A ciência pública a serviço do greenwashing? O caso do workshop da Reserva Caruara

O episódio envolvendo um workshop da RPPN Caruara mostra como a credibilidade da pesquisa científica pode ser incorporada às estratégias de marketing ambiental do Porto do Açu, enquanto permanecem invisibilizados os conflitos socioambientais produzidos pelo empreendimento 

Publicizei recentemente neste blog a realização de um workshop promovido pela Reserva Caruara/Porto do Açu em torno do que foi apresentado como “experiências turísticas de bases ecossistêmicas.  A “novidade” que chamou a atenção de muitos foi que o evento aparecia como copromovido pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Com base nisso, manifestei minha estranheza diante do envolvimento de uma universidade federal em um evento fechado que, entre outras coisas, serviria para conferir uma camada de legitimidade ambiental a uma reserva particular cuja implantação resultou no fechamento da Lagoa de Iquipari, ecossistema lagunar que, até a criação da RPPN Caruara, constituía uma importante fonte de sustento econômico, obtenção de proteínas e reprodução social para centenas de famílias de pescadores artesanais de São João da Barra.

A menção à participação da UFF gerou repercussão inclusive entre docentes que atuam no campus da instituição em Campos dos Goytacazes, onde existem pesquisadores que há anos estudam justamente os impactos socioambientais decorrentes da forma autoritária como o Porto do Açu foi implantado. Uma das reações foi a de que eu teria sido injusto ao não mencionar que há pesquisadores da UFF Campos que não são alinhados aos interesses do empreendimento. Respondi que compreendia essa inquietação, mas que o problema decorria muito mais da forma como o evento foi divulgado pela direção da RPPN Caruara do que da postagem publicada neste blog. Afinal, a utilização da logomarca da UFF no material de divulgação funcionava como uma chancela institucional ampla, e foi exatamente essa associação que motivou minhas observações. Acrescentei ainda que buscaria esclarecer aos leitores quem, efetivamente, estaria envolvido no workshop sobre turismo ecossistêmico promovido pela Caruara.

Pois bem, após consultas realizadas, inclusive em Niterói, fui informado de que a proposta do workshop sobre turismo ecossistêmico na RPPN Caruara integra uma dissertação de mestrado que deverá ser desenvolvida por uma estudante do Programa de Pós-Graduação em Turismo da UFF. Segundo as informações obtidas, o workshop, em formato híbrido, seria destinado a colaboradores da Reserva Caruara, pesquisadores e membros da comunidade. Em outras palavras, a Caruara passou a divulgar um evento vinculado a uma pesquisa que sequer iniciou sua etapa de campo. Além disso, ficou esclarecido que a UFF não figura como copromotora ou coexecutora da iniciativa, mas apenas como a instituição onde a pesquisa será desenvolvida.

O que se apurou até o momento revela uma situação preocupante. Uma pesquisa financiada com recursos públicos tende, na prática, a ser utilizada para conferir cobertura verde — o conhecido greenwashing — a uma propriedade privada criada como medida compensatória pela destruição de extensas áreas de vegetação de restinga durante a implantação do Porto do Açu. Ao mesmo tempo, essa mesma implantação produziu um efeito social de enorme relevância: o fechamento da Lagoa de Iquipari aos pescadores artesanais que historicamente dependiam daquele ecossistema para garantir seu sustento econômico, sua segurança alimentar e a reprodução de seu modo de vida.

A questão, entretanto, exige uma distinção importante. Nada impede que universidades públicas estabeleçam parcerias com empresas privadas. Em muitos casos, essa interação é desejável e pode produzir avanços científicos e tecnológicos relevantes. O problema surge quando a produção de conhecimento passa a ser utilizada para conferir legitimidade a narrativas corporativas sem que os conflitos socioambientais que lhes dão origem sejam efetivamente enfrentados. No caso em questão, o caráter fechado do workshop, restrito a convidados, transforma o chamado turismo ecossistêmico em um discurso que obscurece um processo concreto de exclusão territorial. Enquanto se promove uma imagem de conservação ambiental, permanecem invisibilizados justamente aqueles que foram privados do acesso ao território e aos recursos naturais que garantiam sua sobrevivência. Essa lógica dificilmente se compatibiliza com o compromisso crítico e social que deve orientar a pesquisa realizada em universidades públicas financiadas pela sociedade.

