A saída do Rio de Janeiro do regime de recuperação fiscal: praga ou benção?

O dia de ontem foi marcado por uma daquelas novidades que tiram o sono dos judiados servidores públicos do estado do Rio de Janeiro. É que informados pelo blog do jornalista Lauro Jardim em sua coluna no jornal “O Globo” ficamos sabendo que o ultra poderoso “Conselho de Supervisão do Regime de Recuperação Fiscal do Ministério da Fazenda” está ameaçando retirar o estado do Rio de Janeiro dos acordos que possibilitaram o rolamento da dívida ainda durante o malfadado governo do ex-governador Luiz Fernando Pezão.

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A razão dessa punição que está sendo engendrado no ministério comandado pelo banqueiro Paulo Guedes seria uma diferença negligenciável de R$ 31 milhões no total prometido em termos de arrocho fiscal, aquele que pune apenas os servidores públicos e os segmentos mais pobres da população que dependem dos serviços que eles prestam, poderia ser facilmente contabilizado se os valores desviados com um dos hospitais de campanha não montados pelo governo Witzel. 

Mas não, sob a pecha de obrigar o governo Witzel a cumprir acordos que ele mesmo não firmou, o tal “Conselho de Supervisão do Regime de Recuperação Fiscal do Ministério da Fazenda” ameaça retirar o regime do regime de arrocho (quer dizer, recuperação) fiscal que hoje, por exemplo, impede que a rede estadual de saúde esteja prestando serviços à altura dos desafios impostos pela pandemia da COVID-19.

Obviamente há uma quantidade nada desprezível de servidores que veem essa possível saída do Regime de Recuperação Fiscal (RRF) como uma espécie de apocalipse para suas vidas pessoais.  De minha parte, veria essa saída do RRF como o primeiro passo para a recuperação (essa sim merecedora do nome) da autonomia administrativa do Rio de Janeiro que hoje padece por um regime de controle que deixaria os casos da Grécia e Portugal que viveram os piores ajustes neoliberais pelas mãos da Troika parecendo coisa de iniciante.

O fato é que enquanto o Rio de Janeiro estiver dentro do RRF não haverá saída para sua crise econômica abismal, especialmente porque esse programa impede a realização dos investimentos necessários para que haja uma reestruturação da sua matriz econômica. Na prática, o RRF serve apenas aos interesses dos grandes bancos e até dos fundos abutres que controlam parte não desprezível dívida criada pelos anos de farra da turma comandada por Sérgio Cabral e Luiz Fernando, sendo o caso da Operação Delaware” apenas um dos exemplos mais gritantes.

A verdade é que os servidores públicos deveriam ser os primeiros a exigir a devida transparência não apenas em relação aos valores já desembolsados pelo estado do Rio de Janeiro desde sua adesão ao RRF,  mas também sobre os serviços públicos que estão sendo ainda mais precarizados para que o Rio de Janeiro possa seguir à risca a sanha fiscalista dos ultraneoliberais que têm assento no tal conselho de supervisão. Nunca é demais lembrar que além de salários congelados há 6 anos, os servidores do Rio de Janeiro agora sequer terão direito à progressões e enquadramentos por causa das recentes decisões do congresso nacional para liberar quantias irrisórias sob o pretexto de apoiar os estados a combater a pandemia da COVID-19.

Assim,  eu digo aos servidores que hoje podem estar em pânico pela perspectiva de voltarmos à dramática situação de penúria salarial que ocorreu em 2017: tem horas que aquilo que parece ser uma praga pode-se revelar depois uma benção.

O Rio de Janeiro virou a Grécia da vez?

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Acabo de ler e recado que os leitores também leiam a provocativa reflexão que o professor Roberto Moraes acaba de postar em seu blog sobre os paralelos entre o que foi feita pelo troika (FMI, Banco Central Europeu, Comissão Européia) na Grécia e o que o governo “de facto” de Michel Temer, sob a batuta do ministro/banqueiro Henriques Meirelles está tentando fazer no Rio de Janeiro.

