Refletindo sobre a Bolsa Pró-UENF: Ética, critérios e responsabilidade institucional

Por Carlos Eduardo de Rezende*

Em uma instituição de ensino superior, onde o livre pensamento é um de seus pilares fundamentais, há quem defenda que divergências, de qualquer nível, devam ser tratadas internamente. A princípio, isso pode parecer razoável dentro da liturgia acadêmica, que valoriza o debate estruturado e a deliberação criteriosa. No entanto, quando princípios essenciais, de uma instituição, são impactados, torna-se imprescindível ampliar o debate, garantindo que as decisões sejam tomadas com reflexão e responsabilidade.

A adoção de ações imediatistas, sem uma análise aprofundada dos impactos em longo prazo, pode comprometer o futuro de uma instituição de ensino e pesquisa, enfraquecendo sua missão acadêmica e científica. Ainda assim, alguns dos pontos abordados nesta reflexão podem ser considerados inoportunos por parte da comunidade, seja por resistência à mudança ou por diferentes perspectivas sobre os rumos institucionais.

Recentemente, foi instituído o Programa de Aprimoramento e Otimização da Gestão Pública da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (ProUENF). No âmbito desse programa, os integrantes da comunidade acadêmica que se inscreveram e atenderam ao que foi estabelecido na Resolução do Conselho Universitário da Uenf passaram a receber a Bolsa Pró-UENF, que pode durar 36 meses.

A comunidade acadêmica da Uenf é composta por docentes e técnicos (laboratório e administrativos), cujos níveis de formação variam entre Fundamental, Médio e Superior, incluindo servidores com titulação de mestrado e doutorado. É importante destacar que as atividades desempenhadas por essas categorias são essencialmente distintas. Diante disso, um programa que não estabelece critérios específicos e diferenciados para cada categoria parece, no mínimo, inadequado e demanda uma reflexão criteriosa.

Nesse sentido, a criação e a implementação desse programa deveriam fomentar debates mais amplos sobre a condução das políticas institucionais e seus impactos na integridade acadêmica e profissional da comunidade universitária. Embora iniciativas que incentivem a participação dos servidores sejam, em princípio, bem-vindas, os critérios que orientam a concessão dessas bolsas têm suscitado questionamentos legítimos e deveriam considerar as especificidades inerentes aos diferentes cargos ocupados.

A fragilidade na definição de parâmetros claros e objetivos abre margem para interpretações dúbias e, em alguns casos, favorecimentos que comprometem a transparência. Como assegurar a equidade se os critérios parecem desconectados de um processo robusto de avaliação? A ausência de rigor, acadêmico vamos dizer assim, pode transformar uma ação que deveria ser estratégica em um mecanismo questionável, que alimenta desigualdades e desmotiva aqueles que esperam justiça institucional.

Outro ponto preocupante é a percepção de que algumas pessoas estejam recebendo recursos para executar atividades que já deveriam ser parte de suas atribuições e outros que recebem sem mudar minimamente seu comportamento diante da responsabilidade institucional. Isso levanta uma questão ética fundamental em relação ao dever de cada integrante da universidade e suas responsabilidades institucionais.Os estímulos adicionais deveriam ser instrumentos de fomento a novas iniciativas ou de apoio a demandas extraordinárias e deveriam refletir a qualidade do servidor no que tange a sua atividade fim.

Nesse contexto, cabe perguntar: onde está a ética profissional e institucional? O fortalecimento de uma universidade pública de excelência, como a Uenf, exige não apenas infraestrutura e financiamento, mas também um compromisso inabalável com princípios éticos. Transparência, meritocracia e responsabilidade devem ser os alicerces de qualquer ação que envolva recursos públicos.

Se queremos uma Uenf mais forte e coesa, é imprescindível rever práticas que, ainda que sob a aparência de progresso, corroem a confiança na instituição. Um processo de reflexão coletiva é urgente, pautado pela busca de critérios claros, avaliação independente e um verdadeiro compromisso com o bem coletivo. Apenas assim poderemos garantir que ações como a Bolsa Pró-UENF estejam alinhadas ao propósito maior de promover a justiça, a inclusão e a excelência acadêmica.

