Brasileiros não sabem quais agrotóxicos estão na água que consomem

água

Estudos científicos apontam para crescente contaminação da água usada para consumo humano por resíduos de agrotóxicos.

Por Nadine Nascimento para o jornal Brasil de Fato

A produção agrícola responde por nada menos do que 70% do consumo mundial de água. Mas, ao mesmo tempo que depende desse recurso vital, a atividade também contribui para sua degradação. A poluição hídrica causada por práticas agrícolas insustentáveis, marcadas pelo abuso de​ agrotóxicos que escoam para rios, lagos e reservas subterrâneas, é um problema crescente em todo o mundo.

O Brasil, uma potência em agricultura industrial, é um dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo. Só em 2017, cerca de 540 mil toneladas de ingredientes ativos desses produtos foram consumidas.

Hoje (22) é Dia Mundial da Água. Água potável segura é um direito humano, o que inclui o direito de as pessoas saberem o que tem na água que estão bebendo. A legislação brasileira define que os fornecedores de água – sejam eles empresas estatais, privadas ou governos municipais – são responsáveis por testar 27 agrotóxicos específicos, a cada seis meses, nos sistemas que gerenciam e devem relatar esses resultados ao governo federal.

Para a professora da Faculdade de Tecnologia da Unicamp, Gisela de Aragão Umbuzeiro, “a quantidade de agrotóxicos que hoje consta nesta portaria é pequena e não é representativa dos agrotóxicos que estão sendo usados no Brasil e poderiam causar algum efeito adverso”, levando em conta que o número de ingredientes ativos registrados no Brasil, 306, é 11 vezes maior do que os 27 analisados na água para consumo.

Outro ponto importante é a periodicidade dessas análises que ocorrem semestralmente, “elas são feitas muitas vezes fora ou distante da época do uso do agrotóxico na cultura, isso pode contribuir para que os resultados encontrados não correspondam à real situação da presença de agrotóxico na água”, acredita a médica sanitarista Telma Nery.

atrazina está banida da União Europeia desde 2004, mas aqui é o sexto pesticida mais comercializado com quase 29 mil toneladas, apenas em 2017. Ela também é o contaminador mais comumente encontrado na água. “A atrazina tem um importante efeito no sistema hormonal do ser humano, como também nos sistemas endócrino, reprodutor e neurológico. Quando em uma exposição crônica, ela pode trazer efeitos [negativos] nesses sistemas”, diz Nery.

Resistência

Um desafio complexo como a poluição hídrica pela agricultura requer múltiplas respostas. Segundo a FAO, organização ligada a Nações Unidas, em sua publicação “Mais pessoas, mais alimentos, água pior?”, a maneira mais eficaz de reduzir a pressão sobre ecossistemas aquáticos é atenuar a poluição na fonte.

São apontadas políticas de instrumentos regulatórios tradicionais, como padrões de qualidade da água, licenças de descarga de poluição, avaliações de impacto ambiental para certas atividades agrícolas e limites à comercialização e venda de produtos perigosos, entre outras intervenções.

“As grandes corporações são as que mais consomem água. Todo mundo sabe que quase 70% de toda a água disponível é usada para o agronegócio, e a contrapartida do ponto de vista de geração de emprego, de garantia de alimentos saudáveis é inversamente proporcional”, comenta Edson Aparecido da Silva, secretário executivo do Observatório Nacional dos Direitos a Água e ao Saneamento (ONDAS) e assessor de Saneamento da Fundação Nacional dos Urbanitários (FNU).

avião

Uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos potencializa contaminação de corpos aquáticos e do lençol freatico.

Silva esteve presente no Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA), criado em 2018, que reuniu organizações e movimentos sociais que lutam mundialmente em defesa da água como direito elementar à vida. Este Fórum se contrapõe ao autodenominado Fórum Mundial da Água (FMA), um encontro promovido pelos grandes grupos econômicos que defendem a privatização das fontes naturais e dos serviços públicos de água. Entre as corporações interessadas na apropriação desse recurso e que patrocinaram o evento, estavam Ambev, Nestlé e Coca-Cola.

