Apocalipse anunciado: Syngenta volta a vender o Tiametoxam, conhecido por exterminar abelhas

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Ibama havia proibido a pulverização do tiametoxam por considerá-lo uma ameaça potencial a abelhas e a outros insetos polinizadores — Foto: Divulgação

Graças a uma decisão obtida no dia 24 de abril na justiça do Rio Grande do Sul, a multinacional suiço/chinesa Syngenta voltou a comercializar o agrotóxico neonicotinóide Tiametoxam que é conhecido por exterminações massivas de polinizadores, incluindo as abelhas.

Lembremos que a Syngenta conseguiu reverter na justiça as restrições que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) impôs, em fevereiro, sobre a produção, a venda e a aplicação do Tiametoxam no Brasil. O IBAMA havia proibido a pulverização do insumo por considerá-lo uma ameaça potencial a abelhas e a outros insetos polinizadores. O processo de reavaliação do defensivo no Ibama estendeu-se por quase dez anos quando, finalmente, houve a proibição para o uso de Tiametoxam.

O caso do Tiametoxam é apenas o primeiro exemplo dos efeitos danosos da aprovação do Pacote do Veneno que foi sancionado pelo presidente Lula no dia 28 de dezembro. Com isso, a Syngenta poderá continuar vendendo esse assassino de abelhas.

Lobby do agro consegue liberar agrotóxico letal a abelhas e enfraquece Ibama

Decisão da 9ª Vara Federal de Porto Alegre afirma que Ibama não tem competência para restringir sozinho uso do tiametoxam; Medida deve ser usada por ruralistas no Congresso para retomar “PL do Veneno” e derrubar vetos de Lula, dizem fontes ouvidas pela Repórter Brasil

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Por Hélen Freitas, edição de Carlos Juliano Barros para a Repórter Brasil 

Atendendo a um dos principais pleitos do lobby do agronegócio, uma decisão liminar da Justiça Federal de Porto Alegre derrubou, no final de abril, uma medida do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) que restringia o uso do tiametoxam, agrotóxico tido como letal para abelhas e banido na Europa desde 2018.

A Repórter Brasil identificou ao menos quatro ações judiciais de conteúdo similar em todo o país. Com textos parecidos e datas próximas, elas solicitam que a palavra final sobre o registro do inseticida fique a cargo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

A batalha na Justiça é o mais recente capítulo de uma longa disputa entre setores do agro e o Ibama. Em fevereiro, o órgão ambiental federal impôs restrições ao uso do tiametoxam, por causa de evidências científicas sobre o risco de morte para abelhas, essenciais à polinização e à reprodução de diversas espécies de plantas.

Dentre outras limitações, o Ibama vetou a chamada “pulverização aérea” — a aplicação por meio de aeronaves que, com o impulso do vento, pode ampliar o alcance do produto e contaminar abelhas. Na consulta pública aberta pelo Ibama para a reavaliação do tiametoxam, que culminou com as restrições, o Ministério da Agricultura chegou a se manifestar, mas proibiu a divulgação do seu parecer.

Repórter Brasil tentou obter o documento por meio da Lei de Acesso à Informação, mas teve o pedido negado. Procurada mais de uma vez, a pasta não respondeu se tornará público o posicionamento sobre a restrição ao inseticida. O espaço segue aberto para a manifestação do Mapa.

Ruralistas querem concentrar poder no Ministério da Agricultura

A autora da ação na 9ª Vara Federal de Porto Alegre é a Associação Brasileira de Direito e Administração. A juíza Maria Isabel Pezzi Klein acatou o pedido da entidade e afirmou que os resultados da análise científica realizada pelo Ibama deveriam ter sido encaminhados à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e ao Ministério da Agricultura, para que a pasta bata o martelo sobre eventuais restrições e faça um plano de transição, indicando um substituto para o tiametoxam.

O efeito da decisão é imediato — órgãos estaduais de agropecuária já publicaram nota técnica informando sobre a queda das restrições ao inseticida.

Essa não é a primeira vez que a Associação Brasileira de Direito e Administração fica ao lado do agronegócio, em um processo judicial envolvendo agrotóxicos. Em 2023, a entidade entrou como parte em uma ação do Ministério Público do Trabalho que pedia o banimento de outra substância, a atrazina, devido a riscos à saúde de trabalhadores rurais. Procurada pela reportagem, a associação não respondeu às perguntas enviadas. O texto será atualizado, caso um posicionamento seja enviado.

Decisão da 9ª Vara Federal de Porto Alegre permite volta da pulverização aérea de tiametoxam, em decisão que pode afetar a regulação nacional de agrotóxicos (Foto: Jan Amiss/Pixabay)

Na avaliação de especialistas ouvidos pela Repórter Brasil, a decisão judicial da 9ª Vara Federal de Porto Alegre atende ao principal pleito de setores do agronegócio sobre a Lei de Agrotóxicos, aprovado pelo Congresso Nacional em novembro do ano passado, mas vetado por Lula no mês seguinte: a garantia de palavra final ao Ministério da Agricultura sobre a autorização de pesticidas. O parlamento ainda pode derrubar o veto do presidente e retomar esse dispositivo.

Originalmente, o Projeto de Lei 1.459/22, apelidado de “Pacote do Veneno”, conferia ao Mapa o poder de aprovação de novos produtos e de reanálises de agrotóxicos, caso do tiametoxam. Em dezembro, Lula vetou esse e mais 16 artigos da nova lei.

Na justificativa, o Planalto argumentou que o veto “evita a transferência da reanálise toxicológica (por riscos à saúde) e ecotoxicológica (por riscos ambientais) para um único órgão, garantindo a manutenção do modelo tripartite”. De acordo com esse sistema, atualmente em vigor,  as decisões devem ser tomadas em conjunto por Ibama, Mapa e Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Logo no início do ano, porém, a bancada ruralista anunciou que derrubaria os vetos e a questão entrou no pacote de negociações que tem marcado a disputa de forças entre Legislativo e Executivo.

A decisão da Justiça Federal de Porto Alegre dá munição aos ruralistas que defendem a concentração de poder nas mãos do Ministério da Agricultura, afirmam fontes ouvidas pela Repórter Brasil.

“Essas liminares judiciais serão utilizadas junto aos gabinetes parlamentares e publicamente para mostrar que os vetos precisam ser derrubados”, afirma Leonardo Pillon, advogado do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Em sua avaliação, as ações movidas por representantes do agronegócio fazem uma interpretação “extremamente elástica” da lei para “manter trechos que foram vetados pelo presidente e atropelar o processo legislativo”.

