Maurício Tuffani analisa o rebaixamento do “trash science” no Qualis Capes

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O jornalista Maurício Tuffani que vem há algum  tempo noticiando a contaminação da produção científica brasileira por revistas predatórias e reprodutoras de lixo científico agora nos dá as novas em seu blog hospedado na Folha de São Paulo sobre o início da limpeza que a Capes no seu ranking de publicações científicas.

Apesar de considerar que este início é ainda tímido, já que muitas revistas sequer deveriam ser incluídas em qualquer ranking que se pretenda sério, alguma coisa é melhor do que nada. Principalmente porque sinaliza a intenção de acabar com o faroeste caboclo em que estávamos envolvidos por causa do apoio explícito de aumentar a quantidade de publicações sem que se olhasse para a qualidade. Com isso, uma série de  de docentes terão que repensar seus caminhos.

Uma coisa que me preocupa é sobre se essa primeira limpeza vai ficar por ai ou se começaremos uma verdadeira discussão das causas da incapacidade da ciência brasileira de produzir com qualidade e na quantidade em que o Brasil requer.  

De toda forma, agora que o gato foi colocado para fora do saco, vamos ver se mais pesquisadores ousam falar do problema. É que foi a indisposição da maioria de confrontar, ou sequer reconhecer, a existência do problema é que chegamos à situação vergonhosa de rotular de ciência o que não passa de lixo científico.

Capes rebaixa revistas científicas de má qualidade

POR MAURÍCIO TUFFANI

Má notícia para professores universitários, pesquisadores e pós-graduandos brasileiros que andaram publicando nos chamados periódicos predatórios, aquelas revistas acadêmicas que aceitam artigos sem os submeter previamente a uma rigorosa avaliação conforme os padrões tradicionais da comunidade científica, mas também sem deixar de lucrar cobrando taxas de autores.

Nada indica que parece ser a grande limpeza que precisa ser feita. Mas muitas publicações desse tipo começaram a ser rebaixadas e até mesmo eliminadas da classificação que tiveram na avaliação trienal de 2010 a 2012 feita pela Capes (Coodenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do Ministério da Educação.

A classificação de revistas científicas pela Capes tem sete níveis —A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C, em ordem decrescente. Acessível pela base de dados on-line Qualis Periódicos, ela tem sido amplamente usada em processos seletivos para contratações e promoções de docentes e pesquisadores e também em avaliações individuais para concessões de bolsas e auxílios à pesquisa.

PREJUÍZO

Os periódicos predatórios são desprestigiados por cientistas mais conceituados e também por instituições de pesquisa de destaque. O motivo disso é que essas revistas não só facilitam a publicação de trabalhos de baixa qualidade, mas também porque sua má reputação prejudica os bons estudos que elas possam veicular. E pesquisas exigem tempo e investimentos em equipamentos, materiais e salários, que são quase totalmente custeados por recursos públicos no Brasil.

Com a ajuda de alguns pesquisadores, este blog revelou em março deste ano uma primeira relação dessas publicações e a ampliou no mês seguinte (“Sobe para 235 a lista de predatórios da pós-graduação brasileira”).

As novas avaliações, que são relativas a 2013 e 2014, estão acessíveis desde segunda-feira (21.set) em outra base de dados da Capes, a Plataforma Sucupira, que passou a integrar informações de vários programas da agência.

LIMPEZA COMPLETA

Casos típicos de periódicos predatórios que foram eliminados nas novas avaliações da Capes foram “Transactions on Biology and Biomedicine“, “Transactions on Computers”“Transactions on Environment and Development” e “Transactions on Power Systems”. Os quatro são publicados pela editora chinesa WSEAS (World Science and Engineering Academy Society), famosa na internet por promover conferências científicas caça-níqueis.

Também não houve chance nas novas avaliações da Capes para o “Trends in Applied Sciences Research”, que havia sido classificado nas áreas de Geociências (B4), Interdisciplinar (B4), Biotecnologia (B5) e Biodiversidade (C). O periódico é editado pela Academic Journals Inc., que tem 57 revistas com códigos ISSN registrados nos EUA e indica endereço nesse mesmo país. No entanto, seu domínio de internet é de Faisalabad, no Paquistão, onde, de fato, estão suas operações editoriais.

DUROS DE MATAR

Mas ainda não dá para comemorar. Apesar de não terem mais registro em algumas da áreas em que foram pontuadas anteriormente, muitas revistas de publishers acadêmicos de má reputação ainda sobrevivem no Qualis Periódicos. Isso acontece pelo simples fato de elas continuarem com algumas classificações, por mais baixas que sejam, em vez de serem definitivamente descartadas.

Embora não tenham sido eliminadas como as quatro revistas da WSEAS apontadas acima, pelo menos foram rebaixadas em suas classificações todas as outras 13 revistas dessa editora que também haviam sido pontuadas na avaliação de 2010-2012 da agência do Ministério da Educação.