Concluindo, tenho consciência de que partes isoladas deste texto poderão ser utilizadas para sugerir, de forma equivocada, que sou contrário a este programa. No entanto, isso não corresponde à realidade. Minha discordância reside na ausência de critérios claros e na implementação precipitada de um programa institucional sem a devida participação de um comitê externo, essencial para garantir sua integridade. Assim, minha maior preocupação é que programas dessa natureza têm caráter temporário, enquanto o Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) da Uenf permanece defasado. Nossa capacidade de atrair e reter jovens docentes tem sido progressivamente reduzida em comparação com outras instituições de ensino superior.

Reafirmo a necessidade urgente de uma política que viabilize a imediata recomposição do PCV, pois medidas paliativas acabam gerando confusão na comunidade ao envolver valores que podem ser revogados a qualquer momento, além de consumirem recursos que deveriam ser direcionados à recomposição salarial de maneira estrutural e definitiva, inclusive para nosso quadro de inativos que possui paridade com o quadro ativo.


Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf e Bolsista Produtividade 1A do CNPq.

Projeto da Uenf usa desenhos feitos por crianças para refletir sobre dinâmicas territoriais em Campos dos Goytacazes

atividade gráfica

A proposta de utilizar o desenho como ferramenta central para a pesquisa etnográfica surgiu a partir dos resultados da exposição “Meu Bairro é Bonito”, que evidenciaram o potencial observador e narrativo das crianças do território em que se localiza o residencial João Batista. O projeto irá propor através de reflexões sobre as dinâmicas territoriais a confecção de desenhos pelas crianças, permitindo o surgimento de novas formas narrativas capazes de evocar graficamente ideias, encontros, diálogos, observações e percepções sobre a vida social das crianças e do contexto em que vivem.

projeto desenho

A experiência terá início no pátio do residencial, com exercícios que visam a troca entre pesquisadores e o universo pesquisado, buscando compreender a dinâmica urbana a partir dos múltiplos pontos de vista que emergem do olhar infantil.

Durante a atividade, as crianças serão incentivadas a desenhar não apenas com base no que veem no território, mas de forma a expressar suas experiências, emoções e reflexões sobre o bairro e a cidade. Este processo permite que o desenho se torne uma ponte para o diálogo e a troca, permitindo que as crianças partilhem suas percepções de forma criativa e significativa.

A análise do material produzido buscará enfrentar questões centrais para a prática da pesquisa antropológica, tais como, os desafios do trabalho de campo e as múltiplas interpretações que podem surgir das narrativas visuais. Este processo permitirá ampliar a compreensão sobre como as crianças vivenciam e narram seu mundo, oferecendo contribuições únicas para o entendimento das relações sociais e do espaço urbano que habitam.

A reitoria da Uenf flerta com contratos temporários para docentes e ameaça de morte projeto de universidade de Darcy Ribeiro

temporário

Confrontada com sua própria incapacidade negociar com o governador Cláudio Castro questões básicas como o novo Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) e a realização de concursos para docentes cuja ocorrência está permitida até pelo draconiano regime de recuperação fiscal (RRF), a atual reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) vem lançando mão de uma série de ações do tipo “band aid” que refletem o grau de incapacidade de gestão existente.

Agora, temos a notícia de que a reitoria da Uenf está flertando com a adoção de um modelo de contratos temporários para cobrir a falta de docentes em determinadas áreas. O modelo que estaria sendo imitado é o da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec) que recentemente lançou mão desse expediente para garantir a contratação de 664 professores para atuarem apenas nos anos letivos de 2024 e 2025.

Afora dizer que os modelos institucionais da Uenf e da Faetec são completamente diferentes, o problema é que contratos temporários podem funcionar quando se está pensando apenas no oferecimento de aulas por um período relativamente curto, mas se tornam um verdadeiro Cavalo de Tróia quando se pensa na formação universitária onde é necessário, além das aulas, se ter acesso a atividades de pesquisa e extensão.

