Empresas estrangeiras desovam no Brasil agrotóxico proibido em seus próprios países

Anvisa decidiu em 2017 proibir o paraquate por risco de provocar Parkinson. Mas desde então, ritmo de importação só aumentou, e restrições foram afrouxadas por pressão de empresas de agrotóxicos

paraquate 1

Por Luana Rocha, Mariana Della Barba, Agência Pública/Repórter Brasil | Infográficos: Bruno Fonseca

“Ele começou com febre e coceira. Depois ficou suando frio, teve diarréia, a pressão caiu. Corremos pro hospital. A pele dele então ficou toda queimada e foi soltando do corpo. Mal consigo lembrar”, conta emocionado o produtor de leite paranaense José Quintino sobre o filho Júlio, que morreu em 2016 em Cascavel (PR) quando tinha 22 anos. “Veio médico de tudo que é parte, mas já não tinha jeito. Aos poucos, ele parou de respirar. Falaram que o pulmão dele tava inteiro queimado.”

Confirmada como causa da morte, a insuficiência pulmonar foi provocada por intoxicação aguda por agrotóxico. “O paraquate queimou o pulmão dele. Foi queimando a pele, as mucosas orais e nasais, indo até os alvéolos [pulmonares]. Esse é um agrotóxico de ação secante, seca e queima as folhas, faz o mesmo com a pele, as mucosas, o pulmão”, afirmou a médica epidemiologista Lilimar Mori, chefe da Divisão de Vigilância em Saúde da Secretaria da Saúde do Paraná e uma das responsáveis por confirmar que o agrotóxico foi a causa da morte de Júlio, contaminado ao descarregar cascas de soja com paraquate.

Foi por causa dos riscos de intoxicação aguda do produto que envenenou Júlio, assim como sua relação com doenças como Parkinson, mutações genéticas e depressão, que a Anvisa decidiu em 2017 banir o paraquate, usado na dessecação de plantações para antecipar a colheita. A partir de setembro de 2020, nenhum litro do agrotóxico deve ser usado em solo brasileiro.

Apesar das evidências dos riscos, a resolução da Anvisa não fixou metas de redução de uso, de finalização de estoques e nem de importação do paraquate até sua completa suspensão. Sem esse limite, o ritmo de importação do agrotóxico só aumentou desde o início do processo de banimento, conforme apuraram Repórter Brasil e Agência Pública.E essa brecha abriu espaço para um processo que os pesquisadores chamam de “desova”, porque quase que a totalidade do paraquate usado aqui vem de países onde seu uso está proibido.

“O ideal é que, iniciado o processo de banimento, seja proibida a importação. Como isso não foi feito, as empresas acabam ‘desovando’ o material no Brasil porque, normalmente, o que está sendo banido aqui já foi proibido no seu país de origem”, afirma o pesquisador da Fiocruz, Luiz Cláudio Meirelles, que já foi coordenador geral de toxicologia da Anvisa.

É o caso da gigante suíça Syngenta (recentemente comprada pela ChemChina), uma das maiores produtoras do paraquate no mundo, da alemã Helm do Brasil e das chinesas Sinon do Brasil e Rainbow Defensivos. A Suíça retirou o paraquate das prateleiras nos anos 80. Na Inglaterra (onde é fabricado o Gramoxone, o paraquate da Syngenta) e no restante da União Europeia, ele foi banido em 2007. A China, que costuma ter uma legislação ambiental mais permissiva, autoriza a produção mas somente para exportação, já que seu uso é vetado por lá há quatro anos.

Foto-Ministério-da-Agricultura-800x540

Júlio Quintino morreu aos 22 anos por intoxicação aguda ao manejar soja com resquícios de paraquat (Foto: Ministério da Agricultura e arquivo pessoal da família Quintino)

O fenômeno da “desova” pode ser observado pelos dados de importação do Ministério da Economia, Indústria, Comércio Exterior e Serviços no portal Comex Stat. Em 2017, 35,3 mil toneladas do herbicida (paraquate ou dicloreto de paraquate) chegaram ao Brasil. No ano seguinte, essa quantia aumentou em para 50,8 mil e continuou em curva ascendente em 2019 quando, até novembro, já haviam sido importados 65,3 mil toneladas de paraquate.

“Essa é uma atitude típica, que já vimos em outros casos: o país não quer mais, e as empresas precisam desovar seus estoques e aproveitam para fazer isso em países que estabeleceram um período de transição até a proibição completa”, explica o professor de Economia da Universidade Federal do Paraná e engenheiro de alimentos, Victor Manoel Pelaez Alvarez.

“Desde que se acumularam evidências dos problemas causados pelo paraquate, o consumo continuou crescendo mesmo depois da proibição de uso. O correto seria importação zero em 2019”, explica o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, vice-presidente da Associação Brasileira de Agroecologia na região sul. Para ele, “o crescimento das importações sugere que talvez as empresas tenham aproveitado a tolerância brasileira para transferir para nosso território parte de seus estoques globais”.

Essa tendência é apontada também pelos dados de comercialização do Ibama. Em 2017, quando se iniciou o processo de banimento, o paraquate ocupava a oitava posição na lista dos dez ingredientes ativos mais vendidos no Brasil, com mais de 11 mil toneladas vendidas. Já no boletim referente a 2018, o pesticida subiu de posição e passou a ocupar o sexto lugar com mais de 13 mil toneladas vendidas em todo território nacional.

Na outra ponta desse mercado ainda lucrativo do paraquate está o produtor rural. “Como não houve imposição de limite para importação, ele pode estocar o produto até, por exemplo, 2023 e não vai chegar fiscalização”, afirma Meirelles, da Fiocruz. Os riscos para os trabalhadores rurais podem, na prática, também perdurarem até 2023 ou até acabarem os estoques.

Por meio da assessoria de imprensa da Syngenta, a empresa e outras 10 que comercializam paraquate no Brasil (que formam a chamada “Força-Tarefa paraquate”) afirmaram entender que “a saída de paraquate do mercado causaria impactos significativos na sustentabilidade da agricultura e na economia brasileira”. Leia a resposta na íntegra. Sobre o aumento das vendas visto como desova pelos pesquisadores, o grupo afirmou que “o abastecimento e comercialização de produtos à base de paraquate – como qualquer outro – é determinado pela demanda dos agricultores e sanidade de suas lavouras”. As empresas se recusaram a fornecer dados sobre vendas no mercado brasileiro ou mundial.

A Anvisa afirmou, por e-mail, que não vê contradição no aumento da venda de paraquate durante a transição, já que “a resolução não fixa um percentual de redução ou uma tendência esperada de queda durante os três anos”. Leia a nota na íntegra.

O aumento da venda de paraquate segue a tendência de crescimento do mercado de pesticidas no Brasil. De acordo com dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), o setor dos agrotóxicos movimentou equivalente a US$ 10,5 bilhões em 2018, um aumento de 18% em relação a 2017. No topo de vendas aparecem os herbicidas (32,48%), categoria a qual pertence o paraquate. Questionada sobre o paraquate, a entidade afirmou que não divulga dados de comercialização referentes a ingredientes ativos específicos.

dados corporações paraquate

Afrouxamento

As discussões que levaram ao banimento do produto em 2020 começaram a se intensificar na Anvisa em 2008, quando o uso do paraquate passou a ser questionado após a divulgação de estudos indicando que o contato com o agrotóxico estaria associado à doença de Parkinson, além de ser potencialmente fatal quando há intoxicação, inclusive quando o trabalhador é envenenado sem estar aplicando o produto, como no caso de Júlio.

O paraquate também está associado a casos de suicídio e até mesmo à depressão. Tanto que a Coreia do Sul baniu o herbicida em 2011, após constatar que ele era responsável pela maioria das mortes desse tipo. A medida derrubou pela metade os índices de suicídios via intoxicação por pesticidas no país.