É o caso também do “African Journal of Agricultural Research”, publicado pela editora nigeriana Academic Journals (não confundir com a do parágrafo anterior, embora sejam ambas predatórias), que tem 13 revistas classificadas no Qualis. Enquanto isso, na Malásia o Ministério da Educação Superior não reconhece e também não dá apoio para artigos publicados por esse publisher, como já mostrou este blog ( “Na ciência, o ruim para a Malásia é bom para o Brasil”, 7.mar).

Esse periódico nigeriano não só deixou de constar com a elevada —e absurda— classificação A2 que havia obtido no grupo Administração, Ciências Contábeis e Turismo, mas também nem sequer foi incluído nessa área nas avaliações de 2013 e 2014. A não inclusão também aconteceu no segmento Interdisciplinar, no qual a revista havia sido classificada como B1, como mostra a tabela a seguir.

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VAI LONGE

Além das duas não inclusões acima indicadas, o “African Journal of Agricultural Research” teve também dois rebaixamentos (de B2 para B3 em Biodiversidade, e de B2 para B5 em Engenharias III). Apesar de sua péssima reputação internacional, bastaria manter essas duas classificações para ele permanecer no Qualis como alternativa para professores, pesquisadores e pós-graduandos que não conseguem coisa melhor.

Essa revista também teve estabilização em seis outras áreas e uma única “promoção” (de B4 para B3 em Ciência de Alimentos). Sem falar na inclusão em Arquitetura e Urbanismo (B4), Ciências Ambientais (B2), Ciência da Computação (B5), Economia (B4) e até mesmo nas mais exigentes Ciências Biológicas III (C)  e Química (C) , que pelo menos aplicaram a classificação mais baixa, mas mainda assim permitem espaço para artigos que merecidamente podem ser considerados lixo acadêmico.

Houve também desclassificações e rebaixamentos de outros periódicos “famosos” que pretendo comentar nos próximos dias. Ainda é cedo para saber se eles serão excluídos na próxima avaliação, que será quadrienal (2013-2016).

LIXO ACADÊMICO

Concluída em 2013, a avaliação trienal de 2010-2012 do Qualis Periódicos envolveu cerca de 2 mil especialistas, distribuídos por 48 comitês assessores da Capes, cada um deles com um coordenador e dois coordenadores adjuntos —eleitos por comissões de pós-graduação de todo o país—, com o apoio de, em média, 20 consultores.

Apesar de não ser ainda a limpeza que tem de ser feita e de a avaliação quadrienal 2013-2016 ainda estar em curso, as informações parciais de 2013 e 2014 indicam que a divulgação sobre o chamado “lixo acadêmico” começou a fazer efeito.

O que importa é que agora, com a atualização do Qualis na Plataforma Sucupira, será possível para a comunidade acadêmica monitorar o processo antes da conclusão da avaliação quadrienal. E, quem sabe, teremos melhores condições para compreendermos se esse tipo de avaliação de periódicos realmente funciona.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/09/23/capes-rebaixa/

Métricas e lixo científico: porque o fator de impacto não é necessariamente uma boa medida de qualidade

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Estou cada vez mais convencido de que precisamos mudar a forma de avaliar o que são produções científicas efetivamente qualificadas, sem precisarmos cair nas muletas intelectuais rotuladas de “Fator de Impacto”. Antes que me acusem de ser um crítico invejoso dos que conseguem publicar em revistas com alto fator de impacto, as quais supostamente representam o cume da realização acadêmica, deixem-me compartilhar uma pequena experiência pessoal.

Essa experiência começou com um esforço que eu e dois colegas da Universidade Nacional de Brasília (UNB) estamos realizando para produzir um bom artigo científico sobre a expansão da monocultura  da soja na Amazônia ocidental, especificamente em Rondônia.   Estamos envolvidos nessa labuta há mais de um ano, e a primeira vez que submetemos o trabalho a uma revista de boa reputação, levamos um bonito toco. É que nos dito que o artigo carecia de algo que as revistas mais concorridas prezam muito atualmente, qual seja, um certo charme mercadológico.  Em termos práticos, a nossa primeira versão do artigo estaria muito centrada numa análise regional, e os editores das melhores revistas atualmente preferem análises mais generalizáveis.

Pois bem, após refazermos as análises dos dados, eis que nos defrontamos com o aspecto do interesse pelo nosso “produto”, já que no tocante ao avanço da soja na Amazônia brasileira está em voga dizer que não há impacto sobre as áreas ainda coberta por florestas, visto que essa monocultura só seria implantada em áreas já anteriormente desmatadas para o estabelecimento de outras culturas agrícolas ou para o estabelecimento da pecuária. De quebra, há ainda um aparente consenso de que a política chamada “Moratória da soja” produziu efeitos positivos no avanço do desmatamento de áreas cobertas por florestas nativas.

Como de praxe, buscamos realizar uma procura na literatura para melhor contextualizar os nossos resultados, e eis que nesse esforço encontramos um artigo publicado numa revista científica de acesso aberto que fazia considerações positivas sobre a eficácia da moratória da soja.  E importante notar, a mesma revista possui um bom fator de impacto no ranking conhecido como “Journal Citation Report” que é produzido pela megaeditora Thomson Reuters. Como utilizo sempre a “Lista de Beall” para verificar se determinadas revistas são publicadas por editores predatórios (Aqui!), fui lá e não deu outra, o editor da tal revista é apontada como predatório pelo professor Jeffrey Beall.