Ao flertar com essa hipótese, a reitoria da Uenf esquece que na sua co-irmã mais poderosa, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a contratação de professores temporários acabou há exatamente 10 anos gerando uma intervenção do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro para obrigar a realização de concursos para vagas permanentes após anos de congelamento.  Essa ação do MP/RJ ocorreu após provocação da associação de docentes da Uerj (Asduerj) que demonstrou a piora das condições de trabalho e de performance da qualidade geral das atividades universitárias por causa da quantidade persistente de contratos temporários.

A verdade é que se essa proposta for implementada na Uenf, o que estará se matando é a proposta institucional de Darcy Ribeiro que não apenas tornou a instituição a primeira do Brasil a ter apenas docentes com dedicação exclusiva, mas também pagando os melhores salários do país no ano de sua fundação. Em vez de termos a Universidade do Terceiro Milênio idealizada por Darcy, o que os contratos temporários criarão será uma situação de inviabilização do tripé ensino-pesquisa-extensão e a instalação de um modelo precarizado em que docentes sem estabilidade estarão sempre na  espera da renovação ou não de seus contratos.

Por essas e outras é que essa proposta não pode prosperar e deve ser rejeitada de pronto. É que não se pode admitir que, por falta de capacidade de gestão, se recorra a um expediente que já deu provas que não resolve, mas apenas cria problemas.  O que deixará o governador Cláudio Castro ainda mais livre para impor ainda mais precarização nas universidades fluminenses. Será  tipo sai a Universidade do Terceiro Milênio, e entra a Uberversidade ou a IFoodsidade.

No velório do Arquivo Municipal, o culpado de sempre: o mordomo

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Por Douglas Barreto da Mata

A sabedoria popular ensina, quando alguém não quer assumir responsabilidades ou quer protelar algo, cria uma comissão.  É isso que a reitoria da Universidade Estadual do Norte do Fluminense (Uenf) e outras instituições criaram hoje, como veiculado pela própria universidade. 

Bem, ensina o método científico que um fenômeno tem sempre uma causa, que deve ser escrutinada, a fim de explicar aquele evento, e de acordo com o objetivo pretendido, o conhecimento arrecadado poderá replicar eventos similares, se desejável, evitar essa replicação, ou propor novos eventos, com atualizações e melhoramentos dos processos que o criaram.  No caso da Uenf e da morte do Arquivo Público parece que o corpo será sepultado sem autópsia.

Em resumo, sem definir de quem são as responsabilidades pela omissão que agravou um quadro já dramático, e pior, mantendo a frente as mesmas pessoas que se omitiram, ou a continuidade delas, já que é cediço que a atual reitoria deriva politicamente da sua antecessora, parece que além do “assassinato” do Arquivo Municipal, teremos o mordomo como culpado.

É bom que se diga que há quem entenda que o depositário e responsável pelo uso da verba responde como agente garantidor pelos danos resultantes da omissão, que é indiscutível.  Como garantidores podem responder na forma dos artigos 10 da Lei 14230/2021 e/ou artigo 62, II, da Lei 9605/1998.

Não existe fato sem uma causa.  Por certo, o quadro que exigiria pronta intervenção e um determinado valor para sua execução, é bem provável que requeira valores maiores, já que os danos se agravaram, durante todo o período de contemplação do numerário na conta pelos “gestores”. 

A ressurreição do Arquivo é tarefa similar àquela que levantou Lázaro. A morte do Arquivo Público Municipal é consequência da incompetência e incapacidade, travestidas em um excesso de zelo que, ainda que se justifique, não afasta a imperiosa necessidade de promover alternativas que contornam supostos problemas. O excesso de zelo não pode destruir o que se quer proteger.

Esta é a natureza do serviço público e do ato administrativo, e por essa razão gozam os gestores e seus atos de presunção de legitimidade. Como eu não creio em milagres, nem tampouco em quem comete os mesmos erros e espera resultados diferentes, procuro o mordomo mais próximo.