Como Lula não tinha poder de alterar a redação da lei aprovada pelo Congresso, mas apenas de vetar o projeto por completo ou trechos, alguns artigos que restaram após a sua sanção têm sido evocados nos processos de autoria dos ruralistas para recuperar a interpretação que concentra poderes no Ministério da Agricultura, analisa o advogado Emiliano Maldonado, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos.

Um exemplo é o artigo 31. O texto afirma que, ao final do processo de reanálise, “o órgão federal registrante” poderá proibir, suspender ou restringir o uso de agrotóxicos. Na decisão, a juíza cita justamente esse trecho para argumentar que essas medidas só poderiam ser tomadas pelo “órgão federal registrante” — em sua avaliação, o Ministério da Agricultura.

Porém, segundo Maldonado e o próprio Ibama, ao fazer essa interpretação, a juíza ignora o fato de que o artigo 28, que aponta o Mapa como responsável final pelas reavaliações, acabou vetado por Lula.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o Ibama informou que ainda não foi notificado sobre a decisão judicial. Em manifestação anexada ao processo da Vara Federal de Porto Alegre, o órgão argumentou que “uma eventual decisão do Mapa sobre os riscos de natureza ambiental, desconsiderando – ainda que parcialmente – os resultados e conclusões emanados por este Instituto, resultaria em uma clara invasão de mérito técnico, privativo da autarquia ambiental”.

“Se há indícios de que substâncias possam provocar graves riscos ao meio ambiente, causando inclusive danos ecológicos significativos, com a dizimação de polinizadores, é dever do órgão ambiental lançar esse comunicado e estabelecer restrições para a aplicação. E é isso o que o Ibama fez”, afirma Maldonado.

Em pesquisas realizadas na Europa e também no Brasil, o uso da substância foi relacionado à mortandade em massa de abelhas. Durante o processo de reanálise da substância no país, documentos do Ibama sustentaram que o tiametoxam é “400 vezes mais tóxico do que o limite necessário para enquadrar esse agente como altamente tóxico às abelhas”.

Pesquisas brasileiras e internacionais mostram que tiametoxam afeta sistema nervoso central das abelhas, em muitos casos, provocando a morte (Foto:Ted Erski/Pixabay)

Fabricante contratou ex-funcionário do Mapa para atuar em lobby

A revisão do tiametoxam no Brasil se arrasta há mais de uma década. Em 2012, o Ibama chegou a proibir a aplicação deste químico por avião. Mas, à época, as empresas reverteram a decisão rapidamente.

O órgão abriu, então, uma consulta pública, que reuniu mais de 1500  manifestações. De um lado, cientistas, técnicos e ambientalistas apresentaram pesquisas sobre os efeitos da substância no sistema nervoso central das abelhas e o alto potencial de morte. De outro, as fabricantes Syngenta e Ourofino, junto a associações do agronegócio, basearam grande parte de seus argumentos nos virtuais impactos econômicos de uma eventual proibição.

Como revelado com exclusividade pela Repórter Brasil, a Ourofino chegou a contratar um ex-funcionário do Mapa, no início do governo Lula, para representar a empresa em reuniões com órgãos públicos durante o processo de reavaliação do tiametoxam, conduzido por Ibama, Anvisa e Ministério da Agricultura.

Hoje, a batalha está no campo judicial. A brasileira Ourofino e a multinacional Syngenta também entraram com ações pedindo a suspensão das restrições ao tiametoxam na 9ª Vara Federal Cível do Distrito Federal, mas tiveram o pedido negado.

A Syngenta recorreu e obteve decisão favorável no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). A Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) também entrou com pedido de suspensão, negado pela 2º Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Mato Grosso.

Para o advogado do Idec, Leonardo Pillon,  as ações judiciais movidas para derrubar as restrições ao uso do tiametoxam servem de alerta para os grupos que defendem o controle de pesticidas. “Todas as discussões de reavaliações de agrotóxicos em curso vão ser afetadas por esse mesmo mecanismo”, avalia.

Nota da redação: o texto foi alterado às 12h50 para incluir informações sobre os poderes de Lula ao sancionar a Lei de Agrotóxicos em dezembro de 2023.


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Fonte: Repórter Brasil

Apocalipse dos polinizadores: Tiametoxam matou 15 milhões de abelhas em um só apiário em Minas Gerais

Laudo aponta presença de agrotóxico em 15 milhões de abelhas mortas em apiário de Uberlândia. Situação gerou prejuízo de R$ 420 mil para o apicultor responsável pelo apiário no Distrito de Miraporanga

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Por Julia Barduco, Isabela Lamark, Kleyton Guilherme, g1 Triângulo e TV Integração 

Investigação do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) apontou que o agrotóxico Tiametoxam pode ter sido a causa da morte de 15 milhões de abelhas-africanas em um apiário no Distrito de Miraporanga, em Uberlândia, em dezembro de 2023.

Segundo o IMA, o laudo emitido no dia 6 de fevereiro pelo Laboratório de Análise de Resíduos de Agrotóxico (Lara) constatou a presença de Tiametoxam nos animais mortos.

Com isso, o IMA agora apura se houve uso indevido da substância por alguma propriedade próxima. O IMA ressaltou que um laudo, por si só, não afirma que o uso de determinada substância está correto ou não. Na época da análise, esse agrotóxico era permitido para uso no Brasil.

Segundo apurado pela TV Integraçãoa morte das 15 milhões de abelhas-africanas acarretou um prejuízo de R$ 420 mil para o apiário de Miraporanga.

Colmeias em propriedade rural de Miraporanga — Foto: Reprodução/TV IntegraçãoColmeias em propriedade rural de Miraporanga — Foto: Reprodução/TV Integração

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Portal G1 [Aqui!].

Ibama restringe uso do tiametoxam, agrotóxico letal a abelhas e outros polinizadores

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Hélen Freitas para a Repórter Brasil

Após dez anos em reavaliação, o Ibama decidiu restringir o uso do tiametoxam, um dos agrotóxicos mais letais às abelhas. Em comunicado publicado nesta quinta-feira (22), o órgão ambiental proibiu o uso de aviões agrícolas e tratores para a aplicação do produto.

