Pesquisa publicada no Journal of Soils and Sediments identifica contaminação em todos os pontos analisados no litoral baiano e mostra que a degradação dos ecossistemas marinhos avança muito antes de aparecer nas manchetes
A poluição por microplásticos deixou há muito tempo de ser um problema restrito aos grandes centros urbanos ou às regiões industriais. Um estudo recém-publicado no Journal of Soils and Sedimentsmostra que essa contaminação já está disseminada nos sedimentos marinhos da chamada Amazônia Azul, conceito utilizado para designar a vasta zona econômica exclusiva brasileira no Atlântico. A pesquisa, conduzida por Rayane Sorrentino e colaboradores, analisou sedimentos de diferentes regiões do litoral da Bahia e encontrou microplásticos em todos os locais amostrados, sem exceção.
À primeira vista, os números podem parecer modestos quando comparados a áreas extremamente degradadas do planeta. Foram identificados 270 microplásticos por quilograma de sedimento seco, variando entre 8 e 90 partículas por quilograma conforme o local analisado. Mas a relevância do estudo não está apenas na quantidade encontrada. O verdadeiro alerta reside no fato de que mesmo áreas reconhecidas por sua elevada biodiversidade e importância ecológica já apresentam um nível consistente de contaminação, demonstrando que praticamente não existem mais ambientes costeiros livres da presença desse novo poluente planetário.
Outro aspecto que merece destaque é o predomínio das microfibras, responsáveis por aproximadamente dois terços de todas as partículas identificadas. Esse resultado aponta diretamente para uma das principais fontes contemporâneas de poluição: os tecidos sintéticos utilizados pela indústria da moda. A simples lavagem de roupas produzidas com poliéster, poliamida e outros polímeros libera milhares de microfibras que passam pelos sistemas convencionais de tratamento de esgoto e acabam sendo transportadas para rios, estuários e, finalmente, para o oceano. Não se trata apenas de lixo plástico descartado inadequadamente, mas de uma forma contínua e invisível de contaminação produzida diariamente pelo próprio funcionamento da economia contemporânea.
Os autores também identificaram uma tendência de maiores concentrações de microplásticos nas áreas mais urbanizadas, especialmente em Salvador e Itaparica. Embora a correlação estatística com a densidade populacional não tenha alcançado significância, a distribuição espacial dos resultados indica que o crescimento urbano, o lançamento insuficientemente tratado de esgoto, a drenagem pluvial e o turismo intenso constituem importantes vetores da poluição marinha. Em outras palavras, os microplásticos acompanham o avanço da urbanização desordenada e das deficiências históricas da infraestrutura sanitária brasileira.
Talvez o aspecto mais inquietante do estudo seja justamente aquilo que ele não consegue medir plenamente. Os pesquisadores reconhecem que as limitações analíticas impediram a identificação química de muitas partículas extremamente pequenas. Isso significa que a contaminação observada provavelmente representa apenas uma fração do problema real. À medida que os plásticos continuam sofrendo fragmentação física e química no ambiente, transformam-se em partículas cada vez menores, potencialmente mais biodisponíveis e mais facilmente incorporadas por organismos marinhos ao longo da cadeia alimentar.
Esse processo merece atenção especial porque os microplásticos já não são considerados apenas resíduos inertes. Hoje se sabe que eles funcionam como vetores de contaminantes químicos, metais pesados e microrganismos patogênicos, além de liberarem aditivos utilizados durante sua fabricação. Dessa forma, cada pequena partícula pode atuar como um veículo de múltiplas formas de contaminação ambiental e alimentar.
No caso brasileiro, o trabalho ganha importância adicional por demonstrar que a degradação da Amazônia Azul ocorre de maneira silenciosa e cumulativa. O debate público costuma concentrar-se em grandes desastres ambientais, como derramamentos de petróleo, rompimentos de barragens ou episódios de mortandade de peixes. Entretanto, a poluição por microplásticos representa um tipo distinto de ameaça: difusa, permanente e praticamente invisível. Todos os dias milhões de partículas chegam ao ambiente marinho sem provocar manchetes ou mobilizações políticas, mas acumulam-se lentamente nos sedimentos e nos organismos que sustentam a biodiversidade e a pesca costeira.
Esse caráter gradual aproxima a contaminação por microplásticos do conceito de violência lenta, formulado pelo pesquisador Rob Nixon. Ao contrário das catástrofes espetaculares, a violência lenta se manifesta por processos ambientais que evoluem quase imperceptivelmente ao longo do tempo, acumulando danos que acabam recaindo de forma desproporcional sobre populações costeiras, pescadores artesanais e comunidades que dependem diretamente dos ecossistemas marinhos para sua sobrevivência. É justamente essa invisibilidade que torna o problema tão difícil de enfrentar politicamente.
O estudo de Sorrentino e colaboradores reforça, portanto, uma constatação incômoda: o Brasil continua tratando seus oceanos como receptores passivos dos resíduos produzidos pelo atual modelo de desenvolvimento. Enquanto o país celebra a expansão da chamada economia azul e projeta novos investimentos em infraestrutura portuária, exploração offshore e turismo costeiro, a contaminação por microplásticos avança silenciosamente sobre ecossistemas cuja recuperação poderá levar décadas, talvez séculos. A Amazônia Azul, frequentemente apresentada como patrimônio estratégico nacional, já revela sinais de uma degradação que não pode mais ser considerada um problema do futuro. Ela já está presente nos sedimentos do presente.
Reportagem da Repórter Brasil mostra que a influência de financiadores privados sobre estudos científicos pode ser muito mais ampla do que se imagina e levanta dúvidas sobre a capacidade das instituições de proteger a independência da produção do conhecimento
A reportagem de Hélen Freitas, publicada pela Repórter Brasil merece ser lida com atenção por todos aqueles que acompanham o debate sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde humana e no meio ambiente. O caso relatado não se resume à abertura de uma investigação pela Unicamp e pela revista científica InterAmerican Journal of Medicine and Health. Ele lança luz sobre um problema muito mais amplo: a fragilidade dos mecanismos de proteção da integridade científica justamente em uma das áreas mais disputadas da pesquisa contemporânea.
Segundo a reportagem, a investigação procura esclarecer possíveis conflitos de interesse em um estudo que concluiu que trabalhadores rurais expostos ao glifosato apresentavam níveis considerados aceitáveis do herbicida. A questão central, entretanto, não é apenas o financiamento da pesquisa pela Aprosoja-MT. Os documentos analisados indicam que a entidade financiadora também teria participado da seleção dos trabalhadores avaliados, indicado laboratórios responsáveis pelas análises e participado da logística de coleta e transporte das amostras. Em outras palavras, o financiador teria interferido em etapas fundamentais do desenho metodológico da pesquisa.
Caso essas informações sejam confirmadas, estaremos diante de algo muito mais grave do que um simples conflito administrativo, pois se trata da possibilidade de comprometimento da independência científica justamente no momento em que são produzidas evidências destinadas a orientar decisões regulatórias sobre um dos herbicidas mais utilizados no planeta.
O aspecto mais preocupante, porém, talvez seja outro. É que seria um erro interpretar esse episódio como um acidente isolado. Ao contrário, ele parece ilustrar um padrão recorrente na literatura científica relacionada aos agrotóxicos.
