A ciência pública a serviço do greenwashing? O caso do workshop da Reserva Caruara

O episódio envolvendo um workshop da RPPN Caruara mostra como a credibilidade da pesquisa científica pode ser incorporada às estratégias de marketing ambiental do Porto do Açu, enquanto permanecem invisibilizados os conflitos socioambientais produzidos pelo empreendimento 

Publicizei recentemente neste blog a realização de um workshop promovido pela Reserva Caruara/Porto do Açu em torno do que foi apresentado como “experiências turísticas de bases ecossistêmicas.  A “novidade” que chamou a atenção de muitos foi que o evento aparecia como copromovido pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Com base nisso, manifestei minha estranheza diante do envolvimento de uma universidade federal em um evento fechado que, entre outras coisas, serviria para conferir uma camada de legitimidade ambiental a uma reserva particular cuja implantação resultou no fechamento da Lagoa de Iquipari, ecossistema lagunar que, até a criação da RPPN Caruara, constituía uma importante fonte de sustento econômico, obtenção de proteínas e reprodução social para centenas de famílias de pescadores artesanais de São João da Barra.

A menção à participação da UFF gerou repercussão inclusive entre docentes que atuam no campus da instituição em Campos dos Goytacazes, onde existem pesquisadores que há anos estudam justamente os impactos socioambientais decorrentes da forma autoritária como o Porto do Açu foi implantado. Uma das reações foi a de que eu teria sido injusto ao não mencionar que há pesquisadores da UFF Campos que não são alinhados aos interesses do empreendimento. Respondi que compreendia essa inquietação, mas que o problema decorria muito mais da forma como o evento foi divulgado pela direção da RPPN Caruara do que da postagem publicada neste blog. Afinal, a utilização da logomarca da UFF no material de divulgação funcionava como uma chancela institucional ampla, e foi exatamente essa associação que motivou minhas observações. Acrescentei ainda que buscaria esclarecer aos leitores quem, efetivamente, estaria envolvido no workshop sobre turismo ecossistêmico promovido pela Caruara.

Pois bem, após consultas realizadas, inclusive em Niterói, fui informado de que a proposta do workshop sobre turismo ecossistêmico na RPPN Caruara integra uma dissertação de mestrado que deverá ser desenvolvida por uma estudante do Programa de Pós-Graduação em Turismo da UFF. Segundo as informações obtidas, o workshop, em formato híbrido, seria destinado a colaboradores da Reserva Caruara, pesquisadores e membros da comunidade. Em outras palavras, a Caruara passou a divulgar um evento vinculado a uma pesquisa que sequer iniciou sua etapa de campo. Além disso, ficou esclarecido que a UFF não figura como copromotora ou coexecutora da iniciativa, mas apenas como a instituição onde a pesquisa será desenvolvida.

O que se apurou até o momento revela uma situação preocupante. Uma pesquisa financiada com recursos públicos tende, na prática, a ser utilizada para conferir cobertura verde — o conhecido greenwashing — a uma propriedade privada criada como medida compensatória pela destruição de extensas áreas de vegetação de restinga durante a implantação do Porto do Açu. Ao mesmo tempo, essa mesma implantação produziu um efeito social de enorme relevância: o fechamento da Lagoa de Iquipari aos pescadores artesanais que historicamente dependiam daquele ecossistema para garantir seu sustento econômico, sua segurança alimentar e a reprodução de seu modo de vida.

A questão, entretanto, exige uma distinção importante. Nada impede que universidades públicas estabeleçam parcerias com empresas privadas. Em muitos casos, essa interação é desejável e pode produzir avanços científicos e tecnológicos relevantes. O problema surge quando a produção de conhecimento passa a ser utilizada para conferir legitimidade a narrativas corporativas sem que os conflitos socioambientais que lhes dão origem sejam efetivamente enfrentados. No caso em questão, o caráter fechado do workshop, restrito a convidados, transforma o chamado turismo ecossistêmico em um discurso que obscurece um processo concreto de exclusão territorial. Enquanto se promove uma imagem de conservação ambiental, permanecem invisibilizados justamente aqueles que foram privados do acesso ao território e aos recursos naturais que garantiam sua sobrevivência. Essa lógica dificilmente se compatibiliza com o compromisso crítico e social que deve orientar a pesquisa realizada em universidades públicas financiadas pela sociedade.