“Esse modelo de desenvolvimento da lógica do capital se sobrepõe a lógica da garantia dos direitos humanos e da preservação dos bens comuns. As articulações dos movimentos populares dos atingidos por grandes empreendimentos, como o caso do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), ou da luta do Movimentos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que garantem uma produção sustentável sem agrotóxico e que dá condições dignas de vida para a população do campo, têm que ser cada vez mais fortalecidos”, afirmou Aparecido da Silva.


Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!]

Pesquisa aponta alto risco de desertificação na Bahia

Identificação de áreas vulneráveis em polos de produção agrícola serve de alerta para agricultores e representantes do poder público

Camila da Silva Dourado, autora da pesquisa: polos agrícolas como áreas de alto risco | Foto: Antoninho Perri

Pesquisa desenvolvida na Unicamp revela que o Estado da Bahia vem apresentando aumento no índice de aridez e diminuição de chuvas. Os estudos indicam que a tendência é que a situação se agrave nos próximos 30 anos, provocando um aumento das áreas com risco de desertificação na região. As conclusões são da tese de doutorado “Áreas de risco de desertificação: cenários atuais e futuros, frente às mudanças climáticas”, defendida por Camila da Silva Dourado na Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp.

A desertificação é a degradação de terras nas zonas áridas, semiáridas e subúmidas a secas, como resultado das variações climáticas e ações antrópicas, ou seja, as alterações causadas pelo ser humano no ambiente. Este fenômeno transforma terras férteis e agricultáveis em terras improdutivas, causa impactos ambientais como a destruição da biodiversidade, diminuição da disponibilidade de recursos hídricos e provoca a perda física e química dos solos. Neste caso, a pesquisa aponta que as mesorregiões que mais expandiram as áreas com risco de aridez são os maiores polos agrícolas baianos. “Ainda é necessária uma análise mais aprofundada sobre a desertificação nessas áreas, mas os dados mostram que esses polos agrícolas observados passaram a ser considerados como áreas de alto risco”, explica Camila.

O trabalho foi realizado sob orientação de Stanley Robson de Medeiros Oliveira, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária e coorientação de Ana Maria Heuminski de Avila, pesquisadora do Cepagri (Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura). Os autores alertam para a necessidade de se adotar medidas preventivas agora para que as previsões não se consolidem.

Foto: Perri
Camila da Silva Dourado, autora da pesquisa: “Os cenários de aumento de áreas de risco para agricultura por causa da desertificação ameaçam diversos setores econômicos e sociais da região, principalmente o agropecuário”

No cenário da produção agrícola nacional, a Bahia ocupa destaque no Nordeste brasileiro como grande produtora de grãos, além de ser responsável por 12,2% do valor da produção de frutas, ocupando o segundo lugar no ranking nacional. A cultura do algodão no estado representa 25,4% da produção nacional, ficando atrás apenas de Mato Grosso com 64,1% da produção, de acordo com dados da safra de 2016 divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os dois principais polos agrícolas baianos estão no oeste, em cidades como Luís Eduardo Magalhães e Barreiras, por exemplo, onde é forte a produção de algodão e grãos, principalmente a soja. Outro polo está no norte do Estado, maior produtor de frutas da Bahia, sendo destaques as cidades entre Juazeiro (BA) e Petrolina, em Pernambuco.

“Os cenários de aumento de áreas de risco para agricultura por causa da desertificação ameaçam diversos setores econômicos e sociais da região, principalmente o agropecuário”, explica Camila. Por isso, uma das alternativas recomendáveis é o desenvolvimento de ferramentas e sistemas inteligentes capazes de capturar, organizar e quantificar dados e informações, que auxiliem o planejamento da produção agrícola e o processo de tomada de decisão, com o objetivo de diminuir os impactos ambientais.