Nas últimas décadas, inúmeras revisões sistemáticas demonstraram que estudos financiados por fabricantes ou por entidades diretamente interessadas na manutenção do uso de determinados produtos tendem, com frequência significativamente maior, a produzir conclusões favoráveis à segurança dessas substâncias quando comparados às pesquisas conduzidas por grupos independentes. Esse fenômeno já foi amplamente documentado nas áreas do tabaco, da indústria farmacêutica, dos combustíveis fósseis e, cada vez mais, da agricultura baseada em insumos químicos.
Não se trata de afirmar que toda pesquisa financiada pelo setor privado seja necessariamente inválida. A ciência depende de diferentes fontes de financiamento, inclusive empresariais. O problema surge quando o patrocinador deixa de financiar e passa a interferir na definição das perguntas, na seleção dos participantes, na metodologia empregada, na interpretação dos resultados ou na divulgação das conclusões. A partir desse momento, a independência científica deixa de existir.
O caso da Unicamp também revela outro aspecto igualmente preocupante: a insuficiência dos mecanismos de monitoramento ético atualmente existentes.
Os Comitês de Ética em Pesquisa exercem papel fundamental na proteção dos participantes dos estudos. Entretanto, sua atuação concentra-se predominantemente na análise inicial dos protocolos de pesquisa. Depois da aprovação, o acompanhamento efetivo da execução dos estudos costuma ser bastante limitado, dependendo quase sempre das informações prestadas pelos próprios pesquisadores.
Esse modelo parte de uma premissa de boa-fé que, embora essencial ao funcionamento da ciência, torna-se insuficiente quando pesquisas envolvem interesses econômicos extremamente elevados. Se, durante a execução do estudo, ocorrerem mudanças relevantes na seleção dos participantes, nos procedimentos metodológicos ou na participação do financiador, muitas vezes não existem mecanismos institucionais capazes de detectar essas alterações em tempo oportuno.
Da mesma forma, o sistema editorial das revistas científicas baseia-se fortemente nas declarações de conflito de interesse apresentadas pelos próprios autores. Editores e pareceristas normalmente não possuem instrumentos para verificar independentemente se todas as relações financeiras, institucionais ou metodológicas foram efetivamente declaradas. Como consequência, o sistema depende quase inteiramente da transparência dos pesquisadores.
É justamente essa combinação entre fiscalização limitada durante a execução das pesquisas e confiança quase absoluta nas autodeclarações dos autores que cria um ambiente favorável para conflitos de interesse permanecerem invisíveis durante anos.
O episódio reforça, portanto, a necessidade de uma agenda muito mais robusta de integridade científica. Pesquisas com potencial impacto sobre políticas públicas de saúde e de regulação ambiental deveriam adotar padrões muito mais rigorosos de transparência. Protocolos previamente registrados, divulgação integral das fontes de financiamento, publicidade sobre a participação dos patrocinadores em cada etapa da pesquisa, acesso aos bancos de dados e auditorias independentes deveriam constituir práticas rotineiras — e não exceções.
Essa discussão torna-se ainda mais urgente quando lembramos que as decisões regulatórias envolvendo agrotóxicos afetam milhões de trabalhadores rurais, comunidades expostas à pulverização, consumidores e ecossistemas inteiros. Quanto maiores os impactos sociais de uma pesquisa, maior deve ser o grau de independência e de escrutínio público sobre sua produção.
Por isso, o mérito da reportagem da Repórter Brasil vai além da denúncia de um caso específico. Ela convida a comunidade científica a enfrentar uma questão desconfortável, mas inevitável: até que ponto os atuais mecanismos de integridade científica conseguem proteger a produção do conhecimento quando os interesses econômicos em jogo alcançam bilhões de reais?
Infelizmente, tudo indica que, na área dos agrotóxicos, a resposta ainda está longe de ser satisfatória.
Três das principais universidades do país, USP, Unicamp e Unesp estão criando protocolos para o uso da inteligência artificial (IA). Em geral, a regra é a transparência. A utilização da IA deve ser combinada entre professores e alunos e declarada nas pesquisas e nos demais trabalhos acadêmicos. E não basta dizer “Eu usei IA”. O rigor acadêmico exige que sejam listadas quais ferramentas foram utilizadas, detalhando versões e modelos, e de que maneira, reproduzindo até os prompts (comandos para execução de tarefas).
Diante da importância dessas três universidades, o caminho adotado por elas diz respeito não somente às suas comunidades, mas deve servir como referência a outras instituições de ensino, à educação brasileira em geral e até a outras áreas.
O debate sobre o uso de IA tem tomado diferentes setores, inclusive a imprensa, cada um deles com suas especificidades.
Nas universidades, a definição de regras é parte de um projeto maior. A exemplo do que vem ocorrendo em universidades no mundo todo, USP, Unicamp e Unesp estão estruturando departamentos para estabelecer protocolos e diretrizes da IA, coordenar debates, pesquisas e desenvolvimento de ferramentas, além de promover a formação de alunos, professores, funcionários e da comunidade externa.
A Unesp publicou no ano passado a resolução geral e uma portaria para a pós-graduação. Finalizou agora um guia para a graduação, ao qual a Folha de S.Paulo teve acesso, com normas divididas em “O que você PODE fazer”, “O que você NUNCA pode fazer” e “O que você TALVEZ possa fazer”.
Exemplos do que o aluno pode fazer: usar IA para traduzir textos, parafrasear parágrafos e elaborar resumos. E do que nunca pode fazer: submeter trabalhos gerados por IA, de forma integral ou parcial, como se fossem produções originais, usar IA em avaliações sem autorização do professor.
Docentes podem, por exemplo, usar IA para elaborar aulas e auxiliá-los na correção é obrigatório que revisem o resultado. Nunca podem criar materiais didáticos sem revisão humana e sem declarar o uso da IA aos alunos.
O guia orienta que os docentes reflitam com os alunos sobre a IA e estipulem em que fases dos trabalhos ela pode ser utilizada e como. Curiosamente, o guia foi elaborado com a ajuda de IA, trazendo um capítulo para falar sobre isso.
“Buscamos promover o uso responsável. E isso envolve também a formação sobre o que é a IA, fundamentos, riscos, possibilidades, aspectos éticos”, diz Denis Salvadeo, um dos organizadores do guia. Ele coordena o Laboratório do Futuro, ligado à reitoria. Criado no ano passado para tratar da IA na Unesp, já ofereceu um curso de formação para docentes, alunos e funcionários.
O laboratório deve ser ampliado e se tornar o Instituto de Inovação em Inteligência Artificial (I3A), para coordenar ações e pesquisas na universidade e articular debates e parcerias com a comunidade externa. “Há muitas questões em aberto na sociedade e precisamos achar um equilíbrio no uso dessas ferramentas”, diz. “A Unesp tem muitos cursos de licenciatura, forma professores. Como falar com os alunos sobre IA?”, questiona.
“Não há ferramentas de detecção de IA confiáveis, elas levam ao risco de acusações injustas. Devemos ter outras estratégias para o ensino, como reforçar os projetos, os debates, as questões orais feitas em sala de aula.”
Segundo processo disciplinar ainda em curso na universidade, Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso selecionou trabalhadores rurais, indicou laboratórios responsáveis pela coleta de amostras de urina de pessoas expostas a agrotóxicos e cuidou até do envio do material à Unicamp
Por Hélen Freitas/ Edição de Juliano Barros para a “Repórter Brasil”
Um processo disciplinar aberto para investigar a conduta de um professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revela como uma importante entidade do agronegócio do Mato Grosso, principal polo produtor de grãos do país, atuou na realização de estudos científicos sobre os impactos causados pelo próprio setor.
