Leonid Schneider destrincha “escritório da integridade em pesquisa” proposto em campanha eleitoral na UNICAMP

“Criaremos na Unicamp um escritório permanente de integridade em pesquisa para proteger a sociedade e o pesquisador”, afirma Mario Saad

Mario “Fakenews” Saad está entrando em um segundo turno para se tornar reitor  da Unicamp. O homem responsável por grandes fraudes em pesquisas e 18 retratações faz o papel de vítima de uma “cultura do cancelamento”. Saad também anuncia a criação de um “Escritório de Integridade de Pesquisa”, para legalizar a má conduta e punir quem denunciar.

Por Leonid Schneider para o “For Better Science”

Mario Jose Abdalla Saad é um mentiroso controverso e tóxico, um infame falsificador de dados que poluiu a pesquisa do diabetes com dados falsos por décadas, e mesmo assim continua sendo professor da Universidade Estadual de Campinas em SP (Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP). Ele foi desmascarado anos atrás por Paul S. Brookes e, no meio tempo, tem DEZOITO retratações. Saad e seus colegas brasileiros José CarvalheiraCláudio De Souza Lício Velloso conseguiram reciclar o mesmo western blot nada menos que 15 vezes (leia minhas reportagens anteriores aqui aqui). Saad tem quase 50 documentos sinalizados no Pubpeer, todos por manipulação ultrajante de dados.

Mas o professor Saad acredita que tudo não passa de fakenews e tenta agora se eleger reitor da UNICAMP. Ele ficou em segundo lugar no primeiro turno das eleições (porque a maioria da administração votou nele) e agora vai para o segundo turno.

Saad conseguiu republicar seus artigos retratados em outras revistas menos exigentes e foi recentemente barrado em pelo menos 12 investigações de má conduta de pesquisa por sua universidade ridiculamente corrupta. Ele agora se autorretrata como uma vítima da “Cultura de Cancelamento” e continua a tagarelar sobre “fakenews”.

A seguir está minha versão copiada (trocadilho intencional), ilustrada pelo PubPeer, de seu anúncio de 4 de janeiro de 2021 sobre criar um escritório para integridade de pesquisa na UNICAMP, uma espécie de ‘Ministério da Verdade Orwelliano’. Sua tarefa seria defender fraudadores de pesquisa como Saad, ao mesmo tempo em que reprime impiedosamente os denunciantes, como o anúncio admite abertamente.

Depois disso, cito um e-mail paranoico que Saad enviou para toda a universidade em 18 de março de 2021, em que afirma ser um futuro vencedor do Prêmio Nobel, mais uma vez defende a fraude de pesquisa e ataca seus críticos.

Image: Saad’s campaign page

“Criaremos na Unicamp um escritório permanente de integridade em pesquisa para proteger a sociedade e o pesquisador”, afirma Mario Saad

Por Mário e Zezzi 4 de janeiro de 2021

Com o objetivo de oferecer suporte e subsídio às políticas de integridade em pesquisa e de acesso aberto, aprovadas recentemente pelo Conselho Universitário da Unicamp, o pré-candidato à Reitoria da Unicamp, Mario Saad, afirma que a sua gestão poderá incrementar essas políticas, criando um escritório permanente para esse setor, com funções educativas e pedagógicas. “A criação das políticas é o primeiro passo nesse sentido, mas a iniciativa ainda é tímida”, afirma.

Same western blot reused 15 times for utterly different experiments

Saad, que anos atrás foi levianamente acusado por manipulação de imagens em alguns de seus artigos, em função da indolência institucional, demorou cerca de quatro anos para provar que todas as acusações – e ele grifa TODAS as acusações – eram infundadas, conseguindo atestar, assim, a integridade ética de seu trabalho. “Senti na pele o que hoje chamam de Cultura do Cancelamento”, comenta o pesquisador, afirmando ser fundamental o respaldo perene e ágil da Unicamp aos membros de sua comunidade científica, tanto do ponto de vista acadêmico e jurídico, como também de comunicação.

Western blot, reused after digital manipulation for different experiments

“Depois de quase quatro anos lutando para provar a integridade e o profissionalismo do meu trabalho e da minha equipe, conseguindo republicar trabalhos injustamente retratados e retomar todos os financiamentos previamente aprovados, entendi que posso contribuir para que pesquisadores que enfrentam esse mesmo tipo de situação possam fazer isso com franqueza, dignidade e cabeça erguida”

Fake western blots, digitally fabricated for reuse.

Recentemente, Mario Saad foi listado pelo Journal Plos Biology entre os 100 mil cientistas mais influentes do mundo. Todavia, nem o impacto de seu nome na produção científica mundial, o eximiu anos antes de travar uma luta com periódicos científicos, isoladamente e sem respaldo institucional, quando falsas acusações sobre possíveis manipulações de imagens em suas publicações bateram à porta dessas revistas.