O melancólico fim do Arquivo Público Municipal

arquivo publico

Por Douglas Barreto da Mata 

Não é coincidência, aliás, nada é.  Como disse a personagem do filme Matrix, o Merovíngio: “onde todos vêem coincidência, eu vejo consequência.” 

Lá pelos idos de 1999/2000, fiz parte da equipe de Lenílson Chaves Jr, quando ele ocupou a presidência da Fundação Cultural “Jornalista Oswaldo Lima”(FCJOL).  O governo era de Arnaldo Vianna, na época aliado de Anthony Garotinho. Enquanto a cidade destinava milhões para contratos e cachês de shows, as políticas públicas de cultura mais baratas e de “menor repercussão” eram relegadas a um segundo plano. 

Tudo certo, afinal, são escolhas políticas, e quem faz alianças a elas se submete. Pois bem, Lenílson era uma usina de ideias, um cara inquieto, uma força da natureza, mas sempre com sorriso no rosto e um humor cortante, às vezes até mal interpretado.

Estive perto para assistir sua luta e criatividade para multiplicar os caraminguás de um orçamento desidratado, para uma fundação primo pobre, como quase sempre acontece com a cultura.  Foi com ele que nasceu a primeira Bienal, tendo Ziraldo como criador da primeira logomarca, e como integrante ativo do “cast” de escritores, onde eu me lembro de Afonso Romano de Sant’anna, Frei Beto, dentre outros. 

Outra luta dele foi a recriação das casas de cultura, nas antigas estações ferroviárias da Rede Ferroviária Federal, depois privatizada, a FCA.

Lenílson tinha apreço especial pelas liras e bandas centenárias, e tentou criar um calendário fixo de apresentações, para dar fôlego àquelas manifestações musicais, bem como se engajou para restaurar a sede incendiada da centenária Lira de Apolo. Algumas lutas tiveram sucesso, outras não.  Mas lutou todas.

Fiz essa longa e sentimental introdução para falar do Arquivo Público.  Poucos sabem que a esmagadora maioria daquele acervo estava apodrecendo nos porões da então biblioteca municipal Nilo Peçanha, incluindo aí exemplares raros dos jornais da cidade, fontes históricas preciosas.

Foi na gestão de Lenílson que começaram as tratativas para transferência desse rico material para da Universidade Estadual Norte Fluminense (Uenf), através da sua então pró-reitora de extensão , professora doutora Lana Lage da Gama Lima.  Só então a ideia de um arquivo, com a sua sede no Solar do Colégio, tomou corpo, e foi indicado como primeiro diretor o professor Carlos Freitas, que ali esteve por bom tempo.

Todo esse tempo a ideia da preservação da memória campista obteve o mesmo solene descaso, não importando a cor ideológica dos gestores, se mais inclinado para esquerda ou para direita.

Talvez seja a hora de dizer:  É o fim do Arquivo Público Municipal. Quer dizer, dessa concepção de arquivo vinculada à FCJOL e à Uenf.

Infelizmente, ele morreu não (só) por falta de verbas, mas antes por falta de compromisso com a imperiosa necessidade de se arquivar, tratar e destinar documentos. Esta é uma atividade que acompanha a humanidade desde que aprendemos a rabiscar coisas em alguma parede de caverna ou papiro.

É preciso retirar a arquivologia municipal da seção de cultura, em primeiro lugar. Outra medida urgente é afastar a Uenf o quanto antes.  Arquivo é matéria afeita à ciência, aos direitos humanos, ao campo de estudos jurídicos, enfim, não é um enfeite estético ou um produto cultural em senso estrito, ainda que possa também cumprir esse papel residual.

Geralmente, os arquivos públicos no mundo se vinculam aos setores de justiça, ou de ciências, ou de administração e patrimônio.  Guardar documentos é coisa séria, é um testamento às gerações vindouras, que poderão saber como cargas d’água nós construímos o que lhes foi entregue, para aproveitar os sucessos e evitar repetir erros. 