Documentos obtidos com exclusividade pela Repórter Brasil detalham como a Aprosoja-MT (Associação dos Produtores de Soja e Milho) participou diretamente de etapas cruciais de pesquisas sobre a exposição de trabalhadores rurais a dois agrotóxicos bastante populares: o glifosato e o paraquate.
Os estudos foram iniciados em 2016, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reavaliava a venda no mercado brasileiro dos dois herbicidas, amplamente usados no controle de plantas daninhas em lavouras. Na época, ambos figuravam entre os dez agrotóxicos mais utilizados no país.
Além de financiar o projeto, a Aprosoja-MT acompanhou de perto todas as etapas das pesquisas. Depoimentos e documentos consultados pela reportagem revelam como a associação selecionou trabalhadores rurais para o estudo, indicou laboratórios responsáveis pela coleta de amostras de urina em campo e cuidou até da logística para envio do material à Unicamp.
Em 2019, a Anvisa decidiu manter o glifosato em circulação, mas impôs mudanças na rotulagem e na classificação toxicológica, além de exigir novas medidas de segurança para o manuseio do herbicida.
Um ano antes, a Iarc (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer), órgão da Organização Mundial da Saúde, já havia classificado o glifosato como “provavelmente cancerígeno” para humanos. A substância também é associada ao desenvolvimento de doenças como depressão, Alzheimer e Parkinson.
Já o paraquate teve destino diferente. Em 2017, a Anvisa deu início ao processo de banimento do herbicida devido a riscos à saúde, incluindo possível relação com doenças neurodegenerativas, como o Parkinson. A decisão previa um período de transição, em que o agrotóxico ainda poderia ser utilizado, até a proibição definitivaa partir de 22 de setembro de 2020. Desde então, o registro do paraquate está cancelado no Brasil.
Foi durante o período de transição que associações do agronegócio organizaram umaforça-tarefa para tentar reverter a decisão da Anvisa, argumentando que novas pesquisas poderiam comprovar a segurança do paraquate.
O principal estudo utilizado para embasar esse movimento era justamente o conduzido na Unicamp. No entanto, após denúncia da Repórter Brasilsobre conflito de interesses, a pesquisa foi suspensa pelo Comitê de Ética da universidade, em julho de 2020.
Cinco anos depois, a Repórter Brasil enfim teve acesso aos documentos do processo disciplinar, ainda em curso na universidade, sobre a conduta do professor Paulo César Pires Rosa. Atual coordenador da graduação em Farmácia, ele participou das pesquisas orientando uma aluna sobre os impactos do glifosato e do paraquate na saúde de trabalhadores rurais.
Procurada, a assessoria de imprensa da Aprosoja-MT não se posicionou até o fechamento desta reportagem.
Antônio Galvan (à esq.), ex-presidente da Aprosoja-MT, foi investigado por envolvimento na tentativa de golpe em 8 janeiro de 2023 (Foto: Divulgação/Aprosoja)
Unicamp analisa se atuação de professor em instituto de pesquisa foi irregular
A rigor, o processo disciplinar tem como objetivo avaliar se o professor Paulo César Pires Rosa teria quebrado seu contrato de dedicação exclusiva à Unicamp, ao prestar serviços ao Inpes (Instituto de Pesquisas e Educação em Saúde), entidade criada por um docente aposentado da universidade. O Inpes foi o responsável por angariar os recursos para o estudo sobre a presença de paraquate no organismo de trabalhadores rurais do Mato Grosso.
Em 2023, após três anos de investigação, uma comissão da Unicamp concluiu que Rosa teria atuado sem autorização como diretor científico do Inpes, entre 2018 e 2020. Além de uma suspensão de 15 dias, o parecer do órgão recomendou a devolução aos cofres da universidade de parte do salário recebido pelo docente no período. Segundo cálculos feito pela reportagem, o valor pode chegar a R$ 200 mil.
Ainda de acordo com o relatório da comissão, a Faculdade de Ciências Farmacêuticas recebeu uma proposta de convênio para realização dos estudos, com financiamento da Aprosoja-MT e intermediação do Inpes. O projeto chegou a ser aprovado pela Comissão de Pesquisa e Extensão, mas acabou vetado pela Comissão de Governança. Por essa razão, nunca foi efetivamente formalizado. Mesmo assim, a pesquisa seguiu em frente, até ser barrada em julho de 2020, após matéria da Repórter Brasil.
Durante a apuração, Rosa também foi investigado por uma possível utilização indevida da infraestrutura da universidade para as pesquisas sobre os agrotóxicos. A comissão, no entanto, concluiu que não havia provas de uso irregular dos laboratórios, nem de pagamentos diretos da Aprosoja-MT ao professor.
As amostras de urina coletadas dos trabalhadores rurais do Mato Grosso permanecem lacradas e armazenadas nas dependências da universidade, de acordo com a assessoria de imprensa da Unicamp. “Não há nenhuma possibilidade de retomada da pesquisa”, informou por telefone um coordenador de comunicação da universidade.
Atualmente, o caso está sob análise do Conselho Universitário, instância máxima da instituição. Durantereunião do órgãorealizada em abril deste ano e disponível no Youtube, Fernanda Silvado, procuradora-chefe da Unicamp, disse haver “um claro conflito de interesses na pesquisa”. Em sua avaliação, a Aprosoja-MT era “financiadora e interessada na pesquisa, e ela também escolhia os trabalhadores, os laboratórios que faziam as análises clínicas das amostras”.
Ao longo do processo disciplinar, Rosa sempre negou quaisquer irregularidades. Por Whatsapp, o professor afirmou à reportagem que não era o responsável pelos estudos, embora tenha atuado para captar com entidades públicas de fomento à pesquisa cerca de R$ 67 mil em bolsas de mestrado e doutorado, dentre outros recursos, segundo relatório de atividades encaminhado por ele próprio à universidade.
“As pesquisas não foram sobre [sic] minha coordenação, era do prof Ângelo”, informou Rosa na troca de mensagens por Whatsapp, em referência a Ângelo Trapé, médico, ex-professor da Unicamp e fundador do Inpes — o instituto responsável pela intermediação da pesquisa sobre o paraquate, em 2018.
Pesquisa com trabalhadores rurais que aplicam paraquate na soja foi suspensa pela Unicamp após revelações de conflito de interesse (Foto: Pedro Biondi/Repórter Brasil)
Procurada, a assessoria de imprensa da reitoria da Unicamp afirmou que “o ex-professor Ângelo Trapé se aposentou em 2017 e, desde então, não possui vínculo formal com a universidade”. Trapé não respondeu ao pedido de entrevista.
Rosa inicialmente respondeu à reportagem por Whatsapp, mas depois preferiu não conceder entrevista. Seus advogados, no entanto, enviaram uma nota.
“Como o processo disciplinar ainda está em andamento, entendemos que não é o momento adequado para manifestação em matéria jornalística, a fim de não comprometer a imparcialidade dos julgadores e publicizar uma situação que está sendo devidamente apurada pelos órgãos competentes, a Universidade”, diz o texto. Os advogados ainda afirmaram que vão solicitar apuração pelos órgãos competentes sobre os documentos obtidos pela Repórter Brasil. “Entendemos que houve o vazamento de informações que são consideradas sigilosas, e protegidas pela Lei Geral de Proteção de Dados”, prossegue o texto. Leia a resposta na íntegra.
