As armadilhas do empreendedorismo e seus ativos mais preciosos

armadilhas

Por Luciane Soares da Silva 

Em junho de 1994 uma colega de faculdade muito popular venho até mim com uma pergunta inusitada: qual era o meu maior sonho. Tinha uns 22 anos naquela época, estava cursando uma faculdade, era bolsista de iniciação científica, tinha uma banda e uma cidade inteira para andar com pranchetas e questionários. Creio que não nutria um sonho muito específico. Após ouvir isto, ela passou a me explicar as vantagens de um mundo no qual eu poderia realizar “todos os meus sonhos”. Todos?

Durante aquele ano, fui abordada por pessoas muito diferentes, em posições sociais e de bairros muito diferentes de Porto Alegre. Com a mesma pergunta. Naquela onda de realização, no final da década neoliberal, minha madrinha, fisgada pelo discurso da realização de “todos os seus sonhos” entrou para o que viria a ser minha experiência mais próxima de observação sobre o funcionamento de um grande esquema de pirâmide. Em uma reunião no famoso clube Farrapos, vídeos reproduziam uma vida de luxo longe do mundo de trabalho fordista e de qualquer obrigação. O único compromisso era vender mercadorias de limpeza importadas dos Estados Unidos pelo meio de venda direta, um setor em alto crescimento particularmente para mulheres com filhos pequenos que não poderiam cumprir uma jornada de oito horas diárias. Mas estas mulheres estariam no topo desta pirâmide com suas revistas de compra direta?

A vida de minha madrinha era bastante sólida como uma trabalhadora da área de saúde e em uma família de pessoas com ensino superior. Meu tio era advogado ligado a prefeitura e minha tia assistente social. Então, de onde viria aquele ávido desejo por riqueza? No meio do curso de ciências sociais não foi difícil perceber o que significavam os textos sobre fim da história, uma sociedade em pleno processo de liquefação e uma promessa de mudanças com base em vendas diretas em todas as áreas. Cosméticos, alimentos, utensílios de cozinha, tudo dentro de um grupo com uma  ideologia que exigia alta performance em diálogos, contatos sociais, capacidade de convencimento. Como seria possível este novo mundo para pessoas que saíam de uma longa jornada como assalariadas? Que não possuíam uma rede capaz de suportar os valores praticados por aquele grupo de consumo de bens importados? Pessoas que não possuíam os capitais de circulação necessários para estar no topo.

Parecia óbvia a diferença entre uma mulher de 40 anos, divorciada e com três filhos e um casal de engenheiros que trocou a “vida monótona” por um esquema de pirâmide no qual aparecia em vídeos exibindo carros e fotos de viagens. A base de “recrutamento” era semelhante a uma seita, tornando seus adeptos agressivos quando confrontados com qualquer crítica. Foram dois anos de perdas até que ela aceitasse que aquele negócio “não era tão bom assim”. Dois anos de aplicação do seu salário para cafés da tarde, viagens à São Paulo, compra de material que supostamente seria facilmente vendido. Mas não foi. Porque seu grupo de convivência era de outros assalariados. O que para mim serve como exemplo prático de uma pessoa alienada sobre sua posição social.

O documentário Betting on Zero de 2016, dirigido por  Ted Braun, registra como latinos aderiram à ideia do dinheiro fácil e viveram a tragédia de perder o ganho de uma vida inteira de trabalho. Perderam caminhão, casa, economias. Perderam a dignidade ao perceber o engano de vender um shake. Que estocado, tornava-se um pesadelo de proporções trágicas.

Recentemente o filme Crypto Boy dirigido por Shady El Hamus me fez lembrar do livro “A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo” de Richard Sennet publicado em 1999. Já faz algum tempo que observo o tema da aposentadoria. Não apenas por experiências familiares mas por ter vivido uma crise do funcionalismo público fluminense em 2017, que fez com que aposentados passassem a vender amendoins no centro do Rio de Janeiro para não perder as próprias casas. Muitos tiveram de entregar os apartamentos. Algo que vimos após a bolha de 2008 nos Estados Unidos. Crises em curso, crises radioativas se expandindo no tempo e no espaço. A corrosão da qual fala Sennet mostra diferentes gerações enfrentando as mudanças no mundo do trabalho. Do modelo fordista, da vida planejada, das economias que possibilitaram um sentido à experiência para o futuro dos filhos, passamos a viver os anos de risco. Risco pessoal, riscos afetivos, velocidades em todas as transações, uso tóxico de redes sociais vendendo estilos de vida de bilionários saídos do nada.

