O melancólico fim do Arquivo Público Municipal

arquivo publico

Por Douglas Barreto da Mata 

Não é coincidência, aliás, nada é.  Como disse a personagem do filme Matrix, o Merovíngio: “onde todos vêem coincidência, eu vejo consequência.” 

Lá pelos idos de 1999/2000, fiz parte da equipe de Lenílson Chaves Jr, quando ele ocupou a presidência da Fundação Cultural “Jornalista Oswaldo Lima”(FCJOL).  O governo era de Arnaldo Vianna, na época aliado de Anthony Garotinho. Enquanto a cidade destinava milhões para contratos e cachês de shows, as políticas públicas de cultura mais baratas e de “menor repercussão” eram relegadas a um segundo plano. 

Tudo certo, afinal, são escolhas políticas, e quem faz alianças a elas se submete. Pois bem, Lenílson era uma usina de ideias, um cara inquieto, uma força da natureza, mas sempre com sorriso no rosto e um humor cortante, às vezes até mal interpretado.

Estive perto para assistir sua luta e criatividade para multiplicar os caraminguás de um orçamento desidratado, para uma fundação primo pobre, como quase sempre acontece com a cultura.  Foi com ele que nasceu a primeira Bienal, tendo Ziraldo como criador da primeira logomarca, e como integrante ativo do “cast” de escritores, onde eu me lembro de Afonso Romano de Sant’anna, Frei Beto, dentre outros. 

Outra luta dele foi a recriação das casas de cultura, nas antigas estações ferroviárias da Rede Ferroviária Federal, depois privatizada, a FCA.

Lenílson tinha apreço especial pelas liras e bandas centenárias, e tentou criar um calendário fixo de apresentações, para dar fôlego àquelas manifestações musicais, bem como se engajou para restaurar a sede incendiada da centenária Lira de Apolo. Algumas lutas tiveram sucesso, outras não.  Mas lutou todas.

Fiz essa longa e sentimental introdução para falar do Arquivo Público.  Poucos sabem que a esmagadora maioria daquele acervo estava apodrecendo nos porões da então biblioteca municipal Nilo Peçanha, incluindo aí exemplares raros dos jornais da cidade, fontes históricas preciosas.

Foi na gestão de Lenílson que começaram as tratativas para transferência desse rico material para da Universidade Estadual Norte Fluminense (Uenf), através da sua então pró-reitora de extensão , professora doutora Lana Lage da Gama Lima.  Só então a ideia de um arquivo, com a sua sede no Solar do Colégio, tomou corpo, e foi indicado como primeiro diretor o professor Carlos Freitas, que ali esteve por bom tempo.

Todo esse tempo a ideia da preservação da memória campista obteve o mesmo solene descaso, não importando a cor ideológica dos gestores, se mais inclinado para esquerda ou para direita.

Talvez seja a hora de dizer:  É o fim do Arquivo Público Municipal. Quer dizer, dessa concepção de arquivo vinculada à FCJOL e à Uenf.

Infelizmente, ele morreu não (só) por falta de verbas, mas antes por falta de compromisso com a imperiosa necessidade de se arquivar, tratar e destinar documentos. Esta é uma atividade que acompanha a humanidade desde que aprendemos a rabiscar coisas em alguma parede de caverna ou papiro.

É preciso retirar a arquivologia municipal da seção de cultura, em primeiro lugar. Outra medida urgente é afastar a Uenf o quanto antes.  Arquivo é matéria afeita à ciência, aos direitos humanos, ao campo de estudos jurídicos, enfim, não é um enfeite estético ou um produto cultural em senso estrito, ainda que possa também cumprir esse papel residual.

Geralmente, os arquivos públicos no mundo se vinculam aos setores de justiça, ou de ciências, ou de administração e patrimônio.  Guardar documentos é coisa séria, é um testamento às gerações vindouras, que poderão saber como cargas d’água nós construímos o que lhes foi entregue, para aproveitar os sucessos e evitar repetir erros. 

A generosa verba de 20 milhões para restauração do prédio do arquivo, e a inércia de uma universidade que se encontra atolada em um lodo institucional sem precedentes, são a prova de que o acessório segue o principal, ou seja, se o arquivo está por conta da Uenf, seu destino é a ruína.

