Universidades, cérebros e a “Pátria Educadora”

Por Jean-Paul Veiga da Rocha

BRAIN

Com a posse do novo Ministro da Educação, a universidade voltou ao centro do debate nacional. Em seu discurso, Renato Janine Ribeiro afirmou que “as elevadas capacidades” dessa instituição precisam estar a serviço também do ensino fundamental. Tamanha responsabilidade leva-nos a perguntar: mas como está, então, a nossa universidade? A resposta pode não ser muito animadora.
Houve um tempo em que a principal preocupação da ciência brasileira era a evasão de cérebros. Entretanto, a julgar pelo contundente artigo do físico Rogério Cezar Cerqueira Leite (Produção científica e lixo acadêmico no Brasil’, 6/1/15 ), é outro agora o problema a ser enfrentado: segundo o professor emérito da Unicamp, os concursos de seleção de docentes nas nossas universidades são “frequentemente falsificados”. Sob o manto sagrado do concurso público, a marmelada tem triunfado sobre a meritocracia.
As soluções estruturais para esse problema são complexas, mas algo poderia ser imediatamente feito para deixar a luz do sol desinfetar o ambiente, intimidando a política pequena das seitas acadêmicas.
São medidas simples: transmitir ao vivo e filmar os concursos; jamais realizá-los durante as férias (quando a comunidade acadêmica está desmobilizada); mudar a forma de escolha dos membros da banca (para garantir sua independência); exigir que os examinadores fundamentem seus votos publicamente (em vez de darem, em sessões secretas, simples notas genéricas, que disfarçam o arbítrio e o conluio).
Em síntese, a contratação de cada novo professor, que ocupará uma preciosa vaga por décadas, tem que se explicar claramente: por que se escolheu aquele candidato, e não o outro? A decisão deve valorizar a trajetória intelectual dos talentosos, desmascarando o aventureiro que não é do ramo e busca apenas o prestígio que a instituição agregaria a seu currículo.
Deve distinguir quantidade de qualidade: por exemplo, na área jurídica –em que, via de regra, é elevado o grau de promiscuidade entre interesses privados, arrivismo e academia–, trabalhos mais sofisticados e inseridos numa rede acadêmica internacional de alto nível deveriam valer mais que dezenas de livros provincianos sem a menor criatividade (manuais que, de tão carentes de rigor metodológico, mais parecem, às vezes, ter sido elaborados por estagiários).
Infelizmente, é chocante constatar o baixo nível intelectual de alguns processos seletivos: em recente concurso para professor titular (topo da carreira) na Faculdade de Direito da USP, um membro da banca examinadora ocupou boa parte de seu tempo, que deveria ser dedicado à rigorosa sabatina de um candidato, contando causos que variavam desde o passeio com seu neto na Disneylândia até –pasme, leitor– uma analogia escatológica entre um laxante e o conceito jurídico de eficácia.
A universidade não pode sobreviver, muito menos servir à causa mais ampla da educação, sem que o princípio meritocrático seja blindado contra pressões menos nobres. Entretanto, toda e qualquer mudança nas práticas das universidades brasileiras só acontecerá se for rompido um antigo pacto de silêncio. Como tudo na vida, essa ruptura não virá de graça. Em alguns ambientes mais autoritários, ela exigirá luta e coragem.
Se o oportunismo, o medo de retaliações ou o corporativismo sufocarem as vozes dos professores, alunos e funcionários, estaremos diante de mais uma calamidade: a aliança entre a conveniência e a mediocridade, condenando-nos ao eterno atraso científico, cultural e tecnológico. Será esse o destino da “Pátria Educadora”?
JEAN-PAUL VEIGA DA ROCHA, 42, é professor doutor da Faculdade de Direito da USP
FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2015/06/1641538-jean-paul-veiga-da-rocha–universidades-cerebros-e-a-patria-educadora.shtml#_=_

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