Fake western blots, digitally fabricated for reuse.

No contexto atual de combate às fakenews em ciência, Mario Saad reforça a necessidade de suporte à comunidade científica da Unicamp no que se refere à condução de processos e procedimentos que visam o acolhimento, a avaliação e o encaminhamento de casos suspeitos de má-conduta científica. Condução que deve tramitar com segurança, livre de pressões midiáticas e políticas e das que o próprio pesquisador denomina como “fábricas de fakenews”.

Western blot, reused after digital manipulation for different experiments

“É preciso resguardar o pesquisador que enfrenta processos dessa magnitude até que todas as investigações sejam concluídas. Não para esquivá-lo de suas responsabilidades, mas de preservá-lo de ataques precipitados à reputação acadêmica, algo que para nós, cientistas, é crucial”, explica Saad.

Mesmo enfrentando mais de uma dezena de comissões processantes ao longo dos últimos anos, Mario Saad continuou a publicar e a atuar como revisor e membro do conselho editorial de importantes periódicos científicos internacionais, dentre os quais, o  American Journal of Physiology e o Metabolism.

Same blot, different antibodies, different samples, different papers.

“Muito cedo se aprende que na vida acadêmica é necessário ser resiliente. Passada a tormenta e restabelecida a justiça, sigo realizando com afinco o que aprendi a fazer: desenvolver ciência, cuidar dos meus pacientes, dar aulas e estudar”, comenta.

Entenda

Em meados de 2015, as revistas Diabetes, PlosOne, PlosBiology, CriticalCare e Diabetologia receberam denúncias anônimas sobre possíveis manipulações de imagens nos manuscritos do professor Mario Saad, docente da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. À época, Saad contava com cerca de 250 manuscritos publicados nesses e em outros periódicos.

Frankenstein blot faked in Photoshop and recycled in two papers

“Aparentemente, todos os meus artigos foram checados pelos denunciantes. Chegaram quase a criar um dossiê de erros de editoração dos meus artigos. Falsas acusações eram então enviadas ininterruptamente às revistas, alegando manipulação de imagens e solicitando que providências fossem tomadas”, explica Saad.

Em resposta ao questionamento das revistas, Mario Saad enviou os dados originais de seus estudos, atestando que as denúncias eram falsas e que pouquíssimos casos tratavam, na verdade, de erros de editoração eletrônica. Saad reconheceu, nesses casos, que os erros haviam ocorrido inadvertidamente e que, ainda assim, não interferiam no resultado de seus achados, bem como na interpretação final destes.

Western blot, reused after digital manipulation for different experiments

De forma anônima, as denúncias contra o professor Saad continuavam a chegar às revistas, pretendendo transformar os pequenos erros de editoração em manipulação intencional de imagens. Pressionadas, as revistas solicitaram que a Unicamp investigasse os estudos denunciados.

Atendendo a solicitação das revistas, a Unicamp instaurou a primeira de uma série de sindicâncias, a partir de 2016, inclusive, com a participação de pesquisadores externos à universidade e também do exterior.

Different experiments, different samples, same blots

“A conclusão também foi a de que os poucos erros apresentados nos artigos escritos por mim eram involuntários e não afetavam o resultado dos estudos, e que poderiam ser facilmente corrigidos por meio de erratas. Atestavam ainda que as denúncias eram completamente falsas”, reitera o pesquisador.

A despeito do parecer da Unicamp, a revista Diabetes não acatou a proposta de correção dos erros de editoração em dois manuscritos e, de maneira unilateral, acabou retratando não apenas dois, mas três artigos do professor Saad, desprezando a conclusão e o parecer das sindicâncias instauradas pela Universidade Estadual de Campinas.

Cloned gel bands in a fake gel. Pereira-da-Silva et al Endocrinology 2003

A partir da decisão unilateral da Diabetes, as revistas PlosBiology, Diabetologia e Critical Care, que já haviam aceitado fazer as erratas, voltaram atrás e também decidiram retratar os artigos questionados.

“O texto dessas retratações e novas denúncias anônimas, sem provas, foram juntadas em novos processos pela Unicamp. Às vésperas da eleição para novo reitor, no início de 2017, recebi a notícia de que enfrentaria 12 novas Comissões Processantes no âmbito da universidade”, comenta Saad. .

Western blot, reused after digital manipulation for different experiments

Saad destaca que, até então, todas as denúncias já haviam sido investigadas em três sindicâncias internas, realizadas pela Faculdade de Ciências Médicas e pela própria Reitoria, em que concluíam que nunca houve má conduta em suas pesquisas e que as denúncias eram falsas.