Se algo positivo emergiu desse imbróglio, foi a oportunidade de compreender com maior clareza como operam as estratégias de greenwashing associadas ao Porto do Açu. Mais do que promover ações de conservação, essas iniciativas parecem buscar a apropriação da credibilidade de instituições públicas e da linguagem da ciência para construir uma narrativa de responsabilidade socioambiental que pouco dialoga com os impactos concretos produzidos pelo empreendimento. Nesse contexto, a Reserva Caruara deixa de ser apenas uma unidade de conservação privada e passa a desempenhar um papel central na arquitetura simbólica de legitimação do Porto do Açu. É precisamente por isso que toda aproximação entre universidades públicas e esse tipo de iniciativa deve ser examinada com máximo rigor e transparência, para que a pesquisa científica não seja convertida, ainda que involuntariamente, em instrumento de marketing ambiental corporativo.

Turismo ecossistêmico para escolhidos, exclusão territorial para pescadores

Evento fechado da Reserva Caruara, realizado em parceria com a UFF, reacende o debate sobre a legitimidade de uma conservação ambiental que restringiu o acesso de comunidades tradicionais à Lagoa de Iquipari enquanto reivindica o discurso do diálogo e da construção coletiva

A circulação de um convite para o I Workshop de Experiências Turísticas Ecossistêmicas, promovido pela Reserva Caruara em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), suscita uma série de questões que merecem ser debatidas publicamente. A primeira delas é bastante objetiva:  apesar do nome, a atividade é um evento fechado, com participação restrita a convidados previamente selecionados e autorizados pelos organizadores. Embora o material de divulgação utilize uma linguagem que remete ao diálogo, ao compartilhamento de experiências e à construção coletiva, a própria dinâmica anunciada contradiz esse discurso ao impedir a participação da sociedade em geral e, especialmente, daqueles diretamente afetados pela existência da Reserva Caruara.

Esse aspecto é particularmente sensível porque a Reserva Caruara não é uma unidade de conservação criada espontaneamente em resposta a uma demanda da sociedade pela proteção ambiental. Ela constitui uma medida compensatória vinculada ao licenciamento ambiental do Porto do Açu, empreendimento cuja implantação alterou profundamente a dinâmica territorial do V Distrito de São João da Barra. Entre os impactos mais conhecidos está a drástica restrição do acesso de pescadores artesanais à Lagoa de Iquipari, espaço utilizado por gerações como fonte de sustento, trabalho e reprodução de modos de vida tradicionais.

Nesse contexto, discutir “experiências turísticas ecossistêmicas” sem a presença efetiva daqueles que perderam acesso ao território em nome da chamada conservação ambiental produz um paradoxo estridente. O discurso da valorização dos serviços ecossistêmicos culturais é incompleto quando ignora justamente o patrimônio cultural representado pelas práticas históricas da pesca artesanal, que também constituem parte indissociável da paisagem, da memória social e da identidade territorial da região.

Outro ponto que merece reflexão diz respeito ao papel da Universidade Federal Fluminense (UFF), apresentada no material de divulgação como parceira da iniciativa. A questão que se coloca é simples e legítima: qual é exatamente o significado dessa parceria em um evento cuja participação é previamente definida pelos gestores da Reserva Caruara e, em última instância, pelo Porto do Açu? Ao figurar como parceira consentida de um encontro fechado, a UFF acaba associando sua imagem institucional a uma iniciativa que exclui justamente os segmentos sociais mais diretamente afetados pela implantação da Reserva Caruara.

Não se trata de discutir a qualidade técnica ou científica do workshop, mas de indagar sobre a responsabilidade institucional de uma universidade pública ao emprestar sua credibilidade a um evento privado que restringe o acesso ao debate. A direção da UFF considera compatível com sua missão institucional participar, como parceira, de uma atividade que se apresenta como espaço de diálogo, mas cuja participação depende de convite e autorização prévia? Em um território marcado por conflitos socioambientais ainda não resolvidos, seria de se esperar que uma universidade pública contribuísse para ampliar o debate público, e não para legitimar um processo deliberativo circunscrito a um grupo previamente selecionado.