Diante desse cenário, a primeira resolução (RDC Nº 177) da Anvisa foi publicada em 22 de setembro de 2017, com o argumento de que existiam “evidências suficientes” da relação entre o agrotóxico e a doença de Parkinson.

Essa resolução definiu “medidas transitórias” pelos três anos seguintes até a proibição total em 2020. Entre elas, a proibição do uso do paraquate para fins dessecantes (seu principal uso no Brasil). Na ocasião, segundo a Anvisa, essa restrição serviria para proteger os trabalhadores que têm contato com o paraquate.

A Anvisa, no entanto, recuou apenas dois meses depois — e, em uma nova resolução (RDC 190) liberou o paraquate para ser usado como dessecante. A mudança ocorreu sob forte pressão de empresários do setor de agrotóxicos.

Cinco dias após a primeira resolução ser publicada, o alto escalão da Syngenta no Brasil e na América Latina se reuniu com a diretoria da Anvisa – em encontros que se repetiram outras vezes ao longo dos meses seguintes para tratar justamente do veto ao paraquate, como mostrava a agenda pública do órgão, revelada pelo The Intercept Brasil. Foi então criada uma força-tarefa das empresas produtoras e associações de produtores, que solicitaram à Anvisa a revisão de sua posição, conforme informado pelo próprio Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento.

Para Meirelles, da Fiocruz, essa permissão é um “comportamento bem ruim” para quem deseja banir o paraquate já que, na prática, é como “manter a liberação do produto”. No Brasil, cerca de 60% do manejo da substância é empregada na dessecação e está liberada para as culturas do algodão, arroz, batata, cana-de-açúcar, milho e soja, alguns dos principais produtos cultivados no Brasil.

A Anvisa não deixou claro o porquê do recuou do veto sobre o uso como dessecante, apenas informou que foram mantidas na segunda resolução as proibições imediatas, “responsáveis por garantir a redução das exposição aos trabalhadores”, como a proibição de produtos formulados em embalagens de volume inferior a 5 litros – que, segundo o órgão, evitaria o uso do produto por pequenos produtores. Assim, as embalagens de mais de 5 litros continuaram liberados.

Pressão da ‘força-tarefa do paraquate’

Uma pessoa ligada ao setor de agrotóxicos afirmou à Repórter Brasil e à Pública que a “força-tarefa paraquate” continua trabalhando para que o banimento do agrotóxico seja revertido. “Apresentamos várias pesquisas e buscamos meio jurídicos para conseguir isso [o não banimento]”, afirmou.

A Vigilância em Saúde da Secretaria da Saúde do Paraná confirmou que Júlio morreu em decorrência da intoxicação causada por contato com agrotóxico

As ações em curso para minar a suspensão foram confirmadas também por um funcionário de um órgão público que não quis ser identificado. Ele ressaltou que o contexto do governo atual seria um terreno favorável para tentar derrubar a resolução. “As empresas estão se reunindo para apresentar novos estudos e podem conseguir isso. Confesso que fico bastante preocupado”, disse.

A Anvisa afirmou que o processo está mantido e que, até o momento, não recebeu nenhum novo estudo questionando o banimento. A Syngenta e as outras empresas da força-tarefa não quiserem comentar sobre as reuniões com a diretoria da Anvisa.

Em um contexto em que há uma aprovação recorde de produtos agrotóxicos, a disputa contra as grandes produtoras vem deixando a esfera federal e passando para a municipal e a estadual.

É o caso do Rio Grande do Sul, o único estado no território brasileiro que tentou banir o paraquate. A iniciativa partiu da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), vinculada à Secretaria do Meio Ambiente. Em 2012, a fundação entrou na Justiça pedindo o banimento do paraquate no estado gaúcho. Na época, 14 marcas de agrotóxicos tinham autorização para comercialização no local. A decisão logo foi revertida judicialmente e, hoje, somente dois produtos (paraquate Alta 200 SL e Tocha) permanecem proibidos no estado.

‘Esse paraquate é mais que um veneno, é uma bomba atômica’

Outra dificuldade é a responsabilização em casos de contaminação. Um exemplo é o caso de uma escola no município Espigão Alto do Iguaçu (PR), a 356 quilômetros de Curitiba. Em novembro de 2018 quase 100 pessoas foram intoxicadas, no caso com mais vítimas na história recente do estado, conforme revelaram Agência Pública e Repórter Brasil.

A médica explica que apesar de a intoxicação ter sido bem menor do que no caso de Julio, a gravidade do caso está no fato de que, entre os afetados, havia 52 crianças. A maioria delas estudava em uma escola rural que funciona colada à área agrícola onde o veneno estava sendo aplicado. Quem entrou em contato com a nuvem de paraquate sofreu sintomas como fortes dores de cabeça, estômago e barriga, tonturas e vômitos – todos condizentes com os de intoxicação aguda pelo agrotóxico. O Ministério Público Estadual abriu inquérito para apurar o caso, mas ninguém ainda foi indiciado.

No caso de Júlio, sua filha, que tinha 3 anos quando o pai morreu, recebe uma pensão do INSS pela morte dele. Mas o pai da vítima, José, lembra que até hoje não conseguiu nada da cooperativa onde ele comprou a soja com paraquate que matou seu filho. A investigação mostrou que após a soja com o agrotóxico foi colhida antes do período estipulado para dissipar melhor o produto. Assim, Júlio foi contaminado ao tocar na soja com paraquate e ao aspirar a poeira produzida ao descarregá-la.

“Uma indenização não vai pagar pela vida dele, claro. Mas é muita revolta. Esse paraquate é mais que um veneno, é uma bomba atômica. Tem mais gente que morreu aqui por causa dele. É muito difícil ver seu filho ir desse jeito…. Nossa vida desabou. A gente arrumou força com os amigos e pela minha netinha. Ele (Júlio) era quem fazia a mamadeira dela toda a noite.

___________________________________________________________

Esta reportagem foi originalmente publicada pela parceria formada entre a ONG Repórter Brasil e a Agência Pública [Aqui!] e [Aqui!].

Relatório revela: 70% dos agrotóxicos usados no Brasil são considerados “altamente perigosos”; país responde por 1/5 do consumo mundial

ONG Suíça Public Eye em parceria com a Campanha Permanente Contra os agrotóxicos e pela Vida será lançada nesta quinta (29) na 18ª Jornada de Agroecologia em Curitiba

syngenta

A pesquisa reúne dados detalhados sobre como a Syngenta ganha bilhões vendendo agrotóxicos altamente perigosos em países pobres. Dos 120 ingredientes ativos de agrotóxicos produzidos pela empresa, 51 não estão autorizados em seu país de origem, a Suíça; 16 deles foram banidos devido ao impacto à saúde humana e ao meio ambiente. Mas a Syngenta continua a vendê-los em países onde as normas costumam ser mais fracas ou menos rigorosamente aplicadas, como é o caso do Brasil.

No Brasil, o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, milhões de pessoas estão expostas a um coquetel de agrotóxicos altamente tóxicos. Este é um dos destaques do relatório “Lucros altamente perigosos”, elaborado pela ONG Suíça Public Eye. A versão em português do estudo será lançada pela FASE e a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida nesta quinta-feira (29), às 15h, na aula pública “O envenenamento do povo brasileiro – impactos dos agrotóxicos à saúde”. A atividade integra a 18ª Jornada de Agroecologia, que acontece em Curitiba de 29 de agosto a 1º de setembro. O lema deste ano é “Terra Livre de Transgênicos e Sem Agrotóxicos, Cuidando da Terra, Cultivando Biodiversidade e Colhendo Soberania Alimentar, e Construindo o Projeto Popular para a Agricultura! ”.