Se algo positivo emergiu desse imbróglio, foi a oportunidade de compreender com maior clareza como operam as estratégias de greenwashing associadas ao Porto do Açu. Mais do que promover ações de conservação, essas iniciativas parecem buscar a apropriação da credibilidade de instituições públicas e da linguagem da ciência para construir uma narrativa de responsabilidade socioambiental que pouco dialoga com os impactos concretos produzidos pelo empreendimento. Nesse contexto, a Reserva Caruara deixa de ser apenas uma unidade de conservação privada e passa a desempenhar um papel central na arquitetura simbólica de legitimação do Porto do Açu. É precisamente por isso que toda aproximação entre universidades públicas e esse tipo de iniciativa deve ser examinada com máximo rigor e transparência, para que a pesquisa científica não seja convertida, ainda que involuntariamente, em instrumento de marketing ambiental corporativo.

Poluição sonora de turismo e embarcações afeta a comunicação de peixes em recifes, mostra estudo

O ruído produzido pelo turismo e por embarcações como lanchas e jet skis pode interferir diretamente na comunicação entre os peixes recifais, afetando atividades fundamentais para a sobrevivência dessas espécies, como reprodução, alimentação e defesa de território. Isso ocorre porque a poluição sonora encobre os sons emitidos pelos peixes, já que os ruídos ocupam a mesma faixa de frequência sonora que os animais utilizam para interações biológicas. As conclusões são de artigo publicado na segunda (20) na revista científica Neotropical Ichthyology por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

A equipe cruzou dados sonoros e de observação obtidos em duas praias pernambucanas. Alef Morais/Unsplash

A equipe cruzou dados sonoros e de observação obtidos em pontos com diferentes tipos de exposição a atividades humanas em duas localidades turísticas no litoral de Pernambuco – a Praia dos Carneiros, que recebe turistas o ano todo, e Praia de Tamandaré, que tem pico de visitantes no verão. Os registros foram realizados em janeiro e fevereiro de 2022, período de alta temporada, e em abril de 2023. Os pesquisadores instalaram nesses pontos um sistema de gravação subaquática para captar de forma contínua todos os sons do ambiente.  Simultaneamente, um membro da equipe acompanhava na superfície todas as atividades humanas geradoras de ruído, enquanto mergulhadores realizavam censos visuais para verificar a composição da comunidade de peixes nesses locais.

O estudo identificou cinco tipos de poluição sonora nos locais amostrados – jet skis, lanchas, barcos de pesca, parapente motorizado e presença de banhistas, além de nove diferentes tipos de sons de peixes. Três desses sons emitidos pelos animais deixaram de ser registrados em locais expostos ao movimento humano. Ambientes mais ruidosos também tiveram redução de sua complexidade acústica – índice que mede a variação de padrões sonoros dos peixes ao longo do tempo.

Túlio Freire Xavier, pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE e um dos autores do artigo, explica que a poluição sonora pode impactar comportamentos importantes das espécies, como a atração de parceiros, a defesa de áreas de alimentação e outras interações sociais, comprometendo a estrutura das comunidades a longo prazo.

O censo visual registrou de 18 a 23 espécies diferentes em cada ponto de amostragem, sendo a família das donzelinhas a mais abundante. Xavier ressalta que os peixes da região são fundamentais para a saúde dos recifes de coral, contribuindo para processos como a ciclagem de nutrientes e a manutenção do equilibro das cadeias alimentares. “Esses recifes sustentam atividades importantes para a economia da região, como o turismo e a pesca artesanal. Portanto, quando a poluição sonora interfere no comportamento desses peixes, existe o potencial de afetar, ainda que de forma indireta, os serviços ecossistêmicos que esses ambientes oferecem”, detalha o pesquisador.

Para a equipe, os dados do estudo reforçam a importância de englobar a poluição sonora como um dos fatores de planejamento e de gestão das áreas marinhas protegidas. “Como identificamos quais atividades geram maior interferência acústica e quais áreas são mais vulneráveis ao ruído, esses dados podem ajudar gestores na definição de estratégias como o ordenamento do tráfego de embarcações, a criação de áreas de menor velocidade para barcos, a delimitação de zonas mais sensíveis à atividade humana e até a definição de horários de uso turístico em períodos biologicamente importantes para os peixes”, explica Xavier.

O pesquisador aponta que, além de contribuírem para a geração de conhecimento científico, os resultados do trabalho vêm sendo compartilhados com gestores e comunidades locais. E com o intuito de dar continuidade ao monitoramento do impacto dos ruídos, os pesquisadores já atuam em um projeto de longo prazo em uma escala espacial maior na Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais. “Nosso objetivo é que esse conhecimento possa contribuir para políticas públicas e estratégias de manejo que conciliem o uso turístico da região com a conservação da biodiversidade e da paisagem sonora dos recifes”, finaliza Xavier.