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De acordo com os resultados obtidos por meio da análise de dados climáticos (chuva, temperatura e evapotranspiração), dados edáficos, declividade do terreno, fragilidade do solo à erosão e de vegetação (extraídos de imagens de satélite), entre os anos de 2000 e 2014, o território baiano já apresentou uma queda do nível de precipitações (chuvas), diminuição de áreas de cobertura vegetal nativa, e um aumento no índice de aridez e das áreas com risco de desertificação.

Para o futuro, ou seja, entre os anos de 2021 a 2050, a previsão é que o Estado enfrente um aumento de temperatura de aproximadamente 1 °C e diminuição das precipitações, em relação ao clima atual. As previsões também apontam um aumento nas áreas consideradas áridas e uma expansão de terras com risco “alto” e “muito alto” de desertificação. “Essa pesquisa exibe o cenário futuro; então, se quisermos minimizar esses riscos, temos que tomar decisões e atitudes agora ou será muito tarde para fazer as correções. Não podemos esperar até 2050”, alerta Stanley Oliveira.

Segundo o orientador da pesquisa, as técnicas de mineração de dados associadas às técnicas de sensoriamento remoto em imagens orbitais, tratam do desafio de captar padrões e processos, e proporcionam um diagnóstico espaçotemporal da mudança na paisagem, permitindo também monitorar e diagnosticar o grau de degradação de terras. Essas técnicas facilitam a análise e a manipulação de dados em grandes áreas, com menos custo que os métodos convencionais, permitindo uma avaliação das alterações ocorridas no meio ambiente, no passado, presente e com simulações do futuro.

“A depender da prática agrícola que é adotada hoje, terras produtivas serão transformadas em improdutivas. Não adianta utilizar práticas inadequadas que não visem à sustentabilidade daquele solo e dos recursos naturais. É preciso alertar o grande e pequeno produtor sobre formas de produção que amenizem essa situação; é uma questão de sensibilização. São necessárias políticas públicas também para que haja incentivo às novas formas de produção e de utilização da terra e dos recursos naturais”, ressalta Camila.

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O desafio de alimentar uma população em crescimento

Os resultados que a pesquisa aponta são importantes para a busca de soluções ao principal desafio da agricultura mundial: cumprir a meta de alimentar nove bilhões de pessoas até 2050, de acordo com previsão da FAO, a Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e a Agricultura. Estudos da agência indicam que, para alimentar uma população extra projetada em mais 2,3 bilhões de pessoas, o mundo precisará produzir 70% a mais de alimentos. Entretanto, a expansão das terras agricultáveis terá de se dar em cerca de 120 milhões de hectares nos próximos 40 anos em países em desenvolvimento, principalmente na América Latina e na África Subsaariana.

Regiões áridas e terras desertificadas dificultam e impedem a produtividade de alimentos. Terras antes agricultáveis se tornam improdutivas em razão dos processos de semiaridez, aridez e desertificação. Estima-se que boa parte das terras inseridas em áreas de clima propícios à desertificação tenha seu processo de improdutibilidade acelerado. Por isso, os resultados são importantes para orientar o trabalho de gestores e apoiar a formulação de políticas públicas focadas na região.

Foto: Perri
O pesquisador Stanley Robson de Medeiros Oliveira, orientador da tese: “Se quisermos minimizar esses riscos, temos que tomar decisões e atitudes agora ou será muito tarde para fazer as correções”

Historicamente a região norte do território baiano integra o polígono da seca, uma área de mais de 1 milhão de km² entre os Estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, que enfrenta crises repetidas de estiagem. Dessa forma, a manutenção da fruticultura no norte é feita através de sistemas de irrigação. Porém, outro problema apontado pela pesquisa é que regiões antes consideradas com risco baixo de desertificação passam ao moderado e alto, como é o caso da região oeste. Essa situação mudaria todo o cenário de produção agrícola do estado.