Em 2017, cerca de 540 mil toneladas de venenos foram aplicadas no Brasil, por um valor de mercado de US$ 8,9 bilhões. Cerca de 370 mil toneladas de “agrotóxicos altamente perigosos foram pulverizadas nas plantações, o que representa aproximadamente 20% do uso mundial. Desde o início de 2019, foram liberados 290 registros agrotóxicos no país. Destes 44% são proibidos na União Europeia por apresentarem riscos à saúde e ao ambiente”, destaca Francileia Paula de Castro, agrônoma e educadora da FASE, que também integra a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação (FAO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) estão entre as instituições que recomendam que os agrotóxicos altamente tóxicos sejam eliminados gradualmente e substituídos por alternativas mais seguras.

O que: Lançamento do relatório “Lucros altamente perigosos: Como a Syngenta ganha bilhões vendendo agrotóxicos altamente perigosos”

Onde: Praça Santos Andrade, Curitiba – PR

Quando: 29 de agosto de 2019, às 15h.

Agrotóxicos deixam um rastro de doenças e mortes pelo Brasil

Diversos agrotóxicos proibidos em outras partes do mundo, inclusive países de origem dos fabricantes, foram liberados pelo governo Bolsonaro. Pesquisas apontam que o consumo de agrotóxicos gira em torno de cinco litros por pessoa/ano e que 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por esses agentes.

avião agrotoxicos

Imagem por Agência Brasil

Por  Frederico Rochaferreira para o LeMonde Diplomatique Brasil

O governo Bolsonaro liberou 197 agrotóxicos em cinco meses. Neste pacote estão produtos considerados cancerígenos, como o paraquat, da Syngenta (nome comercial Gramoxone 200) e o glifosato, da Monsanto/Bayer.

O paraquat – proibido em mais de 50 países e em todo território europeu desde 2007, inclusive em seu país de origem, a Suíça –  é um agrotóxico associado não só a casos de câncer, mas também ao mal de Parkinson, fibrose pulmonar e danos genéticos, sendo um dos agentes químicos mais vendidos no Brasil.

Em setembro de 2017, a Anvisa proibiu o uso do paraquat. Mas, dois meses depois, voltou atrás, ante a pressão dos ruralistas e do lobby da fabricante Syngenta. A empresa levou políticos para uma viagem à Suíça para “conhecer aspectos da capacidade de inovação suíça” e fazer uma visita à multinacional. Uma das  convidadas da empresa foi a então deputada Teresa Cristina, hoje ministra da Agricultura.

O veneno suíço continua liberado por aqui, contaminando o arroz, a banana, a batata, o café, a cana-de-açúcar, o feijão, a maçã, o milho, a soja, a maçã e o trigo, para citar alguns. Mas a Syngenta não é a única fabricante de agrotóxico que tem seu produto proibido à venda no próprio país. Nesse rol, encontra-se também a norte-americana FMC Corp., a dinamarquesa Cheminova A/S e a Helm AG, da Alemanha, cujos agentes químicos não são permitidos em seus mercados domésticos, mas são livremente comercializados no Brasil.

Outro produto utilizado em larga escala pela indústria agrícola brasileira é o glifosato, um composto químico desenvolvido pela Monsanto, também, considerado cancerígeno. Recentemente a Bayer, que absorveu a Monsanto, sofreu uma pesada derrota na justiça federal dos EUA, em um processo envolvendo a utilização do glifosato. O fato abriu precedente para milhares de processos semelhantes de pessoas que alegam que o uso do herbicida lhes causou câncer. No total, são 11.200 ações em todo o país.

No Brasil não há um estudo definitivo que aponte para o número de doenças e mortes em função do consumo de alimentos contaminados. Temos conhecimento de que o consumo de agrotóxicos gira em torno de cinco litros por pessoa/ano  e que 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por esses agentes. Além disso, pesquisas como as desenvolvidas pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e Fundação Oswaldo Cruz relacionam diversas doenças com o consumo de agrotóxicos. Entre elas, o mal de Parkinson, distúrbios de comportamento, problemas na produção de hormônios sexuais, infertilidade, má formação fetal, aborto, endometriose e câncer de diversos tipos, além de estatística de mortes em uma determinada região.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, o câncer passou a ser a primeira causa de morte em 140 municípios. Isso ocorreu logo depois que as lavouras do Estado receberam cerca de 100 mil toneladas de veneno, entre os anos de 2012 e 2014. Na região Noroeste do país, a média é de dez agricultores diagnosticados com câncer por dia. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, 80% dos casos de câncer no mundo, vem da exposição aos agentes químicos. Por outro lado, a intoxicação pelo uso de agrotóxicos no território brasileiro tem dados consistentes, como é possível ver nos mapas produzidos pela pesquisadora da USP, Larissa Mies Bombardi.

Em uma sequência cartográfica, Larissa Mies mostra que mais de 25 mil intoxicações causadas por agrotóxicos foram registradas no período de 2007 a 2014. O que dá 3.125 casos de intoxicações por ano ou oito casos por dia, com 1.186 mortes, sendo 343 bebês. Isto é, uma morte a cada dois dias e meio. Contudo, os números podem ser bem maiores. Segundo pesquisadores, para cada caso registrado,  outros 50 não são notificados, mesmo entendimento de especialistas em saúde pública, que aponta ser o número de mortes relacionadas ao envenenamento por agrotóxicos maior que o registrado, em função do rastreamento ser incompleto.

A dura realidade é que o Brasil se tornou o celeiro de pesticidas proibidos ou eliminados em países desenvolvidos  e de forma irresponsável, vem permitindo sua utilização e o envenenamento da agricultura, do trabalhador rural em particular e da população.

______________________________________________

Este artigo foi originalmente publicado pelo LeMonde Diplomatique Brasil [Aqui!].

Agência de Proteção Ambiental dos EUA bane 12 agrotóxicos por serem considerados prejudiciais para as abelhas

bees

Um voluntário examina colmeias de abelhas para atividades de rainha como parte de uma colaboração entre o Zoológico de Cincinnati e a TwoHoneys Bee Co., em Mason, Ohio. (AP Photo / John Minchillo, Arquivo)

Por Dino Grandoni para o “The Washington Post”

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) está retirando do mercado estadunidense 12 produtos contendo agrotóxicos conhecidos como sendo tóxicos para um animal chave para o sistema alimentar norte-americano – a abelha.

A agência anunciou na segunda-feira (20/05) que cancelou os registros de 12 produtos que matam pragas com compostos pertencentes a uma classe de substâncias químicas conhecidas como neonicotinóides, como parte de um acordo legal.

Durante anos, os apicultores e conversadores da vida silvestre expressaram preocupação de que o uso difundido de neonicotinóides, como os produtos químicos são comumente chamados, está pondo em perigo as abelhas selvagens e domesticadas cruciais para a polinização das plantações comerciais de frutas, nozes e vegetais.

A ação do governo Trump foi uma boa notícia para alguns ambientalistas. “Certamente, temos um caminho a percorrer”, disse George Kimbrell, diretor jurídico do grupo de defesa sem fins lucrativos Center for Food Safety, cujo processo provocou a ação da EPA. “Mas é um primeiro passo importante para reconhecer o dano que causam.”

A EPA retirou outros neonicotinóides do mercado antes, disse o porta-voz da agência, John Konkus, em um e-mail. Mas observadores próximos da agência dizem que tais ações são raras.

“Para a EPA retirar do mercado um agrotóxico previamente registrado é um passo muito importante”, disse Mark Winston, professor de apicultura e insetos sociais da Simon Fraser University em Vancouver, B.C. “Não é algo que eles fazem com muita frequência.”.