A Uenf deixou de ser o que se propunha faz muito tempo.  Ela é hoje a traição viva àquilo que seus idealizadores imaginavam. Virou uma mera replicadora de modismos “de inovação”, repositório de narrativas tipo “coach”, e certificadora de diplomas e titulações.  Não tem, como comprovado, capacidade de gerir nada, e muito menos de propor algo.

Portanto, é chegada a hora de falar menos e agir mais.  Se a prefeitura e o atual prefeito têm a intenção de resolver o problema cabe, em caráter de urgência, pedido à justiça para que a secretaria de obras possa executar a restauração, e o repasse venha dos fundos estagnados na poça uenfiana da incompetência.

Uenf sofre com chuvas torrenciais, apesar de obras milionárias

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Chuvas estão levando caos ao interior do campus da Uenf em Campos dos Goytacazes

Apesar de um pacote de obras milionárias em curso há pelo menos dois anos, as chuvas torrenciais que caem na cidade de Campos dos Goytacazes estão deixando muitos grupos de pesquisa da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) com o coração na boca. É que cenas sendo circuladas em grupos de Whatsapp estão mostrando situações muito problemáticas que colocam equipamentos científicos sob risco de perda total (ver imagem abaixo).

Como não se faz pesquisa sem equipamentos ou com laboratórios inundados, a pergunta que muitos professores da Uenf estão se fazendo neste sábado é de porque obras relativamente simples como a troca de telhados se arrastam por tanto tempo, em que pese as placas de obras que mostram gastos milionários. É simplesmente um descompasso que precisa ser explicado. Nesse caso, a palavra está com a reitoria da Uenf.

Ah, sim, talvez essa situação no campus Leonel Brizola explique aos vereadores e ao prefeito Wladimir Garotinho o porquê de tanta demora em se iniciar as obras no prédio do Solar do Colégio.  É a velha história, se até em casa o espeto é de pau, imaginem como pode ser no churrasco na casa dos outros.

O imbróglio da reforma do Solar do Colégio tem novo capítulo: reitora da Uenf se reúne com vereadores

A Assessoria de Comunicação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) publicou ontem uma nota dando conta da visita de três vereadores à reitora Rosana Rodrigues para tratar do imbróglio envolvendo o atraso na reforma do prédio histórico que abriga o Arquivo Público Municipal. A comissão de vereadores incluiu  os vereadores Fabio Ribeiro, Kassiano Tavares e Juninho Virgílio (ver imagem abaixo).

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Como a nota só deu espaço para as falas da reitora da Uenf, vamos esperar para ver o que dizem os vereadores sobre o que transpirou nesse encontro. 

Ainda sem saber se o que foi narrado acalmou os corações dos três vereadores, eu teria a dizer a eles, especialmente o meu colega de universidade Fábio Ribeiro, que sem a devida pressão, desse mato continuará não saindo coelho. 

E a meteorologia prevê chuvas com alguma intensidade para os próximos, nunca é demais lembrar.

Imbróglio envolvendo Uenf e Prefeitura na reforma do prédio do Arquivo Público Municipal agita Câmara de Vereadores

raul wladimir

Em algum lugar do passado, Bruno Dauaire, Raúl Palacio e Wladimir Garotinho seguram a planta do Solar do Colégio, sede do Arquivo Público Municipal. Mas reforma que é bom, nada…

Desde o início de 2022 já abordei por diversas vezes o estranho caso de uma verba de R$ 20 milhões que foi disponibilizada pela Assembleia Legislativo do Rio de Janeiro (Alerj) para reformar o prédio histórico do Solar do Colégio que abriga o Arquivo Municipal de Campos dos Goytacazes (Aqui!, Aqui!, Aqui!Aqui!). A coisa já se estendeu tanto que o presidente da Alerj que era André Ceciliano (PT) passou a ser Rodrigo Bacellar (União Brasil) e o cargo de reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) que era ocupado por Raul Palácio, agora é exercido por Rosana Rodrigues.

