Um epitáfio para Paulo Roberto Moreira

Na maioria das vezes, a morte de qualquer pessoa acaba sendo mais sentida dentro do seu círculo familiar.  Mas quando essa pessoa se insere dentro de comunidades maiores do que se sua própria família, a sensação de perda acaba se alargando.  Em uma instituição universitária relativamente pequena como é o caso da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), quando um dos nossos membros falece há sempre uma inevitável sensação de perda coletiva.  Mais ainda quando a pessoa esteve entre nós executando suas tarefas de forma eficiente e com requintes de gentileza e civilidade.

Por isso, o anúncio da morte do servidor Paulo Roberto Moreira, o Paulinho, acabou pegando muita gente de surpresa e com uma inevitável sensação de perda.  Conheci o Paulo Roberto Moreira assim que ele ingressou no nosso quadro de servidores em 2000.  Assim, ainda que eu não tenha tido contato com ele nos últimos anos após sua lotação na Agência de Inovação da Uenf, tenho dele a lembrança de um servidor que não recusava dar informações precisas a quem as solicitava.

Eu diria que o Paulo Roberto era o reverso da imagem que os detratores do serviço público gostam de colar nas costas dos servidores públicos. Ele era eficiente, discreto e comprometido com suas tarefas cotidianas.  E cumpria suas obrigações com ar de gentileza que tornava fácil a resolução de problemas complexos.

Na aula inagural ministrada por Darcy Ribeiro em 1993, o nosso fundador disse que universidades não feitas por prédios novos e equipamentos caros, mas por pessoas. Naquele dia Darcy disse que não queria que ninguém se deixasse enfeitiçar pelas coisas que compunham a Uenf, pois as pessoas é que faziam a coisa andar.  Esse ensinamento de Darcy Ribeiro não poderia ser mais adequado para expressar a importância que Paulo Roberto Moreira teve em seus 25 anos servindo com toda dedicação à causa da construção da Uenf.  Espero que ele seja sempre lembrado por isso.

Um epitáfio para Gilca Alves Wainstein

Brasil perde o talento da professora bocaiuvense Gilca Alves Wainstein – Em  Cima da Notícia

Faleceu no última dia 09 de setembro aos 89 anos, a professora Gilca Alves Wainstein, presidente da Fundação Estadual do Norte Fluminense (Fenorte) no momento da instalação da Universidade Estadual do Norte Fluminense. Não a conheci pessoalmente, pois quando cheguei a Campos dos Goytacazes em janeiro de 1998, ela já não presidia a Fenorte. Mas quem conviveu com ela nos anos iniciais da Uenf, sabe que ela teve um papel fundamental para viabilizar um projeto que era muito complexo e difícil de compreender tamanha era a transformação que Darcy Ribeiro propunha na forma em que a nova universidade deveria funcionar.

Mas a história diz que a genialidade de Darcy só pode se transformar em materialidade uenfiana por causa da experiência e da obstinação de Gilca Alves Wainstein. Ela trouxe para a Fenorte, a experiência de ter sido diretora da Fundação de Apoio da UFMG (Fundep). Também na UFMG teve papel decisivo na consolidação do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) e do Departamento de Química. 

Gilves Alves Wainstein era natural de Bocaiúva, município que fica distante apenas 48 km de Montes Claros, cidade natal de Darcy Ribeiro.  Talvez por essa proximidade geográfica, a relação dos dois era de admiração, como demonstrado em uma entrevista realizada em 1984 em que Darcy fez o papel de entrevistador de Gilca, tendo sido mediada pelo então reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), professor Charley Fayal de Lyra (ver vídeo abaixo).

Os diálogos travados entre Gilca e Darcy quase uma década antes da implantação da Uenf já mostrava que ali estavam dois educadores com uma visão que transcendia a mesmice e as rotinas que até hoje impedem que a universidade brasileira se desenvolva plenamente.  A comunhão de ideias entre Darcy e Gilca mostrada nessa entrevista em torna da necessidade de uma universidade que subvertesse a ordem estabelecida já antecipava o papel que eles teriam na criação da Uenf. 