Também merece atenção a própria estratégia de divulgação do evento. O convite enfatiza expressões como “pesquisa, conservação e turismo em diálogo”, “compartilhamento” e “construção coletiva”. Entretanto, em posição de destaque, informa que a participação ocorrerá “mediante convite e autorização prévia”. Há, portanto, uma evidente dissonância entre a mensagem transmitida e o formato efetivamente adotado. A linguagem visual busca comunicar abertura e diálogo, enquanto as regras de acesso revelam um encontro de natureza privada, reservado a um público previamente escolhido pelos organizadores.

Essa aparente falta de transparência se torna ainda mais evidente quando se busca obter informações adicionais sobre o workshop. Embora o site da Reserva Caruara disponibilize um link para o evento, o acesso não conduz a uma página contendo sua programação, objetivos, palestrantes, critérios de seleção dos participantes ou qualquer outra informação específica. Em vez disso, o visitante é direcionado para um conteúdo que não guarda relação com o workshop anunciado. Essa incongruência impede que o público conheça minimamente a estrutura do encontro e dificulta compreender quem participará das discussões e quais perspectivas estarão representadas.

Essa ausência de informações torna ainda mais pertinente questionar a natureza da parceria estabelecida entre a Reserva Caruara e a UFF. Se a proposta é promover um debate sobre turismo, conservação e serviços ecossistêmicos em um território marcado por conflitos socioambientais, seria razoável esperar que aspectos elementares do evento — como programação, convidados, critérios de participação e objetivos específicos — estivessem disponíveis de forma clara e acessível. A transparência é um componente indispensável da legitimidade, especialmente quando uma universidade pública associa seu nome a uma iniciativa dessa natureza.

Não se questiona o direito de uma instituição privada realizar eventos restritos aos seus convidados. O que merece problematização é a tentativa de apresentar um encontro dessa natureza como espaço de reflexão sobre questões de interesse coletivo em um território profundamente marcado por conflitos ambientais, sociais e fundiários. Quando se fala em turismo sustentável, conservação e serviços ecossistêmicos em uma área cuja criação implicou severas restrições ao acesso de comunidades tradicionais ao seu território histórico, transparência, pluralidade de vozes e participação pública deixam de ser detalhes organizacionais para se tornarem requisitos fundamentais de legitimidade.

Permanecem, assim, algumas perguntas que merecem resposta pública. Por que um workshop que afirma promover o diálogo sobre conservação e turismo não é aberto à sociedade? Haverá representantes dos pescadores artesanais que estão sendo prejudicados pela criação da Reserva Caruara? Pesquisadores que produziram estudos críticos sobre os impactos territoriais do Porto do Açu foram convidados? A programação e os critérios de participação serão finalmente tornados públicos? E, sobretudo, qual o sentido de a UFF figurar como parceira de uma iniciativa privada cujo formato restringe o debate público sobre um conflito socioambiental que permanece longe de ser resolvido?

Enquanto essas questões permanecerem sem resposta, será difícil não interpretar o workshop como mais um esforço de construção de legitimidade para um modelo de conservação ambiental corporativa que, ao mesmo tempo em que promove a proteção da biodiversidade e novas modalidades de turismo, continua associado à exclusão de comunidades tradicionais de territórios que, durante gerações, garantiram sua sobrevivência material, cultural e social. A verdadeira construção coletiva começa pela disposição de ouvir também aqueles cujas vozes foram historicamente silenciadas pelo mesmo processo que hoje se pretende apresentar como exemplo de sustentabilidade.

SBPC realiza sua 78ª Reunião Anual entre 26 de julho a 01 de agosto na UFF

 

De 26 de julho a 1º de agosto, a Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, sediará a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o maior evento científico da América Latina.

Com o tema “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão”, a programação reúne centenas de atividades gratuitas, entre conferências, mesas-redondas, minicursos, exposições, oficinas e atrações culturais, abordando temas como inteligência artificial, mudanças climáticas, saúde, educação, inovação, democracia, biodiversidade e desenvolvimento sustentável.

A Reunião Anual também contará com a SBPC Jovem, ExpoT&C, SBPC Cultural, SBPC Gênero, Diversidade e Equidade e o tradicional Dia da Família na Ciência, no sábado (1º de agosto).

A participação é gratuita e aberta a toda a sociedade. Basta fazer sua inscrição e escolher as atividades de interesse.

📅 26 de julho a 1º de agosto de 2026
📍 Campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF) – Niterói (RJ)

👉 Inscreva-se gratuitamente e consulte a programação completa:
https://ra.sbpcnet.org.br/78RA/

Esperamos você na maior celebração da ciência brasileira!