O processo de revisão da substância foi alvo de lobby da fabricante brasileira Ourofino e da multinacional de origem suíça Syngenta, conforme mostrou a Repórter BrasilO principal argumento utilizado pelas empresas em prol do agrotóxico era o risco de perda econômica dos produtores rurais. 

A pressão do agro incluiu também a contratação de um ex-servidor do Ministério da Agricultura (Mapa) para ajudar nas negociações com órgãos públicos, além de uma campanha online que se baseou em um estudo limitado para defender a substância.

Apesar do lobby, o Ibama manteve a posição de restringir a substância. Diversas pesquisas científicas relacionam o uso do tiametoxam com a mortandade em massa de abelhas. Em 2018, a União Europeia proibiu o seu uso com o objetivo de proteger os insetos polinizadores, que são essenciais à reprodução de diversas espécies de plantas.

Os neonicotinóides, agrotóxicos feitos à base de nicotina, como o tiametoxam, atingem o sistema nervoso central das abelhas, fazendo com que fiquem desorientadas. Trazem ainda sequelas ao seu sistema de aprendizagem, digestão e imunológico, em muitos casos levando à morte.

A restrição da pulverização aérea e tratorizada é uma tendência mundial, afirma Rosangela Muniz, diretora substituta de Qualidade Ambiental do Ibama. “A aplicação foliar na área total está sendo muito restringida por conta do fenômeno da deriva”, diz ela, citando o fenômeno que dispersa resíduos do agrotóxico pelo ar.

“Esse trabalho envolveu uma análise técnico-científica rigorosa de uma grande quantidade de estudos produzidos nas condições da agricultura brasileira. É um estudo pioneiro”, afirma Alan Ferro, coordenador-geral de avaliação e controle de substâncias químicas do Ibama.

Abelhas são insetos polinizadores essenciais ao ecossistema, mas suas populações estão em queda no mundo (Foto: Pixabay)

Como fica agora?

A partir de agora, produtos contendo tiametoxam só podem ser usados em 25 cultivos diferentes, como café, soja e cana-de-açúcar, mas somente para aplicação direta no solo ou no tratamento de sementes. 

Segundo o Ibama, os agricultores e lojas agropecuárias poderão utilizar os produtos até o fim do estoque ou da validade. Já as empresas fabricantes deverão comunicar seus clientes sobre as mudanças e alterar as bulas até 20 de agosto.

A decisão impacta uma indústria bilionária. A comercialização de produtos com tiametoxam no Brasil atingiu a marca de 4.800 toneladas em 2022, segundo dados do Ibama obtidos pela Repórter Brasil

Por isso, o defensor público do Estado de São Paulo, Marcelo Novaes, prevê uma intensa batalha judicial agora com a indústria na tentativa de reverter a decisão. “O tiametoxam era a galinha dos ovos de ouro da Syngenta, ela não vai querer perder esse mercado”, afirma.

Ferro, coordenador-geral de avaliação do Ibama, afirma que o órgão continuará recebendo novas pesquisas sobre a substância, o que pode alterar a decisão. “A gente tomou como dado o conhecimento técnico disponível no momento, então a gente também já deixa claro que é possível o aposto [apresentação] de novas informações”.

Por meio de nota, a Syngenta afirmou que discorda da decisão do Ibama. “Estamos analisando a publicação no Diário Oficial e compreendendo as medidas cabíveis para minimizar o impacto para os agricultores brasileiros.”. A empresa disse ainda que garante a segurança de seus produtos e que “o posicionamento da companhia é alicerçado em fundamentos científicos sólidos que foram apresentados ao Ibama ao longo do processo de reavaliação”.

A Ourofino não se posicionou até o momento.

Alguns pesquisadores ouvidos pela Repórter Brasil consideraram que a decisão foi muito branda, e que o produto deveria ter sido totalmente banido do país. Esse resultado é insuficiente para a proteção dos polinizadores e do meio ambiente”, diz Leonardo Melgarejo, membro do grupo de trabalho agrotóxicos e transgênicos da Associação Brasileira de Agroecologia.

O agrônomo Gabriel Fernandes, pesquisador do Centro de Tecnologias Alternativas (CTA), critica também o longo período até o governo decidir pela restrição. “Foram necessários 10 anos para o Ibama chegar a essa decisão, e não por problema do órgão, mas pela judicialização feita pelas empresas interessadas em continuar vendendo esses produtos que sabidamente causam problemas ambientais”.

Lobby

Uma das estratégias das empresas para impedir as restrições foi realizar encontros de forma constante com o governo federal na reta final do processo de reavaliação. Levantamento exclusivo da Repórter Brasil, em parceria com a agência de jornalismo de dados Fiquem Sabendo, mostrou que as fabricantes estiveram em 16 compromissos com autoridades em datas que coincidem com decisões importantes do Ibama sobre o inseticida. 

A Ourofino chegou a contratar um ex-servidor do Ministério da Agricultura (Mapa) para representar a companhia em parte dessas reuniões. Fabiano Maluf Amui abriu uma empresa de consultoria quando ainda ocupava o cargo de assessor especial do ministério, em dezembro de 2022, e foi contratado pela companhia poucas semanas depois, após deixar o cargo público.

Antes de ocupar o cargo no órgão federal, Maluf já tinha sido assessor do presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, a bancada ruralista.

lei sobre conflito de interesses define um período de seis meses em que um ex-servidor público não pode trabalhar em empresas privadas, para impedir que elas sejam favorecidas com informações sensíveis.

Segundo Bruno Morassutti, advogado da Fiquem Sabendo, há a possibilidade de não realizar o período de afastamento, desde que a Comissão de Ética Pública da Presidência seja consultada. Procurada pela reportagem, o órgão não respondeu se o ex-servidor entrou com pedido de dispensa.

Pulverização aérea de tiametoxam com uso de aviões agrícolas passa a ser proibido no Brasil com a decisão do Ibama (Foto: Fernando Martinho)

Pesquisa encomendada

Em 2021, mais de 6.000 toneladas de tiametoxam foram exportadas pela Syngenta ao Brasil, segundo dados da organização suíça Public Eye e da agência de jornalismo Unearthed, e revelados pela Repórter Brasil.

Durante três anos, a Syngenta financiou um estudo da Embrapa que concluiu que as abelhas não morriam com o uso do produto, desde que aplicado conforme a bula.

