The Guardian concede selo de “Banana Republic” ao Brasil após tanqueata fumacenta em Brasília

A mídia internacional está reagindo rápido ao episódio da tanqueata organizada pela Marinha brasileira a pedido do presidente Jair Bolsonaro.  O primeiro veículo internacional a se posicionar de forma contundente foi o jornal inglês “The Guardian” que publicou um artigo assinado por seu correspondente no Rio de Janeiro, Tom Phillips, cujo título é “Bolsonaro’s ‘banana republic’ military parade condemned by critics” (ou em bom português “Desfile militar da ‘república das bananas’ de Bolsonaro condenado por críticos”. 

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O maior problema dessa rotulação que prega o selo de “Banana Republic” na teste de cada brasileiro será um inevitável aumento do desgaste da imagem externa do Brasil, o que deverá ter repercussões políticas e, principalmente, econômicas. É que em um momento em que os investimentos estão curtos, colocar dinheiro em um país governado por um presidente vocacionado para o rompimento da ordem democrática não será certamente uma prioriedade.

E aos setores da alta burguesia brasileira que agiram para nos transformar em objeto de achincalhe mundial, espero que estejam felizes em um dia tão pouco memorável da história brasileira.

Uma coisa é certa: se o presidente Jair Bolsonaro pretendia demonstrar força a ponto de coagir o congresso nacional a apoiar o seu desejo pessoal pela adoção do voto impresso, as cenas de tanquetas enferrujadas poluindo o ar da Esplanada dos Ministérios devem ter deixado o rei ainda mais nu, bem como sua imensa fragilidade política neste momento. É o famoso tiro que deverá sair pela culatra.

A tanqueata de Jair Bolsonaro como mais um blefe contra os brasileiros

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Enquanto milhões de brasileiros vivem hoje sem qualquer garantia de que terão um prato de comida na mesa no dia de hoje, o governo Bolsonaro promove uma “tanqueata” em Brasília em um momento em que o Congresso Nacional deverá apreciar a possível volta do voto impresso no Brasil.

Como vivi os estertores do regime militar de 1964 presenciei muitas vezes tanques e caminhões de transporte de tropas pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro. Como naquele tempo, a tanqueata de hoje é uma demonstração da extrema fraqueza em que se encontra o presidente da república, após desastrosos 31 meses de (des) governo. Jair Bolsonaro sabe que salvo outro incidente obscuro como o da facada de Adélio Bispo de Oliveira, o seu destino eleitoral já está escrito nas estrelas e ele é péssimo para o ex-capitão.

Ao pôr os tanques nas ruas de Brasília, Jair Bolsonaro visa claramente amedrontar um congresso cuja composição lhe é francamente aliada, tanto que a maioria dos seus projetos de desmanche do estado brasileiro tem passado de forma majoritária. E o problema começa aí, pois quem tem de ameaçar aliado é que já assume que perdeu a guerra. Por outro lado, é preciso que se diga que a virtual rejeição do voto impresso não se dá por uma crença na lisura das urnas eletrônicas, mas porque os caciques partidárias (a maioria deles aliados de Bolsonaro) já fez as suas contas, e não viu vantagem alguma no voto impresso.

Aliás, um dia ainda vou descrever com detalhes a minha experiência de fiscal de mesa eleitoral na Ilha do Governador para que quem lê se esse blog saiba como determinados candidatos eram flagrantemente roubados na hora de se separar os votos para a sua contagem.  Mas isso fica para outro dia.

Mas voltando à tanqueata de Jair Bolsonaro, tenho dúvidas se ela terá qualquer efeito sobre a votação que deverá ocorrer hoje na Câmara de Deputados. À primeira vista, penso que esse desperdício do dinheiro público na forma de desfile de tanques (a maioria caindo aos pedaços) só servirá para que os mais espertos subam à tribuna para jurar amor pela mesma democracia que eles pisoteiam sempre que podem.

A questão central é como o comando das forças armadas assimilará (ou não) uma eventual derrota do voto impresso proposto pelo presidente da república: se vão colocar os seus tanques no saco ou vão querer partir para uma elevação da temperatura e mantê-los onde estão. É essa decisão que realmente importa, pois Bolsonaro nesse jogo é apenas um peão. Entretanto, seja qual for a decisão dos comandantes militares, me parece que eles estão conseguindo uma destruição de imagem que nem os 21 anos da última ditadura militar conseguiram. E esse é um custo que talvez deve ter sido calculado pelos comandantes militares, e que lhes poderá custar muito caro. Afinal, a multidão de brasileiros famintos que este governo criou pode não ligar para o próximo blefe de Jair Bolsonaro, já que cão que ladra e não morde acaba a principal ferramenta a seu dispor: a capacidade de gerar medo.