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

O caso de Beatriz Bueno me lembra o ditado do “no creo en brujas pero que las hay las hay”

No creo en brujas pero que las hay las hay 

Venho acompanhando o caso envolvendo agora ex-mestranda Beatriz Bueno, que acaba de ser desligada do programa de mestrado em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense por supostas violações das regras acadêmicas.  Betriz Bueno alega que, na verdade, sua exclusão dos quadros discentes da UFF se deve à rejeição do seu tema de pesquisa, que propõe uma reorientação (radical eu me arrisco a dizer) sobre como a questão das relações raciais tem sido abordadas nas últimas décadas pelas universidsades brasileiras.

Falo aqui da questão da “parditude” pelo qual Betriz Bueno parece propor uma explicitação das nuances que estão presentes na formação da população brasileira, em vez de se assumir que ela se divide basica e estritatamente entre brancos e negros.  Não vou me alongar no mérito do debate conceitual que cerca a proposição de Beatriz Bueno para conduzir sua dissertação de Mestrado, pois essa é uma área em que minha ignorância supera a minha capacidade acadêmica de afirmar algo com o necessário suporte teórico-metodológico. 

O que eu posso relatar é que este caso de exclusão tão imediata de uma discente de Mestrado em seu primeiro ano de estudos me parece algo bem singular na atual conjuntura da pós-graduação brasileira em que há uma forte leniência para com, digamos, eventuais descumprimentos e faltas por parte dos discentes. E a pena está me parecendo muito grave em relação às faltas declaradas publicamente pela própria UFF.

Agora, o que eu posso relatar é que este não é o primeiro caso que eu conheço em que um jovem pesquisador é punido por apresentar teses que destoam da linha dominante dentro de um programa de pós-graduação.  Falo isso porque alguns anos atrás encontrei um ex-aluno que me contou de forma desolada que fora surpreendido com uma reprovação da sua tese de doutorado sobre relações interpessoais dentro do comunidade LGBTQIA+ porque concluira que as mesmas formas opressivas e autoritárias que marcam os relacionamentos heterossexuais estavam presentes. O pior para este ex-aluno foi que até o dia da realização da banca examinadora não tinha recebido qualquer sinalização de problemas por parte do seu orientador  sobre a qualidade acadêmica da tese.  Em outras palavras, esse ex-aluno foi surpreendido por uma reprovação que se mostrou inapelável, o que, objetivamente, o impediu de demonstrar e tornar públicos os resultados da sua pesquisa.  O resultado final foi que este ex-aluno abandonou os estudos e se moveu para uma nova área disciplinar.

A minha expectativa é que, ao contrário, do meu ex-aluno, Beatriz Bueno não abandone o tema que escolheu para pesquisar e que ela possa acessar outro programa de pós-graduação para conduzir sua investigação dentro de um processo guiado pelo uso livre das regras do método científico. Falo isso como professor de Metodologia da Pesquisa desde 1999 no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf).  Durante todo esse tempo, o que sempre procurei apontar para os meus alunos foi que, apesar do método científico não ter nada de neutro como pretenderam os pensadores positivistas clássicos, o que deve guiar a condução de qualquer estudo científico é um compromisso com o rigor teórico máximo.  É que só assim podemos alemejar fazer a devida separação do trigo do joio, e avançar no processo de construção de um conhecimento que mereça ser chamado de científico, por mais que isso desafie as ideias eventualmente dominantes dentro de uma determinada área de estudo.

Por ora, fico com o ditado sobre as bruxas….no creo en brujas pero que las hay las hay

Vem aí o III Seminário “Economia destruidora e energia no litoral do Sudeste do Brasil”

A noção de economia destruidora foi utilizada pelo geógrafo Jean Brunhes para se referir aos riscos e perigos que as explotações e explorações do meio ou do ambiente provocavam. Vivemos em um contexto em que a expansão do sistema capitalista de produção se dá baseado na transformação de energia e na exploração do meio, materializando, de diferentes formas, aquilo que David Kopenawa chama de “come terra”. Este processo continuo de devastação se expandiu pelo Brasil. 

As investidas sobre o litoral do Sudeste são intensas, a extração de mata, as monoculturas, extração de petróleo e gás e a instalação de terminais portuários geram efeitos diretos nos territórios, principalmente no Norte do Rio de Janeiro e no Sul do Espírito Santo.

