A internet, os idiotas da aldeia e o debate sobre as condições mínimas necessárias para a volta das aulas presenciais na Uenf

umberto eco

Ao receber o título de doutor honoris causa em Comunicação e Cultura, na Universidade de Turim, o escritor e filólogo italiano Umberto Eco vaticinou que o “drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade. Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. Antes, os idiotas da aldeia tinham direito à palavra em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade“.  Morto em 2016, Eco nem chegou a ver a ascensão ao poder de figuras como Donald Trump e Jair Bolsonaro que bem representam o resultado político da internet sobre o sistema político e, pior, sobre a vida política cotidiana em um sistema capitalista cada vez mais anti-democrático e injusto.

A lembrança a Umberto Eco me veio à cabeça assim que li alguns comentários postados em redes sociais sobre um assunto que virou matéria jornalística na cidade de Campos dos Goytacazes a partir das ações da Associação dos Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Aduenf) para denunciar a falta de condições para um retorno seguro às atividades presenciais (incluindo aulas) naquela que Darcy Ribeiro gostava de chamar de “Universidade do Terceiro Milênio”.

O aparecimento do assunto na forma de matéria jornalística foi o que bastou para uma pequena legião de “idiotas da aldeia” se pusesse em movimento para atacar os professores da Uenf com adjetivos pouco lisonjeiros, a começar por “vagabundos”.   E o pior que alguns desses que se deram ao trabalho de dirigir esses ataques foram ou ainda são estudantes da instituição, o que evidencia que não estamos fazendo o nosso trabalho de criar os profissionais com consciência cidadã que Darcy Ribeiro tanto desejou que a universidade do Terceiro Milênio formasse.

A questão é que se esses “idiotas da aldeia” se dessem ao trabalho de minimamente se informar sobre o que aconteceu dentro da Uenf desde o início da pandemia da COVID-19, eles saberiam que ao contrário do que eles andaram escrevendo, os professores da Uenf ralaram muito para manter a instituição funcionando remotamente.  A quantidade de aulas dadas, o número de reuniões de realizadas, as bancas de mestrado e doutorado realizadas? Nada disso interessa aos “idiotas da aldeia”, pois nada disso lhes interessa, pois o que vale mesmo é descarregar sua ira para os que são percebidos como “vagabundos”.

Entretanto, não culpa os “idiotas da aldeia” por serem tão assim, digamos, idiotas. Na verdade, a culpa é dos professores da Uenf que bancaram com seus salários corroídos pela inflação os custos de energia elétrica e serviços de internet que, ressalte-se, são inexistentes dentro da Uenf. É que dentro do campus Leonel Brizola, o que continua existindo é uma rede interna que não passa de uma “lesma lerda” quando comparada com aquelas que os professores contrataram a custo pessoal para seguirem pesquisando, orientando e dando aulas desde as suas casas. Tivessem eles se recusando a bancar os custos de trabalhar em suas casas, o mais provável é que os idiotas da aldeia os rotulassem da mesma forma que estão agora. 

Finalmente, não me preocupam os ataques dos idiotas da aldeia, pois estes refletem o ambiente de hostilidade política criada pelos que comandam o Brasil neste momento, e que se revezam em ataques cotidianos a tudo que lhes parece diferente. O que me preocupa é que passados dois anos de pandemia, e com muito trabalho duro realizado, os professores da Uenf não tenham conseguido expor tudo o que foi feito para que a instituição possa voltar a ter aulas presenciais como se nada tivesse feito para evitar a descontinuidade de nossas atividades essenciais.

 

O assassinato de Marielle Franco atiçou a legião de imbecis que espalha ódio nas redes sociais

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O escritor e filólogo italiano Umberto Eco afirmou no dia em que recebia o título de Honoris Causa na Universidade de Turim que as redes sociais deram o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade” [1].

O problema é que a “legião de imbecis” de Umberto Eco está se sentindo livre o bastante para conspurcar pessoas e suas ideias, mesmo após a morte de quem é vitima das imbecilidades dos legionários.

Vejamos o caso ainda recente da vereadora Marielle Franco que está sendo vítima de ataques vis vindo de pessoas igualmente vis. O problema é que as mentiras e imbecilidades que estão sendo espalhadas como fezes ao vento encontram eco (e não estou falando de Umberto Eco) em pessoas das quais se esperaria mais bom senso e capacidade crítica.

Desconfiar das informações que criminalizam alguém que foi brutalmente assassinada por causa de suas ideias deveria ser a primeira tarefa de qualquer cidadão responsável, especialmente aqueles que se dizem “pessoas de bem” e “cristãs”.  Mas não é isso o que estamos vendo, pois o preconceito e a inveja estão sendo usados para impedir que se veja claramente o significado e as consequências do extermínio físico de uma liderança política emergente que era bem preparada intelectualmente, e que recusava perder de vista com quem estavam as suas reais preocupações e responsabilidades.

Uma coisa é certa. Aqueles que reproduzirem todo o lixo que está sendo produzido para apagar quem foi Marielle Franco e o que ela significou para as pessoas que dela precisaram vão ser banidos das minhas redes sociais.  De gente que usa subterfúgios para pregar o ódio de classe e o preconceito racial  quero distância. Elas simplesmente não cabem em minhas relações.

E luta que segue, pois certamente seria isso que Marielle Franco nos diria para fazer em sua ausência.


[1] https://www.terra.com.br/noticias/educacao/redes-sociais-deram-voz-a-legiao-de-imbecis-diz-umberto-eco,6fc187c948a383255d784b70cab16129m6t0RCRD.html