A decisão segue cinco anos de litígio em que os apicultores e ambientalistas pressionaram a EPA para montar uma resposta ao uso de neonicotinóides como reguladores na Europa e no Canadá tomaram medidas para proibir os produtos químicos.

Finalmente, no final de 2018, três empresas do agronegócio – Bayer, Syngenta e Valentconcordaram em permitir que a EPA retirasse das prateleiras os 12 agrotóxicos usados ​​pelos produtores, desde grandes empresas agrícolas até jardineiros domésticos. O acordo legal também obriga a EPA a analisar os impactos de toda a classe de neonicotinóides sobre espécies ameaçadas de extinção.

Dois dos fabricantes de agrotóxicos, Bayer e Valent, dizem que seus produtos são testados e seguros para uso, observando que os ambientalistas e apicultores ganharam seu argumento com base no argumento técnico de que a EPA não seguiu os passos certos sob a Lei de Espécies Ameaçadas.  

“Os neonicotinóides são rigorosamente testados antes de chegar ao mercado para garantir que possam ser usados ​​com segurança e eficácia”, disse Steve Tatum, porta-voz da Valent, que fabrica quatro dos produtos excluídos da lista.

A Bayer observou que seus dois produtos visados ​​pela ação da EPA não são vendidos nos Estados Unidos. Mas o porta-voz Darren Wallis acrescentou: “Os produtores confiam nessas ferramentas críticas de manejo de pragas por causa de seu desempenho contra pragas destrutivas, assim como seu perfil de segurança humano e ambiental favorável”.

A preocupação com os neonicotinóides cresceu desde 2006, quando os apicultores começaram a testemunhar o súbito e misterioso colapso das colmeias de abelhas em todo o país.

Pesquisadores mostraram que os compostos são prejudiciais para as abelhas em testes de laboratório. Mas eles tiveram menos sorte em reduzir os efeitos dos agrotóxicos nas colônias de apicultores quando trabalham polinizando pomares de maçã e outras fazendas.

Em seu segundo mandato, Barack Obama, que havia aprovado a instalação de uma colmeia no gramado sul da Casa Branca, lançou uma iniciativa para promover a saúde das abelhas e outros polinizadores.

Mas Rebecca Riley, diretora jurídica do programa de natureza do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, disse que a agência falhou no passado em considerar adequadamente o impacto potencial de suas aprovações de agrotóxicos em animais em extinção – algo que toda agência federal deveria fazer.

“EPA há anos tem ignorado este requisito da lei”, disse ela.

Isso levou a uma série de ações judiciais, como uma que a NRDC apresentou em 2017, pedindo a um tribunal federal para desocupar os registros de quase 100 produtos que contêm um dos vários inseticidas que são prejudiciais a várias abelhas, borboletas, pássaros e insetos. Esse caso continua sem solução, mesmo quando o caso separado do Centro de Segurança Alimentar levou a EPA a retirar alguns agrotóxicos do mercado.

“Esta é uma vitória tanto para o estado de direito quanto para abelhas, pássaros e outros animais selvagens impactados por esses agrotóxicos”, disse Riley sobre o último caso. “Mas a realidade é que existem centenas de agrotóxicos no mercado. Então, isso é importante… mas não se livra do perigo”.

Brady Dennis contribuiu para este relatório.

_______________________________________________

Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo “The Washington Post” [Aqui!]

Brasil consome 18% dos agrotóxicos do mundo, mesma porcentagem dos Estados Unidos

Relatório da ONG Public Eye mostra que a Syngenta despeja no país 32% de seus produtos classificados como “extremamente tóxicos”; multinacional fica na Suíça, país que não autoriza o consumo interno desses pesticidas

agrotóxicos-e1556108646719

Foto: Pixabay

Por Maria Lígia Pagenotto para o site “Desacato”

O Brasil e os Estados Unidos se igualam no consumo de agrotóxicos, apesar da diferença de população e da área agrícola cultivada. Os dois países respondem por 18% do total de pesticidas utilizados no mundo, segundo relatório da organização não governamental suíça Public Eye divulgado ontem (22), com dados de 2017.

A distribuição por países é completada pela União Europeia, com 13% do total, e por China e Argentina, com 11% cada. Menos de um terço dos agrotóxicos (29%) são consumidos por todos os demais países do mundo.

Public Eye organizou dados sobre agrotóxicos por países. (Imagem: Reprodução)

Brasil, China e Argentina representam cerca de 40% do total de agrotóxicos consumidos em 2017, corroborando a tese da Public Eye de que mais da metade do uso de pesticidas no mundo ocorre em países de baixa e média renda. Estados Unidos e União Europeia somam 31%.

Esses números foram estimados pela organização a partir de dados da indústria e das estatísticas oficiais de cada país.

SYNGENTA VENDE NO BRASIL 51 PRODUTOS PROIBIDOS NA SUÍÇA

A Public Eye chama atenção para os produtos fabricados pela multinacional Syngenta, com sede na Suíça, uma das principais indústrias de agrotóxicos qualificados como “extremamente tóxicos”.

Em 2017, a empresa faturou, de acordo com a ONG, US$ 3,9 bilhões. O Brasil tem expressiva participação nesse mercado, como mostra o relatório, intitulado “Lucros de Alto Risco – como a Syngenta fez bilhões vendendo pesticidas tóxicos“.

Protesto na Suíça contra a Syngenta. (Foto: Dominik Plüss/Public Eye)

O levantamento da Public Eye mostra que cerca de um terço dos produtos disponíveis para venda na Syngenta corresponde à classe de substâncias altamente perigosas classificadas pela Pesticides Action Network, a PAN, uma rede internacional de ação contra os pesticidas.

Das substâncias altamente tóxicas produzidas pela empresa (quinze, segundo a ONG), 32% são consumidas no Brasil – o país que mais compra essa classe de venenos. Os Estados Unidos respondem pela fatia de 19% do consumo desses produtos; em seguida estão Argentina, 6%; China, com 4%; e França, com 2%.

Cinquenta e um dos 120 ingredientes ativos de pesticidas produzidos pela Syngenta comercializados em vários lugares, inclusive no Brasil, não estão autorizados para uso na Suíça, por conta do impacto que provocam na saúde e no meio ambiente.

EM 1990, PAÍS CONSUMIA 3% DOS AGROTÓXICOS NO MUNDO

Os números relativos ao Brasil apontam franca ascensão do consumo de agrotóxicos. Em 1990, o país respondia por apenas 3% dos volumes globais, estimado em 1,8 milhão de toneladas. Desse total, 75% estava concentrado em países de alta renda. Em 30 anos, o consumo mundial subiu para 3 milhões de toneladas ao ano. O relatório mostra que o crescimento nesse período se deu justamente em países de baixa renda.

Ativistas do Greenpeace em campanha contra o glifosato na Europa. (Foto: Greenpeace)

No Brasil, o emprego de agrotóxicos hoje é nove vezes maior do que em 1990, colocando o país como o maior usuário do mundo, ao lado dos Estados Unidos, com cerca de 540 mil toneladas de pesticidas aplicados em 2017.

Se depender do governo, o Brasil tende a se manter à frente desse ranking. Somente nos cem primeiros dias na Presidência, Jair Bolsonaro, por meio do Ministério da Agricultura, aprovou 152 novos agrotóxicos. De Olho nos Ruralistas contou em março quais são as empresas beneficiadas por essas liberações, das mais conhecidas, como a própria Syngenta, às mais desconhecidas.

Os dados mostram ainda que cerca de 370 mil toneladas de pesticidas “altamente tóxicos” foram pulverizados na produção agrícola do Brasil  em 2017 – o que corresponde a aproximadamente 20% do uso mundial. Entre esses produtos, três são classificados pela PAN como cancerígenos, dois são acusados de causarem problemas endócrinos e outro de provocar doenças congênitas.