Tendo estes pontos em vista, nos dias 6, 7 e 8 de novembro de 2025, a UniversidadeFederal Fluminense (UFF), o Instituto Federal Fluminense (IFF) e a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) promoverão o III Seminário Economia Destruidora & Energia no Litoral do Sudeste do Brasil: (re)existências e alternativas ao capitalismo em Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro.

Nesta terceira edição, o seminário propõe abordar tanto temas teóricos quanto pesquisas empíricas que dizem respeito aos efeitos sobre o meio de projetos industriais, da mineração, da exploração de energias e de infraestruturas implementadas ou em vias de implementação que transformam os territórios, as paisagens e a vida cotidiana das populações, buscando estabelecer o diálogo entre pesquisadores, estudantes, movimentos sociais e a comunidade.

Ao longo dos dias do evento, estão previstas palestras, espaços de diálogo, atividades culturais, oficinas interativas e trabalho de campo. Para maiores informações, entre no  site: https://www.even3.com.br/iii-seminario-economia-destruidora-energia-no-litoral-do-sudeste-do-brasil-618527/

Cientistas mapeiam áreas de risco de deslizamentos de terra para embasar ações do poder público

Vista aérea de área de Niterói

Pesquisa da UFF mapeou e hierarquizou regiões de maior risco para deslizamentos de terra, orientando ações preventivas

Áreas com alto risco de deslizamentos de terra agora podem ser identificadas e hierarquizadas, permitindo o planejamento de intervenções para mitigar riscos no território urbano, especialmente em periferias. Desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), a metodologia foi construída com dados de Niterói (RJ) e publicada ontem (25/7) na Revista Brasileira de Recursos Hídricos.

Foi desenvolvido um índice de risco, que leva em conta o histórico de ocorrências, a susceptibilidade do terreno e informações sobre a vulnerabilidade socioeconômica de seus residentes, permitindo ações de prevenção e mitigação de riscos baseadas em evidências. O município tem cerca de 117 comunidades, a maior parte situada em declives — fator que, somado às chuvas intensas e mudanças antropomórficas no relevo, agrava o risco de desastres.

O histórico foi obtido por meio de dados da Defesa Civil de Niterói, a susceptibilidade foi calculada segundo o modelo SHALSTAB (Shallow Landsliding Stability Model), que prevê a estabilidade do terreno segundo fatores físicos e topográficos, e a vulnerabilidade socioeconômica averiguada por meio da renda familiar média e o número de residentes registrados no CadÚnico.

Franciele Zanandrea, autora do estudo, relata que a validação em campo apresentou bons resultados, com correspondência dos cálculos às áreas consideradas de alto risco, o que auxilia de forma técnica e estruturada a priorização de intervenções para redução de risco em periferias. “O método fornece uma ferramenta técnica e replicável para orientar o uso de recursos públicos em ações de prevenção e mitigação de riscos, fortalecendo a gestão baseada em evidências. Os resultados permitem a priorização de ações estruturais, como obras de contenção, e não estruturais, como alertas e capacitações, contribuindo para a redução do risco de desastres”, afirma.

A pesquisadora também afirma que o método pode ser reproduzido por outras prefeituras, inclusive com recursos limitados, desde que disponham de dados como mapas topográficos, cadastros socioeconômicos e registros de ocorrências. “A utilização do índice demonstra viabilidade de aplicação em larga escala com suporte técnico limitado, o que é fundamental para contextos urbanos periféricos em países em desenvolvimento. Isso o torna uma ferramenta estratégica para democratizar o acesso ao planejamento urbano integrado à gestão de desastres, especialmente em contextos de alta vulnerabilidade social e restrições orçamentárias”, conclui.


Fonte: Agência Bori

O caso das pichações na UFF mostra como perpetuar genocídios: tratando vítimas e algozes com a mesma medida


Por Douglas Barreto da Mata

Imagine você, que seria possível voltar no tempo, lá em 1923, quando Hitler fracassou em sua tentativa de golpe, o chamado Putsch de Munique.  Certamente existiria o mesmo (falso) dilema entre “democratas”, que diziam que era possível conter os animais das milícias da direita (futura SA, e depois, SS) dentro das “regras legais”, e aqueles que entendiam que era impossível conviver com os nazistas.  Joseph Goebbels, a mente por detrás da máquina de propaganda nazista, riu dessa hesitação, quando criou a citação famosa, de que a democracia é o mais estranho dos regimes, porque convive com aqueles que querem acabar com ela.