A generosa verba de 20 milhões para restauração do prédio do arquivo, e a inércia de uma universidade que se encontra atolada em um lodo institucional sem precedentes, são a prova de que o acessório segue o principal, ou seja, se o arquivo está por conta da Uenf, seu destino é a ruína.

A Uenf deixou de ser o que se propunha faz muito tempo.  Ela é hoje a traição viva àquilo que seus idealizadores imaginavam. Virou uma mera replicadora de modismos “de inovação”, repositório de narrativas tipo “coach”, e certificadora de diplomas e titulações.  Não tem, como comprovado, capacidade de gerir nada, e muito menos de propor algo.

Portanto, é chegada a hora de falar menos e agir mais.  Se a prefeitura e o atual prefeito têm a intenção de resolver o problema cabe, em caráter de urgência, pedido à justiça para que a secretaria de obras possa executar a restauração, e o repasse venha dos fundos estagnados na poça uenfiana da incompetência.

Uenf sofre com chuvas torrenciais, apesar de obras milionárias

uenf

Chuvas estão levando caos ao interior do campus da Uenf em Campos dos Goytacazes

Apesar de um pacote de obras milionárias em curso há pelo menos dois anos, as chuvas torrenciais que caem na cidade de Campos dos Goytacazes estão deixando muitos grupos de pesquisa da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) com o coração na boca. É que cenas sendo circuladas em grupos de Whatsapp estão mostrando situações muito problemáticas que colocam equipamentos científicos sob risco de perda total (ver imagem abaixo).

Como não se faz pesquisa sem equipamentos ou com laboratórios inundados, a pergunta que muitos professores da Uenf estão se fazendo neste sábado é de porque obras relativamente simples como a troca de telhados se arrastam por tanto tempo, em que pese as placas de obras que mostram gastos milionários. É simplesmente um descompasso que precisa ser explicado. Nesse caso, a palavra está com a reitoria da Uenf.

Ah, sim, talvez essa situação no campus Leonel Brizola explique aos vereadores e ao prefeito Wladimir Garotinho o porquê de tanta demora em se iniciar as obras no prédio do Solar do Colégio.  É a velha história, se até em casa o espeto é de pau, imaginem como pode ser no churrasco na casa dos outros.

O imbróglio da reforma do Solar do Colégio tem novo capítulo: reitora da Uenf se reúne com vereadores

A Assessoria de Comunicação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) publicou ontem uma nota dando conta da visita de três vereadores à reitora Rosana Rodrigues para tratar do imbróglio envolvendo o atraso na reforma do prédio histórico que abriga o Arquivo Público Municipal. A comissão de vereadores incluiu  os vereadores Fabio Ribeiro, Kassiano Tavares e Juninho Virgílio (ver imagem abaixo).

reuniao

Como a nota só deu espaço para as falas da reitora da Uenf, vamos esperar para ver o que dizem os vereadores sobre o que transpirou nesse encontro. 

Ainda sem saber se o que foi narrado acalmou os corações dos três vereadores, eu teria a dizer a eles, especialmente o meu colega de universidade Fábio Ribeiro, que sem a devida pressão, desse mato continuará não saindo coelho. 

E a meteorologia prevê chuvas com alguma intensidade para os próximos, nunca é demais lembrar.

Imbróglio envolvendo Uenf e Prefeitura na reforma do prédio do Arquivo Público Municipal agita Câmara de Vereadores

raul wladimir

Em algum lugar do passado, Bruno Dauaire, Raúl Palacio e Wladimir Garotinho seguram a planta do Solar do Colégio, sede do Arquivo Público Municipal. Mas reforma que é bom, nada…

Desde o início de 2022 já abordei por diversas vezes o estranho caso de uma verba de R$ 20 milhões que foi disponibilizada pela Assembleia Legislativo do Rio de Janeiro (Alerj) para reformar o prédio histórico do Solar do Colégio que abriga o Arquivo Municipal de Campos dos Goytacazes (Aqui!, Aqui!, Aqui!Aqui!). A coisa já se estendeu tanto que o presidente da Alerj que era André Ceciliano (PT) passou a ser Rodrigo Bacellar (União Brasil) e o cargo de reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) que era ocupado por Raul Palácio, agora é exercido por Rosana Rodrigues.

