MP gaúcho quer suspensão de agrotóxico que levou ao extermínio de abelhas

Proibido na Europa justamente por ser letal aos polinizadores, o fipronil obteve três novos registros junto ao governo Bolsonaro

 

abelha-mortaEntre outubro passado e março deste ano foram mortas 400 milhões de abelhas em 32 municípios gaúchos

Por Cida Oliveira para a Rede Brasil Atual

São Paulo – A Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre pediu nesta quarta-feira (14) que o governo do Rio Grande do Sul suspenda o fipronil do Cadastro Estadual de Registro de Agrotóxicos. O ofício enviado à Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler (Fepam) e às secretarias da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural e de Meio Ambiente e Infraestrutura é desdobramento do inquérito civil instaurado para apurar as causas do extermínio de abelhas no estado.

Entre outubro passado e março deste ano foram exterminadas 400 milhões em colmeias de 32 municípios gaúchos.  De acordo com o promotor de Justiça Alexandre Saltz, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, “a necessidade é de prevenir novos danos ambientais irrecuperáveis derivados da aplicação do produto”.

Não bastasse a crueldade contra os insetos, o extermínio põe em risco a produção de alimentos. Segundo a organização Bee or not to Be?, idealizada pelo professor titular aposentado da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto Lionel Segui Gonçalves, as abelhas são os maiores polinizadores do planeta. Atuam diretamente na reprodução de mais de 85% das plantas com flores das matas, florestas e áreas verdes, conferindo importante equilíbrio aos ecossistemas. E de mais de 70% das culturas agrícolas, garantindo a ampliação da produtividade no campo e a melhoria na qualidade de frutos e sementes. Na busca por alimento, coletam também o pólen produzido pelo órgão masculino da flor e o carregam para a parte feminina. É nesse processo de polinização que a planta se reproduz.

Banido

O fipronil que está na mira do MP gaúcho foi banido da União Europeia em 2017. Pesquisas realizadas pela Universidade de Exeter, no Reino Unido, constataram que a substância matou milhares de abelhas na França entre 1994 e 1998. E que as mortes ocorreram logo que o produto foi lançado.

A devastação de colmeias inteiras de apicultores gaúchos, porém, não parece preocupar o Ministério da Agricultura do governo de Jair Bolsonaro (PSL). Desde o início da gestão foi concedido registro – que permite a produção e venda – para mais 290 produtos. Desse total, dois são para a substância pura e outros dois para misturas com o acetamiprido, da classe dos neonicotinoides.

Das novas liberações, pelo menos 21 são nocivas às abelhas. São 12 da classe dos neonicotinoides, três da fenilpirazol e seis sulfoxaminas. “Os piores são o fipronil, do segunda classe, e o sulfoxaflor, da terceira, estes todos produzidos pela Dow Chemical. Aparentemente são mais perigosos que os neonicotinoides. Embora não haja mocinhos nessa película, é bom lembrar que alguns neonicotinoides estão liberados na União Europeia, enquanto os dois outros grupos estão proibidos. O fipronil está praticamente banido até nos Estados Unidos, onde é usado apenas em casos extremos”, avalia o professor e pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Marcos Pedlowski, que monitora as liberações de agrotóxicos.

Seja como for, a classe dos neonicotinoides está diretamente associado ao extermínio de abelhas em todo o mundo. Estudo financiado por 28 países da União Europeia concluiu que tais inseticidas representam grande risco para diferentes tipos de abelhas. Tanto que esses países proibiram o imidaclopride e a clotianidina, da Bayer, que comprou a Monsanto, e o tiametoxam, da Syngenta. Porém, coerente com a via de sentido contrário que escolheu para trafegar, o Brasil deu sinal verde também para seis pedidos para fabricar imidaclopride e dois para tiametoxam.

Com sequela

No último dia 6, a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina (DEM-MS), a “musa do veneno”, juntou o diretor da Anvisa, Renato Porto, e a diretora do Ibama, Carolina Mariani, entre outros, para tentar explicar à imprensa as principais questões envolvendo os agrotóxicos no país.

Os gestores foram enfáticos na defesa da tese de que o Brasil aparece na 44ª posição em um ranking do Fundo das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) sobre uso de defensivos agrícolas. E não na primeira. Na perspectiva adotada pelo governo, o consumo foi de 4,31 quilos de agrotóxicos por hectare cultivado em 2016. E que entre os países europeus que utilizam mais defensivos que o Brasil aparecem a Holanda (9,38 kg/ha), Bélgica (6,89 kg/ha), Itália (6,66 kg/ha), Montenegro (6,43 kg/ha), Irlanda (5,78 kg/ha), Portugal (5,63 kg/ha), Suíça (5,07 kg/ha) e Eslovênia (4,86 kg/ha).