História sendo feita: Gilca Wainstein ao lado de Darcy Ribeiro, Wanderley de Souza (primeiro reitor da Uenf) observam Oscar Niemeyer mostrando a planta do futuro campus da Uenf em Campos dos Goytacazes

Pelo papel que Gilca Alves Wainstein teve na criação da Uenf, deixo aqui um salve. E que possamos estar à altura de sua visão de universidade, não apenas agora, mas sempre.

Milagre uenfiano pós-audiência: depois de quase 1 ano parado, processo do PCV volta da Reitoria para a Casa Civil

Professores e servidores reunidos com o presidente da Comissão de Servidores Públicos da Alerj, Flávio Serafini, ao final da audiência realizada na Alerj no dia 11/09/2025

Um dos primeiros atos realizados em maio de 2025 pelas nova diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf) foi enviar uma correspondência à reitora da instituição, Profa. Rosana Rodrigues, solicitando informações sobre as razões do processo referente ao novo Plano de Cargos de Vencimentos estar parado no seu gabinete desde o dia 20 de setembro de 2024 (ver imagem abaixo).

No entanto, apesar de não ter respondido diretamente à Aduenf, a reitora Rosana Rodrigues fez publicar 3 dias depois do envio da correspondência da Aduenf, uma carta aberta à comunidade universitária da Uenf onde, entre negativas e confirmações, ela dizia estar buscando outros caminhos, aparentemente em vão, para fazer avançar a aprovação do novo PCV dos servidores da Uenf. Para quem não sabe, o atual PCV, publicado em 2006, está defasado em vários aspectos, incluindo na malha salarial que sofreu poucas alterações em quase 20 anos. O resultado disso é que cálculos do DIESSE indicam que a perda salarial dos professores está em torno de 50%, fato que também se estende aos servidores técnico-administrativos que atuam na instituição.

Com base na constatação de que o trâmite do processo do novo PCV da Uenf estava parado no gabinete da reitora desde setembro de 2024, a diretoria da Aduenf procurou e recebeu acolhida no gabinete do presidente da Comissão de Servidores Públicos Estaduais, deputado Flávio Serafini (PSOL), para começar os esforços para destravar a situação.  A partir desses contatos, Flávio Serafini esteve no campus Leonel Brizola no dia 26 de agosto onde manteve duas reuniões com professores e servidores não docentes para tratar da realização de uma audiência pública na Alerj para buscar soluções para o destravamento do processo do PCV.

Essa audiência aconteceu na última 5a. feira (11/9) e teve a participação dos sindicatos de professores (Aduenf) e servidores técnico-administrativos (Sintuperj), da reitora Rosana Rodrigues, e de uma representante do ANDES-SN.  Já do lado do governo de Cláudio Castro houve a presença de um representante da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia e de um representante da Secretaria da Casa Civil, o subscretário de Gestão de Pessoas, Alexandre Meyohas.  Após uma série de manifestações, o subsecretário Alexandre Meyohas solicitou que a reitoria da Uenf devolvesse o processo referente ao PCV  para a Casa Civil para que fosse feita uma revisão de cálculos dos valores, levando em conta a defasagem salarial a partir de 2021, além da inclusão dos aposentados e os cargos comissionados no cálculo.

Incrivelmente (quase que como em um milagre) o retorno do processo do gabinete da reitora Rodrigo Civil para a Casa Civil foi feito antes mesmo que a audiência pública fosse encerrada pelo deputado Flávio Serafini (ver imagem abaixo),  e com todos os cálculos solicitados pelo subscretário Alexandre Meyhohas (ver imagem abaixo).

Esta velocidade repentina por parte da reitoria da Uenf tem o dom de abrir o caminho para o tipo de solução que foi apontada por Flávio Serafini durante a audiência. Eu, de minha parte, fico apenas pensando porque não se fiz isso antes. Talvez porque tenha faltado mobilização política dentro do campus, o que acabou acontecendo com a realização da audiência pública da última quinta feira?  É bem provável.

