dívida. Enquanto isso, os agiotas cobram até 120% de juros.

Aí está novamente: a distinção entre boas e más instituições de crédito. Nas gradações é preciso concordar com ela. Taxas de juros exorbitantes e outras dependências não resultam em nenhum sucesso de desenvolvimento. Mas o ajuste orientado para o mercado, que também é promovido pelo “bom” microcrédito, impulsiona ainda mais a apropriação de terras capitalista. O pequeno agricultor que encomenda mais fertilizantes lixivia o solo, a outra fábrica a crédito destrói florestas e aldeias. O crescimento é essencial na luta contra a pobreza, mas os erros que já começaram no Ocidente capitalista não devem se repetir sob novos auspícios no Sul Global.

Isso aponta para um problema mais fundamental: Marx descreve no terceiro volume do “Capital” que o sistema de crédito, juntamente com sua relação entre credores e devedores, surge da simples circulação de mercadorias. Os empréstimos mútuos e as obrigações resultantes elevam a produção de commodities a um novo nível. O crédito encurta a fase de circulação do dinheiro até que ele se torne novamente uma mercadoria. Os microcréditos aceleram ainda mais esse processo. As relações de capital continuam a penetrar em todas as áreas da sociedade. A produção infinita de bens não é o que os mais pobres do Sul Global precisam. Você só quer fazer face às despesas.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Atlas dos Agrotóxicos 2022 mostra a pegada mundial de um negócio tóxico

Cada vez mais agrotóxicos estão sendo pulverizados em campos em todo o mundo, com consequências devastadoras para os seres humanos e a natureza. A pressão por uma mudança na agricultura está crescendo

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“Produzimos nosso atlas para chamar a atenção para o grande problema dos agrotóxicos. O problema está em toda parte quando se trata de agricultura, saúde, perda de espécies e poluição da água. É uma questão transversal de primeira ordem”, diz engenheira Susan Haffmans, da Pesticide Action Network, que desempenhou um papel de liderança na elaboração do “Atlas dos Agrotóxicos 2022“.  O Atlas foi apresentado em Berlim, juntamente com a Fundação Heinrich Böll, que é próxima do partido dos Verdes, da Aliança Alemã para o Ambiente e a Conservação da Natureza e o jornal mensal internacional “LE MONDE diplomatique. 

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Em 50 páginas, os especialistas descrevem o negócio multimilionário dos agrotóxicos, suas consequências e repercussões. “O atlas fornece dados e informações e se concentra em áreas específicas. Quais são essas substâncias? Onde estão os problemas? Que efeito os  agrotóxicos estão tendo sobre os pequenos agricultores do Sul global? Como as pessoas estão em perigo em diferentes partes do mundo? “Encontramos pesticidas em todos os lugares, mesmo que não vivamos perto do campo”, diz Haffmans.

Os agricultores são frequentemente envenenados

De acordo com um estudo científico recente publicado na revista Public Health, 385 milhões de pessoas na agricultura adoecem a cada ano por intoxicação aguda por agrotóxicos. Após o envenenamento, os trabalhadores agrícolas e os agricultores sentem-se fracos, têm dores de cabeça, vómitos, diarreia, erupções cutâneas, distúrbios do sistema nervoso ou desmaiam. Em casos graves, o coração, os pulmões ou os rins falham. Todos os anos, cerca de 11.000 pessoas relacionadas à agricultura morrem por envenenamento agudo por agrotóxicos, sendo que suicídios por uso de venenos agrícolas não foram contados no estudo.

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Trabalhadores agrícolas e pequenos agricultores no Sul global são especialmente afetados pelo envenenamento por agrotóxicos. Segundo o relatório, na Ásia existem cerca de 256 milhões de casos de intoxicação aguda por agrotóxicos, na África 116 milhões e na América Latina cerca de 12,3 milhões. Na Europa, um número significativamente menor de pessoas sofre de intoxicação aguda por  agrotóxicosna agricultura (1,6 milhão na Europa Ocidental e Meridional).

“Vemos que 44% das mulheres trabalhadoras e agricultoras em todo o mundo sofrem pelo menos uma intoxicação por ano. E em alguns países é muito mais. Em Burkina Faso, por exemplo, 83% das trabalhadoras agrícolas contraem pelo menos uma doença por causa dos agrotóxicos”, diz Haffmans. “E esses são apenas os envenenamentos agudos. A extensão desses envenenamentos agudos também é uma indicação de exposição crônica de longo prazo, que por sua vez está associada a doenças crônicas completamente diferentes”.

Segundo o relatório, existem várias razões para o número significativamente maior de envenenamentos nos países do sul: por um lado, muitos agrotóxicos altamente perigosos são pulverizados lá, e este estãoi muitas vezes também proibidos na Europa.

Além disso, muitos pequenos agricultores não usam roupas de proteção e não são informados sobre os perigos. “Em alguns casos, os fornecedores simplesmente colocam  agrotóxicos em pequenos sacos plásticos ou garrafas, sem rótulos, sem instruções de segurança sobre seu uso e sem avisos.

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Por exemplo, de acordo com uma pesquisa com pequenos agricultores em Gana, menos de 30% usam luvas, óculos e proteção nasal ao manusear agrotóxicos. E de acordo com outra pesquisa na Etiópia, apenas 7% dos agricultores estão cientes do aviso para lavar as mãos após o uso de agrotóxicos.

Lucros são mais importantes que proteção à saúde

A venda de agrotóxicos é lucrativa. Os quatro maiores produtores de agrotóxicos são Syngenta (Suíça/China), Bayer e BASF (Alemanha) e a Corteva (EUA). Segundo o relatório “Atlas”, em 2020 estas empresas atingiram um volume de negócios conjunto de 31 bilhões de euros. Nos últimos anos, as vendas globais de agrotóxicos cresceram em média 4% ao ano.

Como regra geral, porém, as empresas não pagam nada por danos à saúde e ao meio ambiente, ou apenas se houver decisões judiciais correspondentes, como nos EUA. Lá, pessoas que pulverizaram o agrotóxico Roundup contendo glifosato ficaram gravemente doentes e 125.000 deles processaram a Bayer. O grupo já pagou alguns dos reclamantes e a Bayer reservou cerca de 10 bilhões de euros no balanço para pagar danos.

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Iniciativas para a mudança agrícola

“Temos que sair desse sistema agrícola baseado em agrotóxicos químicos”, diz Haffmans. Somente com uma mudança na agricultura a saúde e o meio ambiente poderão ser protegidos de forma sustentável.

Os 30 autores do “Atlas dos Agrotóxicos 2022” usam artigos e gráficos para mostrar as conexões e como os formuladores de políticas podem agir. “Nas últimas duas décadas, o Sri Lanka salvou comprovadamente quase 10.000 vidas ao banir agrotóxicos perigosos. Há também exemplos da Índia. Algumas regiões já cultivam completamente ou em grande parte sem agrotóxicos. Isso, por sua vez, incentiva outras regiões a seguirem o exemplo”, acrescentou. diz Haffmans.

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Este texto foi publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].