Uma tese contestada pela pesquisadora Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia da USP. Conforme explicou no final de junho à Agência Pública, quando se divide o consumo brasileiro de agrotóxico pela área plantada há diluição desse volume gigantesco. Isso porque é considerada área cultivada regiões como pastos, que são terras improdutivas. “Uma conta faz com que o Brasil fique lá embaixo no ranking”.

O esforço da equipe da musa do veneno veio da pressão dos próprios ruralistas diante da repercussão negativa de uma paródia apresentada no programa Zorra, na noite de 3 de agosto. Na esquete em formato de desenho animado, o ruralista pulveriza agrotóxico na goiaba em um sítio em que os agrotóxicos e os transgênicos alteraram profundamente a vida e a saúde das pessoas. A inconsequente – e prevista – farra dos agrotóxicos no governo Bolsonaro foi criticada em horário nobre, pouco depois da venda de imagem pop do agro.

Confira a crítica aos agrotóxicos em O Sítio do Pica Pau com Sequela:

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A modernidade envenenada de Tereza Cristina, a musa do veneno do governo Bolsonaro

Ricardo-Salles-e-Tereza-Cristina-1024x585Os ministros Ricardo Salles e Tereza Cristina são os principais responsáveis pelo sucesso da desconstrução das políticas ambientais no Brasil: o primeiro permite o avanço explosivo do desmatamento na Amazônia e a segunda acelera a aprovação de venenos agrícolas, muitos deles banidos em outras partes do mundo.

Indubitavelmente o governo Bolsonaro acumula muitas vitórias na implantação de sua pauta anti-ambiental, a maioria delas capitaneada pelo anti-ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, e a pela ministra da Agricultura e “musa do veneno” Tereza Cristina (DEM/MS).

Graças à ação célere da dupla, o Brasil hoje vê-se imerso em uma disparada nas taxas de desmatamento na Amazônia e na aprovação “fast track” de venenos agrícolas que estão transformando o Brasil numa espécie de Chernobyl dos agrotóxicos, já que somente nos primeiros 7 meses de 2019 foram aprovadas 290 agrotóxicos para comercialização em diferentes partes do território nacional.

Hoje, a jornalista Lorena Rodrigues do “ESTADÃO” nos brinda com uma matéria em que Tereza Cristina faz uma espécie de celebração do seu sucesso como aprovadora mór de venenos agrícolas. Um detalhe para lá de instigante é o fato de que Tereza Cristina equipara a aprovação recorde de agrotóxicos altamente tóxicos para o ambiente e para a saúde humana como uma espécie de chegada à modernidade na agricultura brasileira.

tereza cristina venenos

Ainda segundo o relato de Lorena Rodrigues, Tereza Cristina teria alegado que “os produtos autorizados atualmente têm menos toxicidade e são melhores para o País”. Faltou à ministra dizer que para conseguir o feito de ter produtos aprovados sob a égide de serem menos tóxicos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mudou repentinamente seu sistema de classificação de graus de toxicidade, o que fez que dos 600 produtos anteriormente classificados como os mais tóxicos, tenham sobrado meros 98. Assim, convenhamos, até eu conseguiria o feito que Tereza Cristina está clamando ser seu.

Como examinei os 290 produtos aprovados pelo governo Bolsonaro e verifiquei o grau de toxicidade ambiental e humana, só posso concluir que a ministra e dublê de musa do veneno padece do desconhecimento do que anda aprovando ou é simplesmente cínica. A verdade é que os produtos que foram autorizados não são nem mais modernos do que os existentes no mercado e, tampouco, são menos tóxicos. Entre os agrotóxicos temos o Acefato e a Ametrina,  banidos pela União Europeia por causarem graves danos à saúde humana e ao meio ambiente. Só essas duas substancias tornam no mínimo falaciosa a declaração de Tereza Cristina de que “O Brasil não utiliza defensivos banidos lá fora, não é bem assim. Tem pesticidas que são usados aqui e não na Europa porque eles não têm a mesma cultura. O Brasil não utiliza nada que não pode ser usado“. O fato é que o Brasil utiliza sim substâncias banidas não apenas na União Europeia, mas também na China como é o caso do Paraquate