Mas o que fica claro, mais uma vez, é que sem mobilização política a solução dos problemas fica sempre mais difícil. Mais uma razão para que a mobilização que já está acontecendo ganhe ainda mais força, pois há que se garantir a aprovação do novo PCV antes do periodo de restrições que é imposto pelo calendário eleitoral de 2026.

Finalmente, há quem diga que não adianta mobilizar e o melhor é esperar sentado para ver que bicho dá.  O que me parece claro, mais uma vez, é que milagres só acontecem para quem luta.

Políticas Sociais da Uenf lança edital de seleção para ingresso em 2026 (Mestrado e Doutorado)

O Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais (PPGPS) da Universidade Estadual do Norte Fluminense lançou hoje o seu edital de seleção para Mestrado e Doutorado para 2026.

O PPGPS está disponibilizando 20 vagas para Mestrado e 8 para Doutorado que estão distribuídos pelas duas linhas de pesquisa nos quais está estruturado.

Os interessados em se tornarem pós-graduandos no PPGPS poderão fazer inscrições no período que vai de 01/09/2025 a 01/10/2025.

Informações completas sobre esta seleção podem ser obtidas no Edital de Seleção que está disponível [Aqui!].

Deputado Flávio Serafini vem a Campos para cumprir agendas na 3a. feira (26/8), duas delas na Uenf

O deputado estadual Flávio Serafini (PSOL), que preside a Comissão de Servisores da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) estará em Campos dos Goytacazes para cumprir uma série de compromissos, dois deles no campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) (ver imagem abaixo).

Essa visita é particularmente importante porque os servidores da Uenf esperam há mais de dois anos pelo envio do seu Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) para a Alerj,  e demandam que o governador Cláudio Castro pague duas parcelas atrasadas de parte das perdas inflacionárias ocorridas nos últimos anos.

Os servidores da Uenf também estão preocupados com a decisão do governador de retirar recursos dos royalties do seu fundo próprio de pensão, o RioPrevidência.  Se o projeto de lei enviado por Cláudio Castro for aprovado é quase certo que haverá muita instabilidade na capacidade de pagamento de pensões e aposentadorias pelo RioPrevidência.

Por isso, a vinda de Flávio Serafini ganha uma relevância espacial, especialmente porque os professores já decidiram que irão paralisar suas atividades no dia 11 de setembro para participar de uma audiência pública que ocorrerá na Alerj para tratar das pautas que deverão ser abordadas nos encontros desta 3a. feira.

Estudantes da UENF são convidados para participar em pesquisa sobre manguezais

Aves e Árvores: Visita à Reserva Biológica de Guaratiba (RJ)

Os professores Carlos Eduardo de Rezende, do Laboratório de Ciências Ambientais do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB), e William Vasquez,  da Fairfield University (EUA),  estão convidando os estudantes da  Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) para participar de uma pesquisa sobre as preferências dos estudantes em relação às reservas florestais de manguezal.

O questionário é simples, leva aproximadamente 15 minutos para ser respondido, e a participação dos estudantes é voluntária, não remunerada e totalmente confidencial. As respostas coletadas contribuirão com dados relevantes para subsidiar políticas públicas e programas voltados ao aprimoramento da gestão dessas áreas. 

Quem desejar  saber mais sobre o projeto e responder ao questionário, deve clicar no link abaixo:

[https://fairfield.iad1.qualtrics.com/…/SV_7WY8pUUBke3tNnE]

Os professores Rezende e Vasquez agradecem antecipadamente a quem se dispuser a participar da pesquisa.

Nos 32 anos da Uenf é urgente redescobrir Darcy Ribeiro e praticar sua rebeldia insurreta

A Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) completa 32 anos neste sábado friorento para os padrões campistas, e as celebrações oficiais já se iniciarem ontem com uma magnífica apresentação na Casa de Cultura Villa Maria do Septeto Lira Carlos Gomes de Estância (SE), um grupo musical que brindou os presentes com um show de altíssima qualidade.