O relatório divulgado serviu como base para uma nova denúncia pública da Public Eye contra a Syngenta. A principal acusação é que a empresa lucra com a venda de substâncias altamente tóxicas para países como o Brasil (o maior comprador), enquanto na Suíça esses pesticidas não podem ser comercializados.

1/4 DOS MUNICÍPIOS TEM ‘COQUETEL’ DE VENENOS NA ÁGUA

Os agrotóxicos no Brasil contaminam também a água: resíduos de pesticidas foram encontrados em 86% das amostras de água potável testadas em 454 municípios com uma população de 33 milhões de habitantes, conforme relata a ONG. Um nível de contaminação muito superior ao encontrado na Suíça ou em outros países da União Europeia.

 

Embalagens de agrotóxicos no Rio Santa Maria da Vitória, no Espírito Santo. (Foto: Reprodução)

Nessas localidades, apenas 0,1% das amostras de água potável ultrapassa o limite de 0,1 microgramas por litro, enquanto no Brasil 12,5% dos resultados dos testes encontraram resíduos de pesticidas acima dessa concentração.

Outro dado alarmante do relatório: um coquetel de 27 substâncias tóxicas foi encontrado, com regularidade, num período de quatro anos, na água potável de 1.396 municípios municípios brasileiros. Sete dessas substâncias são atualmente vendidas pela Syngenta no Brasil.

Dos mil tipos de agrotóxicos identificados em todo o mundo, 310 são classificados como extremamente perigosos pela PAN. A indústria de agrotóxicos, de forma geral, lucra 42% com a venda dos pesticidas mais prejudiciais à saúde – segundo o documento da Public Eye, isso equivalia, em 2017,  a US$ 22 bilhões.

_______________________________________________

Este artigo foi originalmente publicado pelo site “Desacato” [Aqui!]

Syngenta lucra no Brasil com venda de agrotóxicos proibidos na Suiça

Três milhões de toneladas de agrotóxicos são espalhados a cada ano em todo o mundo, especialmente no Brasil. Em seu relatório publicado na segunda-feira, a Public Eye acusa a Syngenta de ganhar bilhões de francos com produtos proibidos na Suíça.

Image result for syngenta extremely toxic pesticides

A organização não-governamental (ONG) suíça Public Eye, fundada em 1968, realizou uma nova denúncia pública contra a Syngenta, companhia do mesmo país que produz agrotóxicos. A entidade afirma que o modelo de negócios da empresa se baseia na venda de substâncias altamente tóxicas, vedadas pelas autoridades da Suíça.

O posicionamento da Public Eye, veiculado pela rede pública de comunicação RTS, ocorreu esta semana após uma liberação recorde de novas substâncias pelo governo Jair Bolsonaro (PSL). O Brasil, segundo a ONG,  cumpre um papel fundamental nos negócios da Syngenta. 

A entidade afirma que, de todos os agrotóxicos vendidos no mundo, 310 são qualificados como extremamente perigosos pela Pesticide Action Network (Rede de Ação sobre Pesticidas, em inglês). Pelos cálculos do Public Eye, 42% das receitas da indústria de agrotóxicos são provenientes da venda desse tipo de veneno, o equivalente a 22 bilhões de francos suíços, na estimativa de 2017. 

principais mercados Syngenta

Mercado brasileiro representou 32% das vendas de agrotóxicos extremamente perigosos da Syngenta em 2017.

A Syngenta é parte importante deste montante: de acordo com a ONG, de 32 substâncias que a empresa comercializa, 15 são extremamente perigosas. “Apenas em 2017, estimamos que a Syngenta tenha lucrado 3,9 bilhões de francos com substâncias extremamente perigosas”, afirmou Geraldine Viret, porta-voz da Public Eye, à RTS. 

O Brasil ocupa uma posição crucial no modelo da Syngenta. Daqueles 3,9 bilhões de francos, 32% foram obtidos com a venda para o Brasil, que o ocupa o primeiro lugar nas vendas de extremamente perigosos, seguido pelos EUA. 

“No Brasil, a agroquímica e o agronegócio podem tudo. E as empresas como a Syngenta também. Lá, há cada vez mais e mais estudos mostrando as taxas de mal formação congênita, as taxas de câncer e de outras doenças crônicas muito elevadas em regiões nas quais a maior parte dos agrotóxicos são empregados”, apontou Viret. 

Roman Mazzota, diretor da Syngenta na Suíça, afirmou que, apesar da liberação brasileira de produtos vedados no próprio país, a regulação no Brasil é tão rigorosa quanto no país que sedia a companhia.

“É verdade que as autoridades brasileiras chegam a uma conclusão diferente. Eu não nego isso. Mas o fato de as autoridades brasileiras decidirem de forma diferente do que o Public Eye teria gostado não significa que as autoridades brasileiras sejam incapazes”, rebateu. 

* Colaborou Rafael Tatemoto.

_____________________________________________________

Esta matéria foi originalmente publicada pelo jornal Brasil de Fato [Aqui!]

Governo (Bolsonaro) concede em março mais 35 registros de agrotóxicos; já são 121 produtos liberados no ano

Com média de um agrotóxico liberado por dia, governo Bolsonaro permitiu a comercialização de 28 produtos “extremamente tóxicos”; novidade na lista, alemã Basf foi condenada em 2013 pela intoxicação de 1.068 pessoas, incluindo 59 mortes

agrotoxicos-mapa

Por Bruno Stankevicius Bassi, de Brasília

Enquanto a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, terminava sua excursão pelos Estados Unidos convidando empresários locais a investir no agronegócio brasileiro, sua equipe continuou trabalhando pela liberação de novos agrotóxicos. Publicado no Diário Oficial no dia 21 de março, o Ato nº 17 do Departamento de Sanidade Vegetal e Insumos Agrícolas concedeu registro a 35 novos rótulos, que passam a ter licença para comercialização em todo território nacional.

terezacristina-novayork-300x225

Em Nova York, Tereza Cristina pediu mais investimentos no agronegócio. (Foto: Divulgação/Mapa)

Dentre eles, seis pertencem à classificação toxicológica mais elevada, a classe I, que compreende os produtos considerados “extremamente tóxicos” à saúde humana.

Desde janeiro, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) aprovou 121 novos registros, uma média de mais de um agrotóxico por dia. E vem mais por aí: publicado um dia antes, o Ato nº 16 incluiu outros trinta produtos na fila de registro.

Na semana passada, o observatório contou a história das empresas responsáveis pelos agrotóxicos “extremamente perigosos” que chegam à nossa mesa. Confira na reportagem: “Conheça as empresas que pediram os novos pesticidas ‘extremamente tóxicos

MULTINACIONAIS ENCABEÇAM A LISTA

Das 25 empresas que integram a lista de concessões publicada pelo Ministério da Agricultura, 20 tiveram outros produtos liberados em 2019. Entre elas, estão as seis empresas que receberam autorização para agrotóxicos classe I.

Campeã de registro de produtos “extremamente tóxicos” em 2019, a suíça Syngenta estreará a marca Switch no mercado brasileiro, nome comercial do fungicida cyprodinil, indicado para o cultivo de soja, algodão e girassol, além de frutas como laranja, morango, pêssego e uva. O produto também é usado na produção de itens básicos da alimentação dos brasileiros, como feijão, alface e tomate.