Este aparente paradoxo me levou a realizar uma pesquisa direta ao prof. Beall que, gentilmente, me respondeu que o editor em questão, o MDPI ( Aqui!), é efetivamente um predatório cujas decisões de publicação residem na capacidade dos autores pagarem para que isto ocorra. Quanto ao alto fator de impacto da revista, o professor Beall atribui isso à diferentes estratégias utilizadas da MDPI para elevar o nível de citação de seus artigos, a começar pelo uso de edições especiais e outros truques editoriais. Em função disso é que o professor Beall apontou que o “fator de impacto” não é uma medida de qualidade científica.

Resolvido em parte o enigma, verifiquei como anda o ritmo de citação do artigo em que os autores tecem loas à moratória da soja, notei que o mesmo foi igualmente bem citado no Web of Science da Thomson Reuters e no Scopus que é impulsionado por outra megaeditora cientifica, a Elsevier.  Diante disso, é que fiquei me perguntando quantos dos autores que utilizaram o trabalho publicado pela MDPI de forma crítica (ou seja, quantos questionaram os resultados ali apresentados) e quantos simplesmente  o assumiram como fonte válida de evidência científica.  

De forma provisória, já que não chequei os artigos que citaram o trabalho em questão, prognostico que a maioria assumiu os resultados como verdade, já que aceitar a tese da “moratória da soja” é um desses modismos que invadiu de sopetão os estudos sobre o avanço do desmatamento na Amazônia Brasileira.  E se isso, se confirmar, já que efetivamente vou verificar cada um desses estudos, estaremos diante de uma brecha inaceitável  para valorização indevida de revistas e editores predatórios em uma área que julgo estratégica não apenas para o Brasil, mas para todos os que perseguem usos social e ambientalmente sustentáveis dos ecossistemas existentes nas regiões tropicais.

De todo modo, se antes desse episódio eu já desconfiava da eficácia do Fator de Impacto para medir qualidade científica, agora não tenho mais dúvidas de sua pouca ou nenhuma utilidade para conduzir uma aferição válida de “qualidade”, mas quando muito da quantidade de citações. E olhe lá.

Em tempos de comodificação da ciência, o fluxo dos convites mostra que há mercado para “trash science”

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Em tempos de comodificação da ciência que se traduz em muitos casos em “trash science” não canso de me surpreender com a enxurrada de convites que me chegam para publicar em revistas e conferências de natureza duvidosa. É como se a minha caixa de correio eletrônica tenha se tornado um magneto para todo tipo de publicidade de pseudo ciência e, alguns casos, usando meu nome e sobrenome, o que é incomum.

Vejo o exemplo abaixo que aparenta ser um convite para um congresso mundial sobre Enfermagem e Saúde que deverá ocorrer em Dubai, a cidade mais populosa dos Emirados Árabes Unidos.

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O estranho aqui não é que não possuo qualquer ligação com pesquisas na área do evento, mas que a mensagem me tenha sido enviada de forma formal para o meu endereço eletrônico institucional. 

Mas ao olhar o convite abaixo a disparidade dos convites ficará ainda mais evidente, já que o mesmo vem dos editores de um periódico na área de Microbiologia que, convenhamos, também passa bem longe dos meus interesses.

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A questão que sempre me intriga quando recebo esses convites não é sobre as intenções de quem os envia, mas de quantos pesquisadores brasileiros são atraídos pelos mesmos. É que esses convites da “ciência trash” são. por exemplo, como jogos de futebol, onde time ruim normalmente atrai pouco ou nenhum público. Assim, se os convites continuam chegando é porque o esforço de disseminá-los ainda continua dando lucro.

E depois ainda tem gente que prefere se preocupar em atacar a reputação da “Beall´s List” de editoras e revistas predatórias. É como se atacando o mensageiro se poderia apagar o conteúdo da mensagem. Se for esse o padrão a ser seguido, o Brasil nunca será capaz de produzir ciência com qualidade internacional. Simples assim!

A importância de se poder identificar e coibir a publicação em revistas de “ciência trash”

Não faz muito tempo, a inundação da minha caixa de e-mails por convites vindas de revistas obscuras não passava de um  incômodo que eu resolvia com o simples uso da tecla “Delete”.  Lamentavelmente com o passar do tempo, fui  tomando consciência que aquele atitude não era nem perto suficiente. É que uma simples verificação de uma amostra de aleatória do currículos da base Lattes me mostrou que a possibilidade do crescimento rápido da lista de publicações havia fisgado muitos pesquisadores brasileiros, indo desde os mais jovens até alguns figurões da ciência nacional.

Nesse sentido, as recentes reverberações contra a lista compilada pelo professor e bibliotecário da Colorado University-Denver, Jeffrey Beall, (Aqui!) continuam sendo para mim uma distração oportuna dos graves problemas com que a ciência brasileira está se deparando neste momento. É que tomados pelos padrões produtivistas impulsionados pelos principais órgãos de fomento (i.e., CNPq e Capes), aqueles que caíram no canto da sereia do “trash science” fogem da “Lista de Beall” como o diabo foge da cruz.