A multinacional aproveitou a conclusão para iniciar uma campanha online em prol do tiametoxam, porém, a companhia ignorou o fato de que os resultados se restringiam apenas ao cultivo de café. Além disso, não informa que a pesquisa foi realizada em fazendas certificadas pela Syngenta, o que na avaliação de especialistas deixa o estudo limitado.

“Você desenha o estudo, escolhe uma metodologia que nem sempre é a mais correta a ser utilizada e o seu resultado vai dar do jeito que você quer. Você está criando um ambiente perfeito para o seu estudo chegar nos seus interesses”, afirma a nutricionista e pesquisadora Vitória Moraes, analista técnica da organização ACT Promoção da Saúde. 

O pesquisador da Embrapa Cristiano Menezes, coordenador do estudo, admite que a realidade do campo é diferente da testada, já que na vida real, segundo ele, os agrotóxicos são aplicados além do permitido, em áreas proibidas e utilizando métodos danosos aos insetos polinizadores. “Nós trabalhamos especificamente com essas fazendas certificadas, que têm todo esse processo muito profissional, mas a gente sabe que a realidade da agricultura é diferente

Em conversa com a Repórter Brasil, o pesquisador afirmou que a escolha do café favorece as conclusões obtidas, e que os resultados não serão os mesmos caso sejam avaliadas outras plantações. “O café tem uma situação muito favorável para esse resultado. É uma floração muito concentrada num período específico do ano, por poucos dias, então a exposição [das abelhas] ao produto é curta”, diz ele.

Card de campanha da Syngenta adota estudo restrito ao café para defender que tiametoxam é seguro para todas as lavouras (Foto: Reprodução)

Nova Lei dos Agrotóxicos

A reavaliação do tiametoxam pode ser uma das últimas seguindo as regras atuais. O Congresso aprovou em dezembro a nova lei dos agrotóxicos, que concede ao Ministério da Agricultura a palavra final no que se refere à aprovação de pesticidas.

Historicamente liderada por empresários do agronegócio, a pasta tende a se manifestar favoravelmente aos pleitos do setor.

Ao sancionar a nova lei, o presidente Lula vetou o trecho que concede ao Mapa a palavra final, restituindo o poder do Ibama e da Anvisa.

“O presidente Lula acatou a maior parte dos vetos que a gente como Ministério do Meio Ambiente propôs, e agora nós estamos trabalhando na regulamentação da lei”, diz Rosangela Muniz, diretora do Ibama.

Contudo, a bancada ruralista já afirmou ter os votos necessários para reverter a decisão presidencial. Caso isso aconteça, o Ibama e a Anvisa, que fazem análises técnicas do ponto de vista ambiental e de saúde, perderiam poder de influência nas decisões envolvendo agrotóxicos.


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Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Fabricantes de venenos agrícolas fazem lobby para impedir banimento de agrotóxico letal às abelhas

Syngenta e Ourofino colocam evidências de lado para garantir vendas do tiametoxam, agrotóxico fatal para abelhas

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Por Helen Freitas para a Repórter Brasil

O governo está prestes a decidir se restringe ou não o uso de um dos piores inimigos das abelhas no Brasil, o tiametoxam. Esse agrotóxico é considerado por ambientalistas e cientistas uma ameaça à biodiversidade, razão pela qual foi proibido na Europa e restringido no Canadá.

As fabricantes, porém, deixam de lado pesquisas científicas sobre o impacto às abelhas e pressionam órgãos reguladores para manter o uso no Brasil, alegando riscos econômicos ao agronegócio.

Aplicado para o controle de pragas em diversas lavouras, o tiametoxam está em reavaliação no país há dez anos. Esse período ficou marcado pelo lobby das fabricantes em várias frentes em Brasília, e também pelas discussões sobre a nova lei dos agrotóxicos, que pode mudar as regras do jogo e reduzir o peso do Ibama nas decisões sobre agrotóxicos.

A pressão é liderada pelas duas fabricantes no país, a multinacional de origem suíça Syngenta e a brasileira Ourofino, com apoio de associações do agronegócio e da Frente Parlamentar da Agropecuária, a chamada “bancada ruralista” do Congresso.

Só a Syngenta anexou mais de 30 estudos ao processo de reavaliação, na tentativa de comprovar a segurança do produto aos insetos. A empresa argumenta que o tiametoxam não representa risco se aplicado conforme a bula, e diz que as fabricantes têm se empenhado na capacitação de aplicadores.

Mas o Ibama diz que esses estudos não afastaram todas as suspeitas envolvendo o tiametoxam. Para o órgão ambiental, os treinamentos e as orientações contidas em bula são insuficientes para proteger as abelhas

Em dezembro passado, o Ibama manifestou-se a favor de restringir o tiametoxam em 25 cultivos diferentes, como cana-de-açúcar, soja e milho. Na decisão, o Ibama diz que a substância “representa um alto nível de preocupação aos polinizadores”, sendo “400 vezes mais tóxico do que o limite necessário para enquadrar esse agente como altamente tóxico às abelhas”.

A decisão final fica a cargo de uma comissão formada por Ibama, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e Anvisa. Os três órgãos têm até 22 de fevereiro para bater o martelo.

Abelhas desorientadas

A pressão da indústria vai na contramão do que vem sendo decidido em outros países. Em 2018, o tiametoxam foi proibido na União Europeia, após pesquisas comprovarem sua letalidade para as abelhas. Esses insetos atuam como agentes polinizadores e são essenciais à reprodução de diversas espécies de plantas.

Após a proibição na Europa, o Brasil virou um dos principais mercados para a Syngenta, a maior fabricante mundial. Só em 2021, mais de 6 mil toneladas foram exportadas ao país, segundo dados da organização suíça Public Eye e da agência de jornalismo Unearthed.

Mas no Brasil, os efeitos dos pesticidas seriam ainda piores. De acordo com um estudo feito por três universidades brasileiras – Ufscar, Unicamp e Unesp –, as abelhas nativas brasileiras são mais sensíveis ao tiametoxam do que as espécies adotadas nas pesquisas encomendadas pela indústria.

“A agricultura é uma riqueza brasileira, mas a biodiversidade também. É preciso harmonizar isso”, defende a bióloga Roberta Nocelli, pesquisadora da Ufscar e uma das responsáveis pelo estudo. “As restrições [ao tiametoxam] são adequadas, porque esse é um produto tóxico”, afirma.