A coisa começou muito mal explicada, pois nunca ficou claro porque os R$ 20 milhões foram parar na Uenf, mas esse foi só o começo da história. Uma das questões mais apontadas é o fato de que a realização de reformas em prédios históricos exige um tipo de expertise que a universidade fundada por Brizola e Darcy Ribeiro simplesmente não tem.

A exasperação com a demora da Uenf em realizar a coisa mais básica que seria uma licitação para apontar quem faria a reforma já ficou clara em diversas ocasiões desde que o dinheiro chegou há quase 2 anos.  Entretanto, com mais um ano próximo de se encerrar, o que significa que o período chuvoso vai se iniciar, agora a coisa tomou um tom de cobrança ainda mais aberto, inclusive no plenário da Câmara Municipal de Vereadores (ver vídeo abaixo).

Como fui uma das poucas vozes críticas em relação a essa triangulação esquisita envolvendo Alerj, Uenf e Prefeitura de Campos, eu não tenho nenhum prurido em afirmar que esse caso nunca foi abertamente discutido pela comunidade universitária.  Assim, não acho justo que o ônus sendo gerado pela incapacidade evidente de iniciar a obra seja jogado nas costas de todos os que labutam diariamente na Uenf.

Por outro lado, como a reitora da Uenf já está praticamente no final do seu primeiro ano como a dirigente que “segura a caneta” na Uenf (para usar uma terminologia que a professora Rosana Rodrigues usou durante a campanha eleitoral que terminou com sua eleição), me parece que está na hora dela dar as respostas que estão sendo demandadas há algum tempo pela sociedade campista, e agora também pela Câmara Municipal de Vereadores. Afinal, as preocupações em torno do atraso das obras são mais do que justificadas.

E nunca é demais lembrar que a próxima estação de chuvas poderá comprometer ainda mais as condições estruturais do Solar do Colégio, impondo graves riscos para toda a documentação que se encontra no interior do Arquivo Público Municipal.

A Uenf e o Porto do Açu: um acordo de cooperação que só servirá aos donos do enclave

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Enquanto agricultores que tiveram suas terras tomadas aguardam pelas indevidas devidas há mais de uma década, a Uenf serve para dar credibilidade às fantasias de ESG do Porto do Açu

Graças a uma iniciativa singular de um colega, pude revisitar brevemente a criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) como um daqueles produtos benignos do fim do ciclo militar inaugurado com o golpe de estado de 1964.   O fato é que foi graças à mobilização popular ocorrida em Campos dos Goytacazes e à eleição de um líder político exilado pelo regime militar, no caso Leonel Brizola, que a Uenf foi criada. E se sublinhe, com um desenho institucional altamente inovador, pois Brizola entregou a um intelectual militante, Darcy Ribeiro, a tarefa de desenvolver um modelo institucional que estivesse à altura dos desafios impostos pela realidade socialmente injusta que existia (e persiste) na região Norte Fluminense.

Passadas mais de três décadas da criação da Uenf, sua gênese nas lutas populares está majoritariamente esquecida, e na instituição fundada por exigência do povo pobre de Campos dos Goytacazes está instalada uma visão empresarial (que nada tem de empreendedora) que não apenas ignora os objetivos fundacionais da instituição, mas dá passos largos para apagá-los.

Um exemplo disso é um termo de cooperação em vias de ser assinado com o Porto do Açu, empreendimento que não passa de um enclave geográfico que está posto na paisagem do V Distrito como um elemento estranho para sugar tudo o que puder, deixando um rastro de destruição social e ambiental. Nas palavras de um respeitado pesquisador aqui da região “o Porto só quer tirar e só se importa com o que é bom para ele”.