Transações afetivas, laborais ou religiosas vividas como um ativo na bolsa de valores. Mas com algo em comum: todas estas transações contam com a potência do indivíduo, vendendo aquele mesmo sonho no qual minha madrinha embarcou na década de 90, no Brasil. Um sonho importado dos Estados Unidos expandido  no governo de Fernando Collor de Mello como o caminho de modernização nacional. Privatizar e tornar o Estado mais leve eram lemas repetidos pelos empregados da Companhia Rio Grandense de Telecomunicações. Que viraram donos de towners de cachorro-quente após demissões voluntárias. Negócios que faliram em menos de um ano. Todos desempregados e com dívidas.

O mesmo ocorre com os discursos das criptmoedas. A falência do mundo do trabalho como o conhecemos até a década de 1970, produziu uma geração inflada por experiências rápidas. Não mais Wall Street (não apenas). Não mais as bolsas de valores ou os bancos. Nada visível, nada com fronteiras, nenhum limite. Propagam a morte das amarras e valorizam relações baseadas em esquemas de pirâmides. Só que agora, com a confiança em jovens milionários de 30 anos. Descolados. Que frequentemente “somem” na  Índia ou algum outro país distante com o dinheiro de seus “associados”. Esta é a geração que olha o trabalho realizado por seus pais e grita “fracassados”. Exibem um tipo de consumo ostentatório e o rompimento com projetos de longa duração.

No entanto e apesar desta bruma de positividade baseada em puro discurso de elixir mágico,  segue existindo uma gigantesca diferença não percebida pela minha madrinha: aqueles que têm uma rede de proteção e podem falir e a massa que sustenta esta possibilidade, a base da pirâmide que defende os ricos. A Betina, que nascendo rica, apresenta-se como alguém que “fez” um milhão antes do 30 anos. Mas se não me engano, este pessoal anda demitindo muita gente. Ela seria o tipo ideal de gente que pretende ganhar dinheiro sem fazer nada relevante no mundo a não ser ganhar dinheiro sem fazer nada. Parece que tornou-se um mantra poderoso. Produzir espertezas de como burlar o sistema. Mas a casa nunca perde.  É o que sempre dizem em cassinos. E ainda assim, eles atraem milhares de sonhadores a cada ano.

O mesmo ocorre com um tipo de empreendedorismo cujas as palavras de ordem são “cuidar do planeta”, “fazer as pessoas mais felizes”, “preservar as culturas”. Algumas das empresas mais rentáveis no Brasil atualmente, utilizam a floresta e seus povos como ativos de propaganda do que foi exposto acima.

É trágico observar como esta lógica se assemelha a uma pequena infiltração que se alastra pela casa. Expande-se por todas as esferas até que não exista mais uma contra-hegemonia. Até mesmo em espaço nos quais nosso principal ativo deveria ser o conhecimento, ocorre um rebaixamento das expectativas. Não há possibilidade de manutenção de instituições do Estado como as universidades quando estas passam a instrumento da mesma lógica dos projetos individuais, da meritocracia e da possibilidade de lucrar com a marca. Mas neste caso, no Brasil, a “marca” é pública, então a operação torna-se um pouco estranha.  Não faz muito sentido fazer pesquisa pública se nivelamos nossa ação pelo mercado travestido de investimento social em pessoas. Sempre vivemos ondas salvacionistas no Brasil.

Os índios, as crianças de rua, os pobres, os pescadores, os favelados, as mães solteiras. São o foco do terceiro setor, frequentemente atuando com uma mão no mercado e os pés na universidade que chancela suas intenções e assina os projetos. A verdade é que esta operação complexa transforma as pessoas naquilo que elas pensam vender. Trocando em miúdos, o que importa, o que é mais raro, é o indivíduo na ação crédula de que algum grande empreendedor vai torná-lo rico, viável, socialmente incluído, diplomado e pertencente à nova ordem mundial. 