Uma das acusações mais cínicas que eu já li é de que a “Lista de Beall” é produto de uma e só opinião, o que desqualifica todo o trabalho que Jeffrey Beall fez em prol de uma produção científica minimamente rigorosa. Além disso, a outra preferida, e ai também oferecida sem nenhuma prova empírica, é de que Jeffrey Beall está a serviço das grandes corporações de edição de material científico.  

Entretanto, quem é que já se deu ao trabalho de, após receber um dos encantadores e-mails oferecendo publicação rápida e barata em alguma revista científica obscura, de ir até a página da “Lista de Beall” para verificar se a mesma está inclusa? Pois bem, eu me dei a esse trabalho que, sem a referida lista, seria impossível, diga-se de passagem. 

Vejamos, então a sequência que começa com um e-mail que chegou na minha caixa de correio eletrônico institucional na Universidade Estadual do Norte Fluminense.

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A partir dai, me dirigi à página onde está a “Lista de Beall” e procurei o nome do editor da dita revista e, voilá, vejam o que eu encontrei!

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Editor da “Academia Journal of Environmental Research” é identificado como predatório (trash) por Jeffrey Beall

Os mais céticos poderiam me perguntar como posso ter certeza que Jeffrey Beall “acertou” na colocação” desse editor como predatório ou não. Eu diria que a maioria dos pesquisadores já sabe a resposta, mas vou usar os critérios que o próprio Jeffrey Beall já ofereceu numa entrevista a este blog (Aqui!  ):

“Mas eu analiso as editoras e as revistas em termos de sua ética e suas normas de publicação. Eu olho para o uso de mentiras, falta de transparência, e desvio dos padrões acadêmicos que prevalecem no ramo das publicações científicas. Eu uso critérios documentados que me guiam na análise dos periódicos.”

Pois bem, quem é que utilizando os mesmos critérios iria negar que o e-mail que eu recebi é com alta chance oriunda de uma editora produtora de trash science? E esse me parece ser o elemento crucial neste debate. É que todos sabem com algum grau de confiança quando estão de uma revista “trash”, seja ela de acesso aberto ou não.  E se isto for mesmo verdade, por que ainda temos pesquisadores e, mais importante ainda, a Capes e o CNPq oferecendo tanta demora em reagir ao problema que as publicações “trash” representam para a produção científica de qualidade por parte da comunidade científica brasileira?

A resposta ao enigma acima não parece ter uma só resposta. De toda forma, creio que se demorarmos ainda mais a reconhecer a existência do problema causado pelo invasão de revistas predatórias e que se manifesta de forma aberta (e eu acrescentaria descarada) em um número nada desprezível de currículos da Base Lattes, estaremos fadados a uma condição catastrófica de periferização ainda maior da nossa produção acadêmica.  

Agora, o que eu espero é que aqueles que criticam a Lista de Beall por ser o produto de uma só mente, apareçam com mecanismos institucionalizados de banir o lixo científico e impedir que os seus praticantes continuem a ser beneficiados com as cobiçadas bolsas de produtividade do CNPq e a dominância em editais das nossas agências de fomento. Em outras palavras, se a “Lista de Beall” não é suficiente ou confiável, que se faça um esforço institucionalizado para produzir listas mais confiáveis.  É que como diz o velho ditado “ajoelhou, tem que rezar”.  

 

Os riscos e impactos do “trash science”. Entrevista especial com o Professor Jeffrey Beall

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Em meio ao debate sobre os impactos da disseminação do lixo científico na ciência brasileira me deparei com a lista de editoras e revistas predatórias (o que eu chamo de “trash science” ou simplesmente “lixo científico” produzida pelo professor Jeffrey Beall, da University of Colorado-Denver (Aqui! ).  E a partir do conhecimento da Beall´s List (ou Lista de Beall) tenho identificado editoras e revistas predatórias, muitas das quais têm atraído muitos pesquisadores brasileiros.

No intuito de saber mais sobre as origens e objetivos da Beall´ List, enviei um e-mail para o professor Jeffrey Beall solicitando uma entrevista para aprendermos mais sobre a sua lista e ele gentilmente concordou em responder às minhas perguntas. A entrevista com o Professor Jeffrey Beall segue abaixo na íntegra, e creio que a leitura das respostas que ele ofereceu serão bastante úteis para todos aqueles pesquisadores – dos mais jovens aos mais experientes- que desejem evitar ter suas pesquisas publicadas em revistas predatórias a custos nem sempre baratos, apenas para serem confundidas com lixo científico. 

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BLOG DO PEDLOWSKI: Qual é a sua atual filiação institucional, e principais interesses de pesquisa e atividades profissionais?

Jeffrey Beall (JB): Eu sou professor associado com estabilidade (tenure track) na University of Colorado-Denver. Eu faço pesquisas sobre publicações acadêmicas, métricas de publicações científicas e a ética na publicação.  Eu trabalho na biblioteca da universidade onde eu sou o bibliotecário responsável pelas comunicações acadêmicas.