O tiametoxam faz parte de um grupo de inseticidas à base de nicotina, conhecidos como neonicotinóides. Segundo Nocelli, a substância atinge o sistema nervoso central das abelhas, fazendo com que elas fiquem desorientadas. Causa também sequelas ao sistema imunológico, digestivo e de aprendizagem das abelhas, em muitos casos levando à morte.

A substância é suspeita ainda de causar problemas no sistema reprodutivo humano e no desenvolvimento de fetos, segundo a Agência Europeia dos Produtos Químicos.

Bula e treinamentos

Não é a primeira vez que o Ibama tenta restringir o uso do tiametoxam. Em 2012, o órgão ambiental proibiu a aplicação do pesticida por meio de aviões agrícolas. Chamada de pulverização aérea, essa técnica é a mais danosa às abelhas, já que dispersa resíduos do agrotóxico pelo ar, a longas distâncias.

Na época, as empresas conseguiram reverter a decisão do órgão ambiental. Mas a aplicação aérea voltou a ser permitida apenas para algumas plantações.

A indústria defende como solução o treinamento para quem aplica agrotóxicos, além da criação de zonas de segurança onde o produto não poderia ser aplicado.

“Acreditamos que, por meio de treinamentos realizados no campo e de cursos online gratuitos, é possível disseminar boas práticas e orientar sobre a adequada utilização dos produtos”, diz a Syngenta, em nota enviada à Repórter Brasil.

A empresa declara que “gerou e aportou no processo de reavaliação do tiametoxam resultados de anos de estudos, que tiveram a participação de diversos pesquisadores que trouxeram bases científicas sólidas para demonstrar a segurança do produto”. Leia a resposta completa.

Já a Ourofino não atendeu a reportagem. Em seu site, a empresa argumenta que o tiametoxam pode ser considerado seguro para os insetos polinizadores com a implementação de medidas de mitigação de risco, mas isso “depende também da cooperação ativa dos agricultores”.

Para o Ibama, as bulas e os treinamentos são importantes, mas não afastam o risco às abelhas. “As informações em bula podem não ser suficientes para o uso seguro dos produtos, tanto pela ausência de especificações detalhadas, como por possível dificuldade dos aplicadores em compreender seu conteúdo”, diz o órgão no parecer em que recomenda a restrição ao tiametoxam.

Culpar os agricultores pelos efeitos dos agrotóxicos é uma estratégia da indústria de minimizar sua responsabilidade, avalia a nutricionista e pesquisadora Vitoria Moraes, analista técnica da organização ACT Promoção da Saúde. “O que elas mais fazem é tentar colocar a culpa no indivíduo, usando estudos com metodologias questionáveis e que não representam a vida real”, diz ela, a respeito das condições de aplicação de agrotóxicos no dia-a-dia dos agricultores.

“Mesmo utilizando adequadamente o tiametoxam, com todas as regras, você não pode afirmar que não vai haver mortalidade de abelhas”, afirma Nocelli, da Ufscar.

Impactos ao agro

Após ser publicado em setembro, o parecer do Ibama foi submetido a consulta pública, o que movimentou o lobby do agro em Brasília. As duas fabricantes criaram páginas específicas sobre o agrotóxico, incluindo orientações para pessoas físicas se manifestarem no processo.

Havia até a sugestão de uma frase comum para ser incluída nas manifestações: “Em atenção às conclusões da ARA [Avaliação de Risco Ambiental] contidas na Tabela 1 para a cultura xxx”. A Repórter Brasil identificou 633 respostas (40% do total) contendo exatamente as palavras propostas pelas empresas.

Embora a análise do Ibama se concentre nas abelhas, o principal argumento das empresas é o impacto econômico de uma eventual proibição. Elas dizem que o agronegócio brasileiro poderá sofrer uma queda de até 30% na produtividade.

A restrição também acarretaria, segundo as companhias, em aumento de custos para agricultores, perda de empregos no campo e queda na arrecadação de impostos da ordem de R$ 44 bilhões por ano.

O roteiro foi o mesmo utilizado nos debates envolvendo o paraquate — agrotóxico proibido pela Anvisa em 2020 pelo risco de causar mutações genéticas e doença de Parkinson.

Na época, a indústria também apresentou estimativas de queda na produção de soja. Mas a realidade foi outra, com a safra batendo recorde no ano passado.

Para Nocelli, os números do setor estão superestimados. “As empresas estão puxando a sardinha, porque têm uma postura comercial sobre o assunto”.

Moraes, da ACT, lembra ainda que os dados não consideram os impactos econômicos ao Sistema Único de Saúde e previdenciário, em razão do uso de agrotóxicos. “A longo prazo, essa cadeia produtiva pode sobrecarregar o sistema de saúde e gerar o afastamento do agricultor, aumentando o orçamento público para cobrir custos de doenças que poderiam ser evitadas”.

Nova Lei dos Agrotóxicos

A reavaliação do tiametoxam pode ser uma das últimas seguindo as regras atuais. O Congresso aprovou em dezembro a nova lei dos agrotóxicos, que concede ao Ministério da Agricultura a palavra final no que se refere à aprovação de pesticidas.

Historicamente liderada por empresários do agronegócio, seja em governos considerados de direita ou de esquerda, a pasta é vista como complacente aos argumentos da indústria e, por isso, tende a se manifestar favoravelmente aos pleitos do setor.

Ao sancionar a nova lei, o presidente Lula vetou o trecho que concede ao Mapa a palavra final, restituindo o poder do Ibama e da Anvisa. Mas a bancada ruralista já afirmou ter os votos necessários para reverter a decisão presidencial.

Caso isso aconteça, o Ibama e a Anvisa, que fazem análises técnicas do ponto de vista ambiental e de saúde, perderiam poder de influência nas decisões envolvendo agrotóxicos. E as abelhas ficariam sem aliados importantes para sua proteção.


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Este texto foi publicado pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!].

Pseudo ciência é usada para favorecer fabricantes de agrotóxicos: o caso e ocaso das abelhas nativas

Abelhas nativas são mais sensíveis a agrotóxico que espécie usada em testes para aprovação de produtos

abelhas nativasEstudo analisou o impacto do inseticida tiametoxam em três espécies sem ferrão abundantes nas lavouras brasileiras – uruçu nordestina, jataí e mandaguari – e todas se mostraram mais sensíveis ao composto do que a Apis mellifera. Grupo elabora novo protocolo para avaliação de risco ambiental (foto: Léo Ramos Chaves/Pesquisa FAPESP)

Por Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

As abelhas nativas uruçu nordestina (Melipona scutellaris), jataí (Tetragonisca angustula) e mandaguari (Scaptotrigona postica) são mais sensíveis ao agrotóxico tiametoxam (TMX) do que a Apis mellifera – espécie com ferrão introduzida no país e adotada como modelo para testes toxicológicos para aprovação de defensivos agrícolas.