Um momento de sinceridade (talvez o único) que Tereza Cristina demonstrou foi de reconhecer a preocupação em não “assustar o consumidor estrangeiro”.  Mas, neste caso, o exemplo do alerta russo sobre o excesso de glifosato na soja brasileira e o boicote promovido pelo CEO da rede sueca Paradiset, Johannes Cullberg, indicam que o temor de Tereza Cristina é tardio, e que evidentemente cresce a sombra de que brevemente boa parte da produção agrícola brasileira seja impedida de entrar nos principais mercados mundiais. Seja por excesso de agrotóxicos banidos internacionalmente e aprovados pelo governo Bolsonaro sob a batuta de Tereza Cristina, seja pelo aumento explosivo das taxas de desmatamento na Amazônia.

Quando o isolamento sanitário acontecer e o Brasil ficar impedido de vender o grosso da sua produção agrícola, vamos ver como se comportarão Ricardo Salles e Tereza Cristina para explicar para o presidente Jair Bolsonaro (também autointitulado como “Johnny Bravo” que focinho de porco não é tomada.  A ver!

Sulfoxaflor,fipronil, acefato e malationa são as “estrelas” do último pacote letal do governo Bolsonaro

agrotóxicos 1Com 290 agrotóxicos aprovados apenas em 7 meses, governo Bolsonaro se torna o mais pró-veneno da história.

Por estar atarefado demorei um pouco mais para introduzir na base de dados que comecei a construir em janeiro para documentar o avanço da liberação de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, mas hoje finalmente consegui concluir a tarefa de juntar os 51 agrotóxicos liberados no dia 18 de junho e publicados no Diário Oficial da União apenas no dia 22 de julho de 2019.

E os dados mostram que as abelhas que polinizam os campos brasileiros estão agora sob um risco ainda maior, pois apenas do composto Sulfoxaflor foram aprovados 6 produtos, todos produzidas pela multinacional estadunidense Dow Chemical Company. Mas se ainda sobrar abelhas depois do envenenamento por Sulfoxaflor, as sobreviventes ainda terão de se defrontar com um produto que contém outro inimigo poderoso, o Fipronil, esse fabricado pela brasileira Iharabras S.A. Indústrias Químicas.

abelhas-mortas2Uso de agrotóxicos como o Sulfoxaflor e o Fipronil estão sendo associados ao extermínio de quase 1 bilhão de abelhas no Brasil apenas em 2019.

Mas para os humanos também sobraram produtos como o Acefato que é banido pela União Europeia por suas conhecidas relações com a infertilidade, danos genéticos e, é claro, o câncer.  De quebra, ainda foram aprovadas formulações contendo a Ametrina e a Atrazina, produtos ativos também banidos pela União Europeia, e que também têm sido associados a enfermidades graves em seres humanos.

Outro produto aprovado que embora ainda seja vendido legalmente na União Europeia foi a Malationa, um inseticida e acaracida organofosforado, que é conhecida por causar danos irreversíveis na vida aquática. 

A nova lista de aprovações traz 14 produtos que são totalmente ou parcialmente compostas por princípios ativos banidos pela União Europeia, elevando o total dentro das 290 substâncias liberadas pelo governo Bolsonaro com essa “peculiaridade” para 95 (o equivalente 33% do total). Tal fato quando conhecido pelos importadores europeus tenderá a aumentar a pressão sobre as commodities agrícolas brasileiras, dado o exemplo já conhecido da rede sueca Paradiset que baniu todos os produtos não orgânicos brasileiros quando o total de agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro era ainda menor. 

De toda forma, essa marcha do veneno que não perdoa nem abelhas ou humanos é um sinal de completo atraso de mentalidade dos ruralistas que hoje efetivamente controlam o Ministério da Agricultura sob o comando da “princesa do veneno” Tereza Cristina (DEM/ES). Reagir a essa tsunami de venenos agrícolas está se tornando cada vez mais um das questões centrais da democracia brasileira. Afinal, a maioria dos brasileiros e de nossos ecossistemas naturais não podem ser sacrificados em nome do aumento da taxa de lucros de uma minoria que está pouco se lixando para as consequências de um modelo agrícola totalmente ancorado no veneno e no desmatamento.

Quem tiver interesse em conhecer todos os agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro, basta clicar [Aqui!].