A coisa começou muito mal explicada, pois nunca ficou claro porque os R$ 20 milhões foram parar na Uenf, mas esse foi só o começo da história. Uma das questões mais apontadas é o fato de que a realização de reformas em prédios históricos exige um tipo de expertise que a universidade fundada por Brizola e Darcy Ribeiro simplesmente não tem.

A exasperação com a demora da Uenf em realizar a coisa mais básica que seria uma licitação para apontar quem faria a reforma já ficou clara em diversas ocasiões desde que o dinheiro chegou há quase 2 anos.  Entretanto, com mais um ano próximo de se encerrar, o que significa que o período chuvoso vai se iniciar, agora a coisa tomou um tom de cobrança ainda mais aberto, inclusive no plenário da Câmara Municipal de Vereadores (ver vídeo abaixo).

Como fui uma das poucas vozes críticas em relação a essa triangulação esquisita envolvendo Alerj, Uenf e Prefeitura de Campos, eu não tenho nenhum prurido em afirmar que esse caso nunca foi abertamente discutido pela comunidade universitária.  Assim, não acho justo que o ônus sendo gerado pela incapacidade evidente de iniciar a obra seja jogado nas costas de todos os que labutam diariamente na Uenf.

Por outro lado, como a reitora da Uenf já está praticamente no final do seu primeiro ano como a dirigente que “segura a caneta” na Uenf (para usar uma terminologia que a professora Rosana Rodrigues usou durante a campanha eleitoral que terminou com sua eleição), me parece que está na hora dela dar as respostas que estão sendo demandadas há algum tempo pela sociedade campista, e agora também pela Câmara Municipal de Vereadores. Afinal, as preocupações em torno do atraso das obras são mais do que justificadas.

E nunca é demais lembrar que a próxima estação de chuvas poderá comprometer ainda mais as condições estruturais do Solar do Colégio, impondo graves riscos para toda a documentação que se encontra no interior do Arquivo Público Municipal.

A Uenf e o Porto do Açu: um acordo de cooperação que só servirá aos donos do enclave

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Enquanto agricultores que tiveram suas terras tomadas aguardam pelas indevidas devidas há mais de uma década, a Uenf serve para dar credibilidade às fantasias de ESG do Porto do Açu

Graças a uma iniciativa singular de um colega, pude revisitar brevemente a criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) como um daqueles produtos benignos do fim do ciclo militar inaugurado com o golpe de estado de 1964.   O fato é que foi graças à mobilização popular ocorrida em Campos dos Goytacazes e à eleição de um líder político exilado pelo regime militar, no caso Leonel Brizola, que a Uenf foi criada. E se sublinhe, com um desenho institucional altamente inovador, pois Brizola entregou a um intelectual militante, Darcy Ribeiro, a tarefa de desenvolver um modelo institucional que estivesse à altura dos desafios impostos pela realidade socialmente injusta que existia (e persiste) na região Norte Fluminense.

Passadas mais de três décadas da criação da Uenf, sua gênese nas lutas populares está majoritariamente esquecida, e na instituição fundada por exigência do povo pobre de Campos dos Goytacazes está instalada uma visão empresarial (que nada tem de empreendedora) que não apenas ignora os objetivos fundacionais da instituição, mas dá passos largos para apagá-los.

Um exemplo disso é um termo de cooperação em vias de ser assinado com o Porto do Açu, empreendimento que não passa de um enclave geográfico que está posto na paisagem do V Distrito como um elemento estranho para sugar tudo o que puder, deixando um rastro de destruição social e ambiental. Nas palavras de um respeitado pesquisador aqui da região “o Porto só quer tirar e só se importa com o que é bom para ele”.

 O fato é que para o Porto do Açu e seus proprietários alojados no fundo de “private equity“, o EIG Global Partners, acordos com instituições universitárias públicas como a Uenf (mas também a UFF-Campos e o IFF) são muito interessantes porque garantem mais uma meia página (ou uma, quando muito) nos relatórios anuais de governança corporativa. Isso acaba valendo milhões de dólares para os acionistas secretos de fundos de private equity, pois no mercado da governança sócio-corporativa (ESG), este tipo de acordo serve para acomodar preocupações dos seus investidores. Já para a Uenf (e UFF e IFF), o que fica é uma enorme mancha na imagem de que são instituições realmente voltadas para contribuir para um processo de desenvolvimento social e ambientalmente justo, e não para perpetuar um modelo que é social e ambientalmente desagregador e segregador.