Quem desejar ter acesso ao artigo publicado na Neotropical Ichthyology  , basta clicar [Aqui!].


Fonte: Agência Bori

Contaminantes emergentes e turismo: uma combinação perigosa

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Esmeraldas é uma das cidades mais turísticas do Equador, devido à combinação de belas praias e um clima muito agradável.  Mas afluência turística também pode jogar contra. Crédito da imagem: Aldo Barba/Wikimedia Commons , bajo licencia Creative Commons (CC BY-SA 2.5)

Por Carmina de la Luz para a SciDev

A presença de contaminantes emergentes na água dos rios e do mar está diretamente vinculada ao turismo costeiro.  É o que sugere um estudo realizado na provincia de Esmeraldas, no Equador,  que acaba de ser publicado na Science of The Total Environment .

Os contaminantes emergentes são um grupo diverso de substâncias de detecção recente no ambiente, como medicamentos, produtos de cuidado pessoal ou de limpeza de casas e produtos agrícolas, entre muitos outros.

No final de 2019, Isabel Cipriani Ávila, professora-investigadora da Pontificia Universidad Católica del Ecuador e autora principal da pesquisa e seus colaboradores avaliaram a qualidade da água neste destino popular pouco depois de ser iniciado o confinamento para evitar a propagação do COVID-19 e o fluxo de turistas.

“Em novembro de 2020 voltamos a coletar mostras e aproveitamos para fazer a comparação de contaminantes emergentes antes e durante a pandemia, a qual foi uma oportunidade de demonstrar o impacto tão forte que o turismo tem nos nossos hábitos e no meio ambiente ”, disse Cipriani Ávila em entrevista para a SciDev.Net .

O equipamento foi calibrado para identificar e quantificar cafeína, acetaminofén (paracetamol), diclofenaco, trimetoprima e sulfametoxazol em 10 desembocaduras de ríos e 14 praias de Esmeraldas. Esses compostos foram selecionados pelo fato do Ministério da Saúde Pública do Equador considerando-los de alto uso.entre a população.

“O que mais nos surpreendeu foi observar as maiores concentrações de contaminantes emergentes nos pontos onde o grau de urbanização era baixo, mas que estava muito próximo do local de descarga de águas residuais de um grande resort”, apontou a pesquisadora.

A análise evidenciou que a contaminação por cafeína e diclofenaco diminuiu notoriamente no contexto do confinamento, quando não houve  turismo. Da mesma forma, a aparição e a quantidade das substâncias estudadas foram menores durante esse tempo. O sulfametoxazol – um medicamento antibacteriano – resultou ser a exceção, pois não foi detectado nem antes ou durante a pandemia.

Os contaminantes emergentes são de interesse para os científicos no solo porque afetam a qualidade da água, mas também por suas conseqüências na vida silvestre e na saúde humana. Associarlos com uma atividade econômica específica –como se logró com o turismo neste estúdio– é complexo, já que nos ecossistemas aquáticos intervêm múltiplas variáveis.

Para o coautor Jon Molinero, o caso de Esmeraldas evidencia o problema da desigualdade no acesso a uma recreação com água limpa no Equador: “Vemos que os desejos do turismo de alta gama estão contaminando as zonas de entorno que são sedes de pequenos hotéis e negócios com os quais as pessoas humildes obtém sua renda”.

“Os turistas vêm em busca de água limpa para tomar banho, mas a atividade em si está prejudicando esse serviço. Se não fizermos algum tipo de controle não haverá turismo simplesmente porque as águas não vão ter qualidade suficiente”.

Jon Molinero, Escuela de Gestión Ambiental – Pontificia Universidad Católica, Equador

Tal cenário poderia estar se repetindo em outros países da América Latina, onde um quarto da população vive nas costas, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento . Nas nações caribenhas , o turismo equivale a 26% do Produto Interno Bruto total e no resto da região representa 10%, de acordo com um informe de 2020 elaborado pela Comissão Económica para América Latina e Caribe (CEPAL) .

“Os turistas vêm em busca de água limpa para tomar banho, mas a atividade em si está prejudicando esse serviço. Se não fizermos algum tipo de controle, não haverá turismo simplesmente porque as águas não terão qualidade suficiente”, acrescenta Molinero.

María Teresa Alarcón Herrera, que não participou da investigação, comentou no SciDev.Net que essas reflexões constituem a porta mais destacada do estudo em Esmeraldas.