Governo do Veneno: com mais 51 agrotóxicos liberados, o total liberado em 2019 chega a 290

agrotoxicos 1Com mais 51 agrotóxicos liberados, governo Bolsonaro agora totaliza 290 liberações apenas em 7 meses de mandato.

Em meio aos embates provocados pelo presidente Jair Bolsonaro com os pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais por causa dos dados de desmatamento, o Ministério da Agricultura aproveitou o barulho presidencial para publicação a liberação de mais 51 agrotóxicos, o que eleva o total aprovado em 2019 a estratosféricos 290.

Esse ritmo de aprovação de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo por causarem danos à saúde humana e ao meio ambiente, é uma afronta aos brasileiros que sofrem com as doenças que são associadas a muitos desses produtos, e coloca em risco a exportação de commodities agrícolas para mercados importantes como a União Europeia.

Mas aparentemente, como no caso dos dados do desmatamento, os ministros do governo Bolsonaro contam com a apatia da população brasileira e com a cumplicidade dos governos que compram produtos contaminados com agrotóxicos que eles muitas vezes baniram para seus próprios agricultores.

Esse tipo de aposta é acima de tudo irresponsável em todos os sentidos. É que ao apostar em letargia e cumplicidade, os membros do governo Bolsonaro apostam que a contaminação de ecossistemas naturais, o adoecimento de populações expostas direta ou indiretamente aos venenos que estão sendo liberados em tempo recorde, bem como o desaparecimento de espécies de polinizadores valem o lucro que eles talvez não tenham a garantir para o latifúndio agro-exportador.

Como estou atualizando a base de dados que iniciei quando os primeiros 28 agrotóxicos tiveram sua aprovação publicada em janeiro, vou inserir os produtos aprovados hoje para identificar as variáveis que elenquei e que envolvem o solicitante do registro, o fabricante primário do produto autorizado, o país de origem da empresa que fabrica o produto, o nível de toxicidade humana e ambiental, bem como o status do produto na União Europeia. Após adicionar esses dados na base, vou postar outro artigo sobre as aprovações de hoje.

Entretanto, posso adiantar que o principio ativo Sulfoxaflor, conhecido por dizimar enxames de abelhas, está na lista de aprovados desta segunda-feira, aumentando ainda mais o número de produtos disponíveis no mercado brasileiro com essa mesma característica macabra.

E como já venho avisando desde que essa febre de aprovação de agrotóxicos começou em janeiro, que ninguém se surpreenda se começarem banimentos em escala de produtos que sejam flagrados com níveis acima dos tolerados em outras partes do mundo.  Isto sem falar na possibilidade de que o boicote iniciado na Suécia por Johannes Cullberg encontre rápida ressonância em outras partes da Europa, apenas para começo de conversa.

A praga dos agrotóxicos: concentrando lucro e distribuindo prejuízos

contaminação

A ministra da Agricultura Tereza Cristina (DEM/ES) é uma negacionista convicta dos efeitos devastadores que o uso intensivo de agrotóxicos está causando no meio ambiente (solos, águas e animais vivos) e sobre a saúde pública no Brasil.  Isso fica evidente pelas declarações que ela deu na  na 41ª Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura da FAO que acaba de ocorrer em Roma.

Mas definitivamente Tereza Cristina não nega os múltiplos males trazidos pelos agrotóxicos  por falta de conhecimento científico ou de uma farta documentação sobre os diferentes ângulos que o uso dos mais de 2.000 agrotóxicos disponíveis no mercado brasileiro, muitos deles banidos em outras partes do mundo.

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Um exemplo de um documento acadêmico com farta documentação sobre as consequências devastadoras dos agrotóxicos sobre a saúde dos brasileiros é o chamadoDossiê Abrasco: Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde” que foi publicado em 2015 pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

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Este dossiê traz uma série de relatos e estudos que apresentam dados sobre contaminação de águas e alimentos, bem como de diversos casos de exposição direta de populações inteiras a venenos potentes, os quais causaram efeitos imediatos sobre a saúde dos atingidos. Mas mais do que trazer dados científicos e relatos, o que o Dossiê da Abrasco faz é apresentar um diagnóstico compreensivo dos graves problemas causados pelo vício em agrotóxicos em que a agricultura corporativa brasileira está baseada; além de apontar subsídios para a superação deste modelo ambiental, social e economicamente insustentável. 