 O fato é que para o Porto do Açu e seus proprietários alojados no fundo de “private equity“, o EIG Global Partners, acordos com instituições universitárias públicas como a Uenf (mas também a UFF-Campos e o IFF) são muito interessantes porque garantem mais uma meia página (ou uma, quando muito) nos relatórios anuais de governança corporativa. Isso acaba valendo milhões de dólares para os acionistas secretos de fundos de private equity, pois no mercado da governança sócio-corporativa (ESG), este tipo de acordo serve para acomodar preocupações dos seus investidores. Já para a Uenf (e UFF e IFF), o que fica é uma enorme mancha na imagem de que são instituições realmente voltadas para contribuir para um processo de desenvolvimento social e ambientalmente justo, e não para perpetuar um modelo que é social e ambientalmente desagregador e segregador.

Tenho que frisar aqui o estudo recentemente completado pela minha orientanda Jesa Mariano no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais que mostrou que os programas de ESG do Porto do Açu não mudaram em nada a vida dos habitantes do V Distrito de São João da Barra, especialmente agricultores familiares e pescadores artesanais, que receberam e recebem as piores consequências da instalação desse enclave geográfico.

Aliás, como alguém que vem realizando pesquisas no V Distrito de São João da Barra desde antes do início da instalação do Porto do Açu, posso dizer que as questões que valem a pena de serem pesquisadas ocorrem fora das cercas que demarcam o território desse enclave internacional. Tanto é verdade que já desses estudos já saíram dissertações de Mestrado e teses de doutorado que resultaram em capítulos de livros e incontáveis artigos científicos. 

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Agricultores protestam na Barra do Açu contra a tomada de suas terras para implantação do Porto do Açu

O inconveniente para o Porto do Açu e seus proprietários é que esses trabalhos realizados sem a chancela oficial de acordos de cooperação como o que está para ser assinado com a Uenf mostram os graves efeitos ambientais e sociais que o enclave vem causando em São João da Barra. A começar pelo fato de que as centenas de propriedades forçosamente tomadas, muitas vezes com o uso de violência extrema, pelo governo do Rio de Janeiro de seus legítimos proprietários agora se encontram sob controle de fato do Porto do Açu, sem que seus proprietários, agricultores pobres, tenham sequer a perspectiva de que um dia serão ressarcidos pela perda de suas terras. 

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Agricultor mostrando seu plantio de abacaxi afetando pela salinização causada pelo Porto do Açu

Mas estudos realizados pelos meus orientandos no Setor de Estudos sobre Sociedade e Meio Ambiente (Sesma) do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA) também já identificaram a ocorrência de um processo erosão costeira e de salinização de águas continentais, fatos que complicam ainda mais a existência daqueles que se recusam a abandonar um território forte e negativamente impactado pela implantação do Porto do Açu.

Apesar da eventual assinatura de um termo de cooperação entre Uenf e Porto do Açu, uma coisa é certa: os estudos que documentam os malfeitos do enclave geográfico vão continuar, pois na instituição criada por Brizola e Darcy ainda há quem queira cumprir os objetivos fundacionais do que deveria ser uma Universidade do Terceiro Milênio comprometida com a felicidade do povo e não de quem o faz sofrer. E mais importante, enquanto os atingidos não forem ressarcidos e os danos ambientais continuarem avançando, o que não faltará é objeto de pesquisa. E no que depender de mim e dos meu grupo de pesquisa, o compromisso sempre será com os atingidos, compromisso esse que nunca caberá em acordos que só beneficiarão os donos do enclave.