BLOG DO PEDLOWSKI: Por que o senhor decidiu iniciar uma lista de editoras e revistas predatórias?

(JB): Inicialmente eu criei a lista em um blog que eu mantinha e fiz isto apenas por curiosidade. Um ano depois de ter criado a primeira lista, no final de 2011, eu criei a lista atual e ela começou a atrair a atenção. Agora, o objetivo da lista é ajudar pesquisadores a evitarem revistas e editoras predatórias e de baixa qualidade.   

BLOG DO PEDLOWSKI: Muitos dos seus críticos sugerem que o seu nível de treinamento acadêmico e áreas de especialização não o habilitam a atuar como um juiz de integridade científica. Como o senhor responde aos seus críticos?

(JB): A questão parece implicar que para julgar um dado periódico, você deve ser um especialista no campo que o mesmo ocupa, como, por exemplo, Engenharia Elétrica. Mas eu analiso as editoras e as revistas em termos de sua ética e suas normas de publicação. Eu olho para o uso de mentiras, falta de transparência, e desvio dos padrões acadêmicos que prevalecem no ramo das publicações científicas. Eu uso critérios documentados que me guiam na análise dos periódicos.

Ainda assim, muitas revistas publicam lixo científico, e na maioria das vezes sou capaz de identificar quando isso ocorre. Por exemplo, eu vi recentemente um artigo que discutia as civilizações que teriam existido no planeta Marte, e eu não tive a necessidade de ser um especialista em ciência planetária para determinar que tanto o artigo como a revista eram lixo científico.

Editoras predatórias visam enganar pesquisadores honestos para pensar que suas revistas são legítimas. Infelizmente, às vezes eles são bem sucedidos. Então, ocasionalmente, nós vemos boas pesquisas publicadas em revistas ruins.

BLOG DO PEDLOWSKI: Em sua opinião, como o fenômeno das editoras predatórias pode afetar o desenvolvimento futuro de revistas de acesso aberto?

(JB): Editoras e revistas predatórias que estão usando o modelo de ouro (autor paga) do acesso aberto tem um conflito de interesse interno, pois quanto mais artigos eles aceitam, mais dinheiro elas fazem. Muitas pessoas estão promovendo a publicação de acesso aberto, e o modelo tem suas vantagens, mas os defensores do acesso aberto não estão contando a toda à história. O número de publicações acadêmicas de acesso aberto está crescendo rapidamente, mas também o número de revistas e editoras corruptas. O registro científico está sendo cada vez mais contaminado com pseudociência e por ciência de baixa qualidade que serve como “ruído” e torna mais difícil encontrar e acessar ciência de qualidade e outros tipos de pesquisas qualificadas.

BLOG DO PEDLOWSKI: Quais têm sido as principais respostas da comunidade científica à sua lista de editoras e revistas predatórias?

(JB): Estou honrado de ter recebido muitos e-mails me agradecendo por meu trabalho. Eu venho tendo a oportunidade de falar sobre a minha lista em conferências científicas e de conhecer novos colegas. Nem todo mundo gosta de mim, e está tudo bem com isso. Mas eu acho que até meus inimigos usam minhas listas.

BLOG DO PEDLOWSKI: O senhor tem alguma recomendação para cientistas interessados em evitar o risco de ser atraído e/ou enganado por editoras predatórias?

(JB): Sim. Por favor, consultem as minhas listas. Sejam muito cuidadosos com a aceitação de ofertas que cheguem via e-mails do tipo “spam”, incluindo as ofertas de revistas e conferências. Aprendam quais são as principais revistas em seus campos disciplinares, e as leiam. Leiam cada número das principais revistas, e aprendam o estilo delas. Em seguida, façam sua pesquisa, escrevam e submetam seus artigos às revistas que estejam no topo do ranking.

BLOG DO PEDLOWSKI: Existe alguma coisa que o senhor gostaria de acrescentar?

(JB): Sim, existem novas formas de fraude e aqui está uma: muitos periódicos agora afirmam que ganharam um fator de impacto, quando isto realmente não aconteceu Existem hoje novas empresas, principalmente da Índia, que vendem fatores de impacto falsos para as revistas predatórias. Verifique todos os fatores de impacto antes de submeter um manuscrito para uma dada revista.  

Editora trash: é bom desconfiar quando a esmola é demais

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Um dos pilares da disseminação das editoras predatórias (trash science) é a existência de um público interessado em “pagar e publicar”. Sem isso, não haveria espaço para a proliferação de tantas editoras que oferecem a chance de publicação rápida (fast science) em um número de revistas que cresce exponencialmente com o passar dos dias. 

Mesmo ciente de que há público, as editoras predatórias capricham na oferta dos seus “produtos”. O exemplo abaixo me foi enviado por um colega cujo endereço eletrônico pertence a uma instituição acadêmica sediada na Europa, o que demonstra que esse fenômeno não está restrito aos países da periferia do sistema capitalista, como é o caso do Brasil.