Foi o que mostrou um estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ao avaliar, pela primeira vez, o impacto do TMX nas três espécies nativas e sem ferrão, o estudo oferece subsídios para a elaboração de políticas públicas voltadas à proteção de insetos polinizadores no Brasil. A redução das populações de abelhas, além de ser um problema ambiental grave, tem repercussões negativas na produtividade agrícola.

“O Brasil possui mais de 2 mil espécies de abelhas. Entre as sem ferrão são quase 500 espécies. É uma diversidade enorme. É claro que não dá para fazer teste toxicológico em todas elas e com todos os agrotóxicos, mas é preciso selecionar algumas espécies, além da Apis mellifera, para entender como é possível criar uma configuração melhor para a proteção desses insetos no país”, afirma Osmar Malaspina, professor do Instituto de Biociências da Unesp em Rio Claro e coordenador do Grupo de Pesquisa em Ecotoxicologia e Conservação de Abelhas (Leca) e do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento de Métodos para Testes de Toxicidade em Abelhas Nativas Brasileiras junto à Comissão Internacional para as Relações Planta-Polinizador (ICPPR, na sigla em inglês).

O estudo, apoiado pela FAPESP e divulgado na revista Environmental Pollution, integra um projeto maior, cujo objetivo é ampliar o entendimento sobre o impacto do uso de agrotóxicos na população de abelhas nativas sem ferrão (também chamadas de abelhas indígenas) e embasar a criação de novos protocolos e leis relacionados ao uso de defensivos agrícolas no país.

Isso porque, atualmente, os ensaios toxicológicos que integram a avaliação de risco de agrotóxicos seguem as diretrizes estabelecidas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e praticamente se restringem à espécie A. mellifera como modelo biológico. No entanto, o debate sobre a necessidade de reavaliação do risco ambiental de agrotóxicos tem crescido nas últimas décadas, sobretudo em regiões tropicais e subtropicais, onde há maior diversidade de espécies de abelhas.

“As abelhas sem ferrão são altamente afetadas por agrotóxicos, mas os testes costumam ser feitos apenas com a A. mellifera, que é uma espécie com ferrão que foi introduzida no Brasil. É uma espécie de origem europeia”, explica Roberta Cornélio Ferreira Nocelli, professora do Centro de Ciências Agrárias da UFSCar em Araras, coordenadora do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento de Métodos para Testes de Toxicidade em Abelhas Nativas Brasileiras junto à ICPPR.

No estudo recentemente publicado, os pesquisadores realizaram uma curva de sensibilidade para comparar o impacto do agrotóxico em diferentes cenários, além de avaliar a sensibilidade ao TMX por grama de abelha, já que o tamanho varia entre as espécies.

“Os resultados mostraram que a A. mellifera é mais tolerante ao TMX que as três espécies de abelhas sem ferrão em todos os cenários que avaliamos. Como criamos uma curva de sensibilidade é possível analisar diferentes cenários também, pois levamos em consideração o peso da abelha e outros parâmetros relacionados ao consumo do agrotóxico. Isso porque existem algumas diferenças na toxicidade quando se leva em consideração só o consumo ou o consumo e o peso”, explica Ana Paula Salomé Lourencetti, primeira autora do artigo.

Dessa forma, em relação à concentração letal média determinada para as três espécies de abelhas sem ferrão, o TMX se mostrou mais nocivo para a uruçu, seguida por jataí, mandaguari e por último a A. mellifera. Já a análise da dose letal média e levando em consideração o peso das abelhas (dose por micrograma), M. scutellaris foi a mais sensível, seguida da S. posticaT. angustula e A. mellifera. Nas análises de dose letal média sem levar em consideração o peso das abelhas, a T. angustula foi a mais sensível, seguida da M. scutellarisS. postica e A. mellifera.

“Os resultados do trabalho mostram que, para algumas espécies, a A. mellifera pode ser considerada um bom parâmetro, mas para outras, não. Portanto, é um indicativo de que precisamos avaliar com mais cuidado os testes de toxicidade que visam a liberação de agrotóxicos, pois eles não estão sendo 100% eficientes para proteger as abelhas nativas brasileiras”, afirma Nocelli.

Políticas públicas

Estudos anteriores já haviam demonstrado que a sensibilidade das abelhas aos agrotóxicos varia de acordo com tamanho, ciclos de vida, metabolismo, comportamentos, biologia e rotas de exposição. Por isso, ressaltam os pesquisadores, a extrapolação de dados de toxicidade referentes à A. mellifera para outras espécies de abelhas de comportamento social e solitário tem sido questionada há anos.

Já em relação às abelhas sem ferrão, além dessas questões que conferem maior sensibilidade, o risco se dá por serem espécies abundantes em lavouras e extremamente expostas a pesticidas.

Por esses motivos, o grupo de pesquisadores está desenvolvendo um novo protocolo (em processo de padronização) para abelhas sem ferrão, em que constam possíveis modelos biológicos para o processo de avaliação de risco ambiental. O trabalho, coordenado pelos pesquisadores e financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), tem o intuito de ampliar os testes toxicológicos em um maior número de espécies de abelhas para subsidiar a aprovação e a renovação de registro de defensivos agrícolas.

“O Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] tem um sistema de avaliação de risco que é único para abelhas na América Latina. Porém, ele é muito similar ao adotado na Europa e nos Estados Unidos para registro de agrotóxicos. Por isso, estamos fazendo um trabalho conjunto com órgãos ambientais para a criação de um protocolo que abranja testes de toxicidade em abelhas nativas sem ferrão. A política pública tem de estar baseada em um protocolo padronizado e isso nós não tínhamos ainda para as espécies nativas”, afirma Nocelli.

A pesquisadora explica que, atualmente, além da A. mellifera, existe um protocolo para outras três espécies (Bombus terrestresOsmia cornuta e Osmia lignaria). “Porém, essas também são do hemisfério Norte. Das três espécies contempladas nos protocolos, nenhuma é nativa do Brasil. E um dos grandes questionamentos nossos é se esses testes realizados com a A. mellifera garantem a segurança para as nossas abelhas”, afirma.