E é preciso que se precise que a partir de 2015 não apenas apareceram mais evidências sobre os danos em curso por causa do uso de uma multitude de venenos agrícolas, a Abrasco continuou a sua compilação de evidências materiais. Assim, as negativas e a tentativa marota da ministra da Agricultura para desacreditar as evidências de que a agricultura brasileira está afundando no veneno não são resultado de falta de conhecimento científico, mas de desprezo pelo que já rigorosamente documentado pela comunidade de pesquisadores brasileiros.

A verdade é que esse modelo ancorado no veneno só é viável com uma série de benefícios econômicos que aparecem na forma de isenções fiscais, crédito subsidiado e um pesado esforço para apoiar a movimentação da produção oriunda dos grandes latifúndios. Em alguns casos, vendedores de veneno são também fazendeiros (um exemplo recente é o do deputado Luiz Nishimori (PL/PR) que chegou a ocupar a posição de relator do Projeto de Lei 6299 (o famigerado Pacote do Veneno).

É imperioso romper com esse ciclo de benesses que premia um pequeno grupo de pessoas em detrimento do direito da maioria dos brasileiros de consumirem alimentos e água sem venenos, bem como de exercer atividades agrícolas dentro de um modelo que seja sustentável.

 

Tereza Cristina, a musa do veneno, diz na FAO que excesso de agrotóxicos no Brasil é “balela”

agrotóxicos avião

Enquanto estava na 41ª Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), a ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS) autorizou a liberação de mais 42 agrotóxicos (45% deles proibidos na União Europeia). Entretanto, em entrevista à Rádio França Internacional (RFI), Tereza Cristina afirmou que os apontamentos de que o Brasil é hoje um dos principais consumidores de agrotóxicos seriam “uma “balela’,  “um mito”.

tereza cristina

Alguém precisa lembrar à ministra Tereza Cristina que o Brasil é hoje responsável por cerca de 20% do consumo mundial, e que no mercado brasileiro estão disponíveis 2.305 produtos, os quais incluem vários produtos que estão ligados à vários tipos de doenças (a começar pelo câncer) e pelo extermínio das abelhas.

As declarações de Tereza Cristina apenas reforçam a minha opinião de que só com o avanço de propostas de banimento dos produtos agrícolas, ao modelo do que foi iniciado pelo fundador e CEO da rede sueca de supermercados Paradiset, Johannes Cullberg, é que teremos algum tipo de sensibilização dos apoiadores da “musa do veneno”.

Mas como acredito que a população brasileira também precisa ocupar um papel relevante nas pressões para a diminuição do uso abusivo e indiscriminado de venenos agrícolas no Brasil, estou disponibilizando a base de dados com os 239 agrotóxicos liberados até aqui pelo governo Bolsonaro.   Quem desejar baixar a base, basta clicar [Aqui!].

Finalmente, se há uma balela envolvendo a enxurrada de agrotóxicos que está sendo colocada na agricultura brasileira é de que apontar essa situação é balela ou mito. A verdade é que estamos diante de um cenário gravíssimo com a liberação de venenos altamente tóxicos que estão agravando a contaminação de águas e solos no Brasil.

A marcha do veneno continua: com mais 42 aprovações, o total de agrotóxicos liberados por Bolsonaro chega a 239

pesticideCom mais 42 agrotóxicos aprovados, governo Bolsonaro liberou o número recorde de 239 produtos apenas na primeira metade de 2019.

A despeito das condenações e do boicote convocado pelo fundador e CEO da rede sueca de supermercados Paradiset, Johannes Cullberg, o governo Bolsonaro continua disposto a transformar o Brasil numa imensa piscina tóxica.  É que o Diário Oficial da União desta segunda-feira (24/06) traz a publicação do Ato No. 42 de 19 de Junho de 2019 em que são aprovados mais 42 agrotóxicos para comercialização no Brasil.

Já comecei a tabulação dessa nova leva de agrotóxicos e em breve publicarei a lista completa e especificações dos compostos que acabam de ser liberados pelo governo Bolsonaro. Entretanto, com as primeiras tabulações já pude identificar a persistência da China como principal fornecedor de agrotóxicos para a agricultura brasileira. Além disso, já verifiquei que dentre os compostos aprovados há uma série de produtos ativos para os quais já existe uma ampla literatura mostrando seus efeitos deletérios para a saúde humana e para o meio ambiente.