Em dezembro de 2018, a Syngenta foi condenada pelo assassinato do camponês Valmir Mota de Oliveira e pela tentativa de assassinato da sem-terra Isabel Nascimento de Souza, atacados por seguranças contratados pela empresa em um campo de experimentos com transgênicos, no município de Santa Tereza do Oeste (PR).

syngenta

Alvo de protestos no Brasil e no mundo, Syngenta aprovou mais um agrotóxico em março. (Foto: Katarine Flor/BdF)

Outra multinacional a registrar agrotóxicos de risco elevado foi a Arysta Lifescience do Brasil. A empresa dos Estados Unidos recebeu permissão para a venda do Celebrate, uma versão do herbicida clethodim, usado nas monoculturas de soja e algodão. Comprada pela Arysta em 2005, a sul-africana Volcano Agrociência Indústria e Comércio de Defensivos Agrícolas Ltda recebeu autorização para comercializar o inseticida Cartarys, classificado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na classe II, como “altamente tóxico”.

Também oriunda dos Estados Unidos, a Albaugh Agro Brasil Ltda é responsável pelo pedido de uma nova formulação a partir do 2,4-D, um dos princípios ativos do “agente laranja” – usado como arma química durante a Guerra do Vietnã.

Assim como o glifosato, o 2,4-D já foi banido em diversos países e, desde 2006, está em processo de reavaliação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas, segundo o Mapa, provavelmente será mantido. Junto à Nufarm e à Corteva Agriscience, a Albaugh Agro Brasil encabeça a “Iniciativa 2,4-D”, um grupo de lobby que vem pressionando o governo brasileiro pela manutenção do produto no mercado.

Na semana passada, um estudo encomendado pelo Ministério Público de Santa Catarina encontrou resíduos de 2,4-D no abastecimento público de água de três municípios do estado.

ATO LIBEROU AGROTÓXICOS BANIDOS DENTRO E FORA DO BRASIL

A relação de empresas que aprovaram produtos “extremamente tóxicos” é completada por três companhias brasileiras. Dona de 6 registros em 2019, a Nortox S.A. foi citada em um relatório sobre envenenamento de indígenas na T.I. Guaiviry, no Mato Grosso do Sul. No último ato assinado pelo Mapa, a empresa paranaense recebeu a liberação para o larvicida Piriproxifem, usado por agricultores no combate à praga da mosca-branca.

Utilizado no meio urbano para o controle do mosquito Aedes aegypti, o produto foi proibido no Rio Grande do Sul em 2016, após um estudo desenvolvido por pesquisadores argentinos indicar uma possível relação com malformações congênitas em bebês, especialmente a microcefalia.

microcefalia-300x225

Utilizado no combate à dengue, larvicida piriproxifem foi associado a casos de microcefalia no RS. (Foto: Reprodução)

Baseada em São Paulo, a consultoria AllierBrasil Agro Ltda recebeu a licença para comercialização do Captain 500 WP, que utiliza o princípio ativo captan, amplamente utilizado como fungicida foliar em frutas e hortaliças. Em 2015, o Ministério Público de São Paulo solicitou à Justiça a “imediata proibição” de todos os produtos feitos à base do captan, após testes de laboratório identificarem a ocorrência de câncer em ratos e camundongos submetidos ao fungicida.

Ela não foi a única empresa de assessoria a receber autorização para produtos “extremamente tóxicos”. Mais uma empresa de São Paulo, a Biorisk Assessoria e Comercio de Produtos Agrícolas Ltda detém o registro do inseticida Clorpirifós, fabricado pela indiana Gharda Chemicals.

Pertencente ao grupo dos organofosforados – responsável pela maior parte dos casos de intoxicação aguda por agrotóxicos no Brasil e no mundo – o Clorpirifós foi alvo de uma decisão recente da Justiça dos Estados Unidos. Em agosto de 2018, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos recebeu a ordem de banir o produto em prazo de 60 dias após estudos terem identificado danos permanentes causados ao cérebro de bebês, mesmo sob exposição mínima ao inseticida.

GIGANTE DO SETOR, BASF TAMBÉM REGISTROU NOVO PRODUTO

Entre as empresas que receberam concessões por meio do Ato nº 17, apenas cinco ainda não haviam tido registros outorgados em 2019. Entre elas está a Basf S.A., 3ª maior produtora de agrotóxicos e sementes transgênicas do mundo, que recebeu a autorização para comercializar o Veldara, uma combinação entre os fungicidas piraclostrobrina e fluxapiroxade, classificada pela Anvisa como “medianamente tóxico”.

Em 2013, a multinacional alemã foi condenada a pagar uma indenização coletiva de R$ 200 milhões em decorrência da exposição prolongada de 1.068 pessoas aos agrotóxicos do grupo Drin (Aldrin, Dieldrin e Endrin). Elaborados a partir de substâncias cancerígenas, os produtos causaram a intoxicação aguda de funcionários e vizinhos da fábrica da empresa em Paulínia (SP), comprada da Shell em 2000, causando a morte de 59 pessoas.

Dois anos antes, a empresa havia sido autuada pela Anvisa após reprocessar 113 mil litros do agrotóxico Opera já vencidos ou próximos da data de vencimento.

A lista das “estreantes” em 2019 é composta pelas empresas Proregistros Registros de Produtos Ltda, Isagro Brasil Comércio de Produtos Agroquímicos Ltda, Ferbru Participações S.A e Ballagro Agro Tecnologia Ltda.

Nos primeiros noventa dias do ano, a empresa que mais registrou agrotóxicos foi a israelo-chinesa Adama Brasil S.A., com sete rótulos, dois deles “extremamente tóxicos”. Ela é seguida pela belga-espanhola Tradecorp do Brasil Comércio de Insumos Agrícolas Ltda, com sete registros. Completam a lista a alemã Helm do Brasil Mercantil Ltda, a chinesa Rainbow Defensivos Agrícolas Ltda e as brasileiras Nortox S.A e Plurie Soluções Regulatórias Ltda, com seis registros cada.

No quesito toxicidade, a campeã é a Syngenta, a multinacional suíça comprada por uma estatal chinesa, que teve três agrotóxicos classe I liberados pelo Mapa. Ao todo, entre janeiro e março, foram registrados 28 produtos deste nível, um recorde em comparação aos anos anteriores.

O aumento progressivo no registro de pesticidas no Brasil vem acompanhado de impactos severos para a saúde pública. Entre 2007 e 2017, foram notificados cerca de 1.900 mortes relacionadas ao uso de agrotóxicos, além de 40 mil casos de intoxicação aguda.


Esta reportagem foi originalmente publicada pelo site “De olho nos ruralistas: Observatório do agronegócio no Brasil” [Aqui!]

Agrotóxicos fazem pássaros perder peso e o rumo em seus voos para se reproduzir

Segundo pesquisas, os agrotóxicos que estão matando e alterando o fluxo migratório de diversas aves são os mesmos que exterminam abelhas no mundo todo, pondo em risco a reprodução vegetal

GARY KRAMER/US FISH AND WILDLIFE SERVICE

passarinho agrotóxico 1.jpg

Por Rede Brasil Atual, Redação

São Paulo – Os prejuízos dos agrotóxicos à saúde e ao meio ambiente não têm mesmo limites. Além de serem os principais responsáveis pelo desaparecimento de inúmeras espécies de abelhas em todo o mundo, colocando em risco a polinização para reprodução de mais de 70% das espécies vegetais, os agroquímicos neonicotinóides também estão por trás do adoecimento, morte e alterações no senso de direção de aves migratórias. É o que revela uma pesquisa das universidades de Saskatchewan e de York, no Canadá.

Segundo o estudo divulgado em boletim da revista científica Nature, no início de novembro (clique aqui para ler), os pesquisadores capturaram pardais de coroa branca (zonotrichia leucophrys) durante migração do sul dos Estados Unidos e parte do México para o Canadá. E os alimentaram com milho tratado com doses baixas e altas de imidacloprida, da classe dos neonicotinóides, fabricado principalmente pela Bayer, e clorpirifós, um organofosfarado produzido pela Dow.