Como dissemos, o dilema é falso. Não há como tratar nazistas, fascistas, transfóbicos, racistas e outros tipos do gênero. Devem ser excluídos do convívio social, e se constituírem uma grave ameaça ou injusta agressão a indivíduos ou a coletividade, devem ser repelidos com violência de proporcional intensidade.

O nome disso está consagrado na lei, chama-se legítima defesa, no artigo 25 do Código Penal. Ora, só idiotas são capazes de equiparar escravocratas, racistas, com suas vítimas. Ou nazistas e judeus vitimados no Holocausto. Ou mulheres e seus agressores. Ou a população LGBTQ e seus detratores.

Uma das piores formas de injustiça é tratar de forma igual os desiguais.  O episódio que aconteceu no campus da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Campos dos Goytacazes, quando muros foram pichados com dizeres contra racistas e transfóbicos é um “case” neste sentido.

Eu sou insuspeito, porque considero a luta de gênero e as lutas antirracistas uma perda de tempo, porque enxergo essas categorias como sub clivagens dentro do espectro da luta de classes.  Mas não desconsidero a legitimidade e a dor de quem integra estas lutas, porque a dor é deles. E essa dor não é de agora, não é de hoje, e quase sempre foi tratada com desdém ou pior, com cumplicidade pelos chamados “humanistas”.

Então, quando um grupo de estudantes ocupa um espaço público para manifestar sua indignação, e até ódio mesmo, eu não posso igualar essa conduta com os que os perseguem. Não. As pichações parecem “coisa de criança” se comparadas com as verdadeiras mortes de pessoas transgênero nesse país, ou do legado apocalíptico da escravidão sobre gerações e gerações de negros, ainda condenados a três lugares nesse país: necrotério do Instituto Médico Legal, cadeia ou favelas.

Só idiotas, como aqueles que imaginavam ser possível conviver com nazistas, seriam capazes de dar uma dimensão importante a uma parede pichada, colocando em mesmo nível dos danos praticados pelos lunáticos do 8 de janeiro de 2023.  Só imbecis entenderiam circunstâncias e contextos tão diferentes, com consequências tão distantes (ou danificar uma obra de arte é o mesmo que escrever em uma parede?), como se fossem coisas parecidas.

Não sei, não sei, mas em um país em que armas e drogas entram por fronteiras, em esquemas internacionais, ou que estruturas de lavagem de dinheiro fazem a festa de nossa elite “honesta e patriota”, alimentando uma violência que mata mais de 20 mil pessoas por ano, eu acho que essa não seria a prioridade para forças policiais.

Porém, posso estar errado, quem sabe. Então, tropa de choque, tiro, porrada e bomba nos pichadores da UFF. Vamos acalmar a nossa elite caipira.

Um epitáfio para Roberto Kant de Lima

Morre Roberto Kant de Lima, professor da UFF e referência em segurança pública no Brasil

Roberto Kant de Lima, antropólogo e professor da UFF em Niterói

Soube hoje do falecimento do professor titular da Universidade Federal Fluminense, Roberto Kant de Lima, o que sem dúvida foi uma notícia triste para quem o conheceu. Tive a oportunidade de uma convivência mais próxima com o professor Kant quando ele esteve envolvimento no esforço de consolidação do Centro de Ciências do Homem (CCH) da Universidade Estadual do Norte Fluminense, a convite do professora Lana Lage da Gama Lima no final dos anos de 1990.

Com o professor Kant aprendi que se pode ser academicamente rigoroso sem se perder o bom humor e o senso crítico frente às muitas idiossincrasias que marcam a vida universitária. Assim que nos conhecemos ele generosamente me presenteou com sua obraA Antropologia da acadêmia: quando os índios somos nós”, uma espécie de autobiografia onde se utilizou da sua experiência como estudante de doutorado na Universidade de Harvard para refletir sobre as dinâmicas e relações de poder presentes no ambiente acadêmico, mostrando como as hierarquias e disputas simbólicas moldam as práticas e os discursos dentro da universidade.  Nesse trabalho, que ele mesmo considerava desprentesioso, considero que o professor Kant nos ofereceu uma essencial para compreender as complexidades e contradições inerentes ao mundo acadêmico.