Em 2018, todos os relatórios finais de todas as 12 CPPs concluíam que nunca houvera má fé ou má conduta científica por parte de Mario Saad em seus manuscritos. Tais pareceres foram encaminhados à Fapesp, que demorou mais um ano para analisá-los. No início de 2020, todos os financiamentos da Fundação, previamente aprovados, foram retomados. Os trabalhos retratados mais relevantes foram republicados. Além de inocentado em todas as investigações, os resultados originais de seu laboratório de pesquisa voltaram para a literatura científica.

Western blots, reused after digital manipulation for different experiments

“Creio que as conquistas de uma vida dedicada integralmente à Universidade e os resultados desse escrutínio completo em minha vida profissional – que demonstraram que minha atuação sempre foi honesta e baseada em trabalho duro, e que também comprovaram a validade e a relevância de minha produção cientifica – permitem claramente que eu retome plenitude minha vida acadêmica com plenitude, contribuindo com meu trabalho para o engrandecimento da Universidade e da ciência no Brasil”, conclui.

Western blot, reused after digital manipulation for different experiments

There was also this email sent by “Mario Saad and Marco Zezzi  <divulga@marioezezzi.com.br>” on 18 March 2021:


Falsidade Eleitoreira

Fake western blots made in Photoshop from recycled gel bands. Rocha et al Clin Cancer Res 2011

Há alguns anos, o professor Mario Saad foi levianamente acusado de más condutas científicas, todas esclarecidas e desmentidas a seu tempo. Agora, entretanto, o ataque volta à tona, desta vez, na forma vil de fake news covardes e eleitoreiras, em sites sensacionalistas, as quais, uma vez mais, repudiamos com veemência.

A única verdade sobre essas acusações é que elas permitiram diagnosticar com precisão a indolência institucional da Unicamp à época, que permitiu que essas falsidades prosperassem, a despeito de não haver quaisquer provas documentais.

Western blot, reused after digital manipulation for different experiments Girasol et al PLOS One 2009

Reiteramos que o Prof. Mário foi absolvido de todas as acusações que lhe foram feitas. A prova mais cabal disso está à mão de qualquer um que se dê ao trabalho de verificar, antes de atacar: os artigos sob suspeição foram republicados, e os seus dados repostos integralmente na literatura científica da área.

A despeito disso, talvez valha a pena esclarecer o que sejam os tais plágios ou más praticas científicas alegados: diziam respeito ao fato de que, após 15 anos da publicação original, cerca de 5% dos seus dados não podiam ser recuperados de um computador, por uma questão meramente tecnológica de acesso a eles. Nunca, em nenhuma ocasião, quaisquer resultados ou conclusões dos trabalhos foram postos em dúvida.

Western blot, reused after digital manipulation for different experiments

Talvez esse tempo de horror em que, dentro da própria Universidade, haja quem não tenha vergonha de utilizar expedientes torpes para ganhar eleição na mentira, sirva também de ocasião para que os docentes, servidores e alunos conheçam a luta solitária e vitoriosa que teve de empreender o Prof. Mario Saad em defesa da sua reputação como pesquisador brasileiro.

É nosso mais sincero desejo que isso nunca mais venha acontecer com algum docente desta Universidade.

A rigor, a Unicamp precisa se orgulhar de ter nos seus quadros um pesquisador como o Prof. Mario Saad, que apresenta 21.858 citações pelo Google Scholar. O seu reconhecimento internacional é manifesto, tanto que foi listado pela revista Plos Biology, ao lado de outros colegas da Unicamp, entre os pesquisadores mais influentes do mundo. Além disso, é um dos poucos cientistas mundiais, na área de Medicina, que são consultores selecionados pelo Comitê do Prêmio Nobel para indicação de futuros premiados. Todos que atuam na área acadêmica sabem que carreiras assim são construídas com muita dedicação, trabalho e integridade cientifica.

Apenas o fisiologismo mais baixo e eleitoreiro pode se ressentir diante de tão notáveis feitos acadêmicos.

Western blot, reused after digital manipulation for different experiments Calisto et al PLOS One 2010

Apoiadores do Prof. Mario Saad. 
Leia também
 
Um ensaio clínico sobre fake news, por Mario Saad: https://www.fcm.unicamp.br/fcm/relacoes-publicas/saladeimprensa/um-ensaio-clinico-sobre-fake-news-por-mario-saad

Fake western blots, made in Photoshop from recycled gel bands Weissmann et al Diabetes 2014

“Criaremos na Unicamp, um escritório permanente de integridade em pesquisa para proteger a sociedade e o pesquisador”, afirma Mario Saad:https://marioezezzi.com.br/criaremos-na-unicamp-um-escritorio-permanente-de-integridade-em-pesquisa-para-proteger-a-sociedade-e-o-pesquisador-afirma-mario-saad/
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fecho

Este texto foi originalmente publicado no blog “For Better Science” [Aqui!].

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