Nos últimos anos os pesquisadores também vêm se preocupando com a influência das mudanças climáticas no avanço do processo de desertificação. “Com o aumento de temperatura estimado em 1 ºC e a diminuição na precipitação, há a ocorrência de um outro indicador que utilizamos, a evapotranspiração, que é subsídio para um outro indicador, o índice de aridez. Juntando essas variáveis, e com as novas projeções do modelo de mudanças climáticas, confirma-se que há uma expansão muito grande das áreas de desertificação”, esclarece Camila.

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“Se considerarmos os resultados, esse é um cenário muito drástico e assustador, mas o objetivo dessa pesquisa não é assustar e sim informar. É hora de criar políticas públicas para que as pessoas que vivem da terra consigam ter melhor qualidade de vida, possam permanecer e alimentar suas famílias, porque o grande risco é que elas migrem para outras regiões e se tornem marginalizadas. As pessoas precisam continuar produzindo alimento para subsistência e comércio”, afirma a coorientadora da pesquisa, Ana Avila.

Metodologia

Para avaliar as áreas com potencial de risco de desertificação no estado da Bahia, foram utilizados sete indicadores biofísicos de desertificação: índice de vegetação de diferença normalizada e índice de vegetação realçado (NDVI e EVI, respectivamente, na sigla em inglês) ambos gerados pelo sensor Modis; índice de aridez; dados de solo; precipitação; temperatura e evapotranspiração. No caso dos mapas climáticos foi aplicado o método geoestatístico Krigagem Bayesiana Empírica. Também foram elaborados mapas de modelo de elevação digitação, declividade e classificação do solo, com o intuito de gerar um mapa de fragilidade do solo, usado como indicador, com as características edáficas da região.

Foto: Perri
A pesquisadora Ana Maria Heuminski de Avila: “É hora de criar políticas públicas para que as pessoas que vivem da terra consigam ter melhor qualidade de vida, possam permanecer e alimentar suas famílias”

A partir do empilhamento das imagens dos sete indicadores de desertificação foi aplicada a tarefa classificação, por meio do algoritmo Máquinas de Vetores Suporte (SVM, sigla em inglês) na imagem produto, definindo quatro níveis de risco de desertificação: muito alto, alto, moderado e baixo. A pesquisa usou imagens de alta resolução espacial do satélite RapidEye para validação da classificação fornecidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). As simulações dos impactos das mudanças climáticas para o cenário futuro, 2021 até 2050, utilizaram modelos climáticos Eta-MIROC5, que preveem diminuição da precipitação, aumento de temperatura e deslocamento das áreas com maiores taxas de evapotranspiração potencial.

Foram estudados dois cenários de períodos temporais distintos: o de clima presente, abrangendo os anos de 2000 a 2014, e o cenário de clima futuro, para o período de 2021 a 2050. Os resultados mostraram que em 2014 houve uma diminuição na precipitação e nas áreas de cobertura vegetal em relação ao ano 2000, além de um aumento no índice de aridez e nas áreas de risco de desertificação. No cenário futuro, houve um aumento de temperatura de aproximadamente 1 °C e diminuição da precipitação em relação ao clima presente. O índice de aridez aponta um aumento nas áreas áridas para o clima futuro, e uma expansão nas áreas de risco de desertificação, principalmente nas áreas de risco muito alto e alto.

“Essa metodologia é inédita e rica por usar técnicas de sensoriamento remoto e de mineração de dados, incluindo um algoritmo inteligente (SVM – Support Vector Machine), que aprende interativamente com uma massa de dados, descobre e apresenta os padrões encontrados. Isso pode ser aplicado em outras regiões do Brasil, principalmente aquelas mais carentes; a contribuição não se restringe só ao estado da Bahia”, enfatiza Oliveira.