Uenf e a miragem da escola de cinema: o projeto de uma universidade que ensina javanês

darcy ribeiro

Darcy Ribeiro idealizou uma escola de cinema na Uenf, mas a realidade se mostrou mais desafiadora do que seus planos

Por Douglas Barreto da Mata

Há alguns anos atrás conheci um grupo de promissores estudantes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), todos vinculados ao Centro de Ciências do Homem.  Parte desse grupo cumpriu a expectativa, e se consolidou como cientistas respeitáveis em suas áreas de estudo, mas acima de tudo, coerentes.  A outra parte decidiu aprender o javanês, alguns tiveram aulas até com o maior especialista na língua de Java, e se tornaram discípulos do grande Roberto Mangabeira Unger, o erístico.

Para quem não sabe, vale a pena pesquisar no Google, e descobrir esse saboroso conto de Lima Barreto, onde ele, com ironia fina, desvenda um personagem típico.  O homem que sabia javanês, em resumo, é uma fraude, que a todos engana com falsa erudição, palavreado rebuscado, modos janotas, e através desse engodo ascende socialmente. 

Ao ler sobre a intenção da atual reitoria da Uenf, e de um grupo de homens e mulheres que sabem o javanês em promoverem a instalação de uma “escola de cinema” ou de uma disciplina na grade curricular da Uenf nesta área, eu pensei:  Zeus, de onde vem essa gente?

Eu não vou abordar o tema pela ótica pessimista, pois amo cinema e seria um sonho realizado ter uma iniciativa bem sucedida desta natureza.  Sou um entusiasta da ideia, mas sei a diferença entre o delírio e a possibilidade, por mais remota que seja.

Vamos pela realidade mesmo.  Cinema é coisa cara, caríssima, e não à toa essa indústria é típica de países ricos, com raras exceções, como Argentina e Irã.  Outros países, como a França, além de ricos, cobram severos impostos dos filmes dos EUA, e estabelecem cotas de exibição de produções nacionais nas salas de exibição, TV e etc.  Com isso criaram um cinema francês.

Aqui, a menor menção de proteção a um mercado nacional cultural é uma heresia grave.  Dizer que 70 salas de exibição no passado ou citar locações de novelas e filmes como pontos de partida para instauração de um polo de cinema local é bizarro.  Acho que nem vale a pena comentar essa tolice, típica de gente que chora o fim de uma loja de livros escolares, chamada de livraria centenária, do tempo que só a elite sabia ler. 

Mesma coisa com o famoso Teatro Trianon, símbolo da exclusão cultural de um povo pobre, cuja elite caipira se esperava em copiar jeitos e trejeitos daquilo que almejava ser, cosmopolita. 

No atual estágio da indústria cinematográfica, o surgimento de um enclave de cinema aqui requer muita grana, muita mesmo, e não só de forma sazonal, mas perene, para que, talvez em dez ou vinte anos se estabeleça uma cadeia da atividade, que se constitui de técnicos, engenheiros, atores, diretores, roteiristas, produtores, etc.

Porém, não é só isso.  Um projeto dessa magnitude não pode repetir o erro de manter as classes populares fora da iniciativa, restringindo a política de cultura aos de sempre: ricos e seus sabujos da classe média.  Cabe ainda dizer que nenhum país ou região, que hoje são referências nesse setor, a indústria cinematográfica foi criada de forma instantânea, e sem contingentes históricos especiais e raríssimos.

Mesmo que chova dinheiro do BNDES, ou de investidores estrangeiros, ou que fizéssemos grandes festivais, mesmo assim isso não significa que faríamos cinema.  Gramado é famosa por seu festival e pela premiação.  Cannes idem.  Nenhuma das duas cidades produz cinema.

É preciso honestidade, seriedade e, mais que tudo, sinceridade para iniciar um processo com esta escala.  A Uenf mal consegue se manter de pé, como vai abraçar uma empreitada dessas? Será que o destino da universidade é institucionalizar aventuras?

Enfim, cabe perguntar, sem ofensas, mas por curiosidade:  Se Darcy Ribeiro, com seu nome e contatos, com sua força intelectual e sua legitimidade, não conseguiu, serão os que sabem javanês que o farão? Fica aí a sugestão de primeiro roteiro, sai até de graça, porque a obra de Lima Barreto já é de domínio público:  a universidade que ensina javanês.