Estando na Uenf desde janeiro de 1998 posso dizer que fui testemunho de muitos momentos importantes na consolidação da universidade que Darcy Ribeiro denominou de “Universidade do Terceiro Milênio”, e posso dizer que a minha própria evolução como profissional e pessoa está diretamente ligada aos caminhos e descaminhos trilhados pela instituição.  Tendo sido o fundador do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA) e participado da consolidação do Centro de Ciências do Homem (CCH), não apenas testemunhei, mas me envolvi diretamente na construção da Uenf.

Como alguém que sempre adotou posições de questionamento, posso dizer que ganhei mais do que perdi nos embates internos, o que é aceitável já que quando se entra em disputas só em ditaduras há a certeza de que se ganhará sempre, caso você esteja alinhado aos ditadores, ou seja o próprio ditador. 

Mas não posso deixar de dizer que a Uenf que me atrai a Campos dos Goytacazes não existe mais, o que também é perfeitamente aceitável, pois instituições evoluem e não podem ser estáticas, sob o risco de se extinguirem por perder sua utilidade social.  Algumas das transformações ocorridas na Uenf foram impostas por forças externas que a transformaram ao impor novas regras e costumes mais adequadas ao mundo neoliberal em que o Brasil foi afundado.  Outras transformações, entretanto, foram resultado de conjunturas internas e que resultaram de determinados acordos de maioria. Como não sou chorar sobre o leite derramado também vejo a minha condição de minoria como normal, pois as minorias em algumas conjunturas históricas são das que possibilitam as maiorias a se reposicionarem e não ficarem anestesiadas como um Narciso na frente do espelho.

Agora, me vejo na obrigação de observar que em seu estado atual, a Uenf está muito longe de representar a utopia transformada em concreto por Darcy Ribeiro. A principal razão para isso é que se esqueceu e se deixou de transmitir as ideias mais provocativas de Darcy em prol de uma versão domesticada e acomodada de universidade.  As regras das agências de fomento que equivocadamente beneficiam a quantidade em detrimento da qualidade ganharam tons de verdade inquestionável dentro da universidade, o que certamente causaria um ataque de fúria em Darcy Ribeiro. Darcy buscou com  Uenf transgredir a ordem estabelecida ao romper com ideia departamental e apostar nos laboratórios de pesquisa que produziriam um saber não apenas novo, mas fortemente comprometido com a transformação da realidade social em prol da maioria oprimida e pobre do nosso povo.  O que se vê hoje é a assimilação rasa da ordem neoliberal e não o seu questionamento, e o povo só aparece mesmo para limpar o chão e guardar as entradas, e com salários incompatíveis com suas necessidades básicas.

Darcy Ribeiro também queria que a Uenf fosse um motor de um novo modelo de desenvolvimento regional que apostasse nas capacidades e criatividades do nosso povo em vez de abraçar fórmulas enlatadas que viessem de fora.  Eu avalio que Darcy queria esse caminho para nos forçar a sermos sempre dinâmicos e inquietos, e não acomodados a repetir esquemas manjados de reproduzir e disseminar conhecimento pronto. Essa ação dinâmica e inquieta estaria apoiada na ação dos seus laboratórios de pesquisa. No entanto, qualquer análise minimamente crítica da realidade interna terá que reconhecer que isso não está ocorrendo, e que predomina uma versão burocrática de reproduzir o que já está dado e um incomodo claro com a busca de novo. Em outras palavras, a prática real é oposta frontalmente ao que Darcy desejava que fizéssemos.