“O diagnóstico ambiental que é importante, mas também está entendendo o tema desde o ponto de vista econômico. O chamado que faz com sua investigação é melhorar os sistemas de tratamento de águas para que o turismo marítimo seja mais sustentável ”, aponta a acadêmica do Centro de Investigações de Materiais Avançados no México.

Na América Latina, apenas 40 % das águas residuais são tratadas, e as plantas que realizam esse processo não são aptas para eliminar contaminantes emergentes. Germán Santacruz, que também participou do estúdio, relaciona esta deficiência com o fato de que a disposição final dos contaminantes emergentes a um menu não está regulamentada.

Estudos como o publicado na Science of The Total Environment “são relevantes para compreender o fenômeno dos contaminantes emergentes, mas também nos lembramos que a maneira de fazer frente à ‘epidemia silenciosa’ que representam está caminhando para a regulamentação em nossos países”, conclui o professor do programa Água e Sociedade do Colégio de San Luis, no México.

Acesse o artigo completo [Aqui!].


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi publicado pela SciDev [Aqui! ].

Campos rupestres brasileiros são as novas vítimas do crescimento econômico “a qualquer custo”

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Artigo publicado por um grupo de pesquisadores brasileiros,  mostra que as áreas de campos rupestres existentes no Brasil foram convertidas em mais uma fronteira de desmatamento. Em função disso, o artigo traz um grave alerta: a previsão de perda de 82% das áreas de campos rupestres no país, impactando o acesso à água e a segurança alimentar de 50 milhões de pessoas.

O artigo atribuiu esse avanço na destruição de campos rupestres à implementação de políticas  equivocadas que levam à intensificação de atividades de mineração, turismo descontrolado e à construção de estradas não planejadas. De fato, a descoberta de grandes reservas minerais, a adoção de políticas de conservação ineficazes e, a partir de agora, as mudanças climáticas estão ameaçando esse ecossistema hiper-diversificado.

Quem desejar acesso este artigo, basta clicar [Aqui!].

Urbanização precária, mudanças climáticas e a multiplicação das doenças

Tenho lido e ouvido uma quantidade impressionante de informes sobre as três epidemias associadas (Dengue, Zika e a Chikungunya) ao mosquito Aedes e que estão grassando em diferentes partes do mundo, mas com especial alarme na América do Sul.

A mídia corporativa em sua maioria expressiva tem se valido dos problemas associados a um dos vírus transmitidos pelo mosquito Aedes, a Zika, para embaçar a discussão que realmente importa sobre como a extrema concentração da riqueza está potencializando a disseminação de doenças que já ocorreria pelas mudanças climáticas disparadas pelo aquecimento do planeta.

O fato é que se formos analisar a concentração de casos das doenças associadas ao mosquito Aedes não será difícil verificar que a imensa maioria dos casos se localiza nas periferias mais pobres, onde a urbanização precária assola a vida de milhões de pessoas apenas no Brasil. 

Mas em vez de fazer isso, a mídia corporativa prefere apelar para o emocionalismo e ressaltar, por exemplo, o dramático problema da microcefalia. E o resultado é que se deixa de apontar para as medidas básicas de controle da proliferação do vetor, enquanto se gera uma onda de pânico que em nada ajuda a adoção de um planejamento estratégico que melhore os padrões de urbanização.

No meio desse clima caótico a oportunidade de democratizar os espaços urbanos é perdida, apelando-se para medidas paliativas como a pulverização de eventuais criadouros com agrotóxicos de todo tipo de toxicidade. Mas como essas medidas são paliativas, o produto final é o aumento do caos a partir da ampliação da resistência dos mosquitos vetores. Como vários cientistas já estudaram o ciclo de reprodução do Aedes, não é a falta de informação e expertise que está impedindo a adoção das medidas necessárias.

Finalmente, algo que eu tenho visto na narrativa hegemônica é de que os vírus causadores da Zika e da Chikungunya chegaram ao continente sul americano e, por extensão, no Brasil.  As explicações mais comuns são voltadas para eventos esportivos e o turismo que contribuem para a circulação de pessoas infectadas.  Desta forma, co fato de que os carreadores iniciais dos vetores não façam parte das parcelas que irão arcar com o maior peso das consequências da dispersão de doenças como a Zika e a Chikungunya revela de forma ainda mais evidente as múltiplas injustiças da nossa estrutura social. E talvez seja exatamente por isso que a mídia corporativa, porta-voz preferencial das elites, não trate o problema sob este ângulo.