Tenho que frisar aqui o estudo recentemente completado pela minha orientanda Jesa Mariano no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais que mostrou que os programas de ESG do Porto do Açu não mudaram em nada a vida dos habitantes do V Distrito de São João da Barra, especialmente agricultores familiares e pescadores artesanais, que receberam e recebem as piores consequências da instalação desse enclave geográfico.

Aliás, como alguém que vem realizando pesquisas no V Distrito de São João da Barra desde antes do início da instalação do Porto do Açu, posso dizer que as questões que valem a pena de serem pesquisadas ocorrem fora das cercas que demarcam o território desse enclave internacional. Tanto é verdade que já desses estudos já saíram dissertações de Mestrado e teses de doutorado que resultaram em capítulos de livros e incontáveis artigos científicos. 

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Agricultores protestam na Barra do Açu contra a tomada de suas terras para implantação do Porto do Açu

O inconveniente para o Porto do Açu e seus proprietários é que esses trabalhos realizados sem a chancela oficial de acordos de cooperação como o que está para ser assinado com a Uenf mostram os graves efeitos ambientais e sociais que o enclave vem causando em São João da Barra. A começar pelo fato de que as centenas de propriedades forçosamente tomadas, muitas vezes com o uso de violência extrema, pelo governo do Rio de Janeiro de seus legítimos proprietários agora se encontram sob controle de fato do Porto do Açu, sem que seus proprietários, agricultores pobres, tenham sequer a perspectiva de que um dia serão ressarcidos pela perda de suas terras. 

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Agricultor mostrando seu plantio de abacaxi afetando pela salinização causada pelo Porto do Açu

Mas estudos realizados pelos meus orientandos no Setor de Estudos sobre Sociedade e Meio Ambiente (Sesma) do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA) também já identificaram a ocorrência de um processo erosão costeira e de salinização de águas continentais, fatos que complicam ainda mais a existência daqueles que se recusam a abandonar um território forte e negativamente impactado pela implantação do Porto do Açu.

Apesar da eventual assinatura de um termo de cooperação entre Uenf e Porto do Açu, uma coisa é certa: os estudos que documentam os malfeitos do enclave geográfico vão continuar, pois na instituição criada por Brizola e Darcy ainda há quem queira cumprir os objetivos fundacionais do que deveria ser uma Universidade do Terceiro Milênio comprometida com a felicidade do povo e não de quem o faz sofrer. E mais importante, enquanto os atingidos não forem ressarcidos e os danos ambientais continuarem avançando, o que não faltará é objeto de pesquisa. E no que depender de mim e dos meu grupo de pesquisa, o compromisso sempre será com os atingidos, compromisso esse que nunca caberá em acordos que só beneficiarão os donos do enclave.

Uenf e a miragem da escola de cinema: o projeto de uma universidade que ensina javanês

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Darcy Ribeiro idealizou uma escola de cinema na Uenf, mas a realidade se mostrou mais desafiadora do que seus planos

Por Douglas Barreto da Mata

Há alguns anos atrás conheci um grupo de promissores estudantes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), todos vinculados ao Centro de Ciências do Homem.  Parte desse grupo cumpriu a expectativa, e se consolidou como cientistas respeitáveis em suas áreas de estudo, mas acima de tudo, coerentes.  A outra parte decidiu aprender o javanês, alguns tiveram aulas até com o maior especialista na língua de Java, e se tornaram discípulos do grande Roberto Mangabeira Unger, o erístico.

Para quem não sabe, vale a pena pesquisar no Google, e descobrir esse saboroso conto de Lima Barreto, onde ele, com ironia fina, desvenda um personagem típico.  O homem que sabia javanês, em resumo, é uma fraude, que a todos engana com falsa erudição, palavreado rebuscado, modos janotas, e através desse engodo ascende socialmente. 

Ao ler sobre a intenção da atual reitoria da Uenf, e de um grupo de homens e mulheres que sabem o javanês em promoverem a instalação de uma “escola de cinema” ou de uma disciplina na grade curricular da Uenf nesta área, eu pensei:  Zeus, de onde vem essa gente?