Darcy também queria que saíssemos do interior do campus para encontrar e transformar a realidade, mas hoje vejo que quando saímos não apenas não encontramos quem tem de ser encontrado e, tampouco, agimos para transformar a realidade.  Uma razão básica para isso é que estamos desprovidos da capacidade de dialogar e enxergar, visto que isto seria garantido pelos laboratórios, o que já disse acima não está ocorrendo. Com isso, a maior parte do tempo estamos nos templos de poder e não com os oprimidos. Basta ir no V Distrito de São João da Barra e perguntar para os atingidos pelo Porto do Açu o que eles acham da Uenf estar dentro do enclave e não do lado de fora com suas vítimas.  Mais uma vez, Darcy Ribeiro dificilmente repetiria essa escolha, e provavelmente estaria hoje na casa de algum agricultor desapropriado comendo um queijo artesanal ou um aipim frito enquanto aprendi mais sobre os intricados sistemas agroecológicos desenvolvidos há gerações para produzir alimentos em terrenos arenosos.  Em outras palavras, Darcy não estaria jamais ao lado dos opressores, mas sim ao lado dos oprimidos.

Antes que eu estenda demasadiamente e perca o momento de celebrar a Uenf e seus fundadores, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, eu tenho que lembrar que a Associação de Docentes da Uenf (Aduenf) está celebrando as ideias de nosso idealizador relembrando algumas de suas frases mais célebres e que continuam extremamente atuais (ver imagens abaixo).  É nessa lembrança que eu aposto, pois a Aduenf já serviu muitas vezes com uma espécie de garantidora de que a luta de Darcy e Brizola por uma universidade atenada com a justiça social não morra.  Por mais contraditório que possa parecer, a Aduenf é hoje a garantidora da herança de Darcy e o principal veículo para que suas ideias sejam prática e não esquecimento.  Longa vida à Uenf de Darcy e Brizola, pois resignar nunca foi uma opção para aqueles que realmente acreditam na Universidade do Terceiro Milênio.

Encontro de pesquisa na Uenf reforça o papel da cooperação internacional

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Uma das missões fundamentais que Darcy Ribeiro deixou para a comunidade da Universidade Estadual do Norte Fluminense seria desenvolver uma ciência com consciência cidadã e antenada com busca de soluções para as dificuldades sociais, políticas e econômicas impostas sobre a maioria pobre da população. E eu acredito que o projeto “The protection of people threatened with death: how evidence has influenced policy, police and politics in Brazil and South Africa” (ou “A proteção de pessoas ameaçadas de morte: como as evidências influenciaram as políticas, a polícia e a política no Brasil e na África do Sul”) cumpre exatamente esse papel antevisto por Darcy Ribeiro.

Pois bem, na próxima semana terei a oportunidade de participar em um momento de compartilhamento com colegas que atuam em universidades da Inglaterra e da África do Sul no âmbito de um projeto de pesquisa que considero crucial para o enfrentamento das injustiças que se acometem contra aqueles que se arriscam a defender direitos, muitas vezes sob o risco do extermínio físico (ver imagem abaixo).

É importante dizer que o projeto de pesquisa que será realizado na parceria Uenf, Brunel University  (Inglaterra) e University of Wits (África do Sul) foi agraciado com financiamento pela Academia Britânica de Ciências e representa um esforço importante no processo de internacionalização das ações de integração do conhecimento que Darcy Ribeiro via como fundamentais para a consolidação daquela que ele alcunhava como sendo a “Universidade do Terceiro Milênio”.

O que teria a dizer o Chatgpt sobre os perigos e limites da criação de uma corregedoria setorial na Uenf?

Abre o pano….

Em uma das minhas idas ao Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) enquanto estudante de graduação da instituição pude ver em ação o lendário reitor Pedro Calmon que, ao se insurgir contra uma tentativa de invasão policial da Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, em 1968, proferiu a célebre frase: “policial só entra na universidade se fizer vestibular”.  Aliás, como estudante da UFRJ durante os anos finais da ditadura empresarial-militar instalada pelo golpe de 1964 tive que conviver com a realidade óbvia de que alguns dos meus colegas de sala eram policiais infiltrados. Nós que éramos civis e insurgentes costumávamos nos divertir para saber quem eles eram, sempre sabendo que haviam os que eram propositalmente identificáveis, enquanto haviam os de infiltração profundo. O risco com esses últimos é que se juntassem em nossos esforços em prol da derrubada da ditadura para promover atos de sabotagem ou simplesmente de deduragem, o que implicava a ida para a tristemente célebre delegacia da Polícia Federal na Praça Mauá onde os sopapos eram certos.