Vejamos a oferta dessa editora predatória em particular:

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À primeira vista a oferta é irrecusável: período determinado para publicação grátis, forma simples de submissão, processo rápido de decisão e publicação, e acesso livre!

Mas como diz o velho ditado “quando a esmola é muita, o santo desconfia”.  Felizmente, a lista preparada pelo professor Jeffrey Beall da University of Colorado-Denver existe para livrar os incautos dos perigos de ser fisgado por tantas promessas que depois podem se provar falsas. Assim, quem receber um convite do American Institute of Science (que também atende pelo nome de Public Science Framework) poderá verificar na Beall´s List (Aqui!) que essa é uma editora predatória.

A partir dai quem ainda achar que é bom negócio aceitar o tentador convite estará abraçando o “trash science” sem ter o direito de depois se dizer enganado. Simples assim!

Editora trash e seus múltiplos convites para “pagar e publicar”

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Faz algum tempo que a minha caixa de mensagens eletrônicas no servidor da Uenf vem sofrendo uma enxurrada de convites de editoras predatórias (trash science) que invariavelmente anunciam facilidades para publicar a preços, ao menos inicialmente, módicos. Mas nesta segunda-feira (22/06) fui surpreendido com dois e-mails de uma mesma editora trash para revistas bastante díspares, conforme mostro abaixo, mas que possuem a semelhança de serem anunciadas pelo mesmo endereço eletrônico.

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O primeiro convite mostrado acima, que chegou às 6:53, se refere à revista Advances in Research, e o endereço de envio pertenceria a senhora Isita Sen, editora do ScienceDomain.org

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Como se vê, o segundo convite, que chegou às 9:08, já se refere a um tal de British Journal of Applied Science and Technology, e também foi enviado pela senhora Isita Sen.

Ao consultar a lista de editoras predatórias (trash science) preparada pelo professor Jeffrey Beall da University of Colorado-Denver pude verificar que a editora e as revistas anunciadas estão listadas. Essa inclusão aponta para o fato de que estou diante de mais um caso de convite para “pagar e publicar”. 

Uma coisa que me deixa curioso é sobre como meu endereço eletrônico foi obtido por essa editora, já que nunca tive qualquer contato com a mesma. E como tenho notícias que outros colegas também receberam a mesma mensagem fica demonstrado que a entrega na minha caixa postal não foi por acaso. Essa pode ser uma pergunta que se bem respondida poderia nos mostrar o caminho de um comércio bem valioso que é o da entrega de endereços eletrônicos de pesquisadores brasileiros a essas editoras.

E nunca é demais lembrar que tem muito CV Lattes recheado com esses “artigos” neste momento, inclusive por pesquisadores detentores das ambicionadas “Bolsas de Produtividade” do CNPq. Deve ser por isso que o mercado de artigos trash não para de crescer, o que explica essa chuva de e-mails dos editores predatórios.

Universidades, cérebros e a “Pátria Educadora”

Por Jean-Paul Veiga da Rocha

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Com a posse do novo Ministro da Educação, a universidade voltou ao centro do debate nacional. Em seu discurso, Renato Janine Ribeiro afirmou que “as elevadas capacidades” dessa instituição precisam estar a serviço também do ensino fundamental. Tamanha responsabilidade leva-nos a perguntar: mas como está, então, a nossa universidade? A resposta pode não ser muito animadora.
Houve um tempo em que a principal preocupação da ciência brasileira era a evasão de cérebros. Entretanto, a julgar pelo contundente artigo do físico Rogério Cezar Cerqueira Leite (Produção científica e lixo acadêmico no Brasil’, 6/1/15 ), é outro agora o problema a ser enfrentado: segundo o professor emérito da Unicamp, os concursos de seleção de docentes nas nossas universidades são “frequentemente falsificados”. Sob o manto sagrado do concurso público, a marmelada tem triunfado sobre a meritocracia.
As soluções estruturais para esse problema são complexas, mas algo poderia ser imediatamente feito para deixar a luz do sol desinfetar o ambiente, intimidando a política pequena das seitas acadêmicas.
São medidas simples: transmitir ao vivo e filmar os concursos; jamais realizá-los durante as férias (quando a comunidade acadêmica está desmobilizada); mudar a forma de escolha dos membros da banca (para garantir sua independência); exigir que os examinadores fundamentem seus votos publicamente (em vez de darem, em sessões secretas, simples notas genéricas, que disfarçam o arbítrio e o conluio).
Em síntese, a contratação de cada novo professor, que ocupará uma preciosa vaga por décadas, tem que se explicar claramente: por que se escolheu aquele candidato, e não o outro? A decisão deve valorizar a trajetória intelectual dos talentosos, desmascarando o aventureiro que não é do ramo e busca apenas o prestígio que a instituição agregaria a seu currículo.
Deve distinguir quantidade de qualidade: por exemplo, na área jurídica –em que, via de regra, é elevado o grau de promiscuidade entre interesses privados, arrivismo e academia–, trabalhos mais sofisticados e inseridos numa rede acadêmica internacional de alto nível deveriam valer mais que dezenas de livros provincianos sem a menor criatividade (manuais que, de tão carentes de rigor metodológico, mais parecem, às vezes, ter sido elaborados por estagiários).
Infelizmente, é chocante constatar o baixo nível intelectual de alguns processos seletivos: em recente concurso para professor titular (topo da carreira) na Faculdade de Direito da USP, um membro da banca examinadora ocupou boa parte de seu tempo, que deveria ser dedicado à rigorosa sabatina de um candidato, contando causos que variavam desde o passeio com seu neto na Disneylândia até –pasme, leitor– uma analogia escatológica entre um laxante e o conceito jurídico de eficácia.
A universidade não pode sobreviver, muito menos servir à causa mais ampla da educação, sem que o princípio meritocrático seja blindado contra pressões menos nobres. Entretanto, toda e qualquer mudança nas práticas das universidades brasileiras só acontecerá se for rompido um antigo pacto de silêncio. Como tudo na vida, essa ruptura não virá de graça. Em alguns ambientes mais autoritários, ela exigirá luta e coragem.
Se o oportunismo, o medo de retaliações ou o corporativismo sufocarem as vozes dos professores, alunos e funcionários, estaremos diante de mais uma calamidade: a aliança entre a conveniência e a mediocridade, condenando-nos ao eterno atraso científico, cultural e tecnológico. Será esse o destino da “Pátria Educadora”?
JEAN-PAUL VEIGA DA ROCHA, 42, é professor doutor da Faculdade de Direito da USP
FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2015/06/1641538-jean-paul-veiga-da-rocha–universidades-cerebros-e-a-patria-educadora.shtml#_=_