Eu não vou abordar o tema pela ótica pessimista, pois amo cinema e seria um sonho realizado ter uma iniciativa bem sucedida desta natureza.  Sou um entusiasta da ideia, mas sei a diferença entre o delírio e a possibilidade, por mais remota que seja.

Vamos pela realidade mesmo.  Cinema é coisa cara, caríssima, e não à toa essa indústria é típica de países ricos, com raras exceções, como Argentina e Irã.  Outros países, como a França, além de ricos, cobram severos impostos dos filmes dos EUA, e estabelecem cotas de exibição de produções nacionais nas salas de exibição, TV e etc.  Com isso criaram um cinema francês.

Aqui, a menor menção de proteção a um mercado nacional cultural é uma heresia grave.  Dizer que 70 salas de exibição no passado ou citar locações de novelas e filmes como pontos de partida para instauração de um polo de cinema local é bizarro.  Acho que nem vale a pena comentar essa tolice, típica de gente que chora o fim de uma loja de livros escolares, chamada de livraria centenária, do tempo que só a elite sabia ler. 

Mesma coisa com o famoso Teatro Trianon, símbolo da exclusão cultural de um povo pobre, cuja elite caipira se esperava em copiar jeitos e trejeitos daquilo que almejava ser, cosmopolita. 

No atual estágio da indústria cinematográfica, o surgimento de um enclave de cinema aqui requer muita grana, muita mesmo, e não só de forma sazonal, mas perene, para que, talvez em dez ou vinte anos se estabeleça uma cadeia da atividade, que se constitui de técnicos, engenheiros, atores, diretores, roteiristas, produtores, etc.

Porém, não é só isso.  Um projeto dessa magnitude não pode repetir o erro de manter as classes populares fora da iniciativa, restringindo a política de cultura aos de sempre: ricos e seus sabujos da classe média.  Cabe ainda dizer que nenhum país ou região, que hoje são referências nesse setor, a indústria cinematográfica foi criada de forma instantânea, e sem contingentes históricos especiais e raríssimos.

Mesmo que chova dinheiro do BNDES, ou de investidores estrangeiros, ou que fizéssemos grandes festivais, mesmo assim isso não significa que faríamos cinema.  Gramado é famosa por seu festival e pela premiação.  Cannes idem.  Nenhuma das duas cidades produz cinema.

É preciso honestidade, seriedade e, mais que tudo, sinceridade para iniciar um processo com esta escala.  A Uenf mal consegue se manter de pé, como vai abraçar uma empreitada dessas? Será que o destino da universidade é institucionalizar aventuras?

Enfim, cabe perguntar, sem ofensas, mas por curiosidade:  Se Darcy Ribeiro, com seu nome e contatos, com sua força intelectual e sua legitimidade, não conseguiu, serão os que sabem javanês que o farão? Fica aí a sugestão de primeiro roteiro, sai até de graça, porque a obra de Lima Barreto já é de domínio público:  a universidade que ensina javanês.

A UERJ em crise: A inércia que ameaça a educação pública no Rio de Janeiro

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Por Magnum B. Sender

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) enfrenta um momento delicado, resultado de uma herança mal administrada e de um flagrante desrespeito aos seus procedimentos internos, agravada por um elevado nível de intransigência por parte da atual administração. Essa postura impacta diretamente os mais vulneráveis dentro da instituição.

Como já mencionei anteriormente neste blog, acompanho de perto os movimentos da Uenf e de outras universidades públicas, tanto no estado do Rio de Janeiro quanto em todo o Brasil.

Minha preocupação com a educação pública cresce diante do que temos testemunhado nos últimos anos, tanto a nível nacional, desde o segundo mandato da presidente Dilma e o golpe de Temer, quanto no cenário estadual, com a gestão de Pezão e Wilson Witzel e, posteriormente, do atual governador, Cláudio Castro.

Assistimos à extinção sumária da Universidade Estadual da Zona Oeste (Uezo) pelo governo estadual, com sua incorporação à Uerj. O que mais impressionou foi a ausência, quase que total, de qualquer manifestação significativa em defesa da Uezo. Será que não perceberam os riscos que esse tipo de medida pode trazer para as demais instituições estaduais e para o ensino público no estado? Isso ocorreu no Rio de Janeiro, um verdadeiro laboratório de crueldades contra servidores e instituições públicas.