Pois bem, 35 anos após a minha saída do campus da Ilha do Fundão para ganhar o mundo, essas lembranças do tempo em que reitores reagiam às invasões dos campi universitários por forças policiais me fazem olhar com profunda desconfiança para um ato cometido pela reitora da universidade onde atuo desde janeiro de 1998, a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). 

O que fez a Magnifica Reitora Rosana Rodrigues?  Ela fez publicar nesta 4a. feira (25/6) a Portaria Reitoria 409 de 23 de junho de 2025 onde ela cria  a Unidade de Corregedoria Setorial da Uenf e coloca como cereja do bolo um policial civil para ocupar a posição de corregedor.

Diante de um fato que me pareceu simplesmente acintoso aos cânones que deram origem ao projeto Iluminista de Universidade, resolvi fazer algo que a atual administração da Uenf certamente apreciará, dados os compromissos manifestos com o uso da inovação tecnológica como ponto de partida para os novos rumos que pretendem dar à instituição criada por Darcy Ribeiro. Eu resolvi fazer duas perguntas à Inteligência Artificial popularmente conhecida como ChatGPT.

A primeira pergunta foi a seguinte:

Boa noite. dados os canones que deram base ao projeto iluminista de universidade, o que você me diria se uma reitora de universidade pública criasse uma corregedoria interna e colocasse um policial para ser o corregedor?

A resposta rápida e rasteira do Chatgpt veio na seguinte forma:

Boa noite! Essa é uma pergunta que toca em questões muito importantes sobre os princípios que sustentam a universidade pública, especialmente à luz do projeto iluminista que fundamentou a ideia moderna de universidade.

1. Os cânones iluministas e o projeto de universidade

O projeto iluminista de universidade, especialmente desde Humboldt (séc. XIX), é baseado em alguns pilares:

  • Autonomia universitária: A universidade deve ser independente de pressões externas, seja do Estado, da Igreja ou de interesses econômicos.

  • Liberdade de pensamento e de cátedra: O livre debate de ideias, mesmo (e especialmente) as mais críticas, é essencial para a produção de conhecimento.

  • Universalismo e razão: O conhecimento deve ser guiado por critérios racionais e universais, sem interferências arbitrárias de autoridade.

  • Formação crítica e emancipatória: A universidade forma sujeitos capazes de pensar criticamente e agir com base em princípios éticos e racionais.

2. Corregedoria com policial como corregedor

Diante disso, a criação de uma corregedoria interna em si não é necessariamente um problema — muitas universidades já têm ou precisam de mecanismos internos para apurar irregularidades. O ponto mais sensível é a nomeação de um policial como corregedor, o que levanta questões sérias:

Problemas potenciais:

  • Conflito com a autonomia universitária: A presença de um agente do Estado com formação policial pode ser percebida como um vetor de controle externo, o que contraria o princípio da autonomia universitária.

  • Risco à liberdade acadêmica: Mesmo que o policial esteja formalmente desarmado e afastado de funções operacionais, seu papel simbólico e sua formação podem gerar um ambiente de intimidação e autocensura.

  • Deslocamento da lógica acadêmica para a lógica policial: A universidade opera com base no diálogo, no contraditório e na pluralidade. A lógica policial, centrada na disciplina, ordem e punição, pode ser incompatível com a cultura universitária.

  • Desconfiança institucional: Professores, estudantes e técnicos podem ver essa medida como uma forma de vigilância, especialmente se houver um histórico de conflitos ou repressão.

3. O que isso revela?

Essa decisão pode estar relacionada a uma tendência de militarização da gestão pública, algo que vem sendo observado em vários contextos no Brasil. Também pode indicar uma resposta autoritária a conflitos internos, o que é perigoso para a saúde democrática da universidade.