Após o experimento, os pesquisadores observaram que os pássaros do grupo controle mantiveram massa corporal e preservaram sua orientação norte-norte, conforme a direção de seu fluxo migratório. Já os que receberam imidacloprida exibiram perda significativa nas reservas de gordura e massa corporal conforme as dosagens recebidas. E os tratados com clorpirifós não tiveram prejuízos sobre a massa corporal, mas danos significativos na orientação.

Os resultados, segundo os cientistas, sugerem que as aves selvagens que consomem o equivalente a apenas quatro sementes de canola tratadas com imidacloprida ou oito grânulos de clorpirifós por dia, ao longo de três dias, podem sofrer comprometimento físico, tão importante para os voos, além de atrasos de migração e direção migratória inadequada. Consequentemente, estão com maior risco de mortalidade e menos chances de se reproduzir.

O plantio e a aplicação dos agrotóxicos ocorrem na primavera, período em que as aves estão migrando para o norte e param nas plantações para se alimentar e seguir jornada.

Ao jornal inglês The Guardian, os cientistas afirmaram que os resultados das pesquisas são considerados “dramáticos”. Não é à toa que em 2013 a União Europeia proibiu três neonicotinóides devido a riscos inaceitáveis ​​para abelhas e outros polinizadores. E está em análise a proibição total. O Canadá também está considerando uma proibição total. Os danos ambientais causados por produtos estão embasando argumentos em prol da redução do uso desse agrotóxico.

Atualmente, os pesquisadores canadenses avaliam os níveis de inseticidas no sangue das aves, para medir o nível de contaminação. Eles também estão analisando dados de aves marcadas com radio. Mesmo com doses menores de neonicotinoides, parece haver prejuízos à sua orientação durante a migração.

Não é de hoje que os agrotóxicos são suspeitos de causar o declínio das populações de pássaros em áreas de cultivo agrícola.

Em julho, o mesmo The Guardian publicou reportagem em que discutia a associação entre o inseticida agrícola mais usado no mundo e o desaparecimento de aves migratórias, durante o voo, por perder o senso de direção. E mesmo a interferência do veneno na saúde de pássaros, levando-os à perda de peso e à morte.

E citava uma pesquisa publicada na revista Nature, de cientistas da Universidade de Tadboud, na Holanda. Em 2014, o grupo holandês associou os neonicotinóides a danos e morte em outras formas de vida selvagem além das abelhas.

Os pesquisadores queriam conhecer as causas da diminuição de pássaros nas zonas rurais da Europa e América do Norte nas últimas décadas. Chegaram à conclusão de que as populações de aves decaíram mais acentuadamente nas áreas onde a contaminação por neonicotinóide era mais alta.

ONU

O fim do uso de agrotóxicos na agricultura é recomendado pela ONU. Em março passado, dois integrantes do Conselho de Direitos Humanos da organização, Hilal Elver e Baskut Tuncak, defenderam a criação de um tratado global para regulamentar e acabar com o uso desses produtos. Eles defendem práticas agrícolas sustentáveis em prol da saúde humana. Para os especialistas, os padrões atuais de produção e uso de pesticidas são muito diferentes em cada país e causam sérios impactos aos direitos humanos.

Em seus relatórios, eles citam pesquisas que mostram que os agrotóxicos causam cerca de 200 mil mortes por envenenamento a cada ano em todo o mundo. Quase todas as fatalidades – 99% delas – ocorrem em países em desenvolvimento, onde as legislações ambientais são frágeis.

FONTE: http://www.redebrasilatual.com.br/ambiente/2017/12/agrotoxicos-matam-passaros-e-podem-fazer-aves-migratorias-perder-senso-de-direcao

A praga dos agrotóxicos vai piorar: governo Temer vai afrouxar regras para produtos entrarem e ficarem no mercado brasileiro

agrotoxicos

O Brasil é desde 2008 o maior consumidor mundial de agrotóxicos, e no nosso país ainda estão sendo utilizados produtos que foram banidos em outras partes do mundo, incluindo a China.   Um artigo que publiquei em 2012 com resultados sobre uma pesquisa realizada por dois grupos de pesquisa da Universidade Estadual do Norte Fluminense mostrou que a presença de agrotóxicos banidos era significativa, colocando em risco agricultores, sistemas aquáticos e os consumidores dos produtos saídos de roças que se tornaram completamente dependentes do uso desses venenos [Aqui!].

Mas como no Brasil governado por Michel Temer todo veneno é pouco, agora descobri que o ministro/latifundiário Blairo Maggi está preparando um criminoso afrouxamento nas regras que permitem que agrotóxicos entrem e permaneçam no mercado [Aqui!].

Sob a desculpa de dar “segurança aos produtores e aos consumidores destes venenos agrícolas”, Maggi e seus colegas ruralistas estão propondo uma mudança que à primeira vista parece mínima, mas que tornará mais fácil para que um dado produto seja autorizado para comercialização no Brasil. É que em vez de “perigo” que se relaciona ao grau de toxicidade de um dado produto, a proposta que está em gestação passará a medir os agrotóxicos em termos de “risco” que tem mais a ver ao grau de exposição que se tenha ao mesmo. 

A questão parece mínima, mas não é. Como já observei em estudos de campo por mais de uma década,  raramente as regras que supostamente minimizam o risco são seguidas por uma série de fatores, sendo a minimização do tempo gasto na aplicação dos produtos a que considero a principal.

Entretanto, a mudança mais grave é que nas novas regras, Governo vai mudar regras para registro de novos agrotóxicos, produtos já autorizados a serem comercializados não precisarão passar por um processo de reavaliação nem ser banido do mercado. O problema é que muitos produtos que já foram largamente utilizados, como foi o caso do D-D-T, foram posteriormente identificados como causadores de graves danos à saúde humana e aos sistemas naturais.  Além disso, como as regras estão sendo objetivamente afrouxadas para permitir que novos produtos que são ainda mais tóxicos do que os disponíveis sejam mais rapidamente avaliados e liberados, a perspectiva que se abre é de um verdadeiro apocalipse químico no Brasil, principalmente nas regiões ocupadas por largas extensões de monocultura.

O mais dramático dessa situação é que outras partes do mundo já estão se afastando desse modelo de agricultura que depende tão fortemente dos venenos agrícolas, com experiências avançadas de agricultura ecológica se dando em muitas partes do mundo, incluindo a União Europeia.  Enquanto isso, o Brasil, seus trabalhadores rurais, e a população que consome a produção que é obtida com um uso altíssimo de venenos agrícolas parecem destinados a serem utilizados pelas corporações multinacionais que os vendem a ser uma espécie de “zona de sacrifício” onde serão despejados produtos que o resto do mundo não quer mais.

A Monsanto e a Syngenta/ChemChina certamente agradecerão os bons serviços de Blairo Maggi e Michel Temer.
 

Syngenta condenada: Justiça responsabiliza empresa por morte de sem terra no Paraná

Ataque ocorrido em 2007 resultou no assassinato do trabalhador rural Keno e no ferimento de outros três camponeses. Condenação da Syngenta é bem vista por movimentos sociais, em razão da dificuldade de responsabilizar empresas pelas violações de direitos que cometem. 

Por Assessorias de Comunicação da Terra de Direitos e MST

Syngenta-Condenada-600x537

>> Caso Syngenta

Empresa suíça produtora de transgênicos e agrotóxicos, a Syngenta Seeds foi judicialmente responsabilizada pelo assassinato do trabalhador rural Valmir Mota de Oliveira (conhecido como Keno) e pela tentativa de assassinato de Isabel do Nascimento de Souza. Os dois eram integrantes da Via Campesina e foram vítimas do ataque de milícia privada armada em 2007.