Comodificação da ciência como causa primária do “trash science”

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O artigo abaixo da autoria de Thomaz Wood Jr. foi publicado pela Revista Caros Amigos e relata a posição de dois pesquisadores holandeses sobre a transformação da produção científica em mais uma commodity. A relação que Willem Haffman e Hans Radder estabelecem entre o processo de transformação da ciência em mais uma commodity e a disseminação do que eu chamo de trash science é direta. É que espremidos por princípios de performance produtivista, os pesquisadores enveredam por caminhos onde abraçar o trash science é um passo mais do que natural.

Além da leitura do artigo abaixo, eu recomendo a leitura do livro editado por Hans Radder (lamentavelmente disponível apenas em inglês) que possui o sugestivo título de “The commodification of academic research: sicence and the modern university” (Aqui!).

A questão que emerge diante dessas reflexões se refere ao fato de que casos de fraude e produção de lixo científico que tanto assombram a ciência neste momento precisam ser colocados num contexto mais amplo. Se não, vai ficar parecendo que se tratam apenas de casos isolados de desvio de caráter, quando a coisa parece ter tomado características sistêmicas

Universidades ou fábricas?

Pesquisadores da Holanda criticam a introdução de práticas empresariais no ensino superior

Por Thomaz Wood Jr.
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A biblioteca da universidade de Radboud, em Nijmegen, na Holanda. O mundo corporativo chegou lá
Na edição de abril da revista científica Minerva, os pesquisadores Willem Halffman e Hans Radder publicaram texto contundente e provocativo. Sob o título “O Manifesto Acadêmico – Da universidade ocupada para a universidade pública”, os autores analisam criticamente a modernização do ensino superior holandês, frequentemente citado como exemplo de superação do anacrônico modelo torre de marfim. O tom é desinibido e panfletário, e conclama acadêmicos para uma ação transformadora.

Segundo Halffman e Radder, as universidades holandesas foram invadidas e ocupadas. O ocupante, no caso, não é uma força fardada ou milícia religiosa. Afinal, trata-se dos Países Baixos. Os autores referem-se a um verdadeiro lobo mau, o Lobo do Management. Segundo eles, o management é um regime obcecado com medições, controles, competição, eficiência e a ideia tortuosa de salvação econômica. Para expulsar a invasora e devolver as universidades aos cidadãos, os autores propõem que os próprios acadêmicos assumam o controle de seu destino e construam uma nova universidade pública, alinhada com o bem comum e com uma proposta de geração de conhecimento socialmente engajado.

Halffman e Radder advogam que o Lobo do Management invadiu a academia com um “exército mercenário de administradores profissionais, armados com planilhas, indicadores de desempenho e procedimentos de auditoria”. Seu inimigo são os acadêmicos, esses seres egocêntricos e autocentrados, pouco confiáveis, que precisam ser monitorados e controlados. As universidades foram conquistadas e colonizadas. Projetos de alta visibilidade e indicadores manipulados mostram para o público externo o sucesso do novo modelo. Entretanto, há uma sensação de revolta no ar: no “chão de fábrica”, o clima é tóxico e o moral é baixo.

O Lobo do Management cultua índices e rankings. Faz inventários de artigos publicados e comemora com champanhe cada posição galgada nas listas internacionais. A posição nas planilhas determina a sorte de pesquisadores e de departamentos. Vence a quantidade, pouco importa o conteúdo. Na batalha dos números, acadêmicos criam fábricas de artigos, assinam trabalhos uns dos outros, citam-se mutuamente e correm o mundo para promover seus textos. O que vale é a performance.