A iniciativa de desenvolver novos protocolos que considerem espécies nativas é pioneira na América Latina. “Trata-se de um problema complexo e que precisa ser resolvido. Nesse caso o Brasil está na vanguarda. Até mesmo a legislação que exige o teste com a A. mellifera é a única na América do Sul. Só existe isso nos Estados Unidos e na Europa. Agora é preciso avançar nessa questão das abelhas nativas sem ferrão, até porque a maioria dessas espécies é nativa, não existe no hemisfério Norte. É um interesse nosso, pois elas são extremamente importantes em termos de polinização. Precisamos de legislação que as proteja”, ressalta Malaspina.

O artigo Surrogate species in pesticide risk assessments: Toxicological data of three stingless bees species pode ser lido [Aqui!]


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Este texto foi inicialmente publicado pela Revista Fapesp [Aqui!].

União Europeia reduz limite de resíduos de neonicotinóides em alimentos e medida deve afetar o Brasil

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Arquivo: apicultores seguram placas onde está escrito “inseticidas assassinos de abelhas, não é não”, em um protesto contra a reintrodução de sementes cobertas com neonicotinoides, em frente aos Inválidos, em Paris, em setembro de 2020. AFP – THOMAS COEX

Por RFI

A Comissão Europeia adotou nesta quinta-feira (2) regras que reduzem os limites autorizados para a presença residual em alimentos, inclusive importados, de dois neonicotinoides, agrotóxicos que aceleram o declínio das colônias de abelhas e cuja pulverização já é proibida na UE. Estes dois agrotóxicos são amplamente utilizados no Brasil. 

“As novas regras reduzirão os limites máximos de resíduos (LMRs) de dois neonicotinoides, clotianidina e tiametoxam (…) ao nível mais baixo que pode ser medido com a mais recente tecnologia disponível”, disse o executivo da UE em comunicado.

Esses limites serão aplicados a todos os alimentos produzidos na UE, mas também às importações de alimentos e ração animal. A medida será imposta aos produtos importados a partir de 2026, de forma a dar tempo aos países terceiros para se adequarem às novas regras.

A União Europeia (UE) é criticada por ter proibido os neonicotinoides em seu território, mas continuar exportando para outros países. O Brasil é o principal destino de mais da metade dos registros de exportações desses agrotóxicos da UE de acordo com registros da Agência Europeia das Substâncias Químicas. 

Limites de resíduos

Surgidos na década de 1990, neonicotinoides como a clotianidina e o tiametoxam são amplamente usados no Brasil em culturas de soja, fumo, algodão, arroz, feijão, trigo, abacaxi, entre outras, produtos exportados para os países da União Europeia.

De acordo com a Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos, este tipo de agrotóxico foi o mais encontrado, em um levantamento feito em 2019, em frutas e verduras no Brasil. 

Ao matar abelhas, os neonicotinoides prejudicam também a produção das lavouras. Isso porque elas são os principais polinizadores da maioria dos ecossistemas, promovendo a reprodução de diversas espécies. 

De acordo com o Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, da pesquisadora Larissa Bombardi, os LMRs de agrotóxicos no Brasil são muito superiores aos da Europa. Para alguns inseticidas como o Acafato, usado na soja, eles são 3,3 vezes maiores e no caso dos citros, até 20 vezes superiores.

Na Europa, os neonicotinoides são defendidos sobretudo pelo lobby dos produtores de beterraba, onde é usado para proteger o legume da icterícia, transmitida por pulgões verdes. Ele ataca o sistema nervoso dos insetos, incluindo os polinizadores, como abelhas e zangões.

Agrotóxico exterminador de abelhas

Os neonicotinoides são acusados ​​de contribuir para o declínio global desses insetos. Mesmo em doses baixas, eles perturbam o senso de orientação de abelhas e zangões, que não conseguem mais encontrar sua colmeia, e alteram o esperma dos machos.

Desde 2018, a UE proibiu a pulverização em campos abertos de três neonicotinoides (clotianidina, tiametoxam e imidaclopride), e o Tribunal de Justiça da UE declarou ilegais em meados de janeiro as derrogaçõesadotadas por uma dúzia de estados membros para continuar permitindo aos produtores de beterraba usar neonicotinoides no recobrimento de sementes como medida preventiva.

As novas regras fazem parte da estratégia alimentar “Farm to Fork” da UE e do “Green Deal” da UE, que visam “levar em conta os aspectos ambientais” nas diretrizes das importações que contêm vestígios de pesticidas proibidos na UE.


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Este texto foi originalmente publicado pela Rede França Internacional [Aqui!].

Agrotóxicos “matadores de abelhas” estão proibidos na Europa, mas com exportação permitida. Brasil é o principal destino

A UE proibiu os neonicotinóides para proteger as abelhas. No entanto, novos números mostram que eles ainda estão sendo fabricados na Europa, mas que corporações como a Bayer e a Syngenta continuam exportando milhares de toneladas para países com controles fracos, principalmente para o Brasil

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2 Abelha em um dente de leão: “Evidências  de danos em rápido crescimento” Foto: Sebastian Gollnow / dpa

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pela revista “Der Spiegel” [Aqui!].

“Bee killers”: Corte Europeia mantém banimento de agrotóxicos neonicotinóides amplamente usados na Brasil

abelhas-mortas2Abelhas mortas por contato com agrotóxicos

O Tribunal Superior da União Europeia manteve a proibição parcial da UE de três agrotóxicos neonicotinóides que têm sido ligados ao extermínio de abelhas, impedindo seu uso em certas plantações. Esta decisão abrange três   três produtos ativas – a Imidacloprida, desenvolvida pela Bayer CropScience, a Clotianidina, desenvolvida pela Takeda Chemical Industries e Bayer CropScience, e o Tiametoxam  que é produzido pela Syngenta.

Curiosamente, dois desses agrotóxicos- a Imidacloprida e o Tiametoxam não só continuam sendo bastante vendidos, como foram beneficiados pela tsunami de aprovações realizada pelo governo Bolsonaro. No caso da Imidacloprida, o número de novos produtos aprovados foram 13, enquanto no caso do Tiametoxam o número aprovações chegou a 12. Há ainda que se notar que no caso da Imidacloprida as aprovações foram todas dos chamados produtos técnicos que são a matéria bruta do qual são produzidos os chamados produtos formulados que são efetivamente vendidos nas lojas de varejo. Já a Imidacloprida teve 6 produtos técnicos liberados, enquanto que os 6 produtos formulados foram autorizados para diversas culturas, incluindo o Algodão.