O mais preocupante é que tanto as Instituições de Ensino Superior (IES) quanto a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) naturalizaram todo esse processo, materializando um completo descaso por uma instituição que foi criada com uma missão nobre em uma região que merecia atenção para promover sua transformação social.

Volto, então, à minha preocupação inicial com a Uerj. Recentemente, tomei conhecimento da criação do Fórum de Reitores das Instituições Públicas de Ensino do Estado do Rio de Janeiro (Friperj), que congrega as instituições de ensino superior públicas com o objetivo de fortalecê-las como instâncias da sociedade civil, no campo do ensino, da pesquisa e da extensão.

Diante disso, pergunto: não seria o momento para o Friperj se posicionar em defesa da Uerj e do ensino público, com qualidade, inclusiva e, respeito e compromisso com a autonomia financeira dada sua importância para o estado? A Uerj tem enfrentado, em mais de uma ocasião, tentativas de privatização, o que torna inaceitável que a Uenf, como irmã mais nova, e o Friperj permaneçam como meros espectadores em meio a uma crise que pode se espalhar para outras instituições.

A Uerj merece respeito. Seus estudantes e professores precisam ser ouvidos, e a reitoria eleita deve honrar os compromissos assumidos com toda a comunidade universitária.

Formação acadêmica sólida versus a miragem da inovação: a importância da base conceitual e da pesquisa científica na formação dos estudantes

pensamento crítico

Magnum Bridaroleo Sender

A Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), criada por dispositivo constitucional em 1989, trouxe muitas expectativas para nossa cidade. Como morador, há mais de 50 anos, tenho acompanhado os inúmeros movimentos internos, bem como as questões que ultrapassam os limites da instituição ao longo dos seus 31 anos de funcionamento. Nesse contexto, observei que a universidade, historicamente pautada pela excelência acadêmica, parece enveredar por outros caminhos. Decidi, então, escrever um breve texto sobre o que considero a questão central: a formação de recursos humanos nos níveis de graduação e pós-graduação.

A formação conceitual, base de todo o conhecimento, é crucial para o desenvolvimento do pensamento crítico e da capacidade de análise. Sem uma base sólida de conceitos, torna-se difícil compreender a complexidade dos desafios contemporâneos ou propor soluções sustentáveis. A universidade, idealizada para o Terceiro Milênio, e orientada pelo rigor acadêmico, deve oferecer – principalmente – o ambiente ideal para que seus alunos e alunas construam esse alicerce essencial para qualquer avanço intelectual e científico.

Nos últimos anos, a palavra “inovação” tem sido amplamente difundida, ganhando uma aura quase mágica. Apresentada, inclusive, como solução para todos os problemas da sociedade, e, é vista como o caminho para o progresso e o motor do desenvolvimento econômico. No entanto, o que muitas vezes se ignora é que a inovação não surge do vazio. Para inovar, é necessário um profundo entendimento dos fundamentos que estruturam as áreas do conhecimento. Sem uma base conceitual sólida, a “inovação” corre o risco de se tornar apenas um modismo passageiro, sem impacto real e sem capacidade de transformação.

A verdadeira inovação ocorre somente quando combinada com uma pesquisa robusta e contínua dentro de uma instituição. Por isso, a formação básica na graduação e o seu aperfeiçoamento na pós-graduação devem ser preservados, sem a criação da falsa polêmica de que as universidades precisam formar empreendedores e inovadores. Pesquisar é questionar, buscar respostas para problemas complexos e construir novos caminhos a partir de uma base teórica sólida. Sem a pesquisa, não há inovação genuína, pois é ela que possibilita o avanço do conhecimento e a aplicação prática das descobertas em soluções transformadoras.

Devemos, portanto, olhar com cautela para promessas de inovação que desvalorizam a formação conceitual e a pesquisa científica. A inovação, para ser verdadeiramente transformadora, precisa caminhar lado a lado com o conhecimento profundo e o esforço investigativo.