FONTE: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2018/02/19/pesquisa-aponta-alto-risco-de-desertificacao-na-bahia

 

Fim do ensino superior público pago no Chile, por que o silêncio?

Governo chileno aprova reforma do ensino superior que põe fim às universidades privadas e adota um modelo de ensino superior gratuito e universal Foto: Alex Ibañez/ Presidencia do Chile

Governo chileno aprova reforma do ensino superior que põe fim às universidades privadas e adota um modelo de ensino superior gratuito e universal
Foto: Alex Ibañez/ Presidencia do Chile

*Por Peter Schulz

Há pouco mais de dois meses um fato banal em si transformou-se em grande notícia. O fato era a entrega de um relatório encomendado pelo governo federal, um ”ajuste justo” proposto pelo Banco Mundial. Entre outros, um ajuste bastante divulgado pelos grandes meios de comunicação era o fim da gratuidade no ensino superior público no Brasil[I]. A repercussão foi enorme, lançando-se mão de exemplos bem sucedidos nesse sentido, como o da Inglaterra. A ampla divulgação não trazia junto o “outro lado”, o contraditório. As críticas a essa proposta apareceram em veículos de menor penetração e, em parte, por meio das redes sociais. Uma vez formados esses polos, não ocorreu propriamente um debate público, não apareceram tréplicas para provocar reposicionamentos ou aprofundar as argumentações. Polarizações sem o necessário embate qualificado são comuns e um caso específico foi analisado de forma bastante clara e será útil para entender a pergunta do título: a (des)informação sobre um ataque com mísseis à Faixa de Gaza em 2014. A análise, tanto da cobertura de imprensa de um lado e a omissão de outro, quanto da repercussão nas redes sociais, é de Gilat Lotan da New York University[II]. Vale a pena olhar a imagem da rede de respostas pelo Twitter sobre esse fato a partir de um Twit do Haaretz.com. É possível ver que as comunidades de Twitters “pró-Israel” e as “pró-Palestina” praticamente não se conectam: polarizam-se, mas cada um não se interessa pelo outro lado da história. Um dos “olhos” – como são chamadas as frases em destaque de um artigo – no texto de Lotan é digno candidato a epígrafe: “nós não estamos vendo pontos de vista diferentes e sim mais do mesmo”. Um subtítulo também é sugestivo: “a Mídia constrói a realidade”.

Quanto aos grandes meios de comunicação, Lotan notou que portais de um dos polos anunciaram claramente o incidente, enquanto que os do outro polo pouca menção faziam a isso. Isso lembra bem o caso de poucos dias atrás. Nos desdobramentos do debate (que acabou não existindo) a partir do relatório do Banco Mundial, seria importante uma análise mais aprofundada da realidade nos países onde o ensino superior público é pago, como Estados Unidos ou Inglaterra[III] e, mais perto daqui, o Chile. Nesse contexto, foi quase só por acaso que ficamos sabendo que “O congresso do Chile aprovou lei de gratuidade da educação superior” no dia 24 de janeiro (manchete do eldiario.es[IV]). Para chegar pelo Google a essa matéria, passei primeiro por uma pequena nota Jornal da Ciência da SBPC e pelo blog do Freitas[V], que exibe o link para matéria na Carta Educação, o único veículo de comunicação que parece ter divulgado a noticia por aqui. Assim temos um relatório que propõe uma coisa (ensino superior público pago) amplamente divulgada e um fato importante, mas no sentido contrário (fim do ensino público pago em um país vizinho), que foi obliterado. Lembrando o texto de Lotan: a mídia constrói a realidade?