Aprosoja-MT escolheu laboratórios; amostras já haviam sido coletadas
Em um dos depoimentos que aparecem nos autos do processo acessado pela reportagem, uma estudante de doutorado, orientanda do professor Rosa, afirma que os trabalhadores rurais participantes da pesquisa teriam sido selecionados pela Aprosoja e pelo Inpes.
“Quando a depoente e o indiciado [Rosa] chegaram ao Mato Grosso, os laboratórios já estavam definidos e já havia amostras coletadas previamente”, diz um trecho do relatório final da comissão responsável pela apuração do caso.
Durante audiência no Comitê de Ética da Unicamp, Ângelo Trapé confirmou que a escolha dos trabalhadores partiu, de fato, da Aprosoja-MT. Segundo o fundador do Inpes, a associação dos produtores rurais também indicou fazendas e participou diretamente do recrutamento dos participantes.
“No projeto submetido ao CEP [Comitê de Ética em Pesquisa] da Pós-Graduação constava que seria o indiciado e a aluna quem selecionariam os participantes, mas que, posteriormente, constatou-se uma participação da Aprosoja nessa seleção”, diz um trecho da ata do depoimento de Trapé. Ele também relatou que o envio das análises à Unicamp foi feito pela própria associação. A conclusão do comitê foi a de que as práticas configuravam “conflito de interesses”.
Os autos do processo disciplinar também trazem a defesa de Rosa. “Embora a Aprosoja tenha participado da escolha dos trabalhadores e laboratórios envolvidos nos estudos, não houve sequer uma ingerência sobre o trabalho realizado, e isso não restou comprovado nos autos deste procedimento”, afirmou o professor em recurso apresentado à universidade.
Autos do processo disciplinar revelam que os trabalhadores rurais participantes da pesquisa teriam sido selecionados pela Aprosoja e pelo Inpes (Foto: Vitor Dutra Kaosnoff/Pixabay)
Segundo Rosa, os trabalhadores teriam sido indicados com base em critérios técnicos, como o contato efetivo com o herbicida paraquate. Já os laboratórios teriam sido selecionados levando em conta os locais onde as coletas foram realizadas.
Em fevereiro de 2018, no mestrado sobre impactos do glifosato defendido por uma aluna do professor Rosa, a estudante demonstra gratidão não só a seu orientador, mas também ao fundador do Inpes e à própria entidade do agronegócio.
“Agradeço à Associação dos Produtores Rurais de Soja e Milho (Aprosoja) do estado do Mato Grosso, pela parceria, apoio financeiro e contribuição na seleção e na realização das coletas das amostras dos voluntários incluídos neste estudo”, escreveu.
Em agosto de 2018, Rosa detalhou em umevento da Aprosojacomo se deu a participação da associação dos produtores. “A Aprosoja arcou com os custos de reagentes e materiais para analisar essas amostras. E o sindicato rural indicou os trabalhadores, segundo os nossos critérios de inclusão e exclusão”, relatou o professor.
Na época, o processo de reavaliação do glifosato pela Anvisa estava na reta final. Uma decisão judicial chegou a suspender o registro de produtos à base da substância no país. Dois meses depois, amedida foi derrubadae o uso do herbicida voltou a ser permitido.
Em nota, a Anvisa nega que pesquisas financiadas pela entidade ruralista tenham influenciado no resultado do processo. “Nenhum resultado de reavaliação de ingredientes ativos de agrotóxicos pode ser atribuído a um único estudo ou uma única fonte de dados. Trata-se de uma análise complexa e sistematizada”, afirma o texto. Leia a resposta completa.
O rio Camanducaia é um dos que formam a bacia PCJ (foto: Cassiana Carolina Montagner/Unicamp)
Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP
A bacia hidrográfica dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí – também chamada de “bacia PCJ” – estende-se por 76 municípios do Estado de São Paulo e atende a mais de 5,8 milhões de pessoas. Com uma área de drenagem superior a 14 mil quilômetros quadrados, suas águas são muito demandadas pela agricultura, pela indústria e pelo consumo da população. Em função disso, e no contexto da crise climática global, a bacia sofre atualmente com escassez hídrica. Mas esse não é o único nem o maior dos problemas: o grande conjunto de rios, riachos e córregos que compõem a bacia encontra-se também fortemente contaminado por efluentes agrícolas, industriais e domésticos.
As expressões visíveis dessa poluição já foram objeto de várias reportagens da mídia. Mas faltava um estudo em profundidade que identificasse as principais áreas contaminadas e a natureza dos contaminantes individuais e das misturas de contaminantes; que calculasse sua concentração, frequência e toxicidade; e que apontasse seus potenciais riscos para humanos e organismos aquáticos. Esse estudo foi feito agora por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e parceiros de outras instituições do país e do exterior.
O trabalho foi apoiado pela FAPESP por meio de três projetos (14/50951-4, 21/12484-9 e 20/14988-1). Artigo relatando os resultados foi publicado no periódico Chemosphere.
“Além de contaminantes tradicionais, já bastante conhecidos e sujeitos à legislação, encontramos também contaminantes emergentes, ainda não legislados, que apresentam toxicidade em condições de exposição crônica. Nossa pesquisa forneceu o primeiro retrato da ocorrência de compostos do grupo dos PFAS em rios do Estado de São Paulo”, diz Cassiana Carolina Montagner, professora do Instituto de Química da Unicamp e coordenadora do estudo.
Os PFAS são um grupo com milhares de compostos químicos sintéticos, perfluoroalquilados, utilizados pela indústria em uma grande variedade de produtos com o objetivo de torná-los antiaderentes, impermeáveis e resistentes a manchas. A utilização mais conhecida ocorre nos utensílios antiaderentes recobertos por teflon.
Informe da United States Environmental Protection Agency (Usepa, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) lista vários problemas de saúde humana comprovadamente associados à exposição a PFAS. Entre eles, o aumento do risco de alguns tipos de câncer, incluindo de rim, próstata e testículo. “A ocorrência de sete PFAS em diferentes rios do Estado de São Paulo foi relatada pela primeira vez em nosso estudo”, afirma Montagner.
Mas isso não é tudo. “Detectamos também muitos outros contaminantes, compondo um total de 45. Os agrotóxicos atrazina, carbendazim, tebutiurom e 2,4-D foram os que apresentaram a maior frequência de detecção, tendo sido encontrados em 100% das amostras coletadas. A mesma frequência, de 100%, foi detectada também para a cafeína e o bisfenol A [BPA], levados aos rios pelos esgotos domésticos”, acrescenta a pesquisadora.
Aqui é importante dizer que, embora bem tolerada pelos humanos, a cafeína pode ser bastante prejudicial para a biota aquática, como ressalta Montagner. Já o bisfenol A é uma substância química orgânica, o 2,2-bis(4-hidroxifenil) propano, utilizada na fabricação de polímeros e revestimentos de alto desempenho. Plásticos empregados em eletrodomésticos, computadores, brinquedos, talheres descartáveis, mamadeiras, revestimentos de latas de comida e bebida e resinas epóxi contêm BPA. Ele aparece também como componente do PVC maleável em papéis térmicos, como os extratos bancários e os comprovantes de pagamento liberados por caixas eletrônicos e máquinas para leitura de cartões.