4. Considerações finais

Se olharmos pela lente iluminista, essa medida seria altamente questionável. Um projeto de universidade fiel a esses princípios buscaria resolver conflitos e promover a ética institucional por meios que reforcem a democracia interna, o debate público, a mediação de conflitos e o respeito aos direitos fundamentais — não pela imposição de figuras associadas à repressão estatal.

Após obter essa resposta do ChatGPT, resolvi fazer a minha segunda pergunta que foi a seguinte:

À luz do que você me respondeu, o que deveriam fazer os docentes dessa universidade?

A segunda resposta do ChatGPT na seguinte forma:

À luz dos princípios iluministas que fundam o ideal de universidade pública, crítica e autônoma, os docentes — como parte fundamental da vida universitária e responsáveis pela defesa da liberdade acadêmica — não apenas podem, como devem se mobilizar diante de uma medida como a nomeação de um policial como corregedor. Isso porque essa decisão toca diretamente nos fundamentos éticos e políticos da instituição universitária.

O que os docentes deveriam fazer:


1. Deliberar coletivamente

  • Convocar reuniões departamentais, conselhos de centros e assembleias docentes para discutir o tema com seriedade.

  • Formular uma posição coletiva, com base em princípios institucionais, acadêmicos e democráticos.

2. Buscar os canais institucionais

  • Levar o debate ao Conselho Universitário (CONSUNI), se houver, ou à instância máxima deliberativa da universidade.

  • Exigir transparência nos critérios da nomeação, detalhamento das atribuições da corregedoria e do corregedor, e prestação de contas da reitoria.

3. Formar comissões independentes

  • Criar um grupo de trabalho interdisciplinar para avaliar os riscos institucionais e legais dessa medida.

  • Consultar juristas, especialistas em educação superior e ética institucional para embasar argumentos críticos.

4. Dialogar com a comunidade universitária

  • Promover debates públicos, rodas de conversa, seminários ou cartas abertas envolvendo estudantes, técnicos e professores.

  • Tornar a discussão acessível a toda a comunidade, explicando por que a presença de um policial nesse cargo pode comprometer a liberdade e a segurança institucional.

5. Se necessário, acionar órgãos externos

  • Se houver indícios de abuso de poder ou violação da autonomia, considerar representar ao Ministério Público Federal, à Defensoria Pública, à OAB ou a órgãos de controle como a CGU ou o MEC.

  • Em casos extremos, recorrer a instâncias internacionais, como relatorias da ONU ou OEA ligadas à liberdade acadêmica.

6. Defender princípios, não pessoas

  • O foco deve estar na defesa de valores institucionais, não em ataques pessoais à reitora ou ao corregedor.

  • Isso fortalece a legitimidade da ação docente e impede a distorção do debate como sendo “ideológico” ou “corporativista”.


Fundamentação ética da reação

A universidade, como instituição moderna, nasceu da luta contra o dogma, o autoritarismo e a tutela sobre o pensamento. Quando qualquer medida ameaça esse fundamento — mesmo que venha de dentro —, os docentes têm não apenas o direito, mas o dever de reagir.

Essa defesa não é corporativa; é republicana. Proteger a autonomia e a liberdade da universidade é proteger a sociedade contra o autoritarismo e o obscurantismo.

Se quiser, posso ajudar você a elaborar:

  • Um manifesto dos docentes;

  • Uma minuta de moção para conselhos;

  • Um parecer técnico-jurídico sobre a medida;

  • Uma carta aberta à comunidade.

Eu acabei dispensando a ajuda do ChatGPT na preparação dos documentos e agradeci pela ajuda da simpática IA.  A resposta ao meu agradecimento foi a seguinte:

Fico muito feliz em saber que pude ajudar. Se surgir qualquer outra questão, estarei por aqui.

Boa noite e força na defesa da universidade pública! ✊📚

Fecha o pano!