Voltando ao fato principal, qual é a notícia? A Câmara dos Deputados aprovou com 102 votos e duas abstenções a lei de ensino superior, que universaliza sua gratuidade e introduz outras reformas em um sistema vigente desde a ditadura de Pinochet. O plano já vem de certo tempo e começou a ser posto em marcha em 2016[VI] debaixo de críticas vindo de diferentes pontos do espectro político. O que é comum em várias das narrativas é o alto custo do sistema que agora tem finalmente o marco legal para sua mudança: as mensalidades das universidades chilenas estão entre as mais caras do mundo em termos de paridade de poder aquisitivo[VII]. Esse modelo, que agora é reformado, se correlacionou como uma enorme expansão do ensino superior, mas desonerando o Estado à custa de onerar as famílias e os estudantes. De forma não sustentável. São conhecidos os protestos estudantis no Chile em 2006 e 2011, esses últimos tendo motivado a reforma em questão.

Entender um sistema de ensino em outro país não é tarefa rápida e simples, mas é imprescindível para uma discussão qualificada. Tomar apenas um ou outro aspecto de forma isolada é simplesmente um exemplo do que já foi batizado como sincericídio[VIII]. O que deve ser oferecido, portanto, é acesso a diferentes narrativas. Aqui eu apresentei algumas e acrescento ainda a de J. Salvador Peralta, publicada no portal Times Higher Education[IX] (clique abaixo) em julho do ano passado, ou seja, em pleno debate da lei que foi aprovada praticamente por unanimidade meses depois.

Ao considerarmos exemplos de qualquer lugar que seja, precisamos nos debruçar sobre essas experiências ao longo do tempo como um todo, pois só assim podemos perceber que o que é apresentado por alguns como uma solução ‘mágica’ (e trágica) acabou em farsa e precisou ser substituída. Convido a todos a acompanhar o desenvolvimento do ensino público e gratuito no Chile. Torço por ele, pois Peralta adverte que a reforma estaria condenada por ser boa demais. Espero também que tenhamos mais acesso às informações sobre isso, sem as manipulações de dados, como as confessadas recentemente pelo Banco Mundial[X].

 [I] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/11/27/o-banco-mundial-contra-ataca

[II] https://medium.com/i-data/israel-gaza-war-data-a54969aeb23e

[III] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/universidades-publicas-ameacadas-em-outros-lugares

[IV] http://www.eldiario.es/sociedad/Congreso-Chile-gratuidad-educacion-superior_0_733176683.html

[V] https://avaliacaoeducacional.com/2018/01/28/chile-aprova-gratuidade-no-ensino-superior/

[VI] http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/01/1728059-chile-passa-a-ofertar-ensino-superior-gratis.shtml

[VII] https://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/reportagens/reforma-do-ensino-superior-chileno-entra-em-pauta

[VIII] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/roberto-romano/sobre-o-sincericidio

[IX] https://www.timeshighereducation.com/world-university-rankings/latin-america-university-rankings-2017-unwelcomed-advance-chile

[X] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/14/economia/1515899491_574904.html

*Peter Schulz foi  foi professor do Instituto de Física “Gleb Wataghin” (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro “A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos” (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).

FONTE: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/fim-do-ensino-superior-publico-pago-no-chile-por-que-o-silencio

Universidades estaduais sob ataque e os riscos disso para o futuro

Uma rápida análise do que anda acontecendo em diferentes estados brasileiros mostrará que algo comum está ocorrendo, e não é belo. Falo aqui do ataque em regra às universidades estaduais, e que é mais visível em estados como o Rio de Janeiro e Paraná, mas também está se manifestando em Minas Gerais, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia.  A escusa dos diferentes governadores para negar os recursos necessários para fazer funcionar as universidades é a crise financeira dos estados.  Este argumento, falso, quero logo dizer, está sendo utilizado em estados como a Bahia onde a crise financeira sequer existe.  Além disso, esse ataque às universidades estaduais transpõe os limites partidários, pois enquanto no Rio de Janeiro e Paraná os governadores são do PMDB e do PSDB, em Minas Gerais e Bahia, ambos os governadores são do PT.   Este raro e infeliz momento de unidade partidária é explicado pelo fato de que todos esses partidos estão aplicando políticas neoliberais quando miram nas universidades estaduais em nome da manutenção do fluxo do dinheiro público para o sistema rentista.