Enquanto isso, no mercado acadêmico, multiplicam-se os eventos e as revistas científicas. Sobram escritores e faltam leitores. Halffman e Radder argumentam que o fetiche dos indicadores está transformando a ciência, destruindo tudo que não é mensurável. Sob o ocupador, a massa de acadêmicos comporta-se como um rebanho de ovelhas, mantido sob vigilância e controle.

O novo mantra é a busca da eficiência. Em lugar de recursos, as universidades ganham gestores. Resultado: nos orçamentos, recursos migram de laboratórios para serviços de relações públicas, da pesquisa para a contratação de consultores de marketing. A nova universidade aparece em anúncios de página inteira nos jornais, mantém websites atraentes e garante uma presença constante nas mídias sociais. Seus professores e pesquisadores devem tornar-se celebridades nos jornais, na tevê e, claro, nas palestras TED.

Com as práticas empresariais, o Lobo do Management impõe uma nova cultura. A busca da excelência, que flagelou empresas nos anos 80 e 90, chega décadas depois à universidade. É preciso ser “de topo”, publicar artigos em um seleto grupo de periódicos, ter os coautores certos, conseguir proeminência nos círculos mais prestigiosos, ser um hábil captador de recursos e gerenciar uma dócil equipe de pesquisadores juniores. Para se manter na ribalta, os tais pesquisadores “de topo” terceirizam o ensino para doutorandos e coagem orientandos a lhes conceder coautorias.

A história holandesa repete-se em diferentes latitudes e longitudes. Muitas universidades públicas tropicais são antediluvianas. Elas continuam a seguir o anacrônico modelo da torre de marfim e lutam para preservar pequenos privilégios. São perdulárias, ineficientes e ineficazes. São autocentradas e ignoram o mundo ao redor. Porém, começam a sentir os efeitos do “choque de gestão” descrito por Halffman e Radder. E, assim, somam às suas antigas patologias, o autismo e o imobilismo, as mais novas: produtivismo, exibicionismo e comportamentos para inglês ver. Algumas ovelhas exauridas e irritadas balem aqui e acolá. Porém, faltam-lhes direção e união.

O receituário de Gramsci para combater o “trash science” e outras deformações da produção científica flexível

gramsci

No atual semestre acadêmico estou ministrando um curso de Metodologia da Ciência para os doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais, após ministrar por 17 anos um outro sobre fundamentos da Metodologia da Pesquisa em nível de mestrado. Por considerar que o nível de doutorado deveria exigir mais preparação de minha parte e dos meus alunos, resolvi redesenhar completamente a ementa para discutir com mais profundidade elementos da Filosofia da Ciência. É que como professor e orientador tenho me inquietado com a proliferação de uma visão de produção científica flexível, a qual vem gerando frutos malditos como o “trash science”.

Pois bem, por uma dessas coincidências acabei incluindo a leitura do Volume 11 dos Cadernos do Cárcere do filósofo e militante revolucionário italiano Antonio Gramsci. O Volume 11 não é o mais badalado, pois se refere a um esforço que Gramsci chamou de “Introdução ao estudo da Filosofia“.  A leitura do Volume 11 não é das mais fáceis, mas é essencial para os que hoje se sentem incomodados com o estado de coisas que perdura na ciência nacional e mundial.

Em uma das elaborações mais pertinentes que encontrei no Volume 11 em relação a definir o que é um cientista, separei a seguinte:

Desta  forma, pode-se dizer que não é cientista quem demonstre escassa segu­rança em seus critérios particulares, quem não tenha uma plena inteli­gência dos conceitos utilizados, quem tenha escassa informação e conhecimento do estágio precedente dos problemas tratados, quem não seja muito cauteloso em suas afirmações, quem não progrida de uma maneira necessária, mas sim arbitrária e sem concatenação, quem não saiba levar em conta as lacunas que existem nos conhecimentos já atingidos, mas as ignore e se contente com soluções ou nexos pura­mente verbais, ao invés de declarar que se trata de posições provisórias que poderão ser retomadas e desenvolvidas, etc. (Cada um desses pon­tos pode ser desenvolvido, com as oportunas exemplificações.)

Levando-se em conta que Gramsci morreu em 1932, o trecho acima revela uma análise precisa das deformações que a fragmentação da ciência já impunha aos que queriam enveredar por esse caminho. Além disso, se olharmos para cada uma das condições incluídas na passagem que eu selecionei, eu diria que uma porção significativa dos detentores de títulos de Doutor no Brasil teria graves dificuldades para cumprir não apenas o conjunto, mas pelo menos uma delas. Mas o bom é que ler o parágrafo, todos aqueles que quiserem evitar o pântano do “trash science” já saberão o que fazer para não cair dentro dele.

Em outras palavras, e citando o artigo do professor Lewis Joel Greene, professor titular voluntário (colaborador sênior) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (Aqui!), isto nos leva ao fato de que, como regra geral, até agora o sistema nacional de pós-graduação vem treinando técnicos em sua maior parte, em vez de formar doutores. Outra consequência disso é a disseminação do “trash science” e a multiplicação de casos de plágio e outros tipos de fraude acadêmica.