O que minhas primeiras avaliações dessa nova leva de agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro, sob a batura célere da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/ES), indicam é que todo o discurso em torno da substituição de produtos antiquados por outros mais modernos e menos tóxicos não passa mesmo de um discurso para inglês ver (ou para a União Europeia ver). Na prática, continuam a ser aprovados compostos químicos que já estão ou estão sendo banidos em outras partes do mundo, muitas vezes após pressões da sociedade civil organizada.

Diante dessas novas aprovações e da propensão do latifundio agro-exportador de utilizá-los em larga escala nos grandes monocultivos de exportação não seria nenhuma surpresa se os próximos estudos sobre impactos sobre seres humanos e o meio ambiente mostrarem resultados ainda mais críticos.

 

 

 

Incidência de “Vaca Louca” no Mato Grosso faz Brasil suspender exportações de carne bovina para a China

vaca loucaAnimais acometidos do “Mal da Vaca Louca” perdem a capacidade de manterem em pé, sendo um dos primeiros sinais da doença.

Se o funcionamento do agronegócio pudesse se apresentado como uma partida de futebol, creio que se poderia dizer que quando um time começa a dar errado, o que não falta é bola para fora do campo de jogo. 

É que depois da mídia corporativa notar que a participação das exportações de commodities agrícolas estava perdendo fôlego e afetando diretamente a balança comercial, hoje o Ministério da Agricultura anunciou a suspensão da exportação de carne bovina para a China em função da detecção de “um caso atípico” do “Mal da Vaca Louca” no estado do Mato Grosso.

vaca louca mt 1

Para quem não se lembra, o chamado “Mal da Vaca Louca,  uma doença neurológica que acomete bovinos e, tem sido relacionada com a doença de Creutzfeldt-Jacob (CJD) em humanos, é normalmente associado ao uso de farinha de carne e ossos na alimentação do gado. Essa farinha resulta da transformação industrial dos corpos de animais e é usada para constituir rações para alimentar animais da mesma espécie.

É importante notar que a variante típica difere da variedade clássica ligada à doença de Creutzfeldt-Jakob nas pessoas. Como a vaca infectada não entrou na cadeia de fornecimento de alimentos, o status de risco sanitário para contração do “Mal da Vaca Louca” típico seria “insignificante”,  segundo fontes do MAPA.

Um primeiro anúncio do anúncio do MAPA foi a ocorrência de uma queda acentuada no valor das ações dos principais frigoríficos brasileiros ao longo desta 2a. feira, a começar pelo Minerva, o primeiro a ser afetado pela proibição de exportação para a China, justamente o maior comprador atual de carnes brasileiras.

O problema é que essa notificação tem tudo a gerar uma espiral de retração em relação à compra de carne bovina produzida no Brasil nos principais mercados consumidores desse produto, a começar pela China, Rússia e os países árabes. É que dificilmente os governos dos países importadores ficarão inertes à informação dessa ocorrência no Mato Grosso, e vão querer ter certeza de que este não foi apenas um caso isolado.

O pior é que dada a atual dependência da balança comercial brasileira na exportação de carne animal, principalmente bovina, essa notícia deverá azedar ainda mais as já bastante ácidas previsões para o comportamento do PIB brasileiro em 2019.

 

Com a aprovação de mais 31 produtos, governo Bolsonaro chega a 197 agrotóxicos em 2019

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Com mais 31 produtos  autorizados para comercialização, governo Bolsonaro chega ao número recorde de 197 agrotóxicos liberados apenas cinco meses de 2019.

O Diário Oficial da União publicou na sua edição desta 3a. feira (21/05) o Ato No. 34 de 16 de Maio de 2019 que autoriza a comercialização de mais 31 agrotóxicos no mercado brasileiro, o que leva a uma aprovação recorde de 197 produtos antes que se complete o quinto mês do governo Bolsonaro. Com esta aprovação, o Brasil possui agora estratosféricos 2.262 liberados para comercialização em seu território, muitos deles proibidos em outras partes do mundo por serem potencialmente danosos à saúde humana e ao meio ambiente.

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Como construí uma base de dados para acompanhar e identificar as principais características dos agrotóxicos aprovados apenas no governo Bolsonaro, sob a batuta da “Musa do Veneno”, a ministra da Agricultura Tereza Cristina (DEM/ES), já acrescentei estes 31 “novos produtos”, e já posso compartilhar alguns dados que, digamos, saltam aos olhos, em uma primeira análise.