Como a Uenf se tornou tão irrelevante politicamente? A resposta está soprando no vento

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Há alguns dias publiquei um texto provocativo escrito pelo Douglas da Mata, intitulado “Qual será a opção academia diante do fascismo: ação ou omissão?“,  em que ele faz uma espécie de convocação às armas para a comunidade acadêmica campista para participar ativamente do debate eleitoral em Campos dos Goytacazes.  A partir do seu olhar aguçado, Douglas da Mata notou a solene ausência do que podemos chamar com alguma liberdade dos intelectuais acadêmicos sobre o urgente e necessário esforço de defender a democracia brasileira do crescente perigo que nos é imposto pela ideologia de extrema-direita.

Fiquei pensando no que foi dito pelo Douglas da Mata a partir da minha própria trincheira que é a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Como cheguei aqui no cada vez mais longínquo ano de 1998, fui testemunha de visitas ilustres que incluíram Leonel Brizola, Lula, Anthony Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, apenas para citar os mais emblemáticos.

Pois bem, neste ano eleitoral, apesar de termos uma penca de candidatos associados (ou pelo menos tentando se associar) à Uenf quando ela completa 31 anos de existência, vivemos um completo marasmo em relação à eleição do próximo prefeito de Campos dos Goytacazes. Além disso, não tive notícia de que qualquer um dos candidatos tenha solicitado uma audiência com a reitora Rosana Rodrigues para tratar das possíveis contribuições que a universidade poderá dar para a solução dos graves desafios que persistem no município, sendo a miséria extrema que assola quase metade da população da população o maior deles.

Não creio que exista apenas uma causa para a perda da importância da Uenf no plano político municipal. Um primeiro aspecto que penso ser importante foi o crescente cerceamento imposto às universidades públicas pela justiça eleitoral para a realização de simples debates entre candidatos, quiça a prosaica distribuição de material de propaganda no interior do campus Leonel Brizola, uma trágica ironia para uma universidade que leva o nome de um dos principais líderes políticos da história recente do Brasil. É importante notar que as regras draconianas impostas pela justiça eleitoral às universidades públicas não foram acompanhadas por reações mínimas dos dirigentes universitários.  Em eleições anteriores, o que houve foi a adesão pura às medidas que engesseram o necessário debate de propostas dentro dos espaços universitários. Quem não se lembra da assinatura coletiva de um documento vindo da justiça eleitoral que potencialmente criminalizava docentes que fossem pegos realizando atividades políticas durante o expediente? Por causa desses dirigentes é que tem hora que lembro de um famoso poema do dramaturgo Bertolt Brecht, o Analfabeto Político.

Por outro lado, ao menos no caso da Uenf, o que se vivencia é o desgaste laboral de uma categoria cujos salários, apesar de serem maiores do que a média nacional, se encontram em franca corrosão há pelo menos uma década, o que torna boa parte dos pesquisadores cada vez mais mais envolvida em atividades adicionais que lhes toma tempo e energia. Com isso, poucos se dispõe a participar do processo eleitoral, que é visto pela maioria como algo com que, para começo de conversa, não vale que se gaste o tempo eventualmente livre.  

Também vejo que graças à compartimentalização disciplinar criada pelo Capitalismo, há quem se sinta constrangido a emitir opiniões e se engajar em debates eleitorais por não se sentirem capacitados a emitir opiniões com algum nível de autoridade acadêmica. Com isso, o pouco de discussão que é conduzida pela mídia corporativa campista acaba sempre reunindo um grupo seleto de intelectuais consentidos cujo olhar é guiado por um viés que não trata a luta política como ela realmente é, optando por um tom escolástico de análise que empareda e engessa em vez de dinamizar. Essa tendência de engessamento favorece aos proprietários da mídia corporativa campista já que se habilitam a indicar e escolher quem possui ou não a habilidade de interpretar o que está acontecendo, criando um museu de velhas novidades.

É juntando todos esses ingredientes que se pode chegar a entender como é que a Uenf se tornou tão irrelevante. O dramático é que se juntam cada vez mais evidências de que o papel idealizado por Darcy Ribeiro para a Uenf nunca esteve tão atual.  A situação política, econômica e ambiental que estamos vivendo demanda um envolvimento de todos os centros de pesquisa da Uenf na formulação de propostas que possam contribuir para que o município de Campos dos Goytacazes possa finalmente vir a ser aquilo que nunca foi.