Para avaliar a dimensão dos impactos causados por todos esses contaminantes, é preciso considerar que a região servida pela bacia PCJ é um importante polo agrícola e industrial e também a sede de cidades de grande porte. A área responde por 5,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Destaques são a produção de cana-de-açúcar no município de Piracicaba, a indústria têxtil no município de Americana e a grande concentração populacional no município de Campinas.
“Além de ser a principal fonte de água potável de toda a área, a bacia do PCJ fornece água para irrigação, que não recebe nenhum tratamento antes de ser utilizada nos campos agrícolas. Ao mesmo tempo, a região abriga muitas cidades pequenas que lançam esgoto quase in natura nos rios”, informa Montagner.
A pesquisadora enfatiza que contaminantes emergentes, como pesticidas, hormônios, produtos farmacêuticos, produtos químicos industriais e PFAS, estão sendo liberados na bacia do PCJ, sem que a atual legislação brasileira exija o seu monitoramento.
“Em nosso estudo, coletamos amostras em 15 pontos diferentes da bacia. E avaliamos os contaminantes presentes considerando três fatores: concentração, frequência e toxicidade. Além das altas frequências já mencionadas, obtivemos elevados quocientes de risco para os herbicidas diuron e atrazina, além do inseticida imidacloprido”, conta.
E conclui: “Além de velhos problemas de poluição não resolvidos, como a contaminação por coliformes fecais, por exemplo, há novos problemas agora causados pela presença dos contaminantes emergentes, que são produzidos para garantir a qualidade de vida moderna, mas chegam ao ambiente devido à má gestão dos resíduos sólidos e saneamento ineficiente. Nosso estudo sugere que é necessário estabelecer um programa de monitoramento abrangente para garantir a proteção da vida aquática e da saúde humana”.
Monitoramento
Procurada pela reportagem, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) informou em nota que, atualmente, são feitas medições trimestrais em 519 pontos de amostragem, dos quais 91 estão distribuídos na bacia PCJ. Além de parâmetros tradicionais, como matéria orgânica, nutrientes, coliformes e metais, a Cetesb faz medições de agrotóxicos e de alguns compostos emergentes, quantificados indiretamente por meio de dois ensaios: um que mede atividade estrogênica, para a detecção de compostos do tipo interferentes endócrinos (que mimetizam os hormônios femininos, como o BPA); e outro que mensura a atividade de glicorticoides, para a detecção de medicamentos da classe dos anti-inflamatórios.
O texto afirma ainda que os agrotóxicos (42 diferentes ativos) são medidos pela Cetesb desde 2017, em trechos de rios localizados em bacias com uso do solo predominantemente agrícola.
“Na bacia hidrográfica do PCJ, os agrotóxicos são monitorados desde 2018 no trecho de cabeceira do rio Corumbataí […], município de Analândia, com cerca de 65% da área da bacia destinada ao uso agrícola. Os agrotóxicos mais frequentemente detectados nesse trecho do rio Corumbataí no período de 2018 a 2022 foram o inseticida imidacloprida [bastante frequente também nas amostras analisadas na Unicamp] e o herbicida tebutiurom [este encontrado em 100% das amostras do estudo]. As concentrações de imidacloprida estiveram frequentemente acima do limite de ecotoxicidade crônico para invertebrados aquáticos da Usepa [Office of Pesticides Program, OPP], que é de 10 ng/L [nanograma por litro]. Nesse mesmo período, não foram detectados nesse trecho os agrotóxicos 2,4 D e atrazina [ambos detectados em 100% das amostras analisadas na Unicamp], que são contemplados com padrões de qualidade para a proteção da vida aquática pela Resolução Federal [Resolução Conama n.o357/2005].”
Por último, a Cetesb informa que não há valores legislados para a atividade estrogênica e os glicocorticoides. “Os resultados desses dois ensaios, obtidos ao longo dos últimos cinco anos na bacia hidrográfica do PCJ, indicaram valores, em ambos os ensaios, considerados baixos ou de baixa relevância, com base nos estudos já realizados e na experiência internacional.”
O artigo Uncovering the impact of agricultural activities and urbanization on rivers from the Piracicaba, Capivari, and Jundiaí basin in São Paulo, Brazil: A survey of pesticides, hormones, pharmaceuticals, industrial chemicals, and PFAS pode ser acessado em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0045653523022233?via%3Dihub.
Este estudo foi originalmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui!].
Mortandade de inseto despertou interesse de pesquisadora pelo tema
As abelhas são responsáveis pela polinização de 70% de todas as plantas do planeta
Por Liana Coll, Fotos: Felipe Bezerra, Edição de imagem: Paulo Cavalheri | Alex Calixto
Desde o início dos anos 2000, mais de 1 bilhão de abelhas morreram no Brasil. As causas estão relacionadas à expansão das monoculturas, que utilizam massivamente os agrotóxicos. Os impactos da mortandade são preocupantes, pois esses insetos polinizam cerca de 70% de todas as plantas do planeta e, também, facilitam a produção agrícola, sendo até mesmo indispensáveis para alguns cultivos, como o de mamão. Tendo em vista a importância das abelhas para o equilíbrio do ecossistema, a química e pesquisadora Ana Paula de Souza, do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp, analisou a presença dos agrotóxicos no mel e na cera, em sua tese de doutorado, defendida na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA).
Os produtos apícolas, segundo a pesquisadora, são bioindicadores da contaminação. Analisar diretamente as abelhas é difícil devido ao seu pequeno tamanho — elas pesam cerca de um décimo de grama.
Das 40 amostras de mel analisadas, seis apresentaram resíduos do herbicida glifosato acima do limite legal permitido. Nas ceras, foram detectados um ou mais agrotóxicos em 90% das amostras. O pior resultado nas ceras, diz Souza, está associado à reutilização deste produto. “As abelhas produzem a cera, que é, posteriormente, reciclada. De tempos em tempos, o apicultor a tira, monta o pente [parte da base da colmeia] e o coloca em novas colmeias. Se essa cera está contaminada, a contaminação vai progredindo ao longo dos anos e expondo as abelhas”, explica.
A pesquisa foi realizada com o mel e a cera das abelhas Apis mellifera L., conhecidas como abelhas africanizadas ou abelhas comuns. O orientador foi o professor da FEA Felix Reyes, com coorientação da coordenadora da Divisão de Química Analítica do CPQBA, Nadia Rodrigues.
A coordenadora da Divisão de Química Analítica do CPQBA e coorientadora da pesquisa, Nadia Rodrigues: falta de legislação específica apontando os limites toleráveis para os níveis de defensivos agrícolas nos alimentos infantis é preocupante
O interesse pelo tema surgiu frente à preocupação com a morte massiva das abelhas no Brasil, fenômeno que também ocorre na Europa e nos Estados Unidos, bem como pela relevância desses insetos na polinização de plantações. “Tem havido a mortandade de abelhas, e elas têm um papel muito importante para a produção agrícola. Precisamos entender o que está acontecendo, porque normalmente é em decorrência dos casos de contaminação por agrotóxicos”, afirma Rodrigues.
A pesquisadora destaca também que o mel é um alimento saudável, bastante utilizado na alimentação de crianças e na composição de xaropes. Diante disso, determinar se há contaminação torna-se, ainda, mais importante. O fato de não haver uma legislação específica apontando os limites toleráveis para os níveis de defensivos agrícolas nos alimentos infantis, segundo Rodrigues, é preocupante. “Todo mundo acha [o mel] um alimento super saudável, natural. Então, surgiu daí a intenção de realmente saber se há ou não contaminação.”