Mas afora os aspectos intrínsecos que caracterizam as universidades públicas no tocante à produção de conhecimento científico e formação de recursos humanos estratégicos, estas instituições trazem consigo um elemento bastante singular que é o de serem instrumentos bastante eficientes de descentralização espacial do ensino público superior. É que até recentemente as universidades federais tinham sua restringida às capitais ou cidades médias, deixando o oferecimento de ensino superior interiorizado para as universidades estaduais ou, ainda, para instituições privadas de ensino.  O melhor exemplo que eu conheço do papel dinamizador das universidades estaduais na expansão de oportunidades de ensino qualificado é o da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que foi criada em 1962 para servir como elemento de dinamização econômica da região em torno da cidade de Campinas, e hoje é simplesmente uma das melhores universidades da América Latina. O fato é que junto com a evolução da Unicamp houve uma vigorosa transformação das bases produtivas existentes em Campinas, mas houve um efeito multiplicador que provocou um processo de desenvolvimento da economia regional.

Se olharmos o papel que a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) cumpriu nas regiões Norte e Noroeste Fluminense, eu diria que a instalação da instituição ultrapassou o que foi alcançado pela Unicamp, simplesmente porque a realidade social e econômica existente era muito mais precária do que a existente na região de Campinas.  Como estou na Uenf há quase duas décadas pude presenciar e participar das mudanças que a universidade gerou desde 1993.  Um exemplo bem básico é o fato de que hoje muitas prefeituras possuem pessoal técnico formado pela Uenf, e que estes profissionais são naturais desta região, sendo que uma parte não desprezível só pode obter um diploma de ensino superior por causa dela.

Outro aspecto bastante significativo, e que é muito pouco mencionado, é que as universidades estaduais são grandes consumidoras do comércio local, além de oferecerem oportunidades de emprego, seja diretamente dentro da universidade ou fora dela a partir da capacidade de seus profissionais de empregarem.  A Uenf é um excelente exemplo disso, pois sendo a maior instituição estadual fora da região metropolitana do Rio de Janeiro, a sua execução orçamentária serviu como um dínamo para a economia não apenas de Campos dos Goytacazes, mas também de todos os municípios onde haja algum nível de atuação de seus laboratórios de pesquisa e unidades de ensino à distância.

Assim, ao atacar as universidades estaduais, o que os governos de plantão estão fazendo é praticar vários atentados contra o presente e o futuro das regiões do interior. É que a inviabilização das universidades estaduais não apenas fecha espaços de desenvolvimento científico e tecnológico e de formação de recursos humanos, mas também contribuem para a precarização do serviço público e, de quebra, contribuem para a quebra da economia regional. Em outras palavras, o ataque às universidades estaduais traz sérias consequências para aquelas regiões mais distantes das capitais, onde normalmente o ambiente econômico é deprimido historicamente, como é o caso lapidar do Norte Fluminense.

No caso da Uenf, dadas todas as evidentes demonstrações do seu potencial dinamizador para o Norte/Noroeste Fluminense, a lógica ditaria que, neste momento, já houvesse um poderoso movimento político em sua defesa. Esse movimento deveria incluir não apenas as prefeituras e câmaras de vereadores, mas também entidades corporativas e empresariais. Afinal, sem a Uenf, o mais provável é que toda a região sob sua influência vá cair numa estagnação ainda maior do que a já existente. 