A decisão, proferida pelo juiz de direito Pedro Ivo Moreiro, da 1ª Vara Cível da Comarca de Cascavel, foi publicada no Diário Oficial do estado nesta terça feira (17). A sentença determina que a empresa indenize os familiares de Keno e a vítima Isabel pelos danos morais e materiais que causou. A ação foi ajuizada no ano de 2010, como tentativa de obter respostas do Estado quanto à responsabilidade da Syngenta pelo ataque realizado pela milícia armada privada.

A decisão é vista com bons olhos por movimentos sociais e organizações de direitos humanos, uma vez que a responsabilização de empresas por violações de direitos humanos é um desafio de ordem global.  “Atualmente as empresas transnacionais têm grande liberdade para atuação transnacional, mas não há normas e nem mecanismos nacionais e internacionais suficientes para obrigar as empresas a respeitar direitos humanos, bem como para responsabilizá-las em casos de violação. A responsabilização da Syngenta, neste caso, é exceção à regra”, explica o advogado popular da Terra de Direitos, Fernando Prioste, que acompanha o caso.

Sobre a decisão

O juiz reconheceu que o fato ocorrido na estação experimental da empresa Syngenta foi um verdadeiro massacre. Em sua decisão, afirma que “chamar o ocorrido de confronto é fechar os olhos para a realidade, pois […] não há duvida de que o ocorrido, em verdade, foi um massacre travestido de reintegração de posse”. Com isso, a versão apresentada pela Syngenta foi rechaçada pelo Poder Judiciário. A empresa alegava que o ataque ocorrido em 2007 seria resultado de um confronto entre milicianos e integrantes da Via Campesina.

Em sua defesa, a Syngenta reconheceu a ilegalidade da ação da milícia privada, assim como o cunho ideológico da ação contra a Via Campesina e o MST. A empresa afirmou que “mais do que proteção desta ou daquela fazenda, fica claro que a milícia tinha por objetivo a defesa de uma posição ideológica que contrapunha aquela do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], de modo a propagar a ideia de que a cada ação corresponde uma reação.” Com isso, a transnacional tentava se esquivar de sua responsabilidade, alegando que o ataque não foi realizado pela empresa por ela contratada, mas por uma milícia a mando de fazendeiros.

Contudo, em sua decisão o juiz reconheceu que a “má escolha na terceirização da segurança, assim como o financiamento indireto das atividades ilícitas, constitui fato gerador de responsabilidade civil”. Além disso, reprovou com veemência o ataque realizado ao afirmar que “por mais reprovável e ilegítima que fosse a invasão da propriedade, não seria o caso de agir por conta própria, impondo pena de morte aos ocupantes, mas sim de procurar os meios legais de solução do conflito, afinal, o ordenamento jurídico considera crime o exercício arbitrário das próprias razões”. Assim, decisão judicial que condenou a Syngenta não só reafirma o cunho ideológico da ação miliciana, como vincula a Syngenta a essa ação.

A decisão judicial ainda não é definitiva. A Syngenta, através de seu defensor Renne Ariel Dotti, poderá recorrer ao Tribunal de Justiça do Estado do Paraná. Para o advogado popular da Terra de Direitos, Fernando Prioste, espera-se que o Tribunal mantenha a decisão para restabelecer a verdade sobre os fatos ocorridos em outubro de 2007. “As provas são contundentes contra a empresa”, aponta. “Uma eventual absolvição da Syngenta importaria em anuência do sistema de justiça a massacres como o ocorrido no caso”. 

Exceção à regra 

Questionada sobre a decisão, Isabel Nascimento dos Santos disse estar feliz, muito além da indenização financeira. Gravemente ferida durante o ataque idealizado pela Syngenta em 2007, a agricultora destaca o reconhecimento, por parte da Justiça, da responsabilidade da empresa no caso.

“Agora é levantar a cabeça, tentando esquecer um pouco do sofrimento que tivemos”. A luta acaba?  Jamais! Vamos em frente, dando continuidade também ao trabalho do Keno”.

Representante do MST da região de Cascavel, Eduardo Rodrigues destaca a importância da decisão. Segundo ele, é comum a impunidade das grandes empresas que violam os direitos, ao mesmo tempo em que é frequente que integrantes do movimento sejam criminalizados por sua luta de oposição ao modelo do agronegócio. “O ataque não aconteceu sem o conhecimento da multinacional”, denuncia o agricultor. “Eles não deram só o apoio institucional, mas o apoio financeiro e a logística.”

Eduardo diz desejar que essa decisão seja estendida a outros casos de responsabilização das empresas pelos ataques que cometem. “Espero que essa decisão possa fortalecer nossa luta, dando visibilidade para nossos companheiros”.

Os muitos obstáculos existentes para fazer com que empresas respeitem direitos humanos, e sejam responsabilizadas pelas violações que cometem, fez com que a Organização das Nações Unidas (ONU) passasse a debater o estabelecimento de um tratado internacional vinculante que crie mecanismos de prevenção, reparação e responsabilização no tema de empresas e direitos humanos.

O grupo e trabalho da ONU que desenvolve atividades para o estabelecimento de um tratado internacional no tema de empresas e direitos humanos visitará o Brasil no mês de dezembro. Espera-se que os representantes da ONU possam utilizar o caso da condenação da Syngenta como referência para responsabilização de grandes empresas que cometem violações de direitos humanos através de empresas terceirizadas.

fto-Keno

Sobre o caso

No dia 21 de outubro de 2007 cerca de 40 pistoleiros da empresa “NF Segurança” atacaram o acampamento da Via Campesina localizado no campo de experimento de transgênicos da transnacional Syngenta, em Santa Tereza do Oeste (PR). O local havia sido reocupado por cerca de 150 integrantes da Via Campesina e do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) pela manhã.

Os ocupantes denunciavam a realização de experimentos ilegais com milho transgênico em zona de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu. Os integrantes da Via Campesina também buscavam denunciar as empresas de biotecnologia que atuam de forma a impor um modelo de agricultura que gera danos ambientais com a utilização de transgênicos e agrotóxicos, de modo que inviabilizam a produção de alimentos saudáveis pelos camponeses, povos indígenas e povos e comunidades tradicionais.

Uma milícia fortemente armada da NF Segurança invadiu o local disparando tiros em direção às pessoas que ocupavam o espaço. Segundo informações da Via Campesina, a ação teria sido promovida pela Syngenta que utilizava serviços da NF Segurança, em conjunto com a sociedade Rural da Região Oeste (SRO), e o Movimento dos Produtores Rurais (MPR), ligado ao agronegócio. Indícios apontam que a empresa de segurança seria de fachada, e que contratava seguranças de forma ilegal para as operações de ataque. Além de Keno, os atiradores balearam e espancaram Isabel e feriram outros três agricultores.

Detentora de 19% do mercado de agroquímica e terceira empresa com maior lucro na comercialização de sementes no mundo, atrás apenas da Monsanto e da Dupont, a Syngenta, junto a outras transnacionais, agrava o cenário de violência no campo com a imposição de um modelo de agricultura baseado na monocultura, na super exploração do trabalhador, na degradação ambiental, na utilização de agrotóxicos e na apropriação privada de recursos naturais e genéticos.

Na área em que ocorreram os fatos atualmente funciona o Centro de Pesquisas em Agroecologia Valmir Mota de Oliveira, o “Keno”. 

> Sobre o tema da responsabilização de empresas por violações de direitos humanos a Terra de Direitos desenvolveu umguia para auxiliar na avaliação sobre possibilidades de litigar contra empresas em âmbito internacional.

FONTE: http://terradedireitos.org.br/2015/11/18/syngenta-condenada-justica-responsabiliza-empresa-morte-de-sem-terra-no-parana/