Já no caso das ceras, as pesquisadoras destacam que elas são muito utilizadas na indústria de cosméticos, como em batons e cremes faciais.
Análise buscou 160 agrotóxicos
Para detectar os herbicidas e inseticidas, foram utilizadas duas técnicas analíticas, a cromatografia líquida e a cromatografia gasosa, que são métodos de separação de substâncias, associadas à espectrometria de massa, que detecta as moléculas a partir do peso da sua massa e por fluorescência. As análises ocorreram no CPQBA, no Laboratório de Toxicologia de Alimentos da FEA e no Laboratório Europeu de Referência em Frutas e Hortaliças, da Universidade de Almería, Espanha, onde Souza realizou um estágio doutoral, sob a supervisão do professor Amadeo Fernández-Alba.
O estudo buscou 160 agrotóxicos, entre os quais o glifosato, nas ceras e no mel. “O glifosato é o herbicida mais utilizado, e doses pequenas têm efeitos nos neurônios e no comportamento das abelhas, conforme já apontam alguns artigos. O produto, que foi encontrado no mel acima de limites aceitáveis para a comercialização, pode afetar a memória associativa, fazendo com que os insetos saiam da colmeia e não consigam voltar, o que acarreta sua morte”, observa.
A autora da tese, Ana Paula de Souza: contaminação pode ocorrer por diversas vias
A contaminação, sugere Souza, pode ocorrer por diversas vias.“As abelhas provavelmente estão em campo e vão trazendo os agrotóxicos no corpo, nos pelinhos, que, dessa forma, vão sendo depositados nas colmeias. Também pode ocorrer a contaminação pelas correntes de vento ou pela água.” Esse processo tem como consequência a mortandade dos insetos e desequilíbrios no ecossistema, algo que tem sido documentado. Os prejuízos podem se estender também à produção de alimentos, dado o papel fundamental das abelhas na polinização.
Para evitar que os agrotóxicos permaneçam afetando a população de abelhas e a biodiversidade, a pesquisadora recomenda que as práticas agrícolas sejam submetidas a um controle mais adequado quanto ao uso desses produtos. Ela também se preocupa com a liberação, no mercado, de outros defensivos agrícolas, resultantes de novas combinações de substâncias. “Nos últimos anos, aumentaram muito as combinações e formulações novas, e não sabemos ainda bem quais serão as consequências.”
Este texto foi originalmente publicado pelo “Jornal da Unicamp” [Aqui!].
Webinário acontece nesta quinta, dia 10/3, com transmissão aberta via YouTube
Nesta quinta-feira, dia 10, às 18h30, será realizado o webinário “Desnaturalizando os Desastres: o caso de Petrópolis/RJ” . O objetivo é discutir a necessidade de desnaturalização dos desastres, com foco no caso recente ocorrido no município de Petrópolis (RJ), no último dia 15 de fevereiro, que fez mais de 230 vítimas e já está entre as maiores tragédias do País. De acordo com os organizadores, sob a perspectiva da desnaturalização de desastres, não há nada de “natural” nessas catástrofes – e isso se verifica pelo histórico desses eventos na cidade e seus nexos sócio-históricos.
Além da abertura às 18h30, estão previstas duas rodas de debates com pesquisadores, especialistas, ativistas da área e comunidade petropolitana. Confira a programação completa (Aqui!). A transmissão aberta acontece pelo canal da plataforma AirCentre no YouTube (Aqui!).
Na ocasião, será lançado o 45º volume da Revista Ciência & Trópico. A revista é resultado do “II Seminário de Desnaturalização de Desastres e Mobilização Comunitária: crises ampliadas, redes e resistências”. Em sua última edição, ocorrida de 4 a 8 de outubro de 2021, o seminário abordou temas ligados à desnaturalização de desastres sob diversas perspectivas – sempre com vistas à defesa da vida humana e da preservação ambiental – desde o aspecto da mídia, das mobilizações comunitárias, das questões de gênero e dos desafios da gestão.
O webinário e a revista são uma iniciativa conjunta de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (RJ); do Núcleo de Estudos e Pesquisas Sociais em Desastres (NEPED) do Departamento de Ciências Ambientais (DCAm) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR); do Núcleo de Pesquisas e Estudos Socioambientais (NESA) da Universidade Federal Fluminense (UFF – Campos); da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); da Pós-Graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social do Instituto de Psicologia – Programa EICOS, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e da Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ); e conta também com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
Mais informações podem ser acessadas neste documento: [Aqui!].
Em regiões de prevalência da variante delta do novo coronavírus, o intervalo entre doses de vacina de Covid-19 precisa ser mais curto do que doze semanas para que se tenha um controle efetivo da pandemia. É o que sugere modelo matemático desenvolvido pelo Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI) a partir de dados preliminares da eficácia da vacina para a variante delta. A ferramenta está descrita em artigo publicado na PNASna quinta (18).
A tecnologia, criada pelo grupo ModCovid-19 com pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Universidade de São Paulo (USP) projeta tempo seguro e ideal entre doses para controle da pandemia, a partir de dados de eficácia de vacinas. Ele mostra que vacinas com menos de 50% de eficácia na primeira dose precisam de um intervalo menor de aplicação do que vacinas com taxas de eficácia maiores. Alimentada com estudos prévios sobre eficácia dos imunizantes, a tecnologia indica quando é possível adiar as doses e quando se atinge o máximo possível de proteção.
“O próprio algoritmo decide quando é melhor aplicar a segunda dose, levando em conta a primeira, de maneira a controlar o mais rápido possível a pandemia”, explica Paulo José da Silva e Silva, co-autor do estudo. Por isso, a ferramenta, que está disponível on-line, pode ajudar nas tomadas de decisão durante o processo de imunização da população brasileira e de outros países.
Paulo lembra que quando o artigo foi escrito, em fevereiro desse ano, a principal pergunta era se valeria a pena adiar a segunda dose e qual a maneira mais segura de se fazer isso, em virtude da quantidade limitada de doses. Nesse sentido, o estudo teve como base a fabricante Astrazeneca e concluiu que o percentual de eficácia entre a primeira dose e segunda era muito pequeno e por isso, comprovadamente, valeria a pena esperar e vacinar mais gente com 1ª dose.
Agora, com o avanço da variante delta em algumas regiões do Brasil e do mundo, as estratégias de vacinação podem ser revistas a partir deste modelo. “Se você está em um lugar onde ela é a variante prevalente, a eficácia da primeira dose, pelas primeiras estimativas que estão saindo agora, é muito menor do que era com a alfa, então muda a relação da eficácia entre primeira e segunda dose. Essas análises confirmam que a decisão é delicada e que tem que ser feita de maneira sistemática”, observa Paulo.
Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].
“Criaremos na Unicamp um escritório permanente de integridade em pesquisa para proteger a sociedade e o pesquisador”, afirma Mario Saad
Mario “Fakenews” Saad está entrando em um segundo turno para se tornar reitor da Unicamp. O homem responsável por grandes fraudes em pesquisas e 18 retratações faz o papel de vítima de uma “cultura do cancelamento”. Saad também anuncia a criação de um “Escritório de Integridade de Pesquisa”, para legalizar a má conduta e punir quem denunciar.