Com essa decisão, a multinacional alemã Bayer que teve o seu pedido rejeitado pelo Tribunal Superior da União Europeia certamente olhará para o mercado brasileiro com ainda mais sofreguidão, pois terá aqui caminho livre para escoar a sua produção que está sendo banida na União Europeia. Este padrão de “dupla moral” da União Europeia precisa ser claramente repudiado, na medida em que permitem a continuidade da venda de produtos que se sabe serem nocivos à saúde de insetos polinizadores, como é o caso das abelhas.

No caso do governo Bolsonaro e da Anvisa, o que mais essa caso deixa evidente é um padrão dúbio de preocupação com a saúde dos brasileiros, pois enquanto se impede o uso de vacinas contra a COVID-19 sob o desígnio de proteger a saúde dos brasileiros, quando se trata de agrotóxicos a coisa corre solta.

 

Agrotóxico neonicotinóide Tiametoxam é banido do cultivo de beterraba no Reino Unido por exterminar abelhas

O governo inglês reverteu a proibição de um neonicotinóide no início deste ano – mas diz que o uso produto químico não era mais necessário

AbelhasO Wildlife Trusts ameaçou levar o governo a tribunal, a menos que pudesse provar que agiu legalmente. Fotografia: Odd Andersen / AP

Por Mattha Busby para o The Guardian

Um agrotóxico que reduz as populações de abelhas e que deveria ser usado nos campos de beterraba da Inglaterra este ano não será usado depois que o frio recente matou pulgões transmissores de vírus.

O governo quebrou uma promessa explícita no início deste ano, ao reverter a proibição de um produto contendo o neonicotinóide Tiametoxam, sancionando seu uso emergencial ao ar livre este ano por causa da ameaça representada por um vírus após a pressão da National Farmers ‘Union e da British Sugar.

A decisão gerou protestos e ameaças de uma ação legal contra o governo. Mas o secretário de meio ambiente disse agora que o limite para seu uso não foi atingido depois que a modelagem indicou que apenas 8% da safra de beterraba estava provavelmente infectada com o vírus da doença dos amarelos este ano.

Embora haja uma consciência crescente do papel prejudicial desempenhado pelo açúcar refinado no desenvolvimento de problemas de saúde de longo prazo, a indústria local no Reino Unido continua altamente lucrativa. Mas há uma preocupação crescente com o efeito de agrotóxicos nocivos sobre os polinizadores em um momento de grave declínio dos insetos e dos ecossistemas locais, especialmente porque os produtos químicos podem correr para os rios, em meio à falta de salvaguardas sobre seu uso.

O Dr. Doug Parr, cientista-chefe do Greenpeace no Reino Unido, disse que as evidências do risco que os neonicotinoides representam para os polinizadores continuam a aumentar e que este deve ser o “último caso do governo com esses produtos químicos que matam as abelhas”.

“A agricultura depende completamente do apoio de ecossistemas que os agrotóxicos estão erodindo, e manter nossa capacidade de nos alimentarmos exige que o governo estabeleça uma meta nacional ambiciosa de redução de pesticidas e apoie os agricultores na mudança para alternativas sustentáveis”, acrescentou.

Wildlife Trusts disse que pressionaria por uma revisão judicial, a menos que o governo pudesse “provar que agiu legalmente” sobre a reviravolta na proibição em janeiro. Na terça-feira, congratulou- o anúncio, mas alertou que “a ameaça dos neonicotinóides não desapareceu”.

O secretário do Meio Ambiente (Defra), George Eustice, disse: “A autorização de emergência necessária para um neonicotinóide nos cultivos de beterraba é um grande exemplo da abordagem de precaução em ação.

“A autorização foi concedida com condições estritas, incluindo apenas permitir a aplicação se as condições meteorológicas durante o inverno levaram a um problema com pulgões. No caso, esse limite de praga não foi ultrapassado, então este tratamento de sementes não será usado este ano. ”

O Defra disse que impôs condições estritas à autorização, o que significa que o pesticida só poderia ser usado se a modelagem previsse que o nível de infecção do vírus chegaria a 9% em toda a safra nacional.

Victoria Prentis, ministra do Defra, disse à BBC em janeiro que o uso do Tiametoxam “não era o ideal”, mas ela estava “convencida de que era apropriado”.

O presidente do conselho do açúcar da NFU, Michael Sly, disse: “Os produtores se comprometeram a tratar sementes de beterraba açucareira com neonicotinóides este ano se o risco para a safra for significativo”.

Formalmente, os membros da UE em 2018 baniram a maioria dos neonicotinóides para uso em plantações ao ar livre, para proteger as abelhas, mas 10 países permitiram o uso de emergência.

Quando o Reino Unido prometeu apoiar a proibição da UE de todos os usos externos de Tiametoxam, Michael Gove, então secretário do meio ambiente, disse: “O peso da evidência agora mostra os riscos que os neonicotinoides representam para o nosso meio ambiente, especialmente para as abelhas e outros polinizadores que ocupam um papel tão importante em nossa indústria de alimentos de £ 100 bilhões é maior do que se imaginava … Não podemos nos dar ao luxo de colocar em risco nossas populações de polinizadores. ”

Um pedido de emergência semelhante para a Inglaterra em 2018 foi recusado depois que conselheiros que monitoram o uso de agrotóxicos disseram que “causaria efeitos inaceitáveis ​​para as abelhas nas plantações e nas margens dos campos”.

Acrescentou que prejudicaria “pássaros e mamíferos que comem mudas de sementes tratadas e pássaros que consomem sementes peletizadas” e corre o risco de “impactar adversamente as populações de insetos aquáticos”.

Estudos mostram que os neonicotinóides prejudicam os polinizadores e a vida aquática e podem contribuir para o declínio sério da biodiversidade . A pesquisa também sugere que eles enfraquecem o sistema imunológico das abelhas, prejudicam o desenvolvimento do cérebro das abelhas bebês e podem deixá-las incapazes de voar. Outro estudo encontrou amostras de mel contaminadas por neonicotinóides.

Um artigo publicado recentemente na Scientific Reports descobriu “importantes efeitos subletais da exposição realista em campo a um neonicotinóide aplicado no solo sobre o comportamento das abelhas e o sucesso reprodutivo”.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo ” The Guardian”” [Aqui! ] .