Aos elementos de congruência identificados por Roberto Moraes, eu adicionaria ainda os custos absurdos que a Grécia e o Rio de Janeiro tiveram que arcar com o megaevento esportivo conhecido como “Jogos Olímpicos”.  Aliás, as condições de decrepitude precoce que o glorioso estádio do Maracanã enfrenta após pouco meses de sediar alguns eventos do megaevento do Comitê Olímpico Internacional (COI) encontram paralelos incríveis no que aconteceu com as instalações olímpicas construídas em Atenas.

De toda forma, quem quiser ler a postagem do prof. Moraes, basta clicar (Aqui!)

 

Resultados finais do plebiscito grego e a volta da política na economia

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Os resultados finais do plebiscito que ocorreu hoje (05/07) na Grécia mostra que a aposta do Syriza em colocar o debate sobre a dívida da Grécia de volta na arena política foi o catalisador de uma profunda e inequívoca rejeição à imposição da lógica rentista tão defendida no Brasil.

Agora que o povo grego se colocou no plano objetivo na vanguarda do debate político que se seguirá nas próximas semanas, vamos ver como se comportam aqueles que anunciavam a derrota de Alexis Tsipras e do Syriza. E mais ainda como ficarão aqueles que dizem que obedecer a lógica rentista é a única saída possível para o Brasil. No mínimo deveriam ficar envergonhados.

Syriza mostra ao PT que existem alternativas ao estelionato eleitoral: povo grego diz sonoro não à austeridade da troika

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A população da Grécia acaba de dar um sonoro não às políticas de austeridade que estavam sendo impostas pela troika (Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia, Banco Central Europeu) para continuar asfixiando a economia grega. A margem da derrota imposta à troika não deve ter sido prevista nem pelos mais otimistas membros da coalizão governista comandada pelo Syriza. Há que se ressaltar que a aposta no referendo foi uma manobra arriscada do primeiro-ministro grego Alexis Tsipras que, confrontado pela intransigência do FMI e da Comissão Europeia comandada por Angela Merkel, resolveu fazer um movimento imprevisto no tabuleiro político da Europa.

Um detalhe que foi explorado pela imprensa corporativa brasileira, sempre alinhada com os esforços de submissão dentro do Brasil, é que a imensa maioria dos 240 bilhões de euros colocados nas contas da dívida da Grécia sequer chegou a tocar o solo grego. Na verdade, todo esse dinheiro foi colocado em bancos europeus, principalmente alemães, que tinham especulado centenas de bilhões de dólares na Grécia e perderam.

Confrontados com o plebiscito proposta por Tsipras, os gerentes da dívida inicialmente desdenharam e tentaram ignorar a decisão grega de ouvir a população sobre o pacote de austeridade. Entretanto, com o passar dos dias e com a resistência da coalizão governista grega, os chefões europeus rapidamente passaram a agir como o lobo mau em frente da casa dos três porquinhos e começaram a fazer as ameaças de sempre.

Neste domingo (05/07), os gregos decidiram rejeitar a ameaças do lobo mau e decidiram rejeitar mais uma rodada de inaceitáveis cortes em direitos sociais que não teriam qualquer efeito na solução da crise financeira grega. E a vitória da rejeição foi por uma diferença impressionante (60 a 40). Este resultado não só deixa dúvida do nível de rejeição do povo grego à austeridade imposta pela troika, mas como coloca o governo comandado pelo Syriza na condição de alterar todo o balanço político da Europa. De quebra, os gregos indicam que não se importam com a ameaça de expulsá-los da União Europeia. Colocando tudo isso junto, a vitória do Não é de uma grande importância histórica.

Há ainda que se ressaltar a grande lição que o Syriza está dando ao PT. É que diferente de Dilma Rousseff, Alexis Tsipras se negou a realizar o estelionato eleitoral e vem governando exatamente ao longo das linhas com que se comprometeu para ser eleito.  Ainda que isto não torne Tsipras um revolucionário no sentido dado pelos revolucionários marxistas, é certo que no estado de miséria intelectual e política que reina no mundo, Tsipras está cumprindo um papel que o torna extremamente relevante. 

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E Tsipras, ainda poderá tomar para si a fase frase de Jorge Lobo Zagallo para dizer à troika: vocês vão ter que me engolir!