Por Leonid Schneider para o “For Better Science”
Mario Jose Abdalla Saadé um mentiroso controverso e tóxico, um infame falsificador de dados que poluiu a pesquisa do diabetes com dados falsos por décadas, e mesmo assim continua sendo professor da Universidade Estadual de Campinas em SP (Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP). Ele foi desmascarado anos atrás por Paul S. Brookes e, no meio tempo, tem DEZOITO retratações. Saad e seus colegas brasileirosJosé Carvalheira, Cláudio De Souzae Lício Velloso conseguiram reciclar o mesmo western blot nada menos que 15 vezes (leia minhas reportagens anteriores aquie aqui). Saad tem quase 50 documentos sinalizados no Pubpeer, todos por manipulação ultrajante de dados.
Mas o professor Saad acredita que tudo não passa defakenews e tenta agora se eleger reitor da UNICAMP. Ele ficou em segundo lugar no primeiro turno das eleições (porque a maioria da administração votou nele) e agora vai para o segundo turno.
Saad conseguiu republicar seus artigos retratados em outras revistas menos exigentes e foi recentemente barrado em pelo menos 12 investigações de má conduta de pesquisa por sua universidade ridiculamente corrupta. Ele agora se autorretrata como uma vítima da “Cultura de Cancelamento” e continua a tagarelar sobre “fakenews”.
A seguir está minha versão copiada (trocadilho intencional), ilustrada pelo PubPeer, de seuanúncio de 4 de janeiro de 2021 sobre criar um escritório para integridade de pesquisa na UNICAMP, uma espécie de ‘Ministério da Verdade Orwelliano’. Sua tarefa seria defender fraudadores de pesquisa como Saad, ao mesmo tempo em que reprime impiedosamente os denunciantes, como o anúncio admite abertamente.
Depois disso, cito um e-mail paranoico que Saad enviou para toda a universidade em 18 de março de 2021, em que afirma ser um futuro vencedor do Prêmio Nobel, mais uma vez defende a fraude de pesquisa e ataca seus críticos.
Com o objetivo de oferecer suporte e subsídio às políticas de integridade em pesquisa e de acesso aberto, aprovadas recentemente pelo Conselho Universitário da Unicamp, o pré-candidato à Reitoria da Unicamp, Mario Saad, afirma que a sua gestão poderá incrementar essas políticas, criando um escritório permanente para esse setor, com funções educativas e pedagógicas. “A criação das políticas é o primeiro passo nesse sentido, mas a iniciativa ainda é tímida”, afirma.
Same western blot reused 15 times for utterly different experiments
Saad, que anos atrás foi levianamente acusado por manipulação de imagens em alguns de seus artigos, em função da indolência institucional, demorou cerca de quatro anos para provar que todas as acusações – e ele grifa TODAS as acusações – eram infundadas, conseguindo atestar, assim, a integridade ética de seu trabalho. “Senti na pele o que hoje chamam de Cultura do Cancelamento”, comenta o pesquisador, afirmando ser fundamental o respaldo perene e ágil da Unicamp aos membros de sua comunidade científica, tanto do ponto de vista acadêmico e jurídico, como também de comunicação.
Western blot, reused after digital manipulation for different experiments
“Depois de quase quatro anos lutando para provar a integridade e o profissionalismo do meu trabalho e da minha equipe, conseguindo republicar trabalhos injustamente retratados e retomar todos os financiamentos previamente aprovados, entendi que posso contribuir para que pesquisadores que enfrentam esse mesmo tipo de situação possam fazer isso com franqueza, dignidade e cabeça erguida”
Fake western blots, digitally fabricated for reuse.
Recentemente, Mario Saad foi listado pelo Journal Plos Biology entre os 100 mil cientistas mais influentes do mundo. Todavia, nem o impacto de seu nome na produção científica mundial, o eximiu anos antes de travar uma luta com periódicos científicos, isoladamente e sem respaldo institucional, quando falsas acusações sobre possíveis manipulações de imagens em suas publicações bateram à porta dessas revistas.
Fake western blots, digitally fabricated for reuse.
No contexto atual de combate às fakenews em ciência, Mario Saad reforça a necessidade de suporte à comunidade científica da Unicamp no que se refere à condução de processos e procedimentos que visam o acolhimento, a avaliação e o encaminhamento de casos suspeitos de má-conduta científica. Condução que deve tramitar com segurança, livre de pressões midiáticas e políticas e das que o próprio pesquisador denomina como “fábricas de fakenews”.
Western blot, reused after digital manipulation for different experiments
“É preciso resguardar o pesquisador que enfrenta processos dessa magnitude até que todas as investigações sejam concluídas. Não para esquivá-lo de suas responsabilidades, mas de preservá-lo de ataques precipitados à reputação acadêmica, algo que para nós, cientistas, é crucial”, explica Saad.
Mesmo enfrentando mais de uma dezena de comissões processantes ao longo dos últimos anos, Mario Saad continuou a publicar e a atuar como revisor e membro do conselho editorial de importantes periódicos científicos internacionais, dentre os quais, o American Journal of Physiology e o Metabolism.
Same blot, different antibodies, different samples, different papers.
“Muito cedo se aprende que na vida acadêmica é necessário ser resiliente. Passada a tormenta e restabelecida a justiça, sigo realizando com afinco o que aprendi a fazer: desenvolver ciência, cuidar dos meus pacientes, dar aulas e estudar”, comenta.
Entenda
Em meados de 2015, as revistas Diabetes, PlosOne, PlosBiology, CriticalCare e Diabetologia receberam denúncias anônimas sobre possíveis manipulações de imagens nos manuscritos do professor Mario Saad, docente da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. À época, Saad contava com cerca de 250 manuscritos publicados nesses e em outros periódicos.
Frankenstein blot faked in Photoshop and recycled in two papers
“Aparentemente, todos os meus artigos foram checados pelos denunciantes. Chegaram quase a criar um dossiê de erros de editoração dos meus artigos. Falsas acusações eram então enviadas ininterruptamente às revistas, alegando manipulação de imagens e solicitando que providências fossem tomadas”, explica Saad.
Em resposta ao questionamento das revistas, Mario Saad enviou os dados originais de seus estudos, atestando que as denúncias eram falsas e que pouquíssimos casos tratavam, na verdade, de erros de editoração eletrônica. Saad reconheceu, nesses casos, que os erros haviam ocorrido inadvertidamente e que, ainda assim, não interferiam no resultado de seus achados, bem como na interpretação final destes.
Western blot, reused after digital manipulation for different experiments
De forma anônima, as denúncias contra o professor Saad continuavam a chegar às revistas, pretendendo transformar os pequenos erros de editoração em manipulação intencional de imagens. Pressionadas, as revistas solicitaram que a Unicamp investigasse os estudos denunciados.
Atendendo a solicitação das revistas, a Unicamp instaurou a primeira de uma série de sindicâncias, a partir de 2016, inclusive, com a participação de pesquisadores externos à universidade e também do exterior.
Different experiments, different samples, same blots
“A conclusão também foi a de que os poucos erros apresentados nos artigos escritos por mim eram involuntários e não afetavam o resultado dos estudos, e que poderiam ser facilmente corrigidos por meio de erratas. Atestavam ainda que as denúncias eram completamente falsas”, reitera o pesquisador.
A despeito do parecer da Unicamp, a revista Diabetes não acatou a proposta de correção dos erros de editoração em dois manuscritos e, de maneira unilateral, acabou retratando não apenas dois, mas três artigos do professor Saad, desprezando a conclusão e o parecer das sindicâncias instauradas pela Universidade Estadual de Campinas.