O elemento trágico é que esta ação é mediada por grupos que submetem estas minorias à formas de dominação das quais elas raramente se libertam. Todos ganham dinheiro. Menos os contemplados desta política que não sendo pública, é um meio de caminho entre a publicidade e a futura frustração. Garantem minimamente um pequeno conforto incerto mas com alto custo: o trabalho duro de gerações anteriores.

Esta ausência de crítica produz ao fim do processo uma frustração de caráter difuso que precisa ser constantemente alimentada por consumo, sensualismo manifesto nas redes sociais, redes de ódio e dívidas. Muitas dívidas como herança às gerações futuras. Nada pior que fazer para outros este trabalho de graça não é mesmo? E literalmente usar uma camisa que ao fim do dia ainda tem de ser devolvida lavada e passada para o próximo. Que a universidade possa viver livre deste empreendedorismo que rouba o verdadeiro propósito da instituição: a formação crítica e a capacidade para pensar de forma autônoma que caracteriza nosso compromisso com a ciência.


Luciane Soares da Silva é professora do Laboratório de Estudos sobre Sociedade Civil e do Estado (Lesce) da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf)

Ricardo Salles mira nas ONGs para acertar no meio ambiente

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Na última 2a. feira (14/01) o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, emitiu um documento determinando a suspensão da execução por 90 dias de todos os convênios e parcerias com organizações não-governamentais (ONGs) que desenvolviam projetos finaniados pelo governo federal (ver documento abaixo).

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Esta ação de Ricardo Salles tem como objetivo aparente a saúde financeira de ONGs, vistas pelo presidente Jair Bolsonaro como impecilhos à sua visão de governo. É que muitas dessas organizações sobrevivem da prestação de serviços ao governo federal, e agora ficarão sob forte estresse financeiro para continuar suas atividades.

Mas espremer financeiramente as ONGs não é realmente o alvo desse “tiro” de Ricardo Salles. É que boa parte das atividades de conservação dos ecossistemas brasileiras, especialmente os localizados na região Amazônica, dependem dos serviços prestados pelas ONGs, muitas das quais possuem “expertises” que foram há muito tempo voluntariamente terceirizadas pelo Estado. Segundo informal o jornal “Estado de São Paulo”, apenas com o congelamento dos  recursos oriundos do Fundo Clima e do Fundo Amazônia  um total de 52 projetos serão descontinuados, o que representa um risco muito grande em pelo duas grandes áreas de atuação do MMA [1].

Assim, ao suspender a execução de todos os projetos e parcerias mantidos pelo MMA, Ricardo Salles deve saber que estará descontinuando importantes ações que têm contribuído para estabelecer formas mais sustentáveis de uso dos recursos naturais brasileiros. E, pior, ao descontinuar projetos de conservação e proteção dos ecossistemas naturais, Salles está possibilitando que os setores que se opõe a um uso mais racional dos biomas brasileiros possam agir com ainda mais liberdade, o que torna o futuro imediato de várias áreas ecologicamente sensíveis bastante nebuloso.

Um aspecto que merece ser ressaltado é que este ataque às ONGs deverá causar grandes dificuldades na relação do Brasil com países como Alemanha e Noruega que são responsáveis por 98% do aporte de recursos do chamado “Fundo Amazônia” que chega a um total de US$ 1,2 bilhão [2]. É que umas condicionantes para que haja esse aporte vem a ser exatamente a diminuição do desmatamento na Amazônia. Como a suspensão dos projetos que estavam sendo executados por ONG deve ter o aumento do desmatamento como uma das repercussões mais óbvias, é muito provável que brevemente o Brasil perca boa parte dos recursos alemães e noruegueses.

Mas que ninguém se engane,  Este “tiro” de Ricardo Salles não será nem o primeiro nem  o último que virá por parte de um governo claramente antifloresta e anticonservação ambiental. E essa aparente marcha da insensatez só cessará quando começar o boicote às commodities produzidas em áreas recentemente desmatadas. Quando isso acontecer não vai adiantar a ministra Tereza Cristina convocar Gisele Bündchen para ser uma “embaixadora do agronegócio”. É que nem Gisele vai poder nos salvar. Simples assim!