O problema aqui é como quebrar a inércia paralisante que afeta não apenas os professores da Uenf, mas também os de outras instituições de ensino superior instaladas em Campos dos Goytacazes.  Um bom começo seria prestar atenção no que o Douglas da Mata, um outsider assumido, tem a nos dizer sobre os custos da nossa paralisia frente aos principais embates políticos que se colocam diante de nós nesta eleição e em outras que virão em um futuro próximo.

A crise político-financeira na Uerj como um sinal para a Uenf: eu sou você amanhã

Estudantes da Uerj protestam contra mudanças nas regras para auxílios

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) vem sendo palco de uma revolta estudantil contra a reitoria da instituição que resolveu fazer um corte profundo na distribuição dos recursos destinados à chamada “assistência estudantil”. A alegação da reitoria da Uerj para tal corte é de que a Uerj simplesmente não tem recursos orçamentários para continuar atendendo nos limites estabelecidos por administrações anteriores.

Os estudantes da Uerj, que contam com a simpatia dos sindicatos de servidores e docentes, partiram para um modelo clássico enfrentamento que inclui a ocupação física de prédios e manifestações de rua. A intenção declarada é fazer a reitoria retroceder e continuar praticando o modelo anterior de distribuição de recursos. Por sua vez, a reitoria da Uerj também se mantém em uma posição clássica de para conter a o movimento dos estudantes, com o uso até aqui de seguranças patrimoniais para conter a revolta estudantil.

Enquanto isso, o governador Cláudio Castro (PL) se mantém completamente à vontade para, entre outras coisas, sair pelo estado fazendo campanha por seus candidatos a prefeito e vereador, a despeito do fato de que a educação fluminense afunda em crise profunda, ocupando o penúltimo lugar nos índices do IDEB que acabam de ser divulgados pelo MEC.  É como se Cláudio Castro sapateasse sorridente sobre a educação fluminense enquanto asfixia escolas e universidades para continuar praticando uma injustificada política bilionária de isenções fiscais.

Candidata do grupo Bacellar, Madeleine lança campanha à Prefeitura de Campos  - Campos 24 Horas | Seu Jornal Online.

Enquanto o Rio de Janeiro ocupa o penúltimo lugar no IDEB, um Cláudio Castro sorridente faz campanha para sua candidata em Campos dos Goytacazes

O curioso é que até agora o quadro conflagrado da Uerj não está se repetindo na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Alguém mais distraído poderia achar que Cláudio Castro está sendo mais benevolente com a Uenf por causa de sua localização estratégica em Campos dos Goytacazes, onde o ainda governador do Rio de Janeiro esteve fazendo campanha pela sua candidata a prefeita, em companhia de uma numerosa delegação de deputados estaduais que chegaram na cidade em uma espécie de revoada de aviões de carreira.

O meu diagnóstico é que a situação de paz aparente na Uenf não tem nada a ver com uma suposta benevolência de Cláudio Castro. A coisa na Uenf se explica mais pela indisposição de seus sindicatos, especialmente os dos estudantes (DCE e Associação de Pós-Graduandos) e dos servidores técnicos (Sintuperj) de se comportarem como representantes não dos interesses de seus dirigentes, mas daqueles que dizem representar. 

Agora, como o torniquete que aperta a Uerj também arrocha e asfixia a Uenf, o corte de bolsas que começou nos projetos de extensão, ceifando ações estratégicas para beneficiar a população, poderá em um futuro não muito distante chegar à outras modalidades de bolsas estudantis e também nos auxílios que deram um refresco na penosa situação causada pela corrosão inflacionária dos salários.

E aí pode ser que a paz aparente reinante na Uenf se transmute nas cenas de enfrentamento que estão ocorrendo na Uerj em uma espécie de “eu sou você amanhã”.  Curioso vai ser acompanhar a reação da reitoria da Uenf que, ao contrário do que ocorreu na Uerj, se elegeu com o apoio explícito de dirigentes sindicais de estudantes e servidores técnico-administrativos.