A partir da decisão unilateral da Diabetes, as revistas PlosBiology, Diabetologia e Critical Care, que já haviam aceitado fazer as erratas, voltaram atrás e também decidiram retratar os artigos questionados.
“O texto dessas retratações e novas denúncias anônimas, sem provas, foram juntadas em novos processos pela Unicamp. Às vésperas da eleição para novo reitor, no início de 2017, recebi a notícia de que enfrentaria 12 novas Comissões Processantes no âmbito da universidade”, comenta Saad. .
Western blot, reused after digital manipulation for different experiments
Saad destaca que, até então, todas as denúncias já haviam sido investigadas em três sindicâncias internas, realizadas pela Faculdade de Ciências Médicas e pela própria Reitoria, em que concluíam que nunca houve má conduta em suas pesquisas e que as denúncias eram falsas.
Em 2018, todos os relatórios finais de todas as 12 CPPs concluíam que nunca houvera má fé ou má conduta científica por parte de Mario Saad em seus manuscritos. Tais pareceres foram encaminhados à Fapesp, que demorou mais um ano para analisá-los. No início de 2020, todos os financiamentos da Fundação, previamente aprovados, foram retomados. Os trabalhos retratados mais relevantes foram republicados. Além de inocentado em todas as investigações, os resultados originais de seu laboratório de pesquisa voltaram para a literatura científica.
Western blots, reused after digital manipulation for different experiments
“Creio que as conquistas de uma vida dedicada integralmente à Universidade e os resultados desse escrutínio completo em minha vida profissional – que demonstraram que minha atuação sempre foi honesta e baseada em trabalho duro, e que também comprovaram a validade e a relevância de minha produção cientifica – permitem claramente que eu retome plenitude minha vida acadêmica com plenitude, contribuindo com meu trabalho para o engrandecimento da Universidade e da ciência no Brasil”, conclui.
Western blot, reused after digital manipulation for different experiments
Há alguns anos, o professor Mario Saad foi levianamente acusado de más condutas científicas, todas esclarecidas e desmentidas a seu tempo. Agora, entretanto, o ataque volta à tona, desta vez, na forma vil de fake news covardes e eleitoreiras, em sites sensacionalistas, as quais, uma vez mais, repudiamos com veemência.
A única verdade sobre essas acusações é que elas permitiram diagnosticar com precisão a indolência institucional da Unicamp à época, que permitiu que essas falsidades prosperassem, a despeito de não haver quaisquer provas documentais.
Reiteramos que o Prof. Mário foi absolvido de todas as acusações que lhe foram feitas. A prova mais cabal disso está à mão de qualquer um que se dê ao trabalho de verificar, antes de atacar: os artigos sob suspeição foram republicados, e os seus dados repostos integralmente na literatura científica da área.
A despeito disso, talvez valha a pena esclarecer o que sejam os tais plágios ou más praticas científicas alegados: diziam respeito ao fato de que, após 15 anos da publicação original, cerca de 5% dos seus dados não podiam ser recuperados de um computador, por uma questão meramente tecnológica de acesso a eles. Nunca, em nenhuma ocasião, quaisquer resultados ou conclusões dos trabalhos foram postos em dúvida.
Western blot, reused after digital manipulation for different experiments
Talvez esse tempo de horror em que, dentro da própria Universidade, haja quem não tenha vergonha de utilizar expedientes torpes para ganhar eleição na mentira, sirva também de ocasião para que os docentes, servidores e alunos conheçam a luta solitária e vitoriosa que teve de empreender o Prof. Mario Saad em defesa da sua reputação como pesquisador brasileiro.
É nosso mais sincero desejo que isso nunca mais venha acontecer com algum docente desta Universidade.
A rigor, a Unicamp precisa se orgulhar de ter nos seus quadros um pesquisador como o Prof. Mario Saad, que apresenta 21.858 citações pelo Google Scholar. O seu reconhecimento internacional é manifesto, tanto que foi listado pela revista Plos Biology, ao lado de outros colegas da Unicamp, entre os pesquisadores mais influentes do mundo. Além disso, é um dos poucos cientistas mundiais, na área de Medicina, que são consultores selecionados pelo Comitê do Prêmio Nobel para indicação de futuros premiados. Todos que atuam na área acadêmica sabem que carreiras assim são construídas com muita dedicação, trabalho e integridade cientifica.
Apenas o fisiologismo mais baixo e eleitoreiro pode se ressentir diante de tão notáveis feitos acadêmicos.
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) gera um impacto social e econômico significativo nas regiões onde está instalada por meio de empregos qualificados e receita. Em 2019, o impacto total da universidade na região de Campinas foi de R$13,8 bilhões em termos de Produto Interno Bruto (PIB). Essa foi a conclusão de estudo realizado pela Coordenadoria Geral da Universidade (CGU), em parceria com os institutos de economia e de química da universidade. O relatório está antecipado à imprensa pela Bori e será apresentado na quarta (24).
Os dados evidenciaram que os desdobramentos socioeconômicos associados apenas às despesas da Unicamp com servidores, investimentos e compras de bens e serviços e ao consumo dos alunos geraram um impacto de R$ 6,4 bilhões – o equivalente a 9,8% de todo o PIB de Campinas em 2019.
As atividades da universidade resultaram na criação de 100 mil vagas de emprego geradas, de forma direta e indireta, pela instituição em 2019. O número leva em conta o impacto das 717 empresas-filhas da Unicamp atualmente ativas no mercado. Criadas por egressos, ex-alunos e ex-docentes da universidade, essas empresas geraram mais de 30 mil empregos diretos e R$8 bilhões em receita em 2019.
“Um dos grandes achados do estudo foi evidenciar a importância da universidade na geração de emprego e renda. É toda uma cadeia de renda/consumo e produção que se espraia pela sociedade e vai promovendo o desenvolvimento”, aponta Teresa Dib Zambon Atvars, uma das coordenadoras do estudo.
Matriz-insumo
O estudo estimou o impacto socioeconômico da atividade da Unicamp por meio da análise da chamada matriz insumo-produto, que identifica as conexões de uma atividade sobre os demais setores da economia. A partir da descrição da origem e do destino da produção de cada área, esse instrumento permite conhecer os fluxos de bens e serviços produzidos a partir de determinado setor da economia e medir, assim, os impactos das mudanças na economia.
“No caso da universidade, os professores, funcionários e suas famílias, assim como os alunos, adquirem bens e serviços: compram comida no mercado, alugam imóveis, buscam entretenimento etc. Isso leva a uma série de atividades em uma cadeia produtiva, pois outros setores econômicos são acionados – desde a produção do insumo até seu transporte e comércio. E esse complexo processo acaba gerando mais emprego e mais renda”, explica Mariano Laplane, economista da Unicamp, um dos autores do estudo.
A pesquisa também avaliou o “efeito-diploma” na região, ou seja, ao aumento das oportunidades de emprego e dos rendimentos de trabalhadores com ensino superior completo. “Os dados mostram claramente que os profissionais que possuem graduação têm uma renda maior do que aqueles que possuem apenas o ensino médio. E essa renda aumenta ainda mais com uma pós-graduação. Então o estudo também mostra que a universidade, entre muitas outras contribuições, colabora também para melhorar a renda e, consequentemente, a qualidade de vida”, diz Atvars.
Este texto foi produzido e originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].