Apesar da temporada do professor Kant ter sido relativamente curta no CCH, guardei e cito sempre um bordão jocoso pelo qual ele demonstrava sua incredulidade sobre certas posições e declarações que claramente afrontavam a lógica. Nessas ocasiões, o professor Kant soltava um “eu estou confusa”, que era normalmente seguido de alguma observação mais direta sobre o que o interlocutor acabava de dizer. Com Kant de Lima, não havia muita paciência para aquilo que afrontava a sua inteligência.

Mas eu nunca confundi a irreverência e o aparente desprezo pelos ritos com falta de substância ou de profundidade, ou menos ainda de despreparo. A trajetória acadêmica pretérito e posterior ao CCH demonstra que ele deu o melhor de si na labuta acadêmica, algo que todos deveriam almejar, mas nem todos conseguem fazer.

Lembro que em nosso último encontro presencial que ocorreu em uma madrugada friorenta rodoviária de Caxambu (MG) onde esperavamos a partida  do ônibus de retorno ao Rio de Janeiro após participarmos de uma das reuniões anuais da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), ele mais uma vez foi extremamente gentil comigo, e me desejou sorte na continuidade do processo de construção do CCH, da qual ele, mesmo à distância, continou contribuindo para consolidar.

Com certeza, a perda física de Robert Kant de Lima será mais sentida pelos seus familiares e companheiros de construção da UFF. Mas esta perda afeta para além da família e dos colegas da UFF, pois, sua contribuição e influência intelectual foram muito mais além, deixando suas marcas até aqui na Uenf.

Despejo durante a pandemia: nova gestão municipal de Macaé despeja UFF e UFRJ do prédio da FUNEMAC

A nova gestão da prefeitura de Macaé pretende desalojar a UFF e a UFRJ do prédio da Fundação Educacional de Macaé (FUNEMAC) localizado na Cidade Universitária. Os professores estão sendo desalojados sem que haja outro local que eles possam ocupar para continuar suas atividades

ufrj uff macae

No prédio da FUNEMAC funcionam a sala dos professores dos cursos de Engenharia, Enfermagem, Farmácia, Medicina, Nutrição e Química e laboratórios de ensino e de pesquisa (importantíssimos para as atividades de ensino, pesquisa e extensão da universidade), bem como locais de guarda de materiais administrativos e didáticos. Destacamos que não há gabinete para professores no Polo Universitário e nem mesmo espaço para alojar os laboratórios que estão no referido prédio.

A UFF também está sendo despejada em dois serviços que atendem gratuitamente a população de Macaé. A UFF perderá o espaço o Centro de Assistência Jurídica (CAJUFF), que presta atendimento jurídico a quem precisa, e o Núcleo de Apoio Contábil e Fiscal (NAF), que auxilia na declaração do imposto de renda, em parceria com a Receita Federal.

Essa decisão do novo prefeito de Macaé foi recebida  muito espanto e consternação pela comunidade universitária da UFF e da UFRJ em Macaé. Mesmo em meio à pandemia, a produção acadêmica da UFRJ Macaé não parou, intensificou até por meio do GT COVID-19 UFRJ/MACAÉ, e esperamos que, em breve, todas as atividades presenciais sejam retomadas com qualidade e segurança.

De qualquer maneira,  o corpo docente da UFRJ se mantém aberto ao diálogo com o município de Macaé. Enquanto isso, os professores da UFRJ pedem a ajuda de todos e todas na divulgação desse fato em suas redes sociais, e convocam a toda a comunidade acadêmica e população de Macaé e região para o twitaço #ficaufrjmacaee#ficauffmacae às 18 horas deste sábado.

Prefeito Rafael Diniz, que semeou ventos, poderá acabar colhendo tempestade

luto 1

Abaixo posto imagens de uma manifestação realizada na manhã desta 2a. feira (12/06) para protestar contra o fechamento intempestivo do restaurante popular Romilton Bárbara pelo prefeito de Campos dos Goytacazes, Rafael Diniz (PPS).

Este slideshow necessita de JavaScript.

Apesar de ter sido inicialmente liderada por estudantes da Universidade Federal Fluminense, as informações que me chegaram é que muitos populares se juntaram para expressar sua profunda irritação com o prefeito Rafael Diniz e os cortes que realizou nos programas sociais voltados para os segmentos mais pobres da nossa população.

Pelo jeito, o prefeito Rafael Diniz semeou ventos e poderá colher tempestades. A ver!