Mas não, até agora o que se vê praticado é um misto de indiferença e cumplicidade com a política de destruição sendo executada pelo (des) governo Pezão. E, de vez em quando, ainda aparece algum expert dizendo que a culpa é da Uenf que não faz isso ou aquilo para se aproximar da população.   O pior ainda é ter de ouvir a ladainha de que a Uenf tem que se abrir para o investimento privado, como se houvesse algum interesse real em investir em ciência e tecnologia dentro do capitalismo regional. Toda essa conversa só serve para que Pezão e seus (des) secretários continuem entregando bilhões em sua famigerada farra fiscal, e expressa o evidente descompromisso com qualquer processo de desenvolvimento regional que esteja ancorado numa indústria que está em um processo evidente de decadência (falo aqui da petrolífera, já que a do açúcar e do álcool tornou-se irrelevante faz tempo).

Assim, a sobrevivência das universidades estaduais, a Uenf inclusa, só será possível se as instituições e suas comunidades forem capazes de dialogar com quem efetivamente entende a sua importância. Falo aqui daquela parcela da população que veem nas universidades estaduais a única oportunidade real de um futuro melhor não apenas para si, mas para todos. Eu digo isso porque ao sair nas ruas e conversar com as pessoas, ouço sempre manifestações indignadas com o que está sendo feito contra a Uenf.   Procurar o diálogo com amplas camadas da população deverá ser uma tarefa central para garantir que as universidades estaduais não sejam destruídas. Como o ataque é intenso e incessante, qualquer minuto perdido neste diálogo poderá tornar o eclipse da Uenf um processo inevitável.

Universidades paulistas entram em greve contra arrocho salarial

Decisão da USP, Unicamp e Unesp ocorre após reunião sem solucão com o Cruesp

Por Redação

Professores, funcionários e alunos da Universidade de São Paulo (USP) entrarão em greve por tempo indeterminado a partir de terça-feira (27). A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp) também aderiram à paralisação. O motivo é o congelamento de salários anunciado na quarta (21) pelo Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), composto pelas reitorias das três universidades paulistas.

O Cruesp comunicou em reunião que haveria 0% de reajuste nos salários e o fim das negociações. No mesmo dia, professores e funcionários da USP definiram o início da greve e foram seguidos pelos alunos, que realizaram assembleia na parte da noite.

A Unicamp aderiu à greve, após assembleia realizada na tarde de quinta-feira (22). Os funcionários já entraram em greve a partir desta sexta (23) e os professores começam a paralisação, assim como na USP, a partir de terça (27). Já a Unesp, segundo informações passadas nesta sexta (23) à tarde pela assessoria de comunicação, tem 13 de seus campi ao menos parcialmente paralisados. Outros 21 campi da instituição ainda funcionam normalmente e assembleias ainda acontecem em todas as unidades para deliberar sobre a greve.

Segundo comunicado divulgado pelo Cruesp, “os níveis de comprometimento do orçamento com a folha de pagamento passaram a ser 95,42% na Unesp, 97,33% na Unicamp e 105,33% na USP”. Assim, as discussões salariais foram postergadas para setembro e outubro. O Conselho se comprometeu a agendar reuniões mensais com a Comissão Técnica para acompanhar a situação financeira das universidades.

A USP é a universidade com o orçamento mais prejudicado. No mês de abril, o reitor Marco Antonio Zago divulgou uma carta a docentes, funcionários e alunos, em que explica a crise financeira pela qual a instituição passa e anuncia que “todas as novas contratações de pessoal foram suspensas por tempo indeterminado, incluindo as substituições de aposentados ou demitidos. Novas construções tiveram que ser suspensas, sem consideração de prioridade ou interesse acadêmico”.

Uma audiência pública sobre a crise financeira nas universidades estaduais paulista foi marcada também para a terça (27), na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, às 14h.

Após a decisão dos professores da USP, os estudantes do campus em São Paulo também realizaram assembleia e decidiram por greve geral “em defesa da universidade pública e em apoio aos funcionários e professores”.

FONTE: http://www.carosamigos.com.br/index.php/cotidiano-2/4153-universidades-paulistas-entram-em-greve-em-protesto-a-arrocho-salarial