A supremacia chinesa no fornecimento de produtos técnicos

A China que vem paulatinamente assumindo o controle do fornecimento de produtos técnicos com os quais se fabricam as formulações que são utilizadas na agricultura brasileira é o país sede de 27 (87%) das empresas que constam como as primeiras, senão as únicas, fabricantes dos agrotóxicos que constam como aprovados no Ato No. 34.  Por sua vez, apenas um dos produtos técnicos aprovados é fabricado no Brasil.

Tal dependência da indústria de agrotóxicos da China tende a se aprofundar na medida em que muitos produtos que estão sendo banidos na União Europeia estão tendo sua produção transferida para lá.

Essa realidade objetiva explica o porquê do discurso anti-chinês que marcou as primeiras semanas do governo Bolsonaro ter basicamente sumido do noticiário. Isto sem falar na recente visita do vice-presidente Hamilton Mourão à China, certamente para tentar acalmar o humor dos dirigentes do governo chinês em relação aos discursos alinhados ao governo de Donald Trump que andaram sendo proferidos pelo presidente Jair Bolsonaro, e que foram claramente antagônicos à manutenção da China como principal parceiro comercial do Brasil.

Fripronil, o  assassino de abelhas, entra com mais 2 produtos no mercado brasileiro

Ao contrário de que alegou a ministra Tereza Cristina em relação ao que seria o uso ilegal do Fipronil por agricultores brasileiros, o Ato No. 34 traz a aprovação de mais agrotóxicos à base deste princípio ativo, totalizando 3 agrotóxicos aprovados desde que ela assumiu a pasta da Agricultura.

A ampliação da abundância de produtos que contém Fipronil deverá impactar ainda mais a população de abelhas. É que o Fipronil tem sido diretamente associado ao extermínio de centenas milhões de abelhas. Apenas no Rio Grande do Sul, o Fipronil foi responsabilizado por pelo menos 80% da mortandade de colmeias inteiras de abelhas.

Com a ampliação do uso e a falta de fiscalização, o mais provável é que haja um aumento ainda maior no extermínio de abelhas. É que além do Fipronil, houve ainda a aprovação de dois agrotóxicos à base do Imadacloprido, um agrotóxico Neonicotinóide, que também sido associado ao chamado “colapso” das abelhas. Outro neonicotinóide aprovado nessa leva foi o Tiametoxam que, ao contrário do Imadacloprido, é proibido na União Europeia.

Há ainda que se lembrar que o Fipronil é proibido para uso na União Europeia e só pode ser usado em condições altamente restritas nos EUA. Além disso, o Fipronil ficou conhecido, e posteriormente banido, por causa do escândalo envolvendo a contaminação de milhões de ovos de galinha que tiveram de ser recolhidos em países como Bélgica, Holanda, Alemanha, França, Suécia, Reino Unido, Áustria, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Polônia, Romênia, Eslováquia, Eslovênia e Dinamarca.

O discurso da segurança continua sendo negado na prática

Um dos discursos mais comuns para justificar a aprovação acelerada de agrotóxicos é de que os novos produtos seriam mais modernos e seguros. Este discurso não resiste ao exame prático por duas razões básicas. A primeira é que a imensa maioria dos produtos sendo aprovados já estão disponíveis no mercado brasileiro. A segunda é que dos 31 agrotóxicos aprovados no Ato No. 34, 45% deles estão localizados nas faixas de maior toxicidade (I e II) para a saúde humana.

Outro exemplo de que não há de novo nos agrotóxicos que estão sendo aprovados via “fast track” foi a aprovação de mais 3 agrotóxicos à base da Glicina Substituída, ou seja, o Glifosato. Acontece que neste momento há uma clara rejeição ao uso deste herbicida em função das crescentes evidências de que o mesmo seria indutor do Linfoma Non-Hodgkin. Apenas nos EUA, a Bayer/Monsanto foi condenada em 3 casos que foram julgados, e no caso mais recente a multinacional alemã foi condenada a pagar uma indenização de 2 bilhões de dólares americanos a um casal de agricultores que teria contraído o Linfoma de Non-Hodgkin a partir de um longo período de exposição ao produto.

Todas essas evidências estão sendo desprezadas pela Anvisa e pelo Ministério da Agricultura e aqui no Brasil estão sendo aprovados inúmeros produtos contendo a Glicina Modificada como seu princípio ativo.

Além disso, há que se notar que 29% dos produtos liberados no Ato de No. 34 estão proibidos na União Europeia.

O céu é o limite para saciar a fome de venenos por parte da agricultura brasileira?

Como estamos apenas no mês de Maio, é muito provável que outras centenas de agrotóxicos sejam aprovados pelo governo Bolsonaro até o final de 2019. Essa é uma situação que deverá ser acompanhada de perto por todos os que se preocupam com a saúde coletiva dos brasileiros, e com os nossos ecossistemas naturais.

É que a fome insaciável por venenos agrícolas está transformando o Brasil numa espécie de banheira de produtos químicos banidos em outras partes do mundo.  Como a maioria dos brasileiros está desinformada dos amplos impactos que esse processo de uso indiscriminado de agrotóxicos poderá trazer sobre a saúde de gerações inteiras, é importante que a comunidade científica e os movimentos sociais continuem acumulando informações que possam ser transmitidas de uma forma compreensível aos que estão hoje na linha de frente do uso desses produtos que são os trabalhadores rurais, e os que estão sendo expostos de forma indireta a partir do consumo de água e alimentos contaminados, que somos todos nós.

 

Robotox, o robô que tuíta cada vez que o governo Bolsonaro libera o registro de um agrotóxico

robotox

Por Mônica Nunes para a Conexão Planeta

A parceria entre a Agência Pública de Jornalismo Investigativo e a ONG Repórter Brasil (liderada pelo jornalista Leonardo Sakamoto) tem rendido bons frutos. Um deles é o especial Por Trás do Alimento, que criaram para dissecar tudo o que acontece no mundo do agronegócio e dos agrotóxicos, com o envolvimento do governo federal. Este é um projeto muito bacana, lançado em dezembro do ano passado, ainda sob os auspícios do governo Temer, mas já com a consciência de que o de Bolsonaro não daria trégua nesse quesito. A gente só tem que aplaudir!

E agora, os dois nos brindam com mais uma iniciativa interessante e importante: o Robotox. Um robô que avisa, pelo Twitter, toda vez que o governo Bolsonaro aprovar a liberação do registro de um agrotóxico ou de um ingrediente para novas composições no Brasil.

As atualizações serão feitas com base nas publicações do Diário Oficial da União. Assim, sempre que uma liberação for feita, o robô vai disparar tuítes com a ficha completa: marca do produto, classificação toxicológica e as culturas indicadas para uso, nome comercial da empresa que o produz ou comercializa e cidade sede dessa empresa.

Mas não pense que elevai trabalhar apenas quando houver novos registros. O perfil será atualizado diariamente e também informará o número de pesticidas liberados desde o início de 2019, além da quantidade de produtos comercializados, hoje, no Brasil.

“Criamos essa ferramenta para os cidadãos poderem acompanhar, de perto e com informações oficiais, todos os novos produtos agrotóxicos que forem liberados no mercado brasileiro. É preciso que essa política tenha mais transparênciae seja mais debatida com a população”, explica Natalia Viana, co-diretora da Pública.

Para acompanhar as atualizações, é só seguir a conta @orobotox e, quando compartilhar, usar a hashtag #Robotox.

De janeiro até agora (maio), foram liberados pelo Ministério da Agricultura, sob o comando de Tereza Crisitina, conhecida carinhosamente como a “musa do veneno”,  os registros de 166 venenos. Importante dizer que, desses, 48 são considerados extremamente tóxicos pela Anvisa e por órgãos internacionais.

farra dos agrotóxicos se iniciou com o governo Temer, que, só no ano passado liberou 450 registros. Um recorde! Com um detalhe: os ingredientes ativos já eram comercializados no país, então, os novos registros dizem respeito à autorização para uso em novas culturas, para a novas empresas poderem fabricar em nosso território ou para a produção de novas composições. Tudo novo!

Ferramentas pela transparência

Se você acompanha o Conexão Planeta, a Agência Pública e a Repórter Brasil, sabe que esta é a segunda ferramenta com dados sobre agrotóxicos lançadas por essa parceria.

A primeira foi no mês de março, com a reportagem sobre a contaminação da água por agrotóxicos: um mapa que revela o nível de toxicidade da água em cidades brasileiras, que publicamos, aqui, no site.

“Nos dois casos, trabalhamos para dar transparência a dados que são públicos”, afirma Ana Aranha, jornalista da Repórter Brasil.

Ilustração: Divulgação/Pública e Repórter Brasil

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Esta matéria foi originalmente publicada